Minha mãe morreu há pouco mais de seis meses. Eu morava com ela, mas ela vinha lutando contra um diagnóstico de câncer havia alguns anos. Infelizmente, a metástase foi inevitável, e ela morreu depois de um sofrimento prolongado. O funeral foi bonito. Amigos da minha mãe vieram de várias partes do país para se despedir pela última vez.
Quando acabou, voltei para casa — um apartamento no décimo andar que eu alugava com ela, mas que ela nunca usou de fato, já que passou os últimos meses no hospital. Ao entrar, havia um silêncio sepulcral; sobre a mesa de jantar, um vaso com algumas flores que eu havia comprado meses antes, quando os médicos disseram que ela estava melhorando e que voltaria para casa a qualquer dia.
Deixei a pasta em cima da mesa e caminhei tateando até o quarto no escuro. Não queria acender as luzes porque o cansaço estava destruindo minhas pernas. Senti um vazio horrível no peito, como se eu tivesse chorado por meses inteiros — e, na verdade, chorei. Embora, depois de ver tanto sofrimento nela, no fundo do coração eu desejasse que ela finalmente encontrasse descanso.
Os dias seguintes foram iguais aos de sempre. Eu acordava, tomava um café rápido e corria para o metrô para ir trabalhar. Meu escritório ficava no canto mais afastado do prédio, bem ao lado dos servidores da empresa. Quase ninguém me cumprimentava; havia dias em que eu nem aparecia e ninguém percebia minha ausência. Mas eu gostava de ir ao escritório. Não queria ficar em casa. Todo dia em casa parecia que a mamãe ia entrar pela porta a qualquer momento.
As únicas vezes que eu falava com alguém no trabalho eram quando havia problema nos servidores. Nessas ocasiões, Mark, do financeiro, ou Jane, do RH, apareciam com uma simpatia exagerada para que eu resolvesse o problema deles. Chegou um ponto em que eu passei tanto tempo sem falar com ninguém que cheguei a criar de propósito uma falha na conta de um usuário, só para ter com quem conversar.
E assim os dias foram passando sem eu falar com ninguém, a ponto de eu nem me olhar mais no espelho antes de sair de casa. Até que, num dia qualquer voltando para casa, descobri que o elevador do prédio tinha quebrado. Havia um cartaz branco com detalhes azuis avisando os moradores para usarem as escadas enquanto resolviam o problema técnico. Eram muitos andares; agradeci por não ter ido ao mercado naquele dia, porque teria sido um sofrimento.
Comecei a subir. Minhas pernas doíam enquanto eu subia as escadas vazias quase às 23h. De repente, quando eu estava chegando ao sétimo andar, ouvi um choro. Parecia de bebê. No começo ignorei, mas o som ficou mais claro e mais alto — era um miado. Mas não era um miado qualquer; era um filhote de gato chorando desesperado.
Abri a porta que separa a escada do corredor e vi as várias portas se estendendo até o final, tentando identificar de onde vinha o som. Vi uma poça do que parecia ser água no fundo do corredor. Caminhei devagar, observando as luzes com sensor de movimento acendendo uma a uma. Quando faltavam poucos passos, a luz acendeu e a imagem ficou nítida: a poça era de sangue, e o miado vinha daquela porta. Me aproximei e tentei abrir, mas não consegui.
Corri imediatamente escada abaixo até a portaria e avisei o único segurança de plantão. Subimos juntos e, depois de ele conseguir autorização do chefe, usou uma chave mestra de segurança. A cena era horrível. Havia uma mulher com a perna mutilada caída numa poça de sangue. E em cima da mulher, um filhotinho de gato preto, de poucos meses, miando desesperado.
A pobre criatura veio na minha direção e começou a ronronar enquanto se esfregava nas minhas canelas. Me abaixei para pegá-lo, e ele me olhou com uma ternura que derreteu meu coração. Segurei-o junto ao peito, e ele se esfregou no meu pescoço, alternando ronrons e miados que pareciam de prazer.
A polícia chegou depois de umas duas horas. Levei o gato para o meu apartamento; uma criaturinha tão linda não tinha que ficar num lugar tão horrível. Um policial grandalhão bateu na minha porta por volta das 3 da manhã. Contei tudo o que tinha acontecido, e ele perguntou se eu conhecia a mulher. Neguei qualquer relação; eu nem sabia o nome dela.
O policial perguntou sobre o gato. Expliquei que parecia ser da mulher assassinada, mas que eu não queria deixá-lo lá por causa da cena traumática. Ele disse que ia consultar a equipe para ver se levavam o gato ou se eu podia ficar com ele. Naquele momento, o gato se arrepiou todo para o policial e fez aquela cara de raiva típica de gato, com o “ssssss” característico.
Tentei dormir, mas o gato se enfiou bem em cima do meu rosto, dificultando a respiração. Mas o bichinho era tão lindo que eu simplesmente não conseguia ficar bravo com ele. De manhã cedo, fui trabalhar. Tentei dar água para ele, porque eu não tinha comida em casa para oferecer ao filhote.
O dia no escritório foi longo como qualquer outro, mas eu estava particularmente sem tarefas, então decidi deixar um bilhete na mesa com meu número de telefone — “Me liga se precisar de algo urgente” —, peguei minhas coisas e saí. Bem em frente ao meu escritório ficava uma pet shop. Ao entrar, um senhor mais velho, de cabelo grisalho e bigode, me recebeu com muita animação.
“Em que posso ajudar?”
“Obrigado. Olha, o negócio é o seguinte: tenho um filhote de gato, de poucos meses, lá em casa por enquanto. Queria saber qual é a coisa mais importante que eu devo ter enquanto estiver com ele.”
“Claro”, ele disse com um sorriso largo. “O essencial e mais importante são três coisas: uma caminha, uma caixa de areia e, claro, comida.”
Olhei os produtos e tentei comprar uma caminha que combinasse com a cor do meu sofá — afinal, não queria que ficasse destoando. Comprei também a caixa de areia, um saco de areia sem perfume, um saco de ração para filhote, além de potes para água e comida. Comprei ainda um brinquedinho de ratinho; não queria que o filhote destruísse coisas da casa, mas também não queria que ele ficasse entediado.
Como vim com muitas sacolas, decidi pegar um táxi e comecei a pensar em tudo que ainda faltava: um arranhador, uma caixa de transporte. Também faltava algo extremamente importante: uma coleira com plaquinha para ele não se perder, e, claro, um nome. Como eu ia chamar ele?
Normalmente eu ficaria calado a viagem inteira, mas o motorista, vendo eu tão carregado, falou:
“Então, bichinho novo? Gato, né?”
“Sim, senhor. É um filhote que eu encontrei…” — não conseguia descrever a cena sem estremecer — “Bom, encontrei na rua.”
“Gatos são assim. Eles é que adotam a gente. Qual o nome dele?”
“Honestamente, ainda não pensei.”
“Você podia chamar ele de Rasputin. É um nome que minha avó sempre usava pros gatos dela. Geralmente pros pretos.”
Conversamos mais um pouco e chegamos rápido no prédio. Na hora de me despedir, agradeci pela conversa e comentei que realmente ia chamar o filhote de Rasputin. Quando entrei no prédio, era o mesmo segurança que tinha me acompanhado no dia da cena horrível.
“Ei, já soube de alguma coisa do caso? Já sabem quem foi?”
“Pelo que ouvi, ainda nada. A polícia veio várias vezes e levou evidências, mas parece que ainda não tem suspeito.”
Peguei o elevador, agradecendo que estava funcionando de novo porque eu estava carregado. Ao chegar no meu andar, já dava para ouvir o miado do corredor. Aquele som encheu meu peito de calor. Alguém estava me esperando em casa. Abri a porta do apartamento e o gato se jogou em cima de mim. Ele ronronava loucamente, e eu larguei as coisas para abraçá-lo. Senti uma felicidade intoxicante.
“Rasputin”, eu disse, e ele imediatamente me olhou como se reconhecesse um velho amigo, mas logo voltou à expressão de gato doce de sempre. “Olha o que eu trouxe pra você”, e mostrei todas as coisas.
“Você deve estar morrendo de fome, então vou te servir comida.”
Arrumei as coisas e coloquei um pouco da ração que o homem da pet shop tinha me recomendado. Coloquei a comida na mesa de jantar porque não tinha outro lugar adequado. Ele se aproximou curioso, mas apenas cheirou com indiferença. Acho que você não está com tanta fome assim, tentei convencer ele a comer, mas ele só ficou irritado e saiu correndo. Erro meu, comprei a ração errada. Seria bom saber o que a antiga dona dava pra ele.
Comi um sanduíche e fui dormir, chamando Rasputin para vir comigo, mas ele nem olhou pra mim. Ficou lá fora, olhando pela janela com indiferença. Parecia um soco no peito, mas tentei dormir. A essa hora eu não ia encontrar a ração certa mesmo.
Ao acordar, Rasputin estava bem ao meu lado, dormindo encolhido. Tentei levantar sem acordá-lo; ia procurar comida. Antes de sair, senti um cheiro horrível, de carne podre, e percebi que não tinha limpado a caixa de areia. Peguei um saco na cozinha e fui até lá. Tinha um monte de quase meio quilo, coberto de areia. Isso é demais pra um gato tão pequeno. Embrulhei tudo no saco e levei pro lixo do corredor.
Andei vários quarteirões procurando ração para filhote. Tem marca demais. Comprei seis pacotinhos pequenos — dois das mais caras, dois intermediárias e dois baratas. Comprei também várias latas, umas quatro. Queria fazer um teste em grande escala; alguma delas tinha que agradar. Voltei rápido pra casa e coloquei a comida em copinhos plásticos que eu tinha comprado pra isso.
Coloquei quase dez comidas diferentes na frente do meu gato e deixei ele lá pra ver qual ele ia escolher. Ele tinha que comer alguma coisa; fazia quase dois dias sem comida, ia adoecer. Rasputin se aproximou e cheirou cada um dos potes, mas ignorou todos. Nem experimentou. Foi pra minha cama, se encolheu e deitou. Nenhuma comida interessou. Meu desespero era total. Não sei o que dar pra ele. Tem que ter alguma coisa que ele goste.
Decidi ir no açougue atrás de algo diferente. Comprei pedaços de carne de todos os animais que encontrei: porco, frango, boi, coelho, peixe, até um pedaço de cervo que o açougueiro me ofereceu quando viu que eu estava comprando coisas diferentes. Cheguei em casa e fiz a mesma rotina. Ofereci todas as comidas, mas nada funcionou.
“Eu desisto”, eu disse. A fome vai fazer ele comer. Terminei minhas tarefas do dia e segui a rotina, mas o filhote miava intensamente.
“O que você quer? Você não gosta de nada que eu te dou. Não sei o que te dar.”
O gato subiu nas minhas pernas e começou a morder minha perna de leve.
“Você quer me comer? Haha, é isso que você quer?” Coloquei ele no chão, e ele se afastou.
No dia seguinte, arrumei de novo as amostras de comida, tentando manter tudo fresco. Minha sala de jantar virou uma vitrine de comida. Tinha quase vinte copos com comidas diferentes pra ver se alguma funcionava. Até coloquei cenoura e legumes, pra ver se o bichinho respondia a alguma coisa.
Fui trabalhar, e ao voltar, ele ainda não tinha tocado em nada e estava miando cada vez mais desesperado. Eu já tinha tentado dar quase toda comida possível, até perguntei pro dono da pet shop, que recomendou levar no veterinário porque podia ser alguma doença.
“Se você não comer nada hoje, Rasputin, vamos ter que ir no veterinário.”
O gato se arrepiou de raiva, igualzinho como fez com o policial, e me deu aquela cara de “ssssss” de gato bravo.
“Que gênio.”
Comecei a picar legumes pro meu jantar, mas exatamente quando eu estava cortando a cebola, o filhote correu na minha direção e me cutucou. Foi bem de leve, mas suficiente pra faca escorregar um pouco e cortar minha mão. Na hora fiquei irritado porque os legumes estavam ficando manchados de sangue, então tentei lavar tudo imediatamente, mas o gato pulou na mesa da cozinha, se aproximou e lambeu meu dedo. Que fofo, ele está preocupado comigo, pensei, e fiz carinho nele. O gato voltou a ronronar, e eu senti de novo a felicidade que tinha me invadido no primeiro dia.
“Bom, pelo menos você está comendo alguma coisa, haha.”
Quando cheguei no quarto, desinfetei o corte com álcool porque, afinal, era um gato, e o ferimento podia infeccionar. Dormimos agarradinhos, e eu senti companhia, calor e felicidade.
No dia seguinte, fiquei pensando no que tinha acontecido e pensei que talvez o que o filhote queria era presa fresca. Entendo que alguns são caçadores e preferem só comida fresca. Uma ideia meio absurda, mas possível, me ocorreu: eu podia trazer um ratinho vivo pro filhote comer, um hamster, ou até um passarinho pequeno.
Decidi fazer isso. Fui numa pet shop e comprei um ratinho pequeno. Queria que fosse o menor possível. Coloquei numa caixa onde eu não pudesse ver; não queria me apegar. Era só comida pro Rasputin.
Quando cheguei em casa, mostrei o animal pra ele. O gato cheirou e depois se afastou com indiferença. Fechei a caixa e tentei pensar em como chamar a atenção do Rasputin. Tentei colocar perto dele. Tentei fechar nós dois num cômodo e fazer o rato correr, mas nada funcionou. Então, quase às quatro da tarde, no meio do desespero de não saber como responder à fome dele, peguei o rato e, com um golpe só, cortei a cabeça dele.
A experiência foi arrepiante, mas de algum jeito libertadora. Peguei o sangue e coloquei num prato. Ofereci pro Rasputin. Ele se aproximou, cheirou um pouco, deu umas lambidas e se afastou. Bom, é alguma coisa, pensei. Lembrei que não tinha terminado minhas tarefas do dia e corri pra concluir o máximo que dava antes do prazo. Enviou e fiquei pensando em como responder à fome do Rasputin.
As coisas não pareciam melhorar. Meu pobre animal estava só osso e pele, e era tudo culpa minha. Sou um inútil; nem um bicho de estimação eu consigo cuidar. Estava na cozinha de novo, tentando preparar algo pra comer, e lembrei da cena com a faca, o rato e o sangue. Pensei olhando pra lâmina. Coloquei meu dedo indicador bem na ponta e, quase sem pensar, dei uma estocada. No começo o dedo parecia intacto, mas logo uma gota vermelha começou a crescer. Procurei o prato do Rasputin e deixei cair umas sete gotas de sangue nele.
Naquele instante, Rasputin pulou no prato e lambeu como se fosse uma iguaria, depois procurou meu dedo e lambeu também. O gato ronronou, se esfregou nas minhas pernas e subiu em mim. Era um animal feliz de novo. Eu também me senti feliz, e a dor no dedo sumiu por causa do amor imenso que eu estava recebendo do lindo Rasputin.
Nos dias seguintes, fui numa farmácia e perguntei ao atendente qual era a melhor forma de extrair pequenas quantidades de sangue. Perguntei também quanto sangue eu podia tirar sem me prejudicar. Ele me deu uma seringa e algumas instruções. Disse que pra teste de glicose só precisava de uma gota, e que eu tinha que ter muito cuidado pra desinfetar tudo.
Cheguei em casa feliz. Sentei no sofá, tirei todos os instrumentos, tirei uma seringa cheia de sangue e servi no prato. Naquele momento, Rasputin começou a lamber o prato com uma felicidade incrível. Tentei tocar nele, mas ele reagiu com raiva. Entendo, entendo, que gênio. Depois de beber o sangue, ronronou um pouco e se esfregou em mim, mas depois se afastou.
Esse ato foi virando rotina aos poucos. Eu tirava um pouco de sangue, dava pra ele, ele comia, e eu seguia meu dia. Tive que investir em suplementos e mais comida porque eu estava perdendo energia. Tinha dias que eu ficava tonto. Mas o amor do Rasputin fazia tudo valer a pena. Depois de umas duas semanas, tudo estava lindo. Ele estava feliz, eu estava feliz, e tudo ia maravilhosamente bem. Mas quando cheguei no prédio, a polícia estava lá. Disseram que precisavam buscar informações sobre o crime.
Pediram pra revistar meu apartamento, e ao verem o Rasputin, que estava gordinho, eu disse: “Olha, esse é o meu ‘felino maior’.” O policial viu as seringas na cozinha e perguntou por que eu tinha aquilo. Fiquei um nó de nervos e falei a primeira coisa que veio na cabeça.
“É porque, porque… é porque eu tenho… problema de açúcar.”
“Pra teste de glicose é só gotas.”
“É, o negócio é que… o negócio é que… meu aparelho não funciona direito, então tenho que usar mais sangue.”
“Entendo”, disse o policial. “Deixa eu ver. Meu sobrinho é diabético; posso te ajudar a ajustar.”
“Não, não, eu guardei ele, e pra que incomodar? Além do mais, vocês têm que encontrar um jaguar ou um tigre, não é?”
O policial foi embora, e eu corri pra cozinha pegar a seringa. Eu estava atrasado uma hora na alimentação do Rasputin. Tirei quase o dobro do sangue da primeira vez e fiquei tonto, mas dessa vez o Rasputin respondeu com a mesma indiferença fria de antes. Isso me destruiu. Fiquei pensando nisso. Não sei o que fazer. Tentei tirar mais, mas o animal não reagia.
No meio do desespero de não saber como responder e da frieza do Rasputin, procurei na cozinha a faca mais afiada. Tentei achar a parte mais carnuda da minha perna e dei um corte só. Foram só alguns centímetros de carne, mas meu lindo Rasputin respondeu com uma felicidade enorme e devorou tudo com avidez.
Passaram três semanas, e eu tive que continuar cortando com cuidado, desinfetando e selando as bordas pra não sangrar até a morte. É um trabalho meticuloso, quase de relojoaria: um equilíbrio. Rasputin estava radiante. Seu pelo preto brilhava como piche sob a luz da sala de jantar, e seus ronrons eram profundos, satisfeitos — o motor do meu mundo. Quando ele olhava a bandagem fresca, seus olhos dourados se dilatavam com um interesse que me fazia sorrir.
Mas numa noite, a fome do Rasputin ficou insuportável. Seus miados já não eram reclamações, mas um rosnado baixo e gutural que não vinha de um animal pequeno. Quando acendi a luz, a sombra dele na parede não era mais a de um filhote, mas a de uma criatura encurvada, com uma corcova e membros desproporcionalmente longos. Seus olhos, fixos em mim, brilhavam com uma inteligência antiga e faminta. “Mais”, sussurrou uma voz — não um miado, mas um som rouco que saía da garganta dele.
Foi quando eu entendi que não estava alimentando um bicho de estimação, mas um parasita que tinha adotado a forma mais conveniente pra me prender. Antes que eu pudesse reagir, Rasputin pulou da mesa. Não com a agilidade de um gato, mas com o movimento desconjuntado e rápido de um inseto. Suas pernas, agora longas e finas como hastes pretas, me prenderam no chão. Senti o hálito dele, que cheirava a sangue velho e terra de cemitério, no meu rosto. “A coxa agora”, sussurrou aquela voz rasgada, enquanto uma das garras se apoiava, fria como metal, na bandagem da minha perna.
Eu não conseguia acreditar. Meu lindo gato era na verdade um monstro. Não pode ser. Isso tem que ser mentira. Mas ele se jogou em cima de mim e lambeu meu pescoço; senti que ia me morder naquele instante, mas achei a faca por perto e cravei no flanco da criatura. A entidade soltou um grito de dor e pulou pra trás. Naquele momento, ela tentou voltar a ser gato, fazendo olhos cheios de sofrimento, buscando meu remorso. Mas a transformação falhou; piscava como uma televisão antiga entre a imagem horrível do monstro e a do lindo filhote.
Senti como se minha vida tivesse sido destruída. A única coisa bonita era na verdade um monstro. Não pode ser. Esse monstro deve ter comido meu lindo Rasputin. Ou talvez só esteja imitando ele; viu que eu amo meu gato e tomou a forma dele pra me enganar. Desci as escadas correndo o mais rápido que pude, com os olhos cheios de lágrimas, tropeçando por causa do estrago na perna.
Estou escrevendo isso de uma sala fria de interrogatório na delegacia. O cheiro de café requentado e desinfetante não consegue mascarar o fedor doce e enjoativo da minha própria carne infectada. Os paramédicos chegaram ao prédio e me encontraram na escada perdendo sangue, ainda com a faca na mão. Dizem que eu estava gritando alguma coisa sobre uma sombra com corcova. A polícia revistou o apartamento inteiro; não encontraram nenhum sinal do Rasputin.
Eles não acreditam no que eu conto. Mostro as bandagens nas pernas, falo da voz rasgada e da sombra alongada na parede. Eles balançam a cabeça com compaixão, anotam “delírio” no relatório. Um dos policiais me reconheceu. Perguntou se eu era o homem que estava lá quando encontraram a mulher morta. Agora acham que fui eu quem fez aquilo, então estão chamando meu advogado.
Mas eu sei a verdade. Foi o monstro.
E ele está me esperando.