quarta-feira, 4 de março de 2026

Está Grávida...

Desde que eu era uma garotinha, sou fascinada por biologia. Tem algo mágico naquelas células minúsculas se unindo pra dar origem a algo que transcende o que elas são individualmente. Algo com comportamentos e uma arquitetura extremamente complexos, capaz até de se explorar e explorar suas próprias partes. Então, é... seguro dizer que ninguém se surpreendeu quando decidi virar pesquisadora. Mais especificamente, eu me atraí pelos efeitos da radiação em organismos vivos, o que me levou a Chernobyl. Trabalho lá desde o começo dos anos 2010 e eu e minha equipe exploramos uma boa parte das áreas restritas.

Essa... história — embora, se você perguntasse pro Luca, ele provavelmente diria que eu devia chamar de pesadelo — começou em fevereiro do ano passado, quando um drone russo atingiu a estrutura do Novo Confinamento Seguro e abriu um buraco enorme nela. Tudo começou porque os níveis de radiação que a gente esperava não batiam com as leituras reais; não é como se eu estudasse física nuclear, mas você provavelmente consegue imaginar que, no meu ramo, contadores Geiger são uma das ferramentas mais básicas que existem. Foi bem estranho ver que o nível de radiação tinha caído tanto, quase uma ordem de magnitude inteira. Foi uma queda dramática pra caralho, mas as instituições não pareciam nem um pouco preocupadas por algum motivo; acho que a guerra fez com que isso não fosse prioridade. Pra mim, porém, era.

Então nossa equipe mandou um pequeno rover controlado remotamente pra investigar o interior da usina nuclear. O veículo carregava um contador Geiger, câmeras (gama espectroscópica, imagem térmica, normais…), unidade de amostragem de ar, LIDAR… O pacote completo. A gente nunca tinha conseguido acessar certas áreas da usina por causa dos níveis absurdamente altos de radiação, o suficiente pra destruir completamente qualquer coisa, biológica ou artificial, em questão de minutos, se não segundos. Dessa vez, no entanto, o contador Geiger do veículo contava uma história diferente. Dessa vez os níveis de radiação tinham caído pra algo entre 3 e 4 milisieverts por hora; ainda alto, mas dentro da faixa aceitável onde uma entrada com traje de proteção por duas ou três horas não excederia os limites anuais de exposição.

A equipe toda estava nervosa, não só por causa das leituras, mas também porque ninguém nunca tinha conseguido ver o que tinha lá embaixo. Eu e outros dois pesquisadores parados, com os olhos grudados nas telas. O veículo continuava avançando pelos corredores labirínticos do subsolo bem embaixo do reator. Alguns estavam alagados, outros desabados, mas tinha um corredor estreito grande o suficiente pra deixar o veículo passar. A gente estava explorando um lugar onde nenhuma pessoa viva tinha pisado desde o desastre nuclear.

“Olha, ali.” Disse o Johan apontando pra tela com as leituras da câmera gama espectroscópica. “Essas assinaturas de Césio-137 e Estrôncio-90 estão… estranhas.”

Elas estavam mesmo estranhas, porque as leituras mostravam que estavam completamente localizadas em vez de dispersas. Quatro décadas de fluxo de poeira, ar e água deveriam ter espalhado os contaminantes de forma quase uniforme, e mesmo assim… A gente esperava descobrir algum tipo de organismo “comedouro de radiação”, ou pelo menos essa era a hipótese inicial com que a equipe toda estava trabalhando. Tinha que ter algum motivo pra esses isótopos estarem todos concentrados numa área específica e, como biólogos, nosso melhor palpite era que tinha alguma coisa se alimentando deles. Fazia sentido, né?

“Está logo atrás daquela porta.” Disse o Luca, batendo na tela da câmera óptica. Tinha uma porta enferrujada que dava pra uma sala adjacente à piscina borbulhadora, que antigamente funcionava como sistema de supressão de pressão e reservatório de refrigerante de emergência. “Parece frágil o suficiente pra abrir se você empurrar com o veículo.”

Então eu fiz isso, e a porta não abriu — ela desabou pra dentro da sala como se mal estivesse se aguentando em pé.

As primeiras imagens foram confusas, pra dizer o mínimo: as câmeras ópticas e a iluminação do veículo ficaram obscurecidas por uma camada grossa de poeira flutuante depois do desabamento da porta. Mas definitivamente tinha alguma coisa errada naquela sala. A geometria parecia estranha, com umas massas esquisitas grudadas nas paredes. Tinha um tom avermelhado, quase carmesim. Era uma cor viva que contrastava com a monotonia da poeira, sujeira, ferrugem e concreto. A textura parecia viscosa, úmida mas não exatamente molhada. As leituras do LIDAR mostravam que aqueles crescimentos estavam ancorados nas paredes, com o concreto aparentemente dissolvido por baixo deles.

“Anastasia, você pode mudar pra câmera térmica, por favor?”

Quando eu mudei, a sala inteira se iluminou. Estava quente. Paredes, chão e teto, tudo pintado de vermelho. As leituras mostravam temperaturas entre 35 e 39 ºC e algum tipo de líquido fluindo constantemente por toda a sala e por dentro daquelas massas.

“Isso parece…”

“Um sistema circulatório”, eu disse. “E a temperatura… é bem característica, quase como se estivesse… vivo.”

Luca e Johan olharam pra mim, não assustados, mas quase empolgados. Definitivamente era de natureza biológica e as leituras gama espectroscópicas confirmavam que os isótopos de Césio e Estrôncio estavam mais densos dentro daquele… tecido? Eles estavam ainda mais concentrados nas estruturas mais distendidas. Vou ser honesta: tinha alguma coisa perturbadora nessa coisa toda, mas até então era tudo o que a gente esperava, né? Realmente parecia um organismo vivo que se alimentava de radiação ou, pelo menos, de isótopos radioativos.

“A gente devia começar a coletar amostras”, disse Luca tentando conter a empolgação.

“Eu diria que precisamos descobrir se é um organismo único ou algum tipo de colônia. Colete amostras de partes diferentes, tipo… Você consegue aproximar um pouco mais o veículo daquela parede?”

O Johan não parecia tão feliz com a descoberta quanto o Luca. Eu obedeci e empurrei devagar o joystick pra frente, fazendo o veículo avançar vários metros em direção à parede, ainda usando a imagem térmica. Depois mudei pra óptica; eu queria dar uma boa olhada naquela massa antes de coletar qualquer amostra.

“Isso aí é tipo… Isso é um caralho de intestino?” O Luca cobriu a boca. “Está inchado, será que é gás ou…?”

Eu mudei de novo pra câmera térmica e confirmei que a temperatura era homogênea em toda a massa, intestino ou o que quer que fosse. Se estivesse cheio de gás, a temperatura deveria ser menor porque gás tem baixa condutividade térmica. Mais do que isso, a massa estava quase meio grau mais quente que o tecido ao redor. Meus dois colegas chegaram à mesma conclusão sem precisar de palavras. Então o Johan colocou a mão no meu ombro e, com a voz trêmula, perguntou:

“Isso… está se mexendo?”

Tinha movimento dentro da massa. Dentro do pseudo-intestino. Não era movimento como o dos fluidos captados pela imagem térmica, fluindo livremente dentro da rede orgânica. Tinha alguma coisa sólida que não seguia a dinâmica dos fluidos do fluxo circulatório ao redor, mais rítmico que turbulento.

“A temperatura sugere uma taxa metabólica elevada”, eu disse, sem querer continuar. Eu tinha medo do que ia falar em seguida: “como a de um útero de mulher grávida”.

“Que porra você tá querendo dizer, Anastasia?”

Eu me virei e olhei direto nos olhos do Luca. Ele sabia exatamente o que eu estava dizendo; a empolgação dele tinha azedado pra alguma coisa mais sombria. Tinha um leve sinal de medo camuflado por trás de uma camada de incredulidade.

“Só… pega a amostra, vai?”


Eu guiei o veículo de volta pelo corredor estreito e pra fora da zona radioativa imediata, depois parei ele no ponto de descontaminação designado. O Johan vestiu o equipamento de proteção e borrifou o veículo com solução descontaminante, depois escaneou tudo com cuidado usando o contador Geiger. Qualquer leitura acima do fundo natural levaria a outra rodada completa de descontaminação, mas os níveis baixos de radiação trabalharam a nosso favor dessa vez.

Depois ele removeu os recipientes com o material orgânico ainda na zona de descontaminação. O Johan manipulou eles com cuidado, selando em várias camadas e recipientes, tipo uma boneca matryoshka. O último passo foi colocar tudo dentro de uma caixa de transporte forrada de chumbo etiquetada com fita de alerta de radiação. Quando ele foi pegar os recipientes com as amostras de ar, parou.

“Vocês estão vendo isso?” ele perguntou, apontando o contador Geiger pra unidade de amostragem de ar. “Parece sangue seco.”

“Sangue seco e sujeira.”

“Está obstruído. Os recipientes de ar parecem…” O Johan sacudiu o que estava na mão dele e fez um som como se tivesse líquido dentro. “Definitivamente tem alguma coisa líquida aí dentro.”


Nas três semanas seguintes nós fizemos várias análises diferentes tanto nas amostras de tecido quanto nos recipientes de ar:

Uma triagem radiológica pra avaliar os níveis de radiação e determinar qual contenção seria necessária pro trabalho de laboratório. Os resultados mostraram uma concentração extraordinariamente alta de Césio-137 e Estrôncio-90 nas amostras de tecido, o que significava que precisariam ser manipuladas em um ambiente de contenção específico.

Depois, uma vez que sabíamos como trabalhar com elas com segurança, um estudo histológico básico que… Bom, eu examinei elas no microscópio depois de preparar as lâminas e colorir. Nesse ponto, eu não sabia o que esperar. Já estava perturbada com o que tínhamos visto e teorizado, mas nada poderia ter me preparado pro que vi sob a lente: as células eram humanas. Eram inequivocamente humanas, a ponto de eu reconhecer na hora. Núcleo, citoplasma, organelas… tudo humano, mas com proteínas expressas e certas estruturas pesadamente mutadas. E o tipo de tecido ficou claro pra mim assim que entendi a natureza delas… Eram células do endométrio. Tínhamos coletado amostras de um útero. Um útero humano vivo.

A análise genética não foi melhor; se alguma coisa, foi ainda mais perturbadora. PCR e sequenciamento. O DNA estava pesadamente mutado, com genes suficientes intactos pra estabelecer a linhagem celular. Os resultados das mutações eram coerentes com aqueles encontrados em certos tipos de câncer agressivo. Os padrões de metilação mostravam o silenciamento sistemático das vias de reparo de DNA; genes que ajudariam a reparar danos por radiação tinham sido progressivamente desligados, impedindo a célula de combater as mutações e fazendo ela simplesmente acumulá-las. Era como se aquela coisa estivesse se construindo a partir da radiação.

As mutações resultaram em novos genes, que codificavam novas proteínas. E algumas delas funcionavam como enzimas novas, catalisando reações que células humanas normais não fazem. Tinha uma coerência profunda ali, não era só um tumor aleatório. Cânceres não têm esse nível de funcionalidade, eles só atrapalham o funcionamento correto daquilo que contaminam até um nível patológico. A gente tinha descoberto alguma coisa… transcendental.

“Bem, se eu não estava convencido antes, agora com certeza estou.” Disse o Johan, de braços cruzados. Ele não estava achando graça; o tom dele era mortalmente sério: “Aquela coisa está viva por direito próprio. Não é um… tumor.”

“Também não é uma pessoa…” começou o Luca, e aí a voz dele falhou um pouco: “Né?”

“Nenhuma das amostras continha nada parecido com tecido neural maduro”, eu respondi. “Só uterino.” Pausei por um segundo enquanto lembrava de uma coisa: “Embora várias amostras tivessem concentrações anômalas de células expressando versões modificadas de proteínas mecanorreceptoras. São… uh… as mesmas proteínas envolvidas na sensação de pressão e estiramento no tecido uterino normal.”

Silêncio.

“E as amostras de ar?”

O Johan levantou o tablet e desbloqueou. Tinha uma mensagem não aberta na caixa de entrada, assunto “Amostras de Ar #33-37 — Resultados dos Testes”. Ele tinha recebido ela mal tinha cinco minutos. Baixou o arquivo anexado do laboratório externo que analisou os recipientes e abriu.

Os recipientes continham material particulado em concentrações aproximadamente quarenta a cinquenta vezes maiores que os níveis de fundo nos corredores externos: a atmosfera da sala estava densa com materiais suspensos. A análise particulada identificou como um “biofilme?”, com ponto de interrogação incluso. Era composto de três componentes: poeira radioativa consistente com o perfil de isótopos conhecido do ambiente do subsolo, material de membrana lipídica fragmentada consistente com lisado de origem biológica, e estruturas intactas semelhantes a organelas. Mais especificamente, o que parecia ser algum tipo de “mitocôndrias modificadas” mais consistente com aerossolização ativa do que com dispersão mecânica por causa da concentração. O relatório também incluía um comentário apontando que as “mitocôndrias modificadas” ainda estavam metabolicamente ativas no momento da análise. Três semanas depois da coleta da amostra.

“Acho que a gente devia reportar isso”, murmurou o Luca, “não tô nem aí se algum outro grupo de pesquisa levar o crédito. Isso é demais… Tipo, que porra isso significa, Ana?”.

O Johan estava quase surtando, igual ao Luca, mas pelo menos tentava se controlar pra caralho:

“Respira, Luca. Isso é… empolgante. Né? Uma nova descoberta, alguma coisa que só a gente sabe que existe. A-algo pra estudar…”

“Nova? É feito de células humanas pra caralho, Johan. Está viva. Está lá há quatro décadas malditas. Talvez seja melhor se ninguém souber que existe. Não existe palavra pro que quer que AQUILO seja.” Ele apontou pro vídeo das câmeras ópticas do veículo que estava passando numa tela ao fundo.

“É um útero humano, sem corpo, de alguma forma. E não é só um, a sala inteira está coberta deles, eles estão comendo o concreto, a fundação da usina. É quase como se eles se alimentassem da radiação, tipo, tipo…”

“Foda-se isso.”

O Luca saiu da sala batendo o pé. Um dia depois, as amostras e todo o nosso equipamento tinham desaparecido. Os documentos, os vídeos, nosso artigo meio escrito, tudo. Sumiu. Nosso acesso às instalações foi revogado e fomos forçados a assinar um acordo de confidencialidade pelo governo ucraniano — que ninguém traduziu pra gente — e fomos deportados. A explicação oficial foi “visto de trabalho vencido”.

Faz quase um ano que não vejo o Luca nem o Johan. Tentei manter contato com o Johan, mas ele parou de me responder há uns meses. Não sei nada sobre o Luca e ele não atende o telefone.

Cadê a curiosidade deles? Por que não correr atrás disso?

Tem uma coisa que ainda me incomoda pra caralho quando penso naquilo… Estava grávida, não estava?  

Para todas as partes de Julia que eu consigo alcançar

Eu te amo, e sinto muito. Eu sei que você tá puta da vida comigo, por isso quis me dirigir a tanto de você quanto eu consigo alcançar pra me explicar. Nossa comunicação sempre foi algo que a gente se orgulhava pra caralho, e eu não pretendo deixar essas circunstâncias fodidas mudarem isso.

Quando a gente se conheceu, eu percebi rapidinho que você era única. Você não era nem um pouco parecida com aqueles outros alunos de escrita criativa sem talento nenhum daquela faculdade, eu incluído. Seu trabalho fazia o meu parecer que inglês era minha quarta língua, quando na real era sua segunda. Sua prosa era tão lindamente sem esforço, tão eloquente sem nunca parecer metida ou enrolada. Além disso, você não tinha nenhuma vontade de se afundar na própria miséria romantizada como eu tinha me convencido que era necessário pra ser grande. Não é como se isso tivesse funcionado alguma vez. Eu não era nenhum Hemingway nem Bukowski, não importava o quanto eu tentasse fingir que era quando estava numa das minhas bebedeiras.

Você, por outro lado, era algo mágico. Você entrava em toda aula como se fosse o evento mais importante do mundo, mas falava com um tom tão naturalmente intoxicante que parecia mais coisa de papo de café do que de oficina de tese de conclusão. Você carregava sua alegria de viver bem na cara todo santo dia, com aquelas leves ruguinhas de sorriso provando que você era assim há muito tempo. Eu só entendi de verdade o que significava a palavra “prodígio” quando te conheci. Era como se criar fosse parte da sua essência, como se sintetizar e botar pra fora os mundos que existiam dentro da sua cabeça fosse tão natural quanto respirar. Você era um gênio sem nenhuma bagagem, alguém com um dom que ficava infinitamente animado pra dividir com o mundo.

Até hoje eu não entendo o que você viu em mim. Eu sempre achei que pessoas tão especiais quanto você naturalmente gravitariam umas pras outras, que vocês iam viver a vida de vocês em algum lugar bem longe de onde eu fosse parar. Acho que, no fundo, eu esperava que você me rejeitasse quando te chamei pra jantar pra falar sobre nossa escrita; fazia tempo demais desde meu último fracasso romântico pra eu conseguir tirar mais alguma poesia melancólica e vomitiva daquilo. Mas você aceitou, e antes que eu percebesse, a gente já tava se mudando pro nosso novo apartamento sem plano nenhum pro futuro e sem dar a mínima pra como a gente ia resolver isso.

Amar você foi uma faca de dois gumes. Por um lado, estar com você tornava absurdamente fácil eu me endireitar. Um único olhar preocupado daqueles seus olhos cor de avelã macios dava mais clareza de como mudar do que qualquer programa de doze passos poderia sonhar. Por outro lado, aqueles primeiros anos cristalizaram uma verdade que eu já sabia lá no fundo desde o primeiro dia que você leu seu texto em voz alta na aula: você era a coisa verdadeira, e eu não passava de uma imitação pálida. Você era uma das futuras grandes, e eu era só um amador derivativo que não reconheceria nuance de verdade nem se ela morasse comigo.

Embora fosse uma verdade amarga pra caralho de engolir, estar com você era milagre suficiente pra eu aguentar o soco no ego. Meu novo propósito virou nutrir o seu dom, garantir que você tivesse tudo pra produzir a arte que eu sabia que ia mudar o mundo. Guardei minhas próprias ambições e arrumei emprego numa agência literária. Era um trabalho com algum sentido, mas no fundo era só um meio pra um fim: manter um teto sobre a sua cabeça pra você poder criar sem nenhuma merda atrapalhando. Você protestou, disse que não era justo, mas eu não cedia. Eu finalmente estava sendo honesto comigo mesmo. Eu sabia que a coisa mais importante que eu podia fazer nesse mundo era deixar você desenvolver seu talento completamente.

Foi por isso que eu desmoronei quando você ficou doente. Você tinha sido minha razão pra continuar numa vida que, fora isso, era monótona e inútil. Eu te amava. Eu precisava de você. Seu declínio podia ser mais visível e doloroso, mas o meu era tão real quanto, e começou no exato momento que o médico leu o diagnóstico em voz alta. Parecia que todo dia me arrastava chutando e gritando pro fim do mundo. Quanto mais energia você perdia, quanto menos coerentes suas frases ficavam, mais eu perdia a vontade de lutar. Eu voltei a beber escondido, escapando pra bares nas raras noites que você conseguia dormir direto. Eu me odiava pra caralho por isso. Eu sabia que era exatamente quando você mais precisava de mim, mas eu perdia toda vez que tentava lutar contra minha natureza. Eu pertencia à sarjeta, e com você indo embora, eu sentia o puxão pra lá mais forte do que nunca.

Numa noite especialmente de merda, me vi numa parte perigosa da cidade, bêbado o suficiente pra começar a desabafar com um estranho sobre minha situação. Ele estava vestido bem demais pro lugar. Os traços dele eram afiados, quase geométricos demais pra um ser humano de verdade. Ele ficou sério me ouvindo, hesitante em interromper ou perguntar qualquer coisa. Esperou pacientemente enquanto eu fungava e chorava falando de você, de como eu tava apavorado de te perder.

Acima de tudo, eu lamentava o tamanho da tragédia que era um prodígio como você morrer antes de conseguir compartilhar seu dom com o mundo.

“Ela estava… ela estava só começando a fazer progresso nos sonhos dela. É que… ela realmente é especial pra caralho. O mundo precisa conhecer ela… eu queria que o mundo pudesse conhecer ela…”

Isso chamou a atenção do cara. Ele olhou direto pra mim, quase atravessando, e falou calmo:

“Eu posso te ajudar. Me segue.”

Eu segui ele até o que eu só podia imaginar que era o apartamento dele. Não foi a decisão mais inteligente, mas não era como se eu tivesse muito a perder. Era um estúdio pequeno com nada além de uma mesa de madeira ornamentada bem no meio. O cara sentou na cadeira e eu fiquei olhando tudo. Nas paredes tinha dezenas de diagramas geométricos estranhos desenhados com caneta preta grossa. Pareciam aquelas formas impossíveis dos livros de ilusão de ótica, me dando dor de cabeça só de olhar mais de dois segundos. Podia ser o álcool, mas aquilo me deixava inquieto pra caralho. Grades entrelaçadas de prismas triangulares, tentativas de formas em 4D, linhas que pareciam paralelas e perpendiculares ao mesmo tempo. Cobriam todas as paredes, algumas até subindo pro teto.

Em cima da mesa tinha vários mapas, desde o bairro onde a gente estava até o mapa-múndi inteiro. Do lado da cadeira dele tinha frascos com líquido multicolorido borbulhante, organizados em fileiras dentro de um recipiente gravado bem chique. O cara girou um dos frascos entre os dedos e começou a falar:

“Eu trabalho dividindo almas. Se o seu desejo é salvar essa mulher da destruição total e ao mesmo tempo compartilhar ela com o mundo, eu posso resolver.”

Eu olhei ele de cima a baixo. Com a mistura da minha concentração de álcool no sangue, aquele cenário esotérico e o jeito super direto dele, eu fiquei estranhamente convencido do que, em qualquer outro momento, seria considerado puro delírio. Mesmo assim, eu precisava saber mais.

“Almas? Como você divide uma alma?”, eu respondi finalmente, tentando (e falhando) não enrolar as palavras.

Ele pareceu um pouquinho irritado com a pergunta. Pausou, respirou fundo, como se fosse dar um discurso decorado:

“A sociedade quer que você acredite que existem coisas que fogem das operações matemáticas. Que certos aspectos da realidade não podem ser pensados em frações ou porcentagens. Que uma memória não pode ser cortada no meio. Isso é uma mentira deslavada. Tudo que existe é quantificável. Tudo no universo é divisível. Não importa o quão complexo ou metafísico seja, existem regras que podem ser aplicadas pra remover partes do todo maior. Através do meu conhecimento íntimo da geometria sagrada que sustenta a realidade, eu consigo explorar essa verdade e praticar a arte da divisão de almas. A alma — a amálgama psíquica de todo aspecto da essência de uma pessoa — é dissolvida na consciência coletiva da raça humana.”

O álcool fez eu demorar ainda mais pra processar aquilo. Fiquei quase um minuto inteiro ali parado. Minha resposta foi só uma palavra:

“Dissolvida?”

Ele largou o frasco que estava mexendo e virou toda a atenção pra mim. A voz continuava monótona, mas agora ele gesticulava:

“Correto. Pensa assim: uma alma é uma coagulação gigantesca de tudo que faz uma pessoa ser ela mesma e não outra coisa. Contém todo pensamento, memória, sentimento e característica física. É um oceano de individualidade. O que eu faço é dividir esse oceano em gotinhas individuais e adicionar uma gota em cada um dos outros oito bilhões de oceanos deste planeta. Todo ser humano vivo hoje vai receber uma fração de um em oito bilhões da alma dela… você incluído.”

Finalmente eu estava acompanhando. Admito que tinha me perdido um pouco nas explicações longas dele, mas quando comecei a juntar as peças, meu motivo pra estar ali voltou com tudo. Enquanto as engrenagens giravam, fiz a única pergunta que importava:

“Ela vai ficar bem?”

Outro olhar irritado, como se estivéssemos no roteiro de sempre.

“Ela vai se perder dela mesma. Todos os componentes individuais que formam quem ela é vão continuar existindo, mas espalhados entre toda a espécie dela. O navio de Teseu ainda existe se cada peça dele for usada pra consertar um navio diferente na Grécia? Ele ‘existe’, mas já não é mais um navio.”

“Por que caralho eu aceitaria isso?!”, eu rebati. Parecia que ele só estava oferecendo matar você antes do câncer. Eu não via vantagem nenhuma em relação a uma morte digna, por mais trágica que fosse.

“Porque a alternativa é obliteração”, ele retrucou. “A morte é absoluta. Tudo dela vai ser destruído. A divisão de almas garante que o que é único nela não se perca pro mundo. Eu estava com a impressão de que essa mulher era especial?”

Aquela resposta me pegou de surpresa. Foi aí que eu entendi de verdade o que ele estava oferecendo. Era assim que o mundo ia conhecer você. Você ia ser entregue pra humanidade inteira, seu gênio preservado e acessível. Você ia continuar vivendo como um milhão de faíscas de inspiração na cabeça de artistas medíocres que nem eu. O presente que você seria pro espírito criativo da humanidade…

“Vamos fazer isso”, eu soltei de repente.

Desculpa, Julia. Eu disse as palavras sem entender direito o que estava fazendo. Tinha dezenas de perguntas que eu deveria ter feito antes de brincar com a sua vida desse jeito. Eu só queria desesperadamente te manter aqui de alguma forma. Eu não aguentava te perder completamente.

O cara acenou com a cabeça, pegou o frasco de novo e começou a murmurar baixinho numa língua que eu nunca tinha ouvido enquanto virava o conteúdo nas mãos e esfregava. Era um líquido viscoso e brilhante que ficava cada vez mais prismático conforme ele espalhava entre os dedos. Depois de uns dez segundos, ele começou a passar as mãos no maior mapa da mesa — o do mundo inteiro. Os desenhos geométricos nas paredes começaram a brilhar fracamente enquanto ele cobria cada centímetro da Terra com aquele líquido agora espumante. O sussurro virou canto mais alto, e eu tinha certeza absoluta de que não era nenhuma língua que eu conhecia. Uns vinte segundos depois, acabou. Ele abriu uma gaveta, pegou uma toalha e limpou as mãos.

“Isso… é só isso? Você não precisa de nada meu?”, perguntei meio sem graça.

“Não. Você já me deu o suficiente no bar. O processo vai levar mais ou menos 24 horas. Pode ir embora.”

Fiquei ali mais um segundo antes de virar pra sair. Quando já estava na metade da porta, uma pergunta que eu deveria ter feito muito antes me veio à cabeça. Eu girei de volta:

“O que você ganha com isso?”

O menor sorriso possível apareceu nos lábios dele.

“Não se preocupa. Eu já fui compensado.”

Eu tentei com todas as forças me convencer de que aquilo não significava nada perigoso pra você. Mas no fundo eu sabia que sim.

“Mais alguma pergunta?”, ele perguntou, deixando claro que eu estava enrolando.

Só consegui pensar numa:

“Quem é você?”

Pela primeira vez o jeito frio dele mudou. Ele pareceu surpreso, como se não esperasse essa pergunta.

Pausou.

“Alguém muito longe de casa.”

Passei o dia seguinte inteiro do seu lado no hospital. Mesmo você tendo dito que estava se sentindo melhor quando acordou, lá pelo meio-dia você já estava delirando. Ficava falando das formas que via toda vez que fechava os olhos, e de como, a cada poucos minutos, um flash do ponto de vista de outra pessoa invadia sua visão. Partiu meu coração ver o medo crescendo devagar enquanto você tentava entender o que estava acontecendo. Você dizia que parecia que você estava sendo rasgada. Eu tentava me convencer de que era normal, que todo mundo via coisas assim antes de morrer. Mas não era luz no fim do túnel nenhum. De noite, as pontas dos seus dedos começaram a ficar borradas, como se a linha entre seu corpo e o quarto estivesse sumindo. Eu queria acreditar que era só minha imaginação, mas não conseguia. Eu sabia que tinha sido eu.

Você desapareceu no dia seguinte. Não morreu. Desapareceu. A equipe do hospital revirou o prédio inteiro, mas você não estava em lugar nenhum. Nenhuma câmera te pegou saindo. Fizeram boletim de desaparecimento, e eu até fui levado pra interrogatório. Mas me soltaram. Não tinha motivo nenhum pra eu fazer mal pra você se você já tinha só algumas semanas de vida.

Eu não saí do nosso apartamento por quase uma semana depois que voltei da delegacia. A culpa e o luto me prenderam na cama por dias. Mesmo se o que o cara fez tivesse funcionado, você ainda tinha sumido da minha vida. Eu nunca mais ia ouvir sua voz. E aquele medo nos seus olhos… eu simplesmente não queria encarar o que eu tinha feito com você. Não queria encarar o mundo que eu tinha jogado você dentro. No final, minha intuição estava certa. Eu tinha todo motivo pra ter medo.

Acabei tendo que sair de casa. A primeira vez foi só pra ir numa loja de conveniência perto, por pura necessidade. Ia pegar comida e bebida suficiente pra ficar mais uns dias trancado. A loja estava cheia — umas dez, quinze pessoas espalhadas pelos corredores.

Fui lá pros fundos pegar bebida. Enquanto olhava as opções, um cara a uns quatro pés de distância se virou pra mim. Nossos olhares se cruzaram por uma fração de segundo. Ele se contorceu de leve e sussurrou duas palavras:

“Tenho que.”

Logo em seguida, uma mulher que passava atrás dele fez o mesmo e sussurrou:

“Quero.”

Eu assisti horrorizado enquanto aquilo se espalhava pela loja toda, as vozes se sobrepondo e ficando mais altas:

“Tenho que.”  
“Quero.”  
“Frio.”  
“Frio.”  
“Quero.”

Eu sabia que era você. Sabia que aquela era sua dor. Corri pra saída, mas uma velha frágil me agarrou o braço com uma força absurda. Ela abriu a boca e falou.

A voz dela… não, a sua voz… estava carregada de um veneno que fez meu coração afundar mais do que eu achava possível.

“Eu ia conseguir.”

Desde aquele dia eu não saí mais de casa. Não sei se você só conseguiu falar porque me viu, ou se a raça humana inteira está passando pelo que eu vi. Mas eu sei que você ainda tá aqui, e sei que você tá com raiva. Aquele homem, ou seja lá o que ele fosse, estava errado ou mentiu. Só posso imaginar que a ressonância entre os pedaços da sua alma quando eles se juntam tá criando uma espécie de proto-consciência. Você virou um fantasma incompleto, consciente o suficiente pra saber que algo tá profundamente errado. E mais que isso: você parece saber que a culpa é minha.

Toda noite na última semana eu tenho o mesmo sonho. Nele, estamos cara a cara num vazio completamente escuro. Você tá de camisola de hospital, me fuzilando com o olhar. Seus olhos são um redemoinho de azul, verde e marrom. Tem partes da sua pele na cor errada. Um brilho prismático sai do contorno do seu corpo. Você tá com raiva, mas acima de tudo tá apavorada. Me diz que eu preciso consertar isso, que algo terrível vai acontecer se eu não fizer. Antes de conseguir me contar o que é, seu corpo começa a se desfazer em formas abstratas. Seus ombros viram esferas que se viram do avesso, sua cabeça vira um cubo com ângulos impossíveis. Isso continua até seu corpo inteiro virar um fractal que engole o vazio todo. O fractal começa a gemer e se contorcer de agonia, sacudindo tudo ao meu redor. Antes de eu acordar, ouço a voz do cara do bar dizendo a mesma coisa de sempre:

“O sujeito está instável.”

Julia, por favor, escuta o que eu vou dizer. Eu te amo, e sinto muito. Eu tomei uma decisão no seu lugar que te transformou nisso, e agora você tá sofrendo por minha causa. Tenho pensado muito em nós dois desde que você se foi. Quando eu abandonei meus sonhos pra apoiar os seus, uma parte de como eu lidava com isso era te ver não só como minha parceira, mas como meu projeto. Eu me convenci de que, se conseguisse nutrir seu espírito criativo e deixar ele florescer completamente, de alguma forma eu poderia levar crédito pelos resultados. Acho que foi por isso que eu fiz o que fiz. Foi egoísmo puro, mas eu não conseguia deixar meu esforço ir pro ralo. Eu precisava ver até o fim, não importava o que isso significasse pra você.

Mas eu estava errado. Você nunca foi minha na época, e não pertence à humanidade agora. Você é sua. Desculpa por ter tirado isso de você. Saiba que eu vou consertar. Vou te juntar de novo.

E pra você, alma completa que está lendo isso, saiba que agora você carrega dentro de si um fragmento de alguém extraordinário. Talvez você esteja se perguntando o que significa ter ganhado uma fração de um em oito bilhões de uma alma humana. É impossível saber com certeza. Talvez agora tenha um pontinho cor de avelã nos seus olhos que você nunca notou antes. Talvez você saiba a palavra pra “cadeira” em francês e não tenha ideia de onde aprendeu. Ou talvez, hoje de manhã no banho, você tenha tido uma ideia de romance que acha que vale a pena explorar. Se for esse o caso, eu imploro: não desperdice. Leve até o fim. Por ela, não por mim.

Sou cirurgião em um laboratório governamental classificado, meus sujeitos não são humanos

Meu trabalho consistia principalmente em vivissecção. Os feéricos claramente não tinham familiaridade com os detalhes da anatomia humana, ou melhor, só com os de fora. Eles já dominam a parte externa perfeitamente hoje em dia, copiando até o último detalhe. De vez em quando aparece algum com rabo ou pés fendidos, e vários com rostos e membros tão desproporcionais que beiram o impossível. Mas, na maioria das vezes, você juraria que são humanos só de olhar. No entanto, a falta de familiaridade com as partes internas gera resultados bem interessantes — anatomias únicas e completamente absurdas.

As luzes pálidas e anêmicas do laboratório zumbiam no teto enquanto eu dava o último gole no meu chá, ouvindo as rodas enferrujadas e rangentes da maca se aproximando. As pesadas portas de ferro se abriram com um gemido longo e eles trouxeram nosso sujeito.

A fada na mesa tinha adotado uma abordagem surrealista e artística para os órgãos internos. A coleção de vísceras vanguardista estava incrustada com vários rostos exibindo expressões as mais variadas. O que eu acho que tentava ser um coração estava aberto em um rosto espiralado e alongado que eu já tinha comentado com a Amy ser a cara do famoso quadro do Munch.

Amy era nova. Substituta do cirurgião anterior que dividia o laboratório comigo. O departamento tinha perdido sete funcionários recentemente por causa de algumas algemas de ferro frio que não estavam bem presas, e o predecessor específico dela tinha sido afastado por licença médica de estresse depois que sua mente se desintegrou por causa de um sujeito. Então, embora eu mesmo só estivesse há duas semanas no emprego, isso ainda me tornava o sênior dela.

Minha carreira tinha começado de um jeito bem conturbado. Ver aqueles rostos girando, boquiabertos e se contorcendo, confrontados com um desespero e sofrimento completo todos os dias. Isso me fez perceber que trabalhar como caixa não era pra mim. Quando me ofereceram um emprego de pesquisa trabalhando exatamente com as criaturas que eu tinha usado como tema da minha dissertação de mestrado, aceitei na hora. Mesmo através da visão limitada da minha máscara, meus olhos forçavam bem menos do que sob a luz forte de uma tela de caixa registradora.

Dei um puxão rápido nas fitas da minha máscara para confirmar que o nó estava bem apertado e seguro. Fiz um teste improvisado de visão periférica virando para a esquerda e lendo a placa de saúde e segurança presa na parede.

“Sem rosto. Sem nome. Sem voz.” Não era só o que eu tinha aprendido ser a posição orgulhosa da empresa contra sindicatos, mas também a declaração que servia como a regra vital dos três na presença dos sujeitos — para você não perder um ou todos esses três. Por isso as máscaras eram tão importantes quanto a capacidade de manter a boca fechada perto do povo feérico. Nenhuma voz humana, conforme as regras. Isso significava que a única trilha sonora do meu trabalho era o zumbido baixo das luzes no teto e o barulho mecânico dos vários equipamentos e máquinas ao meu redor.

Peguei o bisturi da bandeja e observei a forma alongada e humanóide sobre a mesa. Sob as luzes fluorescentes do laboratório, as entranhas da criatura ganhavam um brilho amarelado doentio que fazia os rostos giratórios lá dentro parecerem ictéricos. A alta administração quer o coração removido deste aqui também. O órgão uivou e se contorceu para dentro, formando um falso rosnado quando aproximei o bisturi. Quando comecei a cutucar a aorta com a mão enluvada, as luzes piscaram. Levantei a cabeça rápido e as luzes voltaram ao normal. Pausei por um momento, bisturi na mão, pairando a poucos centímetros das vísceras da criatura, ainda completamente iluminadas. Decidindo que tinha sido só uma falha, me inclinei para frente para inspecionar melhor aquelas vísceras abstratas antes de fazer a incisão.

No exato momento em que a lâmina tocou o tecido, veio um “tink” baixo lá de cima antes que a sala mergulhasse na escuridão total.

O zumbido mecânico da sala caiu no silêncio, como se o som tivesse sido engolido, e um barulho muito mais alto começou dentro da minha cabeça quando o grito agudo do meu instinto de luta ou fuga disparou. Meu aperto no bisturi falhou e ele caiu sobre o conteúdo da mesa com um barulho molhado e baixo. Sem pensar, minha mão disparou para recuperá-lo. Em vez de encontrar o metal frio do instrumento, ela fechou em torno de algo úmido e quente. Antes que eu pudesse reagir, a coisa se fechou em volta da minha mão, dentinhos deformados afundando na luva, rasgando o plástico fino com facilidade. Minha boca se escancarou e um grito de puro horror quebrou o silêncio. Ouvi os passos frenéticos da Amy atrás de mim e me movi na direção deles. Tateei no escuro, olhos se movendo inutilmente, minha mente imaginando a forma inumana que eu esperava ver vindo na minha direção.

“Liga o gerador de emergência!”

As palavras saíram como bile e deixaram o mesmo gosto amargo na minha garganta. Não tive resposta nenhuma.

Forcei minhas pernas a se moverem, procurando desesperadamente pelos únicos pontinhos de luz na sala. Por baixo da máscara escorregando, eu mal conseguia distinguir as palavras iluminadas que identificavam o gerador de emergência. Balançando a cabeça, puxei com força as fitas da máscara que caía. Ela bateu no chão de azulejo e a placa iluminada ficou nítida. Puxei o interruptor com tudo. O estalo do gerador soou nos meus ouvidos como um tiro e eu recuei quando minha visão ficou branca de tanta luz. Me levantei cambaleando, tremendo enquanto meus olhos se ajustavam. Quando recuperei a visão, comecei a distinguir o formato borrado de algo liso e branco caído nos azulejos. A compreensão que veio em seguida foi vertiginosa quando percebi o que eu tinha feito. Através da névoa, encontrei a mesa de operação e, com um pavor nauseante, encontrei o olhar fixo do espécime. Ele ainda estava preso pelas algemas de ferro frio, embora apenas os membros permanecessem fixos à mesa. O tronco estava curvado para frente de um jeito antinatural, numa contorção que o resto da anatomia dele não deveria permitir. A careta plácida de sempre estava esticada tão absurdamente que parecia que o maxilar inferior tinha se separado completamente da cabeça.

Levantei o braço para cobrir meu rosto, mas eu sabia, com uma certeza doentia, que o estrago já estava feito.

Amy tinha voltado timidamente para o meu campo de visão, sua própria máscara ainda no lugar, mas sem conseguir esconder o puro terror. Não escondi meu desprezo quando ordenei que o laboratório fosse lacrado e que a cirurgia continuasse no dia seguinte. Ela não protestou.

O dia seguinte chegou com sua inevitabilidade ameaçadora. Desci o longo corredor branco com cuidado, as luzes zumbindo acima. Puxei mais uma vez minha máscara pálida, sentindo o nó denso que, a essa altura, tinha virado um caroço impossível de desatar. Um caroço parecido se formou na minha garganta quando cheguei às portas do laboratório. Demorei de propósito digitando os muitos números do código de acesso. Em vez de poder usar qualquer tipo de reconhecimento facial abertamente, as senhas e códigos de entrada eram longos e paranoicos de tão complexos. Mas não longos o suficiente, porque o clique de aceitação da tranca fez meu coração despencar.

O laboratório estava escuro. Me inclinei para frente esperando ativar os sensores de movimento das luzes. Nada. Avancei um pouco mais, me perguntando se eles sempre tiveram esse alcance tão limitado. Conforme entrava mais fundo, conseguia distinguir os contornos das coisas, as luzes suaves e coloridas dos vários mostradores e telas iluminando fracamente as superfícies. Eu conhecia bem aquela sala para isso fazer diferença — ou pelo menos achava que conhecia. Meu pé bateu em algo inesperado na escuridão. Tinha uma consistência mole, diferente de qualquer máquina ou equipamento. Me abaixei. A luz vermelha fraca de um monitor foi suficiente para iluminar o rosto flácido da Amy, cuja boca aberta reproduzia exatamente o que tinha sido feito com seu tronco.

Cambaleei para trás, perdendo o equilíbrio ao pisar em uma poça escura que se espalhava pelo chão.

Sentei ali respirando com dificuldade, a garganta ardendo e só conseguindo ter ânsias de vômito. Foi nesse momento que ouvi um gemido baixo, mais agudo que meus próprios soluços, e com um pavor nauseante percebi que era o rangido estridente da mesa de operação.

Levantei a cabeça devagar. Minha visão embaçada pelo terror vertiginoso esperava encontrar os olhos brilhantes e pontiagudos e o rosto inumano da criatura. Encontrei o olhar da coisa e meu corpo inteiro travou ao me deparar com o meu próprio rosto.

Era como se tivessem feito uma escultura perfeita em látex. Os traços idênticos até nos mínimos detalhes, traídos apenas por uma qualidade borrachuda sintética que não tinha nada de humano.

A coisa se desdobrou da postura encurvada e eu pude ver o brilho úmido e brilhante das vísceras expostas na sua forma vivissecada. Só que agora parecia diferente, alterada de alguma forma. Não era mais aquela coleção de órgãos gritantes e entranhas abstratas — agora era o retrato perfeito do que você encontraria num livro didático. Normal. Comum. Humano.

Engasguei com a bile que subia quando entendi o motivo do estado da Amy. A adrenalina bateu forte enquanto eu corria às cegas, batendo nos equipamentos do laboratório na direção do corredor. Senti ela se aproximando atrás de mim e, sabendo com uma certeza terrível que não conseguiria chegar ao corredor a tempo, abri com força as portas de um armário de manutenção e baixei o trinco com toda a força que consegui.

Ela não tentou abrir a porta. Não testou a tranca. Simplesmente ficou esperando. Claro que sabe. Já está aqui tempo suficiente para saber que não posso ficar dentro de um armário de manutenção para sempre, e ela pode — e vai — continuar aqui muito depois que eu não puder mais. Ela veio para ficar. E eu fico aqui sentado, me perguntando o que vai acontecer com este lugar, o que vai acontecer com este mundo agora que existe essa criatura inumana que finalmente encontrou uma forma de se assimilar... com um rosto humano. Meu rosto.

Eu continuo ouvindo batidas na porta do meu quarto à noite. Moro sozinho

Quero começar dando um contexto bem completo pra essa história toda. Não quero revelar meu nome verdadeiro, então vou só dizer que me chamo Adam. Saí da casa dos meus pais tem quase cinco meses, quando encontrei um anúncio de emprego que incluía apartamento pra morar em cima da loja. Não vou entrar em muitos detalhes sobre minha vida antes, mas eu tava desesperado pra deixar aquela situação pra trás e finalmente ter uma vida só minha, então agarrei a oportunidade.

Liguei pro número e conversei com uma senhora mais velha que parecia bem gente boa. Ela anotou meu nome e respondeu algumas perguntas. No começo eu fui bem cético e deixei isso claro — era compreensível, considerando o salário alto e tudo que vinha com o emprego. Ela me garantiu que era uma oferta real e que o motivo do pagamento ser tão bom era porque eles não conseguiam manter ninguém no emprego por mais de algumas semanas. Obviamente isso era uma bandeira vermelha enorme, e eu tentei pressionar por mais informações, mas ela não quis contar. A maioria das pessoas teria dado no pé ali mesmo, e com toda razão. Mas eu tava numa situação ruim pra caralho e precisava cair fora, então o desespero venceu a lógica.

O emprego era cuidar de uma mercearia numa cidadezinha pequena, a algumas milhas de onde eu cresci. Eu ia ser responsável pela loja inteira, menos pelos pedidos de estoque — eles faziam isso de lá. Eu só precisava descarregar e arrumar as coisas nas prateleiras. Como não tinha carro, pedi carona pra um amigo local. Contei a situação toda pra ele. Claro que ele achou uma ideia péssima, mas entendeu o aperto que eu tava e me levou mesmo assim. Uma parte de mim queria que ele tivesse me convencido a não ir, mas, como dizem, a visão retrospectiva é sempre perfeita.

Quando chegamos na cidade sonolenta de Pinewood (nome bem original, porque fica mesmo no meio de uma floresta de pinheiros), eu já senti uma sensação estranha pra caralho. Sabe aquelas histórias de cidades velhas onde os moradores ficam te encarando enquanto você passa? Era exatamente isso. Tanto eu quanto meu amigo ficamos bem arrepiados. Ele me perguntou várias vezes se eu tinha certeza absoluta, mas honestamente, entre morar numa cidade sinistra e voltar pros meus pais, eu toparia dividir quarto com um assassino em série se fosse preciso.

A loja ficava no final da rua principal, uma mercearia antiga, meio decadente, mas com aquele charme típico de cidade pequena. Admito que o charme me atraiu um pouco. Achei que talvez os moradores só não vissem muita gente nova passando, quanto mais alguém se mudando pra lá. A senhora com quem falei no telefone me encontrou na porta. Enquanto os outros moradores só encaravam, ela tava toda animada e simpática, uma velhinha doce de uns setenta e poucos anos. Pra manter o anonimato, vou chamá-la de Sra. Sylvie ou só Sylvie.

Sylvie me cumprimentou com tanto calor e educação que eu esqueci todas as coisas estranhas que tinham me levado até ali. A conversa foi mais ou menos assim:

Sylvie: “Você deve ser o Adam! Que rapaz bonito! Muito obrigada por assumir a loja. Esse lugar antigo é um ícone aqui da cidade e eu já tô velha demais pra continuar tocando ela.”

Eu: “Não é problema nenhum, senhora! Na verdade eu que tenho que agradecer. Você tá me dando casa e um emprego pago ainda por cima. Sério, muito obrigado.”

Sylvie: “Ah, deixa disso, não foi nada.”

Depois de mais algumas gentilezas, ela segurou minha mão entre as dela. Lembro que as mãos dela eram frias, mais frias do que o normal pro fim da primavera virando verão. Meu amigo tava tirando minhas duas malas do carro.

“É só isso que você trouxe, querido?”, ela perguntou apontando pras malas.

“É, não é muita coisa, mas dá pro gasto”, respondi. A maior parte era roupa, um laptop que meu amigo me deu quando comprou um novo, e algumas coisas aleatórias.

Sylvie assentiu, mantendo aquele sorriso caloroso o tempo todo. “Se precisar de roupa, o Sr. Corigan tem a alfaiataria ali na rua. Pode pegar qualquer coisa que vendemos aqui também, vai ser descontado do salário com desconto, claro.”

A rua parecia completamente abandonada, sem uma alma viva. Sylvie percebeu o que eu tava pensando e continuou:

“A maioria do pessoal aqui é idoso como eu. É um lugar bem quieto, não tem muita vida no final da tarde e à noite. Tem alguns casais mais jovens, mas eles já se acostumaram com o sossego. Por isso a gente pede pra manter o barulho baixo nas horas mais tarde. Nós velhos precisamos do nosso sono de beleza, né!” Ela deu uma risada típica de vovó de asilo. Ela tinha um charme foda, um jeito maternal bem genuíno.

“Agora vem comigo, querido, vou te mostrar o apartamento. Não é luxo, mas deve servir bem pra quem mora sozinho.”

Sozinho. Foi nesse momento que o pensamento bateu de verdade. Pra muita gente isso seria um pensamento gelado, solitário, mas pra mim foi confortante. Meus pais nunca foram conforto, e eu já passava a maior parte do tempo sozinho mesmo. Eu tinha me acostumado e acolhido aquilo como meu espaço seguro.

Sylvie me levou pela loja, que era pequena como era de se esperar. Era fofa, com poucos corredores cheios de prateleiras, geladeiras pros frios e carnes, e mais itens gerais. Nos fundos ficava o balcão do caixa, a prateleira de cigarros e um espelho pra vigiar parte da loja. Não tinha câmera de segurança nenhuma, o que fazia sentido pra uma loja tão antiga numa cidadezinha tranquila. Ao lado do balcão tinha a porta do depósito, com freezer e prateleiras. Depois vinha a porta pras escadas do apartamento e outra pros fundos pro lixo.

Subindo as escadas, cheguei num corredor longo com luz amarela fraca e aquele zumbido clássico de lâmpada fluorescente. Minha porta era a primeira, e no final do corredor tinha outra porta cheia de trancas e sem olho mágico. Bem estranha.

O apartamento era melhor do que eu esperava: sala pequena logo na entrada, cozinha grande, quarto decente com cama, armário e mesa, banheiro com banheira. O estilo era antigo, com papel de parede e sofá florido. Alguns achariam cafona, eu achei com charme, parecia um lugar que alguém podia chamar de lar de verdade.

Depois que meu amigo foi embora, eu e a Sylvie tomamos chá e conversamos mais. Ela perguntou por que eu tinha aceitado o emprego. Eu disse que queria um recomeço. Ela contou sobre o marido falecido, o filho que assumiu a loja, ficou tenso e foi embora sem explicar o motivo. Disse que vários outros jovens pegaram o emprego mas não ficavam muito tempo.

O primeiro mês foi bem calmo. Acordava às seis, tomava banho, abria a loja às sete. Colocava o laptop no balcão e fazia o que quisesse nas horas vazias, desde que a loja estivesse limpa e abastecida. Os moradores eram todos legais, respeitosos e excêntricos. Conheci o Sr. Corigan (o alfaiate britânico contador de histórias), a Srta. Morgan (a senhora elegante estilo vitoriano), a família Laydon (o médico e a veterinária) e outros. A cidade era unida, quieta e charmosa.

Mas aí o normal acabou. Por volta do segundo mês comecei a sentir que tava sendo observado o tempo todo. A sensação era pior no corredor do apartamento, como se algo estivesse furando minha nuca com o olhar. Parecia aquele medo de andar num beco escuro sozinho à noite.

Uma noite acordei de repente, com o coração disparado. Tinha uma sensação forte de que tinha algo no quarto. Depois de olhar ao redor e não ver nada, ouvi:

Toc. Toc. Toc.

As batidas começaram. Primeiro achei que era na janela ou na porta da frente. Mas não. As batidas eram na porta do meu quarto. Três toques, pausa, três toques de novo.

Toc. Toc. Toc.

Quando me aproximei da porta, senti um cheiro horrível de coisa morta, de podridão. Segurei o estilete que tinha deixado na mesinha e encostei o ouvido. Silêncio absoluto.

De repente:

BAM! BAM! BAM!

A porta sacudiu violentamente, como se fosse ser arrombada. Eu me arrastei pro outro lado do quarto, me escondi debaixo da mesa e gritei:

“Por favor! Vai embora!”

Aí parou. Fiquei encolhido ali até pegar no sono de puro cansaço.

Acordei de manhã ainda debaixo da mesa. Não tinha nada no apartamento mexido, só duas marcas molhadas em formato de pegada no carpete bem na frente da porta do quarto.

Os dias seguintes voltaram a ser calmos, mas não durou. As batidas voltaram várias vezes, sem padrão fixo. Às vezes três dias depois, às vezes nove. Cada vez mais fortes. Já faz meses disso. Tô dormindo cada vez pior. Quando aparece agora, bate com mais raiva.

Eu sei que devia ligar pra Sylvie, mas tô com muito medo do que ela pode me contar. Tô apavorado. Sei que vai acontecer de novo hoje à noite. Alguém, por favor, me diz o que fazer. Me ajuda.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon