domingo, 5 de abril de 2026

O Pastor das Sombras

A luz da manhã filtrava-se pelas janelas de vitral da catedral, lançando um brilho estranhamente sereno sobre os bancos de carvalho. Dei um gole no chá quente, sorrindo de leve ao ouvir as crianças do coral brincando alegremente no pátio. Eu amo esta vida; ela me mantém perto de Deus e me permite viver plenamente, com fé e felicidade, ao lado dos paroquianos desta terra, especialmente das crianças, que fazem minha alma se sentir pura e serena. No entanto, o jornal em minha mão naquele momento não trazia paz alguma.

A manchete da primeira página estampava em letras garrafais: “A QUARTA VÍTIMA — O ASSASSINO QUE ARRANCA A PELE AINDA ESTÁ À SOLTA.” Outro corpo havia sido encontrado sem um único centímetro de pele, largado à beira da estrada como uma massa ensanguentada e pastosa de carne. Dobrei o jornal, soltei um suspiro baixo e limpei minha mesa, bem quando uma batida soou à porta.

Eram dois policiais locais. Seus rostos estavam marcados por tensão e exaustão. Tinham vindo perguntar sobre Anna, uma moça adorável, habilidosa e entusiasmada, que era responsável pelos arranjos florais do Altar de Nossa Senhora e uma seguidora profundamente devota.

— Padre, ninguém a vê há três dias — disse um dos policiais. — Tememos que ela possa ter se tornado alvo do assassino.

Franzi a testa, exibindo um semblante preocupado. — Meu Deus, Anna é uma criança tão santinha. Por favor, façam todo o possível para encontrá-la. — Forneci a eles algumas informações sobre as últimas vezes em que Anna havia vindo até aqui, suas atividades diárias na igreja, e então os despedi com uma oração. Eu esperava que a polícia fizesse bem o seu trabalho e trouxesse justiça às vítimas.

A noite caiu. A catedral mergulhou na luz tremulante das velas e em seu silêncio habitual. Entrei no confessionário, sentei-me e fechei os olhos para esperar.

Um momento depois, passos se aproximaram.

Não era o som de saltos batendo no chão de mármore, mas um ruído muito estranho. Chloft... ping... Cada passo vinha acompanhado de um pesado som de gotejamento. Não era claro como água da chuva, mas espesso e pesado. Tump. Tump. O penitente entrou no compartimento ao lado, atrás da fina divisória de madeira. O odor metálico de ferrugem começou a rastejar pelo espaço estreito.

— Perdoe-me, Padre, porque pequei...

A voz veio do outro lado da divisória. Surpreendentemente, era a voz de Anna, a garota dada como desaparecida havia dias. Mas já não era a voz límpida, de pássaro, que eu conhecia; era rouca, úmida e áspera, como se algum fluido espesso estivesse entupindo sua garganta.

— O Senhor está sempre ouvindo, minha filha — respondi em um tom calmo, firme e grave.

Anna começou a falar. Não era uma confissão comum, mas uma história horrenda. Ela disse que, dias antes, fora visitar uma amiga próxima. Quando a porta se abriu, a amiga pareceu recebê-la e convidá-la a entrar. Mas Anna percebeu imediatamente que havia algo errado. A pele da amiga estava flácida e frouxa, com dobras pendendo pesadamente ao redor do pescoço e da linha do maxilar. Parecia muito estranho, como alguém vestindo roupas grandes demais para o próprio corpo.

Enquanto a amiga ia fazer chá, Anna esperou na sala de estar. De repente, ouviu um barulho de farfalhar vindo do guarda-roupa de madeira, acompanhado por um fraco choro ofegante pedindo socorro. A curiosidade venceu seu medo; Anna deu um passo à frente e abriu lentamente a porta do guarda-roupa.

E então, uma visão de horror absoluto atingiu seus olhos.

Uma figura humana de carne viva e vermelha, completamente sem pele, saltou para fora do guarda-roupa e agarrou o ombro de Anna. Ela arquejou com uma voz quebrada: “Me salva...” Apesar do choque e do terror, Anna reconheceu imediatamente a voz da sua melhor amiga. A pobre criatura desabou e morreu ali mesmo sobre seu ombro, o sangue encharcando sua camisa.

Anna gritou freneticamente, empurrou o cadáver para longe e saiu correndo da casa. Depois de correr um trecho, olhou para trás. Pela janela, a “amiga” de pele flácida estava ali, imóvel, o rosto sem expressão, os olhos fixos e atentos na direção em que ela fugia.

Anna relatou o caso à polícia. Eles foram investigar rapidamente, mas não encontraram nada de errado com a amiga, nem corpos sem pele, nem vestígios. Mas Anna tinha absoluta certeza do que viu; a sensação não podia estar errada. Aquilo a aterrorizou tanto que ela não ousava mais sair de casa.

— Mas, Padre... — a voz de Anna atrás da divisória começou a tremer, misturada a ofegos borbulhantes. — Desde aquele dia, senti como se estivesse sendo observada. Principalmente à noite. Comecei a sonhar. Sonhei que estava fazendo meu trabalho diário. Eu estava costurando uma roupa linda, uma grande obra-prima... Esse sonho me persegue, roendo minha mente.

Permanecei imóvel, meus olhos fitando indiferentes a escuridão do confessionário. — E então, o que houve, minha filha?

— Uma semana se passou... Decidi continuar meu trabalho como costureira — gritou Anna, sua voz se distorcendo, carregada de uma excitação mórbida. — Cortei cada pedaço de material para fazer a roupa do meu sonho. Peça por peça... eu os arranquei do corpo... depois costurei tudo cuidadosamente em uma peça completa... Vesti-la... realmente é maravilhoso, Padre.

Shhk!

Um som áspero ecoou. A tela de madeira que me separava da penitente foi cortada ao meio por uma tesoura de costura afiada; o corte foi limpo e rápido.

O rosto de Anna apareceu diante dos meus olhos através da abertura. Não, aquilo não era Anna. Era algo que se enfiara dentro da carcaça da pobre garota. A pele do rosto estava enrugada e solta, costurada com fios grosseiros na linha do pescoço. Gotas espessas de sangue vazavam pelas costuras, escorrendo até o chão e produzindo o som pesado de gotejamento que eu ouvira antes.

O demônio em pele humana sorriu, um sorriso rasgado que se estendia até as orelhas.

— Que Deus me perdoe pelo que fiz e pelo que estou prestes a fazer — sussurrou, com o olhar ganancioso preso ao meu rosto. — Padre, o senhor tem uma pele tão maravilhosa...

A ponta afiada da tesoura de costura atravessou lentamente a divisória, apontando diretamente para o meu olho.

Eu nem pisquei. A máscara de pastor gentil caiu lentamente.

Falei, não com voz humana, mas com uma ressonância profunda e vazia, ecoando do abismo:

— Deus é rico em misericórdia; Ele perdoa os seus pecados. Mas eu não tenho tal misericórdia.

A temperatura dentro do confessionário despencou subitamente abaixo de zero. As velas do lado de fora se apagaram. Sob meus pés, a sombra escura projetada no chão começou a se contorcer. Ferveu como uma panela de piche, depois se alongou a uma velocidade aterrorizante, serpenteando pela divisória e se prendendo com força à sombra do demônio.

A tesoura caiu no chão com estrondo. O demônio ficou paralisado, incapaz de mover sequer um dedo.

Lentamente, tirei meus óculos de aro redondo. Meus olhos não tinham brancos, nem pupilas, apenas a escuridão espessa e sólida do vazio. Olhei diretamente para o demônio.

A fome em seu rosto flácido desapareceu instantaneamente, substituída por puro terror. Pela primeira vez, o caçador percebeu que era a presa.

— Não... isso não pode ser... — gritou o demônio, com a voz aguda e desesperada.

Minha sombra abriu bocas invisíveis. Ela não apenas o prendeu; começou a banquetear-se. Dos pés ao topo da cabeça, o demônio foi lentamente arrastado para a escuridão infinita, afundando na própria sombra. Ele gritou. Um grito que rasgou sua garganta, carregando a agonia extrema de uma alma esmagada e devorada viva. Eu saboreei silenciosamente minha refeição.

Segundos depois, o som cessou. O demônio estava completamente submerso dentro da minha sombra; não restava nem um único fragmento de sua alma. A única coisa que ficou foi a pele de Anna, caindo no chão do confessionário com um chape pesado e úmido.

Abaixei-me e peguei aquela carcaça frágil. Soltei um suspiro e fiz a última coisa que precisava fazer.

Alguns dias depois, a polícia encontrou o corpo de Anna em uma mata rala não muito longe da cidade. Diferente das vítimas anteriores, seu corpo estava intacto, tranquilo como se estivesse dormindo, sua pele ainda perfeitamente no lugar. A caçada ao assassino que arrancava pele continuou e, embora nenhum culpado tenha sido encontrado, nunca haveria outra vítima.

Mas a coisa mais estranha não estava no cadáver.

Naquele dia, quando as pessoas voltaram à igreja para levar a notícia, descobriram que não havia igreja alguma. No terreno elevado no centro da cidade, onde deveria ter se erguido uma catedral de pedra centenária, agora havia apenas um lote vazio e desolado, coberto por ervas daninhas na altura do joelho.

O pastor amigável, as confissões, o coral... tudo havia sido completamente apagado da realidade. Até mesmo as memórias dos moradores sobre aquela catedral começaram a desaparecer, sumindo como um sonho enevoado quando o sol nasce. Eu não podia permanecer mais neste lugar. Eu precisava encontrar outro lugar... outro lar... onde eu pudesse continuar meu trabalho.

Tenho Visto Coisas Estranhas no Espelho

Eu sei que é uma coisa estranha de se afirmar, e isso coloca em dúvida o que estou prestes a escrever, mas eu queria mesmo era estar simplesmente perdendo a sanidade. Seria tudo muito mais simples. Se houvesse uma explicação fácil assim, não existiria essa sensação corrosiva dentro de mim, me desmasculinizando um pouco mais a cada dia. Mas esse mal-estar só continua crescendo, e eu só espero em Deus que eu esteja realmente louco, e que nada disso seja real.

Tudo começou há um mês, ou pelo menos foi quando comecei a perceber. Depois de barbear o rosto no banheiro certa manhã, eu estava apenas lavando qualquer resto de espuma de barbear e fui olhar no espelho para ter certeza de que tinha tirado tudo.

Pois é, tudo, exceto que notei um corte no meu pomo de Adão. Lembro de murmurar algo como: “Isso com certeza é um mau presságio.” E, assim que eu disse isso, notei que meu reflexo estava fechando os olhos.

Os olhos dele se abriram instantaneamente depois disso, e ele se comportou como meu reflexo sempre se comportava, isto é, normalmente, mas foi só nisso que consegui pensar a caminho do trabalho. Lembro de me perguntar se eu tinha observado alguma rara lei da física em ação ou se estava só alucinando porque estava muito cansado, mas acabei rabiscando aquele episódio num post-it quando cheguei ao trabalho e trazendo aquilo de volta para casa comigo como registro do acontecimento.

Nem precisava, porque isso ia acontecer de novo, e de novo, e de novo depois disso. Na manhã seguinte, assim como na manhã anterior, encontrei meu reflexo apertando os olhos com força, mas dessa vez ele também sorriu de um jeito divertido e maroto, que realmente me deixou nervoso e me fez rir. Isso durou só alguns segundos, e então ele voltou ao meu reflexo normal.

No dia seguinte, enquanto fechava os olhos, ele fez um gesto de “silêncio” para mim com a mão e então começou a fazer caretas para mim. Eu ri de forma menos nervosa dessa vez, mas aquilo realmente me fez pensar. Comecei a tentar inspecionar meu reflexo sempre que passava por um espelho ou uma janela. No caminho para o trabalho, no espelho do carro, no espelho do banheiro do escritório, eu ficava olhando sem nenhum resultado interessante, mas toda manhã, quando eu estava diante do espelho do banheiro para me barbear e escovar os dentes, meu reflexo entrava nessas palhaçadas malucas, como fazer uma dança engraçada, ou tentar equilibrar as coisas que eu tinha deixado na pia, como meu pente, escova de dentes, pasta de dente e lâmina de barbear. Algumas manhãs, ele até parecia querer brincar de mímica.

Nesse ponto, eu já não estava tão alarmado assim. O meu pensamento era que, se isso só acontecia no espelho do banheiro de manhã, e não afetava realmente a minha vida, além de me entreter por alguns minutos, qual era o problema? Claro, talvez eu fosse maluco, mas não tão maluco, certo? Eu estava bem com as coisas como estavam. Não me incomodava — até que incomodou.

Uma manhã, meu reflexo simplesmente saiu pela porta do meu banheiro e não voltou. Verifiquei o espelho do carro quando fui dirigir até meu escritório, e ele estava lá, e meu reflexo no espelho do banheiro do meu escritório também estava lá, então eu não me preocupei até chegar em casa e perceber que não conseguia encontrar meu reflexo no espelho do banheiro. Isso era estranho, e ligeiramente inconveniente, mas eu realmente não liguei muito além de uma curiosidade inocente, até encontrar um bilhete na mesa de centro. Rabiscadas em giz de cera vermelho, naquela letra torta que parecia irregular e enorme, estavam as palavras: “Agora eu saí!”

Na manhã seguinte, meu reflexo ainda estava desaparecido, e coisas estranhas começaram a acontecer. Comecei a perder coisas que eu tinha acabado de largar, ou encontrar coisas onde elas não deveriam estar. Isso se agravou quando pessoas que eu conhecia começaram a me dizer que tinham acabado de falar comigo, mas que eu estava fazendo a coisa mais estranha: mantendo os olhos fechados o tempo todo. As pessoas realmente começavam a se mostrar surpresas quando me viam, porque aparentemente eu tinha acabado de dizer a elas que estava indo para casa, ou tinha acabado de ir para outra direção e voltado de maneira impossível e rápida pela direção oposta.

A garota com quem estou saindo atualmente me mandou mensagem enquanto eu estava no trabalho, dizendo como eu era fofo por ter ido visitá-la e levado flores. Fiquei tão perturbado depois de ler aquilo que não consegui evitar perguntar, de maneira totalmente desastrada: eu estava com os olhos fechados? Ela respondeu de volta: é, você disse que tinha dilatado, lembra?

Nessa altura, a estranheza já era demais para mim, e eu estava pensando em procurar algum tipo de psiquiatra. Todo mundo estava me dizendo essas coisas esquisitas que não podiam ser verdade, e eu estava encontrando esses bilhetes na minha casa, rabiscados em giz de cera vermelho agressivo, que liam mensagens cada vez mais ameaçadoras, o que já era demais para mim. Então chegou ao ponto em que eu estava decidido a falar com um psiquiatra na manhã seguinte. A consulta já estava marcada, e eu só precisava ir.

Naquela noite, decidi convidar minha namorada para jantar e assistir a um filme. No meio de assistir a Stay, de 2005, que provavelmente não foi a melhor escolha dado o meu estado mental, recebi uma mensagem de um colega de trabalho, dizendo que talvez parecesse estranho, mas que hoje ele tinha visto a coisa mais estranha e não conseguia explicar. Enquanto passava pela minha baia, ele jurou ter visto outro eu parado bem atrás de mim, mas esse eu estava com os olhos fechados e sorrindo de um jeito desumanamente largo. Esse outro eu dirigiu seu sorriso para ele, meu colega de trabalho, enquanto ele passava, e, como a visão era tão bizarra, ele teve de olhar duas vezes e conferir de novo, mas quando voltou rapidamente para ver os dois eus outra vez, o outro já tinha sumido. Acho que andei bebendo café demais, ele terminou a mensagem com isso.

Enquanto eu lia aquilo no celular, a campainha tocou, e minha namorada se ofereceu para atender e se levantou depressa, porque acho que ela não estava gostando do filme. Quando terminei de ler a mensagem no celular, minha namorada voltou para perto de mim e perguntou como eu tinha feito aquilo. Feito o quê?, eu respondi. Como eu tinha me levantado do sofá, corrido até a porta, tocado a campainha e depois ficado ali, entregado a ela um bilhete e então reaparecido no sofá. Ela achou que tudo aquilo era um truque de mágica que eu tinha feito só para ela. Ela queria falar mais sobre isso, mas eu estava impaciente e só queria ver o bilhete, então exigi que me entregasse.

Quando ela me passou aquilo, senti o sangue gelar. Naquele mesmo giz de cera vermelho, na mesma letra de garrancho, estava a mensagem: Eu sou o verdadeiro.

Algo Quebrou a Quarta Parede da Nossa Realidade

Algo Quebrou a Quarta Parede da Nossa Realidade.

Dizem que um dia de revelação está chegando em breve. Um dia em que o público vai conhecer a verdade sobre alienígenas, sobre UAPs, anjos ou demônios — tudo isso é bonito, mas, honestamente, eu não me importo mais. Eu conheci o Outro. Acho que todo mundo também conheceu.

Em certo momento, pensei que fosse distração. Mas não é.

Quando chega a hora certa, e a lua cheia desliza entre duas estrelas escuras, num instante de alinhamento breve, porém brilhante; é então que o olhar impossível deles atravessa.

Tive minha segunda crise convulsiva do tipo grand mal no meu aniversário de vinte e um anos, outro dia. Estávamos olhando as estrelas, Mel e eu. Procurando confirmação daquela força esotérica que acreditávamos se esconder logo atrás do véu da realidade. Éramos buscadores, nós dois, unidos depois de uma experiência brutal com dimetiltriptamina que arrancou o núcleo dos mundos de ambos. No chão da sala dela, no quieto resplendor que se seguiu à nossa comunhão momentânea com o Abismo Gritante, admiti para ela que eu já tinha estado lá, já tinha feito aquilo, muito tempo atrás.

“Feito o quê, exatamente?”, ela murmurou. “Conheceu os... os elfos? Os alienígenas? O que quer que aquilo, ou aqueles... seres... realmente fossem?” Ela parecia inquieta. Como se já soubesse.

“Você sabe o que quero dizer. Você não sentiu? Sentiu aquilo olhando para você?”

Ela afastou do olho o cabelo ruivo-escuro e encarou o cinzeiro no chão, o cigarro erguido, a brasa fumegando. “Eu não sei exatamente o que você quer dizer. Quer dizer. Acho que sei...”

“É de fora”, eu disse. Fiz um gesto vago para o quarto enevoado ao nosso redor. O nosso universo inteiro. Nosso pequeno abismo particular. Nosso útero temporário, talhado do próprio mundo.

“Você já se perguntou como pode dormir por uma soneca curta, dez minutos ou coisa assim, mas parecer que passou uma vida inteira?”

Ela ergueu os olhos do chão. Os olhos cor de avelã dela estavam arregalados. Vou considerar isso um sim, pensei.

“Porque a mente não é matéria. Como dizem todos os materialistas? — eles estão todos errados, sabe. Não é matéria, e não é espaço nem tempo. Veja. Sua mente é como um corpo. Um que fica do lado de fora desta realidade, mas que, de algum modo, a entorta. Como a massa entorta a gravidade. Este lugar? Esta realidade dentro da qual estamos? Ela pertence à mente dele. A mente dele é o oceano da realidade em que nadamos.”

Foi então que contei a ela a história da minha primeira crise convulsiva grand mal, quando eu era só uma criança. Como eu tinha encontrado algo antes. Algo inexplicável. E desde então, exatamente como aquilo disse que faria, esse algo havia me seguido. Seu olhar impossível, de fato, havia atravessado, repetidas vezes, desde então.

Eu era criança. Meus pais estavam brigando. Gritando um com o outro, atirando coisas pela cozinha da nossa velha trailer. Eu estava deitado na cama, encarando a escuridão do meu quarto, ouvindo-os se despedaçando mutuamente. Eu implorava por alguma coisa que me tirasse do quarto. Que me arrancasse debaixo do cobertor e me levasse embora. E foi então que meus olhos por acaso se desviaram para a janela. Para o bosque de pinheiros jack, tudo mercúrio e sombra, bem na beirada do quintal. E então meus olhos o encontraram: uma estrela. Pairando acima da linha das árvores. E parecia estar olhando de volta.

Fiquei hipnotizado. Esse pequeno olho prateado, carrancudo, ciclópico e horrível, encarando. Eu conseguia sentir, sentir que ele estava me observando.

E então ele começou a tremer. A se expandir. Eu congelei dentro dos cobertores. Não conseguia desviar o olhar.

Foi então que o telefone tocou. Lá fora, na sala de estar, logo depois do corredor estreito. Saí do transe, esperando que meus pais o atendessem. Só que isso não estava certo — porque, na verdade, eu tinha sido arrancado do transe tanto pela ausência dos gritos deles quanto pelo som estridente do telefone.

Fiquei ouvindo. Tocou pela terceira vez. Em cada intervalo entre os toques, não ouvi nada. Um silêncio intersticial e frio. Não apenas meus pais não estavam gritando, como também eu não conseguia ouvi-los se mexendo. Não conseguia ouvir absolutamente nada, a não ser cada novo toque daquele velho telefone sem fio. Como se tivessem sido sugados para fora da trailer.

Por uma razão que não consigo explicar por completo, empurrei o cobertor para longe e me levantei. Então uma perna avançou de repente, desajeitada e fria. A outra veio atrás. Um caminhar estranho e travado. Meu centro de gravidade balançava sem controle, como se eu fosse carregado nas pernas de um recém-nascido cambaleante.

Toca. Agora silêncio.

O corredor já não era o corredor. Uma mente secundária — uma mente que era a minha própria — percebeu as mudanças. Só que a mente que percebia estava escondida em algum outro lugar, talvez em alguma outra parte da trailer e em outra casa inteiramente diferente. (Toca, toca.) Mas a mente que de repente estava guiando os motores do meu corpo, este novo corpo, não tinha medo. Esses novos olhos não se incomodavam com o corredor à medida que ele se esticava, se esticava e se estreitava, telescopando-se como uma cobra em direção ao brilho azul-esfumaçado da sala de estar. Toca. Depois mais silêncio.

Entrei cambaleando na sala de estar. (A nova sala de estar, porque a velha estava escondida, agachada em alguma outra parte do mundo.) Olhei para o sofá. Nele estavam sentados um menino e uma menina que eram meus irmãos. (Mas isso era impossível, porque eu sou filho único... ou eu era filho único?). Um era mais velho do que eu e o outro era mais novo, mas eu não conseguia dizer qual era qual. Estavam encharcados no brilho pálido e azulado da tela de uma TV que mostrava apenas estática. Quando olhei para eles, pararam de sorrir para mim com aqueles dentes horríveis, fileiras e fileiras de dentes de leite pequenos, mastigando, mastigando, e então se viraram de novo para a TV e já não estavam sorrindo.

Quando olhei para a TV, já não era estática coisa nenhuma. Era um homem, um homem que eu conhecia muito bem, mas que eu jamais tinha encontrado. Ele estava deitado na grama úmida da meia-noite, em meio a uma crise grand mal. Ele tinha minha cor de cabelo, pensei, entorpecido. Aquilo parecia com roupas que eu reconhecia, mas eu não sabia como.) Virei o rosto.

Toca. Toca. Toca.

Por fim, aproximei-me da mesinha de cabeceira. Estendi a mão e peguei o telefone. Quando o encostei ao ouvido, ouvi uma voz, ou muitas muitas vozes, vozes horríveis, e todas elas diziam isto:

“Lá fora. Venha para fora e me encontre. Meu nome é O Autor, e O Autor é este lugar inteiro. Tudo dentro dele. Venha para fora e me encontre.”

Então desligaram.

Minhas pernas de recém-nascido cambalearam até a cozinha, onde meus pais estavam esperando de repente. Mas eu não conseguia dizer qual deles era minha mãe e qual era meu pai — pareciam estar usando os traços um do outro, usando os membros do outro. “Vem cá”, diziam. “Sua mente, nossa mente, venha se dissolver de volta em nós.” E, claro, eu sabia mais, mas fui até eles.

Por um pequeno segundo, quando olhei para ela antes de ela me abraçar, ela realmente era minha mãe (mas, de novo, não podia ser, porque estava escondida, escondendo-se em algum outro lugar de outra casa inteiramente diferente). Quando os braços dela se enrolaram em mim tão amplamente, porém, ela não era ela mesma de forma alguma, porque tinha mãos demais, tantas mãos deslizando avidamente sobre meu corpo pequeno, e a maioria delas não parecia humana. Eram as mãos daquelas criaturas sombrias e terríveis que se agachavam tagarelando no escuro da floresta. Havia mãos de marionetes, dedos de madeira me apertando com força. Havia mãos sem pele, quentes e oleosas, os jabs dolorosos de ossos dos dedos. Senti os dedos dos pés de alguém se enroscarem na minha coxa. Um tentáculo estranho, semelhante ao de uma sanguessuga, deslizava úmido pela minha bochecha.

Foi naquele momento que meus pais começaram a cantar para mim uma música que cantávamos juntos, cantávamos juntos na longa estrada aberta durante as férias de verão. Mas era apenas a melodia de This Land Is Your Land. As palavras estavam todas erradas:

“Este mundo é minha terra, não mais sua terra

um dia ele acaba, cara, numa guerra com o Irã

vou te ver convulsionando, descendo do céu

serei sua visão, em dois mil e onze...”

Naquele momento, eu me puxei dela. Senti as mãos escorregarem para longe. Quando olhei de volta para eles, as mãos e os membros tinham desaparecido, e ambos se viraram, de frente para a tela da TV agora, assistindo ao homem convulsionando na grama úmida da meia-noite. Até que o olho na parte de trás da cabeça do meu pai se abriu e piscou enormemente para mim através do cabelo louro e desgrenhado dele. Então o olho abriu a boca e gritou.

Saí pela porta aos tropeços, horrorizado, esperando encontrar alguma sanidade. Ergui os olhos imediatamente, para encontrar O Autor. Mas então vi que eu estava muito dentro de O Autor. A grama úmida da meia-noite fervilhava de vida. Coisas sem corpo se erguiam do solo e uivavam de dor. Mais rápido do que o olho pode piscar, seres sem luz corriam de um lado para o outro numa agitação frenética, como sombras de estrelas cadentes. A terra se contorcia em agonia. Os pinheiros jack se dissolviam em suas próprias raízes e os amanitas haviam formado muitos círculos largos onde o chão se erguia e descia em respirações irregulares. Por fim, olhei para o firmamento mais negro que eu jamais tinha visto.

Já não eram as estrelas que estavam dispostas em suas constelações, mas pingando na terra e explodindo em furiosas nebulosas violetas. Havia apenas uma que permanecia imóvel, apenas uma que eu podia apontar, e ela se chamava O Autor.

“Eu sou a mente que é o oceano no qual você nada”, ela ressoou na minha consciência. “E agora você sabe que eu vejo você. Quando chegar a hora certa, e a lua cheia deslizar entre duas estrelas escuras, num instante de alinhamento breve, porém brilhante; é então que o olhar impossível deles atravessa.”

E, com isso, eu estava de volta ao meu corpo normal, aos sete anos de idade, e estava tendo uma convulsão no chão da cozinha. Não meu corpo real, porque, de algum modo terrível, o Novo Corpo, aquele mundo, parecera mais real do que a própria realidade.

Quando terminei a história, Mel estava pálida como um fantasma. “Então essa foi a sua visão”, disse ela.

Eu assenti.

E, desde aquela viagem estranha em dois mil e onze, aquela viagem em que eu havia me encontrado, mais uma vez, com o guardião deste mundo, chamado O Autor, nós tínhamos esperado a guerra com o Irã. E agora ela estava aí. Quando, na noite da lua cheia, recebi uma mensagem de texto. A princípio pensei que tivesse sido enviada para todo mundo, para a nação inteira. A Casa Branca tinha anunciado que um alienígena real, um UAP verdadeiro, chegaria nesta mesma noite para todos verem, eu liguei para ela naquele instante.

“É O Autor”, eu disse. “Eu sei que é. Este é o seu domínio. Somos atores no palco dele. Ele está sempre observando.”

“Do que você está falando?”

“Você não recebeu a mensagem? A mensagem da Casa Branca?”

Ela me disse que estava preocupada comigo, mas concordou em me encontrar. Eu disse para ela me encontrar no meu quintal, onde as estrelas estariam claramente visíveis.

Mais tarde naquela noite, ficamos de pé, olhando para as estrelas, com os pés plantados na grama úmida da meia-noite. Apontei. “Lá está”, eu disse. Mel tinha ficado muito quieta a noite inteira. Eu tinha uma vaga noção de um ruído vindo de trás de mim, alguma coisa úmida, talvez o estalar de ossos, o rasgar de vísceras. Bem alto, a estrela já tremia. Em sua grande pressa de se expandir, de me engolir em todas as suas vastas mudanças. Mas, quando me virei, Mel havia desaparecido.

No lugar onde ela estava, ele estava agora.

Talvez fosse um inseto. Era difícil olhar para aquilo, como se a criatura estivesse falhando, de algum modo digital e crepitante, uma composição de carne e do que pareciam ser flutuadores prateados do olho. Algum tipo de louva-a-deus, talvez. Talvez fosse Mel, mas rearranjada, todos os traços dela, os membros dela, o corpo dela desmontados e então montados de novo como essa entidade nova e terrível. As pinças de luz e osso dela clicavam e estalavam. As partes horríveis da boca se abriram:

“Este não é o mundo, este mundo é minha terra”, cantou com a voz de mil almas agonizantes e gritando, algumas delas humanas. Então, falando mais baixo, não para mim, mas para eles, para os Outros:

“Então vocês veem a verdade dos seus sonhos sem corpo, seus vislumbres do Outro, seus contos de fadas e conspirações — tudo isso leva de volta a mim? A verdade terrível demais para reconciliar? Não haverá revelação. Não vão pôr fogo em tudo antes de desvelarem a realidade?”

Agora não tenho certeza se havia uma Mel. Acho que ela sempre foi o grande ser, O Autor, me ajudando a guiar até este lugar, até este tempo, enfim. Olhei de volta para a estrela quando a terra começou a recuar, os pinheiros jack começaram a chorar e a ranger os dentes de fúria.

Eu estava apenas parcialmente consciente de que, de algum modo inexplicável, estava ali parado como o Novo Eu, o Segundo Eu, e convulsionando na grama úmida da meia-noite.

Quase pude ouvir os mísseis hipersônicos, provavelmente a caminho daqui.

Então fechei os olhos, senti a brisa fria pousar sobre minha pele como gafanhotos, incontáveis pequenas coisinhas rastejantes, absorvidas pelas minhas vísceras se arrastando.

Com os olhos fechados, vi isto:

Aquela única estrela estava me olhando de volta através da escuridão da minha própria mente, com seu olhar impossível atravessando tudo.

sábado, 4 de abril de 2026

O Coelhinho da Páscoa me deixou 4 ovos e matou minha família inteira

Você precisa esquecer tudo o que acha que sabe sobre a Páscoa. Os ovos coloridos, o chocolate, tudo isso. Na minha família, a gente não espera a Páscoa com ansiedade. A gente teme por ela. Estou te contando isso na Sexta-feira Santa, 3 de abril de 2026. Já se passaram vinte anos.

Vinte anos até o dia em que tudo começou, o dia em que o Coelhinho da Páscoa escolheu minha família. A lista dele não tem nada a ver com ser levado ou bonzinho… é uma ordem de execução. E o som abafado que eu ouço lá fora? Aquele cheiro fraco e adocicado de feno úmido e terra invadindo por baixo da minha porta? Isso significa que ele está aqui. E acabou de escolher meus filhos.

Tudo começou numa Sexta-feira Santa, lá em 2006. Eu tinha dez anos, e a vida ainda era simples. Morávamos numa casa de dois andares no fim de uma rua sem saída silenciosa, com os fundos dando para um trecho denso de mata. A Páscoa era algo enorme na nossa casa. Minha mãe organizava os feriados com precisão militar, então o ar já estava pesado com o cheiro de pãezinhos assando e presunto glaceado com mel. Meu pai tinha acabado de passar a tarde montando uma bicicleta nova para meu irmão mais velho, Michael, e a escondeu sob uma lona na garagem. Éramos só… uma família normal e feliz.

Foi naquela sexta-feira que tudo começou a parecer errado. Eu estava no quintal com meu pai, juntando as últimas folhas mortas do inverno. Foi então que eu vi, bem na beira da mata. Uma única pegada enorme, afundada fundo demais na lama. Era grande demais para ser o pé de uma pessoa, comprida e estreita demais. Parecia só… errada. Uma paródia distorcida de uma pegada. Mostrei aquilo para meu pai. Ele estreitou os olhos, apoiando-se no ancinho. “Provavelmente só uns moleques aprontando”, disse ele, com aquela confiança fácil de adulto que cala uma criança. “Ou um cervo, talvez.” Mas não era um cervo. Cervos não deixam uma única pegada. E não deixam para trás um leve cheiro de feno molhado e alguma coisa metálica, como moedas velhas.

Mais tarde, naquela noite, depois que o sol se pôs, minha mãe chamou a gente para dentro. Quando corri de volta pelo gramado, olhei na direção da mata. Por um segundo só, um lampejo no crepúsculo, juro que vi alguma coisa ali parada nas sombras. Uma forma alta e magra. E as orelhas… aquelas orelhas eram impossíveis de confundir. Longas e pontudas contra o resto da luz que ainda morria. Pisquei, e ela sumiu. Disse a mim mesma que devia ser só um galho, meus olhos me pregando peças. Mas aquele medo frio já se torcia dentro do meu estômago. Eu sabia, com a certeza que só crianças têm, que aquilo não era uma árvore.

Na escola, a gente tinha histórias. Toda criança tem. Lendas locais que se trocam no recreio. A nossa era o Bunny Man. A história era antiga e tinha uma dúzia de versões diferentes. Alguns diziam que ele era o fantasma de um paciente fugitivo de hospício chamado Douglas, que esfolava coelhos para vestir e, no fim, começou a esfolar gente. Outros diziam que, se você fosse até a velha Colchester Overpass à meia-noite e falasse o nome dele três vezes, ele apareceria e te penduraria na ponte. Tem um motivo para chamarem aquilo de Bunny Man Bridge.

A gente até tinha uma rima para ele, um canto de corda de pular. Nossas vozes eram todas cantaroladas e inocentes, sem ideia do que realmente estávamos falando.

Bunny Man, Bunny Man, machado a reluzir,

Se esconde nas sombras, não dá para o ver surgir.

Não usa lista, não confere duas vezes,

Ser bom ou mau não salva a vida de vocês.

Era para ser uma história de fantasma. Mas eu tinha ouvido os outros sussurros. Os verdadeiros. Dos mais velhos, cujos pais não eram cuidadosos. Eu tinha ouvido falar da família Johnson, cinco anos antes. O pai era lenhador, e encontraram ele lá na mata. Esfolado. A polícia disse que foi um urso, mas não havia pegadas de urso. Só rumores de uma pegada única e estranha, e umas fibras que pareciam vir de uma fantasia barata de coelho. Eu tinha ouvido falar do garotinho dos Smith, que desapareceu do próprio quintal durante uma caça aos ovos de Páscoa. Nunca encontraram o menino, só os ovos que ele tinha recolhido, arrumados em um círculo perfeito no quarto vazio dele.

Tentei contar aos meus pais sobre a pegada, a rima, a coisa que vi na mata. Tentei juntar as peças que queimavam na minha mente. Minha mãe só me dava aquele sorriso forçado e paciente. “Chega de histórias assustadoras, querida. Você vai acabar tendo pesadelos.” Meu pai só ria. “Não existe Bunny Man nenhum. É só história.” Eles guardaram meus medos numa caixa, rotularam de “fantasia infantil” e colocaram numa prateleira. Eles me amavam. Só não conseguiam imaginar um mundo em que os monstros fossem reais. A descrença deles parecia uma jaula, e eu estava presa dentro dela, sabendo que alguma coisa terrível estava a caminho. A Páscoa estava chegando.

Na noite da Sexta-feira Santa, os sons começaram. Um thump… thump… thump… suave e constante contra a lateral da casa. Parecia um coração gigante batendo dentro das paredes. Fiquei deitada na cama, paralisada, com as cobertas puxadas até o nariz. Por fim, me arrastei até a janela e olhei para fora, para o quintal. Não consegui ver nada além das formas escuras das árvores. Mas o cheiro estava ali de novo, muito mais forte agora. Feno molhado e podridão. E sangue.

No sábado, o mundo parecia cruelmente normal. O sol estava lá fora, os pássaros cantavam. Parecia uma piada doente. Minha mãe estava na cozinha, perdida numa nuvem de farinha e açúcar. Ela pediu ao meu pai para ir buscar a forma grande de assar na garagem. A bicicleta nova do Michael ainda estava lá dentro, e senti um pequeno lampejo de empolgação por ele antes que o pavor o sufocasse de novo.

“Já volto”, disse meu pai. Ele bagunçou meu cabelo ao sair pela porta dos fundos.

Mas ele não voltou logo.

Depois de uns dez minutos, minha mãe enxugou as mãos no avental, com cara de aborrecida. “O que está prendendo esse homem?”, resmungou, indo até a porta. Eu a segui. Meu coração batia forte. A porta da garagem estava aberta só uma fresta. Minha mãe chamou o nome dele. Nada. Ela caminhou até lá, mas eu fiquei paralisada no pátio.

Ela empurrou a porta até abrir completamente e simplesmente… parou. Ela não gritou. É isso que eu mais me lembro. O silêncio. Ela só ficou ali, com a mão tampando a boca. Dei um passo lento para frente, depois outro, até conseguir ver por cima do ombro dela para dentro da garagem.

Meu pai estava no chão, ao lado da lona caída e da bicicleta novinha do Michael. A forma de assar estava no chão perto dali, salpicada de vermelho. A cabeça do meu pai… estava virada num ângulo que não devia ser possível, e a parede atrás dele estava pintada de carmim. Escorado em alguns pneus havia um machado. Era o nosso machado; o que meu pai usava para rachar lenha. Mas ele não estava onde a gente o guardava. E não estava limpo. O mundo simplesmente inclinou. A única coisa que me manteve em pé foi ver as costas da minha mãe, rígidas como uma tábua. Ela se virou devagar; o rosto dela era uma máscara pálida e cerosa. “Vá para o seu quarto”, sussurrou, a voz fina e estranha. “Tranque a porta. E não. Saia. De. Lá.”

Corri. Corri escada acima, passando pelo quarto do Michael, onde ele ainda estava jogando videogame, totalmente alheio a tudo. Tranquei a porta e me escondi no armário, enterrando o rosto num monte de roupas, tentando apagar da cabeça a imagem do machado e da parede.

O resto do dia foi um borrão de policiais, luzes piscando e vozes baixas em cômodos onde eu não podia entrar. Minha mãe quis levar Michael e eu para outro lugar, um hotel, a casa da minha tia, qualquer lugar menos ali, mas a polícia disse para a gente ficar. Disseram que teriam agentes por perto durante a noite. Disseram que a casa estava segura. Eu me lembro da expressão no rosto da minha mãe quando eles disseram isso. Ela não discutiu. Mas eu sabia. Ela sabia. O que quer que tivesse matado meu pai ainda não tinha terminado.

Naquela noite, a casa estava silenciosa como um túmulo. Mamãe colocou Michael na cama, dizendo que o papai tinha ido ajudar um vizinho. Trancou todas as portas, todas as janelas. Depois ficou sentada na sala, no escuro total. Eu não conseguia dormir.

As batidas voltaram, mas já não estavam do lado de fora.

Estavam dentro da casa. Passos suaves e pesados no andar de baixo. Uma tábua do assoalho rangendo no corredor.

Então, ouvi a água correndo no banheiro dos meus pais. Um respingo. Depois… silêncio. Um silêncio espesso e pesado, muito pior do que o barulho. Esperei o que pareceram horas. Não aguentei ficar no meu quarto. Abri a porta devagar e me arrastei para o corredor. A porta do quarto dos meus pais estava aberta. A luz do banheiro estava acesa, derramando-se sobre o carpete.

Andei na ponta dos pés e espreitei pela moldura da porta. Minha mãe estava na banheira. Mas ela não estava tomando banho.

Ela estava pendurada no chuveiro pelo cinto do meu pai, o corpo só… balançando. A garganta dela tinha sido cortada, um sorriso horrível e aberto de orelha a orelha. A água que eu tinha ouvido vinha do chuveiro, lavando o sangue dela pelo ralo.

E na parede branca de azulejos, desenhado com sangue, havia uma imagem tosca de um ovo de Páscoa.

Cambaleei para trás; um grito travou na minha garganta. Eu precisava pegar o Michael. Corri até o quarto dele e escancarei a porta.

A cama dele estava vazia. Os lençóis estavam rasgados e jogados no chão. A janela estava totalmente aberta, as cortinas soprando no ar da noite. E no travesseiro dele, exatamente onde a cabeça dele deveria estar, havia um único ovo de Páscoa azul, cor de ovo de tordo. Ao lado dele, uma cenoura meio comida.

Ouvi uma tábua do assoalho ranger bem atrás de mim.

Não me virei. Só disparei. Pela porta dos fundos, para dentro da mata. Corri até o sol nascer e minhas pernas cederem. Me escondi embaixo de um arbusto, tremendo, enquanto as primeiras sirenes cortavam a manhã de Domingo de Páscoa. Eu era a única que tinha sobrado. Ele não usava lista. Não conferia duas vezes. Por algum motivo que jamais vou entender, ele me deixou ir.

A polícia chamou aquilo de roubo seguido de homicídio. Um andarilho, eles supuseram. A janela aberta no quarto do Michael, algumas joias desaparecidas, essa era a história deles. Meu pai reagiu, e minha mãe foi vítima de uma crueldade sem sentido. Para o Michael, não tinham história nenhuma. Ele só virou uma pessoa desaparecida. Um rosto num folheto. Um fantasma.

Eles não acreditaram numa menina de dez anos em choque. O Bunny Man? Só me olhavam com pena. Minha história foi enterrada sob sessões de terapia e relatórios psiquiátricos. Fui enviada para morar com minha tia em outro condado, longe da mata e dos sussurros.

Por vinte anos, eu tentei com todas as forças ser normal. Fui para a escola, fiz amigos, entrei na faculdade. Conheci meu marido, Mat. O mundo dele é tão concreto, tão abençoadamente normal, que por um tempo eu quase consegui fingir que o meu também era. Nós nos casamos. Compramos uma casa nova, sem passado, sem estalos, sem garagem. Tivemos dois filhos. Lily, que tem os meus olhos, e Sam, que tem o sorriso fácil do pai.

Eu construí uma vida em cima da negação. Mas, todo ano, quando a primavera chegava, o pavor voltava rastejando. Eu via enfeites de Páscoa no supermercado e minha garganta se fechava. Via um cara vestido de coelho no shopping e precisava lutar contra um ataque de pânico de verdade. O passado não estava morto. Só estava dormindo. E eu sempre soube que, um dia, ele ia acordar.

Hoje à noite, ele acordou. É Sexta-feira Santa, vinte anos depois. E as batidas voltaram.

Começaram há uma hora. Aquele mesmo ritmo suave contra a parede da sala. Thump… thump… thump…

“É só a casa assentando, querida”, disse Mat sem levantar os olhos do laptop. “Casas novas fazem isso.”

Mas eu sabia…

Então veio o cheiro. Aquele mesmo feno podre e pelo úmido, infiltrando-se pelas molduras da janela. Eu conferi as trancas três vezes. Fechei todas as persianas.

“O que há de errado com você?”, Mat finalmente perguntou, fechando o laptop. “Você está branca como um fantasma. Isso é por causa da Páscoa de novo? A gente já conversou sobre isso. Foi uma tragédia horrível, aleatória. Mas acabou.”

Ele estava tentando me consolar, mas era como jogar gasolina no fogo. Ele não entende. Não pode entender. Para ele, o Coelhinho da Páscoa é só chocolate e cestas. Para mim, é um assassino num figurino sujo com um machado. É um monstro que despedaça famílias por diversão.

Meus filhos estão dormindo lá em cima. Lily tem oito anos, Sam tem seis. Passaram a noite inteira falando sobre a caça aos ovos da cidade, amanhã. Eles até deixaram cenouras para o Coelhinho da Páscoa. A inocência deles parece um pedaço frágil de vidro, e eu consigo sentir que está prestes a se estilhaçar.

As batidas pararam. E é isso que mais me assusta. O silêncio sempre é pior. Mat suspirou. “Olha, eu vi um galho batendo na lateral da casa mais cedo. Vou cortar. Isso vai te deixar melhor?”

“Não, Mat, não faça isso”, eu disse, a voz trêmula. “Por favor, só fique aqui.”

“Vou demorar dois segundos”, ele disse, beijando minha testa. “Vou sair pela garagem. Tranca a porta atrás de mim.”

Ele foi em direção à cozinha, em direção à porta da garagem. Para a parte de trás da casa. Exatamente como meu pai indo em direção à garagem. A velha rima explodiu dentro da minha cabeça. Meu sangue gelou.

Ele está fora há cinco minutos.

Parece uma hora…

A luz com sensor de movimento no quintal acabou de acender…

Eu não consigo ver os fundos da casa daqui.

Só a luz.
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