sexta-feira, 27 de março de 2026

A gente finalmente ia ser uma família completa de novo. Agora, não sei mais não...

Hoje, tô sozinho de novo. Talvez seja melhor assim.

Meus pais são cientistas. Eu era o único filho deles.

Fotos antigas me mostram radiante, banhado no amor e na atenção deles. Eu tinha aquele olhar travesso. Meus pais achavam que era o começo de uma curiosidade em florescimento, e que eu ia crescer pra virar cientista igual a eles.

Quando eu tinha uns doze anos, a empresa de pesquisa particular deles os mandou pra fazer trabalho de campo no exterior, em algum lugar da costa leste do Mediterrâneo. Algo a ver com vida marinha.

Eu fui pra um colégio interno. Minha curiosidade não vingou. Em vez disso, minhas traquinices inocentes me transformaram num palhaço de classe, um encrenqueiro e um fracassado.

Meus pais só podiam se comunicar comigo por e-mail da empresa. Eu perguntava sobre o trabalho deles, mas eles só diziam que tava indo bem e nunca davam detalhes. 

Aos 18, saí do colégio interno, à deriva no mar sem remo nenhum. 

Aluguei um apê barato num canto podre da cidade e arranjei um trampo remoto frouxo que eu podia fazer do sofá, com meu bong sempre ao alcance da mão.

Nos e-mails, eu dizia que tava na faculdade e morando num dormitório.  

Uma segunda-feira de manhã, depois de um fim de semana bem no fundo do poço, eu tava tão acabado que meus chefes do trampo remoto me baniram temporariamente do sistema com um aviso de desempenho bem seco.

Pra piorar, eu tava atrasado no aluguel, e a agência do proprietário tava ficando séria: paga ou rua.

Aí veio um e-mail com uma grande notícia: a mãe tava grávida. Eu ia ser irmão mais velho. 

E mais: eles tavam sendo transferidos de volta pros Estados Unidos pra trabalho de laboratório. A gente ia ficar junto de novo. Uma família maior e melhor.

Nos meses seguintes, parei de fumar, arranjei um emprego de escritório decente, quitei o aluguel atrasado e até me inscrevi em aulas da faculdade comunitária.

A mãe deu à luz. A menininha, Lotte, nasceu saudável. E assim que ela crescesse um pouco mais, eles iam fazer os arranjos pra voltar pra casa.

Anexada, uma foto: mãe e pai segurando a recém-nascida, toda enrolada em cobertores pra só mostrar o rosto, uma boquinha de bebê fofa, narizinho e umas fendas minúscas de lado onde os olhinhos da bebê Lotte tavam bem fechados contra a luz do dia.

Eles me puseram em contato com um corretor de imóveis que tinha contrato com a empresa deles. Só especificaram que precisava ter controle centralizado de temperatura e umidade, além de uma banheira grande.

Eu sempre odiei banho de banheira, preferindo chuveiro onde me sentia menos vulnerável. Mas imaginei que banho de banheira devia ser importante pra bebês.

Achei a casa, larguei meu apê barato e me mudei. Comprei até um aquário, achando que ia dar um toque legal.

Mais e-mails, mais expectativas de data de volta pra breve, mais fotos da bebê Lotte sempre toda enrolada em cobertores. Brinquei perguntando se ela tinha mesmo algum membro. 

No começo, os olhos dela tavam sempre fechados. Quando finalmente vi com os olhos abertos, a bolinha do olho parecia um pouco achatada, as cores meio turvas. Ainda assim, uma graça. 

Finalmente, meus pais escreveram dizendo que tavam voltando oficialmente pra casa. E esse e-mail tinha o primeiro vídeo anexado:

Bebê Lotte, deitada de costas numa mesa que parece de metal, se contorcendo e se enroscando no cobertor tipo casulo, olhos cinza achatados piscando abertos e fechados. 

E aí, por um segundo, antes do vídeo cortar, a linguinha dela escapando dos lábios pra provar o ar. 

Assisti uma vez atrás da outra como um irmão mais velho orgulhoso. Talvez demais, porque comecei a assistir mais de perto, obcecado pelos detalhes, aqueles últimos segundos, onde a língua dela escorrega pra fora... 

Devia ser um glitch do vídeo por causa da compressão, porque quando pausei e dei zoom, juro que a língua dela era pontuda. 

O grande dia chegou. A casa tava em ordem. Eu tava em ordem. 

O táxi parou. A gente se abraçou todo mundo. Eles pegaram Lotte, na cadeirinha dela, do banco de trás, e entramos todos.

Perguntaram se eu queria pegar ela no colo. Queria. 

Sim, ela tinha braços e pernas e mãos e pés e dez dedinhos nas mãos e dez nos pés. Igual qualquer bebê normal. Bom, talvez os braços e pernas parecessem um pouco pequenos e murchem, mas o que eu entendia de corpinho de bebê? 

Segurei ela pertinho e cheirei a cabecinha, como eu tinha ouvido que se faz com bebê. Cheirava um pouco salgado, tipo mar. Era normal? Não perguntei.

Mal podia esperar pra contar pra eles sobre meus estudos, trampo e planos pro futuro. Mas eles pediram pra eu ir buscar uma pizza. Sugeri pedir entrega. Insistiram pra eu ir buscar. 

No jantar, rolou nossa grande conversa. Não pensei que ia ser sincero com eles, mas tudo saiu: meu histórico ruim no colégio interno, minha falta de ambição, e como eu virei a chave toda quando soube que eles tavam voltando. 

Achei que ia rolar alguma reação, um reconhecimento de como tudo isso tinha sido foda pra mim, e eles orgulhosos de eu ter me ajeitado. 

Eles só sorriram educadamente e ficavam virando pra Lotte, puxada pra mesa numa cadeirinha de bebê pra comer.

Pai pegou uma lata e tirou a tampa. Mãe começou a dar pra Lotte com uma colherzinha de plástico. Olhei, cheirei o conteúdo: era caviar.

Bebê come caviar? Quer dizer, elas não mamam no peito? Explicaram que Lotte era exigente pra comida, mas amava caviar, então era isso.

Quando a colher se aproximava do rostinho, as narinas úmidas dela se arregalaram, os olhinhos fendidos piscaram, e a boca dela chupou gulosa as bolinhas brilhantes. 

Disse que era fofo, sem ter certeza se era mesmo.

Na hora do banho, fiquei por perto, querendo aproveitar ao máximo o primeiro dia como família. Quando baixaram Lotte na água morna e ensaboada, ela fez uns cliques satisfeitos. Mãe disse que era o balbucio de bebê dela.

Aí notei a cicatriz na lombar dela. Pai disse que era um daqueles crescimentos tipo cauda aleatórios, só pele e gordura sobrando. Foi esquisito quando viram pela primeira vez, mas remover foi um procedimento simples. 

Quando mãe enfiou a mão pra tirar ela da banheira, Lotte começou a se debater. O rostinho ficou vermelho. Por instinto, estiquei a mão pra ajudar mãe a segurar ela firme. 

Ela virou pra mim e sibilou. O bafo de bebê era quente. Meus pais riram e enrolaram ela na toalha. 

Mas ela ainda me encarava, o rosto se contorcendo como se estivesse se preparando pra algo, até... 

Ela espirrou. 

Um espirro alto e roncante. O rosto dela acalmou logo depois.

Eu levei um catarro verde na barra da manga do meu suéter. Riscos de irmã bebê.

Só que na manhã seguinte, quando peguei o suéter, tinha um buraco na barra da manga. Um buraco, tipo ácido que tinha corroído o tecido.

Tudo rapidamente se acertou na nossa nova rotina.

O laboratório onde meus pais trabalhavam tinha serviço de babá, então Lotte ia com eles. Às vezes parecia que eu ainda era o estranho, mas é assim com bebê em casa.

Enquanto isso, eu tava progredindo na faculdade, ganhei promoção no trampo, e comecei a ficar sério com essa mina, Maya. A gente até falou em morar junto.

De vez em quando, porém, eu achava mais daqueles buracos tipo ácido queimado pela casa: nos móveis, especialmente no meu quarto.

Lotte tava na fase de engatinhar, mas tinha um jeito peculiar: não tanto engatinhar, mas rastejar. Ela era boa nisso e se movia pelo chão bem rápido sem usar os bracinhos ou perninhas moles. 

E quando rastejava, às vezes soltava um silvo, especialmente quando chegava na sala e perto do meu aquário.

Uma manhã de sábado, pai já tinha saído. Mãe tava agitada com cara preocupada. 

“Ah, que bom que acordou. Pode— preciso que fique em casa hoje. Com a Lotte. Só umas horas. Tem uma coisa no trabalho... Seu pai já tá lidando... Meu deus, desculpa pedir assim—”

Garanti que não tinha problema. Só tinha planos com Maya mais tarde à noite. 

Sozinho, fiquei sem saber o que fazer.

Lotte dormia feito pedra no berço, o quarto dela exalando um cheiro leve de água salgada. 

Peguei o monitor de bebê e voltei pro meu quarto pra fazer uns trabalhos da faculdade, jogar videogame, ver futebol, qualquer coisa pra passar o tempo até a mana bebê precisar de mim ou meus pais voltarem.

Horas se passaram. Fiquei aumentando o volume do monitor e escutando com atenção. Nada além de respirações úmidas e quietas. Ia na ponta dos pés pro quarto dela e espiava, sem movimento no berço. Liguei pros meus pais, querendo perguntar sobre comida ou leite ou fralda, mas não atenderam.

Agora eu tava puto. O sol tava se pondo. Mandei mensagem pra Maya cancelando. 

Aí peguei um cachimbo e dei umas tragadas de um beck velho e murcho antes de me jogar num pornô. 

No torpor distraído, o monitor de bebê ganhou vida com um barulho de tombos. Depois os sons do rastejar da Lotte.

Corri pra ver ela. O quarto tava vazio. 

Ela tava na sala. Tinha rastejado direto pro meu aquário. 

Vi os olhos dela pelo vidro do tanque: abertos e turvos, o centro cinza acompanhando de um lado pro outro, caçando os peixes nadando pra lá e pra cá em espasmos rápidos e sem sentido.

Ela esticou pro lado da perna da mesa. Nenhum bebê teria força pra derrubar, mas naquele momento eu soube que ela tinha. 

Fui pegar ela.

Ela virou pra mim, língua pontuda chicoteando pra fora, e sibilou enquanto eu pegava o corpinho dela.

Ao levantá-la, ela espirrou, acertando o lado do meu pescoço, só um pouquinho de cuspe disperso, mas começou a queimar.

Corri pra botar ela de volta no berço e depois pro banheiro pra jogar água no pescoço. Tirei a roupa e tomei banho. Não adiantou. 

Enchi a banheira e entrei, sentindo finalmente um alívio morninho. 

Devia ter cochilado. Quando vi, meus pais tavam em casa e me repreendendo por tomar banho de banheira e deixar Lotte sozinha.

Pedi desculpa, saí da banheira e me tranquei no meu quarto. 

Caí na cama e logo fui levado pros meus sonhos. No começo, balançando suavemente num barco firme num lago calmo. 

O lago virou oceano. Logo não tinha terra à vista. Os céus azuis viraram roxos enquanto as nuvens invocavam ondas pesadas ao meu redor. 

Eu tava à deriva num pedaço de madeira podre, água salgada afiada enchendo minhas narinas e boca a cada tapa de onda. 

Algo pior que o caos negro e infinito crescia por baixo de tudo, seu pavor iminente dominando o submundo negro do oceano. 

Nadando por baixo, rastejando na minha direção. Pronto pra me envolver em carne escamosa e me arrastar pro fundo.

Primeiro o tornozelo, depois a perna. Eu ofegava ar salgado antes que o puxão monstruoso enrolasse meu peito no aperto sufocante. E pro fundo eu fui.

Acordei encharcado de suor. Um ronco vibrava do chão.

Levantei. Meus pais dormiam pesado. Fui ver Lotte.

Do corredor, vi o berço dela, os olhos cinza lançando uma luz opaca na minha direção, como se me guiassem. Não dava pra ver o resto do rosto ou corpo. Só os olhos. 

Meus pés entraram no cone de luz cinza à frente. Minha mente protestava. Mas eu fui levado passo a passo na direção dela.

Não importava o quão perto eu chegasse, ainda só via os dois feixes largos e achatados de luz turva.

Aí, um barulho de quebra e splash na sala. 

A luz cinza piscou e apagou. Eu tava no escuro.

O aquário, pensei.

Cacos de vidro espalhados pelo chão da sala. E Lotte no meio de tudo, parecendo tranquila, até saciada.

Meus pais entraram em pânico. Mãe pegou Lotte enquanto pai checava ela por cortes. 

Ela tava intacta.

Ainda assim, levaram ela embora, mandando eu limpar o vidro.

Obedeci.

Mas não achei um peixe sequer, só uma nadadeira de cauda, rasgada de forma irregular do resto do corpo ausente.

Eu não sabia ainda, mas sentia: o caos tava prestes a descer na minha vida.

Cheguei na aula da faculdade. Todo mundo tava dando uma aulinha de última hora pra uma prova grande que a gente tinha. Eu tinha esquecido completamente. 

Quando saí da prova, vi umas mensagens do chefe do trampo. Onde caralhos eu tava? Tinha confundido o horário. 

Correndo pro escritório, cruzei uma rua na faixa e bati num ciclista. Meus membros se contorceram e eu caí no chão. A cabeça bateu no asfalto e eu vomitei ali mesmo enquanto uma multidão me cercava.

Eu tava numa ambulância, depois num hospital, antes dos analgésicos fazerem efeito. 

Maya tava lá, a doce Maya, talvez a única coisa na minha vida em que eu podia confiar. Só que o rosto dela era uma mistura de preocupação e raiva.

“Fico feliz que você tá bem, mas que porra é essa…? Não dá pra dizer que tô surpresa. Você tem sido tão... sei lá. Mas não aguento mais. Eu fico preocupada, aí fico puta porque você me faz ficar preocupada, e enquanto isso você é tão... Fico feliz que não se machucou feio, mas... Tchau.”

Uma enfermeira tomou o lugar dela ao lado da cama e me deu mais remédio. 

Antes de apagar, perguntei dos meus pais. A enfermeira disse que eles tinham vindo rapidinho com minha irmãzinha adorável, mas avisaram pro hospital que não podiam ficar, e que provavelmente não voltariam por causa de uns problemas com o bebê.

Perguntei que problemas. A enfermeira deu de ombros e disse: “Não dá pra dizer. Ela parecia feliz e saudável pra mim. Além do mais, por que eles ficam chamando ela de bebê?”

Saí do hospital, sem saber se era mais tarde naquele dia ou uns dias depois. E meu celular tava morto, então não dava pra checar as últimas mensagens. 

Com uma dor de cabeça latejante, decidi que tinha que correr pra casa.

Era entardecer quando cheguei perto da casa e vi, pela janela, uma família feliz reunida na mesa da cozinha. 

Lotte tava sentada reta na cadeirinha. Não parecia mais velha, mas mais alongada, esticada. Ela ria num deleite travesso. Meus pais tavam dando comida pra ela.

Não era mais caviar. Pelo que dava pra ver, era carne. Minha mãe pegou um naco com a mão e balançou na frente da Lotte.

Os olhos achatados e turvos dela brilharam úmidos. A língua pontuda chicoteou pro ar. 

Ela abriu a boca. Bem aberta. Uma fileira de dentinhos minúsculos indo até o fundo. Os lábios se esticaram na direção do naco de carne.

Aí, o que eu vi em seguida...

A frente da boca estendida dela se desencaixou, estalou e curvou pra dentro, mordendo forte na carne enquanto minha mãe puxava a mão.

Tropecei pra trás, meio caindo num arbusto. 

Meus pais viraram e me viram pela janela.

Eu tava pra correr, mas os efeitos da concussão e dos remédios me deixaram tonto. Caí.

Pai correu pra fora, me ajudou a levantar e me levou pra dentro.

Mãe voltou de botar Lotte no quarto e me deu uma xícara de chá. Os dois sentaram no sofá na minha frente.

“A gente tava preocupado com você.” 

“Você parece sob um estresse dos infernos.”

“A gente soube da Maya, sentimos muito.”

“E seu trampo e estudos, você tava indo tão bem.”

A dor na cabeça era cega e sirenes berriam nos meus ouvidos.

Acusei eles de fugir do assunto. O que eu queria mesmo saber era o que raios tava rolando com Lotte, tinha a ver com o trabalho deles? E como eu ia seguir minha vida com eles sempre tão secretos comigo? Me deixando de fora de tudo...

“Você tem problemas, filho.” 

“Problemas de raiva, e talvez mais.”

“E tá procurando alguém pra culpar.”

“Você parece precisar de descanso. A gente conversa sobre isso amanhã.”

Queria protestar, exigir respostas. Mas do nada, a dor de cabeça sumiu e uma fadiga pesada me invadiu. 

Acho que deixei eles me levarem pro quarto e me botarem na cama.

No dia seguinte, levantei por volta do meio-dia. 

Tava me sentindo uma merda, tanto fisicamente quanto pelo meu comportamento. Tava pronto pra aceitar que estresse, raiva e talvez inveja tinham me dominado nos últimos dias ou semanas. E eu precisava de ajuda.

A casa tava vazia. 

Quer dizer, vazia. Sem pais, Lotte ou qualquer coisa pessoal que fizesse o lugar parecer um lar, mesmo que só por pouco tempo.

Tinha um e-mail dos meus pais: emergência no projeto de pesquisa deles, tiveram que voltar pro campo imediatamente. Quando eu lesse isso, eles já tavam sobre o oceano num voo fretado particular.

Lotte tava com eles.

Sentiram muito, mas a casa, paga pela empresa, tinha que ser desocupada em uma semana. 

Eu ia ficar por minha conta. À deriva de novo.

Não sei o que vou fazer ou onde vou morar. Acho que sempre tive medo de quem eu poderia virar sem estabilidade ou rumo.

Mas agora, o que me apavora mais é o que tá por baixo desse oceano de incerteza. Algo com uma vontade primordial de devorar meu ser errante.

Tinha mais uma coisa no e-mail: por causa de uma política da empresa, eu devia tomar cuidado pra não ser específico sobre minha vida familiar nesses últimos meses ao pedir ajuda.

A empresa ia saber.

Não consigo explicar essa memória

Lá pelos idos do final dos anos 1990, começo dos 2000, quando eu era uma criança pequena, vivi algo que até hoje não dá pra explicar direito como ou por que aconteceu. Perguntei pra gente próxima sobre isso e vasculhei um monte de posts na web atrás de alguém que tivesse passado por uma parada parecida.

Minha memória pode estar meio embaçada em alguns detalhes, mas é o começo de algo que me incomoda há décadas. Então... lá vai:

Eu era moleque ainda, morava numa casa pequena com a família e dividia o quarto com meu irmãozinho bebê; o quarto dos meus pais ficava a uns quinze passos da minha cama pra cama deles, só uma salinha adiante. A cozinha era o que você via logo de cara ao entrar no quarto deles, com as bancadas e armários marrons, a pia da cozinha e a janela que dava pros pinheiros do vizinho. Era um bairro tranquilo pra caramba, onde nunca rolava nada, mas a gente trancava as portas à noite mesmo assim.

Eu tinha problema pra dormir de noite quando era pivete, então ia pro quarto dos meus e me enfiava no espaço entre eles. Na real, era porque ficava muito quente no meu quarto e eu esperava umas horas até a cama esfriar pra voltar pro meu canto. Fiz isso um monte de noites, e essa noite começou igualzinha às outras. Entrei no quarto dos meus pais, me enfiei entre eles, dormindo de lado, de olho nas costas do meu pai enquanto ele roncava de frente pra porta que levava da cama deles pra cozinha. Passou um tempo, mas quando acordei, o lugar do meu pai na cama tava vazio, os lençóis e as cobertas jogados de qualquer jeito por cima; pensei que ele tinha saído pra fumar ou ido pro trampo se fosse cedinho, o motivo dele estar acordado não era o que me incomodava.

Enquanto eu ficava ali deitado, olhando pra cozinha, veio esse frio rastejante subindo pela garganta e pelo peito, aquele pavor que pinica os dentes. Vi uma espécie de estática física quase, tipo uma onda saindo do lado da porta pro quarto e subindo pelo lado da cama até onde eu tava, uma estática igualzinha à neve da tela de TV fora do ar. Ela passou por cima dos lençóis bagunçados e caiu na minha mão, virando um tijolinho fininho tipo controle remoto de TV. Lembro de virar a cabeça e olhar pro teto, pro ventilador de teto. As tampas de vidro do ventilador piscando pra mim, e o ventilador se transformando numa cara gritando que logo virou esses retângulos finos de estática se mexendo como um menu de seleção. Eu podia escolher qualquer sonho, fechar os olhos e cair nele; quando acordava, as telas ainda tavam lá, e eu podia continuar isso o quanto quisesse. Acordei de manhã coberto com uma coberta da ponta da cama dos meus pais, com a luz do sol entrando pelas cortinas da janela da cozinha e pelas persianas plásticas semi-fechadas da janela do quarto deles.

A partir daquele dia, essa estática me seguia no escuro, vagamente com formato de silhueta de gente presa num loop. Em toda casa que eu morei, essa figura de estática sempre vem correndo pra cima de mim e me encara de cima quando eu tento dormir, só pra reiniciar assim que eu pisco, voltando pro mesmo loop de figura correndo pela porta e descendo o corredor escuro. Nunca é a mesma silhueta, umas são baixas e outras altas, mas elas sempre fazem a mesma merda. Quando era moleque, eu pedia pra elas me deixarem em paz, ou me darem espaço pra dormir, e elas pareciam quase obedecer. Aquele mesmo frio me acompanhando toda vez que isso rolava.

Não sei se quando era criança eu tinha imaginação fértil demais ou se via TV demais; descartei paralisia do sono e sonhos lúcidos faz tempo, porque eu conseguia me mexer e tava bem alerta nessa parada. Mas isso ainda me persegue até hoje, e aquele evento esquisito, que nunca mais rolou depois dessa única vez, da onda de estática, foi o estopim pra toda essa roda viva das pessoas de estática. Comentei isso uma vez com um parente distante, já na adolescência, depois de anos lidando com isso sem explicação. Ele disse que podia ser coisa sobrenatural, tipo espíritos, já que eu morei em lugares com cemitérios e tal.

No começo achei besteira total, mas mudei de ideia quando peguei uma dessas coisas de estática e fiz perguntas pra ela no silêncio do meu quarto. Perguntei por que ela me atormentava, se era alguém que eu conhecia. Aquele frio que eu já tava acostumado virou forte durante essa conversa. Descobri que essa entidade de estática era meu avô, que morreu quando eu era bem pequeno. Achei estranho e fui dormir sem dar muita bola, até a manhã seguinte. Um pardalzinho marrom ficava tentando voar contra a janela onde minha mãe tava. Pardais são o pássaro que a gente associa pro meu avô em particular.

quinta-feira, 26 de março de 2026

O Clube da Festa me mandou um convite. Eu não deveria ter aceitado...

Depois que o homem bateu pela segunda vez e me entregou um fígado, eu soube que aquilo não era algo comum. Era algo além da minha compreensão — algo… sobrenatural.

Mas não é como se isso fosse ruim pra mim.

Eu já estava nesse ramo fazia um tempo. Eu trabalhava como cirurgião — um fornecedor para um esquema, uma rede complexa projetada pra maximizar a cooperação e eliminar ameaças internas. Um vacilo e você é expulso ou morto. Sempre tem alguém pronto pra te substituir.

Vamos chamar esse esquema de O Clube da Festa.

Havia fornecedores de confiança, mas eu não era um deles, embora eu seja considerado relativamente sênior. Porém, isso significava que eu podia viver com mais liberdade, sem tanta restrição e vigilância excessiva — eles eram rígidos com as operações, especialmente entre os figurões. Não tinham a menor intenção de deixar o negócio acabar tão cedo.

A vida era boa. Eu ganhava dinheiro e conseguia sustentar minha família trabalhando como “gerente de M&A numa empresa próxima”. Eu penso neles a cada segundo de cada dia. Eu consigo ver eles sorrindo, brincando juntos no tom quente da sala de estar. Minha esposa linda abraça com um braço a minha filha esperta, de 13 anos, e segura com o outro o meu filho precioso, de 2 anos. Eu consigo imaginar ela rindo enquanto minha filha faz uma careta, meio envergonhada e meio irritada, enquanto meu filho balbucia coisas sem sentido, procurando atenção com aqueles olhos brilhantes. Só de pensar nisso, eu sorrio.

Eu lembro da primeira vez que o homem bateu. Foi estranho. Eu não estava esperando ninguém às 8 da manhã. Minha esposa já tinha ido pro trabalho e minha filha pra escola, ficando só eu e meu filho, que dormia no berço, dentro de casa. A porta se abriu e revelou um homem de cabelo penteado pra trás e um sorriso simpático. Ele usava um terno completo, com gravata preta e sapatos sociais combinando. Eu notei a carretinha vermelha atrás dele, com a alça na mão.

— Olá, Sr. [CENSURADO]! Estou aqui para fornecer para o Clube da Festa. O que o senhor gostaria hoje? — ele disse, animado.

Como eu também era fornecedor, eu fiquei muito confuso. Não porque ele sabia meu nome, mas porque ele veio atrás de mim. Nesse tipo de trabalho não era incomum seu nome circular por aí. Por que não ligar pra alguém buscar os órgãos e mandar pra um corretor?

Eu não sabia por que ele tinha me procurado, mas decidi entrar na dele — talvez isso fosse útil. Só que antes eu precisava descobrir se ele era um trabalhador de verdade ou não.

— Quem é você? — eu perguntei.

O homem não respondeu. Só ficou ali, me encarando com aquele sorriso constante.

Eu tentei outras perguntas.

— Você é de onde?

— Quem te mandou aqui?

— Há quanto tempo você tá nesse ramo?

Ainda nada. Eu fiquei sem saída, mas lembrei que ele tinha me perguntado o que eu queria hoje. De brincadeira, eu pedi um rim.

Eu não esperava que ele levasse ao pé da letra.

O sorriso dele se abriu ainda mais, e ele ficou radiante.

— Certamente!

Ele se virou e enfiou a mão na carretinha, puxando um rim lá do fundo. Me deu arrepios o fato de eu não conseguir ver o fundo dela. A carretinha parecia descer, se esticar, pra dentro de um abismo escuro.

Ele estendeu o rim e eu o peguei a contragosto. Ainda escorregadio de sangue, quase escapou da minha mão. Parecia que tinha sido tirado de um corpo segundos atrás.

— Obrigado pelo pedido!

Eu só consegui encarar enquanto ele virava as costas. Eu vi ele sumir rua abaixo. Isso me deixou com mais perguntas do que respostas.

Mas qual seria o mal de tirar proveito da situação?

Eu coloquei o órgão numa pequena caixa térmica com gelo e levei até o carro. Nossa base de operação — um hospital que a maioria de vocês conhece — não ficava muito longe. Eu queria entregar isso ao corretor o mais rápido possível, enquanto o órgão ainda estivesse mais viável.

A babá chegou pouco depois e eu fui pro trabalho.

O intermediário, pra quem eu liguei no caminho, já estava me esperando quando eu cheguei.

Eu abri a caixa térmica pra ele e ele pegou o rim, deu uma olhada rápida e colocou numa caixa com líquido conservante. Ali dentro já tinha um monte de outros órgãos que ele provavelmente tinha coletado pelo caminho. Ele não me perguntou de onde veio, e eu fiquei aliviado — eu nem saberia explicar, mesmo se ele perguntasse. Eu agradeci por ele ter vindo e ele foi embora, com uma inclinada de chapéu.

Mesmo depois de bater o ponto, eu fiquei pensando no que eu faria se o homem da carretinha aparecesse de novo. Ele podia me dar qualquer órgão que eu pedisse? E se eu não atendesse a porta? E se eu não quisesse pedir nada?

O dinheiro era transferido de tempos em tempos. Eu não sei pra onde o intermediário leva os órgãos, nem quem os vende. Embora não aconteçam tantas vendas num mês, uma operação pode render milhares. Eu recebia uma parte boa, e isso era tudo o que eu precisava.

No dia seguinte, eu não fiquei tão surpreso quando abri a porta pra ele, no mesmo horário da manhã. Ele usava o mesmo terno, o mesmo sorriso, e segurava a mesma carretinha vermelha. Dessa vez eu pedi um fígado. Ele puxou um da carretinha e me entregou.

Tão fresco quanto o rim que eu tinha pedido no dia anterior.

Apesar de ser perturbador, eu estava empolgado. Eu podia fazer um ótimo uso daquela oportunidade.

— Obrigado pelo pedido! — ele disse, antes de ir embora.

De novo, eu mandei o intermediário vir buscar comigo. Eu dei o fígado pra ele, ele pegou, e eu fui trabalhar.

Nas duas semanas seguintes, eu comecei a testar os limites do que eu conseguia pedir, e eu tinha quase certeza de que não havia limite nenhum. Rim, fígado, coração — ele sempre enfiava a mão na carretinha e me dava o que eu queria. Se eu pedisse dez corações, ele me dava dez. Se eu não quisesse pedir nada, eu só dizia isso e ele ia embora. Além disso, ele não aparecia nos fins de semana, então eu não precisava me preocupar com minha esposa atendendo a porta.

A ideia de uma entidade sobrenatural tirar folga no fim de semana era surreal pra mim, mas eu não ia reclamar.

Em algum momento, eu e o intermediário criamos um cronograma não dito. Por causa dos órgãos de alta viabilidade que eu estava fornecendo, o dinheiro começou a entrar pesado.

Eu ia pro trabalho com mais energia do que antes. A segurança que o dinheiro trazia mexeu comigo mais do que eu gostaria de admitir.

Eu estava ficando convencido.

Você não pode se dar ao luxo de ficar convencido nesse tipo de trabalho. É um pedido de morte. E eu sabia disso, mas era bom demais ter uma fonte de mercadoria sem amarras.

A única vez que eu fiquei inseguro foi quando minha esposa ficou doente e ficou em casa por três dias. No terceiro dia, ela acordou bem cedo.

Eu temia a batida na porta. Tentei empurrar minha esposa de volta pra cama, mas ela recusou, dizendo que estava se sentindo cheia de energia.

Eu me posicionei perto da porta quando a batida veio.

— Eu atendo! — gritei pra cozinha.

— Ué, tem alguém aí? — ela respondeu.

E foi aí que eu descobri que ninguém mais conseguia ver ou ouvir esse misterioso homem da carretinha. Eu me senti aliviado.

Eu abri a porta só uma fresta e disse que hoje eu não queria pedir nada.

— Certamente! Obrigado pelo pedido! — ele disse, como todo dia.

Eu nem me dei ao trabalho de ver ele indo embora, fechei a porta antes mesmo de ele sair.

E ficou assim pelos três meses seguintes. Atender a porta às 8, dirigir pra encontrar o intermediário, bater o ponto no trabalho.

Três meses antes da festa.

Numa noite, eu quis comemorar meu sucesso e o meu “trabalho duro” de pedir órgãos e ainda assim bater ponto pra trabalhar por aparentemente motivo nenhum agora. Numa sexta-feira à noite, eu bebi mais do que o normal e apaguei.

Acordei às 10 da manhã no dia seguinte, em pânico por causa do trabalho. Eu dei um pulo e me joguei no banheiro, vesti qualquer roupa, até que minha esposa entrou e perguntou qual era a correria toda.

Ah. É sábado.

Eu sorri, sem graça, e eu soube que ela soube o que eu estava fazendo.

Ela balançou a cabeça e suspirou.

— Não bebe tanto da próxima vez.

Eu troquei pra roupas mais confortáveis e segui ela até a cozinha, onde as crianças comiam panquecas.

Minha esposa estava no fogão e de repente virou pra mim como se tivesse lembrado de alguma coisa.

— Ah, é! Quase esqueci de te falar. Eu peguei a correspondência ontem à noite e alguém te mandou alguma coisa. Deixa eu achar.

Ela foi até a gaveta do lado da porta da frente e puxou um único envelope marrom, entregando pra mim.

Quando eu olhei melhor, não tinha assinatura, não tinha nada — só o meu nome completo escrito na frente.

— Valeu — eu disse pra ela.

Eu tive a suspeita de que fosse do trabalho, então me afastei da minha família antes de abrir.

Dentro tinha um cartão com uma caligrafia caprichada escrita por dentro:

Convite

A Festa Anual da Colheita de Órgãos

Apenas para Membros Leais

— O Clube da Festa

[ENDEREÇO], 14/04/2023, 22h

Sem chance. Não tinha como eles terem me convidado pra algo tão especial. Quero dizer, eu nunca tinha ouvido falar disso, mas depois de tanto tempo, finalmente estavam me reconhecendo como um membro leal do negócio. Talvez eu pudesse ser promovido. Fazer parte do círculo interno.

Eu reli o bilhete várias vezes e joguei no lixo, com o coração disparado. Quando foi a última vez que eu fiquei tão animado? Depois de viver numa rotina monótona pelos últimos anos, finalmente alguma coisa estava acontecendo e o esforço estava valendo a pena.

Faltava mais ou menos uma semana e meia pra data.

Eu acalmei a batida acelerada do coração. Voltei pra cozinha e disse pra minha esposa que o envelope era do trabalho e que eu precisaria ir a uma reunião da empresa no dia 14, que ia durar até tarde da noite. Ela concordou e levou outra leva de panquecas pra mesa. Eu fiz carinho na cabeça dos meus filhos, bagunçando o cabelo deles, e me juntei a eles pra devorar a pilha.

Avançando pro dia 14. Eu esperei todos os dias na ansiedade, o tempo passando num estalo. Eu estava pronto pra sair. Eu fui em direção à porta, mas de repente pensei na minha maleta médica, com kit de sutura e outros materiais. Vai saber? Eu poderia precisar depois. Afinal, eu não sabia exatamente como uma festa dessas era organizada.

Eu peguei a maleta e fui pro carro, colocando o endereço no GPS. O lugar era bem longe. Umas duas horas de estrada. Liguei o motor e segui a navegação.

O caminho me levou pros arredores da cidade, pouco antes de chegar nas estradas desertas. Eu me aproximei de um prédio empresarial mal iluminado, com cinco andares, cheio de janelas de vidro. Parecia deslocado — moderno demais pro entorno. As luzes estavam acesas lá dentro. Eu estacionei no estacionamento atrás do prédio. Já tinha vários carros alinhados, e eu cheguei 10 minutos adiantado.

Peguei minha maleta no banco de trás e tranquei o carro. Quando virei pro prédio, notei outra pessoa em pé ali, à distância. Eu andei um pouco mais e fiquei agradavelmente surpreso ao ver um rosto familiar.

— Ei! — eu gritei pro intermediário, acenando.

Ele se virou confuso, mas sorriu quando me reconheceu.

— E aí! Veio deixar outra mercadoria? Como é que você me achou até aqui? — ele brincou.

Eu dei minha risada de trabalho. Perguntei se ele tinha recebido o convite e, claro, ele tinha recebido o mesmo envelope que eu.

A gente entrou no prédio e foi imediatamente recebido por uma recepcionista sentada numa mesa perto da entrada. Ela usava um vestido preto formal, o cabelo preso num coque alto e um colar prateado chamativo. Sentada diante de um único computador em cima de uma mesa comprida, a toalha vermelha contrastava muito com o interior branco do prédio. Havia um corredor reto à frente com salas envidraçadas, às vezes se abrindo pra um lado ou pro outro.

— Olá! Em que posso ajudar? — ela disse, sorrindo pra nós dois.

— Olá, nós estamos aqui pra participar da festa — disse o intermediário.

— Mostrem seus convites.

Por sorte eu lembrei de trazer o envelope comigo. Eu tirei do bolso de trás e mostrei pra ela, e o intermediário fez o mesmo.

— Certo. Agora me digam um fato interessante sobre vocês que ninguém mais saiba.

Eu e o intermediário nos encaramos, confusos. Não era exatamente surpresa o Clube da Festa saber tudo sobre a gente, mas ainda dava medo saber que eles me monitoravam sem eu saber. Bem… eu também pedi por isso, no fim das contas, quando entrei nesse negócio.

Eu e o intermediário nos revezamos sussurrando nossos segredos no ouvido dela. Eu contei sobre a cicatriz que eu tenho embaixo do lábio, de quando eu bati a cara no concreto depois de usar um ab roller. Vergonhoso, eu sei.

Quando terminamos, ela clicou duas vezes no computador, aparentemente satisfeita.

— Bem-vindos à Festa Anual da Colheita de Órgãos do Clube da Festa! Quando estiverem prontos, sigam em frente e virem à esquerda. Vocês vão encontrar os elevadores. Subam até o terceiro andar. Aproveitem! — ela exclamou com o mesmo sorriso firme, inabalável. De algum jeito, aquilo me lembrou o homem da carretinha, mas eu descartei como coincidência.

— As damas primeiro! — eu disse, chamando o intermediário pra ir na frente.

Seguindo logo atrás dele, eu olhei pra trás antes de virar a esquina. A mulher tinha sumido. Eu não ouvi passos, nem qualquer sinal de movimento. Talvez ela já tivesse saído.

Nós pegamos o elevador até o terceiro andar. Era um espaço completamente vazio, tirando umas colunas aqui e ali. Já tinha gente lá dentro, se juntando e conversando em grupos, se conhecendo. Eu estimei umas 80 pessoas.

Talvez aquilo fosse tipo outro saguão e eles ainda estivessem preparando o evento principal?

Pelos sussurros ao redor, parecia que era a primeira vez de todo mundo ali. Estranho.

Duas palmas altas calaram todo mundo. Eu olhei na direção do som.

— Bem-vindos à Festa Anual da Colheita de Órgãos!

Eu reconheci aquele sorriso antes de reconhecer qualquer outra coisa. Era o homem da carretinha, que vinha me abastecendo.

— Espero que todos estejam se divertindo muito. Dito isso, vamos começar essa festa! — ele comemorou.

Alguém gritou. Algumas pessoas se assustaram, dando um pulo.

Tinha gente bloqueando minha visão, então eu me esgueirei entre as pessoas pra ver melhor.

As pessoas estavam em volta de um rapaz jovem, com os olhos arregalados de terror, e as mãos apertando o próprio estômago. Através do moletom claro, eu via um vermelho escuro se espalhando e depois escorrendo pelas mãos dele.

Ele caiu no chão.

Eu corri até ele e levantei a camisa.

O estômago dele tinha sido aberto — um corte enorme, vertical, do meio do peito até a parte baixa do abdômen. O sangue jorrava, se acumulando ao redor do corpo mole dele.

— Rápido! Alguém liga pro 911! — eu gritei.

Mas já era tarde. Os órgãos dele escorregaram pra fora do corpo, flutuando em direção à carretinha como se alguém invisível estivesse carregando. Eles se guardavam lá dentro.

Aquela festa não era pra gente colher. A gente estava sendo colhido.

Outra pessoa atrás de mim gritou.

Dessa vez foi uma mulher mais velha. Ela segurava um telefone na orelha — tinha ligado pra polícia. O rosto dela se contorceu de dor e o sangue encharcou o cardigan dela, igual ao do rapaz. Ela também desabou no chão.

Ela apertou o telefone contra o rosto e gemeu as próximas palavras, pedindo ajuda e informando o endereço pro atendente do 911. Por fim, ela desmaiou, o telefone caindo quando ela perdeu o controle dos braços.

O caos tomou conta. As pessoas correram pros elevadores, tropeçando umas nas outras. Uma por uma, elas caíam no chão.

Era como uma contagem regressiva.

Só havia um tanto de tempo até chegar em mim.

Merda, merda, merda. O que eu faço?

Eu precisava sair dali.

Eu disparei em direção aos elevadores, desviando das pessoas que iam caindo. Eu vi o botão de descer aceso — alguém tinha conseguido apertar. O sangue rugia nos meus ouvidos, abafando os gritos.

As portas do elevador se abriram.

Quase lá…

A dor rasgou meu estômago.

Merda.

O sangue vazou pra dentro da roupa e eu caí de costas.

Eu entrei em pânico. Eu não quero morrer, eu não quero morrer, eu não que—

O kit de sutura. Eu quase tinha esquecido que eu segurava minha maleta médica com força de vida ou morte.

Não tinha outra escolha.

Eu puxei a camisa pra cima e escancarei a maleta, tateando atrás do kit de sutura. Enfiar a linha na agulha foi difícil com as mãos tremendo, mas por milagre eu consegui depois de algumas tentativas.

Eu comecei entre o peito e costurei pra baixo. Os pontos ficaram uma porcaria, mas eu só precisava de alguma coisa pra me manter inteiro. Eu estava perdendo muito sangue. Eu não tinha tempo.

Eu nem me dei ao trabalho de cortar a ponta do fio. Eu me forcei a ficar de pé, com a agulha pendurada no meu corpo. Eu dei os últimos 15 passos até o elevador e apertei o botão.

A porta abriu mais rápido do que eu esperava. Eu tropecei pra dentro e apertei o botão do primeiro andar, encostando na parede pra me sustentar.

Eu apertei o botão de fechar a porta, socando ele de novo e de novo, olhando pelas portas ainda abertas.

O homem da carretinha vinha correndo na minha direção. Eu sentia o ferimento ameaçando abrir de novo, a pele puxando contra os pontos. Eu me mantive “junto”, lutando contra a minha própria carne.

Ele estava mais perto. Eu não ia conseguir. Ele alcançaria as portas do elevador antes de elas fecharem.

De repente, ele caiu pro lado. Alguém se jogou nele.

— Não! — eu gritei.

Quem o interceptou e o homem da carretinha caíram no chão, bem na frente do elevador.

Antes das portas fecharem, o intermediário disse uma última palavra pra mim.

— Vive.

O elevador zumbiu, descendo até o térreo.

Eu repeti aquilo na minha cabeça.

Vive.

Eu precisava sair dali. Contar pra todo mundo a verdade sobre o que aconteceu com aquelas vítimas. Levar adiante a vontade delas.

As portas abriram e eu corri em direção à entrada. Meu tronco doía pra caralho, mas eu não deixei isso me parar. Eu virei e vi as portas de vidro bem na minha frente.

Eu consegui.

Uma faísca de esperança subiu quando eu empurrei a porta e abri.

No momento em que eu pisei lá fora, eu fui arremessado pra frente.

O prédio explodiu.

Meus ouvidos apitaram. Estilhaços de vidro voaram pra todo lado.

Eu perdi a consciência antes de bater no chão.

Murmúrios encheram meus ouvidos. Eu abri os olhos.

Eu estava numa cama de hospital, na UTI. Tinha várias coisas conectadas em mim e eu estava enfaixado por inteiro. Havia um tubo na minha garganta, me ajudando a respirar. Eu tentei me mexer, mas não tinha força. Uma enfermeira passou e percebeu que eu estava acordado. Ela checou meus sinais vitais, apontando uma luz pros meus olhos.

— Alô? Você consegue me ouvir? — ela perguntou. — Pisca uma vez pra sim, duas vezes pra não.

Mesmo com a voz abafada, eu pisquei uma vez.

— Ótimo. Você lembra o seu nome?

Eu pisquei uma vez de novo antes de pensar.

Eu lembrava? Eu procurei na minha cabeça. Ah, é… meu nome é **[CENSURADO]**.

Ela me orientou a descansar e disse que me explicaria o resto quando chegasse a hora.

Nas duas semanas seguintes, eu passei a maior parte do tempo na cama, me recuperando. Minha audição voltou e, eventualmente, eu consegui me sentar. O tubo de respiração foi removido e eu consegui comer sozinho. Minha família me visitou quase todos os dias, cheia de preocupação, sem fim.

Eu fiquei em coma por dois meses.

4 costelas quebradas. Ombro esquerdo quebrado. Múltiplas fraturas. Trauma craniano grave. Lesão cerebral traumática. Danos no tímpano. Danos na cavidade nasal. Pulmões rompidos e danos em órgãos internos. Mais do que alguns estilhaços de vidro no corpo. Queimaduras de segundo grau nas costas. Perda de sangue quase fatal.

Eu tenho uma sorte do caralho de estar vivo.

A enfermeira me disse que eu teria morrido sem os pontos.

Eu só lembrava fragmentos do que aconteceu naquela época — só a explosão e pedaços da festa. Conforme o tempo passava, essas memórias foram voltando devagar.

Eu passei os quatro meses seguintes estabilizando no hospital e depois fui pra reabilitação por mais dois.

Depois de pagar as contas do hospital com a minha nova fortuna, eu arrumei um novo emprego. Um emprego novo, legítimo, bem longe de onde eu trabalhava antes, e de onde eu moro agora. Eu queria ficar o mais longe possível do Clube da Festa e começar do zero. Eu e minha família nos mudamos depois de alguns meses de planejamento cuidadoso.

Eu estou realmente feliz agora, e estou bem. Pra todos que estão nesse ramo, levem isso como um aviso. Eu imploro: caiam fora e vivam uma vida honesta.

Todos os meus vizinhos ficam parados nas janelas ao mesmo tempo, todas as noites...

Meu namorado e eu nos mudamos recentemente para nosso primeiro apartamento juntos na cidade. Nós dois somos do interior, então tentamos encontrar um lugar que achávamos que seria tranquilo. Não queríamos gente barulhenta, nem carros, nem sirenes nos mantendo acordados à noite. Acabamos alugando um apartamento nos fundos, no segundo andar, em um prédio pequeno. Os apartamentos da frente dão para uma rua movimentada, mas os dos fundos — como o nosso — dão para um beco, um estacionamento pequeno e alguns outros prédios de apartamentos. Achamos que ouviríamos menos barulho.

E realmente ouvimos menos barulho. À noite, no nosso quarto, fica tão silencioso que dá para fingir que ainda moramos no meio do nada. O único problema do apartamento é a vista. Todas as nossas janelas dão para o prédio ao lado ou para o prédio atrás do nosso. Isso fez abrir as persianas parecer estranho, como se um monte de desconhecidos pudesse espiar para dentro, então geralmente deixamos as persianas abaixadas.

Levamos meses para perceber. A primeira vez que vimos, tínhamos chegado tarde de um show. Tomamos banho e comentamos como a lua estava linda no caminho de volta. Meu namorado quis saber se dava para ver a lua por alguma janela, então apagamos as luzes e levantamos as persianas. Era um pouco depois das três da manhã.

Nós travamos assim que olhamos para fora. A lua deixou de importar. Havia uma pessoa no centro de quase todas as janelas dos outros apartamentos. Mais de vinte pessoas, paradas nas janelas, com as luzes acesas dentro dos apartamentos. Talvez todo mundo quisesse ver a lua também, sugeriu meu namorado. Mas não fazia sentido: com as luzes acesas atrás delas, mal conseguiriam enxergar para fora. Eu mandei meu namorado fechar as persianas.

Dez minutos depois, meu namorado espiou de novo por entre as frestas.

“Sumiu todo mundo”, ele disse. Eu olhei para fora. Todas as luzes estavam apagadas. Nenhum sinal de vida em lugar nenhum.

Foi difícil pegar no sono naquela noite. O silêncio do nosso quarto parecia perturbador, não tranquilo. Tivemos que ligar uma máquina de ruído branco. Combinamos que, no dia seguinte, colocaríamos um alarme para as três da manhã e ficaríamos esperando para ver se acontecia de novo.

Na noite seguinte, sentamos perto da janela do quarto, com as luzes apagadas e as persianas levantadas. Às três, todas as luzes estavam apagadas. Eu contei: do nosso ângulo, dava para ver 46 janelas.

Às 3:10, todas as luzes acenderam ao mesmo tempo. Então as pessoas apareceram nas janelas. Era como se estivessem agachadas abaixo dos peitoris e, no mesmo instante, todas se levantassem. Como estavam iluminadas por trás, era difícil distinguir os rostos, mas parecia haver homens, mulheres e crianças.

Às 3:13, todas abaixaram de novo, como se voltassem a ficar agachadas abaixo dos peitoris. As luzes apagaram de repente. Meu namorado e eu nos encaramos, sem saber o que fazer. Não era o tipo de coisa para ligar para a polícia.

Por três noites, colocamos o alarme para as três para poder olhar pela janela. A mesma coisa aconteceu todas as vezes.

Meu namorado queria investigar mais. Queria perguntar aos vizinhos sobre isso, mas nós dois somos tímidos e não conhecemos quase ninguém na cidade.

Eu implorei para ele não fazer isso, mas na quarta noite ele quis sair enquanto aquilo acontecia. Eu disse que ficaria observando de dentro do quarto e chamaria ajuda se algo acontecesse com ele.

Às três, meu namorado estava no estacionamento do prédio. Às 3:10, nenhuma luz acendeu. Às 3:13, nada tinha acontecido. Ele voltou para dentro, e eu achei que talvez tivesse acabado. Mas ele quis tentar de novo no dia seguinte, desta vez esperando para sair só depois que as pessoas estivessem de pé nas janelas.

Naquela noite, as luzes acenderam ao mesmo tempo de sempre. As pessoas se ergueram e ficaram paradas nas janelas. Eu observei a porta dos fundos do nosso prédio e vi meu namorado sair. Ele deu só alguns passos para fora antes de ficar completamente imóvel, paralisado no meio de um passo. As pessoas desapareceram às 3:13. Um minuto depois, meu namorado voltou a andar. Ele ergueu o olhar, vasculhando as janelas escuras dos prédios, e então entrou de novo.

“Acho que não está acontecendo mais”, ele me disse quando voltou para o nosso quarto.

“Você acha que não aconteceu?”

“É, eu não vi nada lá fora. Você viu alguma coisa?”

Eu contei o que tinha acontecido. Isso assustou ele o suficiente para decidir que deveríamos parar de investigar. Não estava nos afetando, ele disse. No começo, eu fiquei aliviada de parar de mexer com isso. Mas, ultimamente, comecei a me perguntar. Nós conhecemos algumas pessoas do prédio atrás do nosso, e elas parecem tão gentis, tão normais. Comecei a me perguntar se são mesmo elas que ficam nas janelas. Toda vez que eu e meu namorado observávamos aquelas pessoas paradas, eu sentia um aperto ruim no estômago.

Comecei a me perguntar se eu preciso avisar alguém.

Esferas Falantes

Uma pequena bola de pedra, moldada de forma grosseira, com a superfície azul e verde. Ela não se parece com nada que eu já tenha visto antes. Parece deliciosa. Estou com fome, muita, muita fome, mas não consigo reunir apetite para comer esta aqui. Mesmo agora, sinto falta do gosto dela, da euforia, da agonia, de todas aquelas sensações deliciosas presas naquelas esferinhas minúsculas.

Encontrar as esferas com o melhor sabor é um processo difícil. A maioria das que eu encontro é sem graça; o gosto velho de ferrugem e rocha deixa um residual desagradável. As de vapor até podem ser gostosas, mas mal enchem o estômago. Não; as melhores que você pode achar são as mais barulhentas. As esferas gourmet cantam como o guincho de mil cometas passando em disparada. Elas gritam, latem, discutem, conversam e contemplam, compartilham afeto e choram. Eu não sei exatamente o que essas esferas são, nem com quem elas pretendem falar — certamente não há esferas suficientes por perto. Acho que eu não deveria julgar; afinal, eu ainda não encontrei outra criatura com quem dividir meus pensamentos.

Este lugar pode ser bastante solitário. É grande, maior do que até mesmo eu consigo abarcar completamente com a minha compreensão. Eu sempre achei que poderia haver alguém como eu em algum lugar por aqui, que, se eu viajasse tempo suficiente e procurasse com afinco, eu poderia encontrá-lo. Há muito tempo, porém, eu percebi que não vou encontrar. Quer dizer, talvez nem tenha sido tanto tempo assim — apenas alguns quintilhões de anos. Talvez eu encontre alguém em mais alguns quatrilhões, mas, por enquanto, não tenho muita esperança.

É mais estranho ainda eu ter encontrado as esferas neste abismo imenso. Elas falam de um jeito parecido comigo, ou pelo menos de um jeito que eu consigo entender. Cada esfera falante que eu encontrei falava de forma diferente: milhões e bilhões de vozes se articulando em cadências distintas, dialetos diferentes. Às vezes eu acho que as esferas falam consigo mesmas — seus milhões e bilhões de vozes conversando, entrelaçando-se como átomos em poeira estelar — e que, no fim, suas palavras são apagadas pela vastidão interminável do vazio.

Eu nunca consegui falar. Por muito tempo, eu nem sabia que pensamentos podiam ser trocados com outros, até encontrar as esferas. É uma sensação estranha eu não conseguir falar do jeito que elas falam. Essas esferas guardam algo esquisito, algo que eu não tenho por natureza; algo estranho que me faz tremer toda vez que estou na presença disso. Acho que elas chamavam isso de... emoção? Não ter isso fez minha mente ondular e se contorcer sobre si mesma, fez meu ser doer e revirar. Então eu as comi.

Encontrar uma esfera falante não é tarefa simples. Muitas vezes, eu preciso me contentar com as minerais, vazias e medíocres, só para aplacar a fome; mas achar uma daquelas esferas falantes deliciosas sempre faz tudo valer a pena. Comer aquelas lindas bolinhas de pedra me ensinou tanto: alegria, humor, raiva, angústia, nojo. Uma coisa que eu passei a sentir com muita frequência era... como era mesmo o nome?... Pa... ty? Por... ty? Não, não: pena. Isso, pena. Quando eu encontro uma esfera falante pela primeira vez, ela é feita de um milhão de emoções diferentes, misturadas como a luz de uma nebulosa antiga. Quando, por fim, elas percebem a minha chegada, todas viram uma única emoção ao mesmo tempo — medo, eu acho. Ou talvez fosse horror, ou pavor? Para mim, parece que elas se ofendem por eu comê-las, o que eu nunca pretendo. Eu não quero fazê-las se sentirem assim, de verdade; mas elas precisam entender por que eu tenho que comê-las. Eu tenho. Eu preciso, eu absolutamente preciso.

Ultimamente, meu desejo de consumir as esferas falantes tem aumentado sem parar. Eu devoro uma após a outra, enchendo-me das emoções delas, das memórias delas. Eu como e como, mas meu apetite nunca se satisfaz. Eu preciso de mais — sempre mais — sempre alguma sensação nova, mais forte do que a anterior. Eu me sinto pesado; agora eu arrasto o peso de um milhão de um bilhão de mentes que gritam para ser libertas, que choram para que a dor acabe. Eu sinto pena, mas ainda estou com fome. Cada esfera nova aperta o nó que se forma no meu centro; a massa que compõe meu ser se dobra sobre si mesma, crescendo e crescendo, retorcendo-se e se deformando. Estou me tornando tão supermassivo quanto o espaço que habito e, ainda assim, estou vazio. Eu preciso de mais, eu preciso de mais, eu preciso de mais, eu preciso...

A rocha manchada de azul e verde diante de mim é minúscula, uma das menores esferas falantes que eu já encontrei. Mal vale a pena consumir, para ser sincero. Talvez, só desta vez, eu não precise. Em vez disso, eu fico e observo a esferinha girar, enquanto seus gritos de medo ecoam no nada. Lá vem aquela sensação de novo: pena. Eu pensei que, desta vez, não seria tão difícil encarar, mas mesmo depois de dez quatrilhões de anos ainda parece a mesma coisa. Depois de algum tempo, porém, os gritos param. No lugar do medo surge outra coisa: alívio, maravilhamento, espanto — até empolgação, talvez. Eu não consigo acreditar. Eu tinha provocado isso na rocha? Minha fome volta a se fazer notar, mas eu resisto ao impulso de consumir esta tão cedo.

Eu decido ficar e observar um pouco mais. Em apenas um ano, tanta coisa na rocha já mudou. Eu ouço tantas vozes novas, ouço-as mudar e engrossar; vejo a textura da bola mudar e se transformar; vejo o verde nascer e morrer. Eu observo por mais cem anos, depois mil, depois um milhão — e mais um milhão de milhões. A esfera fala consigo mesma sobre uma coisa enorme no espaço, a grande escuridão que observa tudo, ociosa. Ela me chama por muitos nomes: o titã, a coisa negra no céu, Deus. Eu ouço esse nome com frequência — Deus. Acho que já ouvi isso de outra esfera falante uma vez. Talvez ela esteja me confundindo com outra pessoa, mas eu suponho que não tenho como ter certeza.

É difícil distinguir uma única voz no meio do barulho. Elas se derretem umas nas outras num mar de som; ondas de risadas e gritos atravessam umas às outras como a coalescência de duas galáxias. Depois de escutar por tempo suficiente, uma das vozes da esfera perfura o restante.

“Por favor, Deus”, ela diz, com a voz grave e rouca. “Por favor, me ouça. Eu tenho um favor para te pedir.” A esfera... ela está falando comigo? Acho que tem que ser; a que outro “Deus” ela poderia estar se referindo? Eu escuto enquanto a esfera fala.

“Eu não te peço muito. Eu sou só um homem procurando... bem, eu não sei, eu acho. Talvez um sinal?” Eu sempre me perguntei por que a esfera se chamava assim — “homem”. Ela continua.

“Minha vida não saiu como eu esperava. Eu me formei, eu encontrei uma esposa, eu ia ser astrônomo. Eu devia ser alguma coisa, eu devia mesmo. Aí a vida me alcançou, e foi impiedosa. Quando eu comecei a beber, acho que foi mais ou menos o fim de tudo. Mas eu só penso que talvez...” A voz treme. O caos de som ao redor parece se calar com a respiração dela.

“Por favor, Deus, me diga que existe algo mais nesta vida além de dormência. Me diga que você tem um plano para mim, para nós, que essa dor vai valer alguma coisa. Se você consegue me ouvir, por favor, fale comigo.”

Eu considero o que a esfera disse. Uma esfera falante não pode se sentir entorpecida quando carrega tanta emoção, pode? Eu olho para mim mesmo, contemplo as incontáveis esferas que eu consumi, há muito tempo digeridas. O que resta delas é emoção — o pânico, a paixão, o amor. Por algum motivo, porém, eu não consigo sentir nada disso. Está tudo ali, eu só não consigo... Por que eu não consigo sentir? Em vez disso, a única coisa que eu sinto é fome.

Então é possível, afinal, sentir sem sentir? Isso é estranho, impossível. É horrível, horrível, horrível — seja lá o que for essa sensação. Como algo pode existir desse jeito? Não pode; não deveria; mas talvez não precise. Se, de algum modo, eu conseguisse falar com ela, isso faria a dormência da esfera desaparecer? Eu preciso tentar, por misericórdia a essa pobre esferinha. Eu não fui feito para falar, não fui criado com essa capacidade, então eu preciso criar o meio para a fala por conta própria.

Eu começo a colapsar para dentro de mim, dobrando e moldando um bilhão de toneladas de matéria. O deslocamento da massa ruge como uma estrela morrendo, e seu eco sacode cada átomo do espaço ao meu redor. Minha forma é como a de um buraco negro; a implosão de dez trilhões de toneladas é suficiente para curvar a luz das estrelas ao redor. O oceano de vozes começa a se acalmar, e um silêncio incomum cai sobre a rocha enquanto eu finalizo minha transformação. Da minha superfície, eu abro um enorme orifício redondo, revestido de ferro e quartzo serrilhados, estalando e rachando enquanto a goela se escancara.

Eu penso em como devo responder à esfera, pois suspeito que só vou conseguir reunir poucas palavras, se tanto. De tudo o que eu aprendi, de tudo o que eu senti, o que eu deveria dizer a essa pequena bola de pedra? Eu penso nisso por um tempo — uns cem anos, mais ou menos — até estar pronto. Eu abro bem a boca e falo.

“Significativo”, eu digo.

Mas não soa exatamente assim. Em vez disso, um rugido ensurdecedor e indecifrável irrompe de mim. A onda de choque cobre a esfera como uma erupção solar, com um raio de vários anos-luz. De repente, cada uma das vozes da esfera grita em uníssono. Só existe medo — medo por toda parte. Num instante, os azuis e verdes vibrantes da esfera se carbonizam em preto. Seus gritos são silenciados tão rápido quanto começaram.

Eu espero uma resposta, mas a esfera não diz nada. Não era isso que eu pretendia. Se eu escutar bem, ainda consigo ouvir algumas vozes baixas que restaram, ofegantes e choramingando. Isso faz alguma coisa dentro de mim se revirar; a singularidade no meu centro roncando. Eu estou com tanta, tanta fome. É claro — eu quase tinha esquecido. Talvez esta esfera ainda valha a pena ser consumida.

Vespas

Eu odeio vespas. Elas me aterrorizam e, por algum motivo, parecem ter algum tipo de vendeta pessoal contra mim. Insetos no geral têm, pelo menos alguns tipos. Eu me esforço muito para ser gentil com os bichos, o melhor que eu consigo. Se eu vejo uma aranha, tento identificar qual é para poder espantá-la, colocar perto de uma janela ou pôr para fora. Se for venenosa demais, ou uma que eu não conheça, geralmente eu mato. Eu não *quero* matar nenhuma delas. Eu queria conseguir me comunicar com os insetos e dizer que eu não faria mal a eles se eles não fizessem mal a mim. Mas enfim, estou me desviando. Os insetos me odeiam. Eu geralmente mato vespas porque elas são agressivas. Eu não mato abelhas; eu gosto de abelhas e elas não têm nada contra mim, geralmente. Eu evito matar aranhas quando dá. Na verdade, eu até gosto de insetos. Uma parte de mim fica apavorada com eles, então eu tendo a evitar alguns tipos — mais frequentemente aqueles que pulam ou voam. Eu odeio quando coisas pulam ou voam na minha direção. Mas ainda assim eu evito machucá-las se eu puder. Enfim, eu amo insetos. A maioria deles também não parece se incomodar comigo. Eu até já passei um banho inteiro conversando com uma aranha venenosa na cortina. Eu tinha acabado de entrar, e era daquelas facilmente reconhecíveis como perigosas, mas eu não tinha como matá-la. Então a gente conversou.

Mas *vespas.* Elas me ODEIAM, e eu posso dizer com segurança que o sentimento é recíproco. Eu já fui picado tantas vezes na vida que perdi a conta. Eu sou tipo um mata-insetos ao contrário: eu tento evitá-las e elas chegam mais perto e me mordem, ou me picam, me deixam com coceira e dor. Enfim, já falei demais. Você já tem todo o contexto e a “história de fundo” de que precisa.

Ontem eu fiquei preso no meu quarto com uma vespa. É um quarto pequeno, então a gente ficou cara a cara. Eu nem sei de onde ela veio; não tem buracos nem frestas na minha parede ou no chão, e nenhuma janela estava aberta. Minha aposta é que foi um portalzinho direto do inferno. Eu estava rolando o feed no celular quando ouvi o som. Aquele zumbido *infernal* que me dá um arrepio na coluna toda vez que eu ouço. Eu tenho fobia de vespas, caso você ainda não tenha percebido.

Ela estava perto da porta e ficava dando rasantes no teto e mergulhando na minha direção, como um caça minúsculo e maligno de inseto. Eu só fiquei sentado ali. Eu estava paralisado. Em alguns momentos, ela pousou no teto e eu achei que dava para eu escapar, mas então ela voava para baixo de novo. Tem uma janela perto da minha porta, e por fim ela pousou ali. Eu fiquei sentado e decidi que ia levar uns minutos para juntar coragem e então fugir, provavelmente para pegar uma arma e esmagar aquela pixiezinha satânica. Eu mantive os olhos nela enquanto criava coragem. Ela estava olhando para fora pela janela, com uma perninha apoiada no vidro. Era como se ela estivesse… ansiando, ou algo assim. Como se estivesse encarando a janela com saudade. Sentindo falta de alguma coisa.

E foi nesses momentos que eu percebi como as vespas são bonitas, quando você olha de verdade. Aterrorizantes, mas de um jeito belo. Como uma fada feita de sangue. Quando eu vi, eu tinha começado a falar sem parar com a vespa. No começo eram só coisas simples, aquelas coisas que você diz para um bicho assustador. “Eu só tô aqui na minha”, “fica aí em cima, amiga”, “não tem nada para ver aqui”, esse tipo de coisa. Mas, conforme foi passando, eu comecei a desabafar alguns dos meus problemas com o bicho. Reclamações pequenas sobre trabalho, amigos, coisas assim.

Para ser sincero, eu tinha ido dormir tarde na noite anterior. Eu estava cansado naquele dia, então, enquanto eu ficava resmungando para o inseto, comecei a cochilar um pouco. Eu e a vespa tínhamos formado uma espécie de trégua, eu acho. Eu tinha decidido evitar matá-la se fosse possível, e acho que ela sabia disso. Ela percebeu que eu não era uma ameaça. Quando eu pensei nisso, eu até me senti um pouco culpado. Como se aquela vespa nunca tivesse conhecido gentileza na vida, e eu estivesse tratando ela com a mesma crueldade. Ela não tinha feito nada comigo. Então eu peguei uma garrafa de água meio vazia que estava ao lado da minha cama, enchi a tampinha com água e, depois, peguei alguns pedacinhos de comida do pote do meu gato e coloquei na beirada do peitoril da janela. Eu não sei se é isso que vespas comem ou bebem, mas a intenção é o que vale.

Na próxima coisa que eu lembro, eu estava dormindo. Foi estranho: eu sonhei, mas não lembro com o quê. Tudo o que eu lembro é uma cócega na minha orelha e um zumbido ao fundo do sonho que eu estava tendo. Mas eu dormi bem o suficiente. Quando eu acordei, a vespa tinha sumido. Eu quase me senti… triste. Como se eu tivesse perdido um amigo. Para falar a verdade, eu não tenho muitos.

Agora é hoje, e eu não sei por que eu escrevi isso. Eu sinto falta da vespa. Eu estou com um problema estranho e queria contar para ela. Eu estava mais ou menos bem quando acordei, mas, conforme o dia foi passando, eu desenvolvi uma dor de cabeça horrível. E eu ainda consigo ouvir aquele zumbido. É como se alguma coisa estivesse batendo dentro da minha cabeça. E toda vez que eu me mexo, tem essa cócega lá dentro, como bolinhas de gude minúsculas rolando.

Pode ser só que eles não estejam encaixando direito, mas tem uma pressão na minha orelha, encostando no meu fone de ouvido. Como se alguma coisa estivesse tentando escapar, mas não conseguisse sair. A sensação passou agora há pouco, mas agora tem uma pressão atrás do meu olho. É horrível, parece que ele pode simplesmente saltar para fora a qualquer segundo agora…

quarta-feira, 25 de março de 2026

Compartilhei um UberPool — e o outro passageiro estava infectado com alguma coisa selvagem

Eu achava que Uber era melhor do que táxi em todos os sentidos. Era mais acessível, bem mais barato e — o mais importante — muito mais seguro.

Afinal, toda a experiência de pedir a corrida era feita por um aplicativo, com vários recursos de segurança embutidos. O trajeto inteiro ficava sendo rastreado por GPS o tempo todo, todos os detalhes da corrida — incluindo as mensagens do chat — eram registrados nas informações do app, e a checagem de antecedentes e verificação de identidade dos motoristas era muito mais completa. Além disso, dava para compartilhar a corrida com outros passageiros, o que te dava uma testemunha para qualquer comportamento inadequado ou perigoso.

Essas supostas vantagens de segurança estariam colocando os taxistas fora do mercado — e eu acreditava nisso, e com razão.

Bom, eu estava errada — especificamente sobre a parte de compartilhar com outros passageiros com segurança. Andar de UberPool quase me custou a vida.

Eu aprendi do jeito mais difícil que “Uber” está longe de ser “uber”.

Naquela noite eu tinha saído até tarde para curtir balada com meus amigos, como na maioria dos fins de semana. Eu estava numa fase da minha vida pós-faculdade em que eu só queria aproveitar a juventude e a liberdade de estar solteira. E eu também sentia que, se algo perigoso acontecesse, seria na boate, onde eu estava cercada de amigos leais. Força em números geralmente funciona.

Foi parte desse raciocínio que me levou a pedir um UberPool, em vez de um Uber normal, dessa vez.

A outra razão foi que eu queria economizar o máximo que pudesse. Quando a opção de compartilhar minha viagem com outro passageiro apareceu no meu app da Uber, ficou claro que eu economizaria dez dólares inteiros se escolhesse essa opção. Isso era uma bebida a mais que eu poderia pagar na próxima vez que eu saísse pela cidade.

Então eu pedi a corrida, me despedi dos meus amigos e saí do clube Electric Moon para esperar o motorista. Não precisei esperar muito: o Honda Civic vermelho dele encostou menos de dois minutos depois. Conferindo se a placa batia com os dados no meu celular, eu, meio bêbada, coloquei meus pés de bota de salto fino dentro do veículo e fechei a porta.

O interior do carro era confortável e limpo, com bancos de couro preto e um mini refrigerador abastecido com garrafinhas de água de graça — um ótimo lembrete do porquê eu preferia Uber a táxi. O motorista no banco da frente — Raul — confirmou meu nome, mas depois não puxou conversa nenhuma enquanto saía com o carro. O silêncio dele combinava muito comigo — eu odiava ter que forçar papo com motorista, ainda mais meio alterada. Vendo que eu era a primeira passageira a ser buscada, eu me acomodei e fiquei mexendo no celular enquanto ele dirigia para buscar a outra pessoa.

Quando o Uber parou para pegar o próximo passageiro, eu quase tinha esquecido que aquilo era um UberPool e que eu ainda não ia ser deixada em casa. Ouvi a porta ao meu lado abrir e levantei os olhos do celular para ver um passageiro entrando no banco ao meu lado. Ele parecia simpático, quase da minha idade, e com cara de quem tinha acabado de fazer uma caminhada na natureza. A calça de trilha e o corta-vento dele eram o oposto do meu jeans preto e da minha blusa frente única.

Eu sorri com educação, e ele devolveu um sorriso meio travado enquanto o carro retomava o caminho. Só se ouvia o barulho de fundo do rádio do carro, tocando um R&B suave de madrugada, quebrando o silêncio. Alguns segundos se passaram até eu notar que o cara estava segurando um pequeno ferimento no tornozelo — era por isso que ele tinha cumprimentado daquele jeito esquisito antes.

“Como você conseguiu isso?”, perguntei, curiosa, apontando o corte que ele tentava cuidar discretamente.

“Ah, algum bicho deve ter me mordido enquanto eu fazia trilha hoje mais cedo… podia ter sido pior, né?”, ele respondeu, dando uma risadinha.

Apesar da calma por fora, eu percebi um toque de preocupação na voz dele. Pelo visto, ele tinha encurtado a caminhada para ir avaliar isso no médico. Pela primeira vez usando Uber, eu mesma senti um aperto de inquietação. Era estranho saber que eu estava dividindo um Uber com alguém indo para o hospital. Eu estava atrasando a viagem dele?

Afastei essas preocupações e continuei puxando conversa com ele enquanto o carro passava rápido pela área arborizada onde o tínhamos buscado. Depois de alguns minutos, eu notei que a trilha devia ter acabado com ele, porque ele parecia desidratado e suado, segurando a testa em vários momentos. Com pena, ofereci a ele meu paracetamol e alguns lenços.

“Eu tô junto com você”, eu ri, tentando confortá-lo ao comparar minha ressaca de bebida com o estado ruim dele. Vince riu junto comigo dentro do carro escuro.

Enquanto isso, nosso motorista não disse uma palavra. Assim como fez comigo, ele confirmou o nome do Vince quando o pegou e depois ficou quieto. Isso me surpreendeu — eu imaginei que o motorista fosse dar algum conselho de saúde para um passageiro claramente abalado. No mínimo, dava para pensar que ele ia querer evitar que um trilheiro exausto vomitasse nos bancos de couro. Mas não.

As coisas começaram a piorar para o Vince rapidamente a partir daí.

Tinha se passado mal uns 15 minutos desde que o pegamos, e o estado dele já tinha piorado bastante nesse tempo. Ele foi de conversar comigo, bem-humorado, sobre as viagens de acampamento favoritas dele, a resmungar e se contorcer como um viciado em drogas. Nesse ponto, ele já nem tentava esconder o ferimento no tornozelo — e eu conseguia ver, mesmo do outro lado do banco de trás escuro e em alta velocidade, que tinha algo muito errado.

Dava para ver claramente dois pontinhos vermelhos indicando uma marca de mordida, cercados por um roxo e um preto de hematoma que não estavam lá quando ele entrou. O resto da pele dele estava pálida e úmida. E agora, qualquer tentativa minha de ajudar o Vince era recebida com paranoia e acusações.

“Fica longe da minha Lila, ou seja lá quem você é! Eu não te conheço! Eu não sei onde eu tô!”, ele berrava, afastando minha mão com um tapa e se encolhendo contra o banco.

Agora saliva escorria pelos cantos da boca dele, e ele se debatia o tempo todo preso ao cinto de segurança. Minha preocupação rapidamente deixou de ser com ele e passou a ser comigo. Aquilo não podia continuar por muito mais tempo.

“É… a gente tá perto do hospital?”, perguntei ao motorista na frente, nervosa, enquanto mexia no mapa do app da Uber. Estava travado e não me dizia onde estávamos. O motorista também não.

E então, pela primeira vez desde que eu tinha entrado no Uber, eu obtive uma resposta do motorista calado, de cabelo grosso.

Uma divisória sólida entre os bancos da frente e de trás começou a subir do assoalho — separando eu e o Vince dele.

Eu não estava acreditando. Eu nem sabia que um Honda Civic conseguia ter uma coisa dessas escondida embaixo. Eu sabia que alguns táxis e limusines tinham divisórias no meio. Mas Uber era carro comum. Aquilo teria que ter sido instalado especificamente. Não era para existir isso ali. E muito menos quando os passageiros estavam gritando por ajuda.

Minha raiva explodiu. Quando a parede de plástico travou no lugar, na minha frente, eu comecei a socar e gritar com a mesma energia com que o Vince se debatia ao meu lado.

“Me deixa sair agora! Encosta esse carro imediatamente! Esse homem tá tendo uma emergência médica! Ele tá… a gente… eu não tô segura aqui atrás! Por que você ainda tá dirigind—?!”

Senti uma mão bater de repente no meu rosto, interrompendo meus apelos furiosos, e percebi que era o braço do Vince se debatendo. Ele já não falava mais inglês naquele ponto, nem frenético nem calmo. Ele estava mais para um animal com raiva. O motivo do tapa era que ele estava se contorcendo desesperado para fugir de alguma coisa — as rajadas de ar frio que saíam da ventilação do ar-condicionado perto do banco.

Um reconhecimento horrorizado encaixou na minha cabeça.

Quando eu era criança, uma vez me ensinaram os sintomas de raiva numa aula de biologia — eu nunca achei que fosse precisar saber disso na vida real, sendo alguém que quase nunca se metia em natureza. Mas ali, no banco de trás de um UberPool, em outro passageiro, todos eles estavam ali.

Cansaço suado, movimentos hiperativos, dificuldade para engolir a saliva, espasmos musculares, confusão paranoica, medo de correntes de ar — tudo batia. Exceto pelo tempo em que os sintomas costumam aparecer.

E, bem na hora em que eu percebi isso, veio o sintoma da agressividade violenta.

Num instante, Vince se lançou pelo banco de trás e abriu a boca espumando para me morder. Eu gritei e levantei as mãos para proteger o rosto, esperando sentir os dentes dele atravessarem minha roupa e entrarem na minha pele. Em vez disso, eu ouvi o estalo seco do cinto de segurança quando o Vince foi puxado de volta pela faixa firme. Olhei para ele — o campista tranquilo virado um agressor selvagem — e vi o cinto segurando, começando a rasgar enquanto ele tentava de novo e de novo chegar até mim.

Apesar de o carro estar em alta velocidade, eu tentei inutilmente puxar a porta para abrir. Não mexeu um milímetro, travada no lugar, como a divisória preta na minha frente. Raul devia ter apertado algum botão para aquilo também. Eu estava presa num carro escuro e apertado com um estranho tentando me dilacerar.

Naquele momento, eu entrei em modo luta ou fuga. Eu precisava sair daquele carro e escapar do destino iminente de ser despedaçada.

Mas, naquele segundo, o cinto de segurança do Vince rasgou.

Ele se arremessou pelo banco de trás, com o rosto tomado por uma fúria animalesca. O tempo pareceu congelar. Pelos olhos injetados de sangue dele, eu conseguia ver o medo ali dentro.

Então a água atingiu ele. No tempo que ele levou para tentar me morder, eu tinha pegado uma das garrafinhas de água grátis do frigobar do Uber, arranquei a tampa e apertei a garrafa inteira, jogando água no Vince.

Pessoas com raiva também têm medo de água.

Os uivos de pânico, de hidrofobia, dele tomaram o carro enquanto ele recuava da água — mas eu não me importei. Eu estava ocupada demais quebrando a janela do passageiro com o salto fino da minha bota. Precisou de algumas pancadas, mas o vidro cedeu, estilhaçando completamente.

Com o coração disparado, eu joguei meu xale felpudo por cima de mim, peguei meu celular do banco e me atirei pela janela, caindo numa cambalhota para amortecer.

Graças a Deus era inverno e eu tinha uma camada extra cobrindo a pele na boate. E graças a Deus também pela faixa de grama congelada onde eu consegui cair, em vez do asfalto. Eu não fazia ideia da velocidade em que o carro estava naquele momento — mas o motorista não demonstrou o menor interesse em reduzir para eu sair. Foi um milagre eu ter sobrevivido com tão poucos ferimentos.

Quando me levaram ao hospital naquela noite, eu estava meio apavorada de esbarrar com o Vince lá. De ver de novo, no meu leito, a mesma última imagem dele se lançando em cima de mim, com olhos selvagens.

Mas ele não estava lá.

Felizmente, eu estava segura. Nem uma gota dos fluidos dele, carregados de raiva, entrou no meu corpo apesar do ataque. Eu nunca descobri o que aconteceu com o Vince, nem se ele sobreviveu. Mas tinha mais um passageiro de UberPool depois dele que ainda seria buscado.

Eu só consigo imaginar o horror que essa pessoa sentiu se o Vince, raivoso e rangendo os dentes, estava lá para “dar boas-vindas” quando ela abriu a porta do Uber.

É claro que, depois de tudo, eu entrei no app da Uber para denunciar o motorista e deixar uma avaliação negativa. Foi aí que “Raul” me mandou uma mensagem. Eu não estava esperando. Mas o homem que me trancou no banco de trás de um veículo com uma vítima de raiva para morrer entrou em contato comigo. A notificação que apareceu me abalou quase tanto quanto ter me jogado para fora do carro.

“Desculpa você não gostado viagem.”

Eu tive segundos para ler o resto.

“Humanos são vermes”, a mensagem continuava, quase com orgulho. “Eles merecem peste. Ouvir você falar todo dia me fez odiar. Me fez desprezar passageiros como você.”

Era inacreditável o que eu estava lendo, vindo de um motorista oficial da Uber.

“O pessoal daquele camping sempre levando mordida de morcego. Uma forma acelerada de raiva. Sempre tentando chegar no hospital. Normalmente mata em uma hora. A não ser que tenha alguém para espalhar. Por isso eu só aceito corridas de lá. Só corridas compartilhadas. Eu arrumo minha janela. Aproveite sua próxima viagem conosco :)”

Não havia tempo nem de tirar print para mostrar as mensagens a alguém. Elas desapareceram do aplicativo um instante depois que eu terminei de ler. Eu tentei atualizar a página, limpar o cache, reinstalar o app — mas sumiram. Até hoje, eu quase acredito que foi um sonho.

Convencer a Uber, com todas as evidências da minha corrida apagadas como aquelas mensagens, já é um desafio por si só. Mas eu estou determinada a continuar escalando isso. Um motorista deles está tentando, de propósito, espalhar um vírus mortal para todo lado, trancando novas vítimas no carro com ele. Talvez a Uber esteja sendo comprada por ele, ou talvez compartilhem a mesma misantropia.

De um jeito ou de outro, eu não vou parar até que esse aplicativo de corridas e o Raul sejam expostos.

Para qualquer uma das minhas próximas voltas para casa saindo da boate, nem preciso dizer que eu vou pegar táxi. Melhor ainda: talvez eu simplesmente vá a pé.

Ele tem me arrastado para baixo a vida inteira. O nome dele é Mr. Wood

Eu o encontrei quando era bem pequeno. Só uma criança, brincando na terra do quintal, cutucando tatuzinhos-de-jardim e desenterrando minhocas.

Depois de levantar uma pedra enlameada, encaixada entre dois brotinhos de grama-preta, uma centopeia pequena, marrom-escura, saiu rastejando e veio parar na palma da minha mão. Observei as perninhas minúsculas com curiosidade, sem saber na época o que era. As patinhas fizeram cócegas enquanto ela subia pelo meu antebraço, num tec-tec apressado.

Corri até a minha mãe, que estava sentada na varanda. Quando tentei mostrar para ela, ela disse, bem direta, que não sabia o que era. Que não estava vendo nada.

Quando insisti, os olhos dela se arregalaram e ela reconheceu o bicho, empolgada. Eu fiquei feliz naquele momento, sem perceber até muito tempo depois que ela só achava que eu tinha arrumado um novo amigo imaginário.

Não demorou para a centopeia subir o resto do caminho pelo meu braço e se enfiar por baixo da manga da minha camiseta. As pernas finas dançavam pela minha pele enquanto ela ia parar nas minhas costas. Quando voltei para o meu quarto, tirei a camiseta e olhei por cima do ombro, pelo espelho, enquanto o bichinho se acomodava bem em cima da minha coluna.

Meus dedos gordinhos de criança se atrapalhavam para alcançar as costas e puxá-lo, e no lugar disso eu só sentia os pezinhos pontudos pressionando a pele. Não lembro de doer naquela época; era só uma coceguinha, de um jeito que eu gostava de sentir.

Daí em diante, meu novo amigo ficou ali, às vezes rastejando um pouco para cima ou para baixo, às vezes no meu ombro ou na nuca. Algumas semanas depois de encontrá-lo, aprendi o que era um piolho-de-cobra num livro ilustrado. Foi aí que eu dei o nome dele: Mr. Wood. Pouco tempo depois percebi que ele era uma centopeia, não um piolho-de-cobra, mas o nome pegou.

Claro que, como qualquer criança, eu tentei contar para outras crianças, para professores também. Ninguém parecia “reconhecer” ele. Teve até uma época, lá pela quarta série, em que meus pais me levaram a um psiquiatra. Mr. Wood foi descartado como fruto da minha imaginação, algo que eu logo superaria.

A primeira vez que senti que tinha algo errado foi quando entrei na sexta série, numa escola nova. A gente estava se apresentando na aula de matemática. Quando chegou minha vez de levantar, senti uma fisgada aguda no meio das costas, e soltei um grito, achando que alguém tinha me cutucado com um lápis.

Os alunos riram de mim enquanto eu esfregava as costas. O calor conhecido da vergonha subiu pelas minhas bochechas, e eu segui o resto do dia, todo encolhido.

Quando cheguei em casa naquela tarde, minha mãe fez todas as perguntas que qualquer mãe faria depois do primeiro dia numa escola nova. Contei para ela do incidente na aula de matemática, e ela me deu uma bronca, dizendo que eu precisava crescer. Ela não queria ouvir mais nada sobre Mr. Wood.

Depois do sermão, fui para o meu quarto e tirei a camiseta para examiná-lo. Foi a primeira vez que percebi que ele tinha crescido. Fiquei chocado. Agora ele tinha a largura da minha coluna e pelo menos vinte, vinte e poucos centímetros de comprimento.

Depois disso, eu realmente comecei a sentir o peso dele, agarrado à minha coluna com as perninhas pontudas — cada uma puxando minha pele e beliscando para se manter firme.

Minhas mãos magrelas tentaram removê-lo, como eu fazia quando era menor. Meus dedos se fecharam em volta do exoesqueleto dele, quente e duro, e eu puxei com força. Em resposta, ele se enterrou mais na minha pele, e eu senti os membros dele abraçando o osso por baixo. Uma dor subiu pela minha coluna e eu fui obrigado a desistir.

Eu tentei guardar aquilo para mim, com medo da reação dos meus colegas e, Deus me livre, da minha própria mãe.

Eu sentia beliscões ou mordidas ocasionais quando estava fazendo prova ou apresentando algum trabalho. Nunca acontecia com frequência suficiente para eu me acostumar. Cada vez me pegava de surpresa e doía, e eu passava o resto do dia tremendo.

Eu odiava o Mr. Wood. Eu queria que ele sumisse. Mas eu não sabia o que fazer.

Depois de criar coragem e admitir para minha mãe que eu tinha dores nas costas, ela me levou a um especialista na oitava série. O médico não conseguia vê-lo.

Só depois de uma hora exposto e envergonhado, com minha pele pressionada contra um metal frio e duro, mandaram eu vestir a camiseta de novo. Ele não conseguiu me diagnosticar com nada além de dor crônica nas costas — algo para tratar com um ibuprofeno de vez em quando.

Apesar do quanto eu desejasse o contrário, só piorou quando entrei no ensino médio. Mr. Wood cresceu até ficar grande o bastante para eu sentir o peso dele o tempo todo. Eu fiquei corcunda.

As pernas dele se estendiam para os lados, envolvendo toda a lateral da minha caixa torácica. Elas me davam choques ardidos ao longo de cada dia. Por mais que doesse, eu convivia com aquilo.

Uma lembrança dessa época que se destaca foi quando eu estava no segundo ano do ensino médio. Eu saí da última aula numa sexta-feira com alguns colegas. A gente tinha combinado de ir para a casa de um deles assistir a um filme. Assim que atravessamos a porta da escola, Mr. Wood mordeu com força: as mandíbulas afiadas se fecharam em volta da minha coluna, bem abaixo da gola da camiseta.

Eu gritei de dor, como se um fogo disparasse pelas minhas costas e ombros. Caí no asfalto. Os outros fingiram preocupação, mas no fim eu fui deixado para trás, mancando para casa sozinho.

Virou um fardo constante e, com o tempo, eu desisti da vida social. Eu tinha que ficar em casa. Continuei tomando remédio a pedido da minha mãe, mesmo sabendo que não ia funcionar. Eu tinha que deitar do jeito exato para a dor diminuir. Só eu e Mr. Wood.

No fim do ensino médio, embora eu tivesse conseguido me virar bem com as notas, eu não tinha mais nenhum amigo. Mesmo com a dor, eu consegui manter viva minha única paixão de verdade: música.

Eu vinha praticando trompete com a intenção de me inscrever em faculdades de música. Horas e horas de preparação, trancado sozinho num quarto. Era a única coisa que realmente acrescentava algo à minha vida de um jeito que eu gostava. Por sorte, Mr. Wood geralmente me deixava em paz nesses momentos.

Quando finalmente chegou a época das audições, eu dirigi três horas para o norte até uma das escolas para as quais eu tinha me candidatado. Senti o peso familiar de Mr. Wood voltar assim que saí do carro e me aproximei do prédio.

Eu recebi um crachá e fui encaminhado para a sala de aquecimento. Eu me perguntava se eles conseguiam ver o monstro nas minhas costas por baixo da minha camisa de gola. As pernas dele se enrolaram em volta do meu tronco inteiro enquanto eu sentava ali, tentando tocar algumas notas.

Quando me chamaram para entrar na sala de concertos para a audição, eu mal consegui ficar de pé. O peso dele era absurdo, como se eu estivesse carregando uma mochila de trilha cheia. Quando cheguei à porta, minha testa estava escorrendo de suor. Meu estômago revirava e parecia que um buraco sem fundo se abria dentro de mim.

Chamaram meu nome. Eu entrei. Os jurados estavam bem longe, no salão vazio, atrás de cortinas. Eles pediram o primeiro trecho.

Eu puxei um ar trêmulo e tentei me acalmar. Levei o bocal aos lábios e comecei a tocar.

Começou claramente tremido, mas aceitável. Mr. Wood apertou as pernas em volta da minha caixa torácica, empurrando os ossos contra meus pulmões. Minha respiração travou na garganta e eu mal conseguia respirar.

As notas começaram a falhar e morrer, caindo moles na primeira fileira de cadeiras vazias.

Um arrepio atravessou meu corpo inteiro quando ouvi aquele som. Terminei o trecho de qualquer jeito, espasmódico, e abaixei o instrumento. Mr. Wood apertou ainda mais e minhas bochechas ficaram vermelhas.

Eles pediram o próximo trecho.

Eu suspirei aliviado. Eu estava apavorado, achando que iam me expulsar. Quando Mr. Wood relaxou, eu também comecei a relaxar. Levantei o instrumento e comecei a tocar.

De repente, as mandíbulas se fecharam na base da minha nuca e se cravaram na minha pele, fundo, espalhando um calor aterrorizante em um instante.

Tirei o instrumento do rosto, mal conseguindo segurar com a mão esquerda. Eu me curvei e a minha boca ficou aberta, gritando sem som, fazendo de tudo para conter a minha miséria para que os jurados não ouvissem. O suor brotava e pingava no chão, gota por gota, sumindo na madeira.

Levei a mão atrás da cabeça e toquei a cabeça dele, maior do que a palma da minha mão. Era quente e dura. Eu puxei; meus dedos se cortaram ao agarrar as bordas do exoesqueleto. Puxar só fez ele cravar mais fundo, e a dor era elétrica. Eu senti algo quente e pegajoso.

Minha mão direita estava coberta de sangue.

“Ah… obrigado. Você pode sair pela porta lateral agora”, disse um jurado sem rosto, tentando não demonstrar constrangimento pela minha apresentação. A voz me deixou zonzo.

Eu manquei para fora da sala. Quando uma assistente me encontrou no corredor, o sangue já tinha sumido. A cabeça de Mr. Wood não aparecia mais acima da minha gola.

Assim que saí do prédio, desabei na grama e chorei, soluçando. Todo aquele tempo. Todo aquele esforço. Tudo inundou minha mente de uma vez. Eu tinha estragado tudo.

Não.

Ele tinha estragado tudo.

Alguma coisa precisava ser feita. Não importava o preço. Eu decidi ali mesmo.

Naquela mesma noite eu voltei para casa e mantive minhas respostas vagas quando meus pais perguntaram. Eu tentei não reviver a audição na minha cabeça, mas ela continuava voltando. Eu estava com vergonha.

Quando fui para o meu quarto dormir, fiz questão de trancar a porta. Tirei a camiseta e olhei no espelho.

Meu corpo ficou dormente.

Mr. Wood cobria toda a extensão das minhas costas; os segmentos marrom-escuros alaranjados eram duros, bem definidos, brilhando na luz. As pernas dele davam a volta e vinham até a frente do meu corpo, prendendo firme na minha caixa torácica e no estômago. Pezinhos pontudos perfuravam a minha pele onde ele tinha se enterrado. Dois tubos gigantes, as antenas, se projetavam acima da minha cabeça.

Na parte de trás do meu pescoço ficava a boca. As duas mandíbulas gigantes, mais parecidas com garras pretas de lagosta, estavam presas rigidamente no topo da minha coluna.

Eu me preparei. Minhas mãos úmidas se fecharam em volta dos lados do segmento do meio que cobria minhas costas. Senti as bordas afiadas e a parte de baixo macia e quente. Empurrei com força para afastá-lo das minhas costas.

A borda da carapaça cortou fundo as pontas dos meus dedos, ao mesmo tempo em que as pontas das pernas dele rasgavam a pele do meu estômago. Eu não consegui segurar o grito de dor e empurrei mais. Sangue e suor escorreram para o chão.

Era como se um fogo estivesse derretendo meu tronco inteiro. Meu peito parecia um presente de Natal sendo rasgado, pedaços de músculo vermelho aparecendo por baixo. Eu puxei com ainda mais força e, por fim, as pernas perderam a firmeza; cada uma se debateu frenética no ar ao perder contato comigo.

No exato momento em que a última se soltou, as mandíbulas morderam.

Elas se cravaram fundo no meu pescoço e sangue vermelho-vivo espirrou no chão. Eu caí de joelhos e travei a mandíbula. Eu senti o aperto delas na minha coluna. Cada puxão depois disso trazia uma dor imensa, paralisante. Eu tinha que parar.

Eu soltei o corpo e me levantei. Olhei em volta do quarto com os olhos cheios d’água até, por fim, fixar o olhar no canto afiado da cômoda ali perto. Cambaleei até ela e virei as costas.

Eu joguei minhas costas contra o canto. Ouvi um estalo alto e um guincho agudo atrás da minha cabeça. As mandíbulas afrouxaram um pouco. Eu me projetei para a frente. Enterrei os calcanhares no chão e bati a coluna na cômoda de novo.

Um impacto úmido, visceral. Ouvi algo espirrar no chão, e vi tripas marrons e estilhaços negros de algo rígido se acumulando numa poça abaixo das minhas pernas. As mandíbulas afrouxaram de novo.

Quando eu levantei o corpo, as mandíbulas se fecharam com força renovada, cortando mais fundo dentro de mim. Minha cabeça inclinou para a frente sem eu conseguir controlar, e eu senti o ar frio passar por um enorme talho atrás das orelhas. Com mais um impulso, eu me atirei contra a quina de madeira afiada.

Outro grito de rasgar os ouvidos atrás de mim veio antes de um baque pesado, quando a metade de baixo de Mr. Wood caiu no chão num emaranhado de pernas e vísceras. As mandíbulas finalmente se abriram, permitindo que o resto dele caísse na pilha. Eu caí para a frente, sem conseguir me apoiar, e desabei no chão.

Num torpor dolorido, eu observei do chão a metade da frente de Mr. Wood erguer as antenas acima da poça de órgãos. Ele vasculhou o chão com elas e então saiu correndo, rápido, deixando um rastro marrom e pegajoso para trás.

Fechei os olhos e abracei o chão frio. A dor foi sumindo aos poucos. Quando abri os olhos de novo, as vísceras tinham desaparecido. Não havia mais sangue. Nenhuma evidência de luta. Quando me sentei, percebi que eu não estava mais ferido.

Fiz uma careta ao tocar a nuca, que estava completamente normal. Eu me levantei e examinei o quarto. Nenhum sinal de Mr. Wood.

Isso foi há um mês. No começo foi bom, o peso ter sumido. Eu fiquei genuinamente feliz naquela manhã. E, na verdade, eu ainda estou mais feliz.

Mas ainda sinto uma sensação persistente, aquela cócega na minha nuca. Eu não vi Mr. Wood desde que ele se arrastou para fora da minha vista.

Mas eu ouço. As perninhas dele fazendo tec-tec dentro das paredes. No teto.

Em qualquer lugar para onde eu vou.

Sempre perto de mim.
Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon