Hoje, tô sozinho de novo. Talvez seja melhor assim.
Meus pais são cientistas. Eu era o único filho deles.
Fotos antigas me mostram radiante, banhado no amor e na atenção deles. Eu tinha aquele olhar travesso. Meus pais achavam que era o começo de uma curiosidade em florescimento, e que eu ia crescer pra virar cientista igual a eles.
Quando eu tinha uns doze anos, a empresa de pesquisa particular deles os mandou pra fazer trabalho de campo no exterior, em algum lugar da costa leste do Mediterrâneo. Algo a ver com vida marinha.
Eu fui pra um colégio interno. Minha curiosidade não vingou. Em vez disso, minhas traquinices inocentes me transformaram num palhaço de classe, um encrenqueiro e um fracassado.
Meus pais só podiam se comunicar comigo por e-mail da empresa. Eu perguntava sobre o trabalho deles, mas eles só diziam que tava indo bem e nunca davam detalhes.
Aos 18, saí do colégio interno, à deriva no mar sem remo nenhum.
Aluguei um apê barato num canto podre da cidade e arranjei um trampo remoto frouxo que eu podia fazer do sofá, com meu bong sempre ao alcance da mão.
Nos e-mails, eu dizia que tava na faculdade e morando num dormitório.
Uma segunda-feira de manhã, depois de um fim de semana bem no fundo do poço, eu tava tão acabado que meus chefes do trampo remoto me baniram temporariamente do sistema com um aviso de desempenho bem seco.
Pra piorar, eu tava atrasado no aluguel, e a agência do proprietário tava ficando séria: paga ou rua.
Aí veio um e-mail com uma grande notícia: a mãe tava grávida. Eu ia ser irmão mais velho.
E mais: eles tavam sendo transferidos de volta pros Estados Unidos pra trabalho de laboratório. A gente ia ficar junto de novo. Uma família maior e melhor.
Nos meses seguintes, parei de fumar, arranjei um emprego de escritório decente, quitei o aluguel atrasado e até me inscrevi em aulas da faculdade comunitária.
A mãe deu à luz. A menininha, Lotte, nasceu saudável. E assim que ela crescesse um pouco mais, eles iam fazer os arranjos pra voltar pra casa.
Anexada, uma foto: mãe e pai segurando a recém-nascida, toda enrolada em cobertores pra só mostrar o rosto, uma boquinha de bebê fofa, narizinho e umas fendas minúscas de lado onde os olhinhos da bebê Lotte tavam bem fechados contra a luz do dia.
Eles me puseram em contato com um corretor de imóveis que tinha contrato com a empresa deles. Só especificaram que precisava ter controle centralizado de temperatura e umidade, além de uma banheira grande.
Eu sempre odiei banho de banheira, preferindo chuveiro onde me sentia menos vulnerável. Mas imaginei que banho de banheira devia ser importante pra bebês.
Achei a casa, larguei meu apê barato e me mudei. Comprei até um aquário, achando que ia dar um toque legal.
Mais e-mails, mais expectativas de data de volta pra breve, mais fotos da bebê Lotte sempre toda enrolada em cobertores. Brinquei perguntando se ela tinha mesmo algum membro.
No começo, os olhos dela tavam sempre fechados. Quando finalmente vi com os olhos abertos, a bolinha do olho parecia um pouco achatada, as cores meio turvas. Ainda assim, uma graça.
Finalmente, meus pais escreveram dizendo que tavam voltando oficialmente pra casa. E esse e-mail tinha o primeiro vídeo anexado:
Bebê Lotte, deitada de costas numa mesa que parece de metal, se contorcendo e se enroscando no cobertor tipo casulo, olhos cinza achatados piscando abertos e fechados.
E aí, por um segundo, antes do vídeo cortar, a linguinha dela escapando dos lábios pra provar o ar.
Assisti uma vez atrás da outra como um irmão mais velho orgulhoso. Talvez demais, porque comecei a assistir mais de perto, obcecado pelos detalhes, aqueles últimos segundos, onde a língua dela escorrega pra fora...
Devia ser um glitch do vídeo por causa da compressão, porque quando pausei e dei zoom, juro que a língua dela era pontuda.
O grande dia chegou. A casa tava em ordem. Eu tava em ordem.
O táxi parou. A gente se abraçou todo mundo. Eles pegaram Lotte, na cadeirinha dela, do banco de trás, e entramos todos.
Perguntaram se eu queria pegar ela no colo. Queria.
Sim, ela tinha braços e pernas e mãos e pés e dez dedinhos nas mãos e dez nos pés. Igual qualquer bebê normal. Bom, talvez os braços e pernas parecessem um pouco pequenos e murchem, mas o que eu entendia de corpinho de bebê?
Segurei ela pertinho e cheirei a cabecinha, como eu tinha ouvido que se faz com bebê. Cheirava um pouco salgado, tipo mar. Era normal? Não perguntei.
Mal podia esperar pra contar pra eles sobre meus estudos, trampo e planos pro futuro. Mas eles pediram pra eu ir buscar uma pizza. Sugeri pedir entrega. Insistiram pra eu ir buscar.
No jantar, rolou nossa grande conversa. Não pensei que ia ser sincero com eles, mas tudo saiu: meu histórico ruim no colégio interno, minha falta de ambição, e como eu virei a chave toda quando soube que eles tavam voltando.
Achei que ia rolar alguma reação, um reconhecimento de como tudo isso tinha sido foda pra mim, e eles orgulhosos de eu ter me ajeitado.
Eles só sorriram educadamente e ficavam virando pra Lotte, puxada pra mesa numa cadeirinha de bebê pra comer.
Pai pegou uma lata e tirou a tampa. Mãe começou a dar pra Lotte com uma colherzinha de plástico. Olhei, cheirei o conteúdo: era caviar.
Bebê come caviar? Quer dizer, elas não mamam no peito? Explicaram que Lotte era exigente pra comida, mas amava caviar, então era isso.
Quando a colher se aproximava do rostinho, as narinas úmidas dela se arregalaram, os olhinhos fendidos piscaram, e a boca dela chupou gulosa as bolinhas brilhantes.
Disse que era fofo, sem ter certeza se era mesmo.
Na hora do banho, fiquei por perto, querendo aproveitar ao máximo o primeiro dia como família. Quando baixaram Lotte na água morna e ensaboada, ela fez uns cliques satisfeitos. Mãe disse que era o balbucio de bebê dela.
Aí notei a cicatriz na lombar dela. Pai disse que era um daqueles crescimentos tipo cauda aleatórios, só pele e gordura sobrando. Foi esquisito quando viram pela primeira vez, mas remover foi um procedimento simples.
Quando mãe enfiou a mão pra tirar ela da banheira, Lotte começou a se debater. O rostinho ficou vermelho. Por instinto, estiquei a mão pra ajudar mãe a segurar ela firme.
Ela virou pra mim e sibilou. O bafo de bebê era quente. Meus pais riram e enrolaram ela na toalha.
Mas ela ainda me encarava, o rosto se contorcendo como se estivesse se preparando pra algo, até...
Ela espirrou.
Um espirro alto e roncante. O rosto dela acalmou logo depois.
Eu levei um catarro verde na barra da manga do meu suéter. Riscos de irmã bebê.
Só que na manhã seguinte, quando peguei o suéter, tinha um buraco na barra da manga. Um buraco, tipo ácido que tinha corroído o tecido.
Tudo rapidamente se acertou na nossa nova rotina.
O laboratório onde meus pais trabalhavam tinha serviço de babá, então Lotte ia com eles. Às vezes parecia que eu ainda era o estranho, mas é assim com bebê em casa.
Enquanto isso, eu tava progredindo na faculdade, ganhei promoção no trampo, e comecei a ficar sério com essa mina, Maya. A gente até falou em morar junto.
De vez em quando, porém, eu achava mais daqueles buracos tipo ácido queimado pela casa: nos móveis, especialmente no meu quarto.
Lotte tava na fase de engatinhar, mas tinha um jeito peculiar: não tanto engatinhar, mas rastejar. Ela era boa nisso e se movia pelo chão bem rápido sem usar os bracinhos ou perninhas moles.
E quando rastejava, às vezes soltava um silvo, especialmente quando chegava na sala e perto do meu aquário.
Uma manhã de sábado, pai já tinha saído. Mãe tava agitada com cara preocupada.
“Ah, que bom que acordou. Pode— preciso que fique em casa hoje. Com a Lotte. Só umas horas. Tem uma coisa no trabalho... Seu pai já tá lidando... Meu deus, desculpa pedir assim—”
Garanti que não tinha problema. Só tinha planos com Maya mais tarde à noite.
Sozinho, fiquei sem saber o que fazer.
Lotte dormia feito pedra no berço, o quarto dela exalando um cheiro leve de água salgada.
Peguei o monitor de bebê e voltei pro meu quarto pra fazer uns trabalhos da faculdade, jogar videogame, ver futebol, qualquer coisa pra passar o tempo até a mana bebê precisar de mim ou meus pais voltarem.
Horas se passaram. Fiquei aumentando o volume do monitor e escutando com atenção. Nada além de respirações úmidas e quietas. Ia na ponta dos pés pro quarto dela e espiava, sem movimento no berço. Liguei pros meus pais, querendo perguntar sobre comida ou leite ou fralda, mas não atenderam.
Agora eu tava puto. O sol tava se pondo. Mandei mensagem pra Maya cancelando.
Aí peguei um cachimbo e dei umas tragadas de um beck velho e murcho antes de me jogar num pornô.
No torpor distraído, o monitor de bebê ganhou vida com um barulho de tombos. Depois os sons do rastejar da Lotte.
Corri pra ver ela. O quarto tava vazio.
Ela tava na sala. Tinha rastejado direto pro meu aquário.
Vi os olhos dela pelo vidro do tanque: abertos e turvos, o centro cinza acompanhando de um lado pro outro, caçando os peixes nadando pra lá e pra cá em espasmos rápidos e sem sentido.
Ela esticou pro lado da perna da mesa. Nenhum bebê teria força pra derrubar, mas naquele momento eu soube que ela tinha.
Fui pegar ela.
Ela virou pra mim, língua pontuda chicoteando pra fora, e sibilou enquanto eu pegava o corpinho dela.
Ao levantá-la, ela espirrou, acertando o lado do meu pescoço, só um pouquinho de cuspe disperso, mas começou a queimar.
Corri pra botar ela de volta no berço e depois pro banheiro pra jogar água no pescoço. Tirei a roupa e tomei banho. Não adiantou.
Enchi a banheira e entrei, sentindo finalmente um alívio morninho.
Devia ter cochilado. Quando vi, meus pais tavam em casa e me repreendendo por tomar banho de banheira e deixar Lotte sozinha.
Pedi desculpa, saí da banheira e me tranquei no meu quarto.
Caí na cama e logo fui levado pros meus sonhos. No começo, balançando suavemente num barco firme num lago calmo.
O lago virou oceano. Logo não tinha terra à vista. Os céus azuis viraram roxos enquanto as nuvens invocavam ondas pesadas ao meu redor.
Eu tava à deriva num pedaço de madeira podre, água salgada afiada enchendo minhas narinas e boca a cada tapa de onda.
Algo pior que o caos negro e infinito crescia por baixo de tudo, seu pavor iminente dominando o submundo negro do oceano.
Nadando por baixo, rastejando na minha direção. Pronto pra me envolver em carne escamosa e me arrastar pro fundo.
Primeiro o tornozelo, depois a perna. Eu ofegava ar salgado antes que o puxão monstruoso enrolasse meu peito no aperto sufocante. E pro fundo eu fui.
Acordei encharcado de suor. Um ronco vibrava do chão.
Levantei. Meus pais dormiam pesado. Fui ver Lotte.
Do corredor, vi o berço dela, os olhos cinza lançando uma luz opaca na minha direção, como se me guiassem. Não dava pra ver o resto do rosto ou corpo. Só os olhos.
Meus pés entraram no cone de luz cinza à frente. Minha mente protestava. Mas eu fui levado passo a passo na direção dela.
Não importava o quão perto eu chegasse, ainda só via os dois feixes largos e achatados de luz turva.
Aí, um barulho de quebra e splash na sala.
A luz cinza piscou e apagou. Eu tava no escuro.
O aquário, pensei.
Cacos de vidro espalhados pelo chão da sala. E Lotte no meio de tudo, parecendo tranquila, até saciada.
Meus pais entraram em pânico. Mãe pegou Lotte enquanto pai checava ela por cortes.
Ela tava intacta.
Ainda assim, levaram ela embora, mandando eu limpar o vidro.
Obedeci.
Mas não achei um peixe sequer, só uma nadadeira de cauda, rasgada de forma irregular do resto do corpo ausente.
Eu não sabia ainda, mas sentia: o caos tava prestes a descer na minha vida.
Cheguei na aula da faculdade. Todo mundo tava dando uma aulinha de última hora pra uma prova grande que a gente tinha. Eu tinha esquecido completamente.
Quando saí da prova, vi umas mensagens do chefe do trampo. Onde caralhos eu tava? Tinha confundido o horário.
Correndo pro escritório, cruzei uma rua na faixa e bati num ciclista. Meus membros se contorceram e eu caí no chão. A cabeça bateu no asfalto e eu vomitei ali mesmo enquanto uma multidão me cercava.
Eu tava numa ambulância, depois num hospital, antes dos analgésicos fazerem efeito.
Maya tava lá, a doce Maya, talvez a única coisa na minha vida em que eu podia confiar. Só que o rosto dela era uma mistura de preocupação e raiva.
“Fico feliz que você tá bem, mas que porra é essa…? Não dá pra dizer que tô surpresa. Você tem sido tão... sei lá. Mas não aguento mais. Eu fico preocupada, aí fico puta porque você me faz ficar preocupada, e enquanto isso você é tão... Fico feliz que não se machucou feio, mas... Tchau.”
Uma enfermeira tomou o lugar dela ao lado da cama e me deu mais remédio.
Antes de apagar, perguntei dos meus pais. A enfermeira disse que eles tinham vindo rapidinho com minha irmãzinha adorável, mas avisaram pro hospital que não podiam ficar, e que provavelmente não voltariam por causa de uns problemas com o bebê.
Perguntei que problemas. A enfermeira deu de ombros e disse: “Não dá pra dizer. Ela parecia feliz e saudável pra mim. Além do mais, por que eles ficam chamando ela de bebê?”
Saí do hospital, sem saber se era mais tarde naquele dia ou uns dias depois. E meu celular tava morto, então não dava pra checar as últimas mensagens.
Com uma dor de cabeça latejante, decidi que tinha que correr pra casa.
Era entardecer quando cheguei perto da casa e vi, pela janela, uma família feliz reunida na mesa da cozinha.
Lotte tava sentada reta na cadeirinha. Não parecia mais velha, mas mais alongada, esticada. Ela ria num deleite travesso. Meus pais tavam dando comida pra ela.
Não era mais caviar. Pelo que dava pra ver, era carne. Minha mãe pegou um naco com a mão e balançou na frente da Lotte.
Os olhos achatados e turvos dela brilharam úmidos. A língua pontuda chicoteou pro ar.
Ela abriu a boca. Bem aberta. Uma fileira de dentinhos minúsculos indo até o fundo. Os lábios se esticaram na direção do naco de carne.
Aí, o que eu vi em seguida...
A frente da boca estendida dela se desencaixou, estalou e curvou pra dentro, mordendo forte na carne enquanto minha mãe puxava a mão.
Tropecei pra trás, meio caindo num arbusto.
Meus pais viraram e me viram pela janela.
Eu tava pra correr, mas os efeitos da concussão e dos remédios me deixaram tonto. Caí.
Pai correu pra fora, me ajudou a levantar e me levou pra dentro.
Mãe voltou de botar Lotte no quarto e me deu uma xícara de chá. Os dois sentaram no sofá na minha frente.
“A gente tava preocupado com você.”
“Você parece sob um estresse dos infernos.”
“A gente soube da Maya, sentimos muito.”
“E seu trampo e estudos, você tava indo tão bem.”
A dor na cabeça era cega e sirenes berriam nos meus ouvidos.
Acusei eles de fugir do assunto. O que eu queria mesmo saber era o que raios tava rolando com Lotte, tinha a ver com o trabalho deles? E como eu ia seguir minha vida com eles sempre tão secretos comigo? Me deixando de fora de tudo...
“Você tem problemas, filho.”
“Problemas de raiva, e talvez mais.”
“E tá procurando alguém pra culpar.”
“Você parece precisar de descanso. A gente conversa sobre isso amanhã.”
Queria protestar, exigir respostas. Mas do nada, a dor de cabeça sumiu e uma fadiga pesada me invadiu.
Acho que deixei eles me levarem pro quarto e me botarem na cama.
No dia seguinte, levantei por volta do meio-dia.
Tava me sentindo uma merda, tanto fisicamente quanto pelo meu comportamento. Tava pronto pra aceitar que estresse, raiva e talvez inveja tinham me dominado nos últimos dias ou semanas. E eu precisava de ajuda.
A casa tava vazia.
Quer dizer, vazia. Sem pais, Lotte ou qualquer coisa pessoal que fizesse o lugar parecer um lar, mesmo que só por pouco tempo.
Tinha um e-mail dos meus pais: emergência no projeto de pesquisa deles, tiveram que voltar pro campo imediatamente. Quando eu lesse isso, eles já tavam sobre o oceano num voo fretado particular.
Lotte tava com eles.
Sentiram muito, mas a casa, paga pela empresa, tinha que ser desocupada em uma semana.
Eu ia ficar por minha conta. À deriva de novo.
Não sei o que vou fazer ou onde vou morar. Acho que sempre tive medo de quem eu poderia virar sem estabilidade ou rumo.
Mas agora, o que me apavora mais é o que tá por baixo desse oceano de incerteza. Algo com uma vontade primordial de devorar meu ser errante.
Tinha mais uma coisa no e-mail: por causa de uma política da empresa, eu devia tomar cuidado pra não ser específico sobre minha vida familiar nesses últimos meses ao pedir ajuda.
A empresa ia saber.

