segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Eu sou o Deus de uma cidade que não deveria existir

Aqui, ninguém pisca.

Desde que me lembro, eles só me encaram. Não uns aos outros, apenas a mim. Eles me olham como se eu fosse o último nascer do sol que veriam. Como se, ao desviar o olhar, eu pudesse desaparecer. Não importa o que eu faça, não consigo arrancar nenhuma reação deles. Já causei escândalos, joguei coisas pela sala, gritei as palavras mais vulgares que podia imaginar a um palmo de seus rostos. Eles apenas ficam lá, sorrindo, quietos, imóveis.

Eu teria enlouquecido se não fosse pelo xerife. Ou talvez ele seja o prefeito, não sei ao certo. Tudo o que sei é que ele foi a única pessoa na cidade que falava comigo. Ele me criou, me ensinou a ler, escrever, cozinhar, sobreviver. Ele me disse que a cidade era minha, não só a terra, mas os prédios, tudo.

Nunca tive uma casa. Não precisava de uma. Eu podia entrar em qualquer prédio, casa, loja, lanchonete, pegar comida, roupas, usar o banheiro. Ninguém nunca me impedia.

A população parece estar fixa em cerca de 200 pessoas desde que me entendo por gente. A maioria dos prédios na cidade é de tijolo rústico, manchado pelo sol. Há uma floresta que cerca a cidade e uma única estrada que, na verdade, não parece levar a lugar algum.

Acabei me acostumando com essa vida. Não havia motivo para tentar sair, de qualquer forma. Tentei caminhar em todas as direções, e todas me levaram de volta à cidade. Peguei um cavalo de um dos moradores, junto com comida para uma semana. Fui marcando as árvores para me orientar, tomando meu tempo. Não importava o que eu fizesse, sempre acabava voltando para a cidade. Fiquei tão desesperado que até tentei andar de costas, pensando que, se pudesse manter a cidade à vista, ela não me enganaria para voltar. Não funcionou.

Fui à biblioteca para ver se encontrava registros antigos da cidade. Mas metade dos livros estava sem capa. A maioria tinha páginas amareladas e deformadas. Os calendários eram ainda piores: todos tinham apenas os meses e dias, sem ano, sem feriados, sem história.

Às vezes, juro que vi o mesmo padrão de nuvens se repetir no céu.

Meu Deus, como eu queria que houvesse um relógio funcionando nesta cidade.

Já perguntei ao xerife sobre a cidade, sobre mim. Quem eram meus pais, meu aniversário, de onde vim. Ele sempre me olhava por um tempo e dava a mesma resposta:

“Você sempre esteve aqui.” E isso era tudo.

Quando eu era mais jovem, comecei um pequeno incêndio dentro da casa de um dos moradores. Só queria alguma reação deles. Eles não gritaram. Não se moveram. Um homem ficou parado enquanto o fogo subia lentamente por sua perna, as roupas queimando enquanto a pele formava bolhas.

Eu congelei. O xerife entrou correndo logo depois, me tirou da casa primeiro e me mandou esperar na biblioteca, depois voltou para apagar o fogo.

Fiquei sentado na biblioteca, com o estômago revirado. “Por que eles não se mexeram? Por que não disseram nada ou tentaram me parar? Ele sabe que eu não quis fazer nada de ruim, né? Tenho certeza de que ele também fica entediado sendo a única outra pessoa na cidade que parece consciente.” A porta se abriu com um estrondo. Mal consegui dizer duas palavras antes que ele me desse um tapa.

“Você tá louco?!” ele disse.

“E-eu sinto muito, eu só queria—”

“Você poderia ter matado eles! Não importa o que você quer. Escuta, garoto, seu trabalho é fazer o certo por essas pessoas, não importa o custo.”

“O que isso quer dizer?!” retruquei.

“Ninguém aqui faz nada além de me encarar. Não tenho nada pra fazer aqui. Queria poder sair dessa cidade e deixar todo mundo pra trás.”

Assim que essas palavras saíram da minha boca, vi o rosto do xerife mudar de raiva para traição. Ele não disse mais nada e saiu da biblioteca. Não falou comigo pelo próximo mês. Foi o pior mês da minha vida.

Não acredito que esqueci disso. Ainda bem que me lembro agora.

Ontem, eu estava jantando na lanchonete quando ouvi algo que nunca tinha ouvido antes. Um ronco baixo e um chiado mecânico agudo. Era um carro. Eu só tinha lido sobre eles. Esse era velho, enferrujado, soltando fumaça preta, deixando um cheiro de borracha queimada no ar. Ele entrou lentamente nos arredores da cidade, como se tentasse não ser notado. Fiquei hipnotizado pelo carro. A fachada da minha vida conformada rachando enquanto pensamentos de escapar dessa cidade borbulhavam. Algo do exterior. Talvez uma saída.

Então, olhei para os moradores na lanchonete, atônito, pois, pela primeira vez, eles não estavam me encarando. E, pela primeira vez na minha vida…

Eles olharam com ódio.

Eu deixei a mamãe passar fome

Suor seco. Comida podre. Lixo fermentado. Fumaça de cigarro. Poeira. A mistura de odores invadiu meu nariz, sufocante. Precisei dar um passo atrás, engasgando. Quando enchi os pulmões com o ar fresco de fora, dei um passo à frente.

"Cheguei!" gritei.

Deixei os tênis no hall de entrada. As botas da mamãe estavam ali, misturadas com os sapatos de irmãos que há muito se foram. Espiei pelo corredor até a sala de estar. Estava uma bagunça. Nem a escuridão conseguia esconder o mosaico de lixo, roupas e caixas de comida vazias. Havia um triciclo ao lado do sofá, pequeno e colorido, embora não houvesse crianças naquele lugar há quase uma década.

Mamãe havia coberto as janelas com papel-alumínio e jornal. Nada de lâmpadas. Nada de luminárias. Ela dizia que a luz lhe dava dores de cabeça. Era preciso uma lanterna para navegar pelo apartamento... ou um celular.

Encontrei a mamãe encolhida no quarto, enrolada como uma bola e coberta por edredons.

"Por que demorou tanto?" A voz dela era aguda, com um chiado rouco, como uma dobradiça enferrujada.

Abaixe a luz do celular. "Eu te disse que ia pra despedida de solteira da Emma—"

"Você não me disse nada. Fiquei aqui passando fome!"

Um suspiro ficou preso na minha garganta. Deus me livre de soltá-lo na frente dela. Ou pior: e se eu suspirasse e explicasse que comprei pizza e comida pronta pra ela pro fim de semana inteiro? Com o meu dinheiro, ainda por cima. Será que eu sobreviveria a isso?

"Você tá com fome?" perguntei.

"Claro que estou!"

Isso me deu uma desculpa pra sair do quarto e enfrentar outra frustração. A cozinha estava um caos, com as sobras do meu fim de semana fora. Caixas de pizza e potes plásticos espalhados pelo balcão. Um deles ainda estava no micro-ondas, pela metade. Não havia sobrado nada pra mamãe — ela tinha comido tudo.

"Vou na loja comprar algo pra você," gritei.

"Você vai me abandonar de novo?" Cada sílaba dela pingava veneno.

"Volto em uma hora."

Se eu tivesse ido de bicicleta, a ida à loja de conveniência teria levado vinte minutos. Mas isso também significaria menos tempo respirando o ar fresco do verão.

Enquanto caminhava, pensei em como o olfato é ao mesmo tempo maravilhoso e terrível. Não podemos fechar o nariz como fechamos os olhos. Que inconveniente, né? Se eu quisesse parar de sentir cheiros, também precisaria parar de respirar. Mas existe outro jeito: se sentirmos um cheiro por tempo suficiente, seja ele bom ou ruim, o cérebro simplesmente o ignora.

Levei uma vida inteira pra me acostumar com o cheiro do apartamento da mamãe, e bastou um fim de semana fora pra ele se tornar insuportável de novo.

Ao entrar no supermercado, dei uma olhada rápida na seção de jardinagem. Vendiam móveis de jardim, flores e churrasqueiras. Quando criança, eu achava que ninguém comprava essas coisas.

Os botijões de gás me lembraram de uma curiosidade: o metano não tem cheiro naturalmente. O odor de ovo podre é adicionado por questões de segurança, pra que uma pessoa consiga detectar um vazamento antes que o prédio inteiro vá pelos ares.

O celular vibrou no meu bolso. Era a "Emma".

"Oi," atendi, enquanto procurava por comidas prontas.

"Pronta pra ir?" Era o Kalevi do outro lado da linha.

Passei o celular de uma orelha pra outra. Embora fosse impossível a mamãe estar por perto, olhei por cima do ombro.

"Não posso," respondi.

Kalevi respirou fundo. "Tarja, escuta. Você precisa sair daí agora. Agora."

Peguei umas almôndegas com batatas. Isso serviria.

"Não posso. A mamãe precisa de alguém pra cuidar dela."

"Você tá ouvindo o que tá dizendo?" Quando ficava nervoso, Kalevi falava devagar, marcando cada palavra, igualzinho à mamãe.

"Tá tudo bem. É a mamãe. Ela é estranha, mas não é má."

"Você tá se ouvindo?" ele gritou do outro lado, tão alto que o microfone estourou.

"Não gosto quando você grita comigo."

Eu estava na fila do caixa. Só tinha duas pessoas na minha frente, mas era uma cidadezinha pequena. Todo mundo conhecia todo mundo. E se alguém ouvisse o Kalevi surtando pelo telefone?

"E o que você quer que eu faça?" Pelo menos ele baixou um pouco a voz. "Você tá falando besteira! Ela comeu a Niina!"

"Ela não—" Bufei, depois baixei a voz pra um sussurro. "A Niina fugiu com o namorado."

"Você viu! Você viu o que aconteceu! Do que você tá falando?" Imaginei o Kalevi puxando os cabelos.

"Foi um pesadelo. Procura ajuda. Tô falando sério." Coloquei a comida pronta e uma bebida energética na esteira. "E a mamãe precisa de ajuda e compaixão. É a única forma de ela melhorar."

"Você não tá ajudando ela. Você tá alimentando ela!"

Os produtos chegaram às mãos da caixa, um sinal pra encerrar aquela ligação sem sentido.

"Preciso voltar pra casa. Falo com você depois."

Desliguei enquanto o Kalevi ainda falava. Guardei as compras e voltei pra casa.

O grito dele me pegou desprevenida. Doeu um pouco. A gente tinha passado uma despedida de solteira tão legal juntos.

Diferente da casa da mamãe, a do Kalevi era limpa e arrumada, com muita luz natural e até um daqueles robôs aspiradores rodando por aí. Fiquei feliz de ver que ele estava bem, apesar de tudo. Fiquei feliz de vê-lo, ponto. Nenhum dos outros irmãos nos deu essa chance. Eles saíram de casa e sumiram.

O Kalevi disse: "Eles não foram embora. Ela comeu todos eles."

Mas ele não queria falar da mamãe, muito menos na frente da esposa. Ela achava que ele era órfão.

Sacudi as lembranças do nosso fim de semana juntos, deixei-as na porta junto com a promessa de ar fresco. Uma respiração funda, e eu estava pronta pra voltar pra mamãe.

Enquanto esquentava a comida no micro-ondas, percebi que esqueci de comprar algo pra mim. Tarde demais pra voltar à loja, no entanto. Fui dormir com fome. Má ideia. Fome sempre trazia pesadelos.

Mamãe com fome sempre trazia pesadelos.

Acordei na escuridão, o corpo paralisado e a mente enevoada. Acontecia com frequência, mas eu nunca me acostumava. O pânico tomava conta, como sempre.

Por mais que eu implorasse na minha cabeça, nem um dedo se movia. Meus olhos ficavam grudados no mesmo ponto. Eu estava presa no meu próprio corpo.

Um pouco da luz do sol da meia-noite vazava pela janela. Normalmente uma bênção, agora a luz delineava a forma horrível da mamãe. Ela me observava do teto, os olhos brilhando na escuridão. A barriga flácida, resultado de quase uma dúzia de partos, pendia sobre meu corpo imóvel. Os seios caídos balançavam acima da minha cabeça. Os cotovelos apontavam para o chão de forma anormal; estavam ao contrário. Ela parecia uma aranha.

Lentamente, mamãe desceu pela parede, mais perto da cabeceira da cama. O drywall rachava enquanto ela cravava as unhas e os dedos dos pés. Logo senti os poucos fios de cabelo dela roçando minha testa.

Tentei gritar, mas minha boca não abria. Meus pulmões não aceleravam. Meus olhos se recusavam a chorar. Meu corpo inteiro permanecia imóvel, como o cadáver que eu logo me tornaria.

A Niina nunca teve namorado. Uma vez, a vi beijando outra menina no lago — e vi como a mamãe rastejou até a cama dela naquela noite.

Mamãe parecia um crocodilo vestindo uma pele humana. Braços e pernas dobrados em ângulos impossíveis, desconfortáveis. Ela abriu a boca, larga, incrivelmente larga. Ouvi o estalo quando a mandíbula saiu do lugar. Vi como ela sugou a cabeça da Niina como se fosse sorvete, depois a mordiscou. Rastejou mais para dentro da cama enquanto engolia a cabeça. Depois o pescoço. Os ombros. Ela avançou. Os seios, os quadris, as coxas...

Apenas os tornozelos e pés da Niina pendiam para fora da boca dela. Mamãe engasgou, lutando pra engolir os últimos pedaços da minha irmã mais velha. Todo o corpo dela se contraía enquanto engolia o que restava da Niina.

Eu seria a próxima.

Senti o hálito da mamãe perto do meu ouvido. Quente e úmido, fedia a cigarro e ácido. Ela gentilmente virou meu rosto para o lado.

"Você me deixou passar fome."

Ela perfurou um buraco no meu pescoço, aquele que nunca cicatrizou. Eu sempre dizia que era uma marca de nascença.

Imóvel. Indefesa. Estúpida. Sem outra opção, esperei até que ela se alimentasse.

Na minha cabeça, prometi. Nunca mais. Nunca mais vou deixar isso acontecer. Nunca mais vou deixar a mamãe passar fome. Ela precisa de mim.

domingo, 10 de agosto de 2025

O Censo Noturno

Oi, pessoal, sei que isso vai parecer loucura, mas preciso saber se alguém já passou por algo assim. Eu moro numa pequena fazenda que herdei da minha avó há seis semanas, quando ela faleceu. A casa fica num terreno de alguns hectares. Quando ela morreu, eu tinha acabado de me formar na faculdade, então, em vez de vender a propriedade, decidi morar aqui e cuidar dela enquanto procurava um emprego na região. A cidade mais próxima fica a uns trinta minutos de distância, mas, geralmente, não me importo com o isolamento. Na verdade, meu vizinho mais próximo está a cerca de dez minutos, se fosse em linha reta.

No primeiro dia que cheguei, eu estava eufórica por ser a única dona da casa da minha infância. A longa estrada de terra até a casa é cercada por uma floresta densa, e, quando finalmente cheguei, percebi que minha avó tinha realmente deixado o lugar ao abandono. Havia trepadeiras praticamente segurando as persianas fechadas, como se a casa estivesse guardando um segredo. Eu sabia que teria muito trabalho pela frente, mas, como tinha algumas economias, podia me dedicar a arrumar a casa.

Quando abri a porta da frente e entrei, fui recebida por um forte cheiro de lavanda. Parecia que, embora minha avó tenha deixado o exterior da casa descuidado, o interior estava impecável. Coloquei minha bagagem no chão e fui até o quarto dela.

Passei a semana seguinte limpando o exterior da casa. Encontrei todo tipo de coisa na grama alta: um chapéu velho de fazendeiro, tesouras de jardinagem e livros de colorir rabiscados. Nunca tinha visto esses itens antes, mas imaginei que pertenciam aos meus primos quando eram crianças. Na primeira semana morando aqui, nada de mais aconteceu. Foi nesta semana, a segunda, que coisas estranhas começaram.

Depois de um longo dia terminando o trabalho no quintal, entrei em casa e tirei as botas. Tranquei a porta da frente e coloquei a tranca, já que morar sozinha no meio do mato, sendo mulher, pode ser meio assustador. Estava indo para o banheiro quando ouvi passos atrás de mim. Virei a cabeça rapidamente, mas não vi nada. Pensei que fosse só a casa antiga se acomodando, então continuei até o banheiro e entrei no chuveiro. Não sei se era minha mente pregando peças, mas toda vez que colocava a cabeça sob o chuveiro, achava que ouvia risadinhas bem atrás de mim. Mais uma vez, não havia nada. Saí do chuveiro, me sequei e vesti meu pijama. Foi quando notei algo escrito no vapor no espelho: “Olá :)”. Fiquei realmente assustada, mas sabia que meus parentes mais jovens estiveram aqui logo após a morte da minha avó, então pensei que o escrito poderia ser algo que ficou ali.

Naquela noite, enquanto estava pegando no sono, ouvi uma batida alta na porta. Verifiquei a hora no celular: 23:43. Como disse, meu vizinho mais próximo está a dez minutos, então não fazia ideia de quem poderia estar aqui tão tarde. Antes de meu pai falecer, ele me ensinou que o mundo pode ser muito perigoso, então, quando fiz 21 anos, ele pagou para que eu tirasse uma licença de porte oculto de arma. Peguei minha pistola e a coloquei na cintura enquanto caminhava até a porta da frente. Eu poderia ter ignorado, mas não sabia se era a polícia ou alguém precisando de ajuda. Abri a porta um pouco e vi um homem pequeno – eu tenho 1,57 m e ele não era muito mais alto que eu –, vestindo uma polo abotoada, calças escuras e aqueles sapatos brilhantes que o pastor sempre usava.

“Olá!” Ele disse, animado. “Sou o senhor Vister, trabalho para o Censo Noturno!” Ele tinha o maior sorriso no rosto, como se tivesse ganhado na loteria.

“Censo Noturno?” perguntei, desconfiada. “Nunca ouvi falar disso.”

“Sim, claro! Só batemos em portas selecionadas. Pense nisso como uma iniciativa do governo para rastrear a população após o anoitecer.” Ele passou os dedos pelo cabelo preto, penteado para trás com gel, quase oleoso. “Quem está aqui? Alguém mais esteve aqui desde a última contagem?” O senhor Vister tentou espiar por cima do meu ombro, mas eu o interrompi rapidamente.

“Desculpe-me, senhor, o que quer dizer com ‘desde a última contagem’?”

“Nós passamos algumas vezes por noite para obter o número exato de pessoas morando na casa. Mais cedo, falei com seu jardineiro, e ele me disse que mora aqui com o filho dele,” ele tirou uma prancheta de trás das costas, “mas não me informou que havia mais alguém aqui. Vou anotar rapidinho.” Observei enquanto ele escrevia “Mulher jovem, na casa dos vinte e poucos anos, presumivelmente sozinha” abaixo de onde já tinha escrito “jardineiro e seu filho pequeno”. Obviamente, não havia mais ninguém aqui, então fiquei extremamente assustada.

“Eu não tenho jardineiro. Acho que você está na casa errada, sou só eu aqui.” Não percebi meu erro até falar. “Quero dizer, meu marido deve voltar a qualquer momento. Ele foi à cidade pegar algo,” tentei encobrir com uma mentira, mas ele percebeu na hora. O sorriso dele ficou ainda maior, e ele abaixou a cabeça, ainda me encarando por baixo das sobrancelhas.

“Sabe, Natalie, nós sabemos que você está aqui sozinha.” Ele deu uma risada, mas não era amigável. Parecia um som seco, como um chocalho vindo da garganta.

Bati a porta e tranquei. Ainda podia ouvir a risada dele do lado de fora, que se transformou num mar de gritos. Corri para o quarto para ligar para alguém, mas, claro, não tinha sinal. Não podia chegar ao meu carro sem que ele me visse, então não sabia o que fazer. Me barricadei no quarto, mas acabei adormecendo sem querer. Acordei novamente com uma batida na porta. Olhei o celular: 3:36 da manhã. Não sei se esse tal de “senhor Vister” é algum tipo de brincalhão ou lunático. Não ia deixar ele me assustar. Abri a porta e não deixei ele falar.

“Para de me perturbar, caramba!” cuspi as palavras. “Eu tenho uma arma. Não sei o que você tá tentando fazer, mas isso é invasão de propriedade. Vai embora!” O sorriso dele suavizou, transformando-se numa expressão de confusão.

“Desculpe-me por incomodá-la, senhora, mas acho que não nos conhecemos.” Os lábios dele se curvaram num sorriso novamente, e ele estendeu a mão para um aperto. “Sou o senhor Vister! Do Censo Noturno, nós somos—”

Eu o interrompi: “É, eu sei quem você é. Você não estava aqui agora há pouco?”

“Não, deve estar enganada. Eu e meu irmão gêmeo nos revezamos verificando as casas.” Eu estava claramente confusa, então ele pegou a prancheta. “Então, você deve ser a Natalie. Aqui diz que você mora no quarto dos fundos da casa. Os outros ocupantes são o jardineiro, Silas, e o filho dele, Thomas. Está registrado que eles moram no quarto que fica ao lado da sala de estar.”

“Não, eu não sei quem são Silas ou Thomas, mas eles definitivamente não moram aqui.”

“Como assim? Não, eu os vejo ali no sofá.” Ele ficou na ponta dos pés e acenou para algo atrás de mim. Quando me virei para ver o que ele estava acenando, o senhor Vister passou correndo por mim, rindo. Eu não fazia ideia de quem era esse cara ou por que ele queria entrar na minha casa, mas vi isso como uma chance de sair dali. Peguei minhas chaves na tigela ao lado da porta e corri para o carro, deixando a porta da frente escancarada. Saí cantando pneu o mais rápido que pude até um pequeno motel na cidade.

É onde estou agora. Alguém sabe o que está acontecendo? Alguém já passou por algo assim? Qualquer ajuda seria bem-vinda. Por favor, me ajudem.

sábado, 9 de agosto de 2025

Descobri que meu marido é um assassino em série

Se você já amou alguém, amou de verdade, vai entender por que não percebi antes. O amor não é cego — ele é seletivo. Escolhe o que quer ver. E eu não quis enxergar as rachaduras.

Conheci o Aaron no meu último ano da faculdade. Ele não era meu tipo no começo — alto demais, quieto demais, meio... parado. Mas ele tinha um jeito de me escutar que me fazia sentir como se eu fosse a única pessoa no mundo. Nos casamos três anos depois.

Nos primeiros cinco anos, éramos o clichê do “casal perfeito”. Viagens, jantares com amigos, piadas internas. Ele nunca levantava a voz, nunca perdia a paciência. Se eu tivesse que descrevê-lo em uma palavra, seria “seguro”.

Mas então, pequenas coisas começaram a me incomodar.

Tudo começou com o porão.

O Aaron não me deixava descer lá. Não era no estilo “não mexa nas minhas ferramentas” — era mais um “a porta está sempre trancada”. Ele dizia que era porque a escada era íngreme e eu era desajeitada. E eu acreditei. Por um tempo.

Depois, veio a questão da lavanderia.

Uma vez por semana, ele lavava as roupas dele sozinho. Não com as minhas, nem mesmo misturadas com outras roupas dele. Era sempre um conjunto específico: calça jeans, camiseta de manga longa e um moletom velho. Sempre cores escuras. Sempre tarde da noite.

Eu acordava às 2 da manhã com o barulho da secadora, mas ele nunca me deixava ajudar a dobrar as roupas. Dizia que eram “só roupas de trabalho”.

A primeira rachadura de verdade apareceu numa noite de janeiro.

O Aaron chegou tarde em casa. Muito tarde. Fiquei acordada esperando, andando de um lado para o outro na sala, imaginando acidentes de carro ou visitas ao pronto-socorro.

Quando ele finalmente entrou, quase às 3 da manhã, as mãos dele estavam tremendo. O moletom estava úmido. E havia uma mancha escura na manga.

“Tinta”, ele me disse. Mas eu sabia que ele estava mentindo.

Duas semanas depois, a notícia estourou.

Uma jovem foi encontrada em uma vala na periferia da cidade. Espancada, estrangulada. A polícia não tinha suspeitos. A foto que mostraram na TV me marcou — não porque eu conhecia a vítima, mas porque reconheci a vala. Ficava a menos de dois quilômetros de onde o Aaron trabalhava.

Tentei ignorar o pensamento. Juro que tentei.

Mas as coincidências começaram a se acumular.

Ele chegava tarde em casa. O noticiário falava de outra mulher desaparecida. E todas elas tinham sido vistas pela última vez perto do parque industrial onde ficava o escritório do Aaron.

Comecei a prestar mais atenção nas “roupas de trabalho” dele. No cheiro delas — metálico, como moedas e água sanitária. No jeito como ele as mantinha separadas. No fato de nunca jogá-las fora, por mais gastas que estivessem.

Na noite em que tudo fez sentido, eu nem estava procurando provas.

Estava procurando papel de presente no armário quando encontrei a caixa de sapatos. Estava escondida atrás de casacos velhos, embrulhada em um saco de lixo. Dentro, havia fotografias. Dezenas delas.

Todas de mulheres. Algumas sorrindo à luz do dia. Outras tiradas à noite, com os rostos iluminados pelo flash da câmera. Algumas estavam dormindo. Outras estavam claramente... mortas.

Deixei a caixa cair. Meu corpo simplesmente se recusou a segurá-la.

Quando o Aaron chegou em casa, tentei agir normalmente. Não consegui. Minhas mãos não paravam de tremer.

Ele percebeu. Claro que percebeu.

“Que foi?”, ele perguntou.

Abri a boca para mentir, mas então vi — um único fio de cabelo preso na manga dele. Longo, loiro. Eu sou morena.

Não dormi naquela noite. Não me mexi. Fiquei deitada, ouvindo ele respirar ao meu lado, imaginando quantas mulheres adormeceram ao lado dele e nunca mais acordaram.

Na manhã seguinte, liguei para a polícia do meu carro. Contei tudo. As roupas. A caixa de sapatos. O cheiro.

Eles me disseram para sair de casa e esperar.

Isso foi há duas semanas.

Eles o prenderam discretamente, na entrada da nossa casa. Eu assisti tudo da janela de um vizinho enquanto o colocavam algemado no carro da polícia. Ele não resistiu. Nem parecia surpreso.

Encontraram seis corpos. Acham que há mais.

Estou dando este depoimento agora porque não sei como tirar isso de mim. Porque fico repassando cada jantar, cada beijo, cada noite encolhida ao lado dele — e me perguntando quantas vezes estive a um passo de me tornar a sétima.

Se você está lendo isso e acha que conhece a pessoa com quem está... Pense de novo. Alguns monstros não rugem. Eles sorriem, perguntam como foi seu dia e seguram sua mão enquanto lavam o sangue das roupas.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon