quarta-feira, 13 de agosto de 2025

A vingança de Downfall

"Vai, é só uma foto," o cara riu ao telefone, a voz dele escorregando pelo aparelho como uma cobra rastejando na grama.

"Mas não é real," ela protestou, a voz trêmula, os olhos grudados na tela que mostrava o rosto dela sobreposto a um corpo nu. O medo de que a mentira se espalhasse como fogo era mais do que ela podia suportar.

A ligação caiu, deixando apenas o eco da risada cruel dele ressoando em seus ouvidos. Ela jogou o celular contra a parede, vendo-o se espatifar em pedaços de plástico e vidro. Seus olhos se estreitaram em fendas de fúria, o quarto de repente pequeno demais para conter a raiva que fervia dentro dela.

Alguém bateu à porta, o som invadindo o caos dela como uma pancada. Ela respirou fundo, o pulso latejando nas têmporas, e se levantou lentamente da cama. As batidas ficaram mais insistentes, ecoando pelo apartamento vazio como um tambor anunciando o fim. Seus pés descalços deslizaram silenciosamente pelo chão frio de madeira, o coração acelerando a cada passo.

Espiando pelo olho mágico, ela viu um homem no corredor, o rosto carregado de irritação. "Faz menos barulho, tá?" ele gritou, a voz rouca de sono. "Tem gente querendo dormir por aqui."

A mão dela apertou a maçaneta até os nós dos dedos ficarem brancos. A raiva dentro dela se aguçava, ganhando foco. Ela sentiu o desejo de sangue crescer, a vontade de fazer aquele homem pagar pelos pecados do chantagista. A mão deslizou da maçaneta para o trinco, girando-o com uma calma surpreendente. A porta se abriu, revelando o vizinho desavisado, cujos olhos se arregalaram de choque quando ela saiu para o corredor.

Com um rosnado que gelou a espinha dele, ela avançou. Suas unhas se transformaram em garras, cravando-se no pescoço do homem enquanto ela o derrubava com uma força recém-descoberta. O som da garganta dele sendo rasgada era estranhamente satisfatório, o jato quente de sangue cobrindo o rosto dela enquanto ela absorvia a vida dele. O gosto metálico e doce era inebriante, saciando uma sede que ela nem sabia que tinha. Ela largou o corpo sem vida, o sangue se espalhando em uma poça vermelha sob ele, e parou por um momento para saborear o poder que pulsava em suas veias.

Seus olhos, antes cheios de medo e desespero, agora brilhavam com uma fome predatória. O chantagista, sem querer, a colocou em um caminho sombrio de vingança, e a cada gole de sangue, sua humanidade escorregava, revelando o monstro por baixo. A garota que antes estremecia ao ver um corte de papel agora se deleitava com a beleza visceral do derramamento de sangue. Ela vagava pelas ruas à noite, uma criatura de sombra e raiva, caçando aqueles que a tinham prejudicado.

O carteiro foi o primeiro. A rotina diária dele era simples, um caminho de inocência e ignorância que ela passou a invejar. Quando o amanhecer rastejou pelo horizonte, ele organizava as cartas e pacotes com uma facilidade praticada. Seus olhos se arregalaram de horror quando ela surgiu do beco, os olhos dela ardendo com uma luz feroz que parecia perfurar a alma.

Com uma velocidade que desafiava sua forma humana, ela o atacou, suas garras rasgando o tecido do uniforme dele, os gritos dele interrompidos pelo estalo dos dentes dela cravando na carne macia do pescoço. O calor do sangue encheu sua boca, uma sinfonia de sabores que parecia ressoar em seus ossos. Era uma mistura inebriante de medo e adrenalina, um néctar impossível de replicar. Ela sentiu o poder da força vital dele pulsando através dela, a essência dele se tornando dela, alimentando a fera que agora habitava sob sua pele.

Enquanto bebia das veias dele, ela sentiu uma sensação estranha, uma conexão se formando entre ela e o chantagista. As memórias dele inundaram sua mente, uma cacofonia de intenções malévolas e segredos sombrios. Ela viu o sorriso torcido no rosto dele ao enviar a foto, a emoção do poder que o percorria ao sentir o desespero dela. Sua raiva cresceu, uma fogueira de fúria que ameaçava consumi-la. Mas também trouxe clareza. Ela sabia onde ele estava, onde ele se escondia esse tempo todo. O endereço estava gravado em sua mente, um farol na escuridão que chamava o monstro que ela havia se tornado.

Com um último gole selvagem, ela soltou o corpo do carteiro e tomou as ruas, os olhos fixos no prêmio. O sol era apenas um sussurro no horizonte, um fio de luz que não conseguia banir as sombras que se tornaram suas aliadas. Ela entrou no carro, os movimentos precisos e calculados, a fome por vingança guiando cada ação. Ligou o motor, o ronronar uma canção de ninar para a fera dentro dela. O mundo lá fora acordava, alheio aos horrores que espreitavam suas ruas.

Seu destino era claro: a casa do chantagista. Ela a viu nas memórias do carteiro, uma casa suburbana comum com uma cerca branca, a própria imagem da inocência. Mas ela sabia a verdade. O diabo morava ali, escondido à vista de todos. Ela pisou fundo no acelerador, os pneus cantando enquanto ela disparava pelas ruas vazias, o gosto de sangue ainda persistindo em seus lábios.

Ao parar na calçada, ela vislumbrou a luz da manhã refletindo na cerca. Um arrepio de excitação percorreu sua espinha, misturando-se ao medo que ainda a envolvia como uma segunda pele. Ela saiu do carro, os olhos fixos na porta da frente. Chega de se esconder. Chega de ser vítima. Era hora de tomar o controle.

O chantagista a esperava, um sorriso arrogante estampado no rosto. Ela podia sentir a confiança dele, a crença de que era intocável. Mas ela havia mudado. O doce sabor do sangue a transformara, tornara-a mais do que ele jamais poderia imaginar. Seus dedos se fecharam em punhos enquanto ela marchava em direção a ele, o corpo vibrando de antecipação.

Com um rugido súbito, ela saltou, os dentes à mostra. A expressão dele passou de arrogante para chocada, e ele cambaleou para trás, procurando algo às costas. Um brilho de aço chamou a atenção dela, e ela percebeu tarde demais o que ele planejava. O cara sacou uma espingarda calibre 12, o cano apontado para o peito dela. "Você acha que pode simplesmente entrar aqui e arruinar minha vida?" ele gritou, a voz tremendo de raiva.

"Olhe para mim," ela rosnou, a voz um grunhido feral que parecia reverberar pelo ar ao redor. "Você fez isso. Você me transformou nisso." Seus olhos mudaram, não mais as suaves poças castanhas de antes, mas agora orbes de um vermelho ardente e puro. Seus dentes eram afiados e pontiagudos, suas unhas alongadas em garras. Ela deu um passo à frente, indiferente à arma apontada para ela.

O dedo do chantagista apertou o gatilho, a mão trêmula. Ele podia ver a loucura no olhar dela, a raiva desenfreada que a transformara nessa... coisa. Ele engoliu em seco, tentando convencer-se de que era apenas o medo pregando peças. Ele tinha que fazer isso. Tinha que se proteger.

Com uma explosão repentina de velocidade, apesar de seu tremor, ele puxou o gatilho. O tiro ecoou pelo bairro silencioso, o som como um trovão na calmaria. O impacto acertou o peito dela em cheio, jogando-a alguns passos para trás. Mas, em vez de desabar como ele esperava, ela apenas rosnou mais alto, a dor parecendo alimentar sua fúria.

O corpo dela convulsionou, os músculos se movendo de uma forma que parecia impossível. O impacto da espingarda rasgou suas roupas e sua carne, deixando uma ferida aberta que deveria ser fatal. Mas, enquanto ele observava horrorizado, as bordas da ferida começaram a se fechar, a pele e os músculos se recompondo com uma eficiência grotesca. Seus olhos nunca deixaram os dele, as chamas vermelhas brilhando mais intensas do que nunca.

O chantagista recuou, o aperto na espingarda afrouxando. "O que... o que é você?" ele sussurrou, a voz pouco mais que um coaxar.

"Sua ruína," ela sibilou, avançando com uma graça predatória que parecia desafiar a agonia de seu corpo em regeneração. O cheiro de pólvora e sangue encheu suas narinas, uma mistura potente que só aguçava sua fome.

Ele tentou recuar, as pernas traiçoeiras virando gelatina sob seu peso trêmulo. Seus olhos estavam grudados na criatura aterrorizante que um dia fora uma garota, uma criatura que agora o perseguia com um propósito obstinado. A espingarda caiu no chão, inútil em suas mãos trêmulas. "Por favor," ele implorou, "eu não sabia."

A criatura que fora a garota parou de avançar, o peito arfando com o esforço da transformação lecture. Por um breve momento, uma faísca de dúvida dançou em suas feições. Será que poderia poupar esse homem patético? Será que encontraria dentro de si a capacidade de oferecer piedade? A fome rugia dentro dela, exigindo mais sangue, mais poder. Mas algo mais crescia, algo que sussurrava sobre compaixão, sobre a garota que ela fora.

Os olhos do chantagista procuraram os dela, o desespero gravado em cada linha de seu rosto. Ele podia ver a batalha dentro dela, a humanidade lutando para retomar o controle da fera. "Me desculpe," ele choramingou, a voz falhando. "Por favor, eu retiro tudo. Faço qualquer coisa."

O olhar dela não vacilou, o vermelho em seus olhos suavizando ligeiramente enquanto considerava as palavras dele. Então, com um rosnado súbito e selvagem, ela avançou. Suas garras rasgaram o peito dele, cortando a camisa e a carne como se fossem papel. Ele gritou, os olhos revirando na cabeça enquanto a dor atravessava seu corpo como um raio. Ela sentiu o jato quente de sangue contra a mão e soube que acertara o alvo.

A criatura dentro dela se deleitava com o medo e a dor que ela infligia, incitando-a a ir além, a arrancar o coração dele e se banquetear. Mas a garota que ela fora sussurrava sobre piedade e a santidade da vida. Por um momento, ela ficou dividida, as duas metades de sua alma em guerra. Então, ela tomou sua decisão. Prometera a si mesma eliminar cada pessoa má, equilibrar as escalas da justiça à sua maneira distorcida. E ele a machucara, tentara destruí-la. O monstro venceu, sua fome grande demais para ser negada.

Fim. 

O nome da criatura, aliás, é Downfall. 

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Acho que meu bebê quer me matar

Sou jovem, admito, mas isso nunca apagou o desejo insistente de formar uma família que ecoava sem parar no fundo da minha mente. Então, quando cheguei do trabalho há alguns meses e encontrei um bebê na porta de casa, não fiquei tão assustada quanto deveria. Talvez as coisas pudessem ter sido diferentes se eu tivesse ficado.

Enquanto caminhava do trabalho para casa, o sol quente do verão queimava minhas costas. Eu mal podia esperar para entrar e sentir o ar fresco. Suspirei ao enfiar a chave na fechadura enferrujada e velha do meu prédio.

“Droga”, resmunguei, irritada.

A única coisa que aquela fechadura fazia bem era impedir os moradores de entrar. Minha chave nunca deixava de travar, tornando tudo mais complicado do que precisava ser. Subi os quatro degraus até meu apartamento pisando firme e abri a próxima porta com um empurrão.

De cara, vi o que parecia ser uma caixa de entrega da Amazon esperando por mim.

“Hmm, deve ser para um dos meninos”, falei alto. Os “meninos” eram meu namorado e o irmão dele. Eu sabia que não estava esperando nenhuma encomenda, então eles eram a única explicação lógica. Mas, ao me aproximar, percebi que a caixa estava rasgada. “Não dá pra ter nada de bom por aqui, né? Droga!” exclamei para mim mesma. Claro que alguém tinha mexido na nossa correspondência. Claro!

Fui pegar a caixa com raiva, mas então notei pequenos olhos me encarando de dentro dela. Minha respiração parou, e eu recuei, assustada. Abri bem os olhos e olhei de novo para a caixa. E, como eu suspeitava, havia um bebê ali dentro. Olhinhos castanhos me observavam com curiosidade, segurando o que parecia ser um mordedor.

Confesso que meu primeiro impulso foi sair correndo e chamar a polícia, mas algo naqueles olhinhos me prendeu. Era como se eu estivesse hipnotizada. Antes que pudesse processar o que estava acontecendo, já tinha pegado o bebê e estava sentada no sofá.

Não sei dizer quanto tempo fiquei ali, mas, quando saí daquele transe, já era noite, e a voz do meu namorado me questionava com rispidez.

“… tá me ouvindo?! De quem é esse bebê?” ele disparou.

Olhei para ele, franzindo a testa.

“Por que você tá falando comigo assim?” perguntei.

“Faz uns cinco minutos que te pergunto de quem é esse bebê, e você me ignora toda vez”, ele disse, como se fosse óbvio.

“Ah, eu…”

“Não importa”, ele me interrompeu. “Só responde a pergunta.”

“Não sei ao certo. Ele estava na nossa porta quando cheguei”, murmurei.

“ELE? ELE? Você chega do trabalho às três e meia todo dia. Agora são oito e quarenta e cinco, e você tá chamando o bebê de ‘ele’?”

“Do que você tá falando?” retruquei, na defensiva. “Eu só sentei agora.”

Olhei de novo para o bebê, e, estranhamente, ele ainda estava me encarando.

Ouvi meu namorado bufar. “Tá, sei. Só tô dizendo que já se passaram cinco horas, e você nem sabe se é menino ou menina. Melhor ainda: por que não chamou a polícia?”

Essa era uma boa pergunta. Uma ótima pergunta, aliás. Primeiro, eu nem tinha percebido que estava sentada há tanto tempo. Segundo, algo lá no fundo me dizia que não deveria envolver a polícia.

“Não sei. Talvez a gente deva esperar até amanhã. Foi um dia longo. Acho que o bebê só precisa de comida e uma boa noite de sono.”

Ele me olhou com desconfiança, como se estivesse me chamando de louca sem dizer as palavras.

“Não me parece uma boa ideia”, disse, revirando os olhos.

Abri a boca para discutir, mas ele me cortou com um suspiro longo e pesado.

“Tá, você tá certa. Tô exausto. Exausto demais, e a ideia de lidar com polícia e assistência social hoje à noite é simplesmente pesada demais pra mim”, admitiu. “Mas, mesmo assim, a gente não tem nada aqui pra cuidar de um bebê até amanhã.”

Olhei para ele, percebendo que ele estava completamente certo. Não tínhamos nem um lugar decente para o bebê dormir, muito menos algo para alimentá-lo.

Assenti lentamente, ainda com os olhos fixos no bebê. “Vou… vou dar um jeito”, murmurei.

O bebê não tinha emitido nenhum som desde que o peguei. Sem choro, sem balbucios — apenas aqueles olhos escuros e fixos em mim. Isso deveria ter me incomodado, mas, por algum motivo… não incomodava. Naquela noite, demos um jeito. Encontrei uma camiseta velha para enrolar o bebê e o mantive ao meu lado no sofá. Meu namorado resmungou sobre a situação toda antes de ir para a cama, mas eu fiquei acordada, observando o peito do bebê subir e descer. Em algum momento, devo ter pegado no sono.

Quando acordei, o bebê ainda estava na mesma posição, olhos bem abertos, me encarando. Não era aquele olhar sonolento que bebês costumam ter — não. Era como se ele tivesse ficado acordado a noite toda, esperando.

Os dias se misturaram depois disso. Compramos fórmula, fraldas, um berço. Meu namorado continuava perguntando se devíamos chamar alguém, mas eu sempre arranjava uma desculpa para adiar. “Só até encontrarmos os pais”, eu dizia. “Só até as coisas se acalmarem.” Semanas passaram. Ninguém veio procurá-lo. Foi quando comecei a notar coisas estranhas. O bebê nunca chorava. Nunca. Nem quando estava com fome, nem quando acordava no meio da noite. Ele apenas ficava lá, olhando. Às vezes, eu o encontrava encarando o canto do quarto, os olhos acompanhando algo que não estava lá.

Uma manhã, caminhei pelo apartamento e congelei. Meu namorado tinha sumido — sem bilhete, sem explicação. O bebê estava na cadeirinha, as mãozinhas segurando um relógio do meu namorado. Disse a mim mesma que era coincidência. Pessoas vão embora. Relógios se perdem. Mas então o irmão dele parou de aparecer. Amigos pararam de responder minhas ligações. Meu chefe disse que eu tinha pedido demissão semanas antes, mas eu não me lembrava de ter feito isso.

Éramos só eu e o bebê.

O apartamento ficava mais silencioso a cada dia, como se o mundo lá fora estivesse se afastando cada vez mais. Às vezes, eu acordava e encontrava o bebê de pé no berço — não cambaleando como um bebê normal, mas perfeitamente imóvel, perfeitamente equilibrado, com os olhos cravados em mim.

Ontem à noite, acordei com o som de um sussurro. Não sei como, mas sabia que era meu nome.

Hoje de manhã, olhei no espelho e percebi que não conseguia lembrar como era minha vida antes da caixa. Não me lembro do rosto do meu namorado. Não me lembro das vozes dos meus amigos. Não me lembro se já morei em outro lugar. Mas o bebê ainda está aqui. E agora ele está sorrindo.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Eu sou o Deus de uma cidade que não deveria existir

Aqui, ninguém pisca.

Desde que me lembro, eles só me encaram. Não uns aos outros, apenas a mim. Eles me olham como se eu fosse o último nascer do sol que veriam. Como se, ao desviar o olhar, eu pudesse desaparecer. Não importa o que eu faça, não consigo arrancar nenhuma reação deles. Já causei escândalos, joguei coisas pela sala, gritei as palavras mais vulgares que podia imaginar a um palmo de seus rostos. Eles apenas ficam lá, sorrindo, quietos, imóveis.

Eu teria enlouquecido se não fosse pelo xerife. Ou talvez ele seja o prefeito, não sei ao certo. Tudo o que sei é que ele foi a única pessoa na cidade que falava comigo. Ele me criou, me ensinou a ler, escrever, cozinhar, sobreviver. Ele me disse que a cidade era minha, não só a terra, mas os prédios, tudo.

Nunca tive uma casa. Não precisava de uma. Eu podia entrar em qualquer prédio, casa, loja, lanchonete, pegar comida, roupas, usar o banheiro. Ninguém nunca me impedia.

A população parece estar fixa em cerca de 200 pessoas desde que me entendo por gente. A maioria dos prédios na cidade é de tijolo rústico, manchado pelo sol. Há uma floresta que cerca a cidade e uma única estrada que, na verdade, não parece levar a lugar algum.

Acabei me acostumando com essa vida. Não havia motivo para tentar sair, de qualquer forma. Tentei caminhar em todas as direções, e todas me levaram de volta à cidade. Peguei um cavalo de um dos moradores, junto com comida para uma semana. Fui marcando as árvores para me orientar, tomando meu tempo. Não importava o que eu fizesse, sempre acabava voltando para a cidade. Fiquei tão desesperado que até tentei andar de costas, pensando que, se pudesse manter a cidade à vista, ela não me enganaria para voltar. Não funcionou.

Fui à biblioteca para ver se encontrava registros antigos da cidade. Mas metade dos livros estava sem capa. A maioria tinha páginas amareladas e deformadas. Os calendários eram ainda piores: todos tinham apenas os meses e dias, sem ano, sem feriados, sem história.

Às vezes, juro que vi o mesmo padrão de nuvens se repetir no céu.

Meu Deus, como eu queria que houvesse um relógio funcionando nesta cidade.

Já perguntei ao xerife sobre a cidade, sobre mim. Quem eram meus pais, meu aniversário, de onde vim. Ele sempre me olhava por um tempo e dava a mesma resposta:

“Você sempre esteve aqui.” E isso era tudo.

Quando eu era mais jovem, comecei um pequeno incêndio dentro da casa de um dos moradores. Só queria alguma reação deles. Eles não gritaram. Não se moveram. Um homem ficou parado enquanto o fogo subia lentamente por sua perna, as roupas queimando enquanto a pele formava bolhas.

Eu congelei. O xerife entrou correndo logo depois, me tirou da casa primeiro e me mandou esperar na biblioteca, depois voltou para apagar o fogo.

Fiquei sentado na biblioteca, com o estômago revirado. “Por que eles não se mexeram? Por que não disseram nada ou tentaram me parar? Ele sabe que eu não quis fazer nada de ruim, né? Tenho certeza de que ele também fica entediado sendo a única outra pessoa na cidade que parece consciente.” A porta se abriu com um estrondo. Mal consegui dizer duas palavras antes que ele me desse um tapa.

“Você tá louco?!” ele disse.

“E-eu sinto muito, eu só queria—”

“Você poderia ter matado eles! Não importa o que você quer. Escuta, garoto, seu trabalho é fazer o certo por essas pessoas, não importa o custo.”

“O que isso quer dizer?!” retruquei.

“Ninguém aqui faz nada além de me encarar. Não tenho nada pra fazer aqui. Queria poder sair dessa cidade e deixar todo mundo pra trás.”

Assim que essas palavras saíram da minha boca, vi o rosto do xerife mudar de raiva para traição. Ele não disse mais nada e saiu da biblioteca. Não falou comigo pelo próximo mês. Foi o pior mês da minha vida.

Não acredito que esqueci disso. Ainda bem que me lembro agora.

Ontem, eu estava jantando na lanchonete quando ouvi algo que nunca tinha ouvido antes. Um ronco baixo e um chiado mecânico agudo. Era um carro. Eu só tinha lido sobre eles. Esse era velho, enferrujado, soltando fumaça preta, deixando um cheiro de borracha queimada no ar. Ele entrou lentamente nos arredores da cidade, como se tentasse não ser notado. Fiquei hipnotizado pelo carro. A fachada da minha vida conformada rachando enquanto pensamentos de escapar dessa cidade borbulhavam. Algo do exterior. Talvez uma saída.

Então, olhei para os moradores na lanchonete, atônito, pois, pela primeira vez, eles não estavam me encarando. E, pela primeira vez na minha vida…

Eles olharam com ódio.

Eu deixei a mamãe passar fome

Suor seco. Comida podre. Lixo fermentado. Fumaça de cigarro. Poeira. A mistura de odores invadiu meu nariz, sufocante. Precisei dar um passo atrás, engasgando. Quando enchi os pulmões com o ar fresco de fora, dei um passo à frente.

"Cheguei!" gritei.

Deixei os tênis no hall de entrada. As botas da mamãe estavam ali, misturadas com os sapatos de irmãos que há muito se foram. Espiei pelo corredor até a sala de estar. Estava uma bagunça. Nem a escuridão conseguia esconder o mosaico de lixo, roupas e caixas de comida vazias. Havia um triciclo ao lado do sofá, pequeno e colorido, embora não houvesse crianças naquele lugar há quase uma década.

Mamãe havia coberto as janelas com papel-alumínio e jornal. Nada de lâmpadas. Nada de luminárias. Ela dizia que a luz lhe dava dores de cabeça. Era preciso uma lanterna para navegar pelo apartamento... ou um celular.

Encontrei a mamãe encolhida no quarto, enrolada como uma bola e coberta por edredons.

"Por que demorou tanto?" A voz dela era aguda, com um chiado rouco, como uma dobradiça enferrujada.

Abaixe a luz do celular. "Eu te disse que ia pra despedida de solteira da Emma—"

"Você não me disse nada. Fiquei aqui passando fome!"

Um suspiro ficou preso na minha garganta. Deus me livre de soltá-lo na frente dela. Ou pior: e se eu suspirasse e explicasse que comprei pizza e comida pronta pra ela pro fim de semana inteiro? Com o meu dinheiro, ainda por cima. Será que eu sobreviveria a isso?

"Você tá com fome?" perguntei.

"Claro que estou!"

Isso me deu uma desculpa pra sair do quarto e enfrentar outra frustração. A cozinha estava um caos, com as sobras do meu fim de semana fora. Caixas de pizza e potes plásticos espalhados pelo balcão. Um deles ainda estava no micro-ondas, pela metade. Não havia sobrado nada pra mamãe — ela tinha comido tudo.

"Vou na loja comprar algo pra você," gritei.

"Você vai me abandonar de novo?" Cada sílaba dela pingava veneno.

"Volto em uma hora."

Se eu tivesse ido de bicicleta, a ida à loja de conveniência teria levado vinte minutos. Mas isso também significaria menos tempo respirando o ar fresco do verão.

Enquanto caminhava, pensei em como o olfato é ao mesmo tempo maravilhoso e terrível. Não podemos fechar o nariz como fechamos os olhos. Que inconveniente, né? Se eu quisesse parar de sentir cheiros, também precisaria parar de respirar. Mas existe outro jeito: se sentirmos um cheiro por tempo suficiente, seja ele bom ou ruim, o cérebro simplesmente o ignora.

Levei uma vida inteira pra me acostumar com o cheiro do apartamento da mamãe, e bastou um fim de semana fora pra ele se tornar insuportável de novo.

Ao entrar no supermercado, dei uma olhada rápida na seção de jardinagem. Vendiam móveis de jardim, flores e churrasqueiras. Quando criança, eu achava que ninguém comprava essas coisas.

Os botijões de gás me lembraram de uma curiosidade: o metano não tem cheiro naturalmente. O odor de ovo podre é adicionado por questões de segurança, pra que uma pessoa consiga detectar um vazamento antes que o prédio inteiro vá pelos ares.

O celular vibrou no meu bolso. Era a "Emma".

"Oi," atendi, enquanto procurava por comidas prontas.

"Pronta pra ir?" Era o Kalevi do outro lado da linha.

Passei o celular de uma orelha pra outra. Embora fosse impossível a mamãe estar por perto, olhei por cima do ombro.

"Não posso," respondi.

Kalevi respirou fundo. "Tarja, escuta. Você precisa sair daí agora. Agora."

Peguei umas almôndegas com batatas. Isso serviria.

"Não posso. A mamãe precisa de alguém pra cuidar dela."

"Você tá ouvindo o que tá dizendo?" Quando ficava nervoso, Kalevi falava devagar, marcando cada palavra, igualzinho à mamãe.

"Tá tudo bem. É a mamãe. Ela é estranha, mas não é má."

"Você tá se ouvindo?" ele gritou do outro lado, tão alto que o microfone estourou.

"Não gosto quando você grita comigo."

Eu estava na fila do caixa. Só tinha duas pessoas na minha frente, mas era uma cidadezinha pequena. Todo mundo conhecia todo mundo. E se alguém ouvisse o Kalevi surtando pelo telefone?

"E o que você quer que eu faça?" Pelo menos ele baixou um pouco a voz. "Você tá falando besteira! Ela comeu a Niina!"

"Ela não—" Bufei, depois baixei a voz pra um sussurro. "A Niina fugiu com o namorado."

"Você viu! Você viu o que aconteceu! Do que você tá falando?" Imaginei o Kalevi puxando os cabelos.

"Foi um pesadelo. Procura ajuda. Tô falando sério." Coloquei a comida pronta e uma bebida energética na esteira. "E a mamãe precisa de ajuda e compaixão. É a única forma de ela melhorar."

"Você não tá ajudando ela. Você tá alimentando ela!"

Os produtos chegaram às mãos da caixa, um sinal pra encerrar aquela ligação sem sentido.

"Preciso voltar pra casa. Falo com você depois."

Desliguei enquanto o Kalevi ainda falava. Guardei as compras e voltei pra casa.

O grito dele me pegou desprevenida. Doeu um pouco. A gente tinha passado uma despedida de solteira tão legal juntos.

Diferente da casa da mamãe, a do Kalevi era limpa e arrumada, com muita luz natural e até um daqueles robôs aspiradores rodando por aí. Fiquei feliz de ver que ele estava bem, apesar de tudo. Fiquei feliz de vê-lo, ponto. Nenhum dos outros irmãos nos deu essa chance. Eles saíram de casa e sumiram.

O Kalevi disse: "Eles não foram embora. Ela comeu todos eles."

Mas ele não queria falar da mamãe, muito menos na frente da esposa. Ela achava que ele era órfão.

Sacudi as lembranças do nosso fim de semana juntos, deixei-as na porta junto com a promessa de ar fresco. Uma respiração funda, e eu estava pronta pra voltar pra mamãe.

Enquanto esquentava a comida no micro-ondas, percebi que esqueci de comprar algo pra mim. Tarde demais pra voltar à loja, no entanto. Fui dormir com fome. Má ideia. Fome sempre trazia pesadelos.

Mamãe com fome sempre trazia pesadelos.

Acordei na escuridão, o corpo paralisado e a mente enevoada. Acontecia com frequência, mas eu nunca me acostumava. O pânico tomava conta, como sempre.

Por mais que eu implorasse na minha cabeça, nem um dedo se movia. Meus olhos ficavam grudados no mesmo ponto. Eu estava presa no meu próprio corpo.

Um pouco da luz do sol da meia-noite vazava pela janela. Normalmente uma bênção, agora a luz delineava a forma horrível da mamãe. Ela me observava do teto, os olhos brilhando na escuridão. A barriga flácida, resultado de quase uma dúzia de partos, pendia sobre meu corpo imóvel. Os seios caídos balançavam acima da minha cabeça. Os cotovelos apontavam para o chão de forma anormal; estavam ao contrário. Ela parecia uma aranha.

Lentamente, mamãe desceu pela parede, mais perto da cabeceira da cama. O drywall rachava enquanto ela cravava as unhas e os dedos dos pés. Logo senti os poucos fios de cabelo dela roçando minha testa.

Tentei gritar, mas minha boca não abria. Meus pulmões não aceleravam. Meus olhos se recusavam a chorar. Meu corpo inteiro permanecia imóvel, como o cadáver que eu logo me tornaria.

A Niina nunca teve namorado. Uma vez, a vi beijando outra menina no lago — e vi como a mamãe rastejou até a cama dela naquela noite.

Mamãe parecia um crocodilo vestindo uma pele humana. Braços e pernas dobrados em ângulos impossíveis, desconfortáveis. Ela abriu a boca, larga, incrivelmente larga. Ouvi o estalo quando a mandíbula saiu do lugar. Vi como ela sugou a cabeça da Niina como se fosse sorvete, depois a mordiscou. Rastejou mais para dentro da cama enquanto engolia a cabeça. Depois o pescoço. Os ombros. Ela avançou. Os seios, os quadris, as coxas...

Apenas os tornozelos e pés da Niina pendiam para fora da boca dela. Mamãe engasgou, lutando pra engolir os últimos pedaços da minha irmã mais velha. Todo o corpo dela se contraía enquanto engolia o que restava da Niina.

Eu seria a próxima.

Senti o hálito da mamãe perto do meu ouvido. Quente e úmido, fedia a cigarro e ácido. Ela gentilmente virou meu rosto para o lado.

"Você me deixou passar fome."

Ela perfurou um buraco no meu pescoço, aquele que nunca cicatrizou. Eu sempre dizia que era uma marca de nascença.

Imóvel. Indefesa. Estúpida. Sem outra opção, esperei até que ela se alimentasse.

Na minha cabeça, prometi. Nunca mais. Nunca mais vou deixar isso acontecer. Nunca mais vou deixar a mamãe passar fome. Ela precisa de mim.
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