segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Algo está me caçando, mas ninguém acredita em mim

As sombras se mexem. Eu venho vendo elas engrossarem, afinarem e ganharem forma desde que era criancinha.

Meus pais sempre me chamavam de "esquisito"; no sentido de que não acreditavam em mim. Primeiro, achavam que eu precisava de óculos ou que tinha algum problema mental, mas todos os exames deram negativo. No papel, eu supostamente tenho hiperfantasia, mesmo que eu claramente tenha bombado naquele teste também.

Acho que isso é a coisa mais frustrante da minha situação atual. Eu consigo ver claramente o que é, sem dúvida, algo de outro mundo passeando casualmente pela casa. Eu não reclamaria se fosse só uma sombra. Em vez disso, eu viro a cabeça e vejo umas dúzias de criaturas escuras como o céu noturno e completamente imateriais me encarando dos cantos, do teto ou até atrás de um familiar.

Eu não tenho medo delas, ou pelo menos não tinha até uns dias atrás. Sabe, depois de quase duas décadas de olhos inumanos — duvido que eles se qualifiquem como olhos de verdade — te seguindo, você começa a reconhecer rostos, e ouso dizer intenções.

Por exemplo, tinha uma sombra que passava pela porta do meu quarto toda noite, durante três anos, quando eu era adolescente. Ele era uma das sombras mais "bem costuradas" que eu já vi. O corpo era magro e mais ou menos humano, exceto pela cabeça em forma de cervo, duas vezes maior e com dois chifres grandes saindo dela. Ele não fazia nada de mais, só... meio que dava uma conferida em mim.

Aí, uma noite eu sonhei que estava sendo perseguido. Não lembro por quem ou pelo quê, mas nesse sonho o homem-cervo apareceu e interferiu, e depois que eu acordei, nunca mais o vi.

Isso não quer dizer que as sombras sejam "boas" em si; de jeito nenhum. Tem cabeças se mexendo no canto do meu olho o tempo todo, tentáculos e gavinhas de gosma escura subindo as escadas em plena luz do dia, e algo como um híbrido de gato e cabra pendurado de cabeça para baixo no teto bem acima da minha cama nos últimos um ano e meio, e eu fico só esperando ele cair em cima de mim — tenho certeza de que vai.

Faz talvez uma semana que essa coisa idiota parou de sumir. Ele tem uma cabeça tipo de touro, só que sem chifres ou nariz. Em vez disso, a única coisa que decora o rosto dele, além dos olhos, é um sorriso em forma de meia-lua — o tempo todo. Eu chamaria de "pernas-longas", mas até isso é pouco; as quatro patas dele são como macarrão, e ele corre como um cachorro faria — só que na velocidade de uma chita no auge, pronto para dar o bote na presa. Nesse caso, eu.

Ele fica subindo as escadas sem parar, não importa a hora do dia. Fica espiando o meu quarto do corredor, ou de pé nas patas traseiras e se inclinando para o lado, ou de quatro e virando a cabeça como uma animação malfeita. Ele é tão ativo que eu não vi outra criatura desde que ele apareceu.

O ponto de ruptura veio nas últimas cinco horas. Eu tinha saído para um encontro com a minha melhor amiga, a Suza, e enquanto ela me deixava em casa, ela apertou minha mão com força.

A Suza é "esquisita" como eu. Como nós duas fomos meio ostracizadas desde pequenas, encontramos consolo uma na outra. Ela, basicamente, prevê eventos que mudam a vida, geralmente envolvendo hospitais ou morte.

Voltando ao que aconteceu, ela pegou minha mão e me fez jurar que não ia sair do quarto de jeito nenhum depois que eu entrasse. Nem preciso dizer que peguei o sal da cozinha e uma cruz no caminho para cima. Não me pergunte sobre religião — com as coisas que eu vi, eu me recuso a discutir com ninguém além de Deus.

Nas últimas quatro horas, tudo estava tranquilo, sem problemas. Aí, meu irmão se ajeitou na cama dele do outro lado da minha — a gente divide o quarto — e as luzes do corredor se apagaram. Meu instinto gritava para fechar a porta, mas em vez disso eu peguei uma lanterna — e vi ele. O "Pernas-Longas" tinha passado pela porta e estava de pé nas patas traseiras, me encarando diretamente.

Eu finalmente consegui ver... tudo sobre ele, na real. A altura, a anatomia, cada pensamento que ele podia formar por trás daquele sorriso que nunca para. Um nó subia na minha garganta, e rápido.

Mas eu não conseguia me mexer. O sal, a cruz e uma faca que eu sempre tenho na mesa estavam a só uns metros de distância. Mas eu estava congelado. Fiquei ali parado, encarando ele, e ele fez o mesmo.

A meia hora que o relógio marcou que a gente ficou ali, a um braço de distância um do outro, não pareceu tão curta. Eu juraria que foram horas, talvez até dias, e o sol só não tinha nascido — eu não duvidaria que ele manipulasse o tempo. Quando ele finalmente foi embora, deu um passo para trás e sumiu pelo corredor.

Eu comecei a chorar ali mesmo, largando a lanterna antes de fechar a porta.

Agora eu tô encostado na porta, escrevendo isso. A internet é eterna, e mesmo se algo acontecer comigo, alguém vai saber. Ele não foi embora, eu sinto ele por aí em algum lugar.

domingo, 17 de agosto de 2025

Ele me espia pela janela às 3 da manhã

Estou escrevendo isso pra que as pessoas saibam a verdade quando ouvirem meu nome. Eu sinto que ele está tomando conta de mim. As vozes estão ficando mais altas e as visões, mais reais. Eu sei que isso pode parecer o delírio de um cara que finalmente surtou, mas acredite em mim, eu não tô louco. Eu só não quero que o que aconteceu comigo aconteça com mais ninguém. Então, lembre disso enquanto lê minha história: ele espia pela sua janela às 3 da manhã. Não importa o quanto ele tente te atrair, não importa os truques que ele use, não deixe a curiosidade vencer.

Quando eu me mudei pra esse apartamento, eu me convenci de que os barulhos eram só coisas normais de prédio antigo. Sabe como é: canos rangendo como se estivessem tossindo catarro, radiadores tiquetaqueando como um relógio de bolso velho, os vizinhos de cima derrubando sei lá o quê em horários absurdos. Na primeira semana, eu acordava por volta das 3 da manhã com sons fracos perto da janela. Achei que eram gatos no beco, talvez alguém jogando lixo fora, ou até o vento assobiando pelas frestas minúsculas da moldura da janela nesse meu apartamento velho e barato. Pareciam coisas normais. Coisas inocentes. Mas os barulhos foram ficando mais estranhos. Menos como "casa velha se acomodando" e mais como... vozes. Não palavras completas, mas ritmos. Como se alguém estivesse testando sílabas ou tentando aprender o ritmo da fala humana, mas não conseguisse acertar. Algumas noites, soava como o meu nome. Outras, eram batidinhas leves, como dedos tamborilando no vidro. Sempre da mesma janela. Sempre no mesmo horário. Eu tentei ignorar e me convenci de que não era nada. Esse foi o meu erro.

Os barulhos ficaram mais constantes, e foi aí que notei algo diferente neles. Eles estavam ficando espertos. Começaram a imitar sons de dentro do meu apartamento. Barulhos simples, como o zumbido da geladeira, o rangido da cadeira, até o chiado suave dos meus sapatos quando eu andava de um lado pro outro na cozinha... mas sempre vindo da mesma janela. Esses sons logo evoluíram de volta para aqueles ruídos confusos tentando imitar a fala humana. As vozes mudavam de um grito raivoso para um gemido quase acolhedor. Ele queria que eu me aproximasse, queria que eu olhasse. Por semanas, eu resisti. Eu não sabia o que era, mas se tivesse olhos, de jeito nenhum eu ia deixar que me visse. Fiquei encolhido debaixo das cobertas, tentando abafar aqueles sons demoníacos que vinham da janela toda noite. Mas, no final, a curiosidade venceu. Acordei de novo às 3 da manhã com os barulhos vindo daquela janela escura e hostil. Eu não aguentava mais. O que estava causando isso? Com certeza era só alguém me pregando uma peça, né? Então eu fui e olhei.

Foi aí que os pesadelos começaram. Não eram só sonhos ruins. Eram cenas montadas com precisão, filmadas com uma clareza que nenhum sonho deveria ter. Uma garota que eu amava mutilada na minha banheira, os olhos arrancados por mãos longas demais pra serem humanas. Uma cena da minha família gritando por socorro através de uma janela gradeada, as bocas cheias de cacos de vidro e as pontas dos dedos sangrando enquanto tentavam se arrastar na minha direção. Eu deitado na cama enquanto algo pressionava o rosto contra a janela, sorrindo cada vez mais largo até a pele rachar. Os pesadelos não acabavam quando eu acordava. Eles me seguiam durante o dia, queimados nas minhas pálpebras, fazendo minha pele arrepiar e minha ansiedade explodir. Faz semanas que eu não durmo mais do que umas horinhas picadas. Meu corpo treme de exaustão, meus olhos ardem, e eu não sei se as sombras que vejo são alucinações ou vislumbres do futuro. Vou tentar dormir um pouco agora. A luz forte do sol está iluminando meu quarto nesse momento, me protegendo daquela escuridão profunda e perturbadora que surge quando a lua aparece. Mais tarde, vou procurar apartamentos novos. Preciso sair daqui, RÁPIDO.

Algo estranho aconteceu hoje. Uma senhora que mora no final do corredor, uma velhinha simpática que geralmente fica na dela, me encurralou perto das caixas de correio. Ela me encarou por um bom tempo, como se estivesse estudando meu rosto. Dava pra ver que ela notou o olhar assombrado, sem alma e cansado que eu tô, e as olheiras debaixo dos meus olhos que normalmente são cheios de alegria. Ela não disse nada por um tempo, só me olhando como se eu fosse um caso perdido. A tensão no ar era tão pesada que eu não sabia se falava algo ou se saía correndo. Antes que eu decidisse, ela disse uma coisa que no começo não fez sentido, mas agora me dá calafrios na espinha.

"Enrole-se todo. Da cabeça aos pés. Como as crianças fazem. Não deixe que ele te veja. Nem um dedo. Nem um fio de cabelo."

Eu tentei perguntar o que ela queria dizer, mas ela se afastou rapidinho e sumiu antes que eu pudesse insistir. Fiquei pensando nisso o dia inteiro, a ponto de vasculhar fóruns, arquivos antigos e até blogs locais esquisitos. Fiquei chocado com o que descobri. Havia um padrão que aparecia repetidamente. Crianças enfiadas debaixo das cobertas, ouvindo historinhas de ninar que pareciam mais guias de sobrevivência. Adultos dormindo com facas ou outras armas debaixo do travesseiro, cortinas blackout pregadas nas molduras e trancas em todas as janelas. Todas essas histórias tinham uma coisa em comum. A Regra. Segundo a lenda, "A Regra" é assim: se ele te vê, qualquer parte de você, você tá marcado. Se você tiver "sorte", ele te mata. De forma horrivelmente lenta e brutal, com certeza, mas misericordiosa comparada ao que acontece se ele decidir te manter vivo.

Porque os sobreviventes não duram. Pesadelos, alucinações, paranoia até eles quebrarem. Alguns se matam se ainda conseguirem se controlar. Aqueles que não são tão fortes cometem atos atrozes e matam outros de maneiras bárbaras e horríveis. Mas toda história termina do mesmo jeito: uma ou mais mortes e uma tragédia por trás de tudo. E eu? Eu o vi antes mesmo de ter chance. Olhei pra aquela janela e agora os pesadelos não param. Eles estão piorando há dias, e eu sinto que tô escorregando. Já tentei me matar. Não vou dizer como, mas toda vez algo me impede. A corda arrebenta, a lâmina escorrega, o frasco derrama. Não é coincidência. Aquela... coisa, aquela abominação nojenta e sorridente vinda do inferno, com sua pele fina como papel e traços distorcidos que não são bem humanos, não me deixa morrer. Ela quer que eu sofra. Eu sinto ela rindo atrás do vidro toda noite, me vendo apodrecer. Eu não sou mais uma pessoa. Sou um peão no jogo dela. E ela vai decidir como e quando eu morro. Então, se você ouvir meu nome no jornal... seja suicídio, assassinato, alguma tragédia grotesca... por favor, saiba que não fui eu.

Ele espia pela sua janela às 3 da manhã.

E ele me viu.

Não deixe que ele te veja.

sábado, 16 de agosto de 2025

O irmão cego dele está me observando... Eu juro

Eu tinha entrado num relacionamento há pouco tempo — apesar de toda intuição me dizendo para não me apressar. No fundo, eu sabia o que estava fazendo: precisava de um lugar para morar. Um teto. Estabilidade. Minha mãe, claro, tinha um monte de coisas a dizer sobre isso. Ela achava que eu estava indo rápido demais. Mas, depois de oito anos solteira, eu nunca tinha tido tanta certeza sobre um parceiro. E, além disso, meu relacionamento com a família já era bem tóxico.

Eu a tranquilizei mesmo assim. “Ele é um cara legal.”

Ela me deu aquele olhar de lábios apertados. “Só toma cuidado”, ela disse. “Você sempre acaba se metendo em encrenca.”

“Ele é inofensivo”, eu disse, sorrindo largo demais. “A gente vai até conhecer os pais dele.”

Foi quando bateram na porta. Ethan tinha chegado para me buscar. Minhas malas estavam prontas e esperando, como se eu estivesse preparada há mais tempo do que queria admitir. Ele ficou ali na porta, com o nervosismo estampado no rosto enquanto seus olhos procuravam os meus.

“V-você tá pronta?”

“Claro”, eu disse com um entusiasmo ensaiado. “Eu viajaria para qualquer lugar com você nesse momento.”

As palavras quase me convenceram também.

“Ótimo”, ele riu, mas de um jeito inquieto. “Minha família tá super animada para te conhecer... bem, a maioria deles.”

Eu não perguntei o que ele quis dizer. Ele jogou minhas malas no porta-malas do sedã vermelho dele, com cuidado e deliberadamente, e minha mãe observou da porta. Normalmente, ela repreenderia os caras, lembrando que eles tinham que cuidar de mim — mas, quando Ethan abriu a porta do carro para mim, a guarda dela baixou. Ela só ficou ali, estranhamente amolecida, e disse apenas:

“Toma cuidado.”

E, sinceramente, eu queria ter ouvido.

A viagem nos levou a uma casa modesta de dois andares com garagem anexa. Classe média genérica. Nada de mais. Ethan me olhou com aquela mesma expressão preocupada.

“Por favor”, ele disse baixinho, “se você vai ficar aqui... só saiba que minha família é um pouco fora do comum.”

Eu sorri de volta, embora parecesse forçado. “Não se preocupa. Minha família também é doida.”

Eu até ri, tentando vender a ideia. A verdade era que eu precisava disso. Precisava de um lugar longe da minha mãe, longe daquele ciclo infinito de reprovação. Se ser a namorada que mora junto significava me adaptar a uma família de esquisitos, que seja.

Mas, quando entramos, eu quase ri da advertência dele. A casa estava impecável. Normal. Normal demais. As paredes cheias de retratos de família. A cozinha cheirando a pão fresco. Os pais dele até tinham assado para a ocasião.

Sem gritos. Sem portas batendo. Sem brigas de bêbado. Só sorrisos educados, móveis limpos e uma civilidade quieta.

E isso, de alguma forma, me inquietava mais do que qualquer caos.

Do canto da cozinha, os pais dele surgiram — o pai imponente em silêncio, a mãe equilibrando um prato de biscoitos ainda quentes, com o cheiro de manteiga e açúcar pairando no ar.

“Oi!”, ela sorriu radiante. “Meu nome é Mary — mas, claro, você pode me chamar de Mãe.” Ela praticamente enfiou o prato debaixo do meu nariz.

Eu olhei para Ethan, que me deu um aceno tranquilizador, me incentivando a pegar um. “Mãe?”, repeti desajeitada, testando a palavra na boca.

“Se você preferir”, ela disse baixinho, com um sorriso todo carinhoso e acolhedor.

Peguei um biscoito da pilha, o calor surpreendendo meus dedos. “O-obrigada. Desculpa, é que eu não tô acostumada com esse nível de bombardeio de amor.” Ri nervosa, tentando me proteger com humor.

“Que bobagem!”, ela disse, com a voz borbulhando de alegria. “A gente tá feliz que você se juntou ao nosso cirquinho. E, se você tá com um dos meus palhaços, então eu te considero uma das minhas também.”

Eu ri também, embora as palavras dela coçassem no fundo da minha mente. Dois palhaços? Só tinha dois deles ali. Ela não podia estar falando do marido grandalhão. Então quem...?

A porta da garagem rangeu ao abrir.

Uma figura entrou — grande, corpulenta e... ouso admitir, impressionante. Ele se movia com uma graça sobrenatural, quase como se deslizasse em vez de andar. Seus olhos estavam cobertos, enfaixados com o que parecia uma camiseta preta rasgada. Sangue fresco vazava pelo tecido, manchando de escuro onde os olhos deviam estar.

Ele usava só uma calça jeans preta. A pele — marrom escura, músculos tensos — captava a luz de um jeito que me obrigou a desviar o olhar antes de ficar encarando demais. Mas não antes da mãe de Ethan notar.

“Aquele é o Lucas”, Ethan sussurrou, apertando minha mão no ombro como se me preparando. “Ele... sofreu um acidente.”

Ele achou que eu estava olhando com medo. Ou talvez com curiosidade mórbida.

Mas Lucas não tropeçava. Não tateava os móveis. Ele foi direto para o balcão, serviu um copo de leite para si mesmo, pegou um biscoito do prato — sem esforço. Como se a cegueira fosse só um incômodo, não um fardo. Depois, se inclinou e beijou a testa da mãe com carinho.

“Seus biscoitos são sempre os melhores, Mãe.” Ele farejou o ar, depois inclinou a cabeça na minha direção.

As faixas não escondiam a sensação de que seus olhos — o que quer que estivesse por baixo — estavam fixos nos meus.

“Ahhh”, ele disse devagar, mordendo o biscoito. “Parece que temos uma visita. E quem é você?”

Os outros agiam como se nada fosse estranho. Ethan até me deu um aceno sutil, como se me incentivando a responder.

“Eu sou... Emily. Mas pode me chamar de Emmy.”

Lucas mastigou pensativo, depois balançou a cabeça. “Nah. Vou te chamar de M&M. Tipo o doce.”

Os pais dele riram, como se fosse uma piada interna da família.

Ethan forçou um sorriso. “O Lucas tem um jeito bem... excêntrico de ver o mundo.”

“Ou a falta dele”, Lucas rebateu com um sorriso rápido. “Eu só não gosto de coisas previsíveis.”

Depois, ele se virou para mim de novo. O ar no quarto ficou mais pesado. “Então. Você é previsível?”

O silêncio me pressionou. Minha garganta apertou. Eu nem respondi — só respirei superficialmente, de um jeito afiado o suficiente para me entregar.

Lucas sorriu de canto. Levantou o copo de leite e tomou um gole, como se minha reação fosse toda a confirmação que ele precisava.

“Bom saber”, ele disse levemente, antes de voltar flutuando para a garagem.

Eu fiquei ali congelada, me perguntando que diabos tinha acabado de acontecer. Mas todo mundo continuou como se não fosse nada.

“Eu devia preparar o jantar”, Mary disse enquanto olhava para o reloginho de diamante dela. Ela se levantou e foi para a cozinha, enquanto Ethan, o pai dele e eu assistíamos a um filme... ou documentário...

A sala de jantar parecia um showroom. Uma mesa pesada de carvalho, polida até brilhar, e paredes forradas de pinturas que me fizeram parar no meio do passo. Não eram cópias baratas. Eram telas originais, cheias de cores violentas, pinceladas texturizadas. Rostos distorcidos. Membros dobrados em ângulos impossíveis. Algumas pareciam religiosas, outras grotescas, todas assombradoras.

Eu não conseguia parar de olhar.

“São todas obras do Lucas”, Mary disse orgulhosa, colocando uma travessa fumegante de frango assado.

Eu pisquei. “Ele pintou... todas essas?”

“Cada uma delas”, ela disse, com um tom que equilibrava orgulho e humildade ensaiada. “Ele sempre teve um olho para detalhes, mesmo depois...” Ela parou, os olhos desviando para a cozinha. “Bem, ele se vira.”

O marido dela sentou na cabeceira da mesa, silencioso como uma estátua, só acenando uma vez como se confirmasse.

Ethan colocou a mão no meu joelho por baixo da mesa, como se me firmando. Seu sorriso não vacilou. Mas eu sentia os dedos dele apertando, me ancorando no lugar.

Então a porta da garagem rangeu de novo.

Lucas surgiu, dessa vez não com jeans preto, mas sem camisa, salpicado de tintas — escarlate, cobalto, ocre espalhados pela pele como pintura de guerra. As calças estavam arruinadas com manchas, as mãos pingando terebintina e óleo. A faixa ensanguentada ainda estava amarrada sobre os olhos, mas de alguma forma a cabeça dele se inclinou na minha direção no segundo em que entrou.

Ele parecia uma criatura saída direto de uma das próprias pinturas.

“O jantar tá cheirando bem”, ele arrastou a voz, se sentando na cadeira em frente à minha. Nem se deu ao trabalho de se limpar. O cheiro de tinta e químicos se misturou ao do frango assado até meu estômago revirar.

Ele pegou um pão sem errar, rasgou e falou direto comigo. “Então, Emmy”, ele disse, com a voz baixa, quase íntima, “como é se sentar cercada por mim?”

Eu congelei, sem saber se ele falava das artes ou de outra coisa.

A mão de Ethan apertou a minha com força, mas ele não disse nada. A mandíbula dele tensionou, olhos no prato, como se aquilo não estivesse acontecendo.

Mary deu uma risada educada, rápida e frágil. “Lucas”, ela repreendeu levemente, “não deixa nossa visita desconfortável.”

Lucas só sorriu de canto, inclinando a cabeça para mim de novo. “Eu não tava perguntando para deixar ela desconfortável. Tava perguntando porque eu sinto o batimento cardíaco dela daqui.”

O quarto ficou imóvel. A faca do pai tilintou no prato. Ele não olhou para mim. Não olhou para ninguém. Só disse, com uma calma final: “Comam.”

Todo mundo obedeceu.

O resto do jantar se dissolveu em silêncio, pontuado só pelo arranhar de garfos e a risada suave ocasional de Mary para remendar o ar. Lucas nunca parou de sorrir. Ele comeu com a graça de alguém que via tudo. E mais de uma vez, eu peguei aquela sensação impossível de que, atrás daquela faixa ensanguentada, os olhos dele estavam bem abertos — e fixos em mim.

Mais tarde aquela noite, na casa deles, eu não conseguia dormir.

O quarto de hóspedes estava impecável — impecável demais. Lençóis brancos esticados apertados no colchão, o ar perfumado levemente com lavanda, como se alguém tivesse borrifado minutos antes de eu chegar. Deveria ser reconfortante, mas em vez disso me deixava agitada. Cada rangido da casa parecia amplificado, cada tique do relógio de pêndulo no corredor vazava nos meus ouvidos.

Ethan estava deitado ao meu lado, já dormindo, de costas para mim. A respiração dele era pesada, constante. Quase ensaiada. Ele nem tentou me tocar, nem um beijo de boa-noite. Depois da tensão estranha no jantar, eu não sabia se ficava grata ou ofendida.

Eu encarei o teto. Minha garganta estava seca. Seca demais. Finalmente, saí de debaixo das cobertas, cuidadosa para não acordá-lo, e fui descalça pelo corredor.

A casa era diferente à noite. Sombras se alongavam pelas paredes, esticando das pinturas do Lucas. Elas pareciam vivas na luz fraca — santos retorcidos e corpos fraturados se curvando como se me observassem passar.

Eu me disse que era só imaginação, mas acelerei o passo para a cozinha.

Foi quando ouvi.

Um farfalhar fraco. Pés descalços no piso de madeira.

Eu congelei.

E então eu o vi.

Lucas.

Ele estava no fim do corredor, bem na porta do banheiro. Sem camisa, só uma toalha jogada casualmente no ombro. A pele dele brilhava com um brilho de suor, e tinta ainda grudava no peito em listras, como resquícios de um campo de batalha. A faixa — tecido escuro e amarrado — ainda cobria os olhos. As manchas pareciam mais frescas agora, vazando mais escuras no centro.

Por um momento, ele não se mexeu. A cabeça inclinou levemente, como se escutasse.

Depois, com precisão lenta, ele esticou a mão, encontrou a moldura da porta do banheiro e se apoiou nela. Sem tropeçar. Sem se perder. Só... esperando.

Eu devia ter voltado. Devia ter pego minha água e fugido. Mas fiquei ali, plantada, observando.

Ele falou sem se virar para mim. “Você tá com sede.”

Não era uma pergunta.

Minha respiração travou. “Eu... só queria um pouco de água.”

Lucas sorriu, os lábios se curvando na luz fraca. “Meio da noite. Primeira noite numa casa estranha. Você é mais corajosa do que parece, M&M.”

Ele disse baixinho, como um segredo.

Eu engoli em seco. “Você... tá acordado até tarde também.”

“Eu vago”, ele disse simplesmente, os dedos roçando a faixa como se para me lembrar dela. “As paredes não me dizem mais muita coisa. Preciso sentir a casa para saber que ela ainda tá aqui.”

Eu não soube o que dizer. A voz dele preenchia o silêncio, baixa e rica, ressonante de um jeito que deixava o ar quente demais.

Ele se impulsionou da moldura então, se aproximando — sem tropeçar, sem tatear, mas andando com uma certeza sobrenatural. O ombro roçou a parede ao passar, os dedos roçando a superfície levemente, quase com carinho.

Ele parou a poucos passos de mim. Perto o suficiente para captar o cheiro forte de terebintina ainda grudado na pele dele, misturado ao suor limpo de alguém prestes a tomar banho.

“A água tá na cozinha”, ele murmurou. “Mas acho que você já sabia disso.”

Forcei uma risada que saiu frágil. “É... obrigada.”

Ele inclinou a cabeça, como se saboreando o som dos meus nervos. “Você respira mais rápido quando mente.”

Meu pulso martelava tão alto que eu juro que ele ouvia. Ele se inclinou um pouco, sem tocar, só perto o suficiente para eu sentir o calor irradiando do corpo dele.

“Vou tomar banho”, ele sussurrou, a voz caindo para algo quase conspiratório. “Se precisar de alguma coisa.”

Depois, ele passou por mim, toalha no ombro, os olhos enfaixados sem vacilar. Desapareceu no banheiro e fechou a porta com um clique lento e deliberado.

Eu fiquei no corredor, a água esquecida, cada nervo do meu corpo vivo.

E não conseguia me livrar da sensação de que ele não precisava de olhos para me ver.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Eu nunca vou esquecer o que vi na casa do meu amigo

O que a gente viu naquela noite na casa do meu amigo... Eu nunca vou esquecer. Não era algo inexplicável. Não era paranormal. Isso até teria sido quase reconfortante, de certa forma, saber que vinha de fora do nosso mundo, mesmo que fosse aterrorizante. Mas isso... isso era muito mais real.

Era um inverno brutal, durante as férias da escola. A gente tinha 16 anos e já se reunia quase todo fim de semana na casa do meu amigo pra beber e jogar videogame. Nosso passatempo favorito (e bem idiota) era o de pênaltis no FIFA, e toda vez que alguém levava um gol, tinha que virar um shot da vodca mais barata que a gente conseguia achar.

É, era burro, bem burro mesmo, mas a gente ria até não poder mais. Minhas melhores lembranças são daquele quarto, lá no fundão da casa do meu amigo, bem do lado da lavanderia e antes da varanda dos fundos. A mãe dele não podia reclamar do barulho, e ela não fazia ideia de quanta bebida a gente estava mandando pra dentro só por diversão. Pelo menos era o que a gente achava.

Aquela noite não parecia diferente das outras. Saí de casa e avisei pra minha mãe que ia pra casa do Luke. Ela sabia exatamente o que isso significava, mas era... digamos, "seletivamente" permissiva. Ela não aguentava me ver bebendo ou fumando, mas se eu fizesse isso pelas costas dela, de repente não era mais problema. No caminho, parei na vendinha da dona Rosita, aquela senhora que me vendia cigarro e bebida mesmo sabendo que eu ainda estava no ensino médio. Igualzinho sempre: um maço de cigarro e a vodca mais barata que tinha.

Fui o primeiro a chegar na casa do Luke. A mãe dele me deu uma olhada de lado rapidinha e um sorrisinho cúmplice quando ouviu o tilintar da garrafa batendo nas minhas chaves dentro da mochila. Ela sabia, mas, igual à minha mãe, não ia se meter.

Fui direto pro quarto dos fundos. O Luke já estava bebendo uma cerveja, Deus sabe de onde ele tinha tirado aquilo, e jogando um jogo que eu achei que era de tiro no começo, mas na verdade era de terror. Ele estava de moletom e coberto por um cobertor que tapava ele inteiro; eu só via a cabeça e as mãos, o que me pareceu um pouco esquisito. Mas, pensando bem, aquele quarto, por mais que a gente adorasse, era frio pra caramba. Sem aquecedor. A janela fechada, mas de algum jeito o vento ainda entrava. Lá dentro tinha só um colchão velho no chão, uma TV ainda mais velha e nosso tesouro sagrado: o PlayStation 2.

Cinco minutos depois que eu cheguei, a gente já estava jogando aquele joguinho idiota de pênaltis. Enquanto isso, conversávamos sobre as coisas de sempre: garotas, boatos meia-boca e outras bobagens que adolescentes de 16 anos ficam obcecados.

Agora, eu adorava o Luke, ele era meu melhor amigo e eu sempre fui super apoiador dele, não importava o que fosse, mas o relacionamento dele com a namorada era... esquisito. Ela era insanely ciumenta, a ponto de, mesmo sendo um adolescente bobão, eu saber que aquilo passava dos limites. Ela geralmente não aparecia nas nossas reuniões, graças a Deus. Mas de vez em quando, ela surgia do nada, como se estivesse torcendo pra pegar o Luke no flagra traindo.

A gente falou sobre isso naquela noite. Ele estava de saco cheio. Eu não entendia por que ele não terminava logo com ela. Ele disse que, se não respondesse uma mensagem em um minuto, ela ligava pra ele. Se não acordasse antes dela pra mandar "bom dia", ela bloqueava ele. Qualquer interação com uma garota já era motivo pra ela surtar. "O sexo é bom. Muito bom... mas ela curte umas coisas estranhas", ele disse. Eu insisti pra ele explicar. Ele sempre foi do tipo que conta tudo e ri, mas dessa vez ele estava sério pra caramba.

Enfim, a noite seguiu como sempre. O resto da galera chegou, e nós quatro jogamos o joguinho de pênaltis até a bebida acabar. Já era tarde, mas a vendinha da Rosita ainda estava aberta. O bairro era bem tranquilo, mas àquela hora, a gente ainda tinha que ficar de olho aberto.

Deixamos os celulares no quarto. O Luke disse que estava frio demais pra ir, então o resto de nós foi e ele ficou pra trás jogando. Assim que saímos, vimos a namorada do Luke no portão, com o celular na mão e uma mochilinha do Hello Kitty no ombro.

Abri o portão e deixei ela entrar. Ela não disse uma palavra pra gente, odiava todos nós por motivos que a gente nunca entendeu. Assim que viramos a esquina, começamos a rir feito loucos. Ela não podia ser mais esquisita. E o que quer que fosse rolar lá dentro... não ia ser bonito.

Demoramos pra voltar, só pra evitar o climão. Mas depois de meia hora, o frio estava insuportável, então voltamos mesmo assim. Sem gritos, sem vozes. Que alívio. Talvez a gente tivesse escapado do drama.

Mas, quando chegamos mais perto, ouvimos uns... sons molhados. É a única forma de descrever. Achamos que íamos pegar um boquete bem constrangedor no flagra, então, sendo os idiotas que éramos, fomos nos aproximando da porta na ponta dos pés, espiando.

Abri a porta de supetão e todos nós congelamos. Um dos meus amigos correu pra varanda dos fundos e vomitou antes mesmo de chegar lá fora.

O Luke estava deitado sem camisa no colchão velho. O tronco e os braços dele estavam cobertos de feridas mal cicatrizadas. Pedaços de pele faltando. Carne seca, como couro... e músculo fresco, cru, onde um pedaço novo tinha acabado de ser arrancado do antebraço dele.

Do lado dele estava a namorada. Mastigando uma tira de pele e músculo, os dentes afundando naquilo com um som nojento, gosmento. Ela nem parou quando nos viu. Engoliu o pedaço, limpou a boca com um guardanapo de pano da mochilinha do Hello Kitty, se levantou e foi embora.

O Luke implorou pra gente não contar pra mãe dele. Disse que estava "lidando com isso", que ela era perigosa, que não podia simplesmente largar ela. De alguma forma... a gente acreditou nele. Acho que estávamos chocados demais pra pensar direito.

Não vi muito o Luke naquele inverno. Ele parou de responder minhas mensagens no Facebook. Quando as aulas voltaram, descobrimos que ele tinha se mudado pra outra cidade. Meses depois, ele me mandou uma mensagem dizendo que não teve escolha, tinha que se afastar o máximo possível dela. A gente se encontrou de novo eventualmente. Ainda saímos de vez em quando.

Nunca tocamos no assunto. Ele quer deixar no passado. Fingir que não aconteceu. E, sinceramente, eu também quero. Mas não consigo apagar aquela imagem da minha cabeça. Nem o som. Aquele som nojento, gosmento de mastigação... dela comendo aquele pedaço de carne.
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