segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Apodrecendo por Dentro

Há trinta anos nos mudamos para o apartamento 304 do condomínio Willow Manor, logo depois de um divórcio dos brabos em que meu ex-marido me botou pra fora de casa junto com nosso filho de seis anos. Tive que gastar até o último centavo das minhas economias pra pagar o depósito pro dono do prédio — um véio de uns setenta e poucos anos, daqueles que parecem que já estão de saco cheio da vida. Ele falava o mínimo possível, mas foi gente boa o suficiente pra deixar a gente trazer a Bia, nossa pastora alemã, mesmo o apê sendo minúsculo e mal cabendo eu e o Matt. Era isso ou largar ela na rua e partir o coração do meu filho.

Os dois eram unha e carne. Desde o dia que o Matt nasceu, a Bia nunca largou do lado dele, quase uma segunda mãe. Toda vez que o ex surtava bêbado, gritando comigo e quebrando tudo, ela ficava de guarda na porta do quarto dele. Quando eu finalmente arrumava coragem pra levantar, ir pro banheiro e cuidar do nariz quebrado, os dois vinham atrás e só ficavam olhando. Os dois sem poder fazer nada pra me ajudar. Saímos daquela casa depois que o infeliz decidiu que não queria mais “gastar dinheiro criando o filho que ele mesmo mandou eu ter”. Eu devia ter agradecido por escapar, mas de repente a responsabilidade de sustentar minha famíliazinha caiu toda nas minhas costas depois de anos sendo mantida na dependência e tomando porrada. Eu não fazia ideia de por onde começar.

Depois de mudar com os poucos móveis que consegui levar, chegou a hora de arrumar meu primeiro emprego da vida. Tinha uma vendinha bem embaixo do prédio e, por sorte, eles podiam contratar mais uma caixa. O salário mal dava pro aluguel e pras coisas básicas, mas a gente sobrevivia. Os primeiros meses foram tranquilos, estávamos nos acostumando com uma casa silenciosa. À noite, depois de buscar o Matt na escola, a gente sentava no sofá, via TV e a Bia ficava deitada na porta de entrada. Desde o começo ela parecia estranhar o apartamento, como se sentisse algo que a gente não via. Achei que era só ela se adaptando ao lugar novo. Quando anoitecia, Matt e eu dormíamos juntos — coisa que nunca acontecia na casa do pai dele. Eu queria que ele se sentisse seguro antes de ir pro quarto dele.

Pouco tempo depois, os vizinhos da frente se mudaram e ficamos como o único apartamento ocupado no terceiro andar. O corredor era esquisito: eram quatro apartamentos no total, o nosso ficava entre dois, um na frente e o elevador lá no canto direito. Não demorou muito pra começarem os barulhos. Acordei uma manhã com som de furadeira na parede, achei que eram vizinhos novos e saí pra cumprimentar. Abri a porta: ninguém. Mas o barulho continuava. Pensei que vinha do andar de cima e deixei pra lá. A partir daí, barulho de obra quase o dia inteiro, a ponto de me dar enxaquecas brabas. Liguei pro síndico pedindo pra eles trabalharem em horário decente. Ele respondeu que não tinha obra nenhuma acontecendo no prédio e que eu tivesse paciência até “terminar”. Não quis brigar com vizinho de cima, calei a boca e aguentei.

Uns meses depois, novembro, o sétimo aniversário do Matt estava chegando. Meu presente foi arrumar o quartinho dele e comprar uma caminha com o pouco que juntei no trabalho. Ele ficou louco de felicidade por finalmente ter o próprio quarto e não precisar mais dividir a cama comigo. Fiquei até triste, mas entendi: ele estava crescendo, precisava de independência. Enquanto montava a escrivaninha, reparei num buraquinho na parede que nunca tinha visto. Como o prédio era velho pra caralho e todo detonado, achei que era só mais um defeito. A parede era a que dividia nosso apê do 303. Fiquei curiosa, dei uma espiada: o buraco era pequeno demais, só dava pra ver escuridão.

O Matt nunca foi de me acordar de noite chorando, mas depois que foi pro quarto dele virou rotina. Ele dizia que tinha um homem alto, de barba comprida, que ficava parado na porta olhando ele dormir. Meu ex era exatamente assim, então achei que era trauma, medo dele voltar e destruir tudo de novo. Pelo menos era o que eu queria acreditar. Entre o Matt me acordando toda noite e o barulho do andar de cima, eu mal dormia. Virei um trapo irritado, a paciência zerou, parei de dar atenção pro meu filho. Chegava do trabalho, me trancava no quarto e tentava relaxar.

Com o tempo o buraco na parede foi crescendo — começou a vazar um líquido e criar mofo preto. Eu limpava toda manhã, no dia seguinte voltava pior. Não tinha grana pra chamar pedreiro. O Matt se recusava a dormir sozinho, a Bia nem entrava no quarto, só ficava choramingando na porta. Minha cachorra calma e quietinha começou a correr pela casa latindo pra qualquer barulhinho e mal comia. Ela já era velha, passava o dia deitada, mas nessa época, quando eu levava pra passear, ela fazia de tudo pra não voltar pra casa. No fim, os dois voltaram a dormir comigo, acabando com o restinho de privacidade que eu tinha naquele apê minúsculo. Resolvi trancar a porta do quarto do Matt e fingir que nada estava acontecendo até conseguir alguém pra ver aquilo.

A gente estava infeliz pra caralho. Eu morria de medo de chegar em casa e ver meu filho. Ele vivia falando daquela figura, eu tentava convencer que era imaginação porque não queria acreditar que fosse outra coisa. Ele era muito novo pra entender que a gente não podia se mudar, e eu me sentia a pior mãe do mundo por não conseguir fazer nada. Ele estava assustado, paranoico com a casa — igualzinho antes de sairmos da casa do pai. Eu só queria me jogar na cama e não lidar com nada disso, mas tinha que cuidar dele, senão ia virar o mesmo monstro que o ex. Prometi que a vida ia mudar depois da mudança, que finalmente ele ia se sentir feliz e protegido. Mas a realidade não deixava. Escapei de um pesadelo e caí em outro, talvez pior. Pelo menos antes a gente se tinha; agora parecia que éramos eu contra ele. Eu tinha virado o monstro. Juro que tentei com todas as forças não deixar isso acontecer, mas alguma coisa dentro de mim tinha quebrado. Os dias passavam assim: quase não nos falávamos mais, parecíamos estranhos dividindo o mesmo teto, não uma família. Até a Bia mudou — não queria mais carinho, virava as costas e saía de perto de mim. Eu me odiava.

O cheiro que vinha do quarto trancado era insuportável, um fedor de podre e umidade. Enchi a casa de odorizador, mas não adiantava porra nenhuma. A toalha que coloquei embaixo da porta ficava encharcada de uma água preta, e eu morria de medo de abrir e ver o estado daquilo, porque sabia que não ia poder fazer nada. Parecia que tinha alguma coisa lá dentro querendo sair, e a porta era só uma ilusão de segurança — não pra nos proteger dela, mas pra manter a mentira de que estávamos seguros. A casa estava apodrecendo, e a gente junto. Era uma prisão, mas era isso ou morar na rua. Eu era a responsável por proteger minha família, e isso estava me destruindo. Às vezes me sentia uma criança assustada fingindo ser adulta, sem ninguém pra recorrer.

Chegou a hora de fazer alguma coisa. Minha única saída era pedir pro dono do prédio trocar de apartamento. Não aguentava mais passar um dia naquele lugar. Quando ele veio visitar, a porta do quarto estava quase toda preta de mofo, e eu tinha pavor de abrir depois de tantos meses. Parecia errado entrar ali — estava quase completamente escuro por falta de janela, o mofo preto tinha tomado as paredes. O cheiro era tão forte que parecia que dava pra ver no ar. O buraco já estava tão grande que dava pra passar agachado. O dono ficou puto achando que fomos nós que estragamos tudo e não acreditou numa palavra do que eu contei. Chegamos perto do buraco, tentando não pisar naquela lama preta e nos pedaços de entulho, e olhamos esperando ver o apartamento 303. Só tinha uma parede de tijolos empilhados. O prédio tinha sido construído no final do século XIX e nunca foi totalmente demolido — só reformaram por cima porque estava “bom o suficiente” pra alugar pra gente como eu, desesperada e sem grana. Aquela parede de tijolos provavelmente estava ali há décadas.

Já estávamos quase com tudo empacotado pra mudar no dia seguinte quando a equipe de limpeza chegou. O quarto escuro ficou cheio de gente e luz — senti um peso enorme saindo do peito. Eles desmontaram os tijolos pra limpar a fonte do mofo e atrás encontraram uma poça de líquido com restos humanos boiando. Alguém tinha sido literalmente emparedado ali, tijolo por tijolo, até sufocar. Fiquei horrorizada só de pensar que a gente morou tanto tempo com um esqueleto do lado e que deixei meu próprio filho dormir no mesmo quarto que aquilo. Não quis saber mais nada, só queria cair fora e nunca mais olhar pra trás. O dono insistiu pra gente mudar pra outro apartamento no prédio, num andar diferente, por metade do preço até eu achar outro lugar. Decidi que precisávamos mudar de ares mesmo, procurei um monte de anúncio e achei um lugar num bairro diferente. Saímos dali o mais rápido que deu.

Fiquei aliviada de ir embora, mas o medo do que descobriram ficou comigo por muitos anos. Às vezes passo pelo bairro antigo e ainda sinto o mesmo frio na espinha do dia que olhei pro buraco pela última vez — mesmo o prédio já tendo sido demolido. Morar no Willow Manor hoje parece um pesadelo horrível, e ainda bem que o Matt era muito pequeno pra lembrar de alguma coisa. Nunca contei a verdade inteira pra ninguém, talvez de vergonha por não ter conseguido proteger minha família daquele horror todo. Falar sobre isso torna real, e eu prefiro fingir que nunca aconteceu de verdade.

Onde a Luz Caiu

Eu bem que gostaria de não estar de plantão no meu dia de folga. Mas aquela propriedade rural velha e acabada na beirada da cidade subiu na lista de demolição mais cedo do que eu esperava. Precisei dar uma passada pra conferir se não tinha nenhum morador de rua, pra equipe poder derrubar tudo sem sustos nem surpresas.

A primeira coisa que me chamou atenção foi o quanto a casa ficava longe da estrada. Acho que os donos originais gostavam mesmo era de privacidade. De longe, o lugar parecia até comum. De perto, os detalhes saltavam.

Trepadeiras subiam pelas paredes, rompendo pedaços do que um dia foi tinta branca. Canos enferrujados pendiam soltos, prontos pra despencar ao menor toque, e um capacho de boas-vindas jazia meio comido pelos ratos.

Quando pisei no limiar, algo mudou. Os pardais lá fora calaram a boca de uma vez, e o calorzinho da primavera virou um frio úmido e cansado. Fechei a porta atrás de mim e ela rangeu de um jeito estranho, quase intencional. Como se estivesse tentando falar alguma coisa que eu não conseguia entender direito.

Eu esperava que uma casa velha assim cheirasse a mofo ou podridão. Em vez disso, o ar trazia um leve perfume doce, floral. Jasmim, logo jasmim. Aqui não tem jasmim, muito menos numa casa abandonada sem ninguém pra regar. Mesmo assim o cheiro ficava ali, suave e teimoso, ficando mais claro conforme meus olhos se acostumavam com a penumbra.

Outra coisa esquisita: o interior parecia escuro demais, mesmo com sol entrando pelas janelas. A luz nunca caía de qualquer jeito. Ela escolhia lugares. Tocava só certos pontos, como se tivesse critério. Uma escova de cabelo jogada no chão. Um livro em cima da mesinha de centro. Um par de luvas de forno pendurado na parede da cozinha. Um presente de Natal ainda embrulhado embaixo de uma árvore seca. Um soldadinho de brinquedo nas tábuas empoeiradas. A luz evitava o vazio e se acomodava só nos objetos que pareciam ter história, como se a casa quisesse me mostrar eles de propósito.

O soldadinho era o mais estranho de todos. Estava lá no chão empoeirado, mas impecável. Limpo demais, como se alguém tivesse brincado com ele ontem. Ajoelhei pra olhar melhor. Nem uma partícula de poeira. A casa estava abandonada há pelo menos cinco anos.

Também não sabia o que pensar das sombras que ficavam pelos cantos. Eu só via pelo canto do olho. Pareciam sólidas demais pra serem só sombra, mas sem forma definida. Às vezes, quando eu tentava focar nelas de lado, elas escureciam mais, quase pulsando com um brilho abafado. Mas bastava virar a cabeça e pronto, sumiam. Enquanto eu revistava o térreo, ficava ouvindo um barulhinho delicado de páginas virando. Um estalinho leve, depois silêncio. Eu parava toda vez, certo de que não era coisa da minha cabeça. Mas quando ia atrás do som, não tinha livro nenhum. Nada.

Subi a escada velha de madeira pra conferir o andar de cima. A cada degrau, as tábuas rangiam de um jeito que parecia… pessoal. Não era o ranger comum de madeira velha. O ritmo mudava, o volume subia e descia, como se os rangidos estivessem tentando formar palavras presas ali dentro. “James, desce pra jantar”, pareceu murmurar um degrau. “Tá bom, mãe”, sussurrou o seguinte.

Na metade da escada, o vento lá fora ficou mais forte. Mas até isso não soava certo. Por baixo do barulho normal de ar batendo nas venezianas quebradas, eu ouvia uma melodia suave, uma mulher cantarolando. Quando parei pra escutar melhor, a música ficou cristalina. The Skye Boat Song. “Carry the lad that’s born to be king… over the sea to Skye.” Minha mãe cantava isso pra mim quando eu era pequeno.

No andar de cima o ar mudou. O cheiro leve de jasmim quase sumiu. Ficou mais frio, com uma quietude que parecia feita de propósito. A luz de uma única janela alcançava só um lugar: a maçaneta da porta no fim do corredor. As sombras aqui demoravam mais pra sumir do canto do olho. Principalmente perto daquela porta.

Quando segurei a maçaneta, o calor dela me assustou. A porta abriu quase sozinha, sem resistência, e no mesmo instante algo relaxou no ar. Soltei o ar sem querer. A casa pareceu soltar junto comigo.

Era um quartinho pequeno. A cama estava desarrumada, o cobertor intocado exceto por duas marcas suaves sob a poeira. Uma maior. Outra menor, encolhida bem pertinho. A luz do quarto escolhia de novo: um livro de receitas na mesinha de cabeceira, um livrinho infantil e um aquecedor portátil coberto de poeira. A janela estava bem fechada. O quarto parecia lacrado, como se tivesse prendido a respiração por anos. Cheguei mais perto do aquecedor. O botão estava quebrado. Um aquecedor avariado num quarto sem ventilação era uma tragédia anunciada.

Olhei de novo pra cama. As marcas iluminadas pelo sol estavam tão quietas, tão acomodadas, como se ninguém tivesse mexido nelas desde o dia em que foram feitas.

Liguei pra polícia local e avisei o que tinha encontrado. Não tinha mais nada que eu pudesse fazer, só torcer pra que tratassem o caso com o respeito que merecia. Enquanto esperava eles chegarem, deixei um pequeno sinal de respeito. Tirei a poeira dos dois livros que a luz tinha escolhido. Ajeitei o cobertor com cuidado pra não apagar as marcas. Olhei o aquecedor e, com quase nenhum esforço, girei o botão quebrado de volta pro lugar. Um consertozinho bobo que poderia ter salvado os dois.

Na saída, fechei a porta do quarto. A maçaneta agora estava fria, igual ao resto da casa. O perfume de jasmim tinha sumido de vez. O vento lá fora era só vento. A escada não sussurrava mais sob meus pés, e o virar de páginas tinha calado. As sombras se esticavam de forma comum. A luz caía sem graça pelo chão.

Antes de sair, vi o soldadinho de novo. Agora não estava mais impecável — coberto de poeira, com umas teias de aranha penduradas no capacete. Sorri.

Uma paz quieta, inesperada mas firme, desceu sobre mim enquanto eu ia embora. A casa agora parecia vazia. Vazia de verdade.

Reconhecimento de padrões

"Antes de você ir embora, eu queria te contar sobre um novo estudo de pesquisa", diz Sarah.

Faz seis meses que eu faço terapia com a Sarah, e ela usou o mesmo cardigã em todas as nossas sessões. Eu sei que isso é por minha causa, porque uma vez eu apareci de surpresa pra remarcar um horário e ela estava de suéter verde. Hoje o cardigã está desabotoado e uma parte de mim já tá morrendo de medo da inevitável troca de guarda-roupa do verão.

"Que tipo de estudo?"

"É pra analisar os efeitos de um treinamento pra ajudar pessoas com prosopagnosia a reconhecer rostos. Eles vêm desenvolvendo um software há cinco anos e agora estão prontos pro primeiro teste com gente de verdade. Você toparia participar?"

"Tô dentro."

Não foi uma resposta cheia de animação. Já deixei de reconhecer minha própria irmã quando ela entrou na mesma academia que eu, e um ex particularmente nojento uma vez se aproveitou da minha condição pra tentar me cantAR depois do término fingindo ser literalmente um cara novo. Por sorte isso rolou numa festa e uma amiga me salvou rapidinho, mas dá pra entender por que eu não tava pulando de alegria com a ideia.

No dia seguinte já caiu um e-mail com todas as informações do software. Tinha até versão de app, além do site. Os dois registravam quanto tempo eu passava treinando e me diziam em que “nível” de reconhecimento facial eu estava. Era tipo Duolingo ou aqueles joguinhos de treinar o cérebro. Eu continuava sem muita esperança, mas fiquei com medo da Sarah perguntar quantos exercícios eu tinha feito e eu parecer a preguiçosa que nem tentou…

A primeira semana foi um saco. Meu nível subia devagarzinho, mas parecia que eu estava chutando o tempo todo. Na segunda semana, porém, comecei a melhorar de verdade. Reconheci as pessoas do app — reconheci de verdade — e até consegui identificar minha irmã dentro da sauna da academia. O cabelo dela estava molhado e mais cacheado do que ela costuma deixar, o rosto vermelho do vapor, a luz bem fraca… e mesmo assim eu soube quem ela era sem ela abrir a boca! Fiquei eufórica.

Logo eu já estava gastando todo tempinho livre no app e transformei reconhecer gente na rua num jogo particular. Tinha umas duas ou três pessoas da academia que deviam morar no meu prédio, porque os rostos delas apareciam direto e eu nunca tinha percebido. Comecei a sacar quais atores apareciam em mais de uma série que eu assisto. Fiquei obcecada com meu próprio reflexo, fascinada por finalmente conseguir me reconhecer até em vidros de janela e tela de celular.

Um dos exercícios do software de reconhecimento de padrões mostrava primeiro um rosto normal, inteiro, depois a mesma cara feita só de pontinhos ou pontinhos e linhas. Parecia aquelas capturas de movimento de filme. Aí eu tinha que achar esse rosto de pontinhos no meio de um monte de outros rostos de pontinhos. Não tô te contando isso porque acho interessante, mas pra explicar por que, na primeira vez que eu vi um rosto solto, eu não fiquei apavorada. Estava numa toalha que eu tinha deixado embolada no chão do banheiro. Já tinha ouvido falar que as pessoas veem formas de rosto em lugar nenhum, mas, talvez por causa da minha prosopagnosia, nunca tinha acontecido comigo.

"Quem é você, hein?", perguntei pra toalha e fiquei olhando com cara de boba antes de decidir que ela provavelmente não devia ficar no chão — com rosto ou sem rosto.

Continuei batendo recorde atrás de recorde no meu app favorito. Um dia mostrei pra minha amiga Lisa.

"Então, ele te mostra esse rosto aqui, ó, depois mostra o mesmo rosto distorcido de algum jeito e você tem que achar ele no meio de um monte de outros distorcidos igual. Nas primeiras fases a mudança era super sutil, a pessoa só passava de cara neutra pra levemente irritada ou virava um pouco a cabeça, mas eu fiquei tão boa que agora ele me dá distorções extremas. Preparada?"

A Lisa ficou mais um segundo decorando o rosto do cara na tela e fez que sim com a cabeça, decidida. Apertei o botão e o rosto normal sumiu, dando lugar a dez rostos ondulados e borrados.

"Espera, quê?", a Lisa gritou. "Não, isso é impossível! Eu não sei. Quatro. Meu chute é o quatro."

"É o sete."

Apertei o rosto número sete e minha escolha ficou contornada de verde — sinal de que acertei.

"Isso é loucura. Você chutou? Ou já tinha feito esse?"

Sorri toda orgulhosa pra ela.

"Nenhum exercício se repete. Eu simplesmente soube."

"Nossa. Acho que não vou mais precisar te proteger de ex namorado pilantra, hein."

Dei de ombros.

"Sei lá… o app melhorou meu reconhecimento facial, mas não melhorou meu gosto pra homem. Aposto que ainda vou namorar uns caras com formas novas e criativas de me foder pra você ter que me salvar."

Como se respondesse a uma discussão que eu nem estava acompanhando, o barman desligou a TV e eu olhei automaticamente pra tela, já pronta pra testar se conseguia identificar algum rosto refletido. Em vez do barman ou dos clientes, eu vi o rosto de uma mulher da academia. O rosto dela estava tão grande na tela que, se fosse um reflexo de verdade, ela teria que estar colada na televisão, tão perto que tampava tudo.

"Tá tudo bem?", a Lisa perguntou.

O rosto na TV já tinha sumido. Eu sabia que as pessoas às vezes viam caras falsas em nuvem e tal, mas não sabia que dava pra ver rostos que não existem com tanto detalhe em superfície lisa. Nem que o rosto podia ser de alguém que você já tinha visto antes.

"Tô de boa", respondi.

Talvez não fosse o mesmo rosto. Meu reconhecimento tinha evoluído muito, mas provavelmente ainda não era perfeito. Provavelmente eu só tinha visto um rosto parecido e achado que era alguém conhecido. Se eu continuasse treinando, esse tipo de coisa ia parar de acontecer.

Da próxima vez foi dentro do ônibus. Eu já tinha chegado no ponto de reconhecer quais rostos ao meu redor eu via todo dia no mesmo horário, mas o rosto que me assustou dessa vez não estava dentro do ônibus. Estava escuro e chovendo lá fora e, no reflexo de uma das janelas, eu vi ele. O Cara da Toalha. O rosto que eu tinha visto pela primeira vez numa toalha amassada no chão do banheiro e agora estava aqui, refletido no vidro. Olhei pro banco onde ele deveria estar sentado: ninguém. Quando voltei a olhar pro reflexo, percebi que eu conseguia ver o rosto dele, mas era só isso. Sem cabelo, sem ombro, sem corpo…

O ônibus parou e eu saí correndo na chuva mesmo estando a meia hora de caminhada do meu ponto. Me senti mal, com ânsia, precisava ficar longe daquele rosto. Pela primeira vez desde que comecei o treinamento, fiz de tudo pra não olhar nenhum reflexo nas vitrines que passei. Fiquei encarando o chão na minha frente e, quando uma sequência de rachaduras no asfalto formou um rosto que eu sabia que era familiar, eu dei um grito. Corri o resto do caminho pra casa e me escondi embaixo do edredom como criança, de olhos bem fechados pra nenhum rosto entrar no meu campo de visão.

No dia seguinte liguei pro trabalho dizendo que estava doente — e não era mentira total. Eu realmente me sentia mal, a boca azeda toda vez que eu pensava demais nos rostos que tinha visto. Por que o Cara da Toalha não tinha corpo? Tinha outra coisa me corroendo, esperando eu perceber. Eu não queria saber, mas meu cérebro perguntou mesmo assim: a mulher que eu vi na TV da academia, será que ela tinha corpo mesmo? Ou eu só a tinha visto refletida em lugares onde ela poderia estar atrás de outras pessoas ou no meio do vapor da sauna? Saí do quarto pra pegar água e fingi que não estava vendo o contorno de um rosto na parede.

Ainda podia ser relativamente normal? Pesquisei “ver rostos onde não deveria” e caí na pareidolia, mas aquilo parecia bem mais leve do que o que eu estava passando. Tentei outras buscas com termos diferentes e o Google sugeriu desde motivo espiritual até esquizofrenia pura e simples.

Só no dia seguinte eu lembrei de procurar o contato dos caras que fizeram o app. Fui abrir o aplicativo pra ver se tinha uma seção “fale conosco”, mas o app inteiro estava em manutenção. Desesperada, resolvi ir até o consultório da minha terapeuta. Cada parte da missão foi um pesadelo. Abri o armário pra pegar roupa: tinha um rosto escondido nas dobras. Procurei a chave na bolsa: tinha um rostinho ali também. Fechei os olhos em boa parte do trajeto de ônibus só pra não ver os rostos sem corpo e, quando cheguei no consultório da Sarah, eu devia estar com uma cara horrível.

"Vou ver se ela pode te atender agora", a recepcionista falou assim que me viu entrar.

A Sarah saiu com cara de preocupada.

"Oi, sou eu, a Sarah."

"Eu sei."

O cabelo dela estava preso e ela usava só camisa, sem suéter nem cardigã. Antes essas mudanças teriam feito dela uma completa estranha pra mim, mas agora não mais. Fomos pro consultório dela.

"O que aconteceu?", ela perguntou.

"É o estudo, eu acho que—"

Parei no meio da frase porque, quando eu disse que o problema era o estudo, a Sarah ficou tão tensa que quase se encolheu. Ela já tinha falado da minha prosopagnosia e da ansiedade que vinha junto com uma cara de paisagem perfeita, mas ela sabia que algo tinha dado errado com o estudo.

"Não sou só eu, né?", perguntei.

"Recentemente apareceram alguns relatos de outros participantes do estudo vendo rostos onde não esperavam. Isso só começou faz muito pouco tempo e, embora pareça assustador, ver um rosto de vez em quando nas sombras pode ser perfeitamente normal. O estudo foi pausado por enquanto e, mesmo quando voltar, ninguém vai te obrigar a continuar se você não quiser."

Queria pedir mais detalhes, queria saber o que fazer, mas vi um rosto nos papéis triturados dentro da lixeira ao lado do pé da Sarah. Eu já tinha visto aquele rosto antes, era familiar. E o pior: os olhos dela se mexeram e olharam direto pra mim.

Saí correndo do consultório apesar dos pedidos da Sarah pra eu esperar e, quando cheguei em casa, apaguei todas as luzes. Enquanto escrevo isso, a luz do celular é a única iluminação no quarto e até isso parece perigoso. Mas eu precisava contar pra alguém o que está acontecendo porque eu não sei o que esses rostos são, mas eles estão em tudo.

E eles sabem que eu consigo vê-los.

domingo, 16 de novembro de 2025

Eu Nunca Deveria Ter Usado Aquela Tábua Ouija Que Comprei Online

Era véspera do Dia das Bruxas, e o campus tava fervendo com um monte de aluno bêbado desfilando pelo saguão. Fazendo parte daquela galera alta era eu, a fofa da Abi Mae vestida com um macacão de gatinha brilhante, e minha melhor amiga Barbara, que tava sóbria como um santo. Ela usava um nariz vermelho de borracha e uma roupa de palhaço old-school, com um sorriso pintado que dava arrepio em todo mundo que passava por nós.

Juntou-se a nós a Tammy, que tava super bêbada e passando por um término. Deve ter sido um pé na bunda daqueles, porque eu não via nem sombra do Jason desde então. Ela tava com o uniforme de corrida e um círculo cartoon colado nas costas de qualquer jeito. Passamos boa parte da noite vagando pelo campus, tomando cerveja e admirando as fantasias sinistras. A cena de festas em casa na cidade é praticamente zero, infelizmente, mas os alunos compensavam ficando doidos e depois destruindo o gramado central.

A estátua de bronze do fundador da escola, com aquela cara de bobo, já tava coberta de papel higiênico quando saímos. Dois frat boys vagabundos com máscaras de borracha baratas posavam na frente. A gente só deu risada e seguiu em frente, curtindo a brisa e dando um gole escondido na cerveja quando dava. A Tammy tava mandando ver no álcool, engolindo uma Pabst atrás da outra.

Eu não tava preocupada em acabar, a Barb carregava uma mochila cheia daquelas baratas nas costas, tipo mula de carga. Eu tinha conseguido um bom desconto graças ao velhinho simpático da entrada do supermercado. No fim da noite, a gente praticamente carregou a Tammy de volta pro dormitório, o cabelo dourado dela todo melado de suor de bebida.

Ainda bem que a gente tava começando a encerrar a farra de Halloween. O céu, que tava limpinho, começou a encher de nuvens brabas. De longe, dava pra ouvir o trovão. Me dá arrepio só de ouvir esse som.

O Romero Hall, nosso lar longe de casa, tava todo enfeitado pro Halloween. As janelas cobertas de fantasmas sorridentes e morcegos de papel machê. As luzes fracas lá dentro lutavam pra escapar do vidro fosco, criando um brilho sinistro que fazia os olhos de papel parecerem vivos.

Paramos na escada da frente e desabamos num monte, a Barb soltou um suspiro enquanto colocava a mochila barulhenta no chão. Ela começou a remexer nela enquanto a Tammy ria de uma piada particular do lado. Eu cutuquei ela, com meio sorriso no rosto. Mexi a bochecha de um jeito que fez meus bigodes pintados dançarem.

“O que foi tão engraçado?” perguntei alto demais. Eu só tinha tomado umas onze cervejas até ali, então não tava TÃO mal, acho. O olhar que a Barb me deu sugeria o contrário.

“Nada, nada.” A Tammy balançou a cabeça, o cabelo bagunçado voando na cara. “É que eu achava que ele me amava, sabe, e ele jogou tudo fora assim.” Ela fez um gesto exagerado, arrastando as palavras, o corpo balançando pra lá e pra cá, inclinando um pouco pro lado. Os olhos dela tavam fechados, e ela murmurava coisas sem sentido. Dei um aceno solidário.

“Eu sei, amor, ele era um otário mesmo, você merece muito mais.” Tentei consolar. Lancei um olhar preocupado pra Barb e sussurrei: “Ela tá cortada.”

“Sem merda.” A Barb resmungou, olhando a mochila quase vazia. “Ela tomou trinta e cinco latas.” Contou.

“Cara, não conta cerveja, isso não é legal.” Falei, mas guardei aquela informação preocupante pra depois. Ao longe, uns malucos fantasiados gritavam e uivavam, pareciam piratas bêbados. A Tammy gemeu do nosso lado, meio desmaiada. Ajudamos ela a levantar enquanto eu fuçava os bolsos da calça procurando o cartão de acesso do prédio.

“Que quarto é o dela de novo? A gente pode largar ela lá.” Falei.

“Abi, a gente não pode abandonar ela nesse estado.” A Barb protestou. Suspirei e olhei pra nossa amiga apagada. Ela ria de novo, a cabeça balançando como se concordasse com a Barb. Mas acho que ela tava na dela, correndo atrás de coelhos, se é que me entende.

“Tá bom, ela pode dormir lá em cima, mas se ela vomitar nos meus lençóis, não vou limpar.” Avisei.

“Que altruísmo o seu.” A Barb retrucou enquanto a porta imponente do Romero Hall se abria. Levamos nossa amiga bêbada pra dentro e corremos rindo pro elevador. O cara da recepção, com cara de cansado e camiseta de M&M, nos lançou um olhar irritado enquanto passávamos pela recepção cheia de teias de aranha falsas.

Nos esprememos no elevador minúsculo e subimos uns andares, cada ping dando espaço pra um monte de comentários bêbados da Tammy.

“Já chegamos—”

“Sinto falta daquele filho da puta podre—”

“Eu gosto de elevador, já comi um cara num uma vez. Ele era gostoso.”

Dei um tapinha nas costas dela enquanto a segurávamos nos ombros.

“Sim, amor, tenho certeza que sim.” Ela jogou a cabeça pra trás e soltou um uivo desgrenhado quando as portas do elevador finalmente abriram no nosso andar.

“Tá bom, Lobo Adolescente, vamos te botar na cama.” Falei, aliviada que não tinha ninguém pra ver o show dela. Nós três andamos pelo corredor, as portas fechadas em silêncio, exceto por uma TV alta ou um gemido “fantasmagórico”.

Viramos a esquina e passamos pelo banheiro. Agarrando a lateral da porta por dentro tinha uma mão pálida e mofada. Pela fresta da porta aberta, eu vi um pupilas vermelhas pulsantes.

Com um gemido frustrado, levantei a perna e chutei a porta, o fantasma fugindo enquanto eu fazia.

“Sai fora, Melvin, não tô no clima.” Resmunguei. A Barb ficou chocada com o espectro do banheiro. O rosto dela ficou branco como o próprio ceifador; os olhos amarelos dela mostravam medo de verdade.

“O quê—é só o Melvin.” Zombei.

“É real, eu achava—” A Barb gaguejou, a descrença no paranormal destruída pra sempre.

“Ei, eu te falei, o Jason te falou, por mais que isso valha.” Falei. As orelhas da Tammy se ergueram, e ela começou a chorar o nome dele, uma explosão de lágrimas saindo dos olhos tristes. Nós duas gememos e arrastamos ela pro quarto, que por sorte ficava só umas portas depois do banheiro.

Nosso quarto compartilhado era legal, tinha uma vista ótima do campus; dava até pra ver um pedaço do centro se você olhasse além da torre do relógio antiga no meio do gramado. Do meu lado, à esquerda, tava lotado de roupa suja e uma TV Roku pequena jogada numa mesa meio bamba de frente pra minha cama mal feita.

Do lado direito, o da Barb, era quase uma foto de revista. A cama dela arrumada, lençóis macios encaixamateados em cada canto. A mesa limpa, só com caderno e laptop. Acho que quando você nunca cansa, dá pra focar mais em arrumar a bagunça.

Jogamos a Tammy na minha cama, do lado dela, claro, com todo o cuidado que a gente conseguiu. Ela desabou na cama de solteiro imunda, as molas rangendo em protesto. Ela se encolheu na minha cama e eu ajeitei um travesseiro pra ela como boa anfitriã. Ela murmurou um obrigado, os olhos grudados enquanto o vazio de vertigem tomava a mente dela.

“Mmm bebi demais. Deshc culpa, gente. Vocês são legais. Não vou comer vocês.” Ela arrastou as palavras enquanto finalmente apagava na serenidade de um blackout total. Com um suspiro, a gente viu ela roncar e recuamos pra cama da Barb. Lá fora, a lua minguava mas ainda tava alta; os noturnos ainda tavam firmes. De manhã, imaginei que a polícia do campus ia bater de porta em porta pra descobrir quem fez o quê e como. Eu já tinha tido minha cota de bagunça pela noite, mas ainda queria fazer algo no espírito da temporada.

Esse foi meu primeiro erro.

Eu e a Barb ficamos ali, pensando nas opções enquanto o silêncio pensativo era quebrado pelos roncos esporádicos da Tammy e murmúrios sobre o Jason e um tal de Travis.

“Então, o que você acha que rolou entre eles, afinal?” perguntei pra Barb. Ela deu de ombros.

“Tô noventa e cinco por cento certa que ela matou ele.” Disse sem rodeios.

“Pfft, sei não.” Ri. “Mesmo se matou, bom riddance, eu digo. O cara passava vibe de serial killer futuro.” Sorri.

“Você fala isso de todo mundo.” A Barb ponderou. “A gente devia dormir ou ficar acordada ou ver um filme ou algo assim.” Um filme parecia legal, mas eu queria algo divertido pra manter meu barato minguando. Olhei pro meu lado do quarto, desesperada por qualquer coisa pra fazer no dia mais assustador do ano.

Meu olhar caiu no espelho grande de pé que ficava de frente pra minha cama. Era um espelho cheval padrão, daqueles que giram se você deixar. Minha mãe tinha me dado de presente surpresa de aniversário na semana passada. Lembro dela arrastando a coisa, raspando no chão de madeira que eu com certeza vou ter que pagar.

Olhando pra ele agora me deu uma ideia diabólica. Pulei da cama e me abaixei no meu canto, fuçando por meu último desperdício de grana. A Barb me olhou de canto, meio divertida com minha empolgação, certeza.

“A-ha!” exclamei, achando o pacote ainda lacrado embaixo. Puxei e brandi como se fosse um troféu, em vez de uma tábua Ouija velha que comprei online de um cara chamado “Buyer_Tuck”. A Barb me olhou cética.

“Ah, vai, por favor.” Supliquei. “É Halloween, a gente tem que fazer algo meio assustador.”

“Você não acha meio idiota mexer com uma coisa dessas?” Ela perguntou.

“Pfft, desde quando você acredita em fantasmas.” Provoquei.

“Eu literalmente acabei de ver um nos encarando no corredor.”

“Pode ter sido o vento.” Falei com sinceridade. Comecei a rasgar a embalagem frágil. A caixa tava gasta e cheirava a mofo. As letras tavam apagadas, a pintura ruim lascada. Na capa, um planchette desgastado tinha um símbolo antigo de um alce. Parecia que algo ia pular quando eu abrisse.

Pra minha leve decepção, nem um enxame de mariposas nem um desfile de morcegos voou de lá quando abri. Fiquei impressionada de ver que a tábua em si tava em condição impecável. Soltei um assovio enquanto tirava com cuidado do caixão antigo. Coloquei a tábua na frente do espelho e sentei de pernas cruzadas na frente.

“Vai, vamos fazer isso, apaga a luz no caminho.” Cuspi animada pra Barb.

“Abi, isso parece uma péssima ideia.” Ignorei o aviso dela.

“Vai, você tem que fazer comigo; é azar usar uma sozinha.” Instiguei. A Barb suspirou e se rendeu ao ritual bobo comigo. Ela foi até lá e desligou o interruptor, os olhos brilhando pra mim no escuro.

“Show, deixa eu pegar umas velas. Você não vai se arrepender, vai ser foda.” Falei, pegando umas velas na gaveta da mesa.

“Você que diz, cara.” Ela disse enquanto sentava.

“Ah, vai, qual o pior que pode acontecer?”

Dizer esse clichê ignorante foi, hum, meu segundo erro.

Sentamos um de frente pro outro no escuro virgem; nossa única luz era um punhado de velas pequenas espalhadas ao redor. O cheiro doce de creme de baunilha flutuava no ar. Cada uma com as mãos no planchette; balançávamos a peça pela tábua, circulando o centro três vezes.

Então—nada. O único som era a apneia do sono da Tammy. Me inclinei e sussurrei minha primeira pergunta.

“Espíritos, nos aproximamos de vocês agora, nesta noite mais profana.”

“Sério?” Ouvi a Barb rindo baixinho.

“Shhh. Nós os chamamos; nós os convidamos. Há algum entre vocês corajoso o suficiente pra nos entreter?” Perguntei à tábua.

Fomos recebidos com silêncio. Um silêncio sinistro, até o barulho de conversa bêbada lá fora tinha parado. O planchette encolhido sob nossos dedos ficou parado. Eu tava começando a me sentir idiota; quer dizer, isso só funciona em filmes B ruins. Então o ar ao redor ficou pesado. As chamas fracas ao nosso redor piscaram, como se sentissem a presença elétrica no ar. Ao longe ouvimos um trovão, um relâmpago distante brilhou lá fora.

“A tempestade finalmente tá chegando.” A Barb murmurou, senti o interesse dela minguando a cada segundo. Eu tava prestes a falar quando senti algo puxar o planchette. Foi um movimento sutil, quase me fez recuar da tábua num ato covarde. O sorriso da Barb sumiu enquanto ela franzia a testa.

“Você fez isso?” Ela sussurrou.

“Você?” Acusei. Antes que a gente pudesse discutir, o ponteiro começou a se arrastar pela tábua, parecia giz riscando asfalto. Olhamos boquiabertos enquanto o planchette ia direto pro “Sim”. Ficou ali, como se nos desafiasse a continuar. Meus olhos verdes opacos encontraram os estrobos da Barb, até ela parecia assustada. Limpei a garganta e perguntei:

“Você é um fantasma?”

A Barb revirou os olhos pro que eu achava uma pergunta óbvia, mas simples. Então o ponteiro se moveu de novo, pra um “Não” rápido e preocupante. O quarto ficou frio então; as sombras ficaram mais brilhantes e animadas na luz simples. O espelho do nosso lado era um monólito ameaçador, parecendo um terceiro não dito no nosso joguinho.

“O que—você é, então.” Encarei a tábua. Ela pensou na pergunta por um momento, então o ponteiro se moveu calmamente.

“D. . . E. . . M. . . O—” Comecei, mas a Barb rapidamente tirou as mãos das minhas e se afastou da tábua.

“Nope, não, não, foda-se isso. Abi, leva essa coisa lá fora e queima.” Ela gaguejou. As velas piscaram violentamente com o surto dela, o ar tenso e gelado com a rejeição. Meus olhos se arregalaram como os de uma boneca e olhei pra ela como se ela tivesse cometido um crime grave, minhas mãos tremendo no ponteiro delicado.

“Barb, tem tipo um monte de regras sobre tábuas Ouija que você acabou de quebrar.” Expliquei calmamente. Mesmo assim, ela balançou a cabeça.

“Nope, não quero saber. Agora eu acredito, acho que a gente precisa pedir outro dormitório, na verdade.” Ela tremeu só de pensar em encontrar o Melvin fantasma do banheiro de novo.

“Cara, você realmente não devia fazer isso sozinha.” Minha voz tremeu, não ousava tirar as mãos do ponteiro. Eu sentia algo, um toque leve nos meus dedos ansioso pra continuar jogando, sozinho ou não, logo aconteceria.

“Eu fico olhando, mas não vou tocar nessa coisa.” Ela cedeu um pouco. Suspirei e olhei pro espelho. Era só eu que via, perto da base uma sombra parecia pairar. Terceiro erro, nunca use tábuas espirituais na frente de superfícies refletoras. Você pode não gostar do que olha de volta.

“Tá bom. Só, por favor, não me deixa sozinha agora.” Guinchei. A Barb fez careta com meu medo e se aproximou um pouco. Ao longe o trovão rolava, invadindo nosso campus. Dava pra ouvir o splatter rápido das gotas de chuva, um bater frenético contra as janelas. Comecei de novo, incerta se devíamos continuar mas mais preocupada com o que aconteceria se parássemos.

“Ok, demônio. Beleza. Qual seu nome?” O ponteiro não perdeu tempo; me puxou pro “F” e repetiu o movimento frenético mais cinco vezes. Eu sentia o que quer que fosse, tava irritado mas ansioso pra agradar. Ele cravou a palma astral na minha e guiou o ponteiro pro nome infernal.

“-U. . .R, espera, sério? Seu nome é Furfur?” Dei risada. A tábua ficou parada por um momento, então relutantemente foi pro sim.

O par insolente caiu na gargalhada idiota com a confirmação do nome do conde—MEU nome. O erro mais grave que aquela pirralha já cometeu na sua vida ridícula e esquisita. A tábua tremia de raiva, batendo no chão. Dei um aviso educado; pare, cesse imediatamente. Eu era o guardião do conhecimento restrito, o portador da tempestade, o ala mais refinado do submundo; como ousavam zombar do meu nome honrado. Mas a risada grosseira continuou, fazendo pouco da minha linhagem.

Isso não podia ficar assim, claro.

Eu não conseguia me conter; era só um nome bobo. Até a séria Barb tava segurando uma risada nervosa. A tábua fez birra, batendo as pontas no chão, o ponteiro fazendo ameaças sem sentido. Eu tava segurando o melhor que podia, mas era uma onda de movimento; mal conseguia entender o que o demônio dizia. O trovão lá fora tinha virado uma montanha de fúria, a tempestade batendo no prédio, desesperada pra entrar.

“Haha, ok, olha—desculpa. Mas vai, a gente não conseguiu um dos demônios bons.” Provoquei. O ponteiro parou de vez. Comecei a mover ele em círculo de novo, continuando meu discurso irritante. “—Ou tipo um fantasma serial killer, não, a gente pegou um cara engraçadinho chamado Furfur.” Da cama ouvi um som murmurado da Tammy, algo como “Nome idiota.”

“Exato. Desculpa, cara, não dá pra levar a sério, então—adeus.” Terminei o círculo e soltei o ponteiro. O trovão parou e o único som era a chuva frenética lá fora. O quarto tava mais frio, mas fora isso tudo parecia normal.

“Viu, nada aconteceu e a gente zoou um demônio.” Sorri orgulhosa, ignorando como minha respiração se materializava no quarto gelado. Os olhos da Barb se arregalaram, o olhar fixo no espelho. Olhei pra ele, meu sangue gelando.

O espelho era obsidiana sólida; nenhum reflexo atravessava a superfície. Nem a luz fraca das velas conseguia furar o véu de sombras que tinha virado. Me afastei da tábua, percebendo tarde demais que tinha ido longe demais.

A escuridão dentro do espelho se moveu, um som solitário ecoou então, o grito agudo de um cervo. O berro do alce se enterrou nos meus tímpanos, marcando pra sempre com suas notas de desprezo. No vidro escuro, dois carvões pequenos apareceram. Eram como bolas de gude, com um toque de leite rodopiando no vermelho rubi. A Barb gritou de terror, correndo pro meu lado e agarrando meu braço. Ela esqueceu a força e quase destruiu meu braço enquanto me segurava com força.

O preto que se dobrava sem parar começou a tomar forma. Era perfeito na execução, a força de um ser de eras antigas, suponho. Duas asas grandes envolveram o corpo enquanto aparecia. Aqueles olhos de mármore espiando do manto tavam fixos só em mim. Dois chifres majestosos brotaram da escuridão. Como vinhas torcidas, se enrolavam e se abriam. A criatura profana botou a cabeça pra fora das asas. A cabeça era de um alce adorável, e enquanto as asas se abriam não consegui deixar de notar o físico excepcionalmente definido. A pele era clara, com um tom acinzentado pelo que eu via na escuridão cruel.

As velas minguando ao nosso redor foram apagadas rápido, o cheiro doce de creme logo substituído por um fedor grosso de almíscar misturado com enxofre. Me fez engasgar, mas segurei a onda de sujeira subindo. Não era fácil, considerando a quantidade de veneno que eu tinha enfiado na minha goela gulosa. Tinha um pingo de medo vendo o sem forma tomar forma, mas um tesão doentio de empolgação, como se eu não pudesse esperar pra ver onde isso ia dar. Me perguntei se eu daria conta do cara cervo numa luta justa.

Especimen resiliente, vou dar isso pra ela.

As mãos dele eram gastas, dedos longos e tipo galhos. Onde o umbigo encontrava a pélvis era uma mistura de homem e cervo. A parte de baixo tinha um pelo marrom maravilhoso salpicado de pontos brancos, e uma faixa prateada descendo pelas costas. Tinha até um rabinho fofo, uma bolinha pera com um tufo de neve na ponta. Furfur ficou no espelho, se deliciando com nosso medo mortal fraco. O rosto dele era inexpressivo, mas eu sentia a fúria dele me queimando como fogo do inferno.

“Olhem para seu superior e tremam aos meus cascos negros.” Ele cantou nas nossas mentes enquanto o trovão batia no prédio. A Barb tava petrificada de medo, o rosto contorcido em horror puro. Coube a mim lidar com o demônio ofendido.

“Uh—” Meu cérebro deu tilt, não conseguia pensar num comeback ou pedido de desculpas que nos salvasse da ira demoníaca dele.

Então, dobrei a aposta. Abri um sorriso e cutuquei a Barb.

“Olha só isso, o cara acha que aparecer como Bambi vai me fazer adorar ele. Talvez se você fosse uma cobra ou um dragão, eu me ajoelhava pra você; mas um cervinho? Desculpa, parceiro, não curto esse tipo.” Exclamei.

O demônio alce avançou, botando a cabeça pelo espelho. Passou pela barreira com facilidade, os chifres enormes raspando o teto enquanto passava. Ele levantou um dedo afiado pra mim e mexeu o focinho.

“Palavras tão ousadas pra uma cuja vida é só uma mancha no tapeçar do cosmos.” Ele ponderou.

“Se sou uma mancha, por que tá tão puto.” Retrquei, um pouco mais confiante na minha burrice. O demônio saiu metade do espelho, colocando um casco no chão, jogando a tábua pro lado com facilidade.

“Vocês mortais e seus teatros cansativos. Nunca aceitam que são só um degrau na escada. Sempre retrucando as mãos que graciosamente permitem que sejam tão ousados.” Cutuquei a Barb de novo, que ainda tava em curto-circuito de medo. Ouvi o Furfur rir na minha mente, um som irritante pra caralho.

“Sua bonequinha carregada de alma não pode te salvar. Se implorar, talvez eu poupe ela quando terminar de esfolar você.” Ele cuspiu frio. Levantei rápido e tentei fugir, pegar a tábua. Tinha que ter algo que eu perdi, foi quando me toquei.

A Barb nunca disse adeus.

“Barb, pega a tábua e diz ade—” Fui cortada por uma mão grossa me agarrando pelo pescoço. Ele apertou e espremeu, minha traqueia desmoronando enquanto eu subia no ar.

O demônio inclinou a cabeça enquanto eu me debatia na mão dele, minhas pernas molengas chutando os abs de aço. Arranhei e arranquei a pele dele; era como uma camada de ferro. Logo minhas unhas tavam quebradas e ensanguentadas, mas eu ainda resistia, agarrando cada golfada de ar com respirações loucas.

A Barb viu meu perigo e tentou ajudar mas foi jogada pra trás com um tapa nas costas. Ela voou pelo quarto, um estrondo enorme ecoando. Ela caiu bem perto da tábua, e enquanto se recuperava devagar, o mundo girando, a tábua chamou sua atenção.

Ela tentou desesperadamente completar o ritual, gritando “Adeus” frenéticos enquanto girava o planchette patético pela tábua silenciosa. Tentativa nobre de salvar a amiga, fútil, claro. Uma vez quebrada, as regras raramente perdoam a retribuição. A ruiva bagunçada se contorcia nas minhas mãos, cuspindo xingamentos pra mim, gotas de cuspe sujando minha aparência profana. Apertei mais, e o rosto pálido dela começou a ficar de um roxo vibrante maravilhoso.

Mas ela ainda resistia, golpe após golpe patético em mim, cada um não menos fraco que o anterior. Ela tava determinada a lutar comigo a cada passo. Fazia tempo que eu não encontrava uma alma com um espírito tão—vigoroso, digamos. Olhei nos olhos dela e vi tanto ódio. Soltei ela e ela desabou no chão.

Enquanto eu tava lá, saboreando o ar fresco descendo pela garganta, o Furfur ficou triunfante sobre mim. Os chifres dele furaram o teto, pedaços de gesso e poeira caindo como granizo. Ele me encarava, os chifres rangendo enquanto cortavam mais fundo no teto. Os olhos dele, seus rubis perfurantes que pareciam saber cada segredo sujo que eu já escondi, era tudo que eu via enquanto as asas grandes nos envolviam. A última coisa que ouvi do mundo lá fora foi a Barbara gritando meu nome.

Dentro do manto de couro que nos cobria era uma escuridão sem fim. Era frio lá dentro; a única fonte de calor a cabeça flamejante de alce que me via tremer no escuro profundo. Ele me observava com interesse, pensamentos invisíveis rodando na mente. Olhei ao redor por qualquer coisa, qualquer arma ou rota de fuga que eu pudesse tropeçar.

Não tinha nada. Nada além de mim e o ser de poder incomensurável que eu tinha irritado pra caralho. Deus, como eu fui burra. Não devia ter zoado ele, nem devia ter feito contato. Devia ter só dito “Ei, Barb, vamos ver Scary Movie 2 e relaxar a noite toda.” Mas não, eu tinha que ser uma idiota egoísta que provavelmente matou nós duas. Por que eu era assim? Eu só saio procurando confusão, é como se eu tivesse um desejo de morte ou algo assim. Essa necessidade irritante de cutucar o urso até ele arrancar minha mão. Agora arrastei minhas amigas pra isso, deus, o que tem de errado comigo.

Eu só queria ir pra casa e fingir que essa noite toda tinha sido só um pesadelo longo e miserável. Queria que meu cachorro estivesse aqui, o Perry com seu focinho gorducho, ele ia morder esse filho da puta cervo. Esse auto-ódio não tava me levando a lugar nenhum, eu já enfrentei coisas mais assustadoras que esse cara. Puta merda, nem o primeiro híbrido de bicho da floresta que eu vi. Eu era a Abi Mae, caralho, eu podia lidar com isso, eu sabia que podia—

Cesse seus pensamentos, criança, eles zumbem na sua mente como mosquitos.

Uma voz sedosa encheu minha mente, um dialeto mais refinado e divino.

Se você tivesse mais respeito, eu poderia ter compartilhado conhecimento arcano com você. Pequenos truques de salão pra divertir seus comrades. Afinal, você é só humana. Diferente das suas amigas, a boneca e a cadela. Você acha que elas riem pelas suas costas, a mortal fraca e sem poder que elas têm que babysitar?

“Cala a boca.” Falei pro alce parado na minha frente.

Não me surpreenderia se rissem. Você enfrentou tanta adversidade, Abi; só vai piorar. Um dia em breve, você vai estar sangrando no chão, suas entranhas sujando o solo enquanto o pouco de vida que resta é lentamente apagada pra sempre. O além é um lugar frio e solitário pra uma como você.

Simpatia inundou meu cérebro, uma farsa, eu sentia ele fuçando minha mente como quem folheia um arquivo. Procurando qualquer pedaço suculento pra me torturar. Agarrei meu crânio em frustração, tentando me concentrar em manter o cervo intrometido fora.

Não funcionou.

Eu sentia ele vasculhando cada pensamento privado e memória vergonhosa que eu já tive, rindo de traumas que eu achava enterrados. Enquanto isso eu xingava ele, tentando em vão parar a intromissão.

Acalme-se, Abi. Você teve uma série de desventuras; lutou tanto com sua depressão incapacitante. Duro de dizer, talvez. Mas é verdade. Sempre se sentindo tão pequena na multidão, não importa o quão escandalosa você se comporte. Cada surto um grito desesperado por validação, cada briga com a morte um tesão que você não ousa replicar com facilidade, pra não voltar pros velhos habi—

“Foda-se você.” Declarei, cortando a terapia de poltrona dele. “Você podia ter me matado mil vezes já, isso não é só tortura. Você tá procurando algo.” Acusei. O alce ficou em silêncio.

Por um momento.

Eu acho sua arrogância divertida. Com o tempo eu poderia te quebrar na roda, mas por que desperdiçar um rancor tão delicioso? Deixe-me entrar, Abi, deixe-me vagar pelo plano terreno no seu corpo. Poderíamos nos divertir tanto, você e eu. Eu poderia te ensinar truques e irritações além dos seus sonhos mais loucos.

Eu mentiria se dissesse que não tava tentada. Flashes de Abi Mae, rainha feiticeira demoníaca dançaram na minha mente. Eu vestia um vestido de seda esmeralda, cabelo vermelho como o sangue do inferno, explodindo todos que pensavam mal de mim, me entregando a todos os maus hábitos que jurei abandonar anos atrás sem consequências. Teria sido fácil ceder.

Mas isso não era eu, não era o que eu queria. Deus me ajude, eu tava feliz sendo uma aluna C com duas amigas ótimas.

“Não. Eu—desculpa te ofender. Foi burro e imprudente. Mas por favor, só nos deixa ir.” Supliquei pro demônio. O alce ficou em silêncio.

Por um momento.

Senti duas mãos carnudas agarrarem meus ombros, e meu corpo enrijeceu. Elas me seguraram no lugar enquanto o alce se aproximava, contorcendo tamanho e aparência. O pelo marrom virou carvão preto, lábios se abriram revelando fileiras de presas vorazes. Os sons de um cervo bramindo encheram o vazio ao nosso redor, um barulho irritado de uma criatura não acostumada a ouvir não.

O alce revelou sua forma completa, uma coisa divina e bestial, com três conjuntos de cascos doentios balançando acima de mim. A carne foi arrancada ao redor dos olhos flamejantes do alce, cartilagem antiga saindo do focinho perto do nariz esfolado. Duas presas podres saíam da boca, como adagas curvas. A criatura tava coberta de uma aura radiante de pura maldade; eu literalmente sentia o mal saindo dela em ondas. Sensação incrível, tudo considerado. A criatura ergueu sua cara feia, a língua de serpente saindo da boca e se contorcendo. O apêndice tinha mente própria, a ponta úmida esticando e acariciando minha bochecha. Recuei de nojo, meu rosto quente e pegajoso da coisa horrenda.

Meus ombros doíam do aperto de ferro do demônio. Ele me forçou de joelhos, a coisa enorme na minha frente gritando em triunfo. Ele pairava sobre mim como um monólito mutante. Olhei pras bolas de gude girando no crânio branqueado dele, e juro que vi o Inferno. Vi almas atormentadas marcadas e evisceradas, trocadas como moeda entre os monarcas do inferno. Vi bestas gigantes com chifres curvos, asas do tamanho de 747, mandíbulas rangendo todas querendo liberdade. Vi o Furfur, o que eu zoei, sentado num trono de pinheiros malhados. Ele esticou a mão pra mim e começou a puxar a própria fibra do meu ser, se infiltrando enquanto a possessão tomava conta.

Isso não é um pedido, criança.

Eu sentia a criatura tomando conta de cada célula, cada veia, cada átomo de mim. Eu tava virando o alce; Abi acorrentada no fundo da mente. Lutei o melhor que pude, mas tava hipnotizada por aquelas bolas girando; elas pulsavam com poder, uma aura vermelha horrenda brilhando com cada pulso. O alce tava comigo agora, enterrado na minha alma como um carrapato gordo. O ser na minha frente começou a se dissipar numa névoa fina, uma sombra viva enquanto tomava meu corpo. Ele começou a infiltrar cada poro que eu tinha, a névoa fétida me cercando como um cardume. Eu sentia ele se alimentando da minha própria alma.

Pensei que tava ferrada, condenada a vagar pela terra como marionete de um conde do inferno. Então de repente um estrondo trovejante veio. As bolas do demônio saltaram das órbitas, a névoa recuou rápido, se afastando de mim enquanto o quarto ao redor voltava a existir. A Barb tava no espelho quebrando ele em pedaços com a tábua. Pedaços de vidro quebrado choveram em nós, e ela logo partiu a tábua em duas com o joelho.

A conexão foi cortada; a boneca pensou rápido. Senti o que restava da minha essência começar a ferver e murchar. Vi isso afundar de volta pro inferno pra fermentar e apodrecer. O vaso se levantou, contra minha vontade, e ficou de pé com a amiga. Vimos a forma murcha se contorcer e gemer no chão. Os olhos lindos se liquefizeram dentro, e com um grito lamentoso tudo que restava da minha forma corpórea era uma mancha preta no chão delas, o cheiro de enxofre ainda grudado nas tábuas.

Eu tava com dificuldade de me recompor, ainda sentia algo lutando dentro por controle. Controlei esses sentimentos e voltei minha atenção pra Barb. O rosto dela era uma mistura horrível de medo e alívio, os olhos dela me olhando com preocupação. Sorri pra manter as aparências e puxei ela pra um abraço.

“Você conseguiu, Barb! Você mandou esse filho da puta de volta pro inferno.” Exclamei, provavelmente mais alto do que pretendia. Ela aceitou o abraço mas se afastou devagar.

“Você—tá bem? O que ele tava fazendo com você? Eu só vi essa, essa sombra pairando sobre você. Não conseguia tocar em nenhum de vocês, entrei em pânico e comecei a quebrar tudo.” Ela parecia estranhamente envergonhada da solução desajeitada, mas útil.

“Ele queria me possuir, acho, fazer sei lá o quê com meu corpo. Você parou ele bem na hora. Desculpa, foi tudo minha culpa. Você me perdoa?” Falei o mais doce que consegui. Tava exagerando, olhando agora ela com certeza viu através de mim. Mas ela acenou com a cabeça e me abraçou, dizendo algo sobre me pagar de volta limpando essa bagunça. A mulher de cabelo dourado se mexeu na cama, e fomos cuidar dela.

O demônio foi vencido, lição aprendida, todos viveram felizes para sempre e nunca mais foram incomodados por seres de outro mundo.

Agora, obviamente vocês, pessoas finas, não compram essa merda. Eu deixei bem óbvio o que realmente aconteceu, eu ficava pulando pra dentro. Minha culpa mesmo, entreguei o jogo cedo demais. Em minha defesa, fuçar nas memórias dela é uma tarefa horrenda. Quando lembrei da zombaria estridente e idiota dela, bem, acho que fiquei um pouco na defensiva.

Eu venci no momento que toquei naquela tábua, a vontade dela é forte mas a minha é mais. O espírito dela permanece, se debatendo e gritando no fundo do que já foi a mente dela. Talvez eu tenha sorte e a boneca ache que eu realmente sumi. Ela me dá olhares de canto, às vezes pego ela me olhando pelo canto do olho. Talvez eu tenha que lidar com ela.

Por enquanto tudo tá indo nadando. Fiquei um pouco preocupado de ter perdido o pé na alma dela quando o espelho quebrou, mas eu permaneço. Na verdade fiquei mais forte, como um tumor crescendo eu aumento em poder. Olhei pra mim no espelho hoje de manhã, através dos esmeraldas dela vi meus carvões flamejantes. Na testa dela dois chifrinhos pequenos começaram a brotar. A corrupção tá a todo vapor. Logo vou tomar esse mundo por tudo que vale.

Aí vamos ver quem tá rindo.
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