terça-feira, 7 de julho de 2026

Aluguei um apartamento por quase nada, mas veio com uma cláusula estranha...

Tive que me mudar para a Costa Oeste há mais ou menos um ano, por causa do trabalho. Eu já tinha ouvido falar sobre como a situação era horrível com o aluguel e tudo mais, mas não tinha dado muita importância até que realmente precisei começar a procurar apartamentos. Desculpem a linguagem, mas é ridículo pra caralho. Meu trabalho exige um diploma de pós-graduação e só o aluguel em alguns desses lugares é mais do que eu ganho em um mês inteiro, aí você ainda coloca na conta a comida e o resto, que também é caro pra um cacete, e a coisa toda é uma merda. Eu basicamente já tinha me resignado a uma dieta de arroz e feijão, talvez uma barra de chocolate por mês se estivesse me sentindo especialmente extravagante. Sou daqueles caras que conseguem dormir em aviões, então se o lugar que eu encontrasse não tivesse espaço suficiente para uma cama, eu ficava totalmente de boa só dormindo dentro de um armário ou algo assim. Enfim, a questão é que eu estava pronto para sofrer. E ainda assim, no meu momento de desespero, uma luz apareceu na escuridão. Uma luz na forma de um anúncio no Craigslist.

Eu não acreditei quando vi – um anúncio com um aluguel de apenas 200 dólares por mês. Pelas fotos, era claro que o lugar era muito mais luxuoso do que qualquer outra coisa no meu orçamento. Tinha banheiro, tinha cozinha, porra, tinha até uma sacada. Você vê uma coisa dessas, sua primeira suposição é que é golpe, mas quando você está numa situação como a minha, tem que aproveitar qualquer chance que puder. Eu contatei a pessoa que tinha postado o anúncio e disse que estava interessado em ver o lugar. Também joguei um pouco do meu histórico, expliquei que morava do outro lado do país mas estava na região procurando um apartamento por causa do trabalho, basicamente tentei passar uma imagem de levemente desesperado e também um pouco patético. Recebi uma resposta menos de um minuto depois perguntando se eu podia ir ao apartamento para uma visita. Naturalmente, eu disse "sim".

Tinha muita gente no prédio do apartamento pelo mesmo motivo que eu, então eles tinham todo um sistema montado com senhas numeradas, igual à porra do Detran. Tive que esperar cerca de uma hora, mas quando chegou minha vez, fui direcionado para dentro do apartamento, onde fui recebido por um homem grande que se apresentou como o proprietário. O lugar era exatamente igual às fotos e eu tive que confirmar algumas vezes se o preço do aluguel que tinha visto online era o aluguel real e verdadeiro que eu iria pagar. O proprietário parecia quase divertido com minha incredulidade. Havia, no entanto, uma única ressalva, explicou ele, uma razão pela qual era possível oferecer um apartamento tão bom por um preço tão absurdamente baixo. "Microlocação" foi o que ele chamou, um novo sistema que eles estavam testando. Basicamente, embora eu fosse o ocupante principal do apartamento, seria possível que outras pessoas pagassem para alugar partes menores do lugar por um curto período de tempo. Se alguém realmente precisasse tomar um banho, por exemplo, poderia pagar para usar o meu por 30 minutos. Com microinquilinos suficientes, o apartamento geraria dinheiro mais que suficiente para compensar o aluguel ridiculamente baixo. Basicamente, o negócio inteiro era mutuamente benéfico – o proprietário ganha uma porrada de dinheiro, e eu ganho um apartamento barato, desde que eu aguente algumas perturbações de vez em quando. O conceito todo parecia absurdo, mas eu não ia reclamar. Se o proprietário achava que um arranjo desses daria mais dinheiro a ele do que simplesmente alugar o lugar normalmente, bem, isso não era problema meu. Eu disse ao proprietário que a ideia dele era brilhante e que eu ficava mais do que feliz em compartilhar o apartamento com outras pessoas. Depois de registrar algumas das minhas informações pessoais e fazer algumas perguntas, o proprietário me disse que entraria em contato se eu fosse selecionado como inquilino principal.

Bem, passei o resto do dia vagando por aí, visitando outros apartamentos, todos eles exigindo pelo menos vinte vezes o dinheiro por um quarto do espaço que eu teria no lugar com o esquema de microlocação. Eu disse a mim mesmo que, considerando o grande número de candidatos, precisava encarar a realidade e aceitar que provavelmente ia ter que me contentar com um daqueles apartamentos de merda na Chinatown onde o chuveiro fica diretamente em cima do vaso sanitário. E ainda assim, na manhã seguinte, recebi a ligação que eu estava esperando. O proprietário, ao que parecia, tinha ficado particularmente impressionado quando me conheceu. No momento em que apertou minha mão, ele soube que eu seria o encaixe perfeito para o lugar, foi basicamente o que ele disse. E assim, eu tinha meu apartamento e um mês depois me mudei sem nenhum problema.

Os visitantes começaram a chegar por volta de uma semana depois que assinei o contrato. Eles apareciam para usar meu banheiro, tirar um cochilo na minha cama, malhar no aparelho elíptico que eu tinha trazido. No começo era estranho, mas os visitantes pareciam estar tirando alguma vantagem de estar no meu apartamento, então não foi tão difícil se acostumar. Mesmo assim, sempre me surpreendia voltar do trabalho e ser recebido por um estranho sentado no meu sofá. Às vezes eu tentava puxar conversa, mas tudo o que eu conseguia era um olhar estranho, como se talvez eles percebessem o quão constrangedor era todo o negócio tanto quanto eu.

Esses eram os normais. Conforme os meses passavam, o número de visitantes crescia, e para alguns deles era difícil descobrir o que, exatamente, eles estavam fazendo no meu apartamento. Pessoas apareciam enquanto eu estava malhando e ficavam ali paradas, me observando. Outros traziam cadernos de desenho e faziam retratos de mim enquanto eu jantava. Peguei um tentando roubar minhas meias. Outro entrou no banheiro e começou a bater no vidro enquanto eu tomava banho. Vocês entendem a ideia. Às vezes eu considerava levar essas coisas ao proprietário, mas ficava com medo de que isso me fizesse ser jogado na rua, então não levei. No fundo, raciocinei, nenhum desses visitantes estava fazendo nada diretamente prejudicial. Irritante, com certeza, estranho, sim, mas era só isso.

Certa noite, eu estava dormindo, como costumo fazer, quando acordei com uma sensação estranha nas minhas bochechas. Quando meus olhos se ajustaram à escuridão, percebi que alguém estava em pé sobre mim e esfregando meu rosto com as mãos. Sentei-me de repente e o visitante deu um gritinho, depois começou a recuar em direção à porta. Eu ainda estava grogue por ter acordado há menos de um minuto, além de estar completamente nu, então, quando consegui sair da cama para correr atrás dele, ele já tinha ido embora fazia tempo. Trancar ou não a porta não importava, já que os visitantes sempre tinham uma chave, então fiquei sentado na frente da porta até o nascer do sol, completamente incapaz de dormir.

Assim que saí do trabalho naquele dia, fui direto ao escritório do proprietário e expliquei o que tinha acontecido na noite anterior. O proprietário, para ser justo, ficou vermelho como um pimentão e começou a se desculpar profusamente comigo, dizendo que o que tinha acontecido foi totalmente fora dos limites e que nunca mais se repetiria. Ele até se ofereceu para me dar 50% de desconto no aluguel daquele mês, o que não era tão significativo considerando o pouco que eu já pagava, mas suponho que cem dólares são cem dólares.

Embora o proprietário tivesse parecido sincero, algo sobre todo o incidente tinha plantado uma espécie de semente na minha mente, um pensamento que eu não conseguia sacudir. Comprei uma daquelas câmeras de visão noturna na Amazon, instalei no canto do meu quarto e deixei ligada por alguns dias. Quando verifiquei as imagens, minhas suspeitas foram confirmadas – os visitantes também estavam lá à noite. Enquanto eu dormia, eles entravam no meu quarto e assistiam, nada mais, só ficavam ali parados, observando, às vezes por horas a fio.

Tentei ignorar, tentei dizer a mim mesmo que o que quer que essas pessoas estivessem fazendo era totalmente inofensivo, me lembrei de que eu só pagava duzentos dólares por mês de aluguel. Naquela noite, eu só fiquei deitado na cama, fingindo que dormia, mas na verdade estava ouvindo com muita atenção. Por volta das 2 da manhã eu ouvi, a porta destrancando enquanto o primeiro visitante da noite chegava. Ouvi-os se arrastando em minha direção e depois parar. Ouvi a porta de novo, mais arrastar de pés, cada vez mais deles se amontoando no meu quarto.

Em algum momento eu finalmente surtei, que se dane o aluguel. Pulei da cama e me abri caminho até a porta, bloqueando a saída. Quando acendi as luzes, fui recebido pelos olhares de uns dez estranhos. Nenhum deles se moveu ou fez qualquer som. Eu me dirigi à multidão com um sonoro "Mas que porra vocês estão fazendo aqui?", esperando parecer intimidador apesar de ter apenas 1,75 metro. Nenhum deles sequer hesitou.

Foi então que notei algo peculiar. O rosto de uma das visitantes, que parecia ser uma mulher no final dos 30 anos, estava caído nos olhos, muito mais do que o rosto de uma mulher daquela idade deveria estar. Era como se parte da pele dela simplesmente tivesse se soltado do crânio. Varri rapidamente os rostos dos outros, mas não consegui ver nada de errado neles. Era só aquela mulher em particular.

Sem pensar muito nas implicações legais, lancei-me em direção à mulher e agarrei-a pelas bochechas. Aproveitando a oportunidade, o resto dos visitantes passou por mim e correu para fora da porta, enquanto a que eu tinha agarrado começou a lutar e a gritar comigo numa língua que parecia italiano mas provavelmente não era. Embora eu não tenha tocado em muitas mulheres, imediatamente percebi que algo estava errado com aquela. A pele dela estava tão... solta, e enquanto ela tentava escapar do meu aperto masculino, eu conseguia sentir algo debaixo da pele dela, algo se contorcendo, algo desumano.

Eu puxei, então, e o rosto da mulher – não, a cabeça inteira dela – saiu, e percebi que o que eu estava segurando era uma daquelas máscaras de borracha como as usadas no filme Caçadores de Emoção, só que muito mais realista. Fiquei atordoado, chocado, como um cachorro que tentou sair da cama. E enquanto eu estava naquele estado, a mulher aproveitou a brecha para dar a volta em mim e escapar pela porta que o resto dos seus comparsas tinha usado. Ao fazer isso, consegui vislumbrar o que estava por baixo da máscara – uma grande massa de vermes onde a cabeça dela deveria estar, todos molhados, se contorcendo e vivos. Sem saber como proceder a partir dali, peguei uma faca na cozinha e passei o resto da noite sentado na frente da porta, mas ninguém mais apareceu depois disso.

Na manhã seguinte, bateram na porta e eu teria cagado nas calças na mesma hora se aquela batida não tivesse sido imediatamente seguida pela voz do proprietário anunciando sua presença. Vesti-me rapidamente e o deixei entrar, esperançoso de que ele me explicasse o que tinha acontecido algumas horas antes. Em vez disso, ele me entregou uma notificação de despejo. Fingi de bobo, perguntando qual era o problema e o que eu poderia fazer para resolvê-lo.

"Você... atacou um dos microinquilinos", foi a resposta dele.

Agora que meu rabo estava na guilhotina, me vi arrependido de tudo o que tinha feito na noite anterior. Eu disse ao proprietário que as pessoas que visitavam meu apartamento não eram realmente pessoas e que algo muito errado estava acontecendo. Achei que talvez isso virasse um pouco o jogo a meu favor, mas o proprietário apenas acenou com a cabeça e sorriu para mim. Percebendo que as coisas não estavam boas, caí de joelhos e disse ao proprietário que tudo bem, talvez elas não fossem humanas, mas tudo bem, agora eu sabia que não havia nada a temer, então por favor, só me deixe ficar neste apartamento.

O proprietário olhou para baixo, para mim, com um brilho estranho nos olhos, possivelmente cataratas. "Esse é o problema", disse ele, mais ou menos com essas palavras, "Você sabe demais. E agora que você sabe, você vai se comportar... diferente. De forma não natural. Não podemos ter isso."

Com isso, ele se virou e saiu gingando do meu apartamento. Enquanto a porta se fechava, ele gritou para mim: "É uma pena, você era muito popular."

Isso foi alguns dias atrás. Mais três e tenho que estar fora daqui. Não houve mais visitantes desde aquela noite. E ainda assim, quando olho pelas janelas, às vezes posso ver pessoas lá fora, encarando. Jurei que um deles estava usando uma camisa com o meu rosto estampado. Talvez eu esteja só imaginando coisas. De qualquer forma, ainda estou procurando um lugar novo para morar. Tive que vender o aparelho elíptico, já que posso acabar morando numa caixa embaixo de uma ponte em algum lugar por um tempo. Depois que eu for embora, acho que aquele anúncio vai ao ar de novo. Se você tiver sorte, talvez o encontre. Talvez você até se torne o próximo inquilino. E se for, finja de bobo, e lembre-se de que eles só estão lá por sua causa.

Coisas Estão Sumindo na Minha Casa

Moro numa pequena cabana enfiada no meio da mata, a mais ou menos uma hora do posto de gasolina mais próximo. Eu precisava do silêncio depois do meu colapso nervoso no trabalho, que me forçou a tomar antipsicóticos. Achei que o ar puro das árvores gigantes ajudaria a clarear minha mente perturbada.

Fiquei lá por quase um ano, vivendo de programação. O isolamento foi uma mudança bem-vinda depois da poluição e dos arranha-céus — aqueles monumentos da ganância. A cidade me sufocava, e eu precisava me sentir livre. Essa casa era praticamente minha única saída, já que meus pais tinham cortado minha mesada. Encontrei o lugar por um preço baixo e precisava de um teto.

Na maior parte do tempo, depois que comprei a casa, eu ficava em casa, limpava, lia e programava. De vez em quando ia ao posto abastecer e comprar comida. Toda a minha interação humana se resumia a dizer "obrigado" e "sim, por favor" para o adolescente de 17 anos, cheio de espinhas, que atendia atrás do balcão.

O isolamento me corroía como uma matilha de lobos famintos, desesperados pela próxima refeição. As mandíbulas da solidão dilaceravam minha saúde mental.

A infestação começou devagar, tão devagar que é difícil precisar o dia em que eles começaram a se aninhar debaixo de mim. As coisas começaram a sumir. Colheres, meias, qualquer coisa pequena e fácil de perder. Eu achava que estava só extraviando as coisas e deixava pra lá.

Um dia, eu estava sentado no sofá, a tela brilhante do computador iluminando o quarto escuro, com as cortinas fechadas como véus escondendo o mundo lá fora. Então, no meio da escuridão, com a mente focada no código e nos valores, eu ouvi.

O tamborilar de patinhas pequenas batendo no assoalho de madeira substituiu o clique das teclas do teclado. Meu coração afundou. Fiquei imóvel, como se Medusa tivesse me transformado em pedra. Minha mente disparou, cavalgando entre mil possibilidades sobre o que poderia estar fazendo aquele barulho.

O som rodeava o sofá, depois ia pra cozinha, e então o tilintar de talheres se misturava à correria das patinhas.

Reuni o pouco de coragem que me restava e corri até o interruptor. O barulho das patinhas aumentava a cada passo que eu dava em direção à luz. Parecia que centenas de patinhas fugiam correndo enquanto eu me aproximava. Quando a luz inundou a sala como uma onda, o barulho parou.

O tamborilar das patinhas cessou assim que acionei o interruptor, como se eu tivesse desligado a capacidade de movimento do que quer que estivesse ali no momento em que baní a escuridão com um simples clique. A gaveta dos talheres estava aberta. Facas, garfos e colheres tinham sumido dos seus lugares.

Me segurei no balcão da cozinha como se ele fosse a única coisa me mantendo no chão. Meu coração começou a bater como tambores de guerra, minha mente disparava, minhas mãos tremiam com a fúria de uma casa desabando.

Já tive todo tipo de praga e bicho tentando fazer da minha casa o lar deles, mas nunca tinha ouvido um som igual. E que tipo de praga rouba colheres? Minha respiração ficou curta e acelerada. Abri todas as cortinas, e a luz da tarde invadiu a sala. Me sentei no sofá de novo.

Eu não entendia o que estava acontecendo; minha mente estava sobrecarregada, em estado de choque. Nunca soube lidar com pressão, e aquilo era demais. Cambaleei pelo corredor, as pernas bambas, o andar estranho e duro. Os únicos sons que eu ouvia eram minha respiração ofegante e as batidas brutais do meu coração.

Agarrei a maçaneta do meu quarto com tanta força que parecia que ia cair se soltasse. Empurrei a porta e caí de cara na cama. Rios de lágrimas escorriam dos meus olhos pelas bochechas. Eu não aguentava mais.

Enrolei o cobertor em volta do corpo trêmulo, como se aquele pedaço acolchoado de lã e tecido fosse meu escudo de aço, capaz de me proteger dos dragões do mundo. Fiquei nesse estado de medo e pânico por horas, até os raios de sol se desvanecerem no horizonte e a escuridão começar a se espalhar como um nevoeiro.

Não sei que horas eram, mas me levantei da minha fortaleza de cobertores e travesseiros. Estava cansado e precisava tomar meu remédio. Atravessei a porta que tinha esquecido fechada e entrei no corredor. Minha mente estava vazia, anestesiada. Era meu jeito de lidar com o estresse.

Entrei na cozinha e peguei o frasco de comprimidos. Aquelas pequenas pedras da medicina moderna eram para manter minha mente calma e sã. Abri o frasco, e a única coisa que saiu foi ar. Es.Tava.Vazio.

Comecei a surtar. Eu tinha pegado um frasco novo só três dias antes. Gritei, berrei, pisei no chão como um bebê enfurecido. Eu sabia que tinha pegado no dia 23 de março, e olhei no celular para confirmar.

"24 de abril."

Fazia um mês que eu não tomava meus remédios. Um mês inteiro de ansiedade e depressão. Caí no chão, minhas pernas não obedeciam mais. Comecei a chorar como uma viúva que acabou de saber que o marido morreu na guerra. Chorei pra caralho, as lágrimas escorriam como água de torneira. Eu não entendia o que estava acontecendo. O tempo parecia distorcido: dias pareciam horas e horas pareciam dias.

Meu colapso foi interrompido de repente pelo som de patinhas. Vinha do corredor. Congelei. E num instante — fosse coragem ou curiosidade — apontei a lanterna do celular para o escuro do corredor.

A luz atravessou a escuridão como uma lança rasgando carne. Uma criaturinha humanóide estava parada, imóvel. O topete branco e sujo no alto da cabeça estava eriçado. Seus dedos pequenos, com três garras, seguravam uma das minhas colheres. Duas fendas marrons na vertical ocupavam o lugar onde deveriam estar os olhos. A cabeça redonda parecia grande demais para o pescoço magrelo e comprido. Um corpo em formato de pera dava lugar a braços e pernas finos, que terminavam em dois longos dedos nos pés. A pele pálida e esbranquiçada era coberta por pelos finos e brancos. Ela tinha uns trinta centímetros de altura.

As fendas marrons se abriram, revelando olhos azuis saltados, com pupilas de sapo. Eu e a coisa ficamos paralisados, os olhos dela fixos nos meus. Então, ela saiu correndo pelo corredor com uma velocidade impressionante, e eu fui atrás. Gritei, chorei, minha mente deixou o corpo assumir o controle. A colher de prata que ela segurava brilhava sob a lanterna do celular, e eu a usei como rastro para seguir a pequena ladra.

Ela entrou correndo no banheiro. Quando entrei atrás, vi a pequena ladra branca se enfiando num buraco atrás do vaso sanitário. Me joguei no chão; os azulejos frios aliviaram meu corpo suado, e minha mão disparou para dentro do buraco por onde a coisa tinha sumido. Enfiei a mão, tateei o túnel estreito e só senti terra e lama, com uma raiva imensa.

Meus dedos rasgaram a terra do túnel. Pedras afiadas e raízes fizeram cortes superficiais nas minhas mãos, mas eu não ligava. Aquela casa era minha, e aquelas coisas estavam ali dentro. Usei cada grama de força de vontade e uma loucura bruta que me movia como uma máquina, cavando igual um animal enjaulado. Suor e lágrimas se misturavam enquanto eu continuava aquele ataque.

Foi tudo um borrão, como um sonho que você só lembra pela metade. A última coisa de que me lembro é meu corpo exausto desabando no chão do banheiro; os azulejos frios foram a última sensação antes de meus olhos se fecharem e eu apagar.

Os raios de sol bateram no meu corpo pela janela do banheiro. Os raios quentes e acolhedores contrastavam com o piso gelado e implacável. Me levantei, trêmulo, ainda juntando os pedaços da memória da noite anterior. Olhei para minhas mãos sujas de terra e sangue, e as lembranças de dor e sofrimento inundaram minha mente despedaçada.

O buraco tinha sumido. Os azulejos estavam todos no lugar, sem sinal de que tivessem sido mexidos. Mas eu sabia que eles estavam lá. Aquelas coisas, eu sei que estão debaixo da minha casa. Eu precisava provar isso para mim mesmo. Entrei no pequeno galpão e peguei um machado. Sabia o que tinha que fazer. Comecei a arrancar o assoalho de madeira.

Minha estrutura magra normalmente não aguentaria balançar o machado por mais de alguns golpes, mas a adrenalina corria nas minhas veias. A madeira rachou e lascou quando a cabeça pesada de metal se chocou contra aquelas fibras que chamamos de madeira, partindo as tábuas. O estalo e o triturar da madeira, junto com minha respiração pesada, formavam uma sinfonia de sofrimento e destruição.

Túneis. Havia túneis embaixo do assoalho. Dava para ver pequenas câmaras onde colheres, meias e joias estavam amontoadas. Então, pequenos olhos azuis com pupilas de sapo se abriram. Doze pares. Todos me encarando.

A próxima coisa que senti foi o vento no rosto enquanto corria pela estrada. Sinceramente, não sei dizer por quanto tempo corri antes de alguém me notar e vir me socorrer. O homem me levou até a caminhonete dele e me trouxe de volta à cidade. Quando chegamos na casa dele, contei tudo o que tinha acontecido. Agora estou escrevendo isso para organizar meus pensamentos. Eu não sou louco. Eu não sou louco. Eu sei o que estou dizendo.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

O Pesadelo que Virou Realidade

Isso aconteceu comigo anteontem à noite. Me deu um puta susto do caralho. Primeiro veio atrás de mim no sonho, depois agarrou minha garganta na vida real. Foi há só umas duas noites e eu ainda tô todo arrepiado.

A noite começou normal pra cacete. Escovei os dentes, fui pegar meu gato laranja gordo pra caralho, joguei ele na cama e liguei aquele barulhinho de trovão que eu uso pra dormir. Não demorou muito pra eu apagar, com o Kream ronronando entre meus pés.

(Só pra deixar claro: eu sou cego. Mas nos meus sonhos eu enxergo. Sonho colorido pra porra, às vezes até consigo ler.)

Eu tava sentado na casa dos meus sonhos quando me toquei que tava consciente. Olhei tudo em volta com os olhos arregalados, tentando sugar cada detalhe que eu podia ver. Sonho lúcido é raro pra mim, mas quando rola é minha chance de enxergar o mundo.

Antes que eu decidisse o que fazer com aquele sonho, alguém bateu na porta da frente. A casa inteira ficou em silêncio absoluto. Meu estômago deu um nó do caralho, como se eu fosse vomitar.

Quando tô lúcido no sonho, normalmente não tenho medo do desconhecido. Afinal, é meu sonho, eu mando nessa porra, né?

Então não demorei pra ir até a porta ver qual era a do barulho. Girei a maçaneta com um sorriso de “oi, tudo bem?” no rosto… até o sorriso ser arrancado na marra.

O que empurrou a porta e entrou foi uma coisa horrível pra cacete, que me deu vontade de me esconder embaixo da cama. Senti minhas entranhas murcharem enquanto o corredor de madeira de carvalho foi engolido por uma escuridão que ia além do escuro. Era uma escuridão cheia de ódio puro.

O olhar daquela coisa me fez tremer dos pés à cabeça. Meus olhos foram puxados pro centro daquela falta de luz, onde mal dava pra distinguir a silhueta de algo. Foram os olhos pretos que me prenderam.

Aí eu senti: uma pressão de maldade pura invadindo minha cabeça, enchendo minha mente de pensamentos de derrota, de desistir, de me foder sozinho. Aquela coisa queria que eu me matasse com as próprias mãos.

Mas eu tava lúcido, então tentei mandar ela embora na força do pensamento. Não funcionou porra nenhuma. E aí eu vi o brilho branco de um sorriso cheio de dentes pontiagudos bem no meio daquela escuridão.

Eu sou uma pessoa que tem várias ferramentas na caixa. Se a chave de fenda não resolve, é hora do martelo. Sou espiritual pra caralho – muita gente me chama de farol. Já levei ataque antes na vida. No meu dedo tem um anel de prata com geometria sagrada.

Primeiro precisava tirar aqueles pensamentos de derrota da cabeça, então enchí a mente de lembranças de vitória, de amor, de tudo que é bom. Custou pra caralho, mas consegui limpar a cachola. A coisa já tinha quase entrado toda. O objetivo agora era barrar e expulsar aquela desgraça.

Levantei o punho contra o monstro sentindo como se estivesse empurrando uma cachoeira inteira. Lembrei de um padre num livro de vampiro que ergueu um crucifixo pro morto-vivo e o crucifixo quebrou. O vampiro falou: “O símbolo não vale porra nenhuma sem fé.” Não ia ser eu aquele otário. Joguei toda a minha fé no meu Deus dentro daquele anel. Aí senti uma vontade louca de falar o Nome.

Tentei falar e nada saía. Minha boca abria, mas a garganta tava travada. A pressão aumentava e a luz azul-branca que tinha se formado no meu punho começou a piscar. O Nome não aceitava ser calado. Quando eu pensei nele, ele quis sair sozinho. A primeira sílaba gaguejou duas vezes, mas finalmente saiu – e foi uma delícia.

O sorriso da coisa virou uma cara de ódio puro. O monstro gritou. Aí alguma coisa foi sugada de dentro de mim pro anel e saiu disparada como um raio. Pegou o invasor em cheio e jogou ele pra fora de casa. A porta bateu com força e eu acordei suado pra caralho, morrendo de vontade de mijar.

Primeira coisa que notei: o Kream tinha sumido da cama. Levantei bufando – a pior parte de sonho lúcido pra mim é acordar e voltar pro mundo onde sou cego de novo. Já decorei o caminho pro banheiro há anos. Lavei as mãos e voltei pro quarto.

Na porta do quarto eu travei, o coração na boca. A presença do sonho tava ali na minha frente, na vida real. Mano, se eu não tivesse acabado de mijar, tinha mijado nas calças ali mesmo. Já enfrentei espírito, já enfrentei pesadelo, mas os dois juntos nunca. Nada nunca tinha saído de um pesadelo pra me abordar acordado.

A única coisa que minha mente cansada conseguiu pensar foi repetir o que tinha feito no sonho. Fechei o punho e tentei levantar o braço. A força que me empurrou de volta foi muito maior que no sonho. Mas aí a coisa conseguiu me deixar puto da vida – eu não sou pessoa de manhã mesmo. Com um “vai tomar no cu, seu filho da puta” na cabeça, forcei o braço pra cima. A fé cresceu de novo, mas dessa vez senti uma mão apertando minha garganta.

Aperto do caralho. A primeira sílaba do Nome nem saiu. Joguei tudo que eu tinha pra falar aquele Nome que claramente incomodava pra cacete aquela coisa. Forcei ele pra fora dos lábios – primeiro baixinho, depois, quando a pressão afrouxou, gritei com força. E fui além.

Ordenei, em Nome dele, que aquela merda sumir dali, e botei toda minha intenção de ver aquela coisa morta ou banida na voz. Com a fé e o Nome do meu lado, eu virei o predador. A coisa fugiu correndo e eu senti ela saindo da minha casa de uma vez.

Voltei pra cama arrastrando os pés, morto de cansado, e apaguei de novo torcendo pra dormir em paz. E dormi.

No dia seguinte eu já tinha quase esquecido quando meu colega de casa perguntou sobre as marcas roxas no meu pescoço. Achou que eu tinha batido em alguma coisa. Como ele não é de acreditar nessas coisas, não quis contar.

Tô postando aqui porque fiquei curioso pra caralho. O que vocês acham que era aquela porra? Meu palpite é demônio, mas pode ter sido outra coisa. Nunca na vida um sonho meu foi invadido daquele jeito. Me dá um nojo do caralho saber que aquela coisa tava tentando entrar há não sei quanto tempo. Quanto tempo ela ficou ali só espiando antes de se mostrar? Não sei e nem quero saber.

Me contem o que vocês acham, rapaziada. E sério: nunca vão dormir sem proteção.

domingo, 5 de julho de 2026

O Fantasma na Montanha

Sempre achei os topos das montanhas intrigantes. Eram tão altos que nada, exceto os microrganismos mais resistentes, teria a menor chance de sobreviver ali — onde era só você e a montanha. Eu sabia que era perigoso, mas o perigo me atraía.

Treinei por um tempo em montanhas menores, aprendendo a lidar com o frio extremo e com os baixos níveis de oxigênio, tudo em preparação para a trilha definitiva, aos meus olhos.

O K2.

Ele, embora ligeiramente mais baixo que o mais famoso Everest, é muito mais perigoso. Suas paredões de rocha íngremes, avalanches e pedras tão afiadas quanto as melhores facas faziam dele uma das escaladas mais perigosas do mundo. Mas eu achei que estava pronto para isso. Escolhi o momento perfeito, quando ninguém mais estava programado para escalar a montanha — apenas pessoas descendo dela.

Então voei para lá, preparei meu equipamento, prestei homenagem aos muitos que tinham morrido na montanha e, depois de consultar rapidamente os moradores sobre a rota, comecei a subida. Minha segunda escalada sem a ajuda de um guia. Peguei a rota padrão do Esporão Abruzzi, que é o caminho "mais seguro" até o cume. Foi brutalmente difícil, como esperado, e quase tive um quadro grave de queimadura pelo frio, mas encontrei algumas pessoas muito legais que estavam descendo. Ouvi elas mencionarem que se sentiam como se estivessem sendo vigiadas, mesmo sem ninguém por perto.

Surpreendentemente, a montanha não aprontou nenhuma tempestade de neve nem avalanche durante toda a minha subida. Eu já estava começando a ficar um pouco tonto por causa do congelamento, mas isso não era importante, pois eu tinha que chegar ao topo.

Enquanto subia os metros finais até o pico, fiquei no segundo lugar mais próximo das estrelas em que eu podia estar. Pensei no quão longe tinha chegado e comecei a descida até o nível do chão. Foi quando os problemas começaram.

Uma tempestade de neve gigantesca começou de repente, e num lugar péssimo também. Eu estava no meio do caminho entre dois acampamentos, e fui forçado a ficar ao relento numa barraca pequena que deixava entrar um pouco de neve.

Estava ficando muito, muito frio ali. Eu não tinha como acender fogo, e senti o aperto da hipotermia se aproximando de mim. Foi então que vi algo que não esperava. Uma luz estava vindo na minha direção, subindo em minha direção. Era difícil de enxergar na nevasca, mas estava lá. Brilhava com uma luz dourada intensa, e só de vê-la eu já me sentia mais aquecido.

Conforme o portador da lamparina se aproximava da minha barraca, eu não conseguia ouvir seus passos na neve, principalmente por causa do rugido da nevasca. Vi a lamparina balançar para dentro da minha barraca, antes de ser deixada ali. Só consegui ver uma silhueta vaga do portador da lamparina, mas uma coisa que não pude deixar de notar foi a falta de roupas adequadas para o frio.

Com o tempo, ouvi uma voz. Era leve e feminina, mas atravessava a nevasca sem nenhuma dificuldade. "Ei, você talvez queira arrepiar caminho daqui, a neve lá em cima parece prestes a desabar. Eu vou te guiar, só preciso da minha lamparina de volta."

Devolvi a lamparina a ela rapidamente, e tanto eu quanto ela guardamos o abrigo com agilidade. Estranhamente, apesar de ela segurar a lamparina perto do corpo, eu não conseguia distinguir nada concreto sobre ela, além do cabelo comprido e do corpo um tanto magro. Ela enrolou a barraca e a entregou para eu carregar. Curiosamente, não senti nenhum calor onde ela tocou. Eu não ia questionar isso, porém, porque mesmo através da nevasca eu conseguia ver a neve prestes a desabar.

Segui a lamparina montanha abaixo, passando por vários acampamentos, até que a noite finalmente chegou. Exausto, pedi à minha salvadora que me ajudasse a montar o acampamento. Ela aceitou, e eu dormi a noite toda. Antes de dormir, ela deixou a lamparina ao meu lado, para me aquecer.

Quando acordei, ela havia sumido. Não havia nenhum sinal da existência dela — nem na neve, nem na barraca, em lugar nenhum. A única coisa que havia e que sugeria, ainda que minimamente, que ela era real era o lampião, que não tinha mais chama e, curiosamente, nem fuligem. Apenas um único osso pequeno, em perfeito estado, estava dentro dele.

Levei o lampião comigo para terminar a descida e perguntei ao pessoal lá embaixo se tinham visto uma mulher segurando uma lamparina subir a montanha. Como eu esperava, eles disseram que não. Decidi ficar com o lampião e o enviei para um amigo que era especialista em identificação de DNA e ossos.

Não havia nenhum vestígio de DNA além do meu, apesar de a garota ter carregado o objeto por um longo período. E o osso?

Bem, ele pertencia a uma das pessoas que tinham morrido na montanha. Ele não disse um nome, porém. Só me disse que o osso estava extraordinariamente frio, apesar de ter ficado num ambiente relativamente quente por um longo período. Ficou claro que o osso havia sido usado como combustível, de alguma forma. Ele me perguntou como diabos eu tinha conseguido aquele lampião, e eu contei sobre a garota estranha que tinha encontrado no topo da montanha. Ele disse que, com base no que eu tinha visto nela, ela já deveria estar morta antes mesmo de chegar ao primeiro acampamento.

Decidi continuar escalando montanhas depois disso, na esperança de reencontrar a garota e obter algumas respostas dela. Mesmo que fossem vagas, isso me satisfaria.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon