domingo, 2 de novembro de 2025

A escuridão dentro de você tá morrendo de fome e não vai ficar quieta por mais tempo

“Sexta-feira, último dia de trabalho, primeiro dia do fim de semana, que era pra ser aguardado com ansiedade, finalmente um tempo pra relaxar.

Engraçado, eu costumava sentir isso, eu costumava detestar as segundas-feiras. No domingo eu já começava a ficar pra baixo, sabendo que não ia poder jogar videogame e ficar de boa pelos próximos cinco dias. Eu amava jogar videogame; eles me deixavam escapar da minha vida de merda pelo menos por um momento. A única coisa boa das segundas era que a minha namorada estaria aqui. Ela volta pra cidade natal dela todo fim de semana, me deixando sozinho com os meus pensamentos. Antes, eu lidava com isso de boa, sem drama: dois dias comendo porcaria e jogando, com só uns pensamentos intrusivos de vez em quando.

Mas isso era antes.

Porque, desde que eu comecei a ouvir isso, ouvir essa voz, as coisas começaram a desabar. Meu nome é Paul e eu luto contra TOC.

Eu moro num apartamento em Varsóvia. É meio apertado, admito, mas pra um estudante como eu dá pro gasto. E, pra ser justo, o aluguel era bem baratinho pra um lugar bem no centro da cidade. Eu moro no quarto andar, apartamento 36. Meus vizinhos são meio esquisitos, não muito de conversa; pra ser honesto, acho que nunca troquei uma palavra com eles. Também não os vejo muito. Eles ficam quase sempre trancados dentro de casa; nossas interações se resumem a um “oi” quando nos esbarramos na saída pro mercado.

Como eu sou meio tímido e fico envergonhado de falar com os outros por causa da minha doença, antes eu até gostava disso. Mas hoje em dia eu queria ter alguém, qualquer um, pra conversar, pra me ajudar a sair dessa merda.

Mas vamos voltar pro começo.

Há mais ou menos um mês, eu comecei a perceber uma coisa estranha. Sabe, TOC já é uma merda danada de lidar: ficar checando a casa toda, ver se não tem nada escondido no escuro, se desliguei o fogão, ficar preocupado em morrer por qualquer coisinha que eu logo imagino ser uma doença ou lesão fatal. Mas isso não era o papo chato de sempre, aquele que eu já tinha me acostumado — se é que dá pra chamar de “acostumar” fumar um maço de cigarro por dia só pra tirar da cabeça.

No começo, eram barulhos estranhos à noite, que pareciam vir de dentro da minha cabeça. Não dei muita bola; quer dizer, meus remédios às vezes causam alucinações hipnagógicas. Mas não parou por aí, puta que pariu, não parou nem fudendo. A primeira vez que ouvi aqueles barulhos (só consigo descrever como um rosnado baixo, tipo um cachorro que fareja um estranho e quer assustar pra longe) deve ter sido no dia 11 de março. Lembro que me senti exausto no trabalho no dia seguinte, porque o barulho me acordava toda vez que eu começava a cair no sono.

Desde então, os barulhos foram ficando cada vez mais altos, toda noite.

Nos dias seguintes, as coisas ficaram relativamente normais, tirando o rosnado.

Mas aí, no dia 15, mudou tudo: eu ouvi ela chamar meu nome pela primeira vez. Parecia a minha própria voz, mas distorcida, estranha pra caralho. Minha voz soava como se eu nunca tivesse ouvido antes.

“Paul, você checou o fogão?”

Essas foram as palavras que ecoaram na minha cabeça. Eu já tinha pensamentos intrusivos sobre o fogão, então não era tão fora do comum. Se não fosse pelo fato de que não era só um pensamento — era uma pergunta. Uma porra de uma pergunta. Não era eu me perguntando se tinha checado, não; eu nunca falo comigo mesmo em terceira pessoa.

Na semana passada, fui pro trabalho pela última vez. Minha chefe disse que não podia mais me deixar perto dos clientes, que ia fazer mal pro negócio. Eu entendo; eu ia pedir pra sair mesmo. Não confio mais em mim perto de gente.

Há duas semanas, minha namorada terminou comigo; acho que não aguentou mais esses rituais que eu faço. Fiquei aliviado que ela não desceu pro porão antes de ir embora. Tenho certeza que teria chamado a polícia se soubesse.

“O monstro vai te pegar se você não sacrificar o gato do vizinho pra ele.”

Porra, que idiotice, né? Fazer coisas que você sabe que são inúteis e beiram a loucura, mas ainda assim precisar fazer só pra coçar aquela coceira irritante dentro da cabeça. Eu odeio TOC, odeio pra caralho.

Mas, bom, o que eu posso dizer? Não controlo nada, talvez meus remédios estejam fracos demais agora. Talvez eu precise aumentar a dose.

Uma semana depois que comecei a ouvir ela falar comigo, senti necessidade de fazer rituais novos, que nunca tinha feito antes. Pintar símbolos nas paredes com sangue (nem sempre o meu), pra afastar espíritos malignos. Repetir as palavras “Te invito Zabulus” mesmo sem saber o que significam. E muito, muito mais.

Ela disse que eu não precisava de remédio mais forte, mas de um padre. Achei que era só cansaço das minhas palhaçadas, mas agora não tenho mais certeza.

Quer dizer, eu sei que TOC anda de mãos dadas com síndrome do impostor e que eu posso estar achando que isso não é TOC e sim outra coisa, mesmo sendo só a doença, mas... tudo parece real demais.

Acho que a gente devia voltar pro presente.

Eu não consigo mais controlar meu corpo; minhas mãos fazem o que querem, minhas pernas andam quando eu não quero. Me sinto um espectador passivo da minha própria vida, só assistindo as coisas acontecerem. Ainda tenho um restinho de controle; não é constante. Vem em ondas: posso estar normal e, de repente, começar a enforcar um cliente aleatório.

Por isso não saio mais de casa. Só saio quando é estritamente necessário; peço delivery quando dá e, o resto do tempo, simplesmente não como.

Meus pais ajudam o quanto podem; mandam dinheiro pra compras. Meu senhorio disse que vai me dar um tempinho pra me reerguer antes de cobrar aluguel.

Mas eu acho que não consigo. A voz não cala a boca. Eu ouço o tempo todo; ela fala comigo, me diz coisas horríveis, coisas que eu nem imaginaria. Fico feliz que minha namorada tenha ido embora quando foi, antes de piorar, senão acho que ela não estaria viva hoje.

Vou tentar buscar ajuda; talvez ainda dê pra voltar a ser eu mesmo.

Terça-feira, 4 de dezembro de 2025.

Não consegui fazer nada, absolutamente nada. Sou prisioneiro da minha própria mente. Essa é a primeira vez em séculos que consigo estar no banco do motorista. No que minha vida virou? Deus, por favor, acaba com isso, se é que você tá aí.

Quarta-feira, 25.

Não aguento mais. Foi longe demais. Ela disse pro meu pai que eu sempre odiei as entranhas dele, que queria que ele morresse pra eu pelo menos herdar alguma coisa. Meus pais cortaram todos os laços comigo. Não tenho mais dinheiro, não tenho mais apoio. Esse pode ser o fim da linha pra mim.

Ela me contou o nome dela: Waoavuvz. Quer que eu sinta como é perder tudo. Se alimenta da minha dor. Disse que adora me ver lutando pra quebrar as correntes, pra impedir ela. Que sou divertido demais de brincar porque eu era tão cego à existência dela, tentando explicar tudo só como minha doença piorando. Não me resta nada; ela levou tudo. Ontem quase matei minha vizinha; ela só estava no lugar errado na hora errada. Ainda não sei como não fui preso. Minha casa é uma zona: cheiro de podre, mofo, lixo, ratos mortos. Me dá ânsia; se eu pudesse vomitar, vomitaria, mas não consigo — perdi o reflexo de vômito depois da quinta vez que comi ensopado de barata. Meus braços estão cobertos de cicatrizes, runas cortadas no corpo. Pareço uma bruxa de filme de terror.

Quero morrer, quero simplesmente deixar tudo isso pra trás. Detesto acordar, não porque estou seguro nos meus sonhos — não estou, ela me segue pra todo lugar. Odeio acordar porque sinto as garras dela cravadas nos meus ombros, na minha alma, me forçando a fazer coisas contra a minha vontade, me forçando a machucar pessoas.

1º de janeiro de 2026.

Silêncio. Silêncio ensurdecedor. A presença que era tão avassaladora sumiu, não tem mais sinal. Mas, junto com ela, também sumiu o único motivo de eu ainda estar vivo: a falta de oportunidade. Não me resta nada: amigos, família, dinheiro, emprego. Fui expulso da faculdade. Meu senhorio disse que tenho três dias pra desocupar ou vai chamar a polícia. Minha ex se casou; acho que superou bem rápido, sem surpresa — eu também ia querer esquecer alguém como eu o mais rápido possível se estivesse no lugar dela. Meu irmão se formou e eu não fui convidado pra festa de formatura. Pelo visto, meus pais não querem mais nada comigo.

Vou acabar com isso amanhã. Desculpa por te deixar ciente dele. Você não tá seguro; ele não vai se contentar comigo, vai vir atrás de você em seguida. Fique seguro e não ceda às exigências dele; essas compulsões são o motivo de ele ter conseguido tomar controle.

Adeus e, pros meus amigos e família, por favor, não me esqueçam — o eu que vocês conheciam, o eu de antes. Amo vocês. Paul.”

Oi, eu sou o Matt. Essas foram as últimas páginas do diário do meu irmão; encontrei no apartamento dele depois do enterro. Preciso da sua ajuda: ontem à noite comecei a ouvir barulhos.

Fui ensinado a prender a respiração quando passava de carro por um cemitério. Agora sei o porquê

Um hábito que aprendi quando era criança: prender a respiração se eu estivesse num carro que estivesse passando por um cemitério. Não lembro quem me contou, mas lembro que era algo que eu e meus amigos seguíamos religiosamente na infância, não importava quem estivesse dirigindo ou pra onde a gente ia. E se as janelas do carro estivessem abertas, era pânico geral pra enrolar todas pra cima antes que as rodas chegassem na entrada do cemitério. Naquela época eram as janelas de manivela manual. Aquelas que exigiam toda a força de criança magricela que eu tinha pra fechar. Mas nesses momentos elas sempre conseguiam fechar na hora H.

Não sei se algum de nós sabia por que a gente fazia isso. Eu com certeza não sabia.

Mesmo assim, é um hábito que mantenho até hoje, mesmo com o meu trigésimo aniversário batendo na porta. Não é que eu tivesse grandes planos pro meu aniversário, mas teria sido legal poder comemorar.

Lembro de tomar a decisão concreta quando tirei minha carteira de motorista: eu ia continuar jogando o jogo nem que fosse só por mim mesmo. Às vezes o hábito parece bobo de admitir, mas minha mentalidade sempre foi “melhor prevenir do que remediar”. Se tem mais gente no carro, eu sou discreto. Bem menos fanfarra do que quando eu era criança. Só uma inalada grande enquanto os pneus continuam deslizando na estrada. Eu subo as janelas casualmente, como se não fosse nada demais. Talvez como se eu tivesse visto um inseto que não queria que entrasse no carro.

Mas nem sempre dá pra prender a respiração a tempo, né. Eu nem sempre vejo o cemitério até estar bem no meio dele. Paro de respirar na hora que percebo por onde tô passando, mas aí já parece tarde demais. Até dois dias atrás, eu não sabia as consequências. Agora sei.

Foi porque me mudei pra uma cidade nova que tudo isso aconteceu. Eu não sabia que as estradas secundárias que levavam à loja de artesanato tinham tantos cemitérios. Era da minha natureza simplesmente evitar esse tipo de estrada, pegar a rodovia mesmo se tivesse mais trânsito.

Eu tava sozinho indo buscar material pra um dos meus muitos projetos de artesanato. Eu devia ter dado meia-volta quando vi que a estrada em que eu ia ficar por sete quilômetros não tinha nada além de curvas, espaço aberto e grama. Não tinha ninguém no carro pra questionar minhas ações. Eu devia ter sacado que, descendo aquela estrada sinuosa, ia ter vários cemitérios. Mas me disse pra não ser ridículo. Um jogo de criança não devia me impedir de pegar o caminho mais rápido pra algum lugar.

Meu outro erro foi deixar as janelas abertas. Nesse ponto já era um ato de desafio. Eu sabia que ia ter cemitérios, mas me recusei a reconhecer antes que eles aparecessem. Claro que hoje em dia as janelas sobem bem mais rápido com botão elétrico, mas aparentemente não rápido o suficiente.

Eu nem percebi que algo estava errado até o dia seguinte. Acordei grogue, esfregando o sono dos olhos enquanto cambaleava pelo corredor até o banheiro. Meus olhos estavam saltados e injetados, como se algo tivesse pressionado por dentro do meu crânio, tentando sair pelos olhos. Um filete fino de sangue seco de algum momento da noite tinha grudado no meu pescoço. Segui a trilha de volta até a orelha direita, como se algo tivesse tentado forçar saída por ali. Meu nariz estava inchado, e a pele do meu rosto queimava ao toque, como se estivesse lutando contra algum tipo de infecção.

Mas antes de ir mais longe, preciso voltar ao ponto central. O evento em si. Então, como eu disse, eu tava dirigindo numa estrada desconhecida com aquela coceira familiar subindo pelas costas, aquela que me dizia que ia ter um cemitério em cada curva. O motivo de eu não ter visto logo de cara foi porque meu celular me distraiu. E antes que você torça o nariz pra mim, eu sei que não devia olhar pro celular dirigindo, mas eu tava esperando uma atualização importante do trabalho. O irônico é que nem era a atualização que eu esperava.

Era minha irmã em crise. Ela vive em crise, mas normalmente as crises dela não me afetam tanto assim. Normalmente não se transferem como uma maldição esperando engravidar a próxima pessoa. Cliquei na mensagem e vi uma parede de texto azul com um monte de pontos de exclamação e carinhas bravas. Foi por isso que não percebi que meu carrinho vermelho tinha cruzado o plano. Eu nem tava lendo a mensagem. Fechei o app de mensagens verdes quase na hora. Só queria ter certeza de que não era algo grave, algo que realmente precisasse ser resolvido naquele momento.

É difícil descrever pra vocês o surto de medo que desceu pela minha espinha quando voltei a olhar pra estrada. Claro, parei de respirar na hora. Sim, apertei os quatro botões das janelas assim que meus dedos soltaram o volante. Acabou em meros segundos. Num momento eu tava no meio de passar por um cemitério e no seguinte o momento passou.

O sol entrava queimando no carro e começou a cozinhar tudo lá dentro agora que não tinha como escapar. Mesmo com o momento passado, eu não queria baixar as janelas de novo, como se eu pudesse ganhar favor dos fantasmas se continuasse seguindo as regras. Mas óbvio que eu tinha que respirar em algum momento e soltar o ar logo depois.

Continuei respirando e cozinhando dentro do carro, o ar-condicionado temporariamente quebrado. Eu tinha todas as ferramentas pra trocar o motor do ventilador, a peça que tinha pifado na semana passada, mas como era um dia bonito achei que podia esperar. Então essa era a razão do suor escorrendo pelas costas, pura preguiça.

Mas eu sabia que não podia ser descuidado e baixar as janelas de novo. Fiz a curva devagar e me deparei com outro cemitério. Esse eu consegui me preparar; dava pra ver um pouco adiante. Consegui dar aquela inalada profunda que precisava antes de passar por ele. Nem me importei de estar assando como frango de padaria porque eu tava seguro. As janelas fechadas e a falta de respiração me mantinham seguro.

Você acharia que eu tô mentindo se eu dissesse que encontrei outro cemitério a uns dois quilômetros e meio na mesma estrada? Juro que foi o último, mas eu não inspirei ar fresco, sem circular, até estacionar e escancarar a porta quinze minutos depois. Aquelas respiradas foram algumas das mais gostosas que já dei; o ar outonal bateu nas minhas narinas de um jeito tão fresco, tão limpo. Talvez esse tenha sido meu erro — fui ganancioso demais com o ar do outono.

A mensagem que arruinou minha vida? Sei que alguns de vocês devem estar curiosos. Era porque o namorado atual dela, o cara com quem ela tinha saído duas vezes, não gostava de gatos. Dá pra chamar alguém de namorado depois de dois encontros? Ela morava sozinha com dois gatos, Canela e Açúcar, então claramente esse relacionamento nunca ia dar certo. Ela tava indignada que alguém pudesse odiar gatos, especialmente o cara dos sonhos dela. Bom, acho que ele não era mais o cara dos sonhos.

Quando paguei na loja de artesanato, eu já tinha quase esquecido da aventura no caminho até lá. Como eu disse, não percebi as consequências. Até ontem de manhã era só um joguinho bobo de criança. E sim, respondi a mensagem da minha irmã com todas as platitudes certas tipo “como ele ousa” e “você merece coisa melhor”. Quando penso nisso agora, eu peguei um caminho diferente pra voltar, se foi consciente ou subconsciente, aí é discussão. Não tinha cemitério nenhum no caminho de volta, pelo menos nenhum que eu tenha visto.

Isso foi há dois dias, quase quarenta e oito horas exatas. A maior parte do meu cabelo caiu. Tô digitando com um dedo só, o único que ainda tem unha. Pelo menos é o indicador. Pequenos milagres e tal. O resto caiu ontem à noite. Encontrei eles grudados no lençol. Unhas dos pés também. Sumiram.

Tentei ditado por voz no computador, só pra descobrir que não tenho mais voz. Só saía um som de engasgo estrangulado. Acho que faz sentido. Quando olhei no espelho, meu peito tava afundado — o pescoço enrugado, todas as dobras da traqueia e do esôfago visíveis sob a camada fina de pele.

Tô começando a deixar manchas de sangue no teclado. Acho que essa unha não vai durar muito mais. Acho que devia ir logo ao ponto. Acho que já passou do ponto de pedir ajuda. Então isso virou um daqueles posts de alerta. Sabe, aqueles que te mandam tomar cuidado, sempre olhar atrás da esquina, acender a luz antes de dormir — nesse caso, sempre checar se tem cemitério. Nunca tirar os olhos da estrada.

Tem tanta pergunta que vai ficar sem resposta. E o ar-condicionado ou o aquecedor? Os fantasmas entram se você ligar isso? Foi a janela aberta ou as janelas nem importam? É todo cemitério? Todo fantasma? Tem que estar dirigindo? Não tenho tempo pra responder nenhuma dessas. Já tô infectado, possuído, assombrado, ou seja lá o que for isso.

Vocês podem testar todas essas teorias se quiserem. Não sei se recomendo. Outro dente caiu da minha boca agora há pouco. Acho que só tenho dois sobrando. Tá difícil manter a mandíbula fechada; tô tentando impedir que o sangue escorra. Não tá funcionando. O teclado tá escorregadio agora.

Minhas respirações estão mais rasas. É como se eu não conseguisse recuperar o fôlego. Meio irônico, como se os fantasmas ainda estivessem roubando o ar dos meus pulmões. Como se eu ainda estivesse passando de carro por aquele cemitério.

Acho que só tenho mais alguns momentos. O suficiente pra postar isso. Fico imaginando o que minha família vai pensar quando eu não atender as ligações. Fico imaginando quanto tempo vai levar pra eles encontrarem meu corpo. Fico imaginando se vou ter um corpo pra deixar pra trás.

sábado, 1 de novembro de 2025

Os Faróis

Girei a chave até o tambor encaixar com um estalo bem audível, depois puxei a maçaneta por via das dúvidas pra garantir que as portas estavam trancadas antes de virar e caminhar até o meu carro solitário no estacionamento mal iluminado. Tinha sido um dia daqueles, e eu tava mais do que pronto pra voltar pro meu trailer e apagar.

Entrei no meu velho Caprice Classic 92, o calcanhar encontrando fácil o buraco no assoalho embaixo do acelerador no escuro, e dei partida. A rodovia tava escura e vazia enquanto eu virava pro norte rumo de casa, longe das cidades maiores e mais agitadas, mergulhando na imensidão rural que eu chamava de lar. Liguei o rádio capenga com uma caixa só funcionando e deixei a música pop chiada encher o carro enquanto dirigia. A escuridão líquida escorria lá fora, quieta, só interrompida de vez em quando pela luz de um poste em estacionamento de comércio vazio ou outdoor.

Eu acabava de descer do viaduto quando avistei os faróis ao longe.

Em qualquer outra noite, esses faróis teriam passado batido. Eu costumo entrar num transe dirigindo pra casa depois do turno noturno no varejo e não reparar em quase nada, mas esses faróis chamaram atenção. Eram fracos, quase laranja, e tinha algo neles que gritava antigo e deslocado quando meus olhos deslizaram pelo brilho distante no retrovisor. Com todos os LEDs cegantes na estrada hoje em dia, aquelas bolas alaranjadas pareciam até sem graça em comparação.

Quando parei no acostamento pra entrar na minha estradinha, dei outra olhada no retrovisor e vi que ainda tavam lá, mas na mesma distância de quando notei pela primeira vez.

“Alguém aí curtindo um rolê tranquilo ou tá bêbado e não quer chamar atenção”, pensei com ironia enquanto entrava na garagem e seguia pro trailer.

Eu tava redondamente enganado.

O dia seguinte terminou igual ao anterior: tranquei tudo em silêncio, dei boa-noite pro meu funcionário de meio período e cada um foi pro seu lado. Ela já tinha sumido de vista quando eu saí pra rodovia e peguei o caminho de casa. Eu tava cantando baixinho junto com o rádio quando vi aqueles faróis de novo no retrovisor.

“Que porra é essa?”, pensei sozinho. Morando a uns 30 km do trabalho, a chance de ver o mesmo carro na mesma hora, de noite, duas vezes seguidas era… esquisita. A maioria do pessoal da região não fica na rua até tarde em dia de semana, e a rodovia costuma ser um deserto completo a essa hora. Então, achei bem estranho que o mesmo veículo tivesse, potencialmente, caído atrás de mim.

Os faróis foram se aproximando enquanto eu descia do viaduto, o brilho redondo e antiquado ficando mais nítido com a proximidade.

“Provavelmente algum aposentado dando uma volta no carrão antigo dele”, pensei sorrindo. A imagem de alguém da idade do meu avô rodando num carro que deve ter usado pra ir ao baile de formatura do colégio, com o vento bagunçando o cabelo na rodovia aberta e silenciosa, aqueceu meu coração.

“Força na peruca pra eles”, pensei.

Os dias seguintes foram mais do mesmo. Trancava tudo, pegava o caminho de casa e, toda vez que passava pro outro lado do viaduto, lá tavam os faróis. Parecia que se aproximavam um pouquinho mais a cada noite.

Comecei a ter muita dificuldade pra dormir. Meus sonhos ficavam cheios do cheiro de asfalto quente, cascalho rangendo embaixo de pneus girando e bolas alaranjadas queimando a escuridão. Acordava encharcado de suor, sentindo como se tivesse corrido uma maratona dormindo. Nunca na vida desejei tanto descansar, mas seguia em frente. As contas não iam se pagar sozinhas, afinal, e amanhã era o último turno antes de três dias abençoados de folga.

“É só aguentar amanhã”, eu me dizia. “Você consegue.”

Os faróis apareceram de novo no caminho de volta, mas hoje era diferente.

Hoje, quando parei no acostamento pra entrar na minha estrada, eu vi o motorista.

Era um homem magrelo com um chapéu escuro que mantinha o rosto na sombra. Ele ergueu a mão e tocou a aba do chapéu. Peguei um vislumbre do sorriso pálido e fino dele enquanto passava. Um arrepio desceu pela minha espinha quando vi as lanternas traseiras sumindo na rodovia pelo retrovisor enquanto eu entrava na minha estradinha.

Não sei exatamente o que me deixou tão inquieto com essa novidade, mas parecia que o cara me conhecia. Não conseguia lembrar dele, mas era como se a gente já tivesse se encontrado antes, tipo um sussurro fraco lá no fundo de uma igreja vazia que eu não conseguia identificar.

Virei e mexi a noite toda e acordei sentindo como se nem tivesse deitado. Me arrastei pro trabalho e fiz o possível pra sobreviver a doze horas longas, longas de varejo. Quando tranquei tudo e cheguei no carro, parecia que tava sonâmbulo.

Tava tão fora de órbita que quase cheguei na minha estrada antes de notar os faróis se aproximando do meu lado.

Meu corpo inteiro deu um salto quando reconheci o motorista e o chapéu escuro de aba larga. Os LEDs fortes que vinham na direção contrária iluminaram a curva triste do sorriso dele no momento em que o caminhão de dezoito rodas esmagou meu velho Chevy.

Meus faróis cederam a metal rangendo, retorcido e asfalto quente soltando vapor enquanto o homem do chapéu escuro no carro escuro seguia pela rodovia, as lanternas traseiras um sussurro vermelho na noite quieta enquanto ele deslizava de volta pra escuridão.

Não tem luz lá dentro...

Quando eu tinha treze anos, saí pra pedir doces ou travessuras com meus dois últimos melhores amigos, Stilly e Paul. A gente não tinha ido no ano anterior porque, quando tínhamos onze, nosso outro melhor amigo, Mark, sumiu. 

Tinha rolado uma briga naquela noite — a gente devia voltar pra casa até as nove, e o Mark queria continuar batendo de porta em porta pra pegar mais doce. O Stilly teria topado qualquer coisa, mas eu e o Paul éramos certinhos. A gente quase nunca se metia em encrenca, e isso incluía ficar na rua depois do horário. Eu lembro de pedir pro Mark voltar com a gente, mas ele e o Paul tinham ficado se xingando, e ele ainda tava puto. Então ele mostrou o dedo do meio pra gente, fez um barulhinho de galinha e foi embora na direção oposta do nosso bairro. 

Ninguém nunca mais viu ele depois disso.

Procuraram por meses, claro. Polícia investigou, os pais dele colaram cartazes e apareceram em programas de TV locais, essas coisas. E eu fui interrogado várias vezes porque era o único que tinha recebido qualquer mensagem dele. Era no meu celular — meus pais tinham acabado de me dar dois meses antes, quando eu comecei o sexto ano, e o Mark era o único amigo meu que também tinha um. Naquele Halloween, eu esperei até as dez pra mandar uma mensagem pra ter certeza que ele tinha chegado em casa. Foi quando eu peguei o celular que ele acendeu com uma mensagem curta do número dele.

Encontrei uma Casa nova. 

Eu não fazia ideia do que ele tava falando, e mandei mensagem de volta perguntando. Nada. Perguntei se ele tinha chegado em casa, mas nunca mais veio nada. Só no dia seguinte de manhã que eu soube que algo tava realmente errado e contei pros meus pais sobre a mensagem.

Desde então... bom, tudo parecia vazio. Nossos pais não queriam que a gente saísse no Halloween do ano seguinte, e a gente não brigou muito pra ir. Até esse ano, foi meio sem graça. Minha mãe praticamente me empurrou porta afora, talvez achando que sair com os outros amigos de novo, mesmo no Halloween, ia me ajudar a superar tudo. No fim das contas, eu só andava quieto enquanto o Paul e o Stilly discutiam sobre algum seriado que tavam assistindo.

A gente parou em algumas casas e pegou doce, sim, mas sem combinar nada, nosso caminho evitou alguns dos nossos points antigos e entrou em bairros que eu conhecia, mas nunca tinha ido pedir doce. Olhando pro céu, eu franzi a testa. Tá escurecendo, e eu sabia que meus pais queriam a gente de volta logo.

“Então, vocês querem começar a voltar pelo caminho que a gente...”

“Olha isso aí. É novo.”

Eu olhei pro Paul e depois pro que ele tava encarando. Era uma casa grande e velha, agachada no canto mais distante do bairro que a gente tava saqueando sem ânimo. Eu levantei a sobrancelha pra ele.

“Essa casa parece velha pra caralho.”

O Paul deu de ombros pra mim. “Pode ser, mas eu te juro que ela não tava aqui da última vez que passei por aqui. Nunca teve.” 

Eu olhei pro Stilly, que copiou o dar de ombros do Paul. “Tipo, eu também não lembro dela, Gillian. A namorada do meu irmão mora na rua de baixo, e eu nunca lembro de algo assim aqui.”

Franzindo a testa pra ele, eu continuei andando mais perto da casa, estudando o máximo que dava na penumbra que crescia. Eu também não lembrava dela, mas e daí? A casa não tinha brotado do nada como erva daninha. Parecia que tava ali há anos. 

“Talvez alguém tenha mudado ela de lugar? Tipo, eu tive um tio que mudou a casa dele pra outro condado quando ficou puto com meus avós. Tipo, mandou um caminhão mudar aquela porra toda.”

Eu assenti distraidamente enquanto continuava encarando a casa. “Tipo, talvez. Mas tá tudo crescido. Por que alguém mudaria ela pra cá há pouco tempo e depois não cuidaria do quintal nem nada? Parece tão...” Eu parei quando a porta da frente se abriu e alguém saiu.

Era o Mark.

“Jesus... É você mesmo?” O Paul já tava correndo na direção dele, e o Stilly não ficava muito atrás. Eu também tava andando pra frente, mas mais devagar. Parecia que eu tava me mexendo debaixo d’água, cada passo lento, flutuante e estranho, com um zumbido e pressão na cabeça e nos ouvidos. Eu quase cheguei onde o Paul e o Stilly tavam abraçando o outro garoto freneticamente antes de perceber que tava chorando. 

“... que porra, cara?”

“... te sequestraram?” 

“... você precisa de um médico do caralho ou algo assim? A gente pode chamar a polícia e...”

Eu estiquei a mão pra tocar nele, mas algo me fez hesitar. Ele tava sorrindo pra eles, até rindo um pouco, mas não respondia nada. E os olhos dele... quando encontraram os meus, pareciam estranhos.

Baixando a mão, eu dei um passo pra trás. “Onde você tava?”

O rosto dele ficou sério e ele me deu um aceno pequeno. Virando-se, ele gesticulou pra porta entreaberta que tinha acabado de sair. “Eu tava com ele.” 

Nas sombras além da porta, eu via uma forma se mexendo. Podia ser truque da escuridão, mas parecia um pedaço de preto se movendo contra o preto, tipo riscos animados apagando um pedaço da realidade. Meu cérebro torceu só de olhar, um medo febril subindo da barriga, tentando escapar num grito.

E aí o terror sumiu. Pelo canto do olho, eu notei vagamente o Paul e o Stilly fazendo o mesmo, ficando tensos enquanto começavam a recuar ou correr, só pra parar de repente e relaxar de novo. Uma parte de mim sabia que era errado, que tudo isso era errado, mas eu não conseguia agarrar o sentimento ou a ideia. Era tudo muito macio e escorregadio. E aí o Mark tava falando de novo.

“O nome dele é Sr. Krinkle. Essa é a Casa dele.”

Eu via as palavras na minha cabeça enquanto ele falava. Krinkle como papel amassado, mas com K. Casa com maiúscula, igual na mensagem dele dois anos antes. Tinha um peso quente nelas enquanto elas entravam no meu cérebro.

“Ele convida vocês pra entrar também.”

Algo em mim congelou. Eu ainda não tava com medo, mas a sensação de que algo tava muito errado cresceu mais forte enquanto o resto da minha capacidade de correr ou resistir fisicamente escorria. Provavelmente eu parecia calmo por fora enquanto via o Mark pegar a mão do Stilly e levar ele pra dentro da casa, fechando a porta atrás dele. Mas por dentro eu tava gritando.

Mesmo depois que eles sumiram, eu e o Paul não nos mexemos de verdade. Não falamos. Só ficamos ali como lápides nas sombras que aprofundavam, esperando... bom, esperando a nossa vez.

Meus pensamentos patinavam no meu crânio, terror correndo junto com meus instintos pra entender e sobreviver. Era mesmo o Mark? Parecia com ele e... sim, eu achava que era ele, embora ele tivesse mudado. Parecia maior e mais velho, igual o resto de nós, e tava vestindo roupas que eu nunca tinha visto ele usar. Não era fantasia, talvez, só um moletom escuro? Eu não tinha certeza, tudo tinha acontecido rápido demais.

A porta se abriu e o Stilly saiu, seguido pelo Mark. Num relance, pareciam os mesmos de quando entraram, mas não era verdade. O rosto do Stilly, os olhos dele, não eram mais macios, doces e inseguros. E quando ele sorriu, tinha uma dureza que não existia antes. 

“É foda, gente. Não se preocupem, não é tão esquisito quanto parece.” O Stilly já tava esticando a mão pra pegar o Paul quando o Mark parou ele.

“Ainda não. É cedo demais pra você. Eu faço. Só assiste.”

Eu tentei gritar, pra avisar o Paul ou implorar pro Mark, mas nada saía. O Mark pareceu sentir e olhou na minha direção antes de baixar os olhos e pegar o braço do Paul. Sem mais uma palavra, ele levou ele pra dentro, pro negócio preto que esperava lá.

O Stilly ficou do lado de fora, mas não fez mais aquela coisa nervosa de falar demais. Não disse uma palavra. Só me encarou com aquele sorriso filho da puta.

Foi a mesma coisa quando o Paul voltou. Eu era a única que sobrou, e quando o Mark atravessou o quintal até mim, eu senti minha garganta apertar enquanto tentava falar de novo. Já tava completamente escuro, e o rosto dele só dava pra ver vagamente na luz de um poste distante.

“Vem, Gill. Eu te levo lá dentro e mostro. Você precisa ver. É uma coisa do caralho.” Ele deu aquele mesmo sorriso duro que os outros usavam enquanto pegava minha mão.

Algo naquele momento, quando ele pegou minha mão, eu senti o controle sobre mim afrouxar só um pouquinho — o suficiente pra eu soltar uma pergunta sem sentido que eu não esperava.

“Por que tá tão escuro lá dentro?”

Parecia uma pergunta idiota e vaga que podia significar mil coisas, mas de alguma forma eu sabia o que queria dizer e o Mark também. A expressão dele já tinha mudado um pouco quando tocou meus dedos, e agora o rosto dele desabou numa tristeza tão vazia que eu quis abraçar ele apesar do medo.

Com o que pareceu um esforço enorme, ele encontrou meus olhos. “Porque... porque não tem luz lá dentro, Gill.” O Mark olhou de volta pra porta da casa, aberta e esperando como uma boca faminta, e depois pra mim. Ele apertou meus dedos com força. “Você precisa correr agora. Precisa correr e nunca mais voltar aqui. E se um dia você vir essa casa de novo, qualquer hora, qualquer lugar, corre pro outro lado.” 

Ele me soltou e deu um passo pra trás. Eu fui pedir pra ele vir junto, pra nós quatro escaparmos juntos, mas ele já tava balançando a cabeça e articulando “corre” sem som. O Paul e o Stilly já tavam começando a notar que algo tava errado, e ele virou pra parar eles. Eu percebi que tava livre do que quer que me segurava, meu corpo já recuando enquanto o Mark olhava pra trás uma última vez. Ele não disse nada, mas eu ainda senti na minha cabeça.

Corre. 

Então eu corri. Corri pra casa, e quando cheguei, passei meia hora histérica tentando convencer meus pais de uma versão das coisas que eles entenderiam e acreditariam. Eu já sabia que nada ia ajudar, mas ainda tinha que tentar. E pra honra deles, em uma hora já tinha polícia e pais lá no fim da rua, procurando nossos três garotos. Diferentes pessoas me interrogaram durante a noite, e quando o sol tava nascendo, meus pais me levaram pra lá de novo. 

Tinha pais chorando, encarando com raiva, frenéticos na dor esperançosa e brava. Tinha policiais e voluntários, todos com a mesma cara de cansaço e frustração. E aí tinha minha mãe e meu pai, que nunca mais me trataram exatamente igual depois disso.

Não que eu culpe eles de verdade. 

Porque o lugar onde a casa tinha estado tava vazio — nenhum prédio ou garotos. Só um lote vazio e crescido, sem sinal de ninguém além de umas garrafas de cerveja quebradas na beira da grama. Claro que tudo tinha sumido. Eu sabia que ia ser assim. Ainda assim, eu tinha que tentar, né? E eu tive que omitir as partes mais importantes pra eles acreditarem em qualquer coisa. 

Naquele momento, com eles fazendo tantas perguntas, querendo me acusar de algo mas sem ousar de verdade, eu quis gritar a verdade pra eles, por mais terrível e impossível que fosse. Mas eu sabia que não ia ajudar ninguém e ia piorar tudo pra mim.

Então eu fiquei quieta. E quando fiz dezoito, me mudei e fui pra bem longe. Tenho trinta e três agora, e vi a casa mais cinco vezes.

Toda vez eu faço a mesma coisa.

Paro antes de chegar perto demais. Levanto a mão num aceno pequeno — saudação e despedida tudo junto.

E aí eu corro.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon