segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Depois que Minha Namorada Morreu, Algo Mais Voltou

Ainda não me acostumei a morar sozinho, embora já tenham se passado cinco meses desde o acidente. Minha namorada morreu porque um motorista bêbado bateu de frente com o carro dela. Naquele dia, algo dentro de mim se quebrou de vez. Sinto um vazio, como se tudo o que me fazia ser quem eu sou tivesse sido arrancado de mim num único instante.

O apartamento está um caos. A pia está entupida de louça suja, sacos de fast-food espalhados por todos os lados, as prateleiras cobertas por uma grossa camada de poeira. Não abro as janelas há meses, mal tenho comido alguma coisa e acabei ficando viciado em álcool. Sei que não é a melhor forma de lidar com esse vazio que carrego, mas é o que tem funcionado. As roupas dela ainda estão penduradas no nosso armário, os livros dela perfeitamente alinhados na estante, e eu não tirei nenhuma das nossas fotos que estão espalhadas pela casa. Há cerca de um mês que não abro as janelas. Digo a mim mesmo que é só para abafar o barulho das ruas movimentadas da cidade, mas no fundo eu sei que não é por isso. O apartamento parece me observar, como se fosse uma criatura viva constantemente respirando na minha nuca, me estudando. Depois que fechei as janelas, coisas estranhas começaram a acontecer aqui dentro.

O primeiro evento estranho aconteceu no dia em que comecei a mantê-las fechadas. Eu estava sentado no sofá, assistindo esporte sem prestar atenção nenhuma, quando senti o cheiro do perfume dela vindo do nosso quarto. Levantei-me e fui verificar. O frasco de perfume, que ficava no banheiro, estava agora no quarto. Não dei muita importância na hora. Pensei que talvez eu mesmo tivesse mexido nele sem perceber, borrifado um pouco no caminho e esquecido. Mas senti o peso no peito aumentar ainda mais. Eu não tinha amigos nem família próxima com quem pudesse desabafar. Tentei falar com meu pai, mas tudo o que ele disse foi: “Não chore por causa de uma garota idiota”.

No dia seguinte, pensei em sair para dar uma volta, mas desisti. Provavelmente eu parecia alguém que tinha acabado de sair de um caixão. Estava prestes a pegar outra bebida quando ouvi o chuveiro ligado. Quando foi a última vez que tomei banho? Pelo menos dois meses. Como eu não tinha intenção de sair, nem me dei ao trabalho. Sei que é isso que digo a mim mesmo, mas na verdade eu simplesmente não conseguia me forçar a fazer. Cambaleei até o banheiro, já meio bêbado, e desliguei o chuveiro. Voltei para a cozinha e minha cerveja estava estilhaçada no chão. Devia ter deixado cair sem querer. Sem energia para limpar, arrastei-me até o sofá e praticamente desabei ali. O tecido encardido e amassado virou meu travesseiro há meses. Adormeci.

Não sei o que me acordou, mas sei que já estava sentado antes mesmo de perceber que estava acordado. Esfregando os olhos, olhei para o relógio: 2:23 da manhã. Deitei de novo para voltar a dormir quando ouvi passos no corredor, perto do quarto. Sentei-me outra vez, ainda meio grogue, sem me importar se alguém tivesse invadido a casa. “Alguém aí?”, chamei com a voz rouca de tanto tempo sem usar. Os passos pararam por um segundo e depois voltaram na direção da sala, lentos e deliberados, como se a pessoa estivesse tentando fingir que não tinha sido pega. De repente, uma das nossas fotos caiu da parede e o porta-retrato se estilhaçou. Soltei um grito e corri até lá o mais rápido que consegui naquele estado semi-acordado. Com as mãos tremendo e evitando os cacos de vidro, peguei a foto e a virei. O rosto dela estava borrado, como se ela não estivesse mais na imagem.

Na manhã seguinte, decidi limpar os cacos do porta-retrato e acabei limpando também os da garrafa de cerveja da noite anterior. Depois de arrumar a bagunça, peguei a caneca favorita dela, enchi de água — a primeira água que eu bebia em meses. Foi uma sensação celestial. Não sei de onde veio aquela súbita motivação, mas admito que foi bom. Coloquei a caneca na mesa e, no mesmo instante, ela voou da mesa e se espatifou. “Meadow…?”, perguntei com a voz tremendo. Caminhei devagar até os cacos e os peguei com cuidado, tentando juntá-los de novo, mas não consegui. Acabei deixando os pedaços na mesa e me arrastei até o banheiro, onde finalmente me olhei no espelho depois de cerca de um mês.

Meu cabelo estava uma bagunça oleosa, a barba e o bigode tinham crescido descontroladamente, mas eu tinha medo de encostar numa lâmina. Meu rosto estava magro e pálido, os olhos injetados, com olheiras profundas. Soltei uma risada seca ao ver minha aparência. “Meu Deus… você tá ridículo”, murmurei para mim mesmo. Depois olhei para o chuveiro. Fazia meses, mas pela primeira vez senti que conseguia me obrigar. Fui até o armário pegar roupa limpa e percebi que algumas camisetas dela estavam faltando. Devo ter guardado em outro lugar, pensei, enquanto lutava para vestir a roupa. Finalmente consegui, voltei ao banheiro e abri o chuveiro, deixando o vapor quente encher o ambiente.

A água quente na pele foi maravilhosa, tirar a oleosidade do cabelo foi a melhor sensação que tive em meses. Colocar roupa limpa no corpo também foi incrível.

Depois desse momento, os eventos estranhos pararam por um tempo e eu comecei a melhorar. Voltei a comer aos poucos, comia melhor, consegui dormir na cama de novo — embora ainda olhasse ocasionalmente para o lado onde Meadow costumava dormir. Ainda sinto muita falta dela, mas parecia que eu estava seguindo em frente. Até que recaí. Durante aquele breve período de melhora, eu tinha parado de beber. Bastaram algumas doses para eu despencar de volta no buraco.

Naquela noite em que desabei de novo, aconteceu o pior de tudo. Adormeci no sofá outra vez e fui acordado pelo alarme do celular berrando no meu ouvido. Assustado, fiquei acordado o suficiente para não apagar de novo. Sentei por um instante para me espreguiçar e então eu vi. Uma criatura parada na entrada da sala. Estava escuro, difícil enxergar os detalhes, mas era alta. Os membros pareciam dobrar para o lado errado, o corpo era ossudo e alongado. Soltei um grito de puro horror e a criatura recuou para as sombras.

Depois disso, os eventos voltaram, mas muito mais intensos: as luzes piscavam, as portas dos armários batiam sozinhas, eu ouvia sussurros dentro das paredes, os objetos dela sumiam ou mudavam de lugar, e o perfume dela ficava sempre no ar. Eu não aguentava mais. Tentei afogar tudo no álcool, mas quanto mais eu bebia, pior ficava. Eu via a entidade no escuro, me observando.

Tudo parou quando cheguei ao fundo do poço. Não comia há uma semana, não dormia, estava paranoico ao extremo. Eram cerca de 13:54, exatamente a mesma hora em que recebi a ligação dizendo que Meadow tinha morrido. A criatura apareceu de novo, espiando por trás de um canto. Dessa vez eu consegui vê-la melhor: tinha um esqueleto visível, a “pele” esticada sobre os ossos como plástico. Dava para ver as costelas no peito, mas o rosto era a parte mais horrível. Sem feições, apenas uma depressão onde a boca deveria estar. “O que você quer de mim?”, perguntei, aceitando qualquer coisa que viesse. Ela caminhou até mim, a carne fazendo um som úmido e nojento de esmagamento, estendeu a mão e colocou um dedo no meu peito, exatamente onde fica o coração. Senti uma dor súbita. Não era uma dor aguda — era a dor da perda, do luto, de tudo que eu estava segurando dentro de mim esse tempo todo. Senti as lágrimas antes mesmo de entender o que estava acontecendo. Enterrei o rosto nas mãos e chorei como criança, finalmente permitindo que a verdade entrasse: ela se foi.

Depois disso, os fenômenos pararam. Consegui reorganizar minha vida. Mudei de apartamento, larguei o álcool de vez e até formei um pequeno grupo de amigos. Nunca contei essa experiência para ninguém. Acho que ela foi destinada só a mim.

Não se mexa, ela vai te ver. Não faça barulho, ela vai te ouvir. Não olhe pra ela, ela vai sentir você

Na minha cidade existe um… espaço esquisito. Ninguém consegue explicar nem mesmo compreender direito como esse lugar funciona, porque ele não faz o menor sentido lógico, e mesmo assim tem coisas vivendo lá dentro. Coisas que não se parecem com nada que exista neste mundo. Todo mundo da cidade tem pelo menos uma história ou um encontro com esse espaço em algum momento da vida. E a gente também tem uma das maiores taxas de pessoas desaparecidas de todo o país, muito provavelmente por causa desse lugar.

Imagina um bosque de árvores, não uma floresta inteira, mas um bosque que ocupa uma área mais ou menos do tamanho de um estacionamento. Dá pra atravessar a largura em uns 5 minutos e o comprimento em uns 10. Dá pra dar a volta inteira no bosque em cerca de 20 minutos. E tem uma trilha que corta o meio, que leva mais ou menos 10 minutos pra atravessar, e se você ficar nela, está perfeitamente seguro.

Agora, se você sair da trilha e entrar no meio das árvores… aí você pode andar, andar e andar pra sempre e continuar cercado de mata. É aí que a coisa começa a ficar estranha pra caralho. Rostos nas árvores que parecem te seguir enquanto você passa, galhos esticando como se quisessem te agarrar. Teias de aranha que só podem ser de uma criatura muito maior do que qualquer coisa que a natureza já produziu. Rosnados, estalos, sussurros vindo das copas das árvores, quase como se estivessem te chamando, te implorando pra subir e se juntar a eles.

Todo mundo da cidade tem uma história sobre esse lugar, ou vai ter uma em algum momento. Todo mundo sabe que é pra nunca, jamais, sair da trilha, senão você pode virar vítima das coisas que moram lá dentro. E a primeira coisa que qualquer visitante ouve quando chega na cidade é: “Se for naquele terreno das árvores, pelo amor de Deus, não saia da trilha”.

Descobrimos só duas exceções a essa regra. A primeira são as crianças. Não sabemos exatamente por quê nem como, mas as crianças podem se perder naquela floresta sem fim e, quando saem, sempre aparecem inteiras, de barriga cheia e sorrindo. A teoria mais aceita é que tem a ver com a inocência e a ingenuidade das crianças. A segunda exceção é uma garota que me formei junto. Uma professora chamada Mary, que passa todo o tempo livre dela dentro daquele bosque fazendo sei lá o quê. Ela? Ninguém tem a menor ideia do porquê ela está segura lá dentro. Ninguém sabe, mas todo mundo simplesmente aceita e convive com isso. Embora isso talvez tenha mudado pra mim depois do que acabou de acontecer.

Mas a minha história não começa com monstros da floresta. Começa com monstros feitos de gente.

Era sexta-feira à noite e eu estava no Stooges, um bar vagabundo local a uns trinta minutos a pé do meu apartamento — vinte minutos se eu cortasse pela trilha do bosque, mas eu conheço as histórias e preferi dar a volta e levar os dez minutos a mais só pra não chegar nem perto daquele lugar. Não queria dar um passo bêbado a mais e sumir pra sempre.

Eu precisava desesperadamente de uma cerveja depois daquela semana de merda no trabalho. Chamei uns amigos, mas todo mundo estava ocupado, então fui sozinho mesmo. Aqui é uma cidade pequena e segura, todo mundo se conhece, então eu me sentia relativamente tranquilo.

Cheguei lá, pedi duas cervejas. Tomei a primeira de uma vez, sentei e comecei a tomar a segunda devagar, só relaxando e respirando. Fiquei rolando o Reddit um pouco até que percebi uma gata bem bonita olhando na minha direção, fazendo aquela cara de “me salva” enquanto um bêbado babaca se pendurava nela como uma nuvem preta. Os dois eram de fora da cidade.

Achei que não era nada demais e fui até lá pra ajudar. No pior dos casos, ajudo uma garota em apuros e faço uma amiga nova. No melhor dos casos, viro o príncipe encantado e ainda consigo transar, o que seria ótimo porque fazia um tempo que eu não pegava ninguém.

“Ei, finalmente te achei! Tava te procurando por todo lado”, falei sorrindo e dando um abraço nela como se fôssemos velhos amigos.

“Nossa, que saudade! Quanto tempo faz?”, ela respondeu, com um alívio claríssimo nos olhos.

“Com licença, senhor, será que o senhor se importa se a gente ficar um pouco a sós pra colocar o papo em dia? Faz muito tempo que não vejo minha amiga.” Virei pro cara e falei isso com a maior educação.

“Hã?”, ele resmungou, babando.

“É que eu e minha amiga combinamos de nos encontrar depois de tanto tempo e a gente gostaria de conversar em particular, se o senhor não se importar.”

“Vocês duas podiam vir pro meu lugar e a gente podia ter um tempinho a sós juntos”, ele conseguiu dizer depois de alguns segundos.

“Hm… desculpa, mas a gente quer só colocar o papo em dia nós duas. Obrigada pela oferta, quem sabe numa próxima?”, falei no tom mais doce que consegui sem vomitar na cara dele.

“Tá bom… numa próxima então”, ele murmurou e saiu cambaleando.

“Muito obrigada por isso”, ela disse assim que ele ficou fora de alcance.

“De boa, acontece comigo o tempo todo”, ri. “Posso te pagar uma bebida?”

“Eu é que devia te pagar uma primeiro.” E aí começamos aquela discussão boba de quem ia pagar a bebida de quem. Passamos o resto da noite juntos. Descobri que o nome dela era Lauren. Era de um condado vizinho, tinha se mudado pra cá por causa de um emprego melhor no banco local e pra fugir do ex-noivo que a traiu. Também percebi bem rápido que ela não curtia alguém como eu, então decidi só aproveitar a companhia e fazer uma amiga nova pela noite.

Conversamos até o bar fechar. Depois fiquei esperando com ela o Uber chegar e me despedi. Na hora, pensei melhor e me aproximei, cochichei: “Qualquer coisa que aconteça, se você acabar naquele bosque no meio da cidade… nunca saia da trilha.” Ela era muito fofa, eu não queria ver ela sumir lá dentro como tanta gente.

Aí virei e comecei a caminhada bêbada de volta pro apartamento, me sentindo feliz e invencível. Devia ter uns dois minutos de caminhada quando ouvi passos atrás de mim. Olhei pra trás e era o bêbado babaca de antes, agora ainda mais bêbado e mais nojento.

“Ei, cadê sua amiga?”, ele arrastou as palavras quase sem conseguir falar direito.

“Foi pra casa, tava cansada depois da noite longa”, respondi seco.

“Então… quem sabe só você e eu podemos curtir um pouco. Você disse que podia ser mais tarde, e agora é mais tarde.” Ele ignorou completamente meu tom.

Tive que segurar um gemido de irritação. “Eu disse talvez mais tarde, e olha, eu tô muito cansado, hoje não rola.”

“Tá boooom. Pelo menos deixa eu te acompanhar até em casa. É perigoso uma garotinha jovem como você andar sozinha à noite desse jeito.” E começou a me seguir de novo.

“Não, obrigada, senhor. Aqui é bem seguro e eu chego em casa sozinha tranquilamente.” Dessa vez nem parei pra olhar pra ele, só continuei andando. O tempo todo pensando que idiota do caralho eu fui de não ter entrado no Uber com a Lauren.

“Ah, então quem sabe você me acompanha até o meu lugar? Eu não faço ideia de onde tô e podia usar uma local pra me ajudar a achar o caminho.” Continuou me seguindo.

Porra porra porra, saca a indireta, cara. “Eu nem sei onde o senhor tá hospedado, e eu preciso chegar em casa logo, tenho que acordar cedo.” Menti descaradamente — na real eu ia passar o dia inteiro na quarta maratona de Breaking Bad.

“Então quem sabe só um beijinho de boa-noite?” Ele disse exatamente quando dobramos outra esquina e eu tive que decidir: dar a volta no bosque (mais 20 minutos) ou cortar por dentro. Acelerei, fiz uma curva brusca à esquerda e comecei a andar na direção do bosque. Queria só me livrar desse babaca o mais rápido possível e nem respondi. Quando acelerei, ouvi ele acelerar atrás de mim também.

“Sabe que é extremamente grosso não responder quando alguém tá falando com você, né?” Ele gritou, já com raiva na voz. “Mas eu te perdoo se você me der esse beijo.”

“Desculpa, mas eu não tô interessada.” Respondi acelerando pra uma corridinha leve enquanto entrávamos na trilha, que estava particularmente assustadora sob a luz da lua.

“O que foi, tu é viado ou o quê?” Ele xingou, e dava pra ouvir que estava bem atrás de mim.

“É, sou. Agora cai fora.” Gritei de volta e comecei a correr de verdade, mas já era tarde. Ele estava ali, agarrou meu braço e me puxou com força contra ele.

“Vai, sua vadia, só significa que você nunca pegou um pau de verdade, senão ia adorar.” Ele disse, me segurando com força de torno enquanto eu me debatia.

“Me solta—” comecei a gritar, mas ele tapou minha boca com a mão. Eu não tenho treinamento de defesa pessoal, sou bem miúda, mas fiz as duas únicas coisas que me vieram à cabeça: mordi a mão dele com força — ele deu um pulo pra trás e me soltou por um segundo. Aproveitei pra virar e chutar com toda a força que tinha bem no saco dele. Quando ele caiu no chão, eu tive que decidir rápido. Eu tava fora de forma, ele provavelmente me alcançaria fácil. Então fiz a coisa mais idiota da minha vida: corri de peito aberto pras árvores.

Merda merda merda, era só isso que passava na cabeça. Eu nunca, jamais, devia estar aqui dentro. Será que eu volto pra trilha e torço pra ele ainda estar no chão? Antes que eu terminasse o pensamento, ouvi galhos quebrando atrás de mim. Só tinha uma escolha: continuar correndo mais fundo na floresta sem fim, pra longe dele.

Rasguei arbustos, pulei troncos caídos, atravessei galhos, tomando cortes e arranhões por todo o corpo até que não vi uma raiz no chão e rolei pra frente, batendo as costas com força numa árvore. Tentei levantar, mas alguma coisa prendeu meu pé — a mesma raiz que me derrubou.

“Porra!” xinguei, tentando puxar o pé, mas não saía. Ouvi ele se aproximando. Levantei pra me preparar pra brigar. Foi quando percebi que galhos e ramos tinham me envolvido completamente. Comecei a me debater, mas estava preso tão forte que eu não conseguia me mexer. Fui gritar, mas um galho cobriu minha boca inteira, me calando. Só conseguia tremer de medo enquanto ficava quase totalmente engolida pelos galhos. Eu ia morrer. Ia desaparecer como todo idiota que saiu daquela trilha maldita. Mais uma estatística. E talvez um destino bem pior do que o que aquele cara tinha planejado pra mim.

“Achei você”, o homem disse surgindo das árvores na minha frente. “Agora sai daí ou eu te corto pedaço por pedaço, sua vadia.” Ele veio na minha direção e eu tive que segurar os tremores. Com certeza nada que essa árvore fizesse comigo seria pior do que isso.

O barulho de batidas pesadas ficou mais alto, mais perto. A terra e as árvores ao redor começaram a tremer a cada pisada enorme.

Enquanto eu tentava me soltar de novo, o aperto da árvore aumentou e me puxou mais pra dentro. Ouvi um sussurro, como se o vento estivesse falando comigo: “Não se mexa, ela vai te ver. Não faça barulho, ela vai te ouvir. Não olhe pra ela, ela vai sentir você.”

A última coisa que vi antes de fechar os olhos foi o homem virando. “Meu Deus, que porra é essa?” Ele gritou enquanto as batidas ficavam ensurdecedoras, galhos caíam ao nosso redor e a árvore que me segurava tremia como uma criança de quatro anos depois de tomar café expresso.

“Porra”, ouvi ele gritar, seguido de respirações pesadas e quentes que dobraram um pouco a árvore pra trás. Depois vieram gritos horríveis, sem sentido, que foram cortados de repente por um estalo nojento. O estalo veio junto com uma onda quente e vermelha que lavou meu rosto e meu corpo. Precisei de toda a força de vontade pra não gritar de choque.

Fiquei ali entorpecida por um tempo que pareceu eterno. Olhos bem fechados, corpo preso, sem conseguir me mexer nem fazer som, só ouvindo estalos de osso e rasgo de carne enquanto a coisa lá fora mastigava a presa. Me perguntando se eu era a próxima. Me perguntando se esse era o plano da árvore pra mim. Xingando como era injusto estar presa ali, nesse lugar, só porque não quis virar vítima de um babaca e agora ia virar vítima desse lugar.

Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, o banquete acabou. Não ousei abrir os olhos, mas ouvi a criatura virar e começar a se afastar. As batidas pesadas foram ficando mais fracas, mais distantes. Quando mal dava pra ouvir, as raízes e galhos me soltaram.

Desabei no chão e vomitei toda a bebida que tinha no estômago num jato longo e doloroso. Aterrorizada por ainda estar naquele lugar e chocada por estar viva, abri os olhos devagar. A cena na minha frente era um massacre puro: pedaços meio comidos de carne e pedaços irreconhecíveis do que já foi aquele homem espalhados por toda a clareira. Vomitei de novo.

Comecei a olhar ao redor, apavorada com o que viria em seguida naquele lugar infernal. Foi quando ouvi a mesma voz sussurrar: “Vai pra esquerda por uns oitocentos metros e você vai encontrar segurança.”

“Obrigada”, gritei de volta. Depois me virei e fiz uma reverência pra árvore atrás de mim. “Obrigada você também.” E juro por Deus que os galhos pareceram se curvar de volta.

Comecei a mancar na direção que ela indicou, só esperando que fosse verdade e não me levasse pra algo pior. Foi quando a vi. Ela estava de vestido branco soltinho, mesmo sendo de madrugada, sentada ali aproveitando o luar, sorrindo. Linda como sempre. Era a Mary.

“Nossa Senhora”, ela exclamou quando me viu saindo coberta de vômito e sangue. “O que aconteceu com você, Samantha?”

“Na verdade prefiro Sam”, respondi por reflexo antes de continuar. “Um monte de coisa, mas basicamente um cara ruim me perseguiu depois do bar, entrou aqui, machuquei o tornozelo, uma árvore me salvou e o cara foi comido.”

“Nossa, que horror. Me desculpa. Você sabe o que comeu ele?” Ela perguntou, e eu olhei pra ela chocada.

“Hm… não…” respondi sem saber o que dizer. “Me falaram pra não olhar.”

“Ah, deve ter sido a Chewy.” Ela sorriu como se fosse a coisa mais normal do mundo. “Ela acabou de ter filhotes e fica muito sensível porque ainda não perdeu o peso da gravidez. Mesmo eu falando que ela continua linda.”

Fiquei parada, sem conseguir formar frase. A porra tem nome? Chewy? Que caralho estava acontecendo?

“Quer um abraço?” Ela perguntou com carinho, abrindo os braços.

“Hm… sim, na verdade quero.” Aceitei e me deixei envolver pelos braços dela. Não sei por que permiti, especialmente depois dela falar que conhece a criatura que comeu o cara. A gente nem era amiga. Se fosse qualquer outra pessoa tentando me abraçar naquela noite eu teria surtado. Mas a Mary tinha esse efeito: tudo que ela fazia parecia certo. Fiquei ali alguns minutos só curtindo o abraço. Não lembro de ter chorado, mas quando me afastei tinha uma mancha molhada no ombro do vestido dela.

“Vem, vamos te levar pra casa pra você descansar.” Ela disse suavemente, se soltando do abraço. Só consegui assentir e segui enquanto ela pegava minha mão e me guiava pra fora da floresta. Eu tinha certeza que estávamos indo na direção oposta da trilha e que já tínhamos andado pelo menos meia hora ou uma hora mata adentro. Mas assim que segui ela, em dois minutos estávamos de volta na trilha.

“Você consegue ir pra casa sozinha daqui, Sam?” Ela perguntou com carinho. Assenti. “Ótimo, então te deixo aqui.” E virou pra voltar pro meio do bosque.

“Espera, por favor não vai, é perigoso aí dentro, alguém acabou de morrer.” Implorei, dando um passo e segurando a mão dela.

“Não, não é”, ela sorriu. “Além do mais, eles precisam de mim lá dentro pra ficar de olho nas coisas. Senão a Chewy se solta e uma vida como a daquele homem se perde.” Ela balançou a cabeça, parecendo sentir pena, antes de sumir no meio das árvores e me deixar mais uma vez em choque.

Finalmente me virei, segui pela trilha até em casa, desabei na cama. Achei que não ia dormir, mas apaguei na hora e sonhei com pesadelos daquele homem sendo devorado, os estalos e o barulho de osso quebrando. Quando acordei, estava com uma dor absurda por causa dos cortes pelo corpo todo e a dor latejante no pé.

Mesmo assim tomei banho, tomei um gole de vodca, depois outro. Enchi um copo grande e escrevi tudo isso. Vou postar e depois vou pro hospital ver se meu corpo não ficou permanentemente fodido.

Meu último conselho pra vocês é esse: se algum dia vocês estiverem numa cidadezinha pequena e no centro dela tiver um bosque de árvores não maior que um estacionamento… pelo amor de Deus, não entrem nas árvores. Mas se entrarem, lembrem-se:

Não se mexa, ela vai te ver. Não faça barulho, ela vai te ouvir. E não olhe pra ela, ela vai sentir você.

Acho Que Meu Colega de Quarto Gosta de Comer Agulhas

Como o título já diz, tenho quase certeza de que meu colega de quarto, o Rob, é algum tipo de maluco, de forma bem discreta. Eu gosto bastante do Rob, de verdade, e rezo para estar sendo levado a conclusões erradas aqui.

Tudo começou há alguns anos, na faculdade, quando trombei com o Rob em uma das minhas eletivas. Naquela época, todo mundo no café de domingo depois da igreja ficava me enchendo o saco dizendo que eu precisava conhecer mais gente da minha idade, então resolvi puxar papo com o cara que estava sentado do meu lado. Ele era muito fã de futebol americano, igual a vários dos meus amigos, então pensei que seria legal se a gente se juntasse pra assistir futebol no domingo, e foi mesmo. Viramos brothers de verdade comendo nachos e tomando cerveja durante toda a faculdade. Eu até me lembro de agradecer a Deus no caminho de volta da igreja porque finalmente tinha um grupo de amigos próximos — era assim que eu estava feliz por ter conhecido ele.

Depois que a gente se formou, eu queria sair da casa da minha mãe e me deparei com o absurdo que são os preços de aluguel. Foi ele quem primeiro sugeriu procurar um colega de apartamento. O pai dele estava botando ele pra fora de casa porque os dois viviam brigando feio, o que me deixou chocado. Como uma família pode tratar um ao outro desse jeito? Enfim, decidimos morar juntos. Ele conseguiu um emprego de escritório logo depois da formatura, eu comecei a trabalhar num restaurante e fechamos o acordo.

A primeira vez que percebi que tinha algo estranho foi no segundo dia, enquanto a gente estava desembalando as coisas. O Rob ficou me zoando porque eu estava ouvindo um som bem pop de mulherzinha (Chappell Roan é foda pra caralho, não importa quem você seja) enquanto arrumava minhas coisas, então resolvi dar o troco. Não sou de guardar rancor, mas foi divertido sacanear o Rob. Comecei a fuçar nas coisas dele pra ver o que eu conseguia encontrar de comprometedora.

“Ei, Hersch, não vai mexer nas minhas coisas. Para com isso, cara,” ele disse enquanto me via tramando. Meu nome é Herschel, aliás.

“Não, não, não, você que começou. Que segredos você tá escondendo aí?” falei enquanto pegava uma caixa de papelão média que parecia bem pesada. Corri pro outro lado do quarto, rasguei a fita adesiva e abri esperando encontrar algo que desse pra zoar. Congelei na hora. A caixa estava lotada de agulhas. Não era tipo “ah, ele gosta de costurar” quantidade de agulhas. Era mais “será que ele vende agulhas?”. A caixa estava cheia até a boca, do tipo que se derramasse ia ser um caos — a gente nunca ia achar todas as agulhas. “Hmm, mano, que porra é essa?” perguntei, estendendo a caixa pra ele.

“Tsc, cara, isso é meu, porra. São agulhas, mano,” ele disse, tomando a caixa da minha mão e fechando. Saiu pisando duro resmungando, e parecia genuinamente puto. Minha surpresa inicial virou uma confusão hilária e eu comecei a rir alto. O que ele era, um costureiro enrustido ou o quê? Que porra era aquela? Juro que não queria julgar o Rob, pela minha mão direita e por Deus eu não queria. Mas era definitivamente esquisito.

“Não, mano, o que FOI isso? POR QUE você tem uma caixa inteira delas?” perguntei, dobrando de tanto rir.

“Cara, são só agulhas. Vieram da minha vó. Ela costurou a vida inteira. É sentimental,” ele respondeu, franzindo a testa. Respirei fundo e me endireitei, porque família não é motivo pra piada. O fato de eu ter segurado algo importante pro Rob me deu até uma pontada no peito.

“Tá bom, entendi. Mas imagina se você fosse algum tipo de psicopata? Tipo, começa a comer elas junto com comida e tal? Hahaha. Tipo tomar uma tigela de agulhas com leite no café da manhã?” falei, forçando uma risada pra disfarçar. Espero não ter soado grosso ou insensível antes. O Rob parou um segundo, olhando pra caixa nas mãos. Depois abriu um sorriso e riu da minha piada.

“Hahaha, sim, seria ridículo pra caralho. Mas não, eu não como elas, cara,” ele disse, colocando a caixa de volta no lugar. Sinceramente, se tivesse parado por aí, eu não estaria escrevendo esse texto todo. Mas não parou! Fica mais estranho! Ai, Rob, por que não podia ter parado ali?

Preciso contar que, antes disso, já tinha outra coisa estranha nele, mas sozinha não significava nada. As terças-feiras. Desde que conheço o Rob, ele sempre some do mapa nas terças. Eu sempre pensei que era algo da família dele ou que ele usava as terças pra fazer alguma putaria, tipo transar ou usar droga. Nunca perguntei sobre a vida amorosa dele. Um dos outros caras pegou a ideia de transa e a gente começou a chamar de “terça de pegar e chupar do Rob”, hahaha. O problema é que, quando a gente foi morar junto, descobri que não era nada disso — alívio e horror ao mesmo tempo.

Há alguns dias foi a primeira terça desde que nos mudamos. Acordei com um barulho de tremor tipo às 9 da manhã, sentei na cama confuso no escuro. Vinha de logo depois da porta do meu quarto. Parecia um caminhão de lixo passando, sei lá. Levantei da cama e escutei. Não sabia se o Rob estava arrastando móveis ou o quê.

“Rob, é você?” gritei. Fui pegar a maçaneta da porta pro living, mas parei com a mão quase encostando. Parado ali na luz que entrava pela fresta, senti uma dor surda e uma desorientação de ressaca, mesmo sem ter bebido na noite anterior. A luz do sol que entrava por baixo da porta estava forte, e olhar pra ela piorava tudo. Juro que não lembrava de ter bebido, mas claramente tinha enxaqueca e até suava um pouco, então talvez tivesse bebido? Juro que sou um cara moderado, haha.

“É, mano, só tô arrastando um monte de coisa pelo living. Sua porta tá bloqueada. Espera aí, te aviso quando liberar,” ele respondeu entre grunhidos. De fato, o barulho foi pro quarto dele e depois ouvi a porta dele fechar. Ele gritou “Tá liberado!” através da parede, então abri a porta. Tudo estava arrumado normalmente, com uma luz fraca entrando pela janela que dava pra um céu nublado. Ia voltar pro quarto pra dormir mais, mas aí ouvi o resmungo. Era o Rob murmurando no quarto dele, que agora estava trancado. Cheguei devagar na porta dele e escutei com atenção.

“Deixa passar. Por favor. Pelo amor de Deus, deixa passar. Vai. Desce, desce, desce, desce…” O Rob estava murmurando com a voz tensa, respirando pesado do outro lado da porta. Pensei que ele estava doente, então voltei pro meu quarto pra dormir.

O lance é que, quando acordei da soneca, nada tinha mudado muito. Saí do quarto e vi que a porta do Rob ainda estava trancada. Nada no living fora do lugar, então fiquei confuso sobre o que ele tinha mexido antes. Sabia que ele ainda estava lá porque ouvia ele remexendo nas gavetas. Desisti de tentar entender e me arrumei pro trabalho. Como trabalho em restaurante, normalmente durmo até tarde e só me arrumo tipo 3 da tarde.

Sentei no sofá do living pra calçar o tênis. Pra esclarecer: nosso apartamento é bem pequeno. O living tem exatamente o espaço pra encaixar o sofá na parede com uma luminária alta apertada no canto que sobra. Quando sentei, percebi de canto de olho que a luminária estava meio inclinada. Levantei e tentei endireitar. Não ficava reta. Me inclinei pra ver o que estava atrapalhando no chão e não tinha nada. Simplesmente não cabia mais entre o sofá e a parede. Tentei empurrar o sofá, mas ele não saía do lugar. Verifiquei o outro lado — encostado na parede. Chequei as duas pontas mais duas vezes e fiquei parado, atônito. Ou o sofá cresceu, ou o quarto… encolheu?

Olhando em volta, dava pra ver que outras coisas estavam mais apertadas do que eu lembrava. Sei que casas se mexem um pouco por causa de temperatura, mas isso teria que ser vários centímetros. Fiquei tão confuso que fui até o quarto do Rob pedir opinião.

“Ei Rob, acho que tô pirando aqui. Dá uma olhada nisso?” chamei da porta dele. O barulho de remexer parou na hora.

“Tô ocupado, Hersch. Tô ocupado hoje, cara. Você sabe disso,” ele respondeu de dentro.

“Mano, tô falando sério. Acho que o living encolheu, haha. É loucura. Você tem que ver essa porra,” falei, batendo na porta com um pouco de urgência.

“Quê!? Não…” O Rob abriu a porta de uma vez. Olhos injetados me encararam sem o calor de sempre, camisa amassada, sobrancelhas franzidas. Não estava com a cara bonita de costume, parecia acabado. Apertava a camisa com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, como se estivesse com dor no peito.

“Ei, o que tá rolando contigo?” perguntei, dando um passo pra trás. Aquela dor de cabeça surda voltou.

Ele olhou pra si mesmo, arrotou, fechou a porta de novo dizendo que não estava se sentindo bem. Tem algo errado com ele com certeza, mas não foi isso que chamou minha atenção. No segundo que a porta abriu, eu vi dentro do quarto dele. Estavam em todo lugar. No chão, na escrivaninha, na cama — agulhas como se ele tivesse virado a caixa inteira no quarto. O pior: tinham sido empilhadas bem alto em um prato na escrivaninha. Em um prato! Acho que vi algo que não deveria ter visto.

Na quarta-feira ele estava normal. Me deu um soquinho como sempre, foi trabalhar e passou no restaurante pra ficar de boa como se nada tivesse acontecido. Não toquei no assunto com ele. Em vez disso, fiz uma coisa que ainda acho errado. Eu folgo nas quintas, então enquanto ele estava no trabalho entrei escondido no quarto dele. À primeira vista, nada fora do normal. Mas fuçando nos cantos, comecei a achar. Agulhas que ele perdeu na limpeza, nos cantos, presas nos lençóis e nas roupas. Sei que tô errado por fuçar escondido, mas tô muito perturbado com isso. Meu cérebro fritava tentando montar o quebra-cabeça de um jeito que não fizesse o Rob parecer louco… até abrir a gaveta dele.

Quando puxei a gaveta, a primeira coisa que veio foi náusea e uma sensação vertiginosa de algo se enterrando nos meus pensamentos, me fazendo tropeçar. Foi como se uma imagem fosse forçada na minha mente, borrada e alienígena demais pra eu entender, me deixando tonto a ponto de fechar os olhos com força. Quando passou, abri os olhos e vi o horror, a consequência grotesca da minha curiosidade. Fechei a gaveta na hora, tropecei pra fora do quarto, bati a porta. Mesmo sabendo que o Rob não estava em casa, fiquei olhando pros lados e checando as trancas como se ele fosse entrar correndo a qualquer momento. Até agora fico olhando pela janela. Nem sei se tenho permissão de escrever o que vi ali, mas juro que ainda sinto vontade de vomitar. Só imagina a pior coisa que cabe numa gaveta, coloca agulhas por cima e você chega perto.

Eu simplesmente não entendo, mas quero entender. Quero entender o Rob. Quero me aproximar dele. Essa parada das agulhas não faz sentido. Não pode fazer. E tem o living ainda. Continua menor, aliás. Tive que tirar a luminária do canto e colocar na frente do sofá. Quando falei com o Rob sobre isso, ele deu de ombros e disse que é casa velha, como se não fosse problema nenhum. A não ser que ele tenha feito marcenaria e diminuído o quarto uns centímetros de brincadeira, não entendo. Aquela luminária cabia certinho no canto quando a gente mudou. Agora não cabe.

A pior parte de tudo é que hoje entrei no quarto dele de novo enquanto ele foi ao mercado. O prato sumiu, mas ainda tem agulhas nos cantos. Eu estava pronto pra acreditar que tinha inventado tudo, mas quando virei pra sair notei aquilo que me fez tropeçar da outra vez. Tem uma fresta entre o chão do quarto dele e a soleira da porta, e está em ângulo. De algum jeito, o quarto dele parece ter sido girado uns graus. Minha mente começou a girar de novo, então saí de casa e fui tomar um trago com um amigo pra esquecer. Primeiro uns centímetros aqui, depois uns graus ali, depois aquela coisa no prato e, às vezes, eu até lembro daquela luz dolorosa. Tô com medo. Não sei o que fazer, mas sei que não posso viver com medo do meu colega de quarto pra sempre. Nesta terça eu vou confrontar ele. Sei que Deus vai me proteger. E, claro, rezo toda noite pra que tudo isso seja só coisa da minha cabeça.

O Chef

Eu deveria ter percebido que algo estava errado no instante em que entramos no hall de entrada da casa do Elias. O ar não tinha cheiro de jantar. Não tinha aroma de alho assando nem de vinho caro. Cheirava a ozônio e a cobre molhado, aquele tipo de odor que arranha o fundo da garganta e faz os olhos lacrimejarem.

Meu amigo Mark vinha me enchendo a cabeça com isso há semanas. Segundo ele, o Elias tinha contratado um “especialista culinário particular” que era especialista em proteínas raras e exóticas. Mark é meio esnobe com comida, então eu só revirei os olhos e topei ir junto. Não comentei que, nos últimos meses, eu vinha migrando para uma dieta vegetariana; não queria ser o convidado “problemático” numa ocasião chique e achei que daria para me virar só com os acompanhamentos.

Aí eu vi o chef.

Ele estava na cozinha aberta, emoldurado por aço inoxidável e panelas de cobre penduradas. Era alto, magro de um jeito perturbador, e vestia um casaco branco de um tom tão claro que parecia agressivo. Não parecia nenhum chef que eu já tivesse visto. Também não se movia como um. Seus movimentos eram bruscos, como os de uma marionete sendo controlada por alguém que ainda não dominou os fios. Quando ele ergueu o olhar para nós, seus olhos não pareciam focar nos nossos rostos. Eles desviavam para nossas gargantas, depois para nossos peitos, depois voltavam para a peça de carne escura e iridescente sobre a bancada.

“O prato principal”, anunciou Elias, todo sorridente. “Uma colheita única na vida. O chef diz que vem de um lugar muito… remoto.”

O Chef não falou nada. Apenas sorriu, e seus dentes pareciam numerosos demais para a boca dele.

Quando nos sentamos, o clima mudou de estranho para sufocante. O Chef trouxe os pratos pessoalmente. A carne era de um roxo profundo, machucado, marmorizada com veias prateadas que pareciam pulsar sob a luz baixa da sala de jantar. Quando ele colocou meu prato na minha frente, se inclinou bem perto. Eu sentia aquele cheiro de ozônio saindo da pele dele. Ele ficou ali um segundo a mais do que o necessário, com a mão apoiada no encosto da minha cadeira.

“Coma”, sussurrou ele. Não era um convite. Era uma ordem.

Senti um frio genuíno de medo me atravessar. Olhando para o rosto dele, percebi que suas pupilas não eram redondas — eram ligeiramente irregulares, como vidro rachado. Naquele exato momento eu soube: se eu dissesse que não ia comer a “especialidade” dele, eu não sairia daquela casa.

Então fiz o que precisava fazer. Sou enfermeira; estou acostumada a manter a cara de paisagem sob pressão. Enquanto Mark e os outros atacavam a comida, soltando “hummms” que logo viravam engasgos úmidos de prazer, eu comecei a trabalhar. Usei a faca para remexer a carne no prato, espalhando os sucos roxos escuros no purê de batata. Quando o Chef virava as costas para o fogão, eu enfiava os pedaços maiores no guardanapo de pano. Cheguei até a levar um pedaço à boca, segurando-o contra a bochecha até fingir uma tosse e cuspi-lo dentro de uma taça de vinho tinto escuro.

A mudança nos outros começou antes do segundo prato.

Mark foi o primeiro. Ele parou de mastigar; o garfo caiu com estrondo na porcelana. Um fio fino e translúcido — como uma teia de aranha, só que mais grosso — escorreu da narina dele. Ele nem limpou. Só ficou olhando para o teto, a mandíbula se desencaixando muito além do que seria humanamente possível.

Depois veio a Sarah. Ela começou a coçar o antebraço, as unhas rasgando a pele.

Por baixo da superfície, eu vi. Uma protuberância ritmada, ondulante. Algo se movia sob a pele dela, longo e fino, subindo do pulso em direção ao ombro. Não era um verme da Terra. Aquilo brilhava com uma bioluminescência fraca e doentia, um pulso azul ritmado que acompanhava exatamente as veias prateadas da carne. Olhei para o Chef. Ele os observava com uma expressão de fome aterrorizante. Nem fingia mais que estava cozinhando. Apenas ficou ali, os dedos longos e pálidos tremendo em sincronia com os parasitas que se moviam dentro dos meus amigos.

“Tão vibrantes”, murmurou o Chef. “A colonização foi bem-sucedida.” Ele virou o olhar para mim. Eu congelei, o coração batendo tão forte contra as costelas que achei que ele ia escutar. O guardanapo cheio de carne estava apertado na minha mão debaixo da mesa. Forcei um sorriso, embora meus lábios estivessem tremendo.

“Está… delicioso”, consegui engolir as palavras. Ele deu um passo na minha direção, os olhos estreitando. Olhou para o meu prato, depois para o meu rosto. Achei que estava morta. Mas então Elias soltou um grito gorgolejante e úmido enquanto um membro irregular e multissegmentado irrompia da garganta dele, e a atenção do Chef voltou imediatamente para seu “sucesso” principal.

No meio do caos do corpo do Elias se dobrando sobre si mesmo, eu saí correndo. Não peguei meu casaco. Não olhei para trás para o Mark, que agora fazia um som de clique que ainda escuto toda vez que o silêncio fica pesado demais. Corri pela porta da frente e só parei quando cheguei ao carro. Faz três horas que estou no meu apartamento em Jackson. Esfreguei as mãos até sangrar, mas ainda sinto o cheiro de ozônio. Fico olhando para o meu reflexo, verificando as narinas, procurando qualquer pulso azul na pele.

Estou segura. Não comi. Mas, enquanto olho pela janela para os postes de luz da rua, não consigo deixar de pensar em quantos outros “jantares” o Chef está promovendo esta noite. E não consigo deixar de notar que as estrelas estão um pouco mais brilhantes — e um pouco mais famintas — do que estavam ontem.
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