terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Eu sou faxineiro do turno da madrugada numa universidade de prestígio. Tem uma porta no porão que só aparece quando o chão está molhado

Trabalho no turno da madrugada na Universidade St. Jude há seis anos. A maioria das pessoas acha que ser faxineiro é só esfregar chão e esvaziar lixo, mas num lugar tão antigo quanto esse, o negócio é mais saber quais barulhos ignorar. Os canos de vapor sibilam como se estivessem cochichando segredos, e as tábuas velhas do piso rangem sob os fantasmas de alunos que já se foram há muito tempo. Eu gostava do silêncio. Ou melhor, gostava antes.

Minha rota cobre o prédio de Ciências da Vida. É um labirinto de linóleo e luzes fluorescentes que zumbem num tom que dá dor de cabeça. O porão é a pior parte — um emaranhado de depósitos e portas pesadas revestidas de chumbo. Meu supervisor, um cara calejado chamado Artie que tá aqui desde os anos setenta, me deu uma instrução específica logo que eu comecei: “Se você estiver passando pano no Corredor Norte e vir uma porta sem número de sala, continua passando pano. Não olha pra ela, e pelo amor de Deus, não entra.”

Durante seis anos, eu obedeci essa regra. Passava pano no Corredor Norte, via o contorno fraco de uma porta pesada de carvalho aparecer no reflexo do chão molhado, e ficava olhando pras minhas botas até os azulejos secarem e a porta sumir. Mas ontem à noite, os canos do teto estouraram.

O Corredor Norte ficou inundado. Eu tava parado em uns oito centímetros de água, o reflexo tão claro que parecia um espelho. E lá estava ela. A porta. Não era mais só um contorno fraco; era sólida, madeira escura com uma maçaneta de latão que parecia uma cara gritando. O cheiro me acertou em cheio — não era cheiro de papel velho nem de produto de limpeza, mas de ozônio e terra molhada.

Eu devia ter dado meia-volta. Devia ter ligado pro Artie. Mas a porta tava entreaberta, e eu ouvia um som vindo de dentro. Era um tum-tum ritmado, tipo um coração batendo bem devagar. Contra todo instinto que eu tinha, empurrei a porta.

O cômodo lá dentro não caberia de jeito nenhum na fundação do prédio. Era uma câmara circular imensa, forrada com milhares de potes de vidro. Entrei, e a água do corredor me seguiu como se estivesse viva. Cada pote continha algo pulsando — massas cinzentas parecidas com cérebros, ligadas por fios finos de cobre. Elas não tavam só ali paradas; tavam se comunicando. Os fios zumbiam numa frequência baixa que fazia meus dentes doerem.

No centro do cômodo tinha uma mesa. Sentado ali tinha um cara vestindo um uniforme de faxineiro igualzinho ao meu. De costas pra mim.

“Artie?”, sussurrei.

A figura não virou. “O chão tem que ficar molhado”, disse a voz. Parecia a do Artie, mas oca, como se as palavras estivessem saindo de uma caixa de som velha e quebrada. “A umidade conduz a memória. Sem água, os potes secam. E quando secam, a universidade esquece.”

Me aproximei mais, o coração martelando nas costelas. “Esquece o quê?”

O cara finalmente virou. Não era o Artie. Não era ninguém. Era uma casca oca feita da mesma massa cinzenta que eu via nos potes, moldada na forma de um homem. Não tinha olhos, só cavidades fundas cheias daqueles fios de cobre pulsando.

“Esquece da gente”, disse a coisa. Esticou a mão, os dedos se alongando como cera derretendo. “Nós somos a manutenção. Somos os que impedem que a história evapore. Todo aluno que reprova, todo professor que desaparece... acaba nos potes. Os pensamentos deles mantêm as luzes acesas lá em cima.”

Recuei, tropeçando na água. A porta começou a ranger, fechando. A coisa na mesa se levantou, os movimentos bruscos e nada naturais. Não tava tentando me atacar; tava tentando me entregar um rodo.

“Seu turno não acabou”, sibilou. “O Corredor Norte tá secando. Se secar, você vai ser o próximo no pote.”

Eu saí correndo. Me joguei pela porta que tava fechando e caí com tudo no linóleo molhado do corredor. Não parei de correr até chegar no escritório da segurança. Falei que tinha inundação, invasão, qualquer coisa pra fazer eles descerem lá.

Quando voltamos, o corredor tava seco que nem osso. O cano estourado tava selado como se nunca tivesse vazado. E a porta? Sumiu. Nem uma marca na parede.

O Artie tava lá, encostado no carrinho dele, tomando café. Me olhou, os olhos frios e sabidos. Não falou nada. Só me entregou um balde e apontou pro Corredor Norte.

Tô escrevendo isso da sala de descanso. Faltam três horas pro meu turno acabar. Minhas mãos não param de tremer, e meus dentes ainda doem com aquele zumbido. Mas o pior é olhar pro meu próprio reflexo no balde de água com sabão.

Por um segundo, não vi meus olhos. Vi fios de cobre.

O chão tá começando a secar. Tenho que voltar. Tenho que manter ele molhado.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Ele Disse que o Buraco de Natação Valiria a Pena

Nossos estômagos doíam de fome, e nossas mentes afundavam em pensamentos de desespero. Mas nenhum de nós estava disposto a dizer em voz alta que toda esperança tinha se perdido. Estávamos perdidos, sim, mas ainda nos agarrávamos exteriormente a algum tipo de otimismo.

Essa não era a trilha que esperávamos, mas essa realidade sombria e terrível era nossa agora. Bolhas cobriam nossos pés, fazendo cada passo parecer um abraço de agulhas quentes na carne sensível. Nossas bocas estavam tão secas de sede que doía engolir.

Tudo o que queríamos era caminhar até um buraco de natação inesquecível para um mergulho refrescante e um momento memorável. Uma jornada divertida e empolgante entre melhores amigos.

Nas noites anteriores, tínhamos conhecido um companheiro de viagem que compartilhava nosso gosto por bebidas baratas em um pub sem pretensões perto do hostel. Foi ele quem nos contou sobre esse oásis idílico. Ele disse que o buraco de natação valia cada gota de esforço e determinação para chegar lá, e que, ao chegarmos, seríamos recompensados da forma mais generosa possível. O jeito como ele pregava sobre o buraco de natação, como se a jornada fosse a peça que faltava no quebra-cabeça que ele procurava há anos na vida, não nos deixou com dúvidas nem perguntas. Precisávamos viver isso na pele. Afinal, nossa viagem era para comemorar novos capítulos na vida. Parecia tão destino. Agora, estávamos bem no meio da caminhada dos infernos. Em certo momento, discutimos quantos dias fazíamos que estávamos perdidos. Não tínhamos certeza.

Já tarde da nossa última noite perdidos, chegamos a um mirante rochoso. Usando nossas lanternas de cabeça, olhamos ao redor, torcendo para ver algo — qualquer coisa — que nos desse um motivo para alegria. Sam começou a rir. Ele não conseguia acreditar. Havíamos chegado ao buraco de natação clandestino. Nós realmente conseguimos! Meg olhou para o céu noturno e agradeceu a Deus. Encontramos água! Abaixo de nós, víamos a piscina profunda, as lanternas refletindo na superfície da água.

Eu estava tão cansado naquele ponto. Tentei com força focar os olhos na cena à minha frente. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Sam e Meg pularam do penhasco para dentro da água, um logo depois do outro.

Eu desabei no chão de exaustão. Uma náusea tomou conta. Fiquei ouvindo os sons dos meus amigos chapinhando lá embaixo. Tudo o que ouvia era silêncio. De repente, me lembrei de uma história que ouvi sobre um grupo perdido no mar. Depois de alguns dias, todos começaram a enlouquecer e alucinar barcos de resgate. Alguns dos homens pularam na água para saudar seus heróis salvadores e nunca mais foram vistos. O único sobrevivente foi o que ficou no barco avariado, esperando ajuda.

Respirei fundo e tentei me recompor. Achei que conseguia distinguir sons de risadas. Ou seria o vento? Não, eu ouvia risadas. Risadas alegres. Tinha certeza de que ouvia Sam e Meg chamando meu nome. Senti alívio e esperança pela primeira vez em dias. Justo quando eu me preparava para pular e me juntar aos meus amigos aliviados, para também sentir as águas calmas envolverem meu corpo dolorido e exausto, não consegui reunir força para me levantar por completo. Eu estava tonto demais e fraco. E a escuridão ficava cada vez mais vertiginosa. Tão vertiginosa. Uma sensação de enjoo de movimento me balançava até o fundo da alma. Era tudo tão avassalador. Tudo o que consegui fazer foi me encolher em posição fetal e me lembrar de respirar. Só respirar. Tudo vai ficar bem. Você está seguro agora. Só respirar.

Tudo o que me lembro depois disso foi acordar com o sol quente no rosto e olhar por cima da beira do penhasco para ver os corpos dobrados e quebrados dos meus amigos onde águas acolhedoras não existiam de jeito nenhum.

Não vou entediá-lo com os detalhes do meu resgate. Para ser honesto, não me lembro muito dessa parte da história. Disseram que eu estava em choque e gravemente desidratado. O hostel havia chamado a polícia local depois que não voltamos para pegar nossas coisas. Uma equipe de busca e resgate achou que tínhamos saído para encontrar o famoso e misterioso buraco de natação e imaginaram que nos encontrariam no lado norte do interior selvagem. Ficaram surpresos ao nos achar na direção completamente oposta.

Como eu estava na direção oposta do buraco de natação se tínhamos certeza de que seguimos as instruções que nos deram, até usando a bússola dos celulares antes das baterias morrerem? Será que todos nós entendemos errado as direções? Era algum tipo de brincadeira? O viajante se confundiu e disse sul quando queria dizer norte? O próprio viajante algum dia encontrou mesmo o buraco de natação como ele jurou? No fundo do meu estômago, não conseguia afastar a sensação de que fomos, de alguma forma, parte de um plano mais sinistro.

Tudo o que sei com certeza é que me arrependo profundamente de cada decisão que nos levou a procurar aquele poço perigoso.

Se você algum dia estiver viajando e um companheiro de aventura no bar falar com entusiasmo sobre um buraco de natação inacreditável, um paraíso que muda a vida se você conseguir encontrá-lo, eu imploro... não se deixe tentar por esse estranho. Não vá atrás dessa utopia aquática. Sua vida pode depender disso.

Cítrico e Tomilho

Enquanto me sento na frágil cadeira de madeira, os olhos fixos no menino, sinto, por um fugaz momento, que talvez o que estamos fazendo seja errado. Mas, com a mão firme de Zachary apertando meu ombro, eu me lembro: quem sou eu para negar a vontade de Deus? Respiro fundo. Ela sempre aparece com esse cheiro, como cítrico, mas com um toque de algo mais terroso que eu não consigo identificar direito. Aperto a mão que está no meu ombro.

O menino parece assustado, o que é decepcionante. Passamos a última semana dando a ele as melhores frutas do pomar, reduzimos o dia de trabalho dele pra nove horas e deixamos ele ler por trinta minutos por dia. E pra quê? Pra ele enfrentar esse momento como um covarde?

Não foi assim que ele foi criado. Eu e todas as outras criadas o educamos pra encarar esse momento com coragem e dignidade, com respeito pelas nossas tradições. Do jeito que Deus quer. Não com lágrimas escorrendo pelo rosto, olhos inchados e ranho no beiço.

Ele dá um passo pequeno, lento e sofrido atrás do outro. As outras criadas começam a cantarolar baixinho e devagar, sentadas nas cadeiras de madeira atrás de nós, enquanto os homens ficam em silêncio, em formação ao longo do corredor, completamente nus, a área marcada por cicatrizes, estranhamente curada e, em alguns casos, vermelha e pulsando onde deveriam estar os genitais deles distraía algumas das criadas, que tropeçavam nas palavras.

O menino solta um soluço baixinho ao perceber que faltavam só mais uns passos pra encontrar Ela. Ele se vira pro público e cruza o olhar comigo. “Mamãe”, ele articulou sem som. Eu levanto a mão num gesto que diz pra ele ir logo com isso, e um último soluço abafado, mas gutural, sai da boca aberta e cheia de muco dele enquanto ele sobe até o altar.

Como criada, não me é permitido saber quem Ela é, de onde Ela vem ou qualquer coisa além do fato de que Ela leva uma oferenda de cada ninhada que eu e as outras criadas produzimos. Normalmente um macho forte, alto e de preferência não castrado, mas o único requisito absoluto é que tenham exatamente 12 anos e sejam do sexo masculino. Por mais que isso decepcione Deus, eu sou a única que conseguiu dar à luz machos de forma contínua e bem-sucedida. Toda temporada que passo sob os cuidados de Zachary, eu produzo um e mando outro embora. Essa taxa de sucesso mantém ele na palma da minha mão: não me preocupo com comida, produtos de higiene ou livros pra ler, e só preciso cuidar das plantações a cada quinze dias. Sou realmente abençoada pelo meu útero. Levo a mão à barriga ao pensar nisso, dói ao tocar e eu recuo um pouco, torcendo pra que Zachary não tenha percebido.

Quando Ela — eu a chamaria de mulher, mas não tenho certeza se é isso que Ela é — se abaixa e pega a mão do menino com aqueles dedos longos, parecidos com tentáculos, ele olha pra Ela com nojo. Nunca vi o rosto Dela; Ela é alta demais pra eu conseguir enxergar, e a barriga protuberante e inchada me distrai. A pele estava tão esticada em alguns lugares que as costelas ondulavam contra ela; em certos pontos dava pra ver o branco onde a pele se esticava fina sobre o osso, e em outros era vermelha e doente, escorrendo pus e sangue. A barriga era tão grande que me impressionava aquelas pernas magricelas conseguirem sustentar o peso — não eram mais grossas que um lápis, mas longas demais pra compreender; às vezes levava um minuto inteiro pra acompanhar as pernas do pé até a pelve.

Ela se curva e fala no ouvido dele, todas as mãos Dela estão sobre ele, apalpando, sentindo. As criadas param o canto silencioso e começam a zunir, enquanto Ela solta um grito agudo que vai aumentando de volume aos poucos. Eu me junto ao zunido quando Ela chega ao clímax; os ouvidos do menino já estão sangrando, eu sabia que ele era fraco.

Quando o menino cai de joelhos, tentando em vão tapar os ouvidos enquanto todos os braços, mãos e tentáculos Dela seguram os braços dele abertos, erguendo-o no ar numa crucificação de mentira. A vida simplesmente abandona o corpo dele, e Ela solta um grito triunfante enquanto o invólucro do menino murcha como fruta podre, braços ainda esticados, cabeça caída de lado; se ele não fosse tão pequeno e patético, daria um bom espantalho pros campos.

Quando os braços e tentáculos se retraem, o invólucro cai no chão e Ela contorce o corpo o suficiente pra passar pela porta lateral.

Zachary caminha confiante até o invólucro, passando a mão pelas regiões genitais lisas de todos os homens no caminho; um homem de aparência particularmente doente se contorce, o que faz Zachary apertar a virilha dele até o homem desabar no chão. Ao pegar o invólucro e erguê-lo pro público, o canto recomeça. Será mais um ano de frutas abundantes no pomar, mais um ano de grandes profecias sendo reveladas a nós através de Zachary.

Eu forço um sorriso, embora a dor crescente na minha barriga lateje; está sensível ao toque e, ontem à noite, descobri que estava vazando um líquido verde brilhante e viscoso que cheirava levemente a cítrico e tomilho.

domingo, 4 de janeiro de 2026

O ponto mole na cabeça do meu irmão era mais do que parecia...

Quando o meu irmãozinho nasceu, eu tinha nove anos. Minha mãe tinha acabado de se casar de novo depois de um divórcio longo, mas silencioso. Meu pai biológico nunca tinha aparecido muito desde que eu me entendia por gente, e, pra mim, nós quatro éramos a única família que importava.

Meu irmão caçula, carinhosamente batizado de Amir, era a coisinha mais fofa do mundo. Nos encontros de família, minhas primas e tias faziam fila pra ficar perto dele. Até eu, que era uma menininha louca por atenção, não resistia àquele sorrisinho dele, aos olhos castanhos enormes e curiosos que pareciam gritar: “Olha pra mim! Não sou o bebê mais lindo que você já viu na vida?”.

Numa noite de verão em que eu não conseguia dormir, fui na ponta dos pés até o quarto dele, tomando cuidado pra não pisar nos lugares do chão que rangiam. A porta estava entreaberta o suficiente pra eu ver o luar entrando pela cortina e iluminando o corpinho dele. Ele dormia profundamente, o peitinho subindo e descendo devagarinho, no ritmo da respiração.

Resolvi que queria ele comigo. Peguei ele no colo, tirei do berço e saí correndo o mais rápido que consegui sem acordar a minha mãe com o sequestro do bebê. Ele se mexeu um pouquinho, eu parei, depois deslizei pra dentro do meu quarto e deitei ele com cuidado do meu lado na cama. Os olhinhos do Amir se moviam rápido atrás das pálpebras, e o ponto mole na cabeça dele subia e descia no compasso da respiração.

Eu já estava quase pegando no sono quando percebi que o relevo se mexeu de um jeito... estranho. Parecia que alguma coisa se contorcia logo abaixo da pele por uma fração de segundo. Meus olhos semicerrados se abriram de vez, eu me sentei um pouco na cama e foquei ali, concentrada. Como se tivesse sido pega no flagra, o movimento parou e voltou ao ritmo normal. Fiquei olhando mais um tempinho, depois deitei de novo e finalmente dormi.

Se eu tivesse entendido o que era aquilo na época, talvez as coisas fossem diferentes.

Quando eu fiz 14 anos, o Amir tinha virado um perigo ambulante. Ele sempre estava roxo de tanto se aventurar, e por mais que eu tentasse trancar ele fora do meu quarto, o moleque dava um jeito de entrar com aqueles dedinhos grudentos e os cachos selvagens e indomáveis. Aquele ponto mole nunca tinha endurecido totalmente por causa do que os médicos chamavam de ossificação óssea atrasada. Resumindo: aquela área simplesmente nunca virou osso. Ele vivia normalmente, então o problema ficou lá no fundo do armário.

Claro que a minha mãe ainda tomava cuidado. Numa noite em que ela saiu, me fez prometer que eu ia impedir ele de fazer qualquer besteira e que ficaria de olho nele o tempo todo. Quando ela foi embora, liguei os Teletubbies pro Amir na sala, joguei papel e giz de cera no chão e me tranquei no quarto.

Não demorou muito pra eu ouvir um estrondo daqueles. Corri pra sala e vi panelas e frigideiras espalhadas pra todo lado. Meu irmão olhou pro estrago que tinha feito, depois olhou pra mim, procurando uma desculpa decente. “Guarda essa, vai”, eu disse, levantando a mão e começando a empilhar as panelas de volta com a outra. Terminei aquilo e voltei pro quarto, não sem antes dar um aviso bem sério pra ele sentar a bunda de novo no lugar.

Depois de mais ou menos uma hora fuçando no quarto, ouvi outro baque pesado. Dessa vez não eram só panelas. Saí do quarto resmungando e desci as escadas torcendo pra bagunça não ser grande. Não era bagunça.

O Amir estava tendo uma convulsão violenta no chão da sala. Um som gutural saía do corpinho dele, seguido de gritos agudos. Corri até ele, levantei a cabeça dele do chão com as mãos. O corpo inteiro tremia como vara verde. Contra tudo o que eu queria, larguei ele no chão e voei pro meu quarto pra pegar o celular, ligando pra emergência enquanto corria de volta pro meu irmão. Meu coração batia tão forte que quase saía pela boca, e no meio do caos eu mal percebi o ponto mole na cabeça dele tremendo e se abrindo até começar a sangrar... e depois sair outra coisa.

Alguma coisa cutucava a superfície do relevo, procurando a saída. Eu gritei, apertando meu irmão mais forte contra mim. O corpo dele sacudia ainda mais, como se tentasse expelir aquilo sozinho. Um caroço, parecendo um pedaço de carne jogada fora, rasgou a pele e deslizou pra fora, mal tinha uns dois centímetros e meio. Não atravessou o crânio; passou por um espaço que era só dele, uma casa feita dentro da cabeça do meu irmãozinho.

Num instante de puro horror, larguei o corpo do meu irmão e rastejei pra trás, gritando com um terror que rasgava a minha garganta enquanto a criatura terminava o próprio nascimento. Ela escorreu pelo rosto do Amir, que agora estava desacordado, e caiu no chão. Foi ali que ela se abriu, bem no meio, e virou do avesso pra revelar um par de pernas de inseto que se desenrolaram pra fora como uma borboleta saindo do casulo.

Foi aí que eu apaguei.

Acordei numa cama de hospital, com uma bolsa de soro pingando no meu braço. O silêncio era bom, só o gotejar frio do soro fisiológico e a minha respiração. Até que as memórias daquela noite me atingiram de novo, e eu me sentei de uma vez. Minha mãe, que estava sentada do meu lado o tempo todo, levantou correndo e veio até mim. Eu puxei ela pra um abraço apertado e desabei chorando nos braços dela.

“Tá tudo bem! Tá tudo bem!”, ela repetia, passando a mão nas minhas costas pra tentar me acalmar.

“O Amir tá bem? Cadê ele?!”, perguntei entre lágrimas.

“Ele tá em outro quarto. Ele vai ficar bem”, minha mãe respondeu, a voz cheia de medo e preocupação que ela tentava esconder mal e mal.

Respirei fundo e soltei ela, minha cabeça repassando tudo o que tinha acontecido.

“Quando te encontraram, vocês dois estavam desmaiados no chão. Eu vim o mais rápido que consegui. O que aconteceu???”, ela perguntou, me apertando.

“Eu não sei, eu só... alguma coisa saiu de dentro dele, cadê aquilo? Estava na cabeça dele, naquele ponto. Não era osso, era aquela coisa.” Minha voz tremia enquanto eu finalmente tentava explicar o que tinha visto.

As sobrancelhas da minha mãe se franziram. “Como assim? O Amir teve uma convulsão. Aconteceu muita coisa numa noite só. Só... descansa, tá bem?”, ela disse, me deu um beijo na testa e me deixou sozinha pra ir ver o meu irmão.

Os dias seguintes foram passados tentando explicar que uma criatura tinha passado pela cabeça do meu irmão. Meus apelos caíam em ouvidos moucos. O próprio Amir não lembrava de nada além do programa de TV e depois o hospital. A rachadura na cabeça dele foi explicada como ferimento da queda. Eu sei que não foi isso, mas é a minha palavra contra a lógica e tudo o que qualquer pessoa acreditaria.

Não sei o que eu espero colocando minha história aqui. Já se passaram anos, e o Amir, depois de ficar internado um tempo, se recuperou rápido com nada além de uns pontos. Toda vez que vejo aquela cicatriz, eu penso naquela coisa que fez morada dentro dele... e no que ela pode ter virado.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon