sábado, 10 de janeiro de 2026

Cachorros-Quentes de Salsicha

Na véspera de Natal de 2023, uma cortina de vapor negro soprou sobre a nossa vila, vinda de uma tempestade estranha que pairava sobre uma cidade litorânea próxima. "Está acontecendo de novo", foi tudo o que Harold conseguiu dizer antes que o inferno cavalgasse em uma rajada poderosa até o nosso vilarejo. Meu velho vizinho se esgueirou para dentro de casa, e eu segui o exemplo. Me senti sortudo por ter conseguido me refugiar antes de respirar ou piscar em meio àquelas partículas escuras e aquosas.

Afinal, a maioria dos moradores teve destinos horríveis ao fazer isso.

Eu testemunhei algo além de qualquer explicação. E, olha, eu já tinha visto um fantasma quando era criança, então sempre acreditei no paranormal: espíritos, outros planos de existência. Mas nunca tinha acreditado em algo como aquela névoa negra que estava afogando a minha vila. Envenenando meus vizinhos e amigos. Fazendo-os se voltarem uns contra os outros. Pintando seus rostos com veias negras e colocando palavras monstruosas em suas línguas. Eles diziam coisas vis, enquanto se dilaceravam com dedos e dentes.

Mas nós, que conseguimos ficar longe da névoa negra, não éramos tão sortudos quanto imaginávamos.

Fui expulso da minha casa por vizinhos infectados. Eles arrombaram minha porta da frente e gritaram que iriam me despedaçar, me fazendo fugir para a noite, com um xale de inverno amarrado no rosto para evitar inalar aquela substância negra que pairava espessa no ar. Corri pelo meu quintal e contornei a borda do meu bairro até uma rua cheia de névoa e violência. Depois, me atirei em direção ao portão lateral da casa de Harold, ignorando os gritos que vinham da névoa negra, e esbarrei de cabeça na minha vizinha não infectada, Jane, no gramado da frente do velho. Ela tinha tido a mesma ideia que eu.

Veja, o Velho Harold era um conhecido preparador do apocalipse. Ele passou anos equipando o abrigo da Segunda Guerra Mundial dos pais dele, no fundo do seu terreno, e o homem não perdia uma oportunidade de encher o saco dos moradores falando sobre isso. Bem, parecia que alguns vilões tinham prestado atenção no velho ao longo dos anos, porque Jane e eu corremos pelo lado da casa de Harold e encontramos outros dois no jardim, batendo na porta do bunker dele, meio enterrado no chão: Millie, a moça da mercearia, e Ruben, um advogado de família.

Nós quatro estávamos com os rostos cobertos, gritando para o velho nos deixar entrar. Então, veio o rangido do metal e uma voz abafada, e a porta do bunker se abriu, revelando um Harold de cara séria, equipado com máscara de gás e uma roupa de proteção contra materiais perigosos.

Cala a boca e entra logo, ou eles vão nos encontrar! — ordenou Harold.

Nós quatro nos esprememos pela porta e descemos as escadas até o bunker, enquanto Harold fechava a porta de metal atrás de nós. Lá dentro, não era um abrigo enferrujado e decadente da Segunda Guerra, mas uma fortaleza reformada, com paredes à prova de som, feitas de concreto reforçado com aço. O bunker media dez metros de comprimento e quatro de largura, com um beliche encostado em uma das paredes laterais e prateleiras de suprimentos na outra. Um sofá largo ficava encostado na parede do fundo, e uma mesa de jantar ocupava o centro do cômodo.

Dois de vocês no beliche. Um no sofá... Alguém vai ter que se contentar com um saco de dormir no chão, e eu vou junto. Tenho suprimentos de sobra, mas com cinco pessoas aqui dentro, pode ficar apertado — disse Harold. — Da última vez, a névoa levou três semanas para passar.

Última vez? — Ruben respondeu.

Harold assentiu.

Sim. A cada vinte anos, um arco-íris morto paira sobre a costa, trazendo chuva negra e o pior de cada um.

Como você sabe de tudo isso? — perguntei.

Ele baixou a cabeça, envergonhado.

Porque morei lá a maior parte da minha vida. Vi isso acontecer duas vezes naquela cidade, mas eu... Eu fugi na terceira vez. Na última vez. Eu fugi para cá.

— Não fugiu muito longe, né? — Ruben zombou.

Harold balançou a cabeça.

— Acho que sempre quis manter meu antigo território por perto. Aquela cidade é um lugar especial. Claro, essa vila aqui é idílica o suficiente, mas vocês não entendem. Minha antiga casa era — é — um paraíso. O preço de vinte em vinte anos é pequeno. Os mais velhos por aqui entendem isso. A maioria foge quando sente a tempestade se aproximando.

— Não foi paraíso o suficiente para você ficar, foi? — disse Ruben. — E eu não chamaria isso de "preço pequeno". Eu vi... Eu vi a Sra. Craw comer o rosto do Sr. Craw.

Harold assentiu, solene.
— Bem, vocês estão seguros agora. Venham. Sentem à mesa. Vamos comer bem hoje à noite, e amanhã começamos a racionar.

— Três semanas aqui embaixo... — engoliu em seco Millie. — Talvez a gente devesse tentar pegar um dos nossos carros? Sair dirigindo da vila?

— Tem demais daqueles filhos da puta lá fora — disse Ruben.

Harold assentiu.
— E vocês teriam que dirigir três milhas para sair dessa zona. Mas quem sabe? Vocês são livres para tentar. A porta está ali.

— Vamos nos reorganizar - sugeriu Ruben. — Comer, dormir, e decidir o que fazer de manhã. Eu voto para ficar até a névoa passar, mas... quem sabe? Talvez amanhã tenha uma brecha para escaparmos.

Talvez — disse Harold, mas era um "talvez" de velho; daquele tipo que diz: Eu estou aqui há mais tempo que vocês e sei melhor.

O preparador do apocalipse acendeu uma vela alta no centro da mesa, depois pegou lentilhas e arroz enlatados. O velho distribuiu para cada um de nós à mesa e se desculpou por não ter pratos, já que o espaço no bunker era limitado. Nenhum de nós reclamou — pelo menos não em voz alta. Tínhamos comida na barriga. Tínhamos abrigo contra os horrors dos vilões brigando lá em cima. Éramos sortudos. Mas algo não estava certo.

Eu só não sabia o quê.

Sabia apenas que minha cabeça latejava, e meus olhos não paravam de ser atraídos para a entrada do bunker, no topo da escada íngreme. Naquele espaço apertado, iluminado apenas por uma lâmpada balançando acima de nossas cabeças, tudo parecia preto e sombrio; mas a barreira entre nós e o mundo exterior parecia a coisa mais negra de todas. Uma escuridão dolorosa de se encarar, mas eu não desviava o olhar.

Não sei quanto tempo fiquei olhando fixamente para aquela porta, mas voltei a prestar atenção na conversa quando uma discussão começou.

.. só pessoas ruins — Ruben terminou. — Elas já eram ruins antes dessa névoa negra infectá-las.

Não seja tão cruel — argumentou Millie. — Nós seríamos iguais a elas se tivéssemos inalado.

Não, não seríamos — disse Ruben. — Nós somos pessoas boas. Com moral. Com decência. Os Craws eram uns bigodudos. Fascistas. Coisas feias saíam da boca deles muito antes da chuva, da névoa ou do vapor colocar palavras feias na boca deles.

Tá, mas... eles ainda são pessoas! — protestou Millie.

Não mais — interrompeu Harold. — Escuta, docinho...

Não me chame de "docinho" — bufou ela.

Harold revirou os olhos.
Millie, se você quiser tentar fugir amanhã, não vou te impedir. Talvez a luz do dia facilite a fuga. Talvez não. A chuva negra encobre o céu a qualquer hora, pelo que me lembro. Mas se você sair lá amanhã, vai ter que entender que aquelas coisas não são mais seus vizinhos ou amigos. Não são mais as pessoas que você conhecia. Elas estão possuídas.

Aí as coisas ficaram ainda mais estranhas.

Terroristas? — perguntou Millie, com os olhos inchados e a voz embargada, como se algo estivesse preso na garganta.

Harold franziu a testa.
O quê? Não... Acho que você ouviu errado...

Seu velho bastardo! — rosnou Millie, parecendo transformada. — Não me importa se as coisas eram diferentes na sua época. Não tem necessidade de chamar nossos vizinhos de "terroristas". Não tem necessidade de trazer raça para isso. Os Craws são pessoas boas. A cor da pele deles não importa.

Fiquei tão confuso. Harold e eu trocamos um olhar preocupado, mas Jane e Ruben pareciam indiferentes àquela estranha incompreensão entre o velho e a jovem atendente. Eles estavam comendo suas lentilhas e arroz, com os olhos baixos. Havia uma pancada atrás dos meus olhos, como se alguém estivesse tentando esculpir minha testa, e meu foco não parava de voltar para a porta escura do bunker, profundamente enterrada nas sombras.

Millie — comecei, — **Harold não disse o que você acha que ele disse... Você está se sentindo bem?

Harold balançou a cabeça para mim, como se dissesse para não me dar ao trabalho, e então se levantou da cadeira.

Acho que vou para a cama, Eric. As tensões estão altas hoje. Nós não estamos em nosso juízo perfeito.
O velho se afastou para o canto do cômodo, provavelmente para pegar seu saco de dormir.

Juízo perfeito.

Aquelas palavras ecoaram na minha mente, que não estava nada perfeita.

Você deveria deixar Harold em paz — disse Ruben, levantando os olhos da comida e fitando Millie. — O velho nos salvou, sua ingrata vaca.

Levantei as mãos, que pareciam fracas e moles, mesmo com uma refeição quase completa no estômago.
Calma, Ruben.

Millie arfou.
O que você acabou de me chamar?

Nada tão terrível quanto o que você chamou Harold — cuspiu Ruben. — A família dele morreu no Holocausto, e você vai usar termos preconceituosos assim?

Termos preconceituosos? Franzi a testa. Millie não tinha dito nem insinuado nada do tipo. O que está acontecendo?

Mais marteladas atrás da minha testa. E os recantos sombrios do bunker pareciam mais profundos, mais escuros e mais longos a cada segundo. Tentáculos de sombra rastejavam pelo teto como trepadeiras em uma treliça, alcançando a lâmpada no centro.

Minha cabeça não estava funcionando. Doía demais.

Errado. Era tudo o que eu conseguia pensar. Isso está errado.

Millie fugiu da mesa em lágrimas, quebrada com facilidade por Ruben, e a jovem atendente se esgueirou para o beliche de cima, no lado do cômodo.

Isso é típico de você — disse Jane, com desdém para Ruben.

Tentei olhá-la, mas meus olhos estavam cheios de lágrimas, e o cômodo estava embaçado.

O que é típico de mim? — ele perguntou.

Fazer sinal de virtude — respondeu ela. — Fingir que se importa com Harold e a herança da família dele. Tudo o que você realmente quer é derrubar Millie. Derrubar uma jovem, seu porco machista.

Ruben revirou os olhos vermelhos.
Não tem nada a ver com o gênero dela. Ela é só uma idiota. Uma idiota preconceituosa.

E você também é — sibilou Jane. — Um bastardo que odeia mulheres. Espero que você morra sozinho e infeliz, seu filho da puta.

Seja como for — resmungou Ruben, levantando-se. — Vou dormir.

Então, só Jane e eu ficamos à mesa.

Eu não queria fazer isso. Não queria fazer o que os outros tinham feito. Mas enquanto enxugava as lágrimas dos olhos e piscava, tentando enxergar claramente naquele abrigo sombrio, me virei para encarar minha vizinha. Minha amiga.

Jane — disse eu, — por quê? Não esperava isso de você.

Ela me encarou com raiva, os olhos vermelhos e o rosto pálido.
Ah. Defendendo seu colega, é? Faz parte do clube dos meninos, hein?

Não — ofeguei, sentindo falta de ar. — Eu... Eu não consigo...

Não consegue o quê? — murmurou Jane, com uma voz nova; sussurrante, leve, e não totalmente presente.

Esfreguei os olhos com força com a manga, e quando os abri, a lâmpada pendurada parecia cegantemente brilhante por um momento.

Aí eu vi tudo.

Claramente.

Gritei ao ver a cena ao redor da mesa de jantar. Nenhum dos convidados tinha ido para a cama. Harold, Millie e Ruben ainda estavam sentados em seus lugares. Mas não se mexiam. Não respiravam. Eram cadáveres nus sentados com as cabeças jogadas para trás nos encostos, e a pele que vestiam, do pescoço para baixo, não era deles; a carne esfolada de Millie cobria o corpo esfolado de Ruben, e a carne enrugada e esfolada do Velho Harold cobria o corpo esfolado de Millie. Cada cadáver estava envolto em pele que não lhe pertencia.

Harold era diferente. Ele tinha sido a primeira vítima na cadeia, então não usava carne no corpo mutilado abaixo da garganta; em vez disso, uma camada amarelada de hipoderme estava exposta.

Pior ainda, e de forma impossível, ele ainda estava vivo.

Frio... — ele ofegou para mim, os olhos injetados de sangue cravados nos meus, enquanto massageava sua carne esfolada com mãos desprovidas de pele.

Lembrei-me da verdade. Harold tinha sido dilacerado por Millie. Millie tinha sido dilacerada por Ruben. Ruben tinha sido dilacerado por Jane. E eu deveria dilacerar Jane. Sentia o chamado para fazer isso. Sentia algo rastejando na minha mente. Nós não estávamos infectados pela névoa negra nas veias, mas isso não significava que estávamos em nosso juízo perfeito, como Harold tinha dito.

Entendi o que meu subconsciente tentava me dizer.

Havia algo no bunker conosco.

Algo no canto do cômodo.

Eu podia vê-lo dançando ao redor do contorno do corpo de Jane, como se a manipulasse das sombras. Manipulando-a de qualquer dimensão de onde viesse. Enquanto Jane me olhava friamente e sem ver, eu sabia que ela não estava por trás daqueles olhos; e também sabia que não havia como se esconder do arco-íris morto ou de sua névoa negra. Pessoa boa. Pessoa ruim. Não importava. Ele tinha vindo por todos nós.

Acho que, se você não quer me vestir — sussurrou Jane, com uma voz quebrada, enquanto se levantava trêmula, — então vou ter que vestir você, Eric. E aí vem o banquete.

As mãos dela foram rápidas, arranhando meu rosto como se fosse um animal. Gritei de agonia enquanto as unhas dela lascavam meu rosto, me marcando, e me joguei para trás, aterrorizado, com os braços se debatendo; e, com isso, derrubei a vela. Aquela vela alta, com seu pavio comprido. Ela fez um trabalho rápido em incendiar a mesa, os beliches e o sofá.

Um trabalho rápido demais.

Um trabalho antinatural, como tudo o mais. O fogo se espalhou tão rápido quanto a névoa antinatural pela nossa cidade e a sombra negra pelo nosso bunker. Não havia lógica nem razão para as chamas. Mas eu era grato por isso. Grato enquanto Jane e Harold eram consumidos pelas chamas, apesar de nenhum dos dois soltar gritos de dor. Eles iriam morrer, e eu estaria seguro. Era tudo o que eu pensava enquanto cambaleava para trás pelo bunker.

Millie e Ruben já estavam mortos há muito tempo, é claro, mas as chamas os assavam do mesmo jeito. E enquanto eu subia as escadas, com medo de desviar o olhar da forma possuída da minha ex-amiga, houve um último espetáculo aterrorizante. Jane e Harold ainda estavam, impossivelmente, vivos; e ela estava arrancando tiras de sua própria carne queimada do corpo, antes de envolvê-las ao redor da forma carbonizada e sem carne do velho.

Obrigado — ouvi Harold sussurrar enquanto eu abria a porta do bunker.

O homem em chamas agradecia à garota em chamas por cobri-lo com a própria carne, enquanto os dois queimavam vivos.

Corri para o jardim, voltando para uma noite de névoa negra, derramamento de sangue e gritos. É um milagre não ter inalado nenhuma daquela névoa, e um milagre ainda maior ter escapado do bunker em chamas antes que a coisa lá dentro conseguisse rastejar para a minha mente. Pelo menos, é o que eu digo a mim mesmo. Eu saí a tempo.

Mas, na verdade, não me lembro do mês seguinte. Não me lembro do que fiz enquanto esperava a névoa negra do arco-íris morto passar. Gosto de imaginar que me escondi dos monstros lá fora. Me escondi dos escombros em chamas do bunker no fundo do jardim, que só apagou completamente dois dias depois. Outra impossibilidade. A única memória que tenho é de medo quando as chamas se apagaram de vez, porque isso mergulhou o mundo exterior na escuridão total. Não havia mais nada para ver pelas janelas de Harold. Só preto e mais preto.

Há um vazio na minha memória. Acordei no chão do banheiro de Harold em janeiro de 2024, com a luz do sol entrando pela janela. A névoa negra tinha desaparecido, e não havia cadáveres nas ruas. Sinais de propriedade destruída, mas nenhum derramamento de sangue. Os poucos vilões que sobreviveram me disseram que tinham visto os monstros se transformarem em vapor e transcendarem para o céu, talvez se preparando para voltar daqui a vinte anos.

Mas a nossa vila não voltou a ser idílica nesse meio tempo. Talvez a antiga cidade litorânea de Harold seja diferente, mas duvido. Não existe coisa como "utopia". Não há alegria a ser encontrada nos períodos silenciosos entre os horrors. Não existe esquecimento. Não de verdade.

Eu sei que, como eu, os outros vilões sobreviventes estão simplesmente escolhendo não se lembrar.

Estamos escolhendo acreditar que não nos tornamos monstros também, por semanas a fio. Mas nos tornamos. Eu sei que nos tornamos. Não nos infectamos e desaparecemos no céu com o resto dos monstros vaporizados, mas nos tornamos monstruosos do mesmo jeito; controlados por qualquer escuridão que eu vi lá naquele bunker. Qualquer escuridão que se esgueirou pelas frestas da porta reforçada e se escondeu nas sombras entre nós, nos levando a nos dilacerar uns aos outros.

Os outros vilões terão histórias como a minha. Histórias de algo que roubou seus corpos para cometer atrocidades terríveis e aterrorizantes até que a névoa negra finalmente se dissipasse. Veja, o que eu mais tento esquecer, acima de tudo, é o banheiro de Harold.

Acordei no chão, rodeado por sangue, sujeira e tiras de carne. Algumas daquelas imundícies estavam nas minhas roupas e debaixo das minhas unhas.

Nada daquilo era meu.

Jantar de Domingo

Desde que me entendo por gente, sempre foi só eu e minha mãe. Meu velho sumiu do mapa, e, sempre que eu insistia no assunto, minha mãe me soltava algum comentário evasivo do tipo "a gente tá melhor sem ele". Quando criança, eu ficava curioso sobre ele; todos os meus amigos tinham pai, então me sentia um pouco estranho por ser o diferente. Com o tempo, cheguei numa idade em que isso não parecia mais tão importante, e, como minha mãe nunca falava dele, acabei esquecendo o cara. Depois disso, me mudei, arrumei um emprego, encontrei uma esposa e me tornei pai, mas ainda assim reservava toda noite de domingo para visitar minha mãe no jantar.

A casa da minha mãe sempre foi tão alegre e cheia de vida, assim como ela mesma. A velha era a alma da festa, e dificilmente tinha um momento chato por lá. Mas, há mais ou menos um ano, comecei a notar pequenas coisas nas minhas visitas semanais. Coisas mínimas, como a casa, que antes estava sempre impecável, agora tinha pratos sujos empilhados na pia, ou as cortinas, que antes ficavam sempre abertas para deixar a luz entrar, agora estavam sempre fechadas. O jeito dela também foi mudando com o passar dos meses: o pavio ficou mais curto, e o senso de humor parecia diminuir a cada semana.

Foi mais ou menos nessa época que minha mãe começou a sair com um cara novo, o Frank. Ela já tinha mencionado ele de passagem algumas vezes ao longo dos anos, então eu sabia que os dois se conheciam há um tempo, mas não fazia ideia de que eram tão próximos — até que, certo domingo, cheguei para o jantar e fui recebido pelo próprio.

Desde a primeira vez que botei os olhos no Frank, ele me deixou desconfortável. Parecia normal, quase familiar de um jeito esquisito, como se fosse daqueles rostos que caem no "vale da estranheza", tirando a boca. Os lábios dele eram tão finos que praticamente não existiam, e a boca era tão larga que quase ia de uma orelha à outra, como um sorriso de Chelsea natural.

Com o passar das semanas, percebi que o Frank não era muito de conversar, a não ser pelo habitual "‘E aí, filho?" quando abria a porta para mim. E, o mais estranho, nunca o vi falar com minha mãe. Na verdade, a única vez que o vi sequer olhar para ela foi quando ela se virava para buscar algo para ele — outra bebida, o jantar. Nada daquilo me cheirava bem, mas a única hora que eu podia questionar minha mãe sobre isso sem ele por perto era pelo telefone, e toda vez ela me dizia: "É assim que ele é". Então, eu sorria educadamente e não criava caso. Contei para minha esposa sobre essas mudanças, mas ela também me disse para não me preocupar, que minha mãe sabia se virar.

Isso foi se arrastando por meses: a cada visita, a casa estava um pouco mais suja, mais escura e, eventualmente, mais úmida e fedida. Logo, comecei a temer a chegada do domingo. Os silêncios desconfortáveis, a escuridão sinistra e um cheiro tão forte que eu quase engasgava assim que o Frank abria a porta. "Problema no encanamento, rapaz", ele dizia, mas eu tinha certeza de que era algo mais. Algo sobrenatural.

Até que minha mãe parou de atender minhas ligações. Minhas visitas aos domingos não passavam de o Frank abrir a porta e me dizer que ela estava doente, ocupada ou fora por aquela noite. Semanas se passaram, depois meses, sem nenhum contato. Eu estava ficando seriamente preocupado. Cheguei a procurar a polícia várias vezes, implorando para que fossem até lá dar uma olhada, mas não tive nenhuma resposta.

Quando o inverno chegou, eu atingi meu limite. Fui até a casa da minha mãe e bati na porta com tanta força que quase a arrebentei. Nada. Bati de novo e de novo, por um tempão, mas nem um barulho de dentro. Depois de muito tempo, tive que desistir, mas, quando me virei para ir embora, ouvi um som: o clique da fechadura.

Meu alívio virou medo em segundos quando me virei e vi uma figura mal iluminada através da fresta da porta agora entreaberta.

— ‘E aí, filho?

Era quase um sussurro, mas inconfundivelmente o Frank.

Ele já tinha se dissolvido na escuridão antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa.

— Onde está minha mãe, Frank? — gritei para o vazio.

— Tá aqui, meu rapaz.

Entrei, e logo fui atingido por aquele cheiro podre, de coisa apodrecendo. Os olhos ardendo, a respiração sufocada, mal conseguia enxergar enquanto avançava pela casa que já foi tão bonita. Lixo cobria o pouco do chão que eu conseguia ver, mofo tomava conta das paredes, e o ar era tão pesado que mal dava para respirar.

— Mãe? — chamei. — Onde você está?

— Aquí dentro, filho — respondeu o Frank, vindo da sala.

Ao entrar no cômodo, consegui distinguir duas figuras no escuro: uma pequena, sentada no sofá, e outra grande — maior do que o Frank — parada perto da janela, com as cortinas bem fechadas.

— Fico feliz que você veio, rapaz — sussurrou a silhueta imponente. — A gente precisa ter uma conversinha.

Enquanto meus olhos se ajustavam à escuridão, vi a figura grande começar a ganhar traços: um rosto estranhamente familiar, lábios quase inexistentes e um sorriso inumano, de orelha a orelha. Era o Frank. Mas mais jovem e muito maior do que antes.

Aterrorizado, mal consegui balbuciar:
— Onde está minha mãe, Frank?

Ele não respondeu, só inclinou levemente a cabeça na direção do sofá. O que vi ali vai me assombrar pelo resto da vida.

Era minha mãe. Caída no sofá, a carne arrancada dos ossos, as entranhas espalhadas pelo chão, meio comidas. Me virei para o Frank, paralisado de terror.

— Agora é só você e eu, garotão! — ele gargalhou, cuspe voando daquela boca monstruosa, parecida com a de um lagarto.

Não sei como, mas consegui me recompor o suficiente para correr dali, longe daquele antro, enquanto o riso gutural do Frank ficava cada vez mais distante atrás de mim.

Não contei para ninguém o que vi naquele dia, exceto para minha esposa e a polícia. Duvido que minha esposa tenha acreditado em mim; acho que ela pensou que eu tive um surto psicótico ou algo do tipo.

A polícia foi até a casa, mas disseram que não encontraram nada. Tudo estava limpo, como se ninguém nunca tivesse estado lá. Nunca mais vi o Frank, mas, pouco tempo depois, comecei a receber cartas.

Cada uma dizia apenas: "E aí, filho, um abraço do Pai".

A Dama do Andar de Cima

Isso aconteceu no começo dos anos 90, quando eu tinha uns oito anos e minha irmãzinha, quatro. Meu avô tinha um grande amigo que havia falecido recentemente, e ele havia combinado de cuidar da casa da família do homem. Era um lugar antigo, que, aliás, foi demolido alguns anos atrás. Às vezes, talvez para dar uma folga para a minha mãe, meu avô nos levava lá para brincar. A gente levava nosso cachorro também, um Shetland sheepdog que a gente amava de paixão.

Uma coisa que eu lembro é que nosso cachorro nunca entrava na casa com a gente. Ele só rosnava para a porta e até tentava morder a gente se a gente tentasse levá-lo para dentro, com os pelos do lombo arrepiados. Então, a gente sempre tinha que deixá-lo preso do lado de fora quando entrávamos.

A casa tinha dois andares. Lá embaixo, um dos cômodos tinha um piano superlegal, além de fitas de 8 faixas e discos antigos que a gente podia ouvir. A gente passava horas lá, só tocando piano e ouvindo música. Às vezes, meu avô nos dava um balde de giz pastel na sala e a gente desenhava e coloria. Também tinha um computador antigo dos anos 90, com aquele jogo de paciência e um programa de pintura que eu adorava fuçar.

O quarto de cima era onde tinha algo estranho. Eu me lembro da sensação de subir lá — não era exatamente assustador, mas dava uma inquietação. Às vezes, eu subia sozinho só para sentir aquilo, embora não entendesse direito o que estava acontecendo. Hoje, olhando para trás, sei que tinha algo muito errado.

Um dia, a gente foi até lá e meu avô nos deixou dentro de casa enquanto ia cortar a grama do lado de fora. Eu estava brincando com o programa de pintura no computador, que ficava do lado da escada, e minha irmãzinha estava colorindo com giz pastel, como a gente sempre fazia. Daí, eu a ouvi conversando com alguém. Olhei para ela e vi que estava parada no pé da escada, olhando para cima e falando com alguém que eu não via.

Perguntei com quem ela estava conversando, e ela respondeu: "A moça de cima." Levantei e olhei, mas não vi ninguém. Quando falei para ela que não tinha ninguém lá, ela insistiu que uma mulher de vestido vermelho estava no topo da escada.

Eu me lembro de sentir aquela sensação de novo. Aquela inquietação. Não era medo, mas também não era normal. Como era criança, acho que não conseguia processar direito. Enfim, subi lá em cima e minha irmã me seguiu. Abri a porta do quarto de cima, que já estava meio aberta, e lá estava ela. Uma mulher de vestido vermelho, parada bem ao lado de uma portinha na parede. Aquela porta dava acesso ao sótão. Ela olhou direto para mim e disse: "Tem um trem de brinquedo e uns trilhos aí dentro que vocês podem brincar."

Ela parecia ter saído dos anos 50. O cabelo estava impecável, como se tivesse acabado de fazer, e ela usava luvas brancas compridas, quase até o cotovelo. Parecia uma rainha de concurso de beleza. Era muito bonita.

Abri a portinha do sótão e ela apontou onde estava o trem de brinquedo. Era uma caixa de madeira antiga. Entrei no sótão e peguei. Quando saí, minha irmã estava mostrando para ela os desenhos que tinha feito com o giz pastel. Olhei para a mulher e falei: "Peguei!" Por algum motivo, só continuei como se aquilo fosse normal. Sabia que ela era uma estranha, mas não reagi como deveria. Talvez fosse muito novo para entender, ou porque ela parecia tão simpática e bonita. Não sei.

Ela me ajudou a montar o trem e ligá-lo. Funcionou. Dava para ver que era um brinquedo antigo, mas eu achei o máximo. A gente ficou lá com ela por uns trinta minutos. Depois, ouvimos meu avô entrando na casa e chamando a gente. A mulher se levantou e disse: "Bom, preciso ir. Vocês dois vão brincar, e a gente se vê outra hora." Ela sorriu grande. Ainda consigo ver aquele sorriso enquanto escrevo isso. Ela foi até a portinha do sótão e entrou. Lembro de ter falado que estava quente lá dentro. Ela só acenou e fechou a porta atrás de si.

Minha irmã e eu descemos e encontramos meu avô. Ele fez uns sanduíches para a gente, e a gente contou sobre a moça e como ela tinha mostrado onde estava o trem. Ele garantiu que não tinha ninguém no sótão e que eu não deveria entrar lá sem ele, porque fazia muito calor. Acho que ele não deu muita importância. Provavelmente pensou que fosse uma amiga imaginária.

Lembro de ter subido lá de novo naquele dia, antes de irmos embora, para ver se ela tinha voltado. Chequei até o sótão. Não tinha ninguém. Lembro de ter ido para casa e simplesmente esquecido do assunto.

A gente voltou à casa algumas semanas depois. A primeira coisa que fiz foi subir para ver se ela estava lá. O trem ainda estava no lugar, junto com os desenhos que minha irmã tinha levado para mostrar para ela, mas não tinha sinal da mulher.

Naquele dia, minha irmã e eu tocamos piano e ouvimos música dos anos 50 em uma fita de 8 faixas antiga, como de costume. Tentei fazer meu cachorro entrar na casa com a gente, como sempre fazia. E brinquei no programa de pintura do computador, como sempre.

Enquanto pintava uma das minhas "obras-primas", algo chamou minha atenção pelo canto do olho. Era ela. Estava na escada, mais ou menos na metade do caminho entre o andar de cima e o de baixo. Ela fez um gesto para eu ir até ela, e eu fui sem pensar duas vezes. Usava o mesmo vestido vermelho, o mesmo penteado, tudo igual. Senti vontade de avisar meu avô que ela tinha voltado, mas primeiro a segui lá para cima.

Quando cheguei, minha irmãzinha já estava com ela. A mulher tinha mostrado para ela umas bonequinhas que estavam no sótão. A porta do sótão estava aberta. Ela me pediu para pegar uma coisa para ela lá dentro. Falei que meu avô não queria que eu entrasse, porque fazia muito calor. Ela garantiu que não tinha problema e apontou para uma bolsa bege, alguns degraus adentro, à esquerda. Pensei um pouco, mas não queria deixar meu avô bravo. Então, falei que precisava perguntar para ele se podia pegar. Ela só sorriu para mim. Naquele momento, comecei a descer a escada, mas senti que precisava levar minha irmã comigo. Acho que foi o instinto de irmão mais velho falando. Falei para ela vir comigo buscar o vovô.

Disse para a mulher que a gente já voltava e que então eu poderia pegar a bolsa para ela. Minha irmã e eu descemos e entramos em um dos quartos, onde meu avô estava assistindo a um jogo de futebol. Contamos para ele sobre a mulher de novo e que eu precisava pegar uma coisa para ela no sótão. Ele garantiu que não tinha ninguém lá em cima, mas subiu com a gente mesmo assim.

Quando chegamos lá, ela tinha sumido. Meu avô ficou um pouco chateado com a porta do sótão aberta e com mais brinquedos antigos espalhados, mas disse que eu podia pegar só mais uma coisa. Antes de entrar no sótão, olhei em volta procurando a mulher e a chamei, percebendo que nem sabia o nome dela. Meu avô, mais uma vez, garantiu que não tinha ninguém lá. Entrei no sótão e peguei aquela bolsa bege que ela tinha pedido. Tinha um cabide preso nela. Levei para o meu avô, que abriu o zíper e tirou algo de dentro. Era o vestido vermelho da mulher.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Não ia contar isso, mas aconteceu uma coisa quando eu era criança que nunca consegui explicar

Mais cedo, vi um post em que algumas pessoas nos comentários discutiam experiências paranormais reais que já tiveram. Quase comecei a digitar — mas hesitei. Algo aconteceu comigo há muito tempo que, com certeza, foi estranho. Não tenho certeza se chamaria de paranormal. Há outras palavras que me vêm à mente primeiro: perturbador, confuso, inesquecível, aterrorizante. "Paranormal" é mais difícil de afirmar com certeza.

Fui criado em uma família estritamente ateia. Meu pai era biólogo, e minha mãe faleceu de câncer quando eu tinha dois anos. Meu pai era pragmático. Histórias de fantasmas, casas assombradas, encontros espirituais, qualquer coisa religiosa — esses eram assuntos tabus. Ele sempre me dizia que havia uma explicação científica para tudo. Mesmo que ainda não a conheçamos, ela existe.

Acho que acredito nisso. Ou pelo menos sempre disse que acredito. Talvez seja só o que tenho me dito. Nunca vi nada que pudesse chamar de prova inegável do contrário.

Mesmo assim, há um incidente que ficou gravado na minha mente há mais de 40 anos — como um cachorro abandonado que nunca foi embora. Nunca consegui entender. Principalmente porque não faz sentido com nada que vivi desde então, ou com tudo que sei sobre como o mundo funciona. Se não fossem as pessoas na minha vida que se lembram daquele tempo — e se não fosse um recorte de jornal enterrado em uma caixa de coisas velhas — provavelmente teria descartado tudo como algo que imaginei. Mas aconteceu.

O que significou, ainda não sei dizer.

Se meu pai ainda estivesse vivo, ele diria que algo aconteceu também. Se ele acreditou na minha versão dos fatos, não sei. Mas ele se lembrou do evento até o dia da morte dele. Até há registros policiais sobre isso. O que segue é a minha lembrança honesta da coisa mais assustadora que já vivi. Não falo sobre isso há décadas. Vou contar exatamente como me lembro.

Tire suas próprias conclusões.

Cresci em uma cidade de cerca de 14 mil habitantes às margens do Rio Ohio, entre colinas ondulantes e florestas densas. Era um lugar verdadeiramente lindo — especialmente no início do outono, quando as folhas mudavam de cor e as colinas ardiam em dourado e carmim.

Como qualquer cidade pequena, tínhamos nossa cota de folclore. Histórias sussurradas em festinhas do pijama, murmuradas em bares depois de algumas doses. Havia uma sobre uma figura translúcida perto do rio, que diziam ser o fantasma da esposa de um capitão de barco a vapor dos anos 1800. Outra girava em torno de uma casa decadente no fim da rua onde minha prima morava. Alguns afirmavam que ela pertenceu a um pintor que fez um pacto com o diabo, e que suas obras amaldiçoadas ainda forravam as paredes tortas — esperando para sugar a alma de qualquer um corajoso (ou idiota) o suficiente para entrar e olhá-las.

Essas eram apenas algumas das histórias que assombravam nossos sonhos e nos mantinham acordados à noite.

Mas havia um mito que me assustava mais do que os outros. Diziam que algo — uma entidade — vivia na mata atrás do nosso quintal. As pessoas chamavam de Coração Negro.

Pra ser sincero, não me lembro de muitos detalhes da história em si. Só que era preciso tomar cuidado naquela mata, porque o Coração Negro poderia pegar você. Alguns diziam que era uma bruxa que vivia lá desde os anos 1700. Outros afirmavam que nem era humana. Não um "ela", não um "ele" — só algo diferente, algo de outro mundo.

Meu pai costumava dizer que era assim que a gente sabia que tudo era mentira. "Ninguém nem consegue contar a história direito", ele dizia. "Porque alguém inventou." Eu geralmente acreditava nele. Brincávamos naquela mata o tempo todo e nunca vimos nada estranho.

Mesmo assim... quando o sol se punha, a história me incomodava.

Principalmente porque a janela do meu quarto dava para o quintal — e de lá, eu tinha uma vista perfeita da linha das árvores. Costumava espiar pela cortina antes de dormir e me perguntar se ela — ou isso — estava lá fora, parada logo além da grama, escondida entre as árvores, esperando. Às vezes, imaginava um dedo longo e peludo se curvando em minha direção a partir das sombras, me chamando para sair.

Estou contando isso porque, na época, algumas pessoas disseram que o Coração Negro tinha algo a ver com o que aconteceu. Não estou dizendo que acredito nisso.

Mas também não estou dizendo que tenho certeza de que não teve nada a ver.

Enfim, estou divagando. Acho que estou adiantando, pra ser sincero. Não é fácil revirar tudo isso de novo. E, além disso, estou tentando entender como me sinto em relação a tudo isso enquanto escrevo.

Era outubro de 1984. Eu tinha nove anos.

Minha melhor amiga, Maura, morava três casas abaixo da minha. Estávamos de férias de outono e nos divertindo pra caramba. Como na maioria dos dias sem aula, passávamos o tempo fora de casa — da mata atrás do nosso bairro até a loja de doces na Rua Ponte, no centro da cidade. Mesmo depois do pôr do sol, podíamos ficar na rua, desde que não saíssemos da nossa quadra.

Maura e eu éramos melhores amigas desde o jardim de infância. Tínhamos dividido a mesma sala todos os anos. Nossas famílias se conheciam. Quando você tem nove anos, é impossível imaginar que sua melhor amiga um dia não estará mais lá — até algo forçar você a pensar nisso.

Às vezes, os amigos se afastam porque alguém se muda. O pai arruma um novo emprego. As famílias se mudam. Faz parte do crescer.

Mas o que aconteceu naquele outubro não era normal.

Já mencionei que nosso quintal levava até a mata. Isso não era incomum na nossa cidade. O lugar todo era praticamente cercado por floresta, exceto pelo lado onde corria o rio. Era fácil se perder naquela mata. Por isso, sempre tomávamos cuidado e garantíamos que pelo menos uma pessoa estivesse conosco.

Aquela parte específica da mata — logo depois do nosso quintal — tinha uma clareira escondida. Um campo imenso, cercado de árvores por todos os lados. Se você andasse uns 15 metros, chegaria lá. Mata densa no caminho, mas de repente ela se abria — e parecia que você tinha encontrado um mundo secreto. Grama dourada alta, balançando no vento. Pacífico. Isolado. E bem no centro do campo, um único e solitário bordo.

Amávamos aquela árvore. Costumávamos correr umas atrás das outras ao redor do tronco. Era tão grosso que não dávamos conta de abraçá-lo por completo. Geralmente, corríamos em círculos, tentando ver quem conseguia tocar as costas da outra primeiro.

Sempre começava da mesma forma. Cada uma ia para um lado oposto do tronco e contava até cinco. Depois, a perseguição começava. Eu gostava de fechar os olhos enquanto contava. Não era parte das regras — eu só fazia. Dava a sensação de que eu estava cortando o mundo por um momento. Quando os abria de novo no "um", estava concentrada só no jogo.

Naquele dia, assumimos nossas posições como sempre.

— Me avisa quando estiver pronta — eu disse.

— Pronta! — ela gritou do outro lado do tronco.

— Tá — respondi, e olhei para os meus pés. Comecei a contar em voz alta. — Um... dois...

E então — bem antes de dizer "três" — ouvi algo estranho.

Foi breve, sumiu quase tão rápido quanto apareceu. Um som, bem perto. Lembrava o bater de asas gigantescas, ou talvez um lençol estalando em uma rajada forte de vento. Mas era alto. E parecia perto. Pisquei, confuso, e instintivamente olhei para cima — mas só vi o dossel dourado balançando na brisa.

— Maura? O que foi isso? — gritei.

Nenhuma resposta.

Espiei ao redor do tronco, esperando vê-la espiando de volta. Não estava.

Andei ao redor da árvore — uma volta completa — e voltei ao ponto de partida.

Maura tinha sumido.

A princípio, fiquei só confuso. Mas a confusão rapidamente se transformou em pânico.

Girei devagar, escaneando toda a clareira. Nada. Nenhuma Maura. Nenhum movimento. Nenhum galho quebrado. O campo estava exatamente como segundos antes.

Mas quando meus olhos se fixaram na linha das árvores na extremidade oposta da clareira, senti um tipo de medo que ainda luto para explicar. Algo estava errado. Profundamente errado. Algo tinha acontecido que não deveria ter acontecido.

Gritei o nome dela.

Nunca mais ouvi minha voz daquele jeito. Não era um grito — era um uivo primal, cru. O som de algo se quebrando. Gritei de novo e de novo, mas sabia — de algum modo, na parte mais instintiva de mim — que ela não podia me ouvir. Mesmo que eu a tivesse visto momentos antes... ela já tinha ido.

Me lembro do que pensei. Mesmo com nove anos, meu cérebro tentou explicar logicamente. Mas cada teoria afundava sob o peso do que eu sabia: estávamos em um campo cercado por floresta. Do lugar onde estávamos, até um adulto rápido levaria pelo menos 30 segundos para correr da árvore até a mata. Eu tinha tirado os olhos dela por cinco segundos, no máximo. Ela não poderia ter saído correndo. Se alguém a tivesse agarrado e saído correndo, teria que ser mais rápido que um guepardo e mais silencioso que um sussurro. E mesmo assim — ela tinha sumido.

Então, fiquei ali, chorando. Gritando o nome dela. Gritando pelo meu pai.

E então, de repente, algo mudou.

Fui dominado por uma estranha vontade — de não olhar para cima. Não sabia por quê. Só sentia. Uma pressão no peito. Um aperto na garganta. Meu corpo me dizia: *Não olhe para o céu.*

E então me atingiu. Uma presença.

Era invisível, mas pesada. Densa. Opressiva. E irradiava algo que só consegui descrever como ódio. Ódio puro. Deliberado.

Mesmo agora, enquanto escrevo, os pelos da minha nuca se arrepiam. Minhas palmas suam. Porque me lembro vividamente.

Havia olhos em mim.

Não conseguia vê-los — mas sabia que estavam lá. Observando. Estudando. Aproveitando. A presença não estava no chão. Estava acima de mim. Eu estava a uns vinte passos da árvore. Já tinha olhado para cima quando ouvi o som pela primeira vez, e o céu estava vazio.

Mas agora... algo pairava sobre mim. Nenhuma sombra, nenhuma forma, nenhum contorno — mas estava lá. Podia sentir, pressionando para baixo. Parecia inteligente. Parecia ancestral. E queria que eu soubesse que estava lá. Tinha certeza de que estava aproveitando minha dor. Como se se alimentasse dela.

Sabia que estava em perigo. Perigo real. Imediato.

Fiquei paralisado. Não conseguia me mexer, nem gritar mais. Não sei quanto tempo fiquei assim.

E então ouvi a voz do meu pai me chamando. Ele tinha ouvido meus gritos e viera correndo.

Quando me alcançou, desabei nos braços dele, soluçando sem controle.

Depois, apaguei.

Os dias que se seguiram foram como aquele espaço entre sonhar e acordar — nebulosos, silenciosos, irreais.

Meu pai falou com a polícia. Muito. Eles também falaram comigo. Continuavam fazendo as mesmas perguntas, repetidamente.

— Você a viu sair andando? — Ela foi embora com alguém?

Só contei a verdade. Contei minha história.

Uma equipe de busca e resgate saiu naquele dia. Levaram todo o equipamento — cães, veículos, pessoas a pé. Deram aos cães o cheiro das roupas de Maura. Pentearam a floresta, uma e outra vez.

A busca durou dias.

Não encontraram nada. Nenhuma pegada. Nenhuma roupa rasgada. Nenhum objeto abandonado. Nenhum vestígio.

Sumida.

Como um truque de mágica. Puf.

Claro que questionaram todo mundo — qualquer um que estivesse por perto, qualquer um que já tivesse interagido com Maura. Mas não havia suspeitos. Nenhuma pista. Nem mesmo uma sombra de suspeita.

Acho que ninguém nunca realmente acreditou em mim. Porque as pessoas não simplesmente desaparecem.

Nunca contei a eles sobre a presença que senti naquele dia. Mesmo então, sabia que soaria absurdo demais. Eu mal conseguia entender sozinho. Ainda não consigo. Nunca senti nada parecido desde então.

Também nunca mais pus os pés naquela mata.

Por um tempo, me fechei. Fiquei quieto. Retraído.

Cerca de um ano depois, nos mudamos. Meu pai arrumou um novo emprego em Chicago, e acho que a cidade grande foi melhor para mim. Me deu outras coisas em que pensar. Algo mais rápido. Mais barulhento. A vida lá não deixava muito espaço para divagações.

O tempo também ajudou.

Não porque o tempo cura alguma coisa — mas porque o tempo força você a seguir em frente, querendo ou não.

Cresci rápido em Chicago. Eu e meu pai nunca mais falamos realmente sobre o que aconteceu. Ele acreditava em mim? Ele dizia que sim... mas não tenho certeza. Ele me amava. Sei disso. E não acho que ele jamais pensou que eu estivesse mentindo. Talvez achasse que me lembrava errado. Talvez acreditasse que bloqueei o que realmente aconteceu. Se tinha dúvidas, nunca as expressou.

Pelo menos, não para mim.

Agora há uma grande distância entre a pessoa que sou e aquele garotinho que eu era em 1984. E uma distância ainda maior entre Maura e eu.

Penso nela mais do que em qualquer outra coisa. Para onde ela foi? Foi levada? E, pior de tudo — como foi para ela?

Meu coração se parte por ela. E pelos pais dela.

Às vezes, gostaria de poder ver um vídeo do que realmente aconteceu. Como se houvesse uma câmera escondida na árvore que captou tudo. Sonho com isso às vezes. No sonho, vejo o que aconteceu — e é pior do que tudo que imaginei. Mas quando acordo, nunca me lembro do que vi. Só do medo. Só do peso dele.

É como se o que aconteceu fosse estranho demais — errado demais — para a luz do dia.

Enfim, essa é a minha história. Tenho certeza de que, para alguns, soa loucura. Mas se você chegou até aqui, obrigado por ler. Foi bom finalmente colocar isso para fora.
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