terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O Sol Não Desbota Mais

“Brick!” gritou o Jake.

A bola saiu rolando do campinho e desceu até perto do riacho. Era pra ter sido a minha bola, mas eu não estava a fim de subir de volta a encosta inteira só pra pegar a bola lá embaixo. O Jake já estava quase descendo a ladeira mesmo.

Eu pisquei e, quando abri os olhos de novo, estava escuro. Escuro de verdade, tipo meia-noite.

“Que porra tá acontecendo?!” gritou o Isaac.

Eu não tinha resposta pra ele. Esperei um grito do Jake, mas nada veio. Ficamos mais ou menos meia hora procurando por ele antes de começar a ficar realmente preocupados. A gente era criança na época. Não passava pela nossa cabeça que ele pudesse estar em perigo de verdade.

No final, decidimos ir embora pra casa. Hoje em dia eu nem lembro mais se a gente pretendia contar pros nossos pais que tinha perdido o Jake ou se simplesmente achamos que ele tinha voltado pra casa sozinho. Quando cheguei em casa, meus pais já me perguntaram se eu tinha visto o Jake. Depois me mandaram direto pra cama. Alguma coisa estava errada. Meus pais nunca tinham me mandado dormir sem tomar banho. Além disso, o jeito deles estava… diferente, meio estranho.

Não dormi bem aquela noite. Nem parecia que era tarde, mas como eu disse, estava um breu total lá fora, parecia meia-noite. No fim, acabei pegando no sono. Fui acordado de repente por uma luz de sol cegante entrando pela janela, como se fosse meio-dia. O relógio marcava 6:04 da manhã.

Aquilo me assustou pra caralho, mas logo lembrei das coisas estranhas que tinham acontecido na noite anterior. Alguma coisa estava muito errada. Desci as escadas e cumprimentei meu pai. Peguei pão e manteiga e fui até a torradeira. Vi um bilhete escrito: “Eu e sua mãe saímos cedo pro trabalho.” Aquilo não fazia o menor sentido. Meu pai estava na cozinha.

Virei pra trás e… não era meu pai. Era uma mulher. O queixo e a cor do cabelo eram parecidos com os da minha mãe… mas não era ela.

Perguntei quem ela era.  
Ela respondeu que era minha mãe.

Aquilo me deu um frio na espinha. Saí correndo pela porta, direto pro sol forte. A sensação de cansaço de quem acabou de acordar misturada com aquela luz de meio-dia me deixou enjoado na hora. A ideia de que minha mãe tinha sumido e que tinha uma impostora dentro da minha casa junto com meu pai não ajudava em nada. Comecei a passar mal de verdade. Meu pai me alcançou e eu desmaiei nos braços dele.

“Acorda, filho.”

Era a voz rouca do meu pai. O despertador marcava exatamente 9:30.

“O que aconteceu?”

“Não faço ideia do que você tá falando.”

“Mais cedo tinha uma mulher na nossa cozi—”

“Filho, sua mãe e eu acordamos há dez minutos. Você tá sonhando. É só isso.”

Desci as escadas. Já dava pra ouvir a televisão ligada na sala. Estava no canal de notícias. Uma repórter falava:

“Uma passageira chamada Tasha Wright precisou ser contida por um agente da Aeronáutica após derrubar três comissárias de bordo. Ela foi ouvida afirmando que seu filho foi ao banheiro do avião e não voltou.”

A imagem cortou para uma mulher chorando, sendo escoltada por dois policiais. Ela estava destruída, em prantos. Deu pena.

A repórter continuou antes de a imagem voltar pra ela:

“Não há registro de qualquer menino acompanhando Tasha em nenhuma das imagens das câmeras de segurança.”

O que mais chamou minha atenção foi que, em algum momento do desabafo da Tasha, ela disse algo na linha de que o filho dela tinha desaparecido assim que o sol sumiu. Igualzinho ao Jake. Acho que essas coisas não estão acontecendo só aqui.

No dia seguinte acordei por volta das 6h. Era segunda-feira, tinha aula. Lembro vagamente de acordar e ainda estar escuro lá fora, o que é normal pra essa hora. Mas quando me arrumei, tomei café e saí pra entrar no carro, o sol já estava lá em cima. Não era só “nascer do sol”. Parecia meio-dia pleno.

Pra deixar registrado: eu não considero mais isso coisas estranhas isoladas. Quando o rosto da minha “mãe” não estava certo, eu até tentei me convencer que era porque eu ainda não tinha acordado direito, ou que talvez tivesse sonhado aquela parte. Agora não tem mais como inventar desculpa.

Foi essa “mãe” que me levou pra escola naquele dia. Pelo retrovisor dava pra ver que ela passou a viagem inteira de olhos fechados e respirando fundo e rápido o tempo todo. Mesmo assim dirigia perfeitamente.

Quando chegamos na escola, ouvi um baque e depois um arranhão vindo do forro de compensado do sótão da minha casa. Isso já teria me assustado sozinho, mas o fato de eu estar a quilômetros de distância da minha casa e o barulho ter vindo do céu azul claro… aquilo foi aterrorizante de um jeito muito pior.

Virei pra me despedir de quem quer que estivesse dirigindo o carro da minha mãe, mas quando olhei pro banco do motorista, não tinha ninguém. A fila de desembarque atrás de mim estava cheia de carros, mas nenhum motorista. Só crianças olhando reto pra frente, com o olhar vazio.

Não tinha pra onde ir, então entrei na escola. Fui direto pro banheiro. Fiquei paralisado quando vi um corpo deitado no chão dentro da cabine grande que fica lá no fundo. Estava de pijama. Entrei na cabine e congelei. Era o corpo da minha mãe. Reconheci o pijama — era exatamente o que ela estava usando algumas noites antes, na noite anterior a tudo isso começar. Reconheci o rosto dela… em parte. Parecia que vários ossos do rosto abaixo do nariz tinham sido esmagados. Como se tivessem usado o “quebra-mandíbula” dos bombeiros na cara dela.

Não tem como descrever o que senti parado ali no banheiro ao lado do cadáver da minha mãe. Não sei se isso vem de cima, do espaço, ou de baixo, do inferno. Mas, quanto a mim e à minha cidade, estamos fodidos.

Se você passou por alguma coisa parecida com isso ou se tem acontecido coisas absurdas na sua cidade, por favor, comente aqui embaixo. Talvez ainda tenha esperança.

SOS

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Dormi na Entrada de uma Estação de Metrô. Eu Não Devia Ter Ficado...

Eu não devia ter passado a noite ali, mas Nova York engana a gente quando o sol se põe. As luzes, o barulho que nunca para, a falsa sensação de que você nunca está completamente sozinho. Pensei que, se encontrasse um canto protegido do vento, conseguiria aguentar até o amanhecer sem maiores problemas.

Eu não era um sem-teto. Ficava repetindo isso pra mim mesmo enquanto caminhava com a mochila nas costas. Eu tinha estudo, já tinha trabalhado, inclusive tinha passagem de ônibus comprada pro dia seguinte. Dormir na rua era uma decisão pontual, uma noite ruim numa vida que ainda dava pra consertar. Pelo menos era o que eu acreditava na época.

Escolhi a entrada lateral de uma estação de metrô fechada, uma daquelas que estão interditadas há anos por causa de uma obra que nunca avança. O vidro estava coberto de poeira e cartazes velhos, e a escada descia uns poucos metros antes de ser bloqueada por um portão gradeado. Ali o vento batia menos forte.

Encontrei várias caixas de papelão secas encostadas na parede, empilhadas em camadas. Não estavam jogadas de qualquer jeito. Alguém tinha arrumado com cuidado pra formar uma superfície mais ou menos uniforme. Hesitei por alguns segundos, mas o frio já estava anestesiando meus dedos e o orgulho sempre perde quando o corpo começa a fraquejar.

Estendi meu saco de dormir por cima, tirei as botas e as coloquei dentro da mochila pra não endurecerem, e entrei sem tirar a roupa. O chão ainda transmitia o frio acumulado durante o dia inteiro, que subia devagar pelas minhas costas e se instalava nos ossos. Desliguei o celular pra economizar bateria e fiquei encarando o reflexo opaco do meu próprio rosto no vidro sujo.

Nova York continuava viva lá em cima. Carros, um grito distante, o barulho dos últimos trens passando embaixo da terra. Me tranquilizava pensar que, mesmo que ninguém pudesse me ver, eu estava cercado de gente.

Caí num meio-sono, aquele estado desconfortável em que o corpo descansa, mas a mente fica em alerta. Foi quando ouvi passos. Não sei se isso aconteceu antes ou depois de eu fechar os olhos.

Não eram passos normais. Não tinham ritmo. Eram arrastados, lentos, com uma irregularidade que não combinava com alguém simplesmente andando. Sentei dentro do saco de dormir e escutei. Os passos pararam exatamente na entrada da estação.

Prendi a respiração. Eu não devia ter dormido na rua. Agora me arrependia de não ter ido pra um albergue. E tudo isso pra economizar uns trocados.

Passaram-se vários segundos. Depois, um som diferente: uma expiração longa e profunda, muito próxima. Abri um pouco o saco de dormir e espiei.

Tinha um homem parado na minha frente.

Não dava pra saber a idade dele. Podia ter trinta anos ou sessenta. Era muito magro, de uma magreza doentia, com as roupas penduradas como se tivessem sido colocadas num corpo que já não existia mais. Usava uma jaqueta rasgada e tinha as mãos enfiadas nos bolsos. A pele era opaca, meio acinzentada, e os lábios estavam roxos.

Ele me encarava.

“Tá frio aqui”, ele disse.

A voz era rouca, mas não fraca. Tinha algo estranho nela, um eco seco que parecia não vir só da garganta.

“Meu nome é Daniel. Tô só passando a noite”, respondi. “Amanhã de manhã eu saio.”

Não sei por que senti necessidade de me justificar.

O homem abaixou lentamente a cabeça.

“Eu também já passei noites aqui”, ele disse. “Muitas.”

Ele deu um passo na minha direção. Senti um cheiro azedo e velho, uma mistura de umidade com algo mais difícil de identificar.

“Não quero confusão”, acrescentei, começando a sentir o medo subindo no estômago.

Ele sorriu. Não era um sorriso amigável. Era uma careta que mostrava dentes tortos e muito gastos.

“Ninguém quer confusão”, ele respondeu. “Ninguém quer ficar aqui.”

Ele se abaixou com dificuldade e apoiou uma mão no chão, bem em cima das caixas de papelão. A mão atravessou uma das camadas e tocou diretamente o concreto.

“Aqui que eu dormia”, continuou. “Bem aqui.”

Enfiei a mão na mochila sem tirar os olhos dele e tirei um cantil pequeno.

“Toma”, falei. “Pro frio.”

O homem olhou pro metal, surpreso. Por um momento achei que ele ia aceitar, mas ele balançou lentamente a cabeça.

“Não”, respondeu. “Eu parei de beber há muitos anos.”

Guardei o cantil, constrangido.

“O álcool acabou comigo”, ele completou. “Mais do que o frio jamais conseguiu.”

Não soube o que responder. Apenas balancei a cabeça em silêncio. Ele me olhou de novo e, pela primeira vez, não vi ameaça no rosto dele, apenas uma coisa que parecia um cansaço muito antigo.

“Toma, isso vai te ajudar a aguentar as noites na rua.”

Ele me entregou uma santinha da Virgem Maria. Estava amassada e desbotada. Coloquei no bolso do casaco.

O vento parou de repente, como se alguém tivesse fechado uma porta invisível. Minha respiração não formava mais nuvem grossa e senti o casaco começando a esquentar de novo.

“O que você quer?”, perguntei, com a voz tremendo.

Ele levantou o olhar e encontrou o meu.

“Não quero nada”, disse. “Já levaram tudo de mim.”

Ele se levantou com dificuldade e deu mais um passo na minha direção. Foi aí que vi claramente: os pés dele não tocavam exatamente o chão. Flutuavam uns poucos centímetros acima, o suficiente pra explicar o som arrastado de antes.

Tentei me levantar, mas o corpo não obedecia. O frio tinha anestesiado minhas pernas e o medo me paralisou por completo.

“Eu peguei no sono”, ele continuou. “Achei que aguentava até o amanhecer. Igual você.”

O rosto dele chegava cada vez mais perto. Senti uma pressão no peito, um peso invisível que impedia a respiração normal.

“Eu não senti o carro”, ele sussurrou. “Só o impacto. Depois esse frio. Sempre esse frio.”

Gritei. Ou tentei. Nenhum som saiu.

O homem estendeu a mão e colocou sobre meu peito. Não senti pele, mas o frio ficou insuportável, atravessando como um choque elétrico.

“Não se preocupa”, ele disse. “Sempre tem um momento em que a gente para de sentir.”

Ele retirou a mão devagar. O frio ficou, mas já não perfurava o peito com a mesma violência. Ele me olhou por mais alguns segundos, como se quisesse se certificar de algo.

“Não fica”, disse. “Se você ficar, não vai ser comigo que você vai se encontrar.”

Depois ele deu um passo pra trás.

Depois outro.

A silhueta dele começou a perder contorno, como se a luz que vinha da rua não conseguisse alcançá-lo direito. O som arrastado voltou, suave, cada vez mais fraco, até sumir completamente na escuridão da escada.

O silêncio voltou.

Não lembro quando voltei pro saco de dormir. O cansaço caiu em cima de mim de repente, pesado, e fechei os olhos sem pensar. O frio ainda estava lá, mas já não era a única coisa que eu sentia. Dormi mal, aos pedaços, com sonhos confusos e a sensação constante de que estava prestes a acordar.

Foi um barulho que me tirou do sono.

Não era batida. Era um murmúrio distante, o começo do dia entrando pela rua. O primeiro trânsito. Uma persiana sendo levantada. O amanhecer.

Sentei com dificuldade. Meu corpo doía, rígido de frio e má postura. Juntei o saco de dormir e a mochila como deu e comecei a subir as escadas pra saída da estação, querendo sair dali o mais rápido possível.

Quando já estava quase na rua, senti um empurrão forte nas costas. “Porra”, murmurei, antes de perder o equilíbrio. Não foi tropeço. Foi um golpe claro, intencional.

Perdi o equilíbrio e caí de cara, batendo a canela na borda da calçada. A dor explodiu no tornozelo quando caí mal. Gritei e levei a mão na perna, sentindo ela começar a inchar.

Tentei me levantar, mas antes que conseguisse, alguma coisa agarrou meu pé. Não senti mãos. Não senti dedos. Senti uma força disforme me puxando pra trás com uma precisão que não tinha nada de humano. Tinha algo na forma como me segurava que não era mão, mas também não era nada que eu conseguisse nomear.

Fui arrastado pelo chão, direto pro meio da rua. As rodas de um carro passaram a centímetros da minha cabeça.

Chutei com toda força, arranhando o asfalto com as mãos, enquanto aquela pressão puxava meu tornozelo com uma determinação cega e insistente.

Aí eu vi. Um carro vinha descendo a rua, ainda devagar, mas se aproximando. Os faróis me cegaram por um instante e entendi, com uma clareza gelada, que não estava tentando me segurar: queria me arrastar um pouco mais. Só o suficiente.

A força puxou de novo, me guiando pro centro da via, exatamente pro ponto onde as rodas não teriam como desviar. Ouvi o motor se aproximando. O asfalto vibrava embaixo do meu corpo.

Gritei, mas o som se perdeu no barulho do trânsito que acordava a cidade. Por um segundo, tive certeza absoluta de que não ia me soltar.

Sem querer, toquei o bolso onde estava a santinha.

E então, de repente, a pressão sumiu.

Fiquei deitado na rua, coração disparado e tornozelo pegando fogo, exatamente quando o carro freou a centímetros do meu corpo. Por alguns segundos, só conseguia ouvir minha própria respiração.

Depois, um barulho diferente. Uma vassoura arrastando no chão.

“Ei”, disse uma voz. “Calma. Não se mexe. Meu nome é Mike.”

Virei a cabeça com dificuldade. Um homem de colete refletivo vinha vindo da calçada, me olhando preocupado.

“Achei que você ia se matar”, ele completou. “Você estava muito perto.”

Tentei sentar, mas o corpo parecia pesado.

“O que aconteceu?”, perguntei.

O varredor de rua se apoiou na vassoura e me olhou com uma mistura de reprovação e alívio.

“Você teve sorte”, respondeu. “Um carro quase te pegou. Você rolou dali”, ele apontou pra entrada da estação, “como se alguém tivesse te empurrado.”

Coloquei a mão no peito. Debaixo da roupa, a pele estava gelada e dolorida.

“Não tinha ninguém lá”, murmurei.

O varredor ficou em silêncio por alguns segundos.

“É o que todo mundo diz”, respondeu por fim. “Mas aquele não é lugar pra dormir. Nunca foi.”

Ele olhou fixo pra entrada da estação e acrescentou:

“Não faz muito tempo, um carro atropelou um cara que dormia naquele vão. O nome dele era Walter. Não incomodava ninguém. Sempre deixava as caixas de papelão bem arrumadinhas e recolhia tudo de manhã antes de sair.”

Fez uma pausa breve.

“Alguns de nós levavam café pra ele quando estava muito frio. Era gente boa.”

“Falavam que ele estava bêbado”, o varredor continuou. “Por isso que não viu o carro vindo.”

Balancei a cabeça devagar.

“Ele não bebia”, falei. “Ele me disse ontem à noite.”

Mike parou de varrer.

Me olhou sem surpresa, sem descrença. Apenas sustentou meu olhar por alguns segundos.

“Então você viu alguma coisa”, disse.

Não respondi.

“Escuta”, ele acrescentou. “Nunca usa álcool pra se aquecer. Ele engana a gente. Faz a gente dormir. E aí acontece o que acontece.”

Ele apontou o queixo pro canto da rua.

“Vai no Joe’s Diner. Fica ali mesmo. Fala que foi o Mike que mandou. Pede um café com panqueca. Por minha conta.”

“Não precisa”, comecei a dizer.

Ele sorriu.

“E pede também um sanduíche de bacon, ovo e queijo”, completou. “Um de verdade.”

Fiquei sem palavras.

“Isso resolve seu café da manhã e almoço de hoje”, ele disse, voltando a pegar a vassoura. “Se quiser mesmo me agradecer…”

Ele olhou pra cima uma última vez.

“Dorme num albergue hoje à noite.”

Voltou a varrer, encerrando a conversa.

Levantei devagar e fui embora sem olhar pra trás. Quando passei pela entrada da estação, vi as caixas de papelão de volta no lugar, limpas, alinhadas, esperando outra pessoa acreditar que era só frio.

Lembrei da santinha. Olhei com atenção.

Era a Virgem de Covadonga.

Se o que eu tinha visto era o fantasma do Walter, como era possível que eu agora tivesse isso nas mãos?

O que era aquela força que queria me jogar debaixo das rodas de um carro?

Tenho certeza de que o Walter tentou me proteger dela.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Eu nasci no escuro, sem mãe

Ninguém que eu conheci na vida jamais viu luz do sol, nem céu. Nunca sentimos nada sob os pés além de piso de metal enferrujado coberto de merda e todo tipo de víscera que você possa imaginar.

Eu nasci ali e passei toda a minha infância ali. Tínhamos tempestades e tornados, mas não eram do tipo que vocês conhecem.

Tínhamos trovões que apertavam o estômago, seguidos de clarões de luz, mas nossos raios tinham propósito e eram violentos, matando muitos de nós de uma só vez. Quando você ouvia o trovão, tentava se esconder, mas nunca adiantava — criaturas enormes agarravam nossos amigos pelos tornozelos e os arrastavam embora.

Nossos amigos e vizinhos gritavam quando eram pegos e nunca mais víamos aquelas pessoas.

Eu nunca senti cheiro de outra coisa além de merda e sangue. Eu não tenho mãe. Todo mundo que eu conhecia tinha a minha idade. Nenhum de nós sabia sequer o que era uma mãe, mas ainda éramos bebês, com aqueles impulsos primitivos de mamar, chorar por calor, por colo. Mas esse desejo nunca foi atendido. Com o tempo a gente desistiu e começou a roer o próprio corpo. Mamávamos sangue e pus uns dos outros.

(Aqui, enquanto escrevo isso, eu me perco um pouco do lugar onde estou agora.)

Tem agonia em todo canto que você olha. Se você entrasse dentro do meu corpo, ia ver. Gente com os olhos pingando sangue e pus, rostos tão contorcidos de sofrimento que você deseja matar só pra acabar com aquilo. Sete anos de idade e pisando no corpo caído de um colega que, por azar, ainda está respirando. Ele tem um olho só, mas esse olho está esmagado no chão dentro de um monte de merda. O outro é uma bagunça de carne queimada e pus escorrendo. Eu bebi aquilo, de tanta fome. Só parei quando os gritos atravessaram o meu transe de inanição. Vomitei e comi o vômito logo em seguida.

Lembro de piscar saindo de um torpor e ver aquele corpo… e então caiu a ficha de que era a minha própria boca aberta, a língua tentando fracamente enrolar a minha própria merda pra dentro da minha boca ensanguentada. Eu não tinha o que vomitar — nem comida, nem água — e já estava acostumado com isso. Só dor. Nada além de dor.

Você consegue imaginar? O que foi a minha infância? Eu fui salvo daquele lugar — ninguém que conheci depois disso passou por lá, embora alguns tenham sido resgatados de infernos parecidos. Parece que esses pesadelos são comuns entre as pessoas que se parecem comigo.

Fui escolhido por acaso, por uma sorte doentia que eu agradeço todos os dias, apesar da dor no estômago de ter deixado todos eles pra trás. Tento me convencer que foi só um pesadelo horrível, só pra conseguir me curar, sobreviver e, quem sabe um dia, realmente viver.

Mas eu não fui salvo direto daquele inferno. Fui resgatado depois que o tornado-e-relâmpago me levou. Depois que eu descobri o que acontecia com quem era agarrado por aquelas garras de metal.

É isso que eu lembro.

Senti o aperto nos tornozelos quando fui erguido de cabeça pra baixo e pendurado na linha de produção. À esquerda e à direita tinha outras pessoas, uivando, chorando, se debatendo. Eu nem tinha percebido que estava gritando até sentir a garganta rasgar de dor e a voz secar completamente.

Eu estava apavorado. É muito difícil escrever sobre isso, e levou uma década até eu conseguir ao menos tentar colocar no papel o que vivi naquele lugar.

Não consigo escrever sobre a viagem entre o momento em que fui agarrado e o que veio depois. Não agora. Não consigo reviver aquilo. Mas lembro do balanço, dos gritos, da merda que a gente tinha que comer pra sobreviver.

Preciso seguir em frente.

Tinha medo demais. Muita gente não sabe, mas dá pra sentir cheiro de medo. É um fedor característico, inconfundível. Tem um azedume estranho. Estava em todo lugar, por dias seguidos. Meus pés pegaram micose no meio do lixo que cobria tudo. Minha garganta ficou tão seca que eu nem conseguia gemer. Eu só queria dormir, mas as frestas nas paredes gritavam e piscavam cores doentias a cada poucos segundos. Acabei desmaiando e acordei com o olho esquerdo piscando dentro de merda e mijo. Alguém estava pisando na minha bacia, mas eu estava fraco demais pra fazer mais que um arquejo.

Quando eu acordei…

O mundo estava mais claro do que eu jamais tinha visto na vida. Eu estava de cabeça pra baixo, todo o sangue descendo pra cabeça. Criaturas enormes se moviam ao meu redor. Fazia incontáveis dias que eu não comia nem bebia.

Com esforço levantei a cabeça pro lado esquerdo. Tinha alguém pendurado ali. Do lado direito, outro. Mas daquele lado… meu Deus. Vi uma lâmina giratória brilhando, encharcada de sangue e pedaços. Ela foi se aproximando.

O som que fez quando encontrou o pescoço de alguém três corpos antes do meu vai ficar na minha cabeça enquanto eu viver.

O grito dela virou um gorgolejo.

O sangue saiu do pescoço em fitas. A boca dela tremia sem som e congelou. O corpo foi jogado bruscamente pra longe. Fechei os olhos, a garganta seca demais pra gritar —

A esteira parou de repente. Gritos guturais vinham de todas as direções. Eu tentava desesperadamente sair do meu próprio corpo. Inspirei fundo tentando tirar o cérebro do delírio.

“Acordei”, digamos assim, dentro de uma gaiolinha minúscula. Mal cabia o comprimento do meu corpo encolhido. Pensei: morri.

Eu estava num estado de dor tão grande que perdi a sanidade. Arrancava as penas do ombro, bicava meus próprios pés até encharcar a toalha embaixo de mim. Não lembrava disso na hora, mas descobri depois que eu batia a cabeça nas grades da gaiola até quebrar a crista. Acabei desmaiando de novo.

Faz alguns anos que estou livre. Nunca tentei contar pra ninguém o que passei. Nunca tentei escrever. Acho que no melhor dos casos vão me ridicularizar, e no pior vão me machucar ainda mais. Mas eu preciso tentar, porque meus irmãos, minha família, meus amigos ainda estão lá fora, e eles nunca vão ser livres enquanto nada mudar.

Sou paraplégico. Algo conhece a minha casa melhor do que eu

Um acidente de esqui me roubou os sentidos da cintura para baixo, e, pra ser sincero, me sinto um idiota por causa disso. Enquanto algumas pessoas nascem assim ou ficam doentes, eu me diverti demais e fui descuidado o suficiente para perder o que outros rezam todos os dias para ter.

Isso aconteceu há uns nove anos. Desde então, o desespero e o luto pela perda da minha mobilidade diminuíram. Você nunca supera de verdade. Só aprende a viver a vida em torno dessa sensação horrível, como se estivesse andando pela sala contornando um pedregulhão gigante que você não consegue mover. Sempre no canto do olho, mas você só aceita que é assim que vai ser. A pior parte era que eu sempre descobria coisas novas que havia perdido. No começo, você pensa que ser paraplégico significa não poder andar ou dançar, mas, com o passar dos meses, dos anos, você descobre dezenas de pequenas perdas e percebe que, basicamente, está perdendo uma vida inteira. Depois de um tempo, eu já tinha trabalhado o suficiente com a minha terapeuta, então hoje eu diria que estou bem mentalmente.

Eu odiava depender de alguém e me sentia humilhado se alguém tentasse me dar banho ou me ajudar no banheiro, mas graças a Deus pela tecnologia moderna — meus pais conseguiram investir uma grana pesada para tornar a minha casa acessível. Não tenho um andar de cima, só um sótão que praticamente nunca uso e um porão onde lavo roupa e guardo outras tranqueiras.

Nos últimos meses, algo estranho começou a infiltrar no meu bem-estar mental. Nunca tinha pensado no lado sinistro de ser deficiente.

Sabe aquele medo que você tinha de dormir com as pernas de fora ou penduradas para fora da cama? Pensando que algo poderia agarrá-las no escuro? Pois é, no meu caso, às vezes me pergunto se isso aconteceu e eu simplesmente não senti. Se algo passou por elas e eu não percebi.

Contei isso para uma amiga e ela riu, dizendo: "É, e se algum maluco lamber os seus pés no meio da noite e você não sentir? Ele pode até achar que você gostou."

Ela foi de uma ajuda incrível, é claro, mas a minha preocupação também era meio ridícula desde o início.

Certo?

Nos últimos meses, também comecei a me preocupar com o meu bem-estar físico. E se eu estiver ficando mais fraco? Como será a minha vida daqui a dez anos, se já percebo que, aos incríveis 27 anos, fico mais cansado só de passar da cama para a cadeira de rodas todos os dias?

Sério. Você sabe como eu me levanto de manhã: a minha cama se inclina e eu me transfiro para a cadeira de rodas. Como acontece com paraplégicos, as minhas mãos ficaram mais fortes, e isso não costuma ser difícil. Ou pelo menos não era. Comecei a ter dificuldade para sair da cama de manhã. Como se aquilo não fosse a coisa mais fácil do mundo.

Minha confiança levou um baita baque quando percebi isso, mas, há algumas semanas, me levantei meia hora depois de ter ido para a cama e foi tão fácil quanto eu lembrava. Isso me fez pensar. Então comecei a prestar atenção na posição da minha cadeira de rodas pela manhã.

E notei que ela estava um pouco mais longe da cama.

Não o suficiente para eu perceber de imediato, mas o suficiente para me fazer lutar. Será que eu a empurrava sem querer enquanto dormia? Não, ela é bem estável. Brinquei comigo mesmo que alguém estava mexendo nela para me sacanear.

Essa piada foi tão engraçada que ficou na minha cabeça o dia todo.

Outra coisa estranha aconteceu enquanto eu tomava banho. Ouvi um barulho no corredor e passei o resto do tempo tentando entender o que era. Já estava no meio do banho quando aconteceu, e não é como se eu pudesse sair correndo do chuveiro e jogar uma toalha para verificar. Então, depois que terminei, saí do banheiro e não encontrei nada fora do lugar. Mesmo assim, não me senti aliviado.

Ontem, a minha faxineira veio aqui. Ela subiu no sótão para pegar os produtos de limpeza e desceu completamente em silêncio, sem falar comigo o dia todo. Perguntei o que tinha acontecido, e ela me deu uma resposta passivo-agressiva do tipo: "Sei que você não pode facilitar o meu trabalho, mas eu agradeceria se não jogasse todas as suas tranqueiras no sótão." Achei engraçado, já que o sótão não tem um IPL (achamos que seria caro demais instalar um), então a única pessoa que sobe lá é ela. A única forma de eu subir seria escalando as escadas com as mãos, e não sou fã dessa ideia.

Ela vive reclamando, então não levei muito a sério. Ela fica irritada comigo por eu ser deficiente, como se fosse culpa minha. São as duas coisas que as pessoas sentem por você: pena e irritação, quando você está no caminho delas.

Dei um jeito de ignorar. Ela foi embora sem se despedir, então imaginei que estava só tendo um dos seus piripaque. Ainda não sei que tipo de bagunça a irritou tanto no sótão.

Sinceramente, sinto que estou ficando maluco. Hoje acordei com as meias tiradas, e tenho certeza de que estava com elas quando fui dormir. Sinto o sangue latejando nos ouvidos por causa da tensão, e a tontura do medo me dominou completamente. Ainda estou tentando me lembrar se as tirei, mas não consigo.

Tenho mais do que certeza de que não tirei.

Tão certo quanto estou do barulho na minha casa.

Tão certo quanto estou do fato de que não ouvi a minha faxineira sair ontem.
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