quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Silêncio de Rádio

A viagem de volta pra casa foi mais silenciosa do que eu gostaria. O vento sacudia meu Saturnzinho 99 como se fosse uma lata amarrada atrás de uma bicicleta, e o rádio estava morto desde mais ou menos 2010. Jess me encarava de lado, e eu sentia o olhar dela queimando na minha orelha. Tentei ignorar o máximo que consegui, mas a estrada era longa e reta, e o vento não era distração suficiente pra justificar deixar aquele olhar no vácuo.

“Sim, amor?” perguntei, tentando soar desarmado. Eu já sabia exatamente o que ela estava pensando; era a mesma conversa que a gente tinha tido pelo menos quatro vezes. Toda vez que saíamos pra jantar e algum amigo anunciava noivado, eu era submetido àquele olhar de sniper que não combinava nada com uma professora do ensino fundamental.

“Quanto tempo faz, Blake?” perguntou ela. A voz não estava irritada. Era pior: estava triste, arrasada.

“Quanto tempo faz o quê? A gente tá dirigindo…” Olhei pro celular no colo, o que me rendeu um tapa forte no ombro. “Tá, tá, dez e dois, olhos na estrada. Uns vinte minutos, mais ou menos. Ainda faltam umas ho—”

“Não é isso que eu tô perguntando, e você sabe muito bem, porra.” Ela cortou. Arrisquei uma olhada de canto e só vi a nuca dela. Estava olhando fixo pela janela, furiosa. Suspirei e coloquei a mão no joelho dela.

“Você tem razão. Mas você já sabe o que eu vou dizer, Jessamess. Nenhum de nós dois tá em condições de casar agora. Quer dizer, minha carreira inteira foi pro caralho depois daquele acordo desastroso do Elderson, e você não ganha o suficiente pra bancar nós dois.” Pelo menos isso fez ela virar o rosto pra mim. Também fez ela tirar minha mão da perna dela. Pois é, ganha-se uns, perde-se outros.

“É. Eu sei. Mas faz sete anos, Blake. Sete anos. Ano passado era porque você tava correndo atrás de promoção, antes disso era porque você não ganhava o bastante, e antes ainda era porque você queria voltar a estudar. Qual vai ser a desculpa no ano que vem?” Caralho, doeu. Senti aqueles olhos cor de café com creme de avelã queimando a lateral da minha cabeça como queimadura de sol. Só suspirei, abri um pouco a janela e peguei um cigarro no console central. Apertei o isqueiro. Um clique metálico satisfatório depois, tirei o isqueiro quente e encostei a bobina laranja incandescente na ponta do meu cigarro premium cheio de câncer. Mal dei a primeira tragada profunda e gostosa, Jess me deu outro soco no braço.

“Porra! Que isso?!” gritei, quase perdendo o controle do sedã verde-musgo na estrada de duas faixas. Estiquei o cigarro pra fora da janela, a fumaça ainda saindo dos meus lábios franzidos. Dessa vez nem olhei pra ela. Sabia que ela tinha passado do estágio de chateada e entrado direto na zona de Jessica Realmente Puta da Vida. Mantive os olhos na estrada. Aquela faixa longa, reta e monótona de asfalto preto cortando o meio do nada absoluto do Kansas. Mas antes que minha namorada — talvez noiva — pudesse responder, o rádio no console acendeu. Uma luz âmbar saiu da telinha velha, mostrando um “12:00” piscando.

“Que porra é essa—” Jessica começou, mas foi interrompida quando o rádio explodiu em ruído branco. Desviei o carro, tirei a mão livre do volante e girei o botão de volume pra baixo. Não adiantou. O rádio continuou berrando estática, os alto-falantes do carro trovejando com o som de radiação cósmica que, de algum jeito, a antena tinha captado e transformado em ondas chiando e estalando. Jessica enfiou o dedo bem cuidado no rádio, tentando calar aquele treco morto há anos, mas nada. Nenhum botão funcionava. O mostrador digital da frequência começou a subir: 87.9, 99.5, 100.3, tudo estática. Subiu cada vez mais rápido, os números passando num piscar tão veloz que meus olhos mal acompanhavam. 105.1, 109.9, 111.1.

Consegui jogar o carro de volta na faixa da direita bem na hora que um par de faróis passou voando na contramão. Virei a cabeça pra olhar, depois voltei rápido pra estrada e pro rádio, nessa ordem. 135.6. 178.3. 245.7. Frequências impossíveis, muito além da faixa que qualquer emissora usaria ou qualquer rádio conseguiria sintonizar. O visor acelerou ainda mais, piscando, enquanto a estática continuava num ritmo estranho que quase acompanhava o uivo do vento nos meus ouvidos. 999.9. O visor travou ali, mas eu tinha certeza de que o rádio ainda estava varrendo todas as frequências possíveis até sabe-se lá onde.

E então, ouvimos uma voz.

“Bem-vindo, caro ouvinte, à transmissão desta semana de Silêncio de Rádio. Fico muito feliz que você tenha podido se juntar a mim. No episódio de hoje, vamos refletir sobre ‘Obsessão’. Obrigado e aproveitem o silêncio.”

A voz era um barítono calmo, sereno. As palavras pareciam manteiga derretida e cera quente ao mesmo tempo. Olhei pra Jess. Ela estava quase em pânico, me encarando como se rezasse em silêncio pra aquilo tudo ser uma pegadinha elaborada. Balancei a cabeça. E então, ouvimos o silêncio.

A voz parou, sim. Mas com a ausência dela veio o silêncio. O ronco do motor, o barulho familiar dos pneus no asfalto, o vento uivando desde que entramos naquela estrada de merda de duas faixas — tudo sumiu. Não só isso. O som da minha respiração, da respiração dela, o sangue pulsando nos ouvidos. Aqueles barulhinhos da boca que a gente só percebe em quarto silencioso. Nossas porras de batidas do coração. Tudo. Tudo morreu e nada tomou o lugar. A falta repentina de qualquer som era avassaladora. Era um ataque aos sentidos de um jeito que eu nunca imaginei possível.

Era ensurdecedor.

Eu gritei. Ou acho que gritei. Senti a dor na garganta, senti o ar sumindo dos pulmões, senti os dentes trepidando na cabeça, mas não ouvi nada. Do meu lado, Jessica batia nas próprias orelhas com as palmas das mãos, sacudindo a cabeça loucamente. Continuei gritando. Ou acho que continuei. O carro derrapou pra esquerda, depois pra direita, até o vento agarrar e nos jogar pra fora da estrada.

Eu via o céu noturno acima de nós, as estrelas girando até virarem o chão de repente. A planície reta ao redor girou em sincronia, virando o céu. O silêncio continuou gritando, nosso mundo virou de ponta-cabeça. O tempo pareceu parar quando entendi o que tinha acontecido.

O som de metal rasgando e vidro esmagando nunca veio. A dor, porém, veio. Devo ter desmaiado, porque acordei de cabeça pra baixo. Sangue endurecido na cabeça, o braço esquerdo inteiro uma lança de agonia queimante. Tentei olhar pra direita, pra ver Jess, mas não conseguia mexer o pescoço. Estava de cabeça pra baixo, preso no cinto. O carro cheirava a fumaça, e eu sentia gosto de bile na boca. O console estava derretido, os botões do rádio fundidos no plástico ao redor. Fios soltando faíscas. A voz voltou.

“Esta foi mais uma transmissão de Silêncio de Rádio. Eu, mais uma vez, sou o Locutor. Nos vemos em breve, Jessica.”

Eu engasguei. Voltei a ouvir. Primeiro sirenes, distantes, mas subindo de tom conforme se aproximavam. Depois estalos. O carro? Estava pegando fogo? Batidas. Batidas fortes. Do lado de fora da minha porta. Virei a cabeça pro único lado que conseguia, à esquerda, e vi Jess batendo desesperadamente na minha porta. A perna direita dela estava torcida pra trás e inútil, mas ela continuava socando a porta, uma mão apertando a orelha. “Je-ssica…” consegui falar finalmente.

Ela olhou em choque. De dor. Do acidente. De voltar a ouvir. Caiu pra trás, soluçando e apertando as orelhas. Eu sorri e apaguei de novo.

Isso foi há duas semanas. Vou poupar vocês dos detalhes sangrentos e chatos da internação. Acordei depois de várias cirurgias e fui imediatamente cercado pela polícia. Respondi as perguntas deles com a maior honestidade possível, incluindo a transmissão bizarra e a ausência total de som depois. Eles dispensaram como delírio de motorista com concussão grave tentando culpar o acidente em qualquer coisa. Cerrei os dentes, mas assenti. Era mais fácil assim. No fim, levei multa por direção perigosa (ha ha ha) e a culpa caiu em mim e nos famosos ventos de primavera do Kansas.

Jessica teve alta três dias antes de mim. Perna quebrada, costelas machucadas, nariz quebrado. Ela veio me visitar quando saiu, a primeira vez desde o acidente que eu conseguia realmente olhar pra ela. Deu um sorriso meio sem força e disse que voltaria amanhã. Beijei a bochecha dela e pedi pra ela descansar.

Ela não apareceu no dia seguinte. Nem no outro. Bombardei o celular dela no Facebook, liguei, mandei Snapchat, tudo. Ela não estava online em lugar nenhum. Liguei pro trabalho dela, mas tinham liberado mais duas semanas pra ela descansar em casa. Liguei pra mãe dela, que mora em Nebraska. Ninguém a via desde que ela voltou pra casa. Eu estava enlouquecendo. Será que teve alguma complicação? Já vi House M.D. o suficiente pra imaginar cem coisas diferentes que poderiam ter matado ela.

No dia que me liberaram, tive que pegar Uber. Fui direto pra casa dela e subi mancando o mais rápido que as muletas permitiam. A porta da frente estava destrancada. Girei a maçaneta e empurrei com o ombro. O cheiro me atingiu primeiro. Engasguei, vomitei pro lado. Nem tinha cruzado a soleira ainda, mas o fedor que vinha de dentro era nauseante. Cheiro de esgoto e amoníaco. Tampei o nariz, limpei a boca e gritei pra dentro.

“Jessica, pelo amor de Deus, que cheiro é esse?!” berrei. Pra minha surpresa e horror absoluto, algo respondeu. Um grunhido baixo, gorgolejante. Não era reconhecimento, era mais o som de um animal com dor. Mordi o lábio por dentro, me preparei e escancarei a porta. Meus olhos lacrimejaram com o fedor cru, e senti gosto de sangue. Entrei mancando.

“Jess? Jessica, que porra é essa?! Você tá aí?” Outro gemido gorgolejante. Meu coração pareceu subir pra garganta e cair no estômago ao mesmo tempo. A adrenalina disparou, inundando meu corpo machucado com reação de luta ou fuga, mas minha mente travou. Olhei a sala. A bolsa dela estava jogada no sofá. O celular e um pacote de chiclete tinham caído da abertura aberta. Cambaleei mais pra dentro, olhando a cozinha ao virar o corredor. A geladeira estava aberta, e pelo menos parte do mistério do cheiro estava resolvida.

Comida podre e fétida dentro da geladeira, que já não estava nem remotamente fria. Talheres e pratos de uma refeição meio feita na bancada, e um peito de frango parcialmente cozido boiando numa frigideira cheia do próprio caldo podre. Outro vômito, outro passo pra trás saindo da cozinha. Algo estava muito, muito errado ali.

Voltei da cozinha nas muletas e na perna boa. Beleza. Um pesadelo resolvido. Agora era achar minha namorada e entender o que diabos tinha acontecido. Fui pelo corredor curto até o quarto dela e bati na porta com os nós dos dedos.

Dessa vez não veio gemido gorgolejante. Só um grito agudo, estridente. Empurrei a porta.

E entrei no inferno.

O quarto dela. Meu Deus, o quarto lindo da minha Jessamess. Sempre impecável. Organizado. Ela brincava que me fazia dormir no sofá se eu deixasse meia no chão. Mas agora o quarto era um manicômio. O chão coberto de manchas de origem indefinida. O assoalho de madeira parecia empenado por líquidos derramados, manchas escuras que talvez já foram comida em outras partes. Meus olhos subiram pras paredes. A tinta tinha sido arrancada em riscos longos e arranhados. Meus olhos desfocaram enquanto meu cérebro tentava aceitar o que via. Ela tinha riscado palavras na parede pintada.

É ALTO DEMAIS

EU AINDA CONSIGO OUVIR ELES

ELES ESTÃO DENTRO DOS MEUS OUVIDOS

OS SURDOS AINDA CONSEGUEM OUVIR É ALTO DEMAIS ALTO DEMAIS ALTO DEMAIS

O cheiro estava pior, de algum jeito. Pior que na cozinha. Atordoado, virei pro lado da cama encostada na parede do fundo. Lá estava ela. Minha Jessica. Meu amor. Sentada na cama, dentro de uma poça do próprio excremento. Um radinho transistor estava na cama à frente dela, e ela encarava ele. Aquele rádio não podia mais funcionar. Estava coberto quase até o alto-falante de fezes humanas liquefeitas. Então percebi que o rádio nem estava ligado na tomada.

Jessica. Pobre Jessica. Estava sentada de pernas cruzadas na cama, a sujeira cobrindo-a na depressão que o peso reduzido drasticamente do corpo dela fazia no colchão macio. A pele parecia pendurada nela. Esquelética. Os olhos injetados, marcas vermelhas longas de arranhões descendo de cima deles quase até o queixo. O cabelo caindo aos tufos, emaranhado nos fones de ouvido grandes que estavam plugados no rádio. A perna quebrada estava dobrada debaixo dela, e dava pra ver mesmo dali que tinha inchado e escurecido embaixo do gesso. Estava submersa naquela poça de merda líquida, mas os olhos dela ainda estavam fixos no rádio. Não tinha como tudo isso ter acontecido em três dias.

Eu gritei, e a cabeça dela virou rápido. Os olhos estavam selvagens. Ela rosnou, lábios rachados e sangrando se abrindo sobre dentes cinzentos e quebrados. “ALTO!” berrou, a voz seca e esfarelada como pergaminho antigo. Eu tremi. Cheguei mais perto, em vez de fugir. “Alto demais. Alto demais. Alto DEMAIS.” Ela chamou de novo, os dedos descoloridos tentando girar os botões do radinho sem força.

“Tá tudo bem, Jess. Sou eu, o Blake.” sussurrei. “Deixa eu… deixa eu chamar ajuda pra você. Tá bom?” Ela sibilou de novo e levou as mãos de volta pros fones. Apertou eles contra as orelhas e balançou a cabeça.

“Ainda alto demais alto demais alto demais alto demais…” disse ela, quase sem som. Fiz careta. As pontas dos dedos dela estavam sangrando. Cheguei mais perto, ao alcance do braço. Meu Deus, ela tinha desgastado sulcos nos botões do rádio. Larguei as muletas, a dor subindo pela perna. Devagar, devagar, estendi as mãos e segurei as dela por cima dos fones. Ela chorou. Grandes soluços sacudindo o peito afundado, mas nenhuma lágrima saiu dos olhos vermelho-sangue.

“Vamos tirar isso, tá? Vamos chamar ajuda.” falei só com os lábios, sem som. Ela balançou a cabeça de novo. Fechei os olhos, respirei fundo e puxei contra as mãos dela. As pontas dos meus dedos agarraram o plástico barato dos fones, e com um puxão forte, arranquei com toda a força que tinha.

Ainda lembro dos sons de rasgar. Estalos. E o grito dela.

Os pulsos dela quebraram como gravetos secos enquanto ela resistia. Depois os fones se soltaram. Sangue escorreu do rosto dela onde eu arranquei os fones. Puxei eles pra longe enquanto ela gritava, olhando pros pulsos dela, depois pra mim. Quase deixei cair de puro choque, mas então vi a linha fina, amarelo-pálida, conectando a cabeça dela aos fones. Estava manchada de vermelho.

Eu gritei. Jessica uivou. E eu larguei os fones. Eles caíram no chão com um barulho, o cordão fino e fibroso do nervo auditivo dela se rompendo. Olhei em terror absoluto pros fones. Dentro deles estavam as orelhas dela. E o que só podia ser a cóclea. Tudo tinha crescido pra dentro dos fones, invadindo frestas e espaços como uma infecção. A cóclea tinha se enrolado nos drivers, pequenas terminações nervosas amarelo-pálidas brotando como trepadeiras subindo pelas linhas mais grossas do headset. Ela olhou pra mim, depois pro headset deformado e profano. Avançou pra pegar, mas os músculos atrofiados falharam. Caiu da cama, derramando dias de fezes e bile do colo. Bateu a cabeça no chão. Outro estalo nauseante. Mas a essa altura eu já estava dessensibilizado. Eu ri. Ela gorgolejou uma respiração, mãos inúteis grudadas em pulsos quebrados ainda tentando alcançar o headset.

Ela engasgou, depois ficou imóvel. Eu ri de novo. Era impossível. Era impossível. Nada daquilo era real. Peguei as muletas e comecei a sair. Mancando, cheguei na sala e liguei 911. Não fazia ideia de como explicar o que eu tinha acabado de ver. Parte de mim torcia pra polícia me fuzilar quando entrasse, mas eles abriram a porta com calma, mandaram eu ficar parado e foram pro quarto. Os sons de nojo e confusão, seguidos de gritos e vômitos, me disseram que acharam o quarto certo. Chamaram o legista. Fui levado sob custódia.

Fui interrogado uns vinte minutos depois. As fotos que me mostraram eram pálidas perto das que estavam queimadas na minha mente. Ainda vejo elas quando fecho os olhos. Toda memória da Jessica agora tem aquela… coisa sobreposta. O interrogatório foi estranhamente calmo. Eu ainda estava em choque demais pra falar qualquer coisa absurda, e minha história batia. Fui liberado, mas mandaram ficar na cidade e esperar contato ou visita. Assenti e fiquei olhando fixo pra foto da parede da Jess. Tinha algo errado, mas eu não conseguia identificar o quê.

Então caiu a ficha. Ali, na parede cheia de rabiscos arranhados, a mesma parede que eu vi pessoalmente, tinha uma frase parecida. Mas uma palavra estava diferente.

“OS MORTOS AINDA CONSEGUEM OUVIR.”

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Uma coincidência que levou a uma possessão

“Nada importa quando você está na praia vivendo o sonho que nunca imaginou que se tornaria realidade!”, dizia a mulher no comercial. Eu não conseguia parar de pensar em quem não gostaria de uma vida assim. Eu só queria chegar em casa e dormir. Os turnos da noite eram os piores para mim. Eu trabalhava como ajudante de cozinha em um restaurante, e meu trabalho era uma merda: levava bronca quando os ingredientes acabavam ou quando as entregas de hortifrúti atrasavam. Naquela noite, levei a cartela completa: produto ruim que chegou estragado e eu levando esporro por erro de outra pessoa.

O trem do metrô seguia zumbindo e eu olhava a cidade passando sem o menor interesse. Havia poucas pessoas no vagão, nada chamava atenção e eu preferia assim. Chegou minha estação, desci. Eu era o único — o que não era estranho, já que eram 3 da manhã. Comecei a caminhar em direção às escadas para sair da estação quando as vi: uma mãe e uma filha paradas no fim do corredor, olhando para a cidade. Pareciam qualquer moradora de rua da cidade — sujas, perdidas. Não dei importância e segui para as escadas. Foi quando senti um cheiro estranho.

Eu conhecia muito bem aquele cheiro: carne podre. Era tão característico que tive de parar de novo e olhar em volta. Tentei identificar de onde vinha, mas não consegui. Olhei para ver se o casal ainda estava lá, mas elas tinham sumido. Isso começou a me deixar arrepiado. Apressei o passo para as escadas e ignorei qualquer outra coisa. Ao chegar às escadas, lá estavam elas de novo, agora na base, olhando para cima, na minha direção. Seja lá qual brincadeira de mau gosto fosse aquela, eu não queria participar. Continuei descendo as escadas e fiz o possível para ignorá-las. Na base, passei direto por elas. O fedor de carne podre estava tão forte que tive de levar a mão à boca. Não olhei uma segunda vez e segui andando.

Enquanto passava pelas lojas fechadas e outros prédios, eu tinha a sensação constante de que estava sendo seguido. Olhava para trás e não via ninguém além do normal. As ruas estavam silenciosas àquela hora da madrugada. Apressei o passo até o prédio, olhando para trás de tempos em tempos. Chegando ao edifício, parei na entrada para olhar em volta: ninguém. Ao me virar para entrar, lá estavam elas outra vez — paradas na frente do elevador, me encarando. Seus rostos pareciam encovados, como se não comessem há dias ou semanas; a pele quase branca, as roupas rasgadas em vários lugares e imundas. Meu apartamento ficava no segundo andar. Ao vê-las, mudei de direção e fui para a escada. Elas me observavam. Eu não fazia ideia de como tinham conseguido me ultrapassar na rua e não queria parar para perguntar.

Subindo as escadas, eu ficava olhando para baixo e para cima o tempo todo, verificando se estavam me seguindo. Toda aquela situação estava me deixando apavorado. No segundo andar, espiei pela porta até o corredor para ver se tinham usado o elevador. O caminho estava livre. Entrei, caminhei até meu apartamento e comecei a mexer nas chaves. Minhas mãos tremiam tanto que encontrar a chave certa virou uma missão. Chegando à porta, abri os três trincos enquanto mantinha um olho aberto para elas. Abri a porta e foi aí que o cheiro me acertou em cheio: carne podre. Dei um pulo para trás e quase gritei.

O apartamento estava escuro, com pouca luz entrando do corredor e das janelas. Procurei ver se havia algo lá dentro que pudesse ser a fonte do cheiro, mas não enxergava nada. Entrei devagar, passando a mão na parede à procura do interruptor. Encontrei e acendi as luzes. O apartamento estava exatamente como eu havia deixado no dia anterior: nada fora do lugar, nenhuma evidência de que alguém tivesse entrado. O cheiro ainda pairava no ar. Tampei o nariz e a boca com a mão e comecei a vasculhar o lugar à procura da origem.

Não havia nada no apartamento que pudesse estar causando aquele fedor. As saídas de ventilação eram pequenas demais para eu abrir e verificar. Saí do quarto e lá estavam elas, paradas na pequena sala de estar. Perguntei o que queriam. Elas apenas ficaram lá, imóveis. Perguntei como tinham entrado no apartamento, mas não se mexeram. Eu estava começando a ficar mais irritado do que com medo.

Avancei até ficar a um passo delas e perguntei, em voz mais alta:

— Que porra é essa com vocês duas? Por que estão me seguindo?

Nada.

— Quem caralho mandou vocês?

Nada.

Avancei para agarrar a mulher e, antes que eu pudesse tocá-la, uma onda de dor me atingiu como se um caminhão tivesse me atropelado. Fui jogado para trás e bati na parede. Elas não se mexeram, só continuaram me encarando. A dor começou no peito e se espalhou por todo o corpo. Era como se eu estivesse sendo esmagado por dentro. A sensação era amortecida, mas ao mesmo tempo minha força estava sendo sugada. Caí no chão e perdi a consciência.

De repente, me vi em algum tipo de campo. Parecia uma encosta de morro. O céu era de um cinza estranho, sem vento, apenas uma paisagem parada e imóvel.

Eu não conseguia entender por que ou como tinha chegado ali. Só sabia que estava parado, confuso. Comecei a andar em uma direção qualquer e percebi que minhas pernas se moviam, mas o chão não. Olhei em volta tentando entender o que estava acontecendo e então percebi que estava afundando. O solo parecia mãos agarrando minhas pernas e me puxando para baixo. Gritei com a sensação de ser arrastado para baixo. Tentei me segurar em alguma coisa e percebi que estava segurando uma mão — e aquela mão também estava me puxando. Seja lá que sonho doentio fosse aquele, eu não entendia nada. Só sabia que estava sendo puxado para baixo.

Acordei gritando. Olhei em volta: as duas tinham sumido e já era dia claro. Peguei o celular — estava descarregado. Verifiquei o horário: 11 da manhã. Eu já estava atrasadíssimo para o trabalho, mas nem liguei. Olhando para baixo, vi terra e grama grudadas nos meus pés. Peguei uma folha de grama e era idêntica à do sonho. Seja lá o que aquelas duas fossem, eu não queria descobrir. Levantei e praticamente corri para fora do apartamento. Depois de alguns passos, parei, voltei, tranquei a porta e continuei correndo escada abaixo. Lembrei que havia um templo no caminho para casa e decidi que era minha melhor opção.

No caminho, comecei a notar que os rostos das pessoas pareciam estar derretendo. O mundo inteiro parecia estar se desfazendo na minha frente. Eu não conseguia andar em linha reta sem esbarrar em pessoas ou objetos. Finalmente cheguei ao templo. Procurei um padre e o encontrei. Contei tudo o que tinha acontecido. O que ele respondeu não fez sentido na hora porque desmaiei de novo.

Acordei em um quarto, deitado sobre um tatame. Aos meus pés, um único incenso queimava. Tentei me sentar, mas uma dor aguda nas costas me fez cair de volta. Tentei falar, mas minha garganta ardia com o esforço. O padre entrou e sentou-se ao meu lado.

— Percebi que algo se agarrou à sua alma enquanto você tentava falar comigo. Era como se três pessoas estivessem falando ao mesmo tempo. Quando recitei uma oração, você desmaiou. Precisei purificar sua alma e seu corpo. Parece que duas almas perturbadas escolheram possuí-lo. Não sei quem elas podem ser, mas se você não tivesse vindo até aqui como veio, temo que elas poderiam ter tomado conta de você completamente.

Tentei falar novamente, mas não consegui. Ele me deu um copo d’água e depois um chá quente. Isso aliviou a dor e, finalmente, consegui contar toda a história da noite anterior. Ele ouviu em silêncio. Quando terminei, a única coisa que perguntou foi em que dia aquilo tinha acontecido. Respondi que foi na madrugada de quinta-feira. Ele me disse que era terça-feira. Eu tinha ficado inconsciente por cinco dias. Fiquei em choque total.

— Você precisará ficar aqui por mais um dia para que possamos completar as orações. Caso contrário, elas podem tomar conta de você por completo. Ainda é um mistério quem elas são, mas vou lhe dizer uma coisa: o cheiro que você mencionou pode significar que você passou por cima do local onde elas foram enterradas ou que você foi a última pessoa que elas viram antes de morrer.

Expliquei que eu era apenas um ajudante de cozinha em um restaurante, não um assassino. Mesmo assim, ele insistiu que tudo poderia ser apenas uma coincidência. Tudo o que sei é que perdi meu emprego e poderia ter perdido muito mais se não tivesse ido ao templo como fui. Seja qual for o caso, tive sorte de continuar vivo.

O Frio Interior

Foi quando comecei a perceber o frio de verdade que meus dentes começaram a bater enquanto eu escovava os dentes.  
Minha mandíbula estava tremendo forte, e precisei parar e me apoiar na pia para me equilibrar.  
Cuspi, enxaguei e fiquei ali com a torneira aberta, encarando meu próprio rosto no espelho.  
O espelho tinha uma leve névoa, mesmo sem eu ter tomado banho.

Saí para o corredor e conferi o termostato. Setenta e cinco graus. O aquecimento estava ligado, e dava para ouvir o ventilador funcionando.  
Coloquei a mão na saída de ar da sala. Saía ar quente. Até aí tudo certo, estava funcionando.  
E, mesmo assim, o apartamento ainda parecia errado, como se tivesse uma janela aberta deixando entrar corrente de ar.

Resolvi verificar, começando pela vedação da porta da varanda, passando a palma da mão pelas bordas. Nada.  
Depois fui para a tranca da janela do quarto. Estava bem fechada. Em seguida, o batente da porta da frente.  
Mas não encontrei nada que explicasse por que o frio continuava grudado na minha pele.

Disse a mim mesma que era um daqueles dias de inverno em que o prédio simplesmente ainda não tinha conseguido acompanhar, mesmo com o aquecimento ligado.

Era uma explicação fácil de aceitar.  
Até eu fazer café.

Despejei na xícara e envolvi a caneca com as mãos, esperando aquele calor familiar.  
A caneca estava quente. Eu sentia, mas as palmas das minhas mãos continuavam frias do mesmo jeito, e quando coloquei a caneca na mesa, surgiu um leve anel branco, como respiração em vidro.  
Tentei limpar com o polegar e percebi que não borrou. Parecia mais geada.  
Fiquei olhando um tempo, depois dei de ombros.

Coloquei a caneca de volta exatamente no mesmo lugar, segurei com as mãos e contei até dez.  
Quando levantei de novo, o anel estava lá outra vez.  
Me aproximei e vi cristais minúsculos se formando na borda, granulados e pálidos.

Meu primeiro pensamento foi que a mesa estava fria.  
Isso não fazia sentido, porque a mesa estava dentro de um apartamento aquecido.

Depois de decidir que já tinha perdido tempo demais, puxei o moletom mais para perto do corpo e voltei ao trabalho.

Trabalhar de casa normalmente me cai bem. Sem trânsito, principalmente com neve, e nunca gostei de papo furado com outras pessoas, seja no trabalho ou fora dele.  
Naquela manhã, porém, eu não conseguia me concentrar. Pequenas coisas ficavam me distraindo.  
As pontas dos meus dedos estavam dormentes no teclado. O touchpad atrasava sob minha palma. Eu levantava a mão o tempo todo e esfregava, tentando trazer a sensibilidade de volta.

Toda vez que eu expirava, minha respiração aparecia no ar.  
Isso não deveria estar acontecendo.

Levantei e voltei ao termostato. Coloquei a mão debaixo da saída de ar outra vez e senti o ar quente e constante.  
Bom, isso era estranho. Por que eu ainda sentia frio?

Peguei um cobertor no armário, enrolei nos ombros e tentei me aquecer.  
Peguei o celular e liguei para a portaria pedindo manutenção. Quando perguntaram o motivo, falei que tinha um vazamento em algum lugar do apartamento deixando entrar corrente de ar e deixando tudo gelado.

O Sean da manutenção chegou uns vinte minutos depois. Era um cara grande e sempre muito educado. Percebi o quanto isso era clichê.  
Ele entrou e olhou ao redor.

Conferiu a saída de ar mais próxima, depois o termostato.

“Você deixou em setenta e cinco?” ele perguntou.

“É.”

Ele balançou a cabeça. “Você tá tentando se cozinhar viva.”

“Tá frio”, eu disse, e me senti idiota falando isso.

Ele verificou o apartamento do mesmo jeito que eu tinha feito. Vedação da varanda. Janela do quarto. Batente da porta da frente.

“Sem corrente de ar”, ele disse. “O aquecimento tá funcionando. Posso fazer uma leitura se você quiser.”

Ele tirou um termômetro infravermelho pequeno e passou pelas paredes, pelo teto, pela saída de ar.

“Paredes normais. Teto normal. Saída de ar quente.”  
Passou mais uns minutos olhando e disse: “Senhora, tá realmente quente aqui dentro. O aquecedor tá funcionando direito e não achei nenhum vazamento. A senhora tem certeza de que não tá pegando uma gripe ou algo assim?”

“Tô bem”, eu disse.

Ele assentiu e pediu que eu assinasse a planilha de atendimento.

“Tem certeza de que está bem, senhora?” ele perguntou de novo.

“Tô bem, só que…” Parei no meio da frase quando percebi que ele estava olhando para as minhas mãos com preocupação.  
Meus nós dos dedos estavam pálidos, quase cinzentos, como se a cor tivesse sido sugada.

“É… acho que vou procurar um médico”, falei depressa.

“Se cuida, senhora”, ele disse antes de sair com a planilha assinada.

Entrei no banheiro e abri a água quente. Coloquei as mãos debaixo.  
A água estava quente, mas meus dedos não mudaram.  
Abri mais quente. Senti a ardência por um segundo brevíssimo, e depois o frio continuou lá.

Tirei as mãos e comecei a me perguntar o que estava acontecendo.  
Enquanto olhava para elas, notei uma linha fina na lateral do meu dedo indicador.

Uma rachadura.

Apertei o polegar contra ela. Não doeu, só uma resistência surda.  
Quando tentei dobrar o dedo, o movimento saiu lento e duro, como se algo dentro estivesse empurrando de volta.

Sentei na borda da banheira e fiquei encarando minhas mãos, tentando pensar sem deixar o pânico tomar conta.

Liguei para minha irmã.  
Ela atendeu no segundo toque, a voz animada como sempre.

“Oi, mana! O que houve?” ela perguntou.

“Você pode vir aqui?” falei na hora.

“Você tá bem?” ela perguntou, e dava para ouvir a preocupação repentina na voz dela.

“Tá frio aqui. Tem alguma coisa errada. Eu… não consigo explicar direito. Por favor, vem logo?”

“Claro”, ela disse baixinho. “Vou só arrumar alguém pra cobrir meu turno e já vou.”

Falei ok e desliguei.

Voltei para a sala e liguei a televisão. Tinha um monte de relatórios para digitar, mas não estava a fim.  
Uma das vantagens de ser freelancer: dá pra trabalhar no meu horário.

A cada poucos minutos, minha respiração aparecia de novo. Toda vez que acontecia, minha atenção voltava para aquilo.  
Como isso era possível? Não fazia sentido.

Depois de um tempo, comecei a sentir que o frio tinha se espalhado. Não estava mais só nas mãos.  
Agora eu sentia no peito, e percebi que estava ficando mais difícil respirar.

Foi aí que o pânico começou de verdade.

Enrolei outro cobertor em mim e aumentei o aquecimento para oitenta.  
O aquecedor disparou mais forte. O apartamento esquentou, mas o frio dentro de mim ficou.

Levantei e fui até a cozinha, depois encostei a palma da mão bem aberta na parede, só para ver o que acontecia.

Quando tirei, a marca da minha mão ficou lá.

Toquei nela.  
Geada.

Cada dedo estava contornado. Até a linha da palma segurou por um segundo antes de começar a sumir.  
Fiquei olhando até desaparecer.

Depois toquei meu próprio antebraço com a outra mão.  
A pele parecia uma lata de refrigerante recém-tirada da geladeira.

Que porra é essa? Minha mente procurava explicações. Pesquisar no Google também não ajudou.

Voltei ao banheiro e levantei um pouco a camisa, de frente para o espelho.  
Meu tronco estava pálido. A cor tinha sumido uniformemente.  
Meus braços, meu rosto, tudo parecia igual aos nós dos meus dedos quando assinei a planilha para o Sean.

Me aproximei mais e vi geada grudada nos pelinhos finos dos meus braços. Pegava a luz do banheiro e brilhava.  
Apertei dois dedos na minha barriga.  
A pele resistiu.  
Estava dura.  
Tentei beliscar, mas meus dedos não conseguiam agarrar.

Afastei do espelho e respirei fundo.  
O ar saiu da minha boca em uma nuvem grossa.

Então ouvi um som suave. Um estalo baixo, como gelo se acomodando.  
Veio da minha mão.

Olhei para baixo e vi uma segunda rachadura saindo da primeira, se espalhando em linha fina.  
Meus joelhos cederam, e acabei sentada no chão do banheiro, a cabeça girando enquanto minha mente tentava entender tudo.

Depois de um tempo, organizei os pensamentos e decidi que precisava sair dali e esperar minha irmã, talvez chamar emergência também.  
Levantei e fui até a porta da frente.

Minha mão fechou no puxador de metal, e senti uma sensação estranha.  
Quando puxei, não girou.  
Tentei de novo, nada.

Senti um formigamento na pele e percebi que minha pele estava congelando no metal do puxador.

Puxei a mão com força. O som foi molhado e errado, e por um instante achei que minha pele ia rasgar.  
Uma camada fina de geada cobria o puxador agora. Minha palma ardia com a dor atrasada, os nervos finalmente alcançando.

Tentei de novo, usando a manga como proteção, mas a porta continuou sem abrir.

Não era só o puxador.  
A fresta ao redor da porta tinha mudado. A estreita abertura junto ao batente estava cheia de gelo agora, a umidade congelada sólida onde a porta encontrava a parede.  
Dei um passo para trás e bati na parede do corredor. O frio se espalhou para onde meu ombro tocou, deixando uma mancha escura que foi se alargando devagar.

A luz do corredor piscou uma vez.  
Fiquei parada ali uns minutos, tentando não deixar os pensamentos correrem além do que realmente estava acontecendo.

Chegar até o sofá exigiu mais esforço agora. Minhas juntas estavam rígidas e pesadas.  
Peguei o celular e tentei digitar. Meus dedos se moviam, mas não onde eu queria. A tela escorregava sob meu polegar.

Consegui ligar para minha irmã de novo.  
Ela atendeu na hora, ofegante.

“Tô embaixo do seu prédio”, ela disse. “Já tô subindo. O que tá acontecendo aí?”

“Não consigo abrir a porta”, falei. As palavras saíram lentas da minha boca.

“Como assim não consegue abrir?”

“A porta tá congelada”, respondi.

“Espera, deixa eu subir”, ela disse, e a ligação caiu.

Conseguia imaginá-la subindo as escadas correndo em vez de esperar o elevador.  
Uns minutos depois, ouvi os passos dela no corredor, rápidos e irregulares.  
Ela chamou meu nome, depois xingou baixinho.

“A maçaneta tá congelando”, ela disse através da porta. “Tem gelo em volta de todo o batente. O que tá acontecendo, mana?”

“Não toca”, tentei gritar, mas minha voz saiu fina e falhada.

Meu celular vibrou de novo perto de mim. Sabia que era ela, mas não tinha força para pegar.

Queria dizer para ela não tocar em nada. Nem na maçaneta. Nem na porta. E definitivamente não em mim.  
O frio que estava dentro de mim agora se espalhava para tudo que eu tocava.

Mas as palavras não saíram.  
Minha língua estava grossa.

Quando finalmente consegui alcançar o celular, ele escorregou da minha mão e caiu no chão.  
Tentei pegar.  
Meus dedos se curvaram, mas não fecharam.

As rachaduras tinham se espalhado pelos nós dos dedos e pelas costas das mãos. Parecia que eu estava lutando uma batalha perdida.  
Minha pele tinha um brilho opaco. Lisa e dura.

Enquanto olhava para minhas mãos, a música do Foreigner veio na minha cabeça.  
A parte em que ele diz: “You’re as cold as ice.”

Dei uma risada curta e sem fôlego com a ironia da situação.

Sentia um cansaço pesado se instalando em mim.  
Encostei para trás e fiquei olhando o teto.

A geada saía rastejando da saída de ar acima de mim, se espalhando devagar.  
O aquecedor ainda estava ligado. Eu ouvia ele funcionando.  
Mas ia ter dificuldade para consertar a temperatura agora.

O som da minha irmã batendo chegou de novo, abafado e distante, como se viesse através de uma parede grossa.

“Você me ouve?” ela chamou.

Tentei responder, mas não consegui.

A voz dela começou a sumir enquanto eu sentia meus sentidos se apagando.  
Achei que ouvi chaves. Será que ela chamou a segurança do prédio?  
Houve um leve arranhar na fechadura.

Depois nada.  
Nem clique nem movimento.  
Só o silêncio e a música na minha cabeça: “You’re as cold as ice.”

Meus olhos foram para a mesinha de centro.  
A caneca ainda estava lá.  
O anel de geada embaixo dela tinha engrossado e virado um círculo sólido de gelo, liso e inteiro.

Fiquei olhando enquanto minha visão começava a embaçar e minha respiração ia ficando mais lenta.

No final, não senti pânico.  
Senti frio.

E o frio parecia firme. Como se sempre tivesse estado lá, só esperando o resto de mim alcançar.

A última coisa de que me lembro é de pensar na minha irmã parada do outro lado da porta, a mão perto da maçaneta, sentindo o frio anormal que emanava de dentro do apartamento.

Eu fui pescar no gelo no Rowforte Loch. Fui o único que voltou…

Preciso de conselho, e preciso rápido. Mas primeiro, deixa eu explicar o que aconteceu hoje.

Meu nome é Noah, e eu acabei de sobreviver a uma coisa que não consigo explicar. Estou sentado na minha caminhonete agora mesmo, com o aquecedor no máximo, as mãos ainda tremendo enquanto digito isso no celular. Eu deveria estar ligando pra alguém. Pra polícia, talvez. Mas quem vai acreditar no que eu vou contar?

Tudo começou como uma simples viagem de fim de semana pra desestressar depois de uma semana de merda no trabalho. Eu pesco no gelo desde moleque, e tem alguma coisa meditativa em ficar sentado dentro de uma barraca num lago congelado, esperando uma fisgada. Sem sinal de celular, sem e-mail, só você e o gelo.

Cheguei no Rowforte Loch por volta das 7 da manhã. É um cu pra achar — eu só sabia que existia porque o pai de um amigo me falou há um tempo, e mesmo assim precisei caçar no mapa de satélite.

O acesso exige uns bons trinta minutos descendo uma estrada de manutenção que mal é mantida. Hoje estava pior que o normal, com placas de gelo fazendo a viagem inteira parecer roleta-russa com o alinhamento da minha caminhonete.

Eu vi marcas de pneu de outros veículos, então pelo menos sabia que não era o único maluco tentando chegar lá, mas toda vez que a roda escorregava eu questionava todas as minhas escolhas de vida.

Mas é exatamente por isso que eu gosto do Rowforte Loch. O acesso horrível afasta a maioria das pessoas.

Exceto hoje. Tinha mais gente do que eu esperava. Contei uns quinze pescadores espalhados pelo lago, as barracas portáteis deles pontilhando o gelo como cogumelos coloridos. Dois caras perto da margem estavam descarregando equipamento de um trenó, e um deles me deu um aceno simpático quando passei.

“Já pegou alguma coisa por aqui antes?” eu gritei.

“Primeira vez no Rowforte Loch,” ele gritou de volta. “Mas o amigo disse que vale a pena a viagem!”

“Normalmente vale mesmo,” respondi, mostrando o joinha.

Mais adiante, passei por um cara mais velho que já estava montado, sentado no balde dele do lado de fora da barraca com uma garrafa térmica de café. Ele acenou com a cabeça quando passei.

“Caralho, que percurso do inferno pra chegar aqui,” eu disse.

“Sempre é,” ele concordou rindo. “Mas é melhor que ficar no trânsito nos lagos normais.”

Achei um lugar a uns setenta metros da barraca mais próxima e comecei a montar.

Foi aí que as coisas começaram a dar errado.

Primeiro, pisei num buraco de pesca que não tinha congelado completamente. O choque da água gelada entrando na bota quase me fez escorregar, e passei uns cinco minutos tentando torcer a meia no vento congelante. Depois o vento virou problema.

Já montei essa barraca cem vezes, mas hoje as rajadas estavam implacáveis, chicoteando o tecido e quase arrancando os varões da minha mão.

Num momento perdi a pegada e o varão voltou pra trás, a ponta de metal passando a uns dois centímetros da minha têmpora. Senti o ar assobiar e ouvi o “vuuush” bem perto da cara. Se tivesse acertado, eu estaria desmaiado no gelo agora.

Finalmente, depois de vinte minutos brigando com aquela porra, consegui fixar a barraca. Estava suando apesar do frio, puto da vida e já pensando que essa viagem tinha sido um erro.

Mas eu já estava lá. Então foda-se, vamos pescar.

Furei o buraco principal, vendo a broca comer oito polegadas de gelo sólido. Depois furei um segundo buraco a uns noventa centímetros pra câmera subaquática.

É um equipamento legal que investi na temporada passada — me deixa ver o que tá acontecendo embaixo do gelo, checar se tem peixe mesmo ou se tô perdendo tempo.

Joguei a câmera e fiquei olhando o monitor enquanto ela descia. Água esverdeada turva, umas plantas, o flash ocasional de alguma coisa pequena passando rápido. Coisa normal de lago. Não vi nenhum peixe decente, mas resolvi dar um tempo.

A primeira hora passou em silêncio. Silêncio demais, na real. Eu ficava esperando ouvir os sons normais dos outros pescadores — gente gritando pros amigos, o ronco das brocas abrindo buraco novo, talvez umas risadas ou reclamações do frio.

Mas não ouvi nada além do vento e do rangido ocasional do gelo se acomodando embaixo de mim.

Por volta das 9:30, ouvi o primeiro splash.

Veio de algum lugar à minha esquerda, uns cinquenta ou sessenta metros. Pensei que alguém tinha fisgado e estava puxando o peixe pelo buraco. Uns minutos depois, outro splash de outra direção. Depois mais um.

Olhei minha linha. Nada. Nem uma mordidinha. A câmera mostrava a mesma água vazia.

Outro splash, mais perto dessa vez. Depois um grito que parecia de alguém, mas o vento dificultava. Podia ser empolgação por causa de um peixe, ou alguém chamando o amigo. Lagos de pesca no gelo são estranhos com som. Às vezes a voz chega cristalina, às vezes o vento engole tudo.

Voltei a olhar a linha, mexendo no jig, tentando ter paciência. Os splashes continuaram de vez em quando, sempre de direções diferentes. Comecei a achar irritante. Se todo mundo estava pegando peixe, por que eu não tinha nada?

Aí veio o grito.

Dessa vez não tinha erro — um grito de puro terror que cortou o vento. Perto. Muito perto. Talvez da barraca mais próxima da minha.

Saí correndo da barraca, quase tropeçando no balde. O grito parou de repente, mas corri na direção de onde veio, as botas escorregando no gelo.

A barraca era laranja brilhante, balançando no vento. Quando cheguei mais perto, vi que a entrada estava aberta, o zíper todo escancarado.

“Ei!” gritei. “Tá tudo bem aí dentro?”

Nenhuma resposta.

Cheguei na barraca e olhei. Vazia. O equipamento do cara estava espalhado — a vara jogada no gelo, o balde tombado. Mas o que fez meu estômago revirar foi o buraco de pesca.

Era enorme. Não o furo padrão de vinte centímetros que a broca faz, mas fácil uns noventa centímetros de diâmetro. As bordas pareciam mastigadas ou quebradas pra fora, com pedaços de gelo espalhados em volta. E levando até o buraco tinham marcas de arrasto — duas linhas paralelas riscadas no gelo, como se alguém tivesse sido puxado.

Fiquei olhando aquele buraco, o cérebro se recusando a processar. Aí ouvi — um som molhado, de sucção, como se algo grande estivesse se movendo na água logo abaixo da superfície.

Recuei devagar, os olhos grudados naquele buraco grande demais. Foi quando notei uma coisa que gelou meu sangue mais que o ar lá fora.

Todas as outras barracas estavam caídas.

Todas. Quinze abrigos coloridos que estavam de pé quando montei a minha agora eram só montes murchos de tecido no gelo. E perto de cada uma dava pra ver círculos escuros — buracos de pesca aumentados, iguais ao da minha frente.

Os sons de splash que eu vinha ouvindo a manhã inteira fizeram um sentido horrível de repente.

Eu estava sozinho no gelo.

Corri de volta pra minha barraca, a cabeça a mil. Precisava juntar tudo e sair daquele lago imediatamente. Minhas mãos tremiam enquanto jogava as coisas na mochila — esquece organizar, esquece cuidado, só pega o que der e vaza.

Foi quando olhei pro monitor da câmera.

A tela mostrava água turva, mas tinha algo diferente. A câmera estava girando — não, sendo empurrada por uma corrente. E quando virou, eu vi.

Uma pessoa na água, uns seis metros da câmera.

Primeiro pensei em horror — alguém caiu no gelo, alguém estava se afogando agora e eu tava vendo acontecer na tela. Mas esse pensamento durou meio segundo antes do cérebro começar a gritar que tinha algo muito errado.

A pessoa só… flutuava ali. Sem se debater, sem nadar desesperada, sem fazer nada que uma pessoa se afogando faria. Só suspensa na água, completamente parada exceto pelo movimento leve da corrente.

E estava olhando direto pra câmera.

A pele era pálida, quase brilhante na água turva, inchada de um jeito que lembrava corpos tirados de rio na televisão. Mas não era um cadáver. Estava se movendo com propósito, com inteligência, mesmo sem ter se mexido um segundo antes.

O rosto era humano: olhos, nariz, boca, tudo no lugar certo. Mas os olhos estavam arregalados demais, sem piscar, e pegavam o pouquinho de luz que descia de um jeito que refletia como olho de animal. A pele tinha um brilho estranho, quase ceroso.

Foi quando notei o pescoço.

Tinha fendas dos dois lados, três ou quatro em cada, abrindo e fechando ritmicamente. Como guelras. Como se estivesse respirando debaixo d’água.

Meu cérebro tentou racionalizar. Iluminação estranha, água turva, talvez sombra enganando. Mas aí a coisa começou a nadar na direção da câmera, e qualquer esperança de explicação morreu.

Nenhum humano se move assim debaixo d’água. Não chutava as pernas nem puxava os braços como nadador. Deslizava, com uma graça fluida completamente errada. Os braços esticados na frente, e quando chegou mais perto eu vi as mãos claramente.

Os dedos eram compridos demais, e tinha membrana esticada entre eles. Membrana translúcida, tipo pé de sapo, conectando cada dedo.

“Meu Deus,” sussurrei, e isso quebrou minha paralisia.

Peguei o celular, carteira e chaves, enfiando tudo no bolso. O resto — a vara cara, a caixa de iscas, o aquecedor; deixei tudo. O monitor mostrava a coisa se aproximando, o rosto pálido ficando maior na tela.

Eu estava na metade da saída da barraca quando ouvi o gelo rachar atrás de mim.

Não olhei pra trás. Não consegui. Mas ouvi o som do gelo quebrando, de algo forçando passagem por um espaço pequeno demais pra ele, alargando o buraco com uma força terrível. Ouvi água espirrando no gelo, ouvi algo que podia ser respiração mas soava molhado demais, errado demais.

Eu corri.

O gelo estava escorregadio e quase caí duas vezes, mas o pavor me mantinha de pé e em movimento. Dava pra ouvir o vento, minha respiração ofegante e as botas escorregando, mas não ouvia nada atrás de mim. Isso de algum jeito piorava tudo.

Cheguei na margem, na caminhonete, atrapalhado com as chaves até finalmente abrir a porta. Me joguei pra dentro e tranquei tudo, as mãos tremendo tanto que mal conseguia colocar a chave na ignição.

Só então olhei de volta pro lago.

Minha barraca estava caída, igual às outras. E meu buraco de pesca… dava pra ver mesmo de longe que estava muito maior do que deveria. Bem maior.

O equipamento da câmera sumiu. O suporte, o cabo, tudo. Sumiu, como se nunca tivesse existido.

Fiquei sentado na caminhonete uns cinco minutos, talvez mais, só encarando aquele lago. As barracas caídas. Os buracos aumentados no gelo. A prova de algo que eu não consigo explicar.

Depois dirigi pra casa, seguindo a mesma estrada de manutenção ruim, a meia molhada chapinhando na bota toda vez que pisava no acelerador.

Agora estou em casa, e não sei o que fazer.

Essas pessoas sumiram. Quinze pescadores que estavam naquele lago hoje de manhã. Eu falei com alguns deles. O cara da garrafa térmica. Os dois amigos descarregando o trenó. Pareciam gente boa, só querendo passar um dia pescando como eu.

Eles tinham veículos — passei por eles no ponto de acesso na saída. Alguém vai procurar por eles. Família, amigos, colegas de trabalho. Vão perceber que estão sumidos.

Mas o que eu falo pra polícia? Que alguma coisa no lago arrastou todos eles pra baixo? Que vi uma coisa pálida e inchada nadando na direção da minha câmera com mãos membranosas e fendas de guelra no pescoço? Que era inteligente o suficiente pra levar minha câmera, pra sumir com a prova?

Vão achar que eu tô louco. Ou pior, vão achar que eu fiz alguma coisa com essas pessoas.

Não tenho prova nenhuma. Sem gravação da câmera, sem testemunha, nada. Só minha história sobre uma criatura no Rowforte Loch que caça pescadores no gelo.

Fico olhando as notícias locais, mas ainda não tem nada sobre desaparecidos. Talvez ninguém tenha percebido ainda. Talvez as famílias achem que eles ainda estão pescando, que vão chegar pra jantar.

Mas não vão.

Eu sei o que vi. Sei o que tem naquele lago. Mas saber e provar são coisas diferentes.

E, sinceramente? Uma parte de mim quer voltar. Não pro Rowforte Loch, nunca mais lá. Mas pra outros lagos, outros pontos de pesca no gelo. Faço isso há quinze anos. É uma das poucas coisas que me ajudam a relaxar, que me dão paz.

Mas como? Como sentar no gelo agora, sabendo o que pode estar embaixo? Todo buraco que eu furar de agora em diante, vou ficar imaginando se tem alguma coisa lá embaixo me olhando. Todo barulho no gelo vai me fazer pular. Todo splash distante vai me deixar em pânico.

Talvez isso seja a pior parte. Aquela coisa não só levou aquelas pessoas. Levou uma parte de mim também — o único hobby que me fazia sentir no chão, que me dava uma fuga do estresse do dia a dia.

Então tô perguntando pra vocês — o que eu faço? Devo denunciar? Devo ir na polícia e contar o que aconteceu, mesmo sabendo que não vão acreditar? Ou fico quieto e espero que outra pessoa, alguém com mais credibilidade, encontre prova do que tem lá fora?

Essas pessoas estão mortas ou pior. E eu escapei. Mas não consigo tirar da cabeça que ela me deixou ir. Que sabia que tinha levado minha câmera, eliminado minha prova, e decidiu que uma testemunha com uma história maluca era melhor que nenhum sobrevivente.

Alguém já passou por algo assim? Alguém já ouviu história sobre o Rowforte Loch?

Preciso saber que não tô louco. Preciso saber o que fazer.

Porque agora tudo que consigo pensar é naquele rosto pálido encarando a câmera, aquelas guelras abrindo e fechando, aqueles dedos compridos demais com membrana entre eles. E o som do gelo quebrando enquanto ela forçava passagem pra me alcançar.

Não sei se consigo pescar no gelo de novo algum dia. Mas, caralho, não quero desistir.
Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon