quinta-feira, 9 de abril de 2026

Eu guardo um laboratório. Acho que eles estão tramando alguma coisa...

Preciso de uma segunda opinião sobre isso aqui.

A essa altura, já trabalhei como “vigia” em vários lugares diferentes. O que isso realmente quer dizer é que eu tenho tempo demais pra ler e escrever, e desenvolvi um péssimo hábito de exagerar pra caramba na prosa. Isso aqui é diferente e vai ter que ser simples e rápido. Espero que tudo bem.

Recentemente fui transferido para um laboratório cujo nome não posso revelar. Fui pego dormindo no último lugar, aquela história toda. E me surpreende que não tenham simplesmente me mandado embora, porque me pegaram bem no meio de um dos meus sonhos malucos e, aparentemente, eu estava resmungando alguma coisa sobre goblins.

Enfim, no Laboratório as coisas funcionam um pouco diferente de qualquer outro lugar em que eu já “trabalhei”. Turnos noturnos de doze horas, eu e outra guarda. A gente se reveza dirigindo um carrinho de golfe sem rumo pelo estacionamento durante duas horas. Acho que eles querem parecer vigiados.

Nas duas horas de folga, eles querem especificamente que a gente durma.

Eles querem que os guardas durmam.

Nunca vi nada parecido.

Não numa cama nem nada assim, porque por que seria? Tem uma mesa, na área de recebimento, num canto. Cientistas de jaleco branco passam correndo a noite toda falando principalmente várias línguas asiáticas. Outros trabalhadores passam correndo falando principalmente espanhol. Eles realmente se certificaram de que eu era monolíngue antes de me colocarem aqui. De novo, nunca vi nada parecido.

Você pensaria que eu deveria ficar de olho em todos esses cientistas e trabalhadores, sabe, como um “vigia”. Não. A cadeira atrás da mesa é muito mais confortável do que parece e, por algum motivo, eu sempre fico tão cansado quando chego lá e, ah é, fui instruído especificamente a “tirar um cochilo”.

Então lá estou eu, profundamente adormecido, tendo todos os meus sonhos malucos enquanto todos esses cientistas malucos e trabalhadores ficam correndo de um lado pro outro.

E se os sonhos já eram malucos antes, nossa, agora eles estão malucos de verdade.

Todo sonho virou o mesmo.

Estou numa ponte. Atrás de mim, a ponte leva a uma pequena ilha coberta de floresta. À minha frente fica, eu acho, o continente, e há todas essas sombras humanoides espiando pra fora da selva, todas tentando atravessar a ponte, mas, enquanto eu observo, elas não conseguem.

Eu as chamo de sombras humanoides, e não de pessoas-sombra, porque elas definitivamente não são pessoas, seja lá o que forem.

Há algo no sonho que é sempre tão inexprimivelmente desolador.

Enfim, aí me acordam e me mandam sair de novo no carrinho de golfe pra outra guarda tirar o cochilo dela.

Ganhar pra dormir é um ótimo negócio, então você não pode me culpar por fazer o que me mandam e não pensar demais nisso.

E tudo isso ia muito bem, até que uma noite, por pura coincidência, ouvindo um audiolivro enquanto dirigia o maldito carrinho de golfe, eu aprendi sobre a palavra em espanhol “duende”.

Aparentemente ela pode se referir a um monte de criaturas diferentes, eu suponho, meio parecidas com elfos (pesquisa aí se quiser), e eu não sou nenhum especialista, mas, para os fins disso aqui, seja lá o que isso for, vou chamá-las de goblins.

Digo isso porque, depois de dirigir o carrinho de golfe naquela noite, voltei pra mesa-de-dormir e podia jurar que continuava ouvindo os trabalhadores dizerem essa palavra. Duende.

E voltei na noite seguinte armado com um conjunto de palavras memorizadas que são mais ou menos equivalentes a “goblin”, em várias línguas asiáticas.

Eu não sei nenhuma dessas línguas e, além disso, eu estava errado, muitas delas nem sequer são asiáticas, então o que é que eu vou saber, né?

Mas eu juro que continuo ouvindo essas palavras. Eu juro, não sei por quê, mas parece que todos esses cientistas malucos, e todos esses trabalhadores malucos, ficam falando sem parar sobre goblins.

Toda noite.

Por quê?

Será que eles só curtem muito fantasia?

E eu odeio pra caralho fazer essa pergunta, mas isso tem alguma coisa a ver com os sonhos?

Porque agora, toda vez que tenho aqueles sonhos, comigo na ponte observando todas as sombras humanoides saindo da selva, eu me pego chamando elas de goblins. Por que goblins?

E eu não sou idiota.

Eu me lembro do que disseram que eu estava resmungando quando me acordaram naquele outro posto.

E, sejam lá o que forem essas sombras humanoides, eu juro que continuo vendo elas pelo canto do olho, em todo lugar a que vou agora.

Privação de sono, né?

Meu cérebro está ficando delirante e meu reconhecimento de padrões está enlouquecendo, né?

Esse Laboratório não tá nem aí pra goblins idiotas de fantasia, né?

Mas por que meu cérebro inventaria isso?

É específico demais.

E os sonhos.

As sombras.

Essa desolação.

O que eles têm nesse laboratório?

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Acho que ela congelou

Acho que foi no começo de janeiro quando aconteceu. Estava um frio congelante lá fora. Sempre que eu saía, eu conseguia sentir instantaneamente que começava a congelar de dentro pra fora. Ficou insuportável só de ter que sair de casa. Não consigo imaginar ninguém saindo de casa por vontade própria quando está tão insuportavelmente frio lá fora.

Então, quando eu vi ela lá fora, eu só tive que ajudar.

Era uma noite de quinta-feira, eu estava com preguiça, então pedi uma pizza e fiquei deitado no meu sofá a noite toda só assistindo TV. A janela atrás de mim estava embaçada, então decidi desenhar nela. Eu costumava fazer isso muito quando criança.

Deslizando meus dedos pelos vidros frios, eu desenhei um solzinho, um começo simples. Limpando a névoa na janela, eu vi algo lá fora. Não, alguém.

Ela estava parada na minha calçada completamente imóvel. Estava usando uma parka; o capuz cobria o rosto dela, então eu nem conseguia ver o rosto dela. Limpei minha janela um pouco mais. Ela não se mexeu, não falou, nem fez nada. Ela estava só congelada, parada. Eu nem acho que ela estava respirando.

Talvez ficar observando uma mulher aleatória na rua seja estranho, mas foi ela que estava do lado de fora da minha casa, foi ela que não ia embora, foi ela que começou a me observar primeiro.

Bem do meu lado estava meu telefone. Eu rapidamente peguei ele e liguei pro meu melhor amigo, Matt. Tocou por alguns segundos enquanto eu ficava ali sentado falando sozinho. “Vamos, cara, atende logo!” sussurrei pra mim mesmo, meus olhos encarando direto meu telefone. Um arrepio subiu pela minha espinha e se recusou a ir embora. Parecia tão frio.

“Desculpe, mas o número que você está chamando está indisponível no momento, por favor ligue novamente em outro horário.”

Quase xinguei alguma coisa baixinho, mas me acalmei rápido. Era só uma garota do lado de fora da minha casa. Ela não estava fazendo nada prejudicial, então eu não tinha motivo pra ter medo.

E mesmo assim eu ainda sentia aquele arrepio se arrastando nas minhas costas, me instigando a ficar em alerta. Respirando fundo, virei pro lado e olhei pela minha janela.

Ela tinha sumido.

Nenhuma pegada ficou pra trás, a neve continuava lisa, era como se ela nunca tivesse estado ali. Esfreguei meus olhos e mesmo assim não havia nada lá. Nada mais tinha mudado.

Um pouco assustado, me encostei no braço do sofá e olhei de volta pro meu teto. “Talvez tenha sido só imaginação minha,” falei comigo mesmo, “É- é, foi só imaginação minha.” Repeti pra mim mesmo várias e várias vezes, esperando encontrar algum tipo de lógica no que eu vi.

Alguém bateu na minha porta. Eu pulei do sofá, entrando em pânico em silêncio. Mas rapidamente raciocinei comigo mesmo. Devia ser o cara da pizza.

Descendo as escadas até a porta da frente, estendi a mão pra alcançar a maçaneta, mas congelei. Não sei por quê, mas algo me instigou a ser cauteloso. Então, em vez disso, olhei pelo olho mágico da minha porta.

Ela estava lá de novo.

Tropecei pra trás, me segurando rápido antes que eu pudesse cair. Um arrepio repentino atravessou meu coração e me puxou de volta pra minha porta. Encostei minha mão e a testa contra a porta de madeira, buscando estabilidade. Eu não conseguia olhar pra cima.

Ela bateu, esperando uma resposta. Mas eu não conseguia falar. Ela bateu de novo. Uma névoa gelada inundou os corredores, o frio se arrastando pra dentro do cômodo, lentamente me alcançando. Ela continuou batendo enquanto eu ficava congelado, parado.

“Foca, Luke.” Penso comigo mesmo, tentando encontrar razão. “É só uma garota, o que ela pode fazer com você?” ignorando o arrepio se arrastando nas minhas costas, me forcei a me recompor. Fiquei de pé, vesti uma jaqueta e abri a porta.

Estrelas brancas brilhantes navegavam no céu preto-piche, nuvens cobrindo a lua. Neve branca e lisa cobria a terra lá fora, pinheiros spruce altos brotando.

Ela foi embora.

Saí da casa, meu hálito congelando no inverno. Olhei pra esquerda e pra direita procurando qualquer sinal dela. Igual antes, não havia nenhum rastro deixado pra trás. Era como se ela nunca tivesse estado ali.

Desabando contra a porta atrás de mim, segurei meu rosto nas mãos, confuso. Nesse ponto, comecei a achar que estava imaginando coisas. Essa era a única solução lógica que eu conseguia pensar.

Observando meu hálito começar a congelar no frio, me levantei de novo e caminhei até a beirada da minha varanda, apoiando as mãos no topo dos portões de metal, olhando ao redor pra neve que me cerca, lutando pra manter os olhos abertos.

Isso foi até eu ver.

Uma seta traçada na neve.

Como eu perdi isso?

Não sei por que decidi ser burro, mas eu juro que naquele momento ela falou comigo. Talvez tenha sido o vento gelado que sussurrou pra eu seguir a seta. Talvez a seta em si tenha chamado meu nome. Talvez eu só estivesse falando comigo mesmo, dizendo pra mim mesmo que era natural ficar curioso. Mas seja lá o que me fez fazer isso, fez eu fazer isso.

Tranquei minha porta e segui a seta, sentindo que estava sendo puxado como um fantoche num barbante. Virando na beirada da minha casa, encontro outra seta no lado da minha casa, fazendo uma curva na neve levando pro meu quintal.

Seguindo a próxima seta, rapidamente encontrei outra logo depois dela. Dessa vez levando pra floresta. Congelei no lugar e bati a mão na cara. Olhando pra minhas mãos, lentamente ficando dormentes de frio, e pensei comigo mesmo, “Eu sou mesmo tão burro? Eu vou mesmo ir pra lá no meio da noite?” Passei a mão pelo cabelo, batendo o pé na neve grossa e fofa abaixo de mim.

O vento começou a uivar, começou a implorar.

Acontece que eu sou mesmo tão burro.

Continuei seguindo as setas e entrei na floresta atrás da minha casa. Pinheiros spruce altos e escuros alinhavam o caminho, camadas grossas de neve cobriam suas folhas verde-escuras e caíam lentamente. A lua começou a passar pelas nuvens e lançou sua luz pela mata, parecia que estava me seguindo. Mais setas estavam gravadas na neve, uma atrás da outra. Eu conseguia sentir o arrepio subindo pela minha espinha perfurando ainda mais fundo dentro da minha pele, tentando me congelar. No entanto, o vento frio parecia mais calmo.

Ele roçava graciosamente nos meus lados, quase segurando minha mão antes de sumir no vazio repentino à minha frente. Parecia tão frio.

Estava tão frio.

Frio, frio e frio.

Mantive a cabeça baixa enquanto as árvores me olhavam de cima. Outra seta vinha uma logo depois da outra, eu me abracei, imaginando quando o caminho ia acabar. Às vezes eu me via congelado, dizendo pra mim mesmo pra voltar. Mas sempre que eu dava um passo pra trás, o vento começava a uivar ou as árvores começavam a me encarar de cima, a lua me deixava sem luz, e ela começava a me chamar.

Continuei andando.

Ficou mais escuro, mas a lua ficou do meu lado. Estava congelante, mas estava calmo. Meu hálito começou a congelar no frio. A certa altura pisei num galho, foi o suficiente pra me assustar.

Mas eventualmente, cheguei a um ponto final.

Havia uma cruz gravada na neve.

Me ajoelhei no X, respirando pesado. O vento enevoado espiralava ao meu redor suavemente, queria que eu cavasse. Ela queria que eu cavasse. Pra encontrá-la. Às vezes ela chorava, mas depois ficava quieta. Às vezes ela arranhava a neve, mas logo ficava congelada, parada. Eu tinha que encontrá-la.

Usando nada além das minhas mãos, comecei a cavar na neve. Minhas mãos começaram a congelar, lentamente ficando dormentes de frio. Mas eu tinha que tirá-la de lá.

Eu cavei. Ficou mais frio. Eu cavei. Ficou mais escuro. Eu cavei. Me senti tão cansado. Eu cavei. Cavei até finalmente ver o rosto dela. O rosto congelado e pálido dela. As pupilas dela eram puro branco, listras azul-índigo pintavam a pele dela, as veias visíveis. Geada rastejava das pontas dos dedos dela; sangue escorria dos lábios dela.

Eu a encontrei.

O Povo do Túmulo

Foi há alguns anos que a família Butler se mudou para Ballydara. Sendo de fora da cidade, levou um tempo para nós, os locais, nos acostumarmos com a presença deles, mas esse tempo passou rapidamente. Eles eram pessoas de bem, do tipo que vai à igreja todo domingo, filhos que não causavam problemas na escola, e pais que se davam muito bem. Tendo viajado por toda a Irlanda, tanto o Norte quanto o Sul, a família tinha muitas histórias para compartilhar dos lugares onde estiveram. O Sr. Butler se tornou um modelo na cidade, adorando piadas alegres sobre seus óculos dourados, enquanto a Sra. Butler se voluntariava na igreja com frequência, e seus dois filhos eram muito queridos pelos professores. Apesar de tudo isso, porém, eles nunca se tornaram verdadeiramente parte da comunidade. Isso pode ser atribuído à sua abordagem em relação às lendas locais.

Ballydara fica no oeste de Donegal, longe da agitação das cidades, e cercada por colinas. Em uma colina em particular cresce um ninho de ringforts, muito antigos e que antecedem a própria cidade. Nós, o povo de Ballydara, muitas vezes sussurramos que na daoine sídhe são os donos dessas terras, pois não é verdade que em algumas noites pode-se ouvir o mais belo canto e música? Não vemos luzes penduradas naqueles túmulos, balançando para cima e para baixo como se estivessem dançando? Viajantes cansados não ouvem às vezes uma mulher chamando-os ao passar? E algumas almas imprudentes não foram visitar os túmulos e nunca mais voltaram para casa? Isso acontece desde os dias do avô do meu avô, e do avô do avô dele. Por longas gerações, nós, o povo de Ballydara, não ousamos pôr os pés naqueles túmulos. No entanto, aquelas colinas se viram recebendo estrangeiros, viajantes e andarilhos, todos interessados em nossas lendas, mas não em nossos avisos. A família Butler não foi exceção.

Aconteceu um dia no velho pub que o Sr. Butler estava conversando com alguns de seus novos amigos, discutindo o tempo em que cultivava as terras, e como ele vinha plantando novas colheitas, mas sempre que olhava para aquelas colinas tão perto de sua propriedade, ele se perguntava quem as possuía e se ele poderia comprá-las. Seus amigos pararam de beber suas cervejas, um pouco inquietos, e perguntaram se ele se referia às colinas onde os túmulos habitam. Ele disse que sim. Eles tentaram dissuadi-lo da ideia, explicando que aquelas colinas ainda estavam ocupadas, que nenhuma quantia de dinheiro as esvaziaria, e que seria melhor para ele encontrar outro campo para comprar.

Bem, o Sr. Butler não estava nem aí. Ele era um homem que só acreditava no que via, e nunca tinha visto na daoine sídhe antes – nem em Galway, nem em Dublin, nem em Belfast, e nem em Ballydara. Seus amigos tentaram convencê-lo a ter cuidado e não fazer alarde por nada, mas um alarde já estava se formando em sua cabeça. Depois daquela visita ao pub, ele foi para casa e começou a fazer algumas ligações, rastreando quem possuía aquelas terras. Depois de algumas buscas infrutíferas, ele estava quase pronto para desistir quando o telefone tocou alguns dias depois. Era um homem alegando ser o proprietário daquelas colinas, que perguntou se ele ainda estava interessado. O Sr. Butler disse que sim e tinha certeza de que tinha dinheiro mais do que suficiente para pagar. Imagine sua surpresa quando descobriu que tinha dinheiro demais, ou seja, não custou tanto quanto ele esperava. De qualquer forma, com a aquisição, ele enviou anúncios prometendo bom dinheiro a pessoas para trabalhar nas colinas. Tudo o que ele precisava fazer era instalar algumas cercas, e ele teria muito espaço para criar rebanhos de ovelhas e vacas.

Ora, geralmente você encontrará alguém que trabalhará em qualquer emprego por qualquer preço, mas não havia um homem ou mulher em toda Ballydara que colocasse os pés naquelas colinas, nem por alguns quilômetros. Eventualmente, o Sr. Butler contratou uma equipe de fora da província, e eles começaram a trabalhar na construção das cercas. Mas coisas estranhas aconteceram; algumas manhãs, a equipe encontrava os postes de madeira e o arame farpado que haviam acabado de instalar, cuidadosamente deitados no chão, o buraco onde haviam sido forçados, preenchido com grama fresca. Outras noites, a equipe reclamava de ouvir ruídos do lado de fora; criancinhas rindo deles e o que pareciam ser raposas gritando durante a noite. Um trabalhador até jurou ter visto uma mulher com um longo vestido branco, que parecia não andar, mas flutuar sobre o chão. O homem ficou tão assustado que nunca mais voltou ao local, deixando seus colegas de trabalho desfalcados. Então o Sr. Butler teve que contratar um novo rapaz para vir ajudar, enquanto também instalava câmeras de segurança para flagrar essa mulher estranha. Este novo rapaz era um Belfaster, um jovem bonito. Algumas das moças da cidade estavam desmaiando por ele, e um ou dois rapazes também. Mas ninguém estava desmaiando por ele no local de trabalho. É o primeiro emprego dele, e ele não é exatamente o que alguém chamaria de trabalhador diligente. Ele está enrolando, fazendo piadas sem graça, distraindo os outros. A equipe começa a reclamar dele, mas o Sr. Butler apenas lhes diz para deixarem para lá. Ele já investiu muito neste empreendimento, e não vai mais ouvir nenhuma reclamação.

Em um dia de trabalho, a equipe está junto às cercas, batendo-as firmemente. O Belfaster está parafusando o arame na cerca quando ele para e se vira para o ringfort, uma coisa antiga e profanada coberta de grama. Os outros trabalhadores perguntam o que há de errado, e ele diz que ouviu alguém chamando seu nome dali. Era uma voz de mulher, suave, etérea e sedutora. Nenhum dos outros rapazes tinha ouvido, então eles disseram para ele parar de enrolar e voltar ao trabalho.

Demorou mais alguns minutos antes que o Belfaster parasse novamente e se virasse para o ringfort. Desta vez, ele jurou ter ouvido a mulher chamando-o, implorando para que ele fosse vê-la. Os trabalhadores disseram para ele parar de brincadeira e deixar isso pra lá. Ele jurou que não estava brincando, mas eles não queriam ouvir. Tudo o que queriam era que ele calasse a boca.

Mais alguns minutos se passaram antes que o Belfaster pulasse no ar e se virasse para os ringforts. Desta vez, ele jurou que uma mulher estava chamando seu nome, sussurrando todo tipo de coisas adoráveis para ele. Um dos outros trabalhadores estava prestes a esmurrá-lo quando ele também parou, ficando branco como um lençol. Ele disse que ouviu uma mulher dizer seu nome, longo e grave.

Agora os outros trabalhadores estavam começando a ter uma sensação estranha, e todos largaram suas ferramentas e foram investigar o ringfort. Eles revistaram cada centímetro do lugar, de cima a baixo, e não encontraram ninguém. E quando voltaram para a cerca, o que eles encontram senão que todas as suas ferramentas haviam desaparecido!

O capataz da equipe ligou para o Sr. Butler e informou-o sem rodeios que eles não terminariam o trabalho agora, explicando o que havia acontecido. O Sr. Butler, então, ficou furioso com isso, e naquela noite no pub, ele se queixou e esbravejou com seus amigos sobre todas aquelas velhas superstições bobas que deveriam estar mortas e enterradas agora. O Sr. Butler tinha certeza de que aquilo não era obra de na daoine sídhe, mas de arruaceiros. Ele tinha ido à guarda, mas eles não encontraram nenhuma evidência de sujeitos suspeitos, e tinham coisas mais importantes a fazer do que procurar ferramentas perdidas. Então ele disse a todos: "Eu estarei lá, amanhã à noite, e encontrarei quem quer que esteja me sabotando! Se alguém aqui for corajoso o suficiente, venha comigo, e eu pagarei cem euros a cada um!"

Ninguém aceitou a oferta. Não importa quanto dinheiro seja oferecido, há algumas coisas que ninguém fará. Para Ballydara, visitar aqueles túmulos era uma delas. O Sr. Butler procurou por toda a cidade, mas nem uma alma aceitou. Mais uma vez, seus amigos tentaram convencê-lo do contrário, mas ele se recusou a ouvir e, amaldiçoando a todos, foi ver se alguém da equipe de trabalho viria com ele. O único que veio foi o Belfaster. O plano do Sr. Butler era então sentar-se nos túmulos durante a noite, pegar quem estivesse roubando dele e levá-los à guarda. Por sua boa devoção, o Belfaster receberia duzentos euros.

Naquela noite, as pessoas viram luzes estranhas nos túmulos, mas não eram luzes dançantes. Elas estavam paradas, como postes de rua nos velhos tempos, queimando brancas. Nenhuma música foi ouvida, nem canto, nem pássaros cantando, nem mesmo uma raposa gritando. Apenas o choro do vento frio.

Quando o marido não voltou na manhã seguinte, a Sra. Butler ficou muito ansiosa. Ela pediu a algumas amigas que fossem até os túmulos para ver o que havia de errado. Ora, suas amigas eram pessoas sensatas, e como todas as pessoas sensatas, não iam recusar uma mulher assustada. Então o grupo delas foi até os túmulos, e o que elas encontram senão o Belfaster, tremendo contra uma árvore, com a camisa rasgada, os olhos loucos como um cão raivoso. Quando ele viu as mulheres se aproximando, gritou como um lunático e disparou, correndo para o campo. A guarda o pegou mais tarde, balbuciando bobagens, e ele foi levado a um hospital, onde, segundo me disseram, ainda reside.

Quanto ao Sr. Butler? Ele não foi encontrado. Houve uma busca grande e exaustiva. Todo o povo de Ballydara se juntou, vasculhando cada centímetro da terra. Seus amigos até procuraram nos túmulos. Outros procuraram até os pântanos. Isso durou meses, com voluntários vindo de todas as partes da Irlanda, pois o Sr. Butler havia feito muitos amigos. A guarda enviou cães farejadores, mas esses cães continuavam indo para os túmulos, e alguns até tentaram cavar embaixo deles. Apesar de todo esse esforço, nem um sapato apareceu.

Lamento dizer que a Sra. Butler e seus filhos foram forçados a se mudar mais tarde, muito perto da memória de seu amado pai e marido. Eles ainda vivem confortavelmente com o dinheiro que o Sr. Butler havia construído, mas dinheiro é tudo o que lhes resta dele, e dinheiro não substitui um ente querido.

Há uma última adição a este conto. Alguns anos depois que o Sr. Butler desapareceu, um par de turistas veio a Ballydara, interessados em ver os túmulos onde um homem havia desaparecido. Suponho que isso é algo com o qual teremos que lidar agora. Quando aqueles dois visitaram os túmulos, um deles estava andando pela beira de um ringfort quando pisou em algo. Perplexa, ela se abaixou. Era um par de óculos com armação dourada, saindo da terra como se tivesse sido vomitado. Quando os entregaram à guarda, eles os recolheram como evidência, mas não reabriram o caso.

Palavras Por Toda a Parede

Fomos avisados, mas naquela manhã, quando subimos até lá para esvaziar a cabana dele, estávamos curiosos acima de qualquer outra coisa. Ele obviamente já não representava nenhuma ameaça para nós naquele momento, espalhado pela encosta da montanha daquela forma, junto com o que restou de seu velho jato particular, então que mal poderia nos ser feito por: palavras? Isso é tudo que elas são, certo? Palavras.

E, no entanto, depois de chegarmos até o fim daquela longa estrada de terra em zigue-zague, o carro todo arranhado por galhos de árvores, quando por fim saímos e abrimos caminho pela mata sombria até a varanda da frente dele, empurramos aquela porta toda lascada com dificuldade, o que vimos foi... magnífico.

Perdoe-me, eu sei que se espera que eu lide com coisas assim com mais, suponho, empatia, mas você também não teria gostado do sujeito. Ele era violento e racista.

As palavras tinham sido talhadas por toda parte nas paredes, revelando o que quer que fosse o material vermelho por baixo. A “caligrafia” era tão áspera e montanhosa, se é que você me entende, e mesmo assim de algum modo parecia tão porra tão precisa. Como se, em todo o tempo que passou talhando... isso tudo, ele nunca tivesse cometido um único erro. Cada traço era uma caralha de perfeição.

Temo que aquele babaca sub-humano abusivo fosse um gênio artístico.

E, o que é mais, se você olhasse com atenção suficiente, começava a discernir duas caligrafias distintas.

Eu não sei como ele fez aquilo.

Não havia uma cronologia clara, e palavras e frases próximas quase nunca pareciam relacionadas, e ele devia não acreditar em frases completas, mas ainda assim, passando tempo suficiente nesses cômodos abarrotados e horríveis, você quase começava a ter a sensação de, meio que, de um diálogo.

Tome, por exemplo, a frase: “Abra seus olhos, meu filho, meu”, no banheiro úmido, à esquerda e acima do vaso sanitário.

Em combinação com, lá em cima, no teto da despensa em que tudo tinha vencido: “sim, Pai, eu vejo, eu”.

E tantas das inscrições de uma única palavra eram, na verdade: “Pai”, e “filho”, e “Pai”, e “filho”, ad nauseum.

E ler todas aquelas outras gravuras... menos... explicáveis, naquele “contexto”, bem, acho que você começava a sentir um pouco do que ele devia estar sentindo.

“Eu te amo, eu amo amar, meu filho, meu filho, o Mundo, nosso”

“o que são estas, estas, estas raivas, raivas, a dor, sim, sim”

Estávamos começando a sentir bastante frio, explorando aquele lugar cheio de corrente de ar desde a infância, tão arruinado, tão profanado. Os olhos de nós quando crianças nos observando a partir de retratos tortos.

“Se você ama algo, você ama ama ama, você deixa, deixa, você deixa”

“a luz, a luz, eu sinto, sinto ela, sinto ela, livre, eu quero, eu quero livre eu quero”

Temo que nossos cérebros já começavam a se encher de “noções fantasiosas”, como ele costumava chamar, muito antes de virar o que quer que fosse aquilo. E, como você sabe, o plano era passar o dia inteiro e esvaziar o lugar. O que deveríamos doar? O que podemos vender? Esse tipo de coisa. A gente realmente precisa do dinheiro, você entende. Os preços agora para mandar qualquer coisa até aqui...

Bem à frente da cama queen inclinada no quarto principal: “eu deixo deixo deixo deixo deixo voar voar voar voar voar sim vá sim vá seja”

Dentro do armário gotejante sob a pia queimada: “provo eu provo eles provo provo provo para provar para voar”

O plano era passar o dia inteiro, e nem haviam se passado três horas. E nem sequer discutimos o... novo plano. Um de nós simplesmente encontrou o fluido de isqueiro e pôs a mão na massa, eu acho.

Não houve alívio na minha vida como o alívio de deixar a cabana dele queimando para trás, e ir embora da fumaça para qualquer lugar que não fosse ali.

Então por que não consigo pensar em nada além daquele lugar, e daquelas paredes, e daqueles cheiros, e daquelas palavras de merda?

A cada turno no posto de gasolina elas ecoam, a cada aula de violão que dou, esses personagens de “Pai” e “filho” tagarelam na minha cabeça e o pobre garoto machucado que estou ensinando começa a perguntar coisas como: “Tem certeza de que você está bem para hoje?” e “A gente pode remarcar, se precisar?” e tantos velhos amigos estão voltando à minha vida e, do nada, perguntando se eu tenho algum problema com drogas, e eu nunca usei droga nenhuma na vida, eu acho, e tudo em que consigo pensar são aquelas palavras vermelhas talhadas na porra da parede.

São só palavras.

Eu sei que são só palavras porque ele era apenas algum pobre caso perdido de alma maligna que enlouqueceu sozinho na cabana o tempo todo e cometeu suicídio por avião e nada disso significa nada e nada significa nada porque o universo não é assim, é só aleatório e mecânico e feito de estrelas, e são só palavras.

Talvez colocá-las na sua cabeça faça com que saiam da minha.

Se não, talvez esta seja a última vez que vocês ouvem falar de mim.
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