domingo, 1 de fevereiro de 2026

O que caralhos eu vi?

Eu sou um garoto normal do norte de Minnesota. Aqui em cima é bem tranquilo, na real. Mas eu moro na margem do Lago Superior, então o turismo é super normal. Tem uns idiotas por aí, mas isso provavelmente é o único problema de verdade que eu enfrento. Normalmente eu não sou o tipo de cara que posta ou fica falando sobre histórias assustadoras, assombradas ou lendas urbanas. Porém, hoje mesmo eu vi uma coisa tão perturbadora e estranha que tá me deixando genuinamente preocupado com o lugar onde eu moro.

Isso não é história inventada. É tudo real pra caralho, e é exatamente isso que torna tudo pior. Eu me sinto louco só de falar sobre isso, mas tá me incomodando tanto que eu precisava botar esses pensamentos em algum lugar. Tudo começou no sábado de manhã. Meu pai e eu estávamos nos preparando pra ir pescar um pouco ao norte da rodovia 61. Entre as cidades de Two Harbors e Duluth fica Knife River. É um vilarejo pequeno, com um restaurante antigo fechado, uma loja de doces e um defumador de peixes pescados no lago (os dois são grandes atrações turísticas), além de uma marina pra quem mora por perto. Chegamos no lago por volta das 14h e planejávamos pegar o movimento da tarde/noite pra tentar uns walleyes, mas só conseguimos uns percas miúdos e um walleye minúsculo (literalmente uns 12 cm). Não foi um dia ruim, só tranquilo e divertido. Saímos do lago, pegamos a Fox Farm Road, que ainda fica um pouco ao norte de Knife River.

Viramos da Fox Farm pra Knife River Road, que fica logo ao norte do vilarejo de Knife River e da rodovia 61. Deviam ser umas 19h30. Só eu e meu pai no carro, conversando sobre qualquer coisa que vinha na cabeça, sabe como é. Foi aí que as coisas tomaram um rumo perturbador e esquisito pra caralho. Estávamos descendo a Knife Road, no meio de uma conversa, quando meu pai avistou alguma coisa bem na vala ao lado da estrada. Alta, muito alta, ele disse que uns 3,6 metros, tão alta quanto o carro do chão até o teto, mesmo estando numa valeta de uns 1,2 metro de profundidade na lateral da estrada. Eu não vi ela parada ali do lado da estrada, porque estava no meio da conversa. Mas o que eu vi foi a criatura cair de quatro e começar a correr na direção do carro, bem na estrada. E ele não estava mentindo. Eu tive uma visão clara, que tá queimada na minha cabeça há umas 8 horas, e não passou um minuto sem eu pensar nisso. Era comprida, de quatro, correndo de um jeito muito estranho, quase como um cachorro. As duas patas da frente impulsionando pra frente, bem juntas, e as de trás em sincronia também, pra dar estabilidade e propulsão. Era branca. Pelagem espessa no corpo principal, e quase pele lisa nas extremidades daqueles membros esquisitos. O que era ainda mais preocupante é que ela não estava atravessando a estrada como um cervo faria. Ela cortou em ângulo. Como se quisesse ser atropelada. Essa foi a parte mais bizarra e assustadora. E quase aconteceu. Ficou literalmente a uns 1,5 ou 1,8 metro do carro antes de sumir da nossa vista.

No primeiro momento eu fiquei confuso. Virei pra olhar pelo retrovisor e soltei em voz alta: “Que porra foi essa?”. Repeti isso mais umas vezes. Fui tomado por uma onda gigante de curiosidade, mas com um toque de medo também. Achei que estava enlouquecendo. Vendo coisas. Não falei nada sobre o que eu tinha visto. Até que, poucos segundos depois, meu pai começou a falar sobre isso também. Foi a prova que eu precisava pra saber que não estava ficando louco. Ele descreveu a coisa com detalhes quase idênticos ao que eu vi. Fiquei muito confuso. Era absurdamente estranho, ainda mais numa hora tão esquisita do dia. Você pensaria que veria algo assim mais tarde, de noite. Mas não, às 19h30. Mil pensamentos passaram pela nossa cabeça. Tentando usar lógica pra entender o que tínhamos visto. O que, de novo, só confirmava que eu não estava pirando. “Não pode ser um urso. É janeiro, eles estão hibernando”. “Não é lobo, era branco puro, sem nenhuma outra cor”. Pensamos em todos os animais de porte médio a grande que conhecíamos, tentando juntar as peças do que formava aquela coisa profana. Mesmo assim, continuamos dirigindo normalmente, com só uns poucos minutos até chegar em casa.

A gente ainda ficou tentando dar sentido àquilo. Ele disse que foi quem viu ela parada na vala. Alta, desengonçada, com olhos pretos e miúdos. E a parte mais assustadora, segundo ele (eu pessoalmente não vi isso, mas depois da precisão com que ele descreveu tudo quando perguntei se ele também tinha visto, eu acredito que não estava inventando), foi que ela tinha mãos parecidas com mãos humanas. Não patas, não cascos, nada disso. Mãos. Absolutamente aterrorizante. Até agora a gente não faz a menor ideia do que era, e eu não tenho nada na cabeça que explique como ela se movia, como era a aparência ou por que parecia daquele jeito.

Aqui estou eu deitado na cama. 2h30 da manhã, sem conseguir dormir. Como eu disse, cada pedaço dessa história é completamente real. Nada foi inventado pela minha cabeça, e tudo aconteceu na mesma sequência que eu contei. Se você não acredita em mim, foda-se. Eu sei o que vi, sei que não estou louco. Eu nem presto atenção nessas coisas de criaturas criptidas ou qualquer merda do tipo. Mas hoje foi diferente. Pode apostar que eu não vou entrar na mata por um tempo depois do que aconteceu. Se você souber de qualquer coisa, por favor me conta. 

Mas não espero que saiba.

As Horas Silenciosas

Não percebi de imediato porque não estava procurando por isso. Só notei porque minha vizinha percebeu primeiro — e, depois disso, ela parou completamente de falar comigo.

O nome dela era Diane. Apartamento 4B, exatamente em frente ao meu (4A). Morávamos no mesmo prédio havia três anos: cumprimentos rápidos na área dos correios, reclamações sobre o zelador, aquele ritmo de vizinhança que a gente nem nota até ele desaparecer. Ela era aposentada. Tinha um gato. Não consigo lembrar o nome dele.

O primeiro sinal foi um bilhete que alguém enfiou por baixo da minha porta em dezembro. Escrito à mão, em papel de caderno pautado, com a tinta um pouco borrada, como se tivesse sido feito com pressa.

Por favor, pare de andar à noite.

Eu não ando à noite. Trabalho em casa numa empresa de entrada de dados e logística, e minha rotina não mudou em dois anos. Acordo às sete. Café. Notebook. Durmo por volta das onze. Não tenho sonambulismo. Pelo menos, nunca tive.

No dia seguinte de manhã bati na porta dela. Ela atendeu, mas deixou a corrente de segurança. O rosto estava tenso de um jeito que eu nunca tinha visto antes. Não era raiva. Era outra coisa.

“Diane, recebi seu bilhete. Acho que houve um mal-entendido.”

“Eu escuto você todas as noites”, ela disse. “Entre três e quatro da manhã. Andando de um lado para o outro no corredor. Só de um lado para o outro.”

“Não sou eu.”

“É a sua porta que abre.”

Ela fechou a porta na minha cara. Não bateu. Apenas fechou com cuidado. Depois ouvi o trinco girar.

Naquela noite coloquei um alarme para as 3:00. Fiquei sentado no sofá no escuro, olhando fixamente para a porta da frente. Nada aconteceu. Às 3:47 voltei para a cama me sentindo ridículo.

Na manhã seguinte, outro bilhete.

Você fez de novo.

Comprei uma câmera de segurança — barata, daquelas que se fixam com fita adesiva. Demorou dois dias para chegar, mais dois para instalar direito. Quando finalmente ficou pronta, Diane já não atendia mais a porta. A caixa de correio dela começou a encher no corredor. Principalmente catálogos. Alguns envelopes que pareciam vir de uma previdência privada.

Durante quatro noites a gravação não mostrou nada. Corredor vazio. Minha porta fechada. O relógio avançando em silêncio.

Na quinta noite, às 3:14 da manhã, minha porta abriu.

Assisti seis vezes antes de aceitar o que estava vendo. O trinco girou — suave, limpo — e a porta se abriu para dentro. Ficou aberta exatamente por quarenta e um segundos. Depois fechou. O trinco voltou à posição.

Nada entrou no corredor. Nada saiu do meu apartamento. A porta abriu e fechou sozinha, a partir de dentro.

Naquela tarde chamei um chaveiro e troquei todo o mecanismo. Trinco novo, maçaneta nova, contraferrolho novo. Duzentos dólares pelo ralo. Ele testou duas vezes antes de ir embora.

Naquela noite, às 3:14, o trinco novo abriu.

Comecei a revisar as imagens quadro a quadro, em câmera lenta. Foi quando percebi a vibração: a luminária do corredor, uma placa fluorescente barata, tremia às 3:13. Um minuto inteiro de tremor fino e rápido, como se algo pesado estivesse mudando de posição bem perto dali. Depois, silêncio. E então o trinco girou.

Verifiquei as cinco noites. A vibração estava lá todas as vezes. Exatamente um minuto antes.

Chamei o zelador. Ele mandou alguém olhar a soleira, as dobradiças. O cara deu de ombros, disse que estava tudo certo. Não mostrei a gravação. Não sei por quê.

Os quarenta e um segundos começaram a me incomodar. Cronometrei em onze noites seguidas. Nem uma variação. O que quer que estivesse acontecendo era preciso. Fazia exatamente o que pretendia, pelo tempo exato que precisava.

Então comecei a calcular. Quarenta e um segundos para ir até o fim do corredor e voltar? Doze segundos. Até a escada? Dezoito. Até a porta da Diane e voltar? Seis.

Nada batia.

Depois tentei outra coisa. Fiquei parado no corredor e simplesmente esperei, contando mentalmente. Quarenta e um segundos em pé, respirando devagar. Parecia o tempo que o corpo leva para voltar a dormir depois de acordar suavemente. O tempo que uma pessoa precisa para se aquietar de novo.

A porta não estava abrindo para algo sair ou entrar.

Depois disso deixei bilhetes para Diane. Enfiava pela fresta da caixa de correio.

Você ouviu de novo ontem à noite?

Tenho na câmera. Não sou eu.

Nenhuma resposta. A correspondência dela continuou se acumulando. Num sábado bati forte, três vezes, e encostei o ouvido na madeira. Fiquei ali quase um minuto inteiro. Quase chamei a administração do prédio para fazer uma visita de bem-estar, mas algo me segurou — não era exatamente preocupação. Era mais uma certeza. Como se eu já soubesse que ela estava bem. Como se soubesse que ela estava do outro lado daquela porta, a poucos centímetros, e simplesmente tinha decidido não abrir.

Deixei ela em paz.

No dia 9 de novembro cheguei do mercado e encontrei a porta do meu apartamento destrancada. Não aberta. Destrancada. Meio da tarde. O trinco estava na posição aberta, a maçaneta ligeiramente girada, como se alguém tivesse acabado de soltá-la.

Fiquei parado no corredor um tempo longo antes de entrar.

Nada fora do lugar. O notebook na mesa estava fechado como eu tinha deixado. O copo na pia era o mesmo que usei de manhã. Mas havia um cheiro — fraco, e errado de um jeito que demorei vários minutos para identificar. Fiquei no meio da sala respirando pelo nariz até entender.

Era o cheiro de sono. Aquele cheiro quente, próximo, de pele e respiração de alguém que ficou deitado por horas num quarto parado. Um corpo em repouso.

Minha cama estava arrumada. Lençóis esticados, como sempre deixo. Mas quando levantei o edredom, o colchão estava quente. Não temperatura ambiente. Quente de corpo. Como se alguém tivesse ficado deitado ali por muito tempo e tivesse se levantado poucos minutos antes de eu chegar.

Eu não estava dormindo sozinho.

Não sabia há quanto tempo.

Saí do apartamento dois dias depois. Não rescindi o contrato direito — só juntei o que consegui carregar em duas viagens e fui embora. Não avisei o zelador. Não avisei ninguém.

Quero ser honesto sobre o que acredito, porque sei como isso soa. Não sou supersticioso. Não acredito em fantasmas, assombrações ou qualquer coisa do tipo. Acho que existe uma explicação para tudo o que aconteceu naquele apartamento. Algo estrutural, algo no prédio, algo que eu não entendi. Provavelmente chato. Provavelmente mecânico.

Instalei a mesma câmera no novo lugar antes mesmo de terminar de desfazer as malas. Mesmo ângulo, apontada para a porta da frente. Coloco alarme para as 3:00 todas as noites. Sento no escuro, olho para a porta e espero.

Nas primeiras três noites, nada aconteceu. A porta ficou fechada. O trinco ficou parado. Comecei a me sentir normal de novo. Comecei a achar que tinha escapado.

Hoje de manhã acordei às 6:41, uma hora antes do alarme. Fiquei deitado um momento e então percebi — os lençóis do outro lado da cama.

Eles estavam puxados para trás. Puxados com cuidado, do jeito que alguém faz quando não quer acordar a pessoa ao lado.

Eu Achava que Era Esquizofrênico, Até Perceber que Não Era

O papel de parede do meu apartamento tinha um tom amarelo doentio, descascando em tiras longas e secas como pele morta. Eu estava sentado na mesma poltrona havia seis horas, encarando o canto do teto.

O Dr. Aris chamava aquilo de "déficit de filtragem sensorial". Ele dizia que meu cérebro era um rádio quebrado, captando estática e interpretando-a como vozes. Ele me receitou Clozapina – comprimidos pesados e calcários que faziam minha língua parecer um pedaço de chumbo.

"Eles não existem, Elias", ele dizia com aquela voz suave e paternalista. "Os homens altos com dedos de agulha. O jeito que as paredes pulsam como uma garganta. São apenas seus receptores de dopamina dando defeito."

Eu queria acreditar nele. Meu Deus, como eu tentei.

Às 23h42, o arranhar começou. Veio de dentro do radiador – um raspado metálico e rítmico que durou vinte minutos. No passado, eu teria fechado os olhos e contado de trás para frente a partir de cem. São só os canos se dilatando, eu dizia a mim mesmo. Expansão térmica.

Mas então, o som migrou. Ele rastejou para fora do radiador e se moveu pelos tacos do assoalho. Eu observei a madeira. Observei com uma intensidade que embaçou minha visão. Lentamente, de forma agonizante, os tacos do assoalho começaram a se curvar para cima, como se algo incrivelmente pesado estivesse pisando neles por baixo do carvalho sólido.

"Não é real", eu sussurrei. Minha voz era um crocito seco.

Então, a primeira "alucinação" apareceu. Ela emergiu da sombra do cabideiro. Tinha quase dois metros de altura, seus membros finos como galhos de salgueiro, envoltos numa membrana translúcida e oleosa. Não tinha rosto – apenas um aglomerado de olhos úmidos e piscantes, dispostos numa linha vertical ao longo do torso.

Eu a observei por uma hora. Ela não se movia rápido. Movia-se com a lentidão agonizante de um ponteiro de relógio. Estendeu um membro, as juntas estalando como um saco de bolinhas de gude, e tocou a borda da minha mesa de centro.

No passado, minha mão teria passado direto por ela. Alucinações não têm massa.

Mas a mesa rangiu. A madeira se esfarelou sob o toque da criatura. Um copo d'água tombou, o líquido derramando pelo chão, encharcando o carpete.

"Não", eu arquejei, o peso de chumbo da medicação fazendo meu coração disparar. "Você é uma projeção. Meu cérebro está dando defeito."

A criatura se inclinou. Eu pude senti-la agora. Não cheirava a hospital ou farmácia. Cheirava ao sal profundo e pressurizado do leito oceânico e a ozônio. Abriu uma fenda perto da clavícula, e um som saiu – não uma voz, mas uma frequência que fez meus dentes doerem.

“Estamos cansados... de sermos... invisíveis”, ela vibrou.

Agarrei meu frasco de comprimidos e joguei na coisa. O frasco de plástico não voou pelo ar e bateu na parede. Acertou o peito da criatura com um baque surdo e caiu no chão. A criatura pegou um único comprimido com dois dedos em forma de agulha. Esmagou o remédio até virar um pó branco e fino.

"Se eu sou louco", eu gritei, "por que posso sentir o vento quando você se move?"

Eu me levantei, minhas pernas tremendo, e corri para o banheiro. Tranquei a porta e olhei no espelho. Esse era meu ritual. O Dr. Aris dizia que espelhos eram "ancoragens".

Mas enquanto eu observava, meu reflexo não me imitou. Meu reflexo ficou parado, me encarando com uma expressão de pena absoluta e arrasadora. Atrás do meu reflexo, no "mundo espelhado" do meu banheiro, dezenas das criaturas cobertas de olhos estavam aglomeradas, seus membros entrelaçados como um ninho de cobras.

Eu percebi então, com um frio que transformou meu sangue em lama, que a medicação não servia para parar as alucinações. Servia para embaçar minha visão. O mundo que eu achava que era real – o mundo de parques, empregos e médicos – era a alucinação. A "estática" que eu captava não era de um rádio quebrado. Eu era o único rádio do mundo sintonizado na estação certa.

Ouvi uma batida na porta do banheiro.

"Elias? É o Dr. Aris. Entrei com a chave de emergência. Você perdeu nosso check-in."

"Doutor!", eu gritei, pressionando minhas costas contra a porta. "Eles estão aqui! São sólidos! Quebraram a mesa!"

"Elias, abra a porta. Você está tendo um colapso. Eu tenho a ordem para a ala de internação bem aqui."

Eu destranquei a porta, desesperado por um rosto humano. O Dr. Aris estava lá, sua prancheta na mão. Ele parecia normal. Parecia seguro.

Mas então olhei para sua sombra.

Sua sombra não parecia com a de um homem de terno. Sua sombra era uma massa se espalhando, com múltiplos membros, que cobria todo o corredor. E quando o Dr. Aris estendeu a mão para tocar meu braço, vi sua mão "humana" tremeluzir. Por uma fração de segundo, não era pele. Era a mesma membrana oleosa que eu tinha visto na criatura.

"Você é um deles", eu sussurrei.

O Dr. Aris parou de sorrir. Seus olhos não se moveram, mas a pele de sua testa se abriu, revelando uma fileira de olhos úmidos e piscantes, iguais aos da coisa na minha sala.

"Tentamos mantê-lo sedado, Elias", ele disse, sua voz agora vibrando com aquela mesma frequência horrível. "É muito mais doloroso para o gado quando ele consegue ver o açougueiro."

Ele deu um passo na minha direção, e as paredes do apartamento finalmente desistiram da ilusão. O papel de parede amarelo se dissolveu, revelando que eu não estava em um apartamento, afinal. Eu estava numa gaiola feita de osso, suspensa numa vasta catedral escura de carne. Milhares de pessoas estavam em gaiolas similares, todas encarando em branco para o nada, suas bocas se movendo enquanto falavam com "médicos" e "famílias" que não estavam ali.

Eu não era um homem esquizofrênico num apartamento bagunçado. Eu era uma mente consciente num campo de colheita, e a medicação finalmente tinha perdido o efeito.

Eu Pedi a Deus que Protegesse Minha Casa Sem Especificar Como

As sirenes começaram logo depois do jantar, aquele longo uivo de animal ferido que aperta a espinha mesmo quando você já ouviu cem vezes. Eu estava lavando a louça na pia. Minha esposa, Karen, limpava a mesa. As crianças discutiam sobre quem tinha pegado o último pãozinho.

“Porão, agora!” eu disse. Não alto. Só firme. Nós treinávamos isso.

Moramos na divisa da cidade, lado sul, onde os campos se abrem e o céu parece maior do que deveria. Missouri é assim. A fé corre forte por aqui. O tempo também. Eu já tinha pregado sobre tempestades — como Deus manda chuva sobre justos e injustos, como Ele é refúgio. Eu acreditava nisso. Ainda acredito.

A porta do porão gemeu como sempre. Os degraus estavam úmidos. Acendi a luz e a lâmpada zumbiu. Descemos em fila: as crianças primeiro — Eli com sete anos, Ruth com onze, Caleb com catorze —, depois Karen, depois eu, puxando a porta e fechando-a. Tranquei o ferrolho. Já sentia a pressão mudando nos ouvidos.

O rádio chiou. Alerta de tornado. Rotação confirmada. Abrigar-se imediatamente.

Karen segurou minha mão. Eu sentia ela tremendo.

Ela se aproximou para que as crianças não percebessem o tremor na voz. “Darrell, o que a gente faz agora?”

Não hesitei. “A gente descansa em Deus”, respondi com convicção. “Como sempre fizemos.”

O vento começou a bater na casa, grave e pesado. Poeira peneirava das vigas.

Olhei para as crianças encolhidas no banco, olhos arregalados.

“Venham aqui, pessoal.” Eles se aproximaram, joelhos encostando uns nos outros. “Vamos orar.”

Baixamos a cabeça. Pedi a Deus que cobrisse nossa casa, que colocasse Sua mão entre nós e a tempestade. Disse que confiávamos Nele. Eu estava sendo sincero. O vento começou a gritar lá em cima, um som de trem de carga como os velhos dizem, só que mais alto do que qualquer trem que eu já ouvi.

Algo atingiu a casa. As paredes tremeram. Terra caiu do teto e empoeirou nossos ombros. Ruth começou a chorar. Continuei orando. Ore mais alto.

Então, tão repentinamente quanto veio, o som se afastou. A pressão diminuiu. O rádio disse que a célula tinha se elevado, desviado para leste, poupado o centro da cidade. De manhã, subimos e encontramos galhos quebrados e uma cerca destruída. Sem telhado levado. Sem paredes caídas. Louvado seja Deus.

Na igreja naquele domingo, o santuário estava lotado. As pessoas choravam e se abraçavam. Cantamos mais alto do que de costume. O pastor disse que fomos poupados por um motivo. Concordei com a cabeça. Pensei na oração no porão e senti certeza de que tinha sido ouvido.

Tudo começou com uma erupção no braço do Eli. Vermelha, irritada, parecida com hera venenosa, mas mais molhada. Passamos calamina. Depois antibióticos do pronto-socorro. A pele abriu mesmo assim. Cheirava errado. Doce e azedo ao mesmo tempo.

Karen ganhou uma mancha no pescoço dois dias depois. Depois veio o tornozelo do Caleb. Pessoas pela cidade começaram a aparecer com curativos, com lenços no calor. O pronto-socorro lotou. O estado mandou reforços. Homens de macacão branco de proteção química começaram a bater nas portas.

Uma mulher do CDC coletou cotonetes. Ela não olhava nos meus olhos. “Estamos pedindo para todos ficarem dentro de casa”, disse. “É temporário.”

Não foi.

A pele da Karen escureceu em volta da ferida, descascando como papel molhado. Ela tentou brincar. “Acho que não vou poder usar meu vestido de domingo”, disse. Depois chorou quando achou que eu não estava olhando.

Montaram bloqueios nas estradas. Caminhões da Guarda Nacional ficavam parados nas saídas. Os celulares vibravam com boatos. Bioterrorismo. Julgamento divino. Eu orei mais. Perguntei qual era a lição que deveríamos aprender.

Não nos reuniram pessoalmente. Em vez disso, todo mundo entrou numa chamada Zoom municipal, rostos em caixinhas tremidas, microfones abrindo e fechando. Um homem de cabelo grisalho e olhos cansados ocupou a tela principal. O áudio atrasou um segundo antes de ele falar, voz plana e cautelosa, como se cada palavra tivesse sido ensaiada.

“Acreditamos que o tornado aerosolizou a terra superficial de uma área agrícola e dispersou esporos de Mucorales presentes nela sobre a cidade.”

Uma mulher desmutou o microfone. “O que isso quer dizer?”

O cientista hesitou, dedos apertados no microfone. “É… complicado.”

Peguei meu celular, dedos desajeitados. Mucar—? Mucor—? O corretor automático corrigiu. Cliquei no primeiro resultado e senti a garganta fechar.

Desmutei e li em voz alta. “Mucormicose”, eu disse. “Uma infecção fúngica rara, mas grave. Causa morte de tecido. Às vezes chamada de—”

Engoli em seco. “Fungo preto comedor de carne.”

A chamada ficou em silêncio absoluto.

“Não há motivo para alarme…”, o cientista tentou nos tranquilizar. “Estamos trabalhando em antifúngicos. A contenção é crítica.”

Pensei na oração. Na tempestade que desviou do coração da cidade, como se um dedo tivesse sido levantado no último segundo.

O Eli não aguentou a semana. A infecção avançou rápido quando chegou ao ombro. Ele tentou ser corajoso. “Pai”, disse, voz fina, “eu fiz alguma coisa errada?”

“Não, filho…”, respondi. “Jesus te ama.”

Quando levaram o corpo dele, selaram o saco com força. Eu ainda sentia aquele doce errado impregnado na casa.

Karen foi dois dias depois. Depois Ruth. Segurei Caleb na noite em que a febre dele disparou. Ore mais forte do que nunca. Implorei a Deus que poupasse pelo menos um dos meus filhos.

Caleb morreu antes do amanhecer.

Estou sozinho agora. A fita de quarentena ainda tremula no fim da rua. Os campos estão quietos. O céu está limpo. Sento no porão com o rádio desligado e a Bíblia aberta, olhando para palavras sobre refúgio e misericórdia.

Abro numa página que não me lembro de ter marcado. Jó, papel fino sussurrando.

“O Senhor deu, e o Senhor tirou…”

Abaixo, vejo outro versículo: “Aceitaremos o bem de Deus, e não o mal?”

Fecho o livro.

Meus dedos coçam. A pele perto do pulso amoleceu, mais escura do que deveria estar. Tem um leve cheiro doce.

Não tenho mais medo.

Oro para que Deus me receba. Encontro consolo na promessa silenciosa de rever minha família no Céu.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon