Não sei quanto tempo eu ainda tenho. Minhas mãos não param de tremer e meu pulmão tá queimando como se eu tivesse respirado fogo, mas eu preciso botar isso pra fora porque não sei se vou conseguir sair vivo dessa mata antes que o que quer que esteja se mexendo ali na beirada das árvores me ache. Se você tá lendo isso, entenda uma coisa: tudo sobre os Laboratórios Helixion não era boato. Não era teoria da conspiração. Era real. E a gente libertou uma coisa que devia ter ficado enterrada pra sempre.
Eu era de uma equipe de cinco caras: Comandante Coleman, Matthews, Fields, Torres e eu. Fomos mandados pra conter uma brecha de segurança numa instalação ultra-secreta. Comunicação cortada, número de mortos desconhecido. Aquela missão que a gente treina a vida inteira mas reza pra nunca cair.
O lugar chamado Helixion Labs não era nenhuma instalação civil. Era financiada pelo governo, enterrada sob uns bons quinze metros de concreto armado no cu do mundo. Pesquisa genética, evolução experimental… aquele tipo de coisa que só existe em filme de terror e fantasia. Eu tinha ouvido os boatos: animais com genes misturados, híbridos humano-animal, supersoldados feitos pra sobrevriar qualquer coisa. Achava que era papo de maluco, mas eu não fazia ideia do quanto tava errado.
Pousamos logo depois do amanhecer. A neblina tava baixa e pesada, engolindo qualquer som antes dele chegar nas árvores. O portão de aço tava escancarado, dobrado pra fora, como se alguma coisa tivesse forçado passagem pra sair.
Antes de entrar, Coleman passou o plano:
“Vamos resgatar sobreviventes, descobrir o que rolou, achar a sala dos geradores, colocar as cargas e vazar pelo túnel que sai dali pros lados da mata”, explicou ele. “A porta é trancada com código que me passaram. Assim que a gente sair, as cargas detonam e levam o prédio inteiro pro saco junto com tudo que tiver dentro.”
Terminou de falar e a gente entrou. Energia cortada. Só as luzes de emergência deixando os corredores num vermelho sufocante. Silêncio total, só o barulhinho do nosso equipamento e o chiado de vapor vazando de cano quebrado. Quanto mais fundo, pior o cheiro: carne queimada, sangue, podre e um troço químico que arranhava a garganta.
Achamos o primeiro corpo na recepção… ou o que sobrou dele. Um cientista, metade do tronco sumida. As costelas abertas pra fora tipo flor desabrochando, as tripas espalhadas pelo chão. Alguém tinha escrito uma palavra na parede do lado com os dedos tremendo.
CORRE.
“Ataque de animal?”, Torres sussurrou.
Coleman nem olhou pra ele. “Animal nenhum faz isso.”
Seguimos mais fundo, varrendo o corredor leste. Cápsula de bala, marca de queimado e jaleco rasgado pra todo lado. Num canto, um corpo meio fundido na parede. Carne e concreto misturados como se fossem a mesma coisa.
Os elevadores eram sucata retorcida, então descemos pela escada de serviço pro Subnível 3 – Divisão Genética. Cada degrau ecoava e meu coração parecia que ia rasgar o peito pra sair.
Aí a gente ouviu: um arranhado, metal no concreto.
Fields virou o fuzil com lanterna pro corredor e, por um segundo, eu vi movimento. Uma coisa pálida, rápida demais pra focar.
“Olhos abertos”, Coleman mandou. “Não tá vazio aqui. Cuidado com a retaguarda.”
Achamos outro corpo. Os ossos moles, dobrados em ângulo impossível. A pele escorrendo como cera de vela.
Torres quase vomitou: “Porra, Jesus Cristo, o que caralhos faz uma coisa dessas?”
Aí veio a respiração. Lenta, pesada e errada.
A coisa apareceu debaixo de uma porta que ela devia ter que se abaixar pra passar. Pele pálida quase brilhando, como se não tivesse sido feita pra luz. A mandíbula desencaixada, dentes pretos e finos que nem agulha, mas os olhos… puta merda, aqueles olhos… me encarando com uma inteligência humana que me congelou no lugar.
Coleman atirou primeiro, mas a coisa era mais rápida que qualquer coisa que eu já vi. Chegou no Fields antes da gente piscar.
Começou a rasgar ele com garras que pareciam lasca de osso. O som não era rugido… era tipo risada, distorcida, mecânica.
A gente abriu fogo tudo. Bala atravessava, mas a coisa não caía. Soltou um grito agudo que fez minha visão embaçar.
Quando ela sumiu de volta no duto de ventilação, Fields não tava mais de pé com a gente. Só sobrou uma poça de carne triturada, roupa, equipamento e sangue.
Seguimos porque tinha que seguir. Parar era começar a pensar no que a gente tinha acabado de ver.
Chegamos na sala de controle. Coleman achou um único vídeo que ainda rodava. A maioria tava corrompida, mas um funcionava: filmagem de uma cela de contenção. Um cara amarrado numa maca, gritando. As costas arqueando enquanto alguma coisa mexia debaixo da pele, aí a pele se abriu como casulo e uma coisa rastejou pra fora. Igualzinha à que matou o Fields.
Nome do arquivo queimou na minha cabeça: SUJEITO 47B – TESTE DE REGENERAÇÃO
Torres quis abortar a missão, mas Coleman bateu o pé que não.
Subnível 4 foi pior. O ar tava úmido e vivo. As paredes pulsavam de leve, como se respirassem junto com a gente. Uma coisa caiu do teto – fina, pálida, mais rápida que o olho consegue acompanhar. Matthews atirou por reflexo.
O clarão do cano iluminou outras penduradas nas paredes, agarradas que nem aranha, mas com forma de gente pela metade da transformação. Andavam de quatro, osso estalando a cada movimento.
A gente correu, mas elas vieram atrás gritando. Uma pulou em cima do Torres e grudou na perna dele. Virei e meti bala à queima-roupa, explodi metade dela fora dele… mas os tentáculos já tavam entrando na pele. Ele gritou até a voz virar gorgolejo.
Elas começaram a enxamear ele, os tentáculos se retorcendo debaixo da carne, esvaziando o cara por dentro. Quando terminaram, arrastaram o que sobrou dele pra parede – usando o corpo dele como saco de ovo.
Selamos o Subnível 4 e tentamos respirar, mas Coleman manteve a gente andando. Não pela missão… pela sanidade, pela ilusão de que ainda tinha algum controle.
O rastreador do Matthews pegou sinais fracos – vários, se movendo devagar e de forma irregular.
“Pode ser sobrevivente”, eu disse, voz falhando.
“Duvido muito”, Matthews respondeu. “Ninguém sobreviveu a isso aqui.”
Coleman suspirou: “Ele tá certo, mas a gente vai conferir mesmo assim.”
Aí veio o som. Primeiro baixo, depois crescendo.
Cantoria.
Uma melodia suave, meio desafinada mas dolorosamente familiar.
Cantiga de ninar. Aquela que toda criança conhece, mas meio segundo fora do tom, como se alguém tivesse esquecido a letra.
O som nos levou pra uma câmara onde o ar era quente e úmido, fedendo a podridão. Cabos pendurados no teto… só que não eram cabos. Balançavam e se retorciam no ritmo da música. Alguma coisa molhada pingou no ombro do Matthews. Quando ele olhou pra cima, congelou no meio da respiração.
O teto não era metal. Era carne viva. Os cabos eram intestino e língua pendurados, com nervo enrolado em volta.
E tinha dezenas… talvez centenas… de bocas humanas cravadas na superfície. Lábios rachados e tremendo, dentes batendo em perfeita harmonia. Algumas articulavam palavras mudas, outras cantavam em tons quebrados. As línguas se esticavam pra baixo, tateando o ar.
“Jesus Cristo…”, eu sussurrei.
Aí elas começaram a gritar. Todas ao mesmo tempo. O som parecia sucção virada do avesso.
Matthews abriu fogo e sangue – ou sei lá o quê – choveu em cima da gente, chiando no chão. Mas as bocas não paravam. Formavam palavras que não existiam em língua nenhuma.
De repente uma língua desceu chicoteando, enrolou no pescoço do Matthews. Ele arranhou, olhos esbugalhados. Segurei as pernas dele e puxei. A língua se soltou… junto com metade da garganta dele. Morreu na hora nos meus braços.
As bocas começaram a rir.
Coleman jogou uma granada incendiária. Fogo tomou o teto inteiro, carne estourando que nem óleo quente. A cantoria parou e virou grito que foi morrendo no silêncio.
Quando a chama apagou, só sobraram dois de nós.
Chegamos no setor de segurança. A energia reserva piscou por alguns segundos. Naquele clarão, vimos dentro das celas reforçadas: formas que talvez um dia tinham sido gente, ou bicho, ou os dois. Corpos pegos no meio da transformação, congelados em posições que doíam só de olhar.
Foi aí que caiu a ficha: todos aqueles boatos sobre Helixion eram verdade. As aberrações nas celas eram soldados, protótipos que deram errado. Eles tavam tentando construir a própria evolução… e conseguiram.
Achamos a sala dos geradores e armamos as cargas. Coleman mandou eu cobrir a porta.
Quando ele colocou a última carga, ouvi respiração vindo de cima. A coisa começou a falar com várias vozes ao mesmo tempo, tipo rádio trocando de estação sem parar.
Caiu em cima do Coleman com um baque pesado. Essa era diferente – maior, mais completa. As outras pareciam protótipos ou no meio da evolução… essa era o produto final.
O corpo era um remendo perfeito de várias pessoas costuradas. Eu reconheci pedaços… rostos que eu conhecia, olhos que eu conhecia. Não mortos, não vivos… só presentes.
A boca se abriu na vertical, partindo a cabeça no meio, revelando fileira atrás de fileira de dente fino e afiado.
Coleman gritou pra eu correr, mas eu travei, Deus me perdoe, eu travei.
“É ORDEM, MARTINEZ! CORRE! Usa o túnel – código 8593! AGORA VAI!”
Aí a coisa começou a rasgar ele, carne e osso que nem manteiga. Coleman não gritou… foi lutando, enfiando a faca até o corpo amolecer.
Atirei na aberração até o pente acabar. Quando terminou com o Coleman – que agora era só um monte de carne rasgada e sangue – ela olhou pra mim e ficou parada. Aí falou.
Não com palavras, mas a última coisa que eu ouvi antes da explosão foi a criatura imitando perfeitamente a voz do Coleman, implorando pra eu não abandonar ele.
Nem lembro de digitar o código, entrar no túnel ou como cheguei na mata. Só sei que não tava sozinho quando cheguei lá.
Quando as cargas explodiram, a instalação desabou… mas a floresta se mexia de um jeito que não era vento. Da encosta onde eu tava, vi formas rastejando pra fora dos escombros. Dezenas, talvez centenas, se espalhando pela mata.
Tô escondido há três horas. Rádio morto, a mata ficou em silêncio total, como se tudo aqui estivesse prendendo a respiração.
Tô usando o celular pra botar isso no mundo. Já tentei ligar e mandar mensagem, mas o sinal caiu. As criaturas devem ter derrubado as torres, isolando todo mundo aqui do resto do planeta.
Pelo menos a internet ainda pega, então postar isso é minha única chance de avisar vocês. Eu sei que vazar isso vai custar meu emprego, minha carreira, tudo… mas eu não ligo mais. Vou fazer o possível pra continuar atualizando.
Se alguém tá lendo isso: NÃO MANDA RESGATE. NÃO VEM INVESTIGAR. Só espalha esse post pra caralho pra avisar o que tá vindo e prepara tua casa.
Porque eles tão na superfície agora… e evoluíram pra máquinas de matar perfeitas.

