terça-feira, 7 de julho de 2026

Coisas Estão Sumindo na Minha Casa

Moro numa pequena cabana enfiada no meio da mata, a mais ou menos uma hora do posto de gasolina mais próximo. Eu precisava do silêncio depois do meu colapso nervoso no trabalho, que me forçou a tomar antipsicóticos. Achei que o ar puro das árvores gigantes ajudaria a clarear minha mente perturbada.

Fiquei lá por quase um ano, vivendo de programação. O isolamento foi uma mudança bem-vinda depois da poluição e dos arranha-céus — aqueles monumentos da ganância. A cidade me sufocava, e eu precisava me sentir livre. Essa casa era praticamente minha única saída, já que meus pais tinham cortado minha mesada. Encontrei o lugar por um preço baixo e precisava de um teto.

Na maior parte do tempo, depois que comprei a casa, eu ficava em casa, limpava, lia e programava. De vez em quando ia ao posto abastecer e comprar comida. Toda a minha interação humana se resumia a dizer "obrigado" e "sim, por favor" para o adolescente de 17 anos, cheio de espinhas, que atendia atrás do balcão.

O isolamento me corroía como uma matilha de lobos famintos, desesperados pela próxima refeição. As mandíbulas da solidão dilaceravam minha saúde mental.

A infestação começou devagar, tão devagar que é difícil precisar o dia em que eles começaram a se aninhar debaixo de mim. As coisas começaram a sumir. Colheres, meias, qualquer coisa pequena e fácil de perder. Eu achava que estava só extraviando as coisas e deixava pra lá.

Um dia, eu estava sentado no sofá, a tela brilhante do computador iluminando o quarto escuro, com as cortinas fechadas como véus escondendo o mundo lá fora. Então, no meio da escuridão, com a mente focada no código e nos valores, eu ouvi.

O tamborilar de patinhas pequenas batendo no assoalho de madeira substituiu o clique das teclas do teclado. Meu coração afundou. Fiquei imóvel, como se Medusa tivesse me transformado em pedra. Minha mente disparou, cavalgando entre mil possibilidades sobre o que poderia estar fazendo aquele barulho.

O som rodeava o sofá, depois ia pra cozinha, e então o tilintar de talheres se misturava à correria das patinhas.

Reuni o pouco de coragem que me restava e corri até o interruptor. O barulho das patinhas aumentava a cada passo que eu dava em direção à luz. Parecia que centenas de patinhas fugiam correndo enquanto eu me aproximava. Quando a luz inundou a sala como uma onda, o barulho parou.

O tamborilar das patinhas cessou assim que acionei o interruptor, como se eu tivesse desligado a capacidade de movimento do que quer que estivesse ali no momento em que baní a escuridão com um simples clique. A gaveta dos talheres estava aberta. Facas, garfos e colheres tinham sumido dos seus lugares.

Me segurei no balcão da cozinha como se ele fosse a única coisa me mantendo no chão. Meu coração começou a bater como tambores de guerra, minha mente disparava, minhas mãos tremiam com a fúria de uma casa desabando.

Já tive todo tipo de praga e bicho tentando fazer da minha casa o lar deles, mas nunca tinha ouvido um som igual. E que tipo de praga rouba colheres? Minha respiração ficou curta e acelerada. Abri todas as cortinas, e a luz da tarde invadiu a sala. Me sentei no sofá de novo.

Eu não entendia o que estava acontecendo; minha mente estava sobrecarregada, em estado de choque. Nunca soube lidar com pressão, e aquilo era demais. Cambaleei pelo corredor, as pernas bambas, o andar estranho e duro. Os únicos sons que eu ouvia eram minha respiração ofegante e as batidas brutais do meu coração.

Agarrei a maçaneta do meu quarto com tanta força que parecia que ia cair se soltasse. Empurrei a porta e caí de cara na cama. Rios de lágrimas escorriam dos meus olhos pelas bochechas. Eu não aguentava mais.

Enrolei o cobertor em volta do corpo trêmulo, como se aquele pedaço acolchoado de lã e tecido fosse meu escudo de aço, capaz de me proteger dos dragões do mundo. Fiquei nesse estado de medo e pânico por horas, até os raios de sol se desvanecerem no horizonte e a escuridão começar a se espalhar como um nevoeiro.

Não sei que horas eram, mas me levantei da minha fortaleza de cobertores e travesseiros. Estava cansado e precisava tomar meu remédio. Atravessei a porta que tinha esquecido fechada e entrei no corredor. Minha mente estava vazia, anestesiada. Era meu jeito de lidar com o estresse.

Entrei na cozinha e peguei o frasco de comprimidos. Aquelas pequenas pedras da medicina moderna eram para manter minha mente calma e sã. Abri o frasco, e a única coisa que saiu foi ar. Es.Tava.Vazio.

Comecei a surtar. Eu tinha pegado um frasco novo só três dias antes. Gritei, berrei, pisei no chão como um bebê enfurecido. Eu sabia que tinha pegado no dia 23 de março, e olhei no celular para confirmar.

"24 de abril."

Fazia um mês que eu não tomava meus remédios. Um mês inteiro de ansiedade e depressão. Caí no chão, minhas pernas não obedeciam mais. Comecei a chorar como uma viúva que acabou de saber que o marido morreu na guerra. Chorei pra caralho, as lágrimas escorriam como água de torneira. Eu não entendia o que estava acontecendo. O tempo parecia distorcido: dias pareciam horas e horas pareciam dias.

Meu colapso foi interrompido de repente pelo som de patinhas. Vinha do corredor. Congelei. E num instante — fosse coragem ou curiosidade — apontei a lanterna do celular para o escuro do corredor.

A luz atravessou a escuridão como uma lança rasgando carne. Uma criaturinha humanóide estava parada, imóvel. O topete branco e sujo no alto da cabeça estava eriçado. Seus dedos pequenos, com três garras, seguravam uma das minhas colheres. Duas fendas marrons na vertical ocupavam o lugar onde deveriam estar os olhos. A cabeça redonda parecia grande demais para o pescoço magrelo e comprido. Um corpo em formato de pera dava lugar a braços e pernas finos, que terminavam em dois longos dedos nos pés. A pele pálida e esbranquiçada era coberta por pelos finos e brancos. Ela tinha uns trinta centímetros de altura.

As fendas marrons se abriram, revelando olhos azuis saltados, com pupilas de sapo. Eu e a coisa ficamos paralisados, os olhos dela fixos nos meus. Então, ela saiu correndo pelo corredor com uma velocidade impressionante, e eu fui atrás. Gritei, chorei, minha mente deixou o corpo assumir o controle. A colher de prata que ela segurava brilhava sob a lanterna do celular, e eu a usei como rastro para seguir a pequena ladra.

Ela entrou correndo no banheiro. Quando entrei atrás, vi a pequena ladra branca se enfiando num buraco atrás do vaso sanitário. Me joguei no chão; os azulejos frios aliviaram meu corpo suado, e minha mão disparou para dentro do buraco por onde a coisa tinha sumido. Enfiei a mão, tateei o túnel estreito e só senti terra e lama, com uma raiva imensa.

Meus dedos rasgaram a terra do túnel. Pedras afiadas e raízes fizeram cortes superficiais nas minhas mãos, mas eu não ligava. Aquela casa era minha, e aquelas coisas estavam ali dentro. Usei cada grama de força de vontade e uma loucura bruta que me movia como uma máquina, cavando igual um animal enjaulado. Suor e lágrimas se misturavam enquanto eu continuava aquele ataque.

Foi tudo um borrão, como um sonho que você só lembra pela metade. A última coisa de que me lembro é meu corpo exausto desabando no chão do banheiro; os azulejos frios foram a última sensação antes de meus olhos se fecharem e eu apagar.

Os raios de sol bateram no meu corpo pela janela do banheiro. Os raios quentes e acolhedores contrastavam com o piso gelado e implacável. Me levantei, trêmulo, ainda juntando os pedaços da memória da noite anterior. Olhei para minhas mãos sujas de terra e sangue, e as lembranças de dor e sofrimento inundaram minha mente despedaçada.

O buraco tinha sumido. Os azulejos estavam todos no lugar, sem sinal de que tivessem sido mexidos. Mas eu sabia que eles estavam lá. Aquelas coisas, eu sei que estão debaixo da minha casa. Eu precisava provar isso para mim mesmo. Entrei no pequeno galpão e peguei um machado. Sabia o que tinha que fazer. Comecei a arrancar o assoalho de madeira.

Minha estrutura magra normalmente não aguentaria balançar o machado por mais de alguns golpes, mas a adrenalina corria nas minhas veias. A madeira rachou e lascou quando a cabeça pesada de metal se chocou contra aquelas fibras que chamamos de madeira, partindo as tábuas. O estalo e o triturar da madeira, junto com minha respiração pesada, formavam uma sinfonia de sofrimento e destruição.

Túneis. Havia túneis embaixo do assoalho. Dava para ver pequenas câmaras onde colheres, meias e joias estavam amontoadas. Então, pequenos olhos azuis com pupilas de sapo se abriram. Doze pares. Todos me encarando.

A próxima coisa que senti foi o vento no rosto enquanto corria pela estrada. Sinceramente, não sei dizer por quanto tempo corri antes de alguém me notar e vir me socorrer. O homem me levou até a caminhonete dele e me trouxe de volta à cidade. Quando chegamos na casa dele, contei tudo o que tinha acontecido. Agora estou escrevendo isso para organizar meus pensamentos. Eu não sou louco. Eu não sou louco. Eu sei o que estou dizendo.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

O Pesadelo que Virou Realidade

Isso aconteceu comigo anteontem à noite. Me deu um puta susto do caralho. Primeiro veio atrás de mim no sonho, depois agarrou minha garganta na vida real. Foi há só umas duas noites e eu ainda tô todo arrepiado.

A noite começou normal pra cacete. Escovei os dentes, fui pegar meu gato laranja gordo pra caralho, joguei ele na cama e liguei aquele barulhinho de trovão que eu uso pra dormir. Não demorou muito pra eu apagar, com o Kream ronronando entre meus pés.

(Só pra deixar claro: eu sou cego. Mas nos meus sonhos eu enxergo. Sonho colorido pra porra, às vezes até consigo ler.)

Eu tava sentado na casa dos meus sonhos quando me toquei que tava consciente. Olhei tudo em volta com os olhos arregalados, tentando sugar cada detalhe que eu podia ver. Sonho lúcido é raro pra mim, mas quando rola é minha chance de enxergar o mundo.

Antes que eu decidisse o que fazer com aquele sonho, alguém bateu na porta da frente. A casa inteira ficou em silêncio absoluto. Meu estômago deu um nó do caralho, como se eu fosse vomitar.

Quando tô lúcido no sonho, normalmente não tenho medo do desconhecido. Afinal, é meu sonho, eu mando nessa porra, né?

Então não demorei pra ir até a porta ver qual era a do barulho. Girei a maçaneta com um sorriso de “oi, tudo bem?” no rosto… até o sorriso ser arrancado na marra.

O que empurrou a porta e entrou foi uma coisa horrível pra cacete, que me deu vontade de me esconder embaixo da cama. Senti minhas entranhas murcharem enquanto o corredor de madeira de carvalho foi engolido por uma escuridão que ia além do escuro. Era uma escuridão cheia de ódio puro.

O olhar daquela coisa me fez tremer dos pés à cabeça. Meus olhos foram puxados pro centro daquela falta de luz, onde mal dava pra distinguir a silhueta de algo. Foram os olhos pretos que me prenderam.

Aí eu senti: uma pressão de maldade pura invadindo minha cabeça, enchendo minha mente de pensamentos de derrota, de desistir, de me foder sozinho. Aquela coisa queria que eu me matasse com as próprias mãos.

Mas eu tava lúcido, então tentei mandar ela embora na força do pensamento. Não funcionou porra nenhuma. E aí eu vi o brilho branco de um sorriso cheio de dentes pontiagudos bem no meio daquela escuridão.

Eu sou uma pessoa que tem várias ferramentas na caixa. Se a chave de fenda não resolve, é hora do martelo. Sou espiritual pra caralho – muita gente me chama de farol. Já levei ataque antes na vida. No meu dedo tem um anel de prata com geometria sagrada.

Primeiro precisava tirar aqueles pensamentos de derrota da cabeça, então enchí a mente de lembranças de vitória, de amor, de tudo que é bom. Custou pra caralho, mas consegui limpar a cachola. A coisa já tinha quase entrado toda. O objetivo agora era barrar e expulsar aquela desgraça.

Levantei o punho contra o monstro sentindo como se estivesse empurrando uma cachoeira inteira. Lembrei de um padre num livro de vampiro que ergueu um crucifixo pro morto-vivo e o crucifixo quebrou. O vampiro falou: “O símbolo não vale porra nenhuma sem fé.” Não ia ser eu aquele otário. Joguei toda a minha fé no meu Deus dentro daquele anel. Aí senti uma vontade louca de falar o Nome.

Tentei falar e nada saía. Minha boca abria, mas a garganta tava travada. A pressão aumentava e a luz azul-branca que tinha se formado no meu punho começou a piscar. O Nome não aceitava ser calado. Quando eu pensei nele, ele quis sair sozinho. A primeira sílaba gaguejou duas vezes, mas finalmente saiu – e foi uma delícia.

O sorriso da coisa virou uma cara de ódio puro. O monstro gritou. Aí alguma coisa foi sugada de dentro de mim pro anel e saiu disparada como um raio. Pegou o invasor em cheio e jogou ele pra fora de casa. A porta bateu com força e eu acordei suado pra caralho, morrendo de vontade de mijar.

Primeira coisa que notei: o Kream tinha sumido da cama. Levantei bufando – a pior parte de sonho lúcido pra mim é acordar e voltar pro mundo onde sou cego de novo. Já decorei o caminho pro banheiro há anos. Lavei as mãos e voltei pro quarto.

Na porta do quarto eu travei, o coração na boca. A presença do sonho tava ali na minha frente, na vida real. Mano, se eu não tivesse acabado de mijar, tinha mijado nas calças ali mesmo. Já enfrentei espírito, já enfrentei pesadelo, mas os dois juntos nunca. Nada nunca tinha saído de um pesadelo pra me abordar acordado.

A única coisa que minha mente cansada conseguiu pensar foi repetir o que tinha feito no sonho. Fechei o punho e tentei levantar o braço. A força que me empurrou de volta foi muito maior que no sonho. Mas aí a coisa conseguiu me deixar puto da vida – eu não sou pessoa de manhã mesmo. Com um “vai tomar no cu, seu filho da puta” na cabeça, forcei o braço pra cima. A fé cresceu de novo, mas dessa vez senti uma mão apertando minha garganta.

Aperto do caralho. A primeira sílaba do Nome nem saiu. Joguei tudo que eu tinha pra falar aquele Nome que claramente incomodava pra cacete aquela coisa. Forcei ele pra fora dos lábios – primeiro baixinho, depois, quando a pressão afrouxou, gritei com força. E fui além.

Ordenei, em Nome dele, que aquela merda sumir dali, e botei toda minha intenção de ver aquela coisa morta ou banida na voz. Com a fé e o Nome do meu lado, eu virei o predador. A coisa fugiu correndo e eu senti ela saindo da minha casa de uma vez.

Voltei pra cama arrastrando os pés, morto de cansado, e apaguei de novo torcendo pra dormir em paz. E dormi.

No dia seguinte eu já tinha quase esquecido quando meu colega de casa perguntou sobre as marcas roxas no meu pescoço. Achou que eu tinha batido em alguma coisa. Como ele não é de acreditar nessas coisas, não quis contar.

Tô postando aqui porque fiquei curioso pra caralho. O que vocês acham que era aquela porra? Meu palpite é demônio, mas pode ter sido outra coisa. Nunca na vida um sonho meu foi invadido daquele jeito. Me dá um nojo do caralho saber que aquela coisa tava tentando entrar há não sei quanto tempo. Quanto tempo ela ficou ali só espiando antes de se mostrar? Não sei e nem quero saber.

Me contem o que vocês acham, rapaziada. E sério: nunca vão dormir sem proteção.

domingo, 5 de julho de 2026

O Fantasma na Montanha

Sempre achei os topos das montanhas intrigantes. Eram tão altos que nada, exceto os microrganismos mais resistentes, teria a menor chance de sobreviver ali — onde era só você e a montanha. Eu sabia que era perigoso, mas o perigo me atraía.

Treinei por um tempo em montanhas menores, aprendendo a lidar com o frio extremo e com os baixos níveis de oxigênio, tudo em preparação para a trilha definitiva, aos meus olhos.

O K2.

Ele, embora ligeiramente mais baixo que o mais famoso Everest, é muito mais perigoso. Suas paredões de rocha íngremes, avalanches e pedras tão afiadas quanto as melhores facas faziam dele uma das escaladas mais perigosas do mundo. Mas eu achei que estava pronto para isso. Escolhi o momento perfeito, quando ninguém mais estava programado para escalar a montanha — apenas pessoas descendo dela.

Então voei para lá, preparei meu equipamento, prestei homenagem aos muitos que tinham morrido na montanha e, depois de consultar rapidamente os moradores sobre a rota, comecei a subida. Minha segunda escalada sem a ajuda de um guia. Peguei a rota padrão do Esporão Abruzzi, que é o caminho "mais seguro" até o cume. Foi brutalmente difícil, como esperado, e quase tive um quadro grave de queimadura pelo frio, mas encontrei algumas pessoas muito legais que estavam descendo. Ouvi elas mencionarem que se sentiam como se estivessem sendo vigiadas, mesmo sem ninguém por perto.

Surpreendentemente, a montanha não aprontou nenhuma tempestade de neve nem avalanche durante toda a minha subida. Eu já estava começando a ficar um pouco tonto por causa do congelamento, mas isso não era importante, pois eu tinha que chegar ao topo.

Enquanto subia os metros finais até o pico, fiquei no segundo lugar mais próximo das estrelas em que eu podia estar. Pensei no quão longe tinha chegado e comecei a descida até o nível do chão. Foi quando os problemas começaram.

Uma tempestade de neve gigantesca começou de repente, e num lugar péssimo também. Eu estava no meio do caminho entre dois acampamentos, e fui forçado a ficar ao relento numa barraca pequena que deixava entrar um pouco de neve.

Estava ficando muito, muito frio ali. Eu não tinha como acender fogo, e senti o aperto da hipotermia se aproximando de mim. Foi então que vi algo que não esperava. Uma luz estava vindo na minha direção, subindo em minha direção. Era difícil de enxergar na nevasca, mas estava lá. Brilhava com uma luz dourada intensa, e só de vê-la eu já me sentia mais aquecido.

Conforme o portador da lamparina se aproximava da minha barraca, eu não conseguia ouvir seus passos na neve, principalmente por causa do rugido da nevasca. Vi a lamparina balançar para dentro da minha barraca, antes de ser deixada ali. Só consegui ver uma silhueta vaga do portador da lamparina, mas uma coisa que não pude deixar de notar foi a falta de roupas adequadas para o frio.

Com o tempo, ouvi uma voz. Era leve e feminina, mas atravessava a nevasca sem nenhuma dificuldade. "Ei, você talvez queira arrepiar caminho daqui, a neve lá em cima parece prestes a desabar. Eu vou te guiar, só preciso da minha lamparina de volta."

Devolvi a lamparina a ela rapidamente, e tanto eu quanto ela guardamos o abrigo com agilidade. Estranhamente, apesar de ela segurar a lamparina perto do corpo, eu não conseguia distinguir nada concreto sobre ela, além do cabelo comprido e do corpo um tanto magro. Ela enrolou a barraca e a entregou para eu carregar. Curiosamente, não senti nenhum calor onde ela tocou. Eu não ia questionar isso, porém, porque mesmo através da nevasca eu conseguia ver a neve prestes a desabar.

Segui a lamparina montanha abaixo, passando por vários acampamentos, até que a noite finalmente chegou. Exausto, pedi à minha salvadora que me ajudasse a montar o acampamento. Ela aceitou, e eu dormi a noite toda. Antes de dormir, ela deixou a lamparina ao meu lado, para me aquecer.

Quando acordei, ela havia sumido. Não havia nenhum sinal da existência dela — nem na neve, nem na barraca, em lugar nenhum. A única coisa que havia e que sugeria, ainda que minimamente, que ela era real era o lampião, que não tinha mais chama e, curiosamente, nem fuligem. Apenas um único osso pequeno, em perfeito estado, estava dentro dele.

Levei o lampião comigo para terminar a descida e perguntei ao pessoal lá embaixo se tinham visto uma mulher segurando uma lamparina subir a montanha. Como eu esperava, eles disseram que não. Decidi ficar com o lampião e o enviei para um amigo que era especialista em identificação de DNA e ossos.

Não havia nenhum vestígio de DNA além do meu, apesar de a garota ter carregado o objeto por um longo período. E o osso?

Bem, ele pertencia a uma das pessoas que tinham morrido na montanha. Ele não disse um nome, porém. Só me disse que o osso estava extraordinariamente frio, apesar de ter ficado num ambiente relativamente quente por um longo período. Ficou claro que o osso havia sido usado como combustível, de alguma forma. Ele me perguntou como diabos eu tinha conseguido aquele lampião, e eu contei sobre a garota estranha que tinha encontrado no topo da montanha. Ele disse que, com base no que eu tinha visto nela, ela já deveria estar morta antes mesmo de chegar ao primeiro acampamento.

Decidi continuar escalando montanhas depois disso, na esperança de reencontrar a garota e obter algumas respostas dela. Mesmo que fossem vagas, isso me satisfaria.

sábado, 4 de julho de 2026

Você Já Viu Meu Rosto Antes

Você já viu meu rosto antes. Você não se lembra disso, mas já viu.

Se você esteve perto de uma televisão neste estado durante a última semana de maio, viu duas vezes por hora. Um quadro congelado de uma câmera de segurança: um homem de jaqueta cinza, olhando para cima, para a lente. A faixa embaixo dele dizia "PROCURADO". Os âncoras disseram o nome dele, que é o meu nome, e mostraram o rosto dele, que é o meu rosto. Aquele era o meu rosto. Mas aquele não era eu.

Eu sei como isso soa. Todo homem culpado diz isso. A única defesa que eu preciso é a que os mentirosos já usaram. Então não vou passar todo este relato insistindo nisso. Não estou escrevendo meu nome aqui. Não para escondê-lo – você poderia encontrá-lo em dez minutos se quisesse. Não estou escrevendo porque não tenho mais certeza de qual de nós dois ele se refere.

Algumas coisas sobre mim, para registro. Tenho trinta e quatro anos. Processo reclamações de seguro remotamente para uma empresa cujo nome você reconheceria. Se eu pedir demissão amanhã, minha fila de trabalho será redistribuída entre outros onze liquidantes até a hora do almoço, e a empresa mal notaria minha ausência. Alugo o apartamento 1B em um complexo de tijolos de três andares, construído barato nos anos setenta. Atrás do prédio, depois do estacionamento, há uma linha de árvores, quarenta acres de mata não desenvolvida que o condado pretende fazer alguma coisa desde que eu moro aqui. Minha janela dá para ela. A vista abateu oitenta dólares do meu aluguel. Ninguém quer olhar para árvores, aparentemente.

E vou te contar mais uma coisa: senti, durante a maior parte da minha vida adulta, que sou o tipo de pessoa de quem o mundo tem vários sobressalentes. Não desprezado. Nem mesmo malquisto. Apenas intercambiável. O cara cujo nome o proprietário acerta na segunda tentativa. O inquilino. Mais um eleitor registrado num distrito que não vira há quarenta anos. Se você me perguntasse, eu diria que todo mundo se sente assim, e talvez todo mundo sinta mesmo. Mas quero ser honesto com você: quando isso começou, uma parte pequena e doente de mim quase se sentiu lisonjeada.

Alguém estava prestando atenção.

Começou com uma comédia de situação. Uma antiga, daquelas que você liga para pegar no sono. Eu já tinha visto aquele episódio específico umas quarenta vezes. O protagonista solta uma fala sobre o bolo de carne da mãe dele, com cara de paisagem, e a trilha de risadas cresce. E acima de mim, através do teto, um homem riu.

Não depois da trilha de risadas. Na piada. Junto com ela.

Eu mudei o volume da TV e fiquei sentado ali. Na próxima piada, cronometrada apenas pela imagem silenciosa, ele riu de novo. Vou poupá-lo dos dois dias que passei explicando isso para mim mesmo: mesmo episódio, mesmo serviço de streaming, algum tipo de sincronia absurda. Eu matei essa teoria do jeito que você esperaria. Coloquei o programa no meu telefone, com fones de ouvido, tela virada para longe de todas as superfícies do apartamento, volume tão baixo que era quase imaginação. Ele ria de cada piada. A risada dele e a minha caíam tão juntas que se entrelaçavam num único som. Mas a dele estava por baixo da minha, um fio de cabelo atrás, do jeito que uma sombra está atrás de uma mão.

Então comecei a testar. Mudei de programa. Ele acompanhou. Eu pausava antes das piadas, com o polegar na tela, deixando a expectativa suspensa por dez segundos, vinte. O teto esperava comigo, num silêncio atento, e ria quando eu deixava a fala cair. Encontrei um livro de bolso de piadas em um brechó, trouxe para casa e as li em silêncio, lábios imóveis, na poltrona perto da janela. O teto riu na quarta piada. A quarta foi a única que eu achei engraçada.

Acordei às três da manhã com um cronômetro debaixo do travesseiro, e a cama dele rangeu acima da minha dentro de um minuto. Fiquei imóvel na cama até quase meio-dia, para ver quem cederia primeiro, e o teto ficou parado comigo, paciente. Deixei cair um livro de bolso no chão de madeira num momento aleatório; uma batida acima, meio segundo atrasada. Tossi; ele tossiu. Andei de um lado para o outro; ele andou. Uma vez, me sentindo um idiota, pulei reto no meio da cozinha, sem aviso, sem motivo, e o ouvi aterrissar.

No final daquela semana, eu tinha parado de pensar na palavra "espionagem". Espionagem significa observar. Isso estava mais para ensaio. Fiz o que se espera que você faça. Desmontei o detector de fumaça. Desparafusei as tampas das tomadas e as grades de ventilação e colei papel-manteiga sobre os dutos. Verifiquei os abajures, os registros do roteador, a parte de baixo das prateleiras, a pequena fresta escura onde os armários encontram o teto. Encontrei poeira, uma vespa morta, uma moeda de um centavo dos anos noventa.

Eu já sabia que encontraria isso. Uma câmera pode copiar o que você faz. Nada que funciona com eletricidade copia o que você quase faz.

Subi para o 2B. A escada para o quarto andar cheira como o resto do prédio, o que de alguma forma me surpreendeu. A porta dele é idêntica à minha, mesma tinta marrom, mesmo 2 de latão onde o meu é 1, e arranhada — notei com um friozinho no estômago — nos mesmos lugares que a minha está arranhada. Embaixo, no lado esquerdo, onde eu a pego com a cesta de roupa. Bati. Bati mais forte. Coloquei o ouvido na madeira e ouvi o nada de alguém segurando a respiração a quinze centímetros de distância.

O proprietário, Sr. Jones, mantém horário de atendimento numa unidade adaptada no primeiro andar, um homem enorme, de olhos marejados, que nunca pareceu feliz em ver ninguém. Consegui dizer duas frases da minha reclamação antes que ele suspirasse e dissesse: "Já passamos por isso."
Eu disse a ele que não tínhamos. Ele virou o monitor dele. Três reclamações de barulho, registradas do 1B contra o 2B. A primeira datada de março. Cada uma assinada.

A assinatura era minha. Eu nunca havia feito uma reclamação. Antes daquela tarde, eu estivera naquele escritório exatamente uma vez, dois anos atrás, para assinar o contrato de locação.
"Ele nunca reclamou de você", disse Jones, como se aquilo resolvesse alguma coisa.

Em algum momento nas semanas seguintes, o atraso se inverteu. Não consigo te dar a data exata em que aconteceu. Mas por volta de meados de abril, o homem de cima não estava mais me seguindo. Ele saía da cama um segundo antes de eu abrir os olhos. Entendo a objeção: se meus olhos estavam fechados, como sei a ordem? Porque o rangido do assoalho dele é a coisa dentro da qual meus olhos se abrem. O som já estava no quarto quando eu cheguei nele. Manhã após manhã. Ele não estava seguindo minha rotina. Ele estava dando a deixa para ela.

Eu o ouvia tossir, seco, duas vezes, e alguns segundos depois minha própria garganta coçava, e eu tossia, seco, duas vezes, e ficava ali me odiando por isso. Uma noite ouvi vidro quebrar acima de mim. Um som específico, um copo, azulejo. Três dias depois, minha mão deixou cair um copo na pia e ele bateu no meu azulejo da cozinha, e eu fiquei em meio aos cacos com o coração disparado, porque reconheci o som. O meu tinha estreado lá em cima. Minha vida estava chegando a mim de segunda mão.

No início de maio, acordei no meio da noite com passos lá fora. Não em cima. Lá fora, na faixa de grama do lado de fora da minha janela, indo e vindo, sem pressa. Fiquei imóvel e escutei a passada, e eis uma coisa que aprendi naquela noite: você conhece seu próprio andar. Você pensaria que não — ninguém se ouve como os outros ouvem —, mas você conhece o ritmo dele do jeito que conhece sua própria batida na porta. Era o meu andar. Lá fora, no escuro, andando de um lado para o outro. Através da cortina, iluminado por trás pela luz do estacionamento, eu conseguia distinguir a silhueta. Minha altura. Minha estrutura. Os ombros inclinados do meu jeito particular, o esquerdo mais baixo. Sem rosto. Apenas o contorno de mim, em pé na grama, virado para a linha de árvores.

Levantei-me. E no momento em que atravessei meu quarto, o teto o atravessou comigo, passos acima traçando meu caminho exato, da cama à janela, passo a passo, enquanto lá fora a silhueta se afastava em direção às árvores. Abri a cortina de um puxão. Grama. Estacionamento. A linha de árvores, preto contra preto mais escuro. Nada.

Acima de mim, um último passo completou minha jornada e parou onde eu parei. Peguei meu telefone no caminho para a janela, um desses reflexos inúteis, e tirei uma única foto através do vidro. Borrão, luz laranja, um borrão de figura a meio caminho das árvores. Inútil, como eu disse. Menciono isso por causa do que meu telefone fez com ela depois.

Depois disso, um envelope apareceu na minha caixa de correio, do meu banco. Meu nome completo, incluindo o nome do meio, que ninguém usa, impresso acima do endereço do apartamento 2B. Fiquei no saguão segurando uma prova de que, em algum sistema que imprime endereços, eu morava lá em cima.

Meu telefone terminou de organizar minhas fotos uma noite, e quando abri o álbum que ele mantém de mim, o álbum de rostos, aquele que ele mesmo constrói, a foto mais nova nele era o borrão. O borrão laranja na linha das árvores. Meu telefone é muito bom com rostos. Em seis anos, ele nunca errou o meu.

A Sra. Martinez do 1A me parou perto das caixas de correio, seu cachorrinho puxando o nada, e disse: "Você está sempre assobiando aquilo. O que é? Está na minha cabeça a semana toda." E ela cantarolou quatro notas. Eu não assobio. Nunca assobiei. Disse a ela que devia estar pensando em outra pessoa, e ela riu como se eu estivesse sendo modesto.

Naquela noite, o teto assobiou aquilo. Dez dias depois, me peguei cantarolando na pia da cozinha e tive que apoiar as duas mãos no balcão. Ele tinha enfiado uma música em mim. Seja qual fosse a direção que essa coisa fluía, fluía nos dois sentidos.

Meu e-mail me bloqueou num domingo. Pergunta de segurança: em que rua você cresceu? Digitei a resposta verdadeira. Incorreta. Fiquei sentado por um longo momento e então, por algum instinto que ainda não entendo, digitei Delmore, que é a rua ao lado daquela em que cresci. Um quarteirão ao norte. As casas de lá eram um pouco mais bonitas.
Funcionou. Alguém tinha mudado minha infância em um quarteirão.

Mais tarde naquela semana, fui ao supermercado porque queria luzes fluorescentes, bipe de scanner e estranhos. Queria ficar em algum lugar onde o mundo ainda funcionasse, em algum lugar com preços nas coisas, prova de um sistema que sabia o que pertencia a quem.

Eu o vi no corredor das massas.

Por trás. Apenas as costas de um homem vinte metros à minha frente. Meu corte de cabelo, crescido do jeito que o meu estava crescido. Minha estrutura. Minha camisa xadrez verde, não uma parecida, a que eu estava vestindo naquele exato momento, de modo que, por um segundo desconjuntado, olhei para baixo para o meu próprio peito para verificar. Você conhece a parte de trás da sua própria cabeça por fotos, por espelhos inclinados contra outros espelhos. Você conhece sua própria silhueta em pé. Estava à minha frente, ocupando espaço, lendo um rótulo. Ele pegou o molho de macarrão que eu compro há seis anos. Considerou. Colocou de volta.

Fiquei ali vendo a mim mesmo recusar meu próprio gosto.

Eu o segui. Ele contornou a ponta de gôndola perto dos tomates enlatados, três segundos à minha frente, e quando eu a ultrapassei, o corredor estava vazio nas duas direções. Longo, claro, vazio. Uma mulher com um carrinho apareceu no outro extremo e me olhou, e percebi que estava parado no meio do corredor com a boca aberta, respirando como se tivesse corrido.

No caixa, o atendente, um garoto, dezenove anos talvez, sem razão no mundo para mentir para mim, olhou para cima e disse: "De novo?"

Não entrava há uma semana. Eu disse: "Haha, é."

Depois da loja, a versão pública de mim se soltou completamente da privada, e o mundo deixou clara sua preferência.

Na chamada em equipe de terça-feira, Renata do departamento de conformidade me segurou depois para dizer, um pouco magoada, que eu tinha passado direto por ela no mercado de agricultores no sábado, que ela acenou, disse meu nome, tudo. Eu estava em casa no sábado. O aplicativo de saúde do meu telefone lembra de forma diferente: onze mil passos. Quando encontrei o traçado da rota, era uma linha reta, repetida. Do nosso estacionamento até a linha de árvores e volta. Quarenta e uma vezes.

Minhas botas perto da porta estavam molhadas numa manhã em que não tinha chovido, amarradas de forma diferente do que eu as amarro.

Na última terça-feira de maio, meu telefone acendeu com um alerta do condado, e abaixo dele, uma notificação de notícias com uma foto parada, e a foto era eu.

Um homem tinha sido espancado até a morte duas noites antes atrás de um posto de gasolina na estrada do condado, um estranho, um homem que eu nunca conheci, fechando a loja sozinho. Havia um mandado de prisão. Havia imagens. As imagens começaram a tocar automaticamente antes que eu pudesse decidir se queria que tocassem.

Não vou descrever o que o homem no vídeo faz. É encontrável, e não serei seu caminho para isso. Vou te contar o que todos os outros veem nele: eu. Minha jaqueta cinza. E vou te contar o que eu vi que ninguém mais poderia ter visto: o estranhamento dele. Nada desperdiçado, nada hesitante, nenhum estremecimento quando acerta. E o sorriso. Ele sorri durante o meio disso. Ele chega e depois fica, sem ser cuidado.

No final, ele se endireita e olha para cima, para a câmera. Não do jeito que as pessoas verificam câmeras, um olhar rápido, um abaixar de cabeça. Ele olha para a lente do jeito que você olha para o seu telefone quando está gravando uma mensagem para uma pessoa específica. Ele segura. Três segundos completos. Tempo suficiente para um quadro nítido. Ele estava garantindo que houvesse uma boa. Aquele olhar foi endereçado. Ele sabia, enquanto fazia aquilo, exatamente quem estaria assistindo depois, num telefone, no apartamento 1B, com o som desligado. Fiquei muito imóvel sob o local onde as passadas dele tinham me ensinado minhas manhãs, e acima de mim, pela primeira vez em dias, não havia som algum. Era o silêncio de alguém que terminou.

Eles vieram na quinta-feira de manhã. Duas viaturas, sem sirenes. Quero dizer que considerei sair com as mãos visíveis e explicar. Eu considerei. Em vez disso, saí pela escada de serviço dos fundos. A frente do prédio era viaturas e chiado de rádio, os fundos eram o estacionamento, e depois do estacionamento, a única direção restante. A linha de árvores pela qual eu era pago oitenta dólares por mês para olhar. Eu sabia, ao atravessar aquela grama, que estava fazendo exatamente o que o traçado no meu telefone tinha feito quarenta e uma vezes. Entrei mesmo assim. Não havia outro lugar que fosse meu.

Cerca de cem metros adentro, depois que a luz do estacionamento morre, encontrei o primeiro. Ele estava ajoelhado numa clareira não maior que um quarto, curvado sobre um cervo que já não estava vivo. Suas mãos estavam dentro dele até os pulsos. Sua cabeça estava baixa, e o som que ele fazia era de mastigação. Constante, desinteressado, eficiente.

Ele estava vestindo o que eu estava vestindo. Não algo parecido. O xadrez verde. A calça jeans com a mancha de água sanitária. As botas que tinham voltado molhadas numa manhã seca. Eu, até o fio, agachado na folhagem podre com meus braços dentro de um animal. Ele levantou a cabeça e olhou para mim, e seu rosto era meu rosto em repouso, o exato rosto que odiei em todas as fotos espontâneas já tiradas de mim, com uma mancha escura do lábio à orelha. Sem surpresa nele. Sem fome, sequer. Apenas uma atenção mansa e paciente, do jeito que você olha para uma entrega chegando no horário.

Então ele se levantou do cervo como um homem que se lembra de si mesmo. Corri. Não tenho nada organizado para te contar sobre os próximos minutos, um riacho que eu não sabia que existia me molhando até o joelho, galhos estalando sob minhas botas, minha respiração muito alta e muito aguda. Ele estava atrás de mim. Nunca o ouvi bater num galho. Nunca ouvi o riacho tocá-lo.

E então, entre dois pinheiros à minha frente, havia outro, e caí tentando parar.

Este estava em pé. Calmo. Barbeado como eu fico em dias importantes, mãos soltas ao lado do corpo, e ele vestia meu terno de funeral, o preto que comprei para o funeral do meu pai há oito anos e nunca mais usei, aquele que, até onde eu sabia, estava pendurado no fundo do meu armário numa sacola de lavanderia. Sapatos limpos. No meio do mato, sapatos limpos.

O barulho atrás de mim parou. Não vi um sinal. Só percebi, do chão, que este tinha levantado levemente a mão, não um aceno, o gesto baixo e plano que se faz a um cachorro, e que o mato atrás de mim tinha se tornado ordenado.

Ele olhou para mim por um momento. Então disse: 

"Vá para casa."

Com a minha voz. Não uma imitação dela, a minha voz, a das gravações, duas palavras, suaves como um memorando.

"Vá para casa."

Fui para o lado, depois ladeira abaixo, depois ao longo da borda da linha de árvores, onde eu conseguia ver o estacionamento através dos troncos, e me deitei na moita como um animal enquanto a luz ficava longa e laranja. As viaturas foram embora pouco depois das sete. Nenhuma silhueta algemada no vidro traseiro, elas simplesmente foram, sem pressa. Fiquei deitado lá mais uma hora mesmo assim.

Então fui para casa. Em parte porque não conseguia pensar em nenhum outro lugar na terra onde alguma versão minha já não estivesse. E em parte porque casa era onde me disseram para ir, e eu já não tinha mais autoridade para desobedecer a mim mesmo.

O apartamento parecia certo. Naquele primeiro suspiro dentro da porta, parecia tão certo que minhas pernas quase cederam. Abajur, poltrona, cobertor onde eu o deixo. Então o segundo suspiro, e a estranheza entrou com ele, silenciosa e total.

Cheirava a folhas molhadas. Fracamente. Por baixo de tudo.

Minha escova de dentes estava no lado errado da pia. A louça estava lavada — eu tinha deixado uma panela, sempre deixo a panela —, e a correspondência na mesa estava aberta, cada envelope cortado limpo como um peixe, o conteúdo alinhado numa pilha arrumada. A conta de luz estava paga. Verifiquei, ali mesmo com as botas ainda calçadas. Paga três dias antes do vencimento. Nunca na vida paguei uma conta antes do prazo. Alguém estava vivendo minha vida com um padrão mais alto.

E então a fotografia. A única coisa emoldurada que possuo: minha mãe, meu pai, minha irmã e eu, no verão no lago quando eu tinha onze anos, a foto que está naquela prateleira há dois anos e viajou numa caixa por uma década antes disso. Passei por ela antes que algo me arrastasse de volta. O rosto da minha mãe é estreito demais. Quase nada. Do jeito que um rosto é estreito num espelho que tem um quarto de grau de curvatura. A cicatriz do meu pai — amarração de barco, 1979, ele contava a história em todo churrasco — fica acima do olho esquerdo. Estava no direito. Minha irmã está sorrindo com um sorriso que nunca esteve no rosto dela, ela sorria com a boca fechada, sempre, durante toda a nossa infância, isso deixava nossa mãe louca.
E eu estou sorrindo largo demais.

Nunca sorri assim na minha vida. Mas já tinha visto aquele sorriso antes, e minha pele inteira o reconheceu antes de meu cérebro alcançar: é o dele. É o sorriso das imagens. Está no meu rosto de onze anos no lago, e cabe.

Fiz a coisa do telefone. Tenho uma digitalização daquela foto salva em três lugares, e fiquei na minha cozinha à meia-noite abrindo as três, e todas as três combinam com o quadro. Rosto estreito, olho errado, sorriso fechado aberto. Então ou a fotografia sempre foi assim, ou tudo foi editado de uma vez, ou eu fui. E eis o que entendi ali em pé: depois de certo ponto, deixa de haver diferença. Prova é apenas o que as cópias concordam. Todas as minhas cópias concordam, e elas não concordam comigo.

Pensei em ligar para minha irmã. Seis anos sem nos falarmos, culpa minha, principalmente, de maneiras que não importam agora. Fiquei sentado com o telefone na mão e entendi que, fosse o que fosse que ela dissesse, qualquer sorriso que ela afirmasse, eu teria que decidir se a voz que dizia aquilo era a dela. É aí que isso te deixa. Coloquei o telefone de lado.

A prisão era a manchete principal pela manhã. "PRESO", dizia a faixa, e havia uma foto de registro, e a foto de registro era eu, linhas de altura, meu rosto pendurado ali com o sorriso finalmente desligado. "Detido sem incidentes num local que o repórter chamou de 'próximo à residência do suspeito'."

Por um sopro inteiro, me senti salvo. Quero dizer isso fisicamente, um fôlego que desceu até o fundo, o primeiro desde março. Eles pegaram. Estava numa sala agora, uma sala com câmeras e almofadas de tinta. Então o fôlego voltou, e trouxe o resto com ele.

Agora existe um eu oficial. Registrado, com impressões digitais, fotografado. Ele tem meu nome, meu nome completo, o do meio que ninguém usa. Minha data de nascimento. Meu endereço. Meu rosto, de todos os ângulos, nos próprios arquivos do estado, e em algum lugar num banco de dados do condado há dez impressões digitais arquivadas sob esse nome. O sistema tinha exatamente uma vaga com meu nome, e a vaga está preenchida, e o mundo não se importa qual de nós é real. Nunca se importou. Ele se importa com qual de nós atende pelo nome, paga o aluguel, desbloqueia o telefone, fica imóvel para a foto. Ele tem um desses sob custódia.

Minha inocência existe. Só não me pertence mais.

E mesmo assim, deitado no sofá naquela noite com a luz da TV passando, a aritmética não descansava. O de cima. O da janela. A loja. O cervo. O terno. A custódia tem um.

O teto ficou em silêncio por nove dias. E eu sei porque os passei num silêncio que só posso descrever como amputado. Eu quis que ele sumisse por três meses. Então ele sumiu, e fiquei sentado sob o silêncio onde costumava estar, e nunca na minha vida me senti menos acompanhado.

Ontem à noite, começou de novo. E então fiz algo que não vou defender. Ele atravessou o quarto, e eu me levantei, e atravessei com ele. Ele parou; eu parei. Ele mudou o peso; eu me encontrei já mudando o meu. Ficamos ali, nós dois, empilhados, e através do teto eu conseguia sentir a atenção do jeito que você sente o sol através de uma cortina, e pela primeira vez desde março, a atenção pareceu menos roubo e mais a resposta para ele.

Disse a mim mesmo que estava estudando. Aprendendo seus padrões do jeito que ele aprendeu os meus, mapeando, preparando, reunindo... mas esta é a terceira noite agora, acompanhá-lo é o único momento em que me sinto uma pessoa. Quando levanto o pé no momento após o pé dele se levantar, quando minha respiração se deita sobre a respiração dele, sou, por aqueles poucos segundos, definido. A cópia de alguém é pelo menos o alguém de alguém.

Eu costumava ter medo de ser substituível. Isso era vaidade, no fim das contas. Substituível pelo menos implica um "você" para substituir. Mas vou deixar você com isso: se você mora num lugar com pisos finos, um prédio antigo, tetos baratos, e numa noite o apartamento abaixo do seu começar a manter seu ritmo, provavelmente não é nada.

Mas pode ser eu.

Eu tenho que ser alguém.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon