sábado, 7 de fevereiro de 2026

Quando eu era criança, algo matou minha amada galinha de estimação. Sua próxima vítima poderia ser eu

Gostaria de começar dizendo que não sou do tipo que desanda a soltar jargões espirituais diante de um problema lógico, e nunca tive medo daquilo que possa espreitar na escuridão — afinal, “não há nada lá que já não estivesse à luz do dia”, parafraseando aquele episódio clássico de Twilight Zone. Mas há um incidente da minha infância que ficou gravado em mim, algo que simplesmente não consigo racionalizar nem explicar com lógica. Evitei falar sobre isso com qualquer pessoa porque, francamente, não quero ser rotulado como algum maluco que acredita em monstros e entidades malignas — nem quero me cercar de gente que acredita nisso. É uma lembrança dolorosa, e prefiro não reviver aquela noite… mas acho que contar essa história pode ajudar outras pessoas, caso alguma vez se vejam numa situação parecida.

Cresci numa fazenda grande no interior do estado de Nova York, e desde antes mesmo do meu nascimento minha mãe já tinha um bando de galinhas por lá. Passei a infância batizando os pintinhos que as poedeiras chocavam nas paredes do celeiro, usando tampas de lixeira como escudos contra galo briguento e (exageradamente) alimentando as galinhas com milho quebrado como agrado. Elas sempre foram — e ainda são — meus animais favoritos. Conforme fui crescendo e me tornando mais responsável, ganhei mais autonomia e, eventualmente, montei meu próprio pequeno bando. Era uma mistura de raças amigáveis e coloridas, e meu preferido era um galo Faverolles enorme chamado Fudge. Fudge e suas galinhas viviam num galinheiro separado dos demais, e esse galpão era especial: antes fora uma casa na árvore construída para crianças. Eu nunca brinquei muito lá quando era pequeno — só usava o balanço que minha mãe tinha pendurado ao lado —, mas funcionava bem como abrigo para galinhas.

Logo depois que meu bando foi instalado ali, tive uma ideia que só uma criança de fazenda pouco supervisionada — mas felizmente autossuficiente — seria capaz de ter: uma "pernoite com as galinhas". A casa na árvore era feita de modo que tinha uma pequena varanda a uns quinze centímetros do chão, e a porta da parte inferior — onde ficavam as galinhas — ficava logo acima dela. No canto do galinheiro havia uma escada que levava até uma escotilha de madeira, que eu mantinha fechada exceto quando subia. Lá em cima dava para acomodar alguns travesseiros e almofadas, e de manhã era possível abrir a porta que dava para fora, levando a uma pequena sacada. Era o cenário perfeito para um garoto de 12 anos. Minha mãe ficou preocupada com a ideia, mas prometi passar repelente de insetos e manter a escotilha fechada, para não cair lá embaixo e me machucar feio — além de dar um susto desagradável nas galinhas.

Foi numa noite quente de início de julho que coloquei meu plano em prática. Por volta das 20h30, já estava acomodado na parte de cima do galinheiro. As galinhas tinham voltado do quintal e se empoleirado, mas ainda não tinham dormido. Elas têm esse hábito noturno de fazer uns sons de ronronar suave enquanto o sol se põe — um “brrrrr” baixinho —, então eu as ouvia fazendo isso e resolvi imitá-las. Elas hesitaram, confusas, mas continuaram sua canção de ninar. Levantei um pouco a escotilha e olhei lá para baixo. A maioria já tinha enfiado a cabeça nas penas macias dos ombros, mas Fudge ainda estava sentado em seu poleiro, olhando para mim com aqueles olhos alaranjados brilhantes que surgiam de seu rosto peludo como lascas de âmbar em meio a cinzas. Estiquei o braço o máximo que pude e dei umas palmadinhas nas costas dele.

— Você é um bom garoto, Fudge. Me avisa se precisar de alguma coisa. Hoje à noite a porta não tá trancada porque eu tô aqui dentro, então temos que garantir que não apareça nenhum predador por perto.

Falei com firmeza, como se ele pudesse me entender de verdade. Na realidade, eu não achava que haveria problemas com predadores; o único capaz de abrir a porta destrancada seria um urso, e fazia anos que eu não tinha problemas com ursos por ali. Como não havia como trancar a porta por dentro, só me restava torcer para que nenhum aparecesse naquela noite.

Até hoje, desejo que um urso tivesse aparecido naquela noite. Talvez as coisas tivessem terminado de outro jeito.

Adormeci logo depois de desejar boa noite às galinhas e estava dormindo profundamente quando um som me arrancou da inconsciência.

— Brurrrrrrrrrr…

Pisquei os olhos, desperto, e escutei de novo.

— Buuuuurrrrburrrbrrrrrrrrr…

Era definitivamente real, não uma alucinação auditiva. Parecia vir do campo atrás do pinheiro. E, no entanto, soava tão parecido com…

— Bwwwwrrrrrr!

Desta vez, o som veio logo abaixo de mim — e, diferentemente dos primeiros ruídos, este era claramente identificável como um dos meus pássaros, provavelmente o Fudge, fazendo o chamado de alarme das galinhas. O que tinham feito antes era um som tranquilo da noite, mas este era diferente. Normalmente, os galos emitem esse som quando veem uma ave de rapina, mas qualquer movimento ou barulho estranho também pode desencadeá-lo.

— BURRRRRRRRRRRR!

Agora, o som era mais alto — e verdadeiramente assustador não pela proximidade, mas pela distância. Vinha do mesmo lugar do primeiro ruído, mas parecia uma espécie de repetição do que eu acabara de ouvir Fudge fazer. E eu sabia que não vinha de nenhum dos outros galinheiros — nem de galinhas, aliás. Estava longe demais, em outra direção, e não soava como uma galinha. Era quase como o som que eu mesmo tinha feito ao imitá-las antes — uma clara zombaria, mas errada, profundamente errada. Essa simples constatação me gelou até os ossos, e então ouvi o som novamente — desta vez, muito mais perto.

— BrrrRRRRRRrrrrrrrrrr…

Enquanto o som ia sumindo, ouvi um leve “tum” vindo logo além do pinheiro. Houve um momento de silêncio, em que desejei intensamente que tivesse imaginado aquele barulho… mas logo depois ouvi o som fraco de algo atravessando o riacho que corria perto das raízes da árvore. O que quer que estivesse lá fora tinha se aproximado muito em pouco tempo.

Agora, você precisa entender que eu estava acostumado com os sons de animais como guaxinins, raposas e até coiotes. Já os afugentei várias vezes quando chegavam perto demais dos galinheiros. Ursos eram uma ameaça maior, claro, mas fazia anos que eu não via um urso — nem sequer sinais de um — tão perto dos galinheiros. E eu tinha certeza absoluta de que aquilo não era um urso. Na verdade, duvidava que fosse qualquer animal. Havia algo no ar naquela noite, e algo naquele som — ou na ausência de outros sons. Normalmente, nessa hora, eu ouviria grilos, sapos-cantores e morcegos ativos na escuridão. Mas ali, tremendo debaixo do meu saco de dormir, não ouvia absolutamente nada além dos ruídos daquela criatura e dos alertas das galinhas lá embaixo.

Estava considerando minhas opções quando um som terrível rasgou o silêncio — algo esfregando e soltando pedras da mureta de pedra que separava o pinheiro do riacho.

Nesse ponto, meu coração martelava no peito, e precisei colocar a mão sobre a boca para abafar minha respiração ofegante. De repente, um pensamento me atingiu: será que tranquei a escotilha? E a porta da sacada? O pânico pareceu me paralisar quando percebi que não tinha trancado nenhuma das duas. Será que conseguiria me levantar sem chamar a atenção da criatura? Com extremo cuidado, me desenrolei do saco de dormir, encolhendo-me a cada farfalhar do tecido de poliéster. Levantei-me devagar, pé ante pé, e fui até a porta da sacada. Travei a pequena trava com toda a delicadeza que consegui, depois me virei para a escotilha.

THUNK.

Quase pulei fora da pele quando algo pesado subiu com esforço na varanda da casa na árvore — seguido imediatamente pelo chamado de alarme das galinhas. Encolhi-me, agachando-me no centro do assoalho. Andar agora era arriscado demais… mas talvez eu conseguisse me deitar e alcançar a escotilha assim?

Comecei a me abaixar, primeiro de joelhos, depois de bruços, achatando-me cuidadosamente sobre a madeira fria. Estiquei os braços e comecei a fazer um esquisito movimento de rastejar em direção à escotilha. Justo quando ia tocar na trava, ouvi um rangido baixo — a porta da casa na árvore se abrindo lentamente. Tranquei a escotilha na mesma hora e fiquei imóvel, assim como todo o resto do mundo naquela noite de verão.

Lá embaixo, ouvia agora uma respiração lenta, quase deliberadamente controlada, enquanto o que quer que estivesse sob mim se movia, como se estivesse decidindo algo… ou procurando algo que não via — mas podia sentir.

Como eu.

Normalmente, as galinhas fazem todo tipo de barulho se um guaxinim ou raposa entra no galinheiro no meio da noite. Mas agora estavam completamente silenciosas — e, embora obviamente não pudessem dizer, eu sabia que o medo delas era tão grande quanto o meu. Senti que devia a elas ao menos tentar ver o que estava lá embaixo, então me aproximei com cuidado de um pequeno furo que havia sido perfurado na escotilha.

Embora a casa na árvore ficasse longe de qualquer fonte de luz, havia contraste suficiente para distinguir formas das sombras… e algo que era uma mistura perturbadora das duas. Pressionando o olho contra o orifício, sem fazer o menor som, consegui ver uma figura em pé entre as caixas de ninho de um lado e os poleiros do outro. Era uma figura pálida, acinzentada, parecendo uma boneca frouxa feita de gravetos. Seus membros se estendiam de forma impossivelmente longa além do corpo, numa anatomia que não lembrava nenhum animal ou pessoa que eu já tivesse visto. Sem dúvida, era mais alto do que a própria casa na árvore em sua altura total — mas agora estava parado, examinando a escuridão com olhos brancos incandescentes, como a luz da lua. Sua cabeça pendia do pescoço como um tomate podre e maduro demais, girando lentamente enquanto emitia aqueles sons: “Bwwwwr… bwrrrrrrr…”, imitando os que as aves tinham feito antes.

Depois de um momento de busca, deu um passo cambaleante para frente, na escuridão, e ergueu a cabeça — diretamente na direção da escotilha atrás da qual eu me escondia. Recolhi a cabeça rapidamente, pressionando a orelha contra a madeira, rezando para que não tivesse visto o reflexo do meu olho no furo.

TAP.

Todo o sangue do meu corpo pareceu congelar de terror primitivo e gélido quando vibrações de ossos duros contra a madeira atingiram meu tímpano. Abafei um gemido e tentei impedir que meus dedos trêmulos fizessem barulho na madeira enquanto ouvia o que eu tinha certeza que iria me matar. Podia ouvir os longos e grotescos dedos raspando contra a escotilha. Embora ela estivesse travada, duvidava que resistisse a…

CRACK.

Saltei da escotilha em pânico quando a madeira começou a rachar. Quantas pancadas levaria para a criatura arrombar? Quatro? Cinco? Pensei em pular da sacada e correr para a casa, mas sabia que ela me veria — e tinha certeza absoluta de que conseguiria me alcançar.

— BWWWWWRRRR!

Ao ouvir esse som, as pancadas na escotilha pararam. Não vinha da criatura — vinha do Fudge. Atônito e ainda paralisado de medo, ouvi a criatura se virar da escotilha em direção aos poleiros. Pensei em rastejar de volta até o furo de observação, mas algo profundo dentro de mim disse que me arrependeria. Então fiquei ali, apenas ouvindo.

Fudge continuava fazendo aquele som — um contraste gritante com seu silêncio anterior. Só que não era o chamado normal de alarme de uma galinha assustada. Soava deliberado, como se quisesse ser ouvido. Eu sabia que ele tinha percebido algum tipo de predador no galinheiro, embora mal conseguisse enxergar na escuridão, já que galinhas têm visão noturna péssima. Um rangido soou a poucos metros de distância — a criatura se aproximava do poleiro onde Fudge estava. Ele calou-se… mas meus olhos se encheram de lágrimas quando entendi o que tinha acontecido. Ele fizera o que galos devem fazer: proteger seu bando. E, de algum modo, tinha me incluído nesse bando. E agora ia morrer.

Fudge grasnou quando os membros ósseos da criatura se estenderam e o agarraram — pelo menos foi o que pude deduzir pelos sons. Houve um ruído horrível de esmagamento, seguido pelo gotejar de sangue enquanto carne era rasgada e penas arrancadas. Enterrei a cabeça nos braços, tentando bloquear os sons prolongados de sucção e mastigação. Espero que a morte de Fudge tenha sido rápida, mas não posso ter certeza.

Para uma criança, ouvir aquilo já era terrível — mas o pior era o que eu não ouvia: a partida da criatura.

A noite pareceu se alongar por horas nos minutos após a besta aparentemente terminar sua refeição. Embora não houvesse mais sons de rasgo ou mastigação, o gotejar persistia, e comecei a me perguntar se tudo aquilo não tinha sido um sonho estranho, e se eu agora ouvia apenas um balde com vazamento ou algo assim. Mas tudo parecia real demais, e não ousei usar o furo para olhar lá embaixo.

De algum modo, nas horas de silêncio após a carnificina, caí num sono leve ou num estado de torpor, e acordei não mais na escuridão, mas numa manhã pálida e nebulosa, com raios de sol começando a entrar pelas janelas. Com extrema cautela, abaixei a cabeça até o furo de observação. Dava para ver claramente o cômodo abaixo. Tudo estava como de costume: os comedouros intactos, os bebedouros sem derramar, as aves começando a descer dos poleiros… e Fudge estava com elas.

No começo, fiquei eufórico. Ele tinha sobrevivido! Abri a escotilha de supetão e desci a escada. Mas, ao me aproximar dele, percebi que algo estava errado. As outras aves também pareciam notar — andavam nervosas ao redor dele, evitando contato. Ele parecia meio machucado: faltavam penas, a crista estava pálida… mas, principalmente, a pilha de matéria no chão sob seu poleiro indicava algo muito errado. Sangue tinha se acumulado e coagulado na serragem, e suas penas estavam espalhadas por toda parte. Já vira aves em choque após ataques de predadores, mas o comportamento dele não combinava. Era impossível ter perdido tanto sangue e ainda estar de pé.

E, no entanto, estava.

Quando saltei da escada e fui em direção à porta, Fudge me encarou. Ao chegar mais perto, vi claramente que não era o mesmo de sempre. Seus olhos estavam opacos demais, a crista pálida com um tom arroxeado. Movia-se com rigidez, e as penas pendiam de seu corpo de forma antinatural. Francamente, parecia morto.

Depois de verificar a comida e a água das aves, corri para casa. Minha mãe me cumprimentou e perguntou como tinha sido a noite. Disse que tinha sido tranquila, mas que não queria mais passar outra noite lá fora. Mesmo sendo jovem, eu sabia que ela jamais acreditaria se eu contasse a verdade. Passei o dia inteiro tentando me distrair do que tinha acontecido, buscando racionalizar na minha mente: será que eu realmente vira aquela criatura? Teria sido tudo real?

Antes que eu percebesse, a noite caiu novamente — e não havia nada que eu temesse mais do que voltar à casa na árvore para cuidar das aves e ver Fudge. Ele me assustara mais cedo; embora estivesse vivo, eu sabia que não deveria estar. Tudo aquilo era antinatural de um jeito que minha mente infantil conseguia compreender. Naquela noite, pedi à minha mãe que, por favor, alimentasse as aves e trocasse a água. Ela ficou surpresa — eu adorava fazer essas tarefas — e perguntou por quê. Sem saber o que responder, contei uma mentira:

— O Fudge me atacou.

Nunca mantínhamos galos agressivos. Tínhamos galos bons demais para perder tempo com os ruins, e fica claro rapidamente quando um tem potencial para machucar. Fudge nunca teve um pingo de maldade, então minha mãe ficou chocada. Mas acreditou quando mostrei onde ele supostamente me esporara (na verdade, era um arranhão de ter tropeçado num galho no dia anterior) e concordou em cuidar disso.

A acompanhei para pegá-lo, pois me sentia mais seguro com ela por perto. Quando entramos no galinheiro, todas as aves estavam nos poleiros — exceto Fudge, que permanecia rígido no centro do chão. Nessa hora da noite, já estava escuro demais para a fraca visão noturna das galinhas, mas ele virou a cabeça ao nosso entrar, observando-nos de um jeito estranho. Minha mãe pareceu tão confusa quanto eu. Ela se abaixou devagar para pegá-lo, sem querer assustá-lo. Fudge ficou perfeitamente imóvel, permitindo que ela o segurasse. Algumas penas caíram de seu corpo quando ela o levantou, e ele pendia em seus braços como um peso morto. Recuei para a varanda enquanto ela o levava para o celeiro. Nenhum de nós falou, mas eu sabia que minha mãe também sentia o caráter antinatural daquela situação. Observei-a se afastar com ele, com tanto medo do olhar estranho em seus olhos alaranjados que nem consegui me despedir do meu outrora amado galo. Seu olhar permaneceu fixo em mim enquanto minha mãe o levava para o que seria sua aparente segunda morte.

Nunca fiquei por perto nas vezes em que minha mãe abatia aves — eu sabia por que era necessário, mas sempre achei nojento. Ela planejava usar Fudge para fazer caldo de ossos, já que ele era velho, mas eu tinha tentado dissuadi-la antes de irmos ao galinheiro, dizendo que ele parecia doente e não deveria ser comido. Ela me disse que usaria os ossos apenas para fazer caldo para os cachorros, então, relutante, deixei. Sabia que ela não gostaria de desperdiçar recursos.

Eu estava lendo no meu quarto quando ela voltou do celeiro. Fui falar com ela e vi que seu rosto estava pálido, as mãos tremendo. Perguntei se algo tinha acontecido. No começo, ela se recusou a contar — claramente, o que quer que a tivesse abalado assim seria assustador demais para uma criança. Mas acabou cedendo quando argumentei que precisava saber se havia algo errado internamente com Fudge que o tivesse tornado tão agressivo de repente.

Depois de atordoar Fudge, ela fez um corte na veia jugular para drenar o sangue, como sempre fazia. Mas, em vez do fluxo grosso e escarlate habitual, saiu apenas um filete. Então, encontrou um longo corte no abdômen, parcialmente aberto, que, por si só, já deveria tê-lo incapacitado por completo. Intrigada, fez um corte na pele sobre o osso do peito. Foi aí que sua voz vacilou. Pedi que continuasse, e ela me contou a única coisa de que tenho certeza absoluta: a prova de que algo verdadeiramente antinatural, verdadeiramente maligno, tinha invadido o galinheiro na noite anterior.

Dentro do corpo de Fudge, tentáculos semelhantes a gravetos estavam entrelaçados em torno de seus ossos e órgãos internos, que pareciam empurrados para os lados da cavidade abdominal. Lembravam algum tipo de verme parasita, mas eram extensos demais para serem resultado de uma simples infestação. Tinham se contorcido um pouco quando ela abriu a cavidade, então ela se virou para lavar as mãos e tirar uma foto. Mas, quando voltou, toda evidência daquela infecção estranha tinha desaparecido.

— Foi como se… tivesse pulado para fora e fugido — disse ela, rindo sem nenhuma graça.

E, de fato, foi exatamente isso que aconteceu. Aquela massa mutante tinha abandonado seu hospedeiro e estava à procura de um novo. Um que servisse melhor aos seus propósitos.

Até hoje, nunca mais vi qualquer sinal daquela criatura. Tentei fingir que tudo aquilo nunca aconteceu, mas não adianta. Nos muitos anos que se passaram desde aquela noite, reflito sobre a lógica do que a criatura fez — e me pergunto por que ainda estou vivo. Por que atacar Fudge, e aceitar aquela distração, quando seu novo hospedeiro poderia ter sido eu com tanta facilidade? Talvez tenha decidido que conseguiria mais presas a longo prazo assumindo a forma de algo inofensivo, como uma galinha. Embora isso claramente não tenha dado certo para a besta, me assusta saber que ela testou essa estratégia — que é capaz de aprender.

Ela não conseguiu imitar uma galinha direito. Mas isso foi há anos. Se passou todo esse tempo aprendendo… o que será que é capaz de fazer agora?

Cegueira da Neve

Não espero que isto jamais saia do meu laptop e chegue à internet. Instalei o Starlink no outono passado por sugestão da minha irmã, pra gente poder conversar de vez em quando. Desde que nossos pais morreram, ela é minha única ligação com o mundo lá fora — e talvez minha única esperança de conseguir sair desta cabana. Então, enquanto escrevo isto pra ela, acho que não vai piorar minha situação postar aqui. Por isso, aos que estiverem lendo: se sentirem vontade de ajudar… só tomem cuidado pra não se matarem.

Se você nunca viu colinas salpicadas de neve, marcadas por árvores carregadas de folhas caídas há muito tempo, então nunca saberá o quão brilhante tudo é. Cegueira da neve era — e ainda é — um problema nos dias frios e ventosos por aqui. O sol rebate na brancura implacável do mundo e fere seus olhos. O ar, há muito tempo despojado de qualquer umidade, queima a parte de trás da garganta. Muita gente tosse — e, se você mora onde eu moro, sabe que não deveria. Só irrita ainda mais a garganta.

O sol se põe cedo à noite, como se quisesse mostrar que a neve não só ilumina o dia, mas também acende a noite. Os raios da lua projetam sombras tão nítidas quanto as do dia. Cervos dançam entre as árvores, perseguindo uns aos outros. Os contornos definidos de tudo contra a neve, à noite, fazem do inverno minha estação favorita. Não há zonas cinzentas quando o mundo vira preto e branco.

Nossa casa fica perto da beirada de um terreno de setenta e dois acres, ao longo da cordilheira dos Apalaches. Você poderia ser enganado se eu dissesse que ficava em outro lugar — e seria perdoado por acreditar. Estamos tão perto do Canadá quanto dá pra estar sem cruzar a fronteira. Conto tudo isso pra que você entenda melhor as decisões que tomei enquanto relato isto. Se você não sabe o que é o frio — ou o que ele é capaz de fazer — então nem finja que sabe.

A moeda principal, como sempre, é o tempo.

Quanto tempo você consegue continuar se movendo?

Quanto tempo consegue ficar lá fora antes que seu cérebro comece a desacelerar?

Antes de perder a destreza e nem sequer conseguir acender seu isqueiro?

Essas são decisões dadas como certas em outros lugares. Aqui fora, são as únicas que importam.

Três semanas atrás, comecei a ver luzes acima das árvores. No início, ficavam baixas, mas até o fim da noite já alcançavam o topo da copa, saltando de galho em galho. Poucas pessoas moram por aqui. Existe, no entanto, uma trilha para motoneves que circunda a base da minha propriedade, passando por pequenas cabanas construídas como abrigo.

Fiquei observando as luzes com meu golden retriever, Cooper, enquanto o fogão a lenha crepitava atrás de mim. Primeiro uma, depois duas — às vezes até cinco — movendo-se pelas copas das árvores.

— O que acha que são? — perguntei a ele.

Ele me lançou aquele olhar que significava que eu estava pedindo demais.

Precisava ir à cidade buscar combustível. Pensei que valeria a pena transformar a viagem em algo de dois dias. Poderia puxar um trenó com minhas raquetes de neve e cortar caminho entre as árvores. Não levaria a motoneve — queria ver aquelas luzes. Poderia sair à noite, passar no motel e arrastar meus suprimentos de volta pela manhã.

Saí assim que o sol começou seu ritual noturno de alongar sombras através das árvores. Moro numa colina — não uma montanha, mas alta o bastante pra enxergar de uma ponta à outra da propriedade. Avancei com entusiasmo, Cooper andando à minha frente, parando de vez em quando pra inspecionar árvores por razões conhecidas só por ele.

Na beirada da propriedade, ele parou.

Ficou encarando a trilha.

Não há dúvida de que ele consegue ouvir motoneves a quilômetros de distância antes de mim. Mas, quando virei à esquerda em direção à cidade, ele começou a rosnar de um jeito que nunca tinha feito antes: baixo, com uma ameaça frenética que me fez girar nos calcanhares, certo de que só podia vir de um animal bem maior. Seus pelos se eriçaram, ele recuou, olhando para cima. Eu também olhei, piscando lágrimas dos olhos enquanto tentava distinguir formas contra o sol ainda se pondo. Grupos de folhas pendiam nos galhos, alguns balançando com o vento — ninhos de esquilos, galhos que simplesmente nunca perceberam que a estação mudara. Puxei sua coleira, e ele voltou ao normal, claramente assustado só pelo movimento… mas, a cada poucos passos, olhava para trás.

Eu também olhava.

Ainda não havia luzes. O sol mal começara a descer.

Cada passo parecia pesado.

Como quando você é criança e faz algo que sabe que não devia.

Pensei em voltar ali mesmo. Não por medo, mas porque a conta já não fechava mais. A trilha parecia estranha. As árvores mais próximas, como se estivessem se fechando ao meu redor. Disse a mim mesmo que era a luz — como a neve a distorce, a estica, mente sobre o espaço. Moro aqui há tempo suficiente pra saber que não se pode confiar nos olhos no inverno. Mesmo assim, segui andando. Parar parecia pior do que estar errado.

Motoneves estavam paradas, inativas, na entrada da trilha. Nada incomum — as pessoas costumam estacioná-las ali e caminhar até o riacho, ainda aberto, pra pescar trutas. Só que havia mais do que o normal, e isso, por si só, não explicava como estavam estacionadas. Algumas estavam meio em cima da trilha. Outras tinham sido simplesmente abandonadas onde pararam. As chaves ainda pendiam nas ignições.

O vento empurrou minhas costas. Seus dedos finos subiram pela minha espinha e se instalaram na base do pescoço.

Virei-me pra olhar — nada. A trilha estava vazia e silenciosa. Outra rajada de vento fez meus olhos lacrimejarem, e virei de novo em direção à cidade.

A cidade deveria estar quente. Pequena. Aconchegante. Uma rua principal com padaria, loja de ferragens, lavanderia e motel.

Não estava.

Carros abandonados, meio enterrados, como se o próprio inverno os tivesse reclamado. Montes de neve cobriam as ruas, anunciando que as máquinas de limpeza não passavam ali havia pelo menos uma semana.

Agarrei Cooper pela coleira e o virei.

— Vamos lá, Coop. Temos trabalho a fazer.

O posto de gasolina estava pior. Onde deveria haver um aglomerado de motoneves e gente abastecendo, só restavam os esqueletos das bombas. Queimadas.

Senti o pânico subir — mas forcei-o pra baixo. Ainda precisávamos de combustível. O motel teria geradores de emergência. Tanques reserva. Talvez até uma motoneve de manutenção. Com sorte, alguém pra explicar que porra tinha acontecido ali.

As portas do motel estavam entupidas de neve, mas abriram com facilidade.

Dentro, parecia um acampamento. Barracas. Fogueiras improvisadas. Ninguém.

O ar estava parado e, em alguns pontos, quente — como se corpos tivessem ficado amontoados por muito tempo. Sacos de dormir estavam abertos e abandonados. Uma luvinha de criança repousava no balcão, endurecida pela neve antiga. Alguém empilhara sapatos com capricho perto da porta, como se pretendesse voltar.

Acima do balcão, rabiscadas a carvão ou sangue, quatro palavras:

"ELES ESTÃO NAS ÁRVORES"

O que quer que tivesse acontecido ali não fora repentino. Tinha sido esperado.

— Vamos, Coop — disse, apertando sua coleira. — Vamos voltar.

Tinha um telefone via satélite em casa. Poderia pedir ajuda. Não sabia quem. Não sabia o que diria. Só sabia que precisava sair dali.

O sol já estava baixo quando alcançamos novamente a beirada da floresta. O vento batia no meu rosto, e puxei o cachecol sobre o nariz. Não tinha andado nem um quilômetro quando as árvores começaram a se mover.

Não sei há quanto tempo vinham se mexendo antes que eu notasse.

Um tronco fino, pálido, sem galhos, ergueu-se da neve e desceu de novo — em silêncio — dez pés mais perto da trilha.

Olhei para cima.

Não era uma árvore.

Era um dos quatro membros de uma coisa pálida e esguia. Seus apêndices, semelhantes aos de uma aranha, terminavam no que só posso descrever como um homem deformado. Olhos pretos e minúsculos vasculhavam a copa.

Ainda não tinha me notado.

Agachei-me atrás das motoneves, movendo-me devagar, sem tirar os olhos dele. Estava observando a trilha à frente — esperando.

Alguns cervos entraram em campo de visão.

Uma perna surgiu da neve e perfurou um deles. Não dobrou. Levantou o animal até as árvores, prendendo-o nos galhos até que ficasse imóvel. O membro se soltou, com cuidado, deliberadamente.

A criatura se alimentava.

Foi aí que entendi.

Enquanto a última luz do dia perdia o domínio sobre o mundo, percebi que aquilo que eu havia confundido com folhas, ninhos de esquilos e resquícios de tempos mais quentes não era nada disso.

Eram pedaços de roupas de inverno. Fragmentos de pessoas. Pendurados nas copas como frutos maduros, esperando para serem colhidos.

Enquanto se alimentava, seu abdômen começou a brilhar — tão intenso quanto uma estrela.

Outra forma surgiu das árvores.

Depois outra.

Não respirei. Meus dedos afundaram na coleira de Cooper por cima das luvas, implorando que ele não fizesse barulho. Saímos juntos, lentos e cautelosos, pisando onde a neve parecia mais macia. Parei de olhar pra eles e passei a olhar só pro chão.

As pernas deles podiam cobrir, num único passo, o que levaria dez dos meus. Ao contornar o grupo, senti uma queimação nos pulmões, implorando por ar.

Sem pensar, inspirei o mais silenciosamente possível — longa e profundamente — deixando o ar gelado queimar minha garganta até os pulmões.

Tossi.

O som explodiu antes que eu pudesse contê-lo.

Eles congelaram.

Nada se moveu. Nem as árvores. Nem a neve. Até o vento pareceu recuar, como se não quisesse ser notado. A primeira criatura fixou os olhos em mim. Pequenos olhos pretos, como joias de inseto, brilhavam em seu rosto branco agora manchado de sangue. A luz das outras criaturas foi diminuindo. Uma por uma, viraram-se para mim e apagaram suas luzes. A floresta mergulhou na escuridão.

Corri.

Não olhei para trás. Tomei cuidado pra Cooper ficar à minha frente. Subi a colina até meus pulmões arderem e minhas pernas falharem. Arrombei a porta e desabei dentro da cabana.

Peguei meu telefone via satélite na terceira gaveta da escrivaninha e apertei o botão de ligar. O alívio que senti ao atravessar a soleira da porta foi palpável. A sensação de desespero ao ver o aparelho piscar o sinal de bateria descarregada foi igual.

Não tenho combustível pra ligar o gerador. Tenho duas estéreos de lenha sobrando pra aquecer a casa e comida pra uma semana.

A única coisa que ainda tem energia é este laptop e o painel solar que conectei ao Starlink. Tema que, em breve, ele também será coberto de neve — e perderei minha última ligação com o mundo.

Enquanto escrevo isto, sei muito bem que pode ser a última coisa que restará de mim. As árvores ao redor da casa já começaram a se mover. Mais cedo ou mais tarde, terei de sair.

Então digo de novo, como aviso a quem ousar bancar o herói e tentar vir me resgatar:

Se você nunca viu colinas salpicadas de neve, marcadas por árvores carregadas de folhas caídas há muito tempo, então nunca saberá o quão brilhante tudo é. Cegueira da neve era — e ainda é — um problema real. Ela dificulta enxergar essas coisas durante o dia.

O ar, há muito tempo desprovido de qualquer umidade, queima a parte de trás da garganta. Muita gente tosse — e, se você mora onde eu moro, sabe que não deveria.

Elas podem ouvir você.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Estou em guerra com o meu vizinho

Moro nos Apalaches. Sempre morei aqui. Sempre estive consciente dos Haints que são meus vizinhos. Eles também estão conscientes de mim.

Quando eu era pequena, eles me aterrorizavam de verdade. Olhos dentro das árvores, sussurros que pareciam vozes humanas misturadas ao uivo do vento. Quando os pássaros ficam em silêncio, você percebe com uma clareza brutal que está invadindo a propriedade dos seus vizinhos e que não é bem-vinda. Diferente das pessoas, os Haints não usam armas de fogo para se defender.

Conforme fui crescendo, desenvolvi uma profunda apreciação por eles. Este lugar é lar deles há muito mais tempo do que é meu. As montanhas Apalaches são mais antigas do que podemos sonhar, mais antigas do que ossos e até do que o próprio mar. Quando você fica quieto e imóvel, consegue falar com os ossos. A terra em si fala numa voz sem som, comunicando-se diretamente com a sua alma, não com a sua mente consciente.

Quando comprei minha própria propriedade junto com meu marido, deixei bem claro para os Haints que eu ia habitar este terreno como se fosse meu. Ofereci presentes de leite e açúcar, cestas trançadas e amuletos entalhados com as intenções e frases que minha avó me ensinou, transmitidas ao longo das dez gerações que minha família vive aqui. Depois, estabeleci minhas proteções. Pregos retirados das tábuas de canto da casa, salgados e abençoados com o meu próprio sangue. Meu marido não é daqui de origem, então achou que era uma reação um pouco exagerada, mas não protestou. Recusou as minhas ofertas para incluí-lo nas proteções. Isso me desagradou bastante. Não tinha intenção de forçá-lo, no entanto.

Durante o primeiro ano, ele não acreditava nas minhas histórias. Só começou a acreditar quando as coisas dentro de casa começaram a sumir e voltavam logo depois que eu servia leite com mel para o Haint que morava conosco. Ele nunca admitiu em voz alta, mas a mudança na atitude dele foi evidente. Começou a ter medo das coisas que estavam na mata.

Eu repetia para ele inúmeras vezes que não havia motivo para medo, desde que os respeitássemos da mesma forma que eles nos respeitavam. Mesmo assim, ele se recusava a ficar fora de casa depois do pôr do sol. Paramos de fazer fogueiras e de ficar vendo vaga-lumes depois que o céu de barriga de truta mergulhava abaixo do horizonte. Eu compreendia o medo que ele carregava. A paralisia de perceber que está sendo observado com cautela por coisas que estão além da sua compreensão. O predador no topo da cadeia alimentar sabe que você está pisando no território dele e pode atacar a qualquer momento.

Só comecei a ficar nervosa também quando os gritos começaram. Eu já tinha ouvido aqueles gritos antes, quase como de mulher, mas estranhamente inumanos. Fazia muitos anos que não sentia o pavor que eles causavam, aquela vontade urgente de correr. Meu marido congelou, imóvel como coelho acuado, esperando para ver o que o cão de caça faria. Eu o puxei pelo braço para dentro de casa e tranquei a porta, salgando janelas e portas. Confiava nas minhas proteções, mas isso não significava que eu fosse mais forte do que fosse lá o que estivesse lá fora. Pelo que eu sabia, as proteções podiam ser completamente inúteis. Os Haints seguem as próprias regras.

As palavras do meu pai, da infância, ficaram martelando na minha cabeça: “Isso não é grito de mulher. Entra.” Ele disse aquilo com uma expressão tão séria, como se estivesse me alertando de verdade, não apenas me afastando de uma raposa ou de um puma. Dois dias depois, quando ouvimos o cervo gritando de agonia, os olhos dele escureceram e ele virou as costas para a mata com determinação. Ficou com a espingarda ao lado da porta por um mês inteiro. Algo que eu também faço agora.

Vivemos assim por seis meses. Esse Haint, que se recusava a conviver em paz comigo como tantos outros, aterrorizava principalmente meu marido. Ele acordava gritando quase todas as noites, algum terror noturno quebrando a mente dele aos poucos, mas de forma inexorável. Eu estava começando a ficar com raiva. Tinha feito oferendas de boa-fé, queimado carne numa fogueira logo fora dos meus limites, pão de mel e hidromel caseiro, mas o Haint não aceitava nada. Tudo amanhecia estragado e podre, uma rejeição grosseira e uma mensagem clara para mim. Isso só alimentava ainda mais o fogo na minha própria alma. Esta era a minha casa tanto quanto era a dele, e eu não ia permitir que ele aterrorizasse quem eu amava.

Ele começou a matar minhas galinhas. Foi aí que decidi que era guerra. Respondi com tudo: reforçando as proteções dez vezes mais, rezando todas as noites, chamando os vizinhos amigáveis para ajudar. Eu não gosto de chamar por eles. Sempre tem um preço. Estava ficando cada vez mais consciente de que, se eu não fizesse isso, aquele Haint acabaria nos matando. Ele não se contentava mais em se alimentar só do desconforto; queria o gosto da carne. Minhas galinhas não eram substituto suficiente.

Eu o vi pela primeira vez três anos depois de nos mudarmos para cá. Ele estava parado na borda das minhas proteções, tomando cuidado para não atravessar, mas claramente testando os limites. Descrever a aparência dele é difícil, mas vou tentar da melhor forma.

Cervos são animais de presa. Os olhos ficam nas laterais da cabeça para dar uma visão quase de 360 graus. As pernas são feitas para correr e têm uma capacidade imensa de saltar sobre leitos de riacho ou mato enquanto fogem dos caçadores. Essa criatura não tinha nenhuma dessas características.

Os olhos eram frontais, pretos como breu, sem nenhum brilho quando a luz da varanda batia neles. Era mais alto na cernelha do que um cervo normal, quase da altura do salgueiro que estava perto. A boca era errada, fendida e mal disfarçando o formato de dentes afiados. Movia a cabeça como gato, inclinava como cachorro, fazia barulho de raposa, pisava como puma. O que achei mais perturbador eram as pernas. Não eram as pernas esguias e graciosas de cervo. Eram musculosas. Pernas de predador, não de presa. Arranhava o chão com uma ferocidade que falava do seu poder — um poder que eu não queria desafiar. Os chifres na cabeça eram mais afiados do que a natureza permitiria, o veludo que caíra coberto de sangue seco. Talvez isso significasse que ele trocava os chifres como cervo normal, mas no fundo dos meus ossos eu sabia que eles estavam fixos no crânio como chifres de verdade.

Fiz algo que muita gente consideraria burrice. Meu marido estava profundamente dormindo, cansado depois de um dia inteiro de trabalho e exausto pelo tormento constante. Então, o mais silenciosamente possível, saí pela porta dos fundos e caminhei até ele.

Pareceu que ficou surpreso com a minha escolha. Deu vários passos para trás, observando minhas mãos com cautela, como se eu fosse sacar um revólver e balas de prata do bolso. Não fiz isso. Levei o resto do porco que sobrou do jantar daquela noite. Coloquei no chão e empurrei com um galho para além da linha das proteções. Ele me observou com interesse, sem saber qual era a minha intenção. Pela primeira vez, baixou a cabeça e comeu. Tomei aquilo como um sinal de trégua, pelo menos naquele momento.

Falei com ele. Apresentei-me, apresentei minha linhagem, apresentei os ossos dos meus parentes que agora caminham na terra profunda da montanha, da mesma forma que os Haints. Perguntei da forma mais simples possível: “O que você quer com isso tudo?” A cabeça dele se moveu e estalou, os dentes aparecendo como se estivesse sorrindo.

“Quero ele.” As palavras me deixaram atônita. Meu marido. O forasteiro que não tinha feito nenhum mal concebível a nada aqui, que tinha sido respeitoso como eu mandei, que seguia todas as regras.

“Por quê?” Não me dei ao trabalho de esconder o choque nem a raiva na voz.

“Quão bem você conhece de verdade o homem ao qual se amarrou? Quanto você sabe da história dele, do caminho que os antepassados dele passaram para ele? Quão segura você está de que esse homem é bom? Você vai me encontrar quando decidir. Isso, se não for tarde demais.” A voz que falou comigo não veio de cordas vocais. Subiu pela minha espinha, a voz da terra de cemitério debaixo dos meus pés buscando vingança de eras. Ele me olhou uma última vez antes que sua forma sombria se dissolvesse na parte mais escura da linha das árvores.

Fiquei remoendo aquelas palavras por vários dias. Disse a mim mesma que ele estava tentando me deixar paranoica, desconfiada do meu marido. Se era essa a intenção, estava funcionando. Não conseguia mais olhar para ele da mesma forma. Observava cada movimento, reavaliava tudo o que ele já tinha me contado. Via quando ele me respondia rispidamente por bobagens, algo que antes eu atribuía ao tormento do Haint. Reexaminava a forma como ele bebia, incapaz de dormir ou sentir qualquer coisa sem álcool. Observava como ele cortava lenha como se a madeira tivesse feito algo contra ele, uma raiva intensa logo abaixo da superfície. Escutava as palavras que ele murmurava dormindo e percebia que não eram respostas a um Haint, mas a alguém do passado dele. Comecei a me perguntar se o Haint não era a justiça dele.

Passei um mês inteiro pensando no que fazer. Ficava sentada junto às linhas de proteção noite após noite, esperando que o Haint voltasse a falar comigo. Ele nunca veio. Eu o ouvia, sentia sua presença logo além do que meus olhos alcançavam, até senti como se tivesse feito contato visual com ele algumas vezes.

Ele está começando a ficar paranoico comigo também. Sinto os olhos dele nas minhas costas. Vejo os nós dos dedos ficarem brancos quando ele segura as facas na hora do jantar. Vejo a mandíbula dele travar quando falo. Estou começando a me perguntar se tenho lutado a guerra errada. Se o isolamento que um dia considerei santuário vai se tornar a minha cova.

Quebrei minha proteção ontem à noite. Foi por puro impulso. Minha avó me daria uma bronca se visse o jeito que fiz. Cavei debaixo da cobertura da escuridão e senti a onda fria dos vizinhos ao redor me envolver. Ouvi o som do cervo fazendo aquele barulho de raposa. Depois fui dormir. Não sei quanto tempo me resta até esta guerra acabar. Não sei de que lado estou. Tudo o que sei é que aperto o colar de proteção com muito mais força e já não durmo à noite. Fico vigiando e sussurrando para os Haints que chamo de vizinhos.

Meu Chuveiro

Eu me agacho deixando a água quente escorrer pelos meus ombros. Ela sobe pelo meu pescoço e desce pelo meu rosto, pingando da ponta do nariz e dos lábios. Provoca arrepios por todo o corpo e um leve tremor quando chega à linha do cabelo. Sinto ela batendo nas minhas mãos e nos meus pés. A sensação é incrível. Meu rosto, meus dedos e meus dedões parecem explodir. Os olhos são os mais loucos. Isso me lembra de quando eu era criança. Quando tinha sorte de ser convidado para ir ao Upper Peninsula com a família do meu melhor amigo. As crianças ficavam todas relaxando na banheira de hidromassagem, ouvindo música, descansando, até que estivéssemos completamente à vontade, confortáveis. Aí a gente levantava de uma vez e saía correndo. O ar de Michigan que entrava pela porta de correr de vidro já era suficiente para te acordar daquele torpor quente de verão. Suficiente para você questionar se aquela era mesmo uma boa ideia. Depois descíamos as escadas, atravessávamos a quadra de basquete, íamos até o deque e pulávamos no canal, rindo nervosamente o tempo todo, enquanto o vento começava a romper aquele abraço quente. O Lago Huron nunca é quente. Nunca. A forma como a água gelada do lago te engolia e tomava conta de todos os seus sentidos — da ponta do dedão do pé que entrava primeiro até as pontas dos dedos que vinham por último acima da cabeça — era, bem… uma idiotice. Seu corpo inteiro se contraía, se expandia e gritava. Aquela água a mais de 38 graus em que você tinha ficado de molho e que tinha virado sua vida era instantaneamente expulsa e substituída por uma água de lago realmente gelada pra caralho. Não sei qual era o objetivo daquilo tudo, mas eu me lembro de gritar para o fundo do lago e perceber que, debaixo d’água, você realmente não consegue ouvir nada.

Agora pega todas essas sensações do mergulho gelado e concentra só nos dedos, ou nos dedões dos pés, ou nos lábios, ou — pior ainda — nos olhos. Preciso me acostumar com isso. É um efeito colateral do remédio. Eu choraria, mas chorar em si doeria demais.

A mangueira que sai do porto cirurgicamente implantado no meu peito até a bomba só me deixa agachar até certo ponto. É uma puta chatice. Mais cedo, durante um dos meus primeiros tratamentos, eu puxei a mangueira — seja por descuido ou acidente — e uma mistura de remédio transparente e sangue vermelho jorrou de mim e da bomba. Lembrei que eles tinham me ensinado como fechar tudo com a pinça se algo assim acontecesse, fiz exatamente isso e dirigi até a clínica para consertarem. Fiquei surpreso comigo mesmo por ter mantido a calma o tempo inteiro. A bomba, minha âncora, agora fica guardada numa pochete preta junto com alguns pastilhas de THC que me ajudam a aguentar as infusões. No momento ela está pendurada no varão da cortina do box.

O chuveiro em si é decente. A água é quente. Está limpo; só porque minha esposa cuida disso. É uma banheira de plástico com paredes de plástico e um chuveirinho de plástico barato. Era para já estar bem melhor agora. Estou atrasado no cronograma. Estamos na terceira reforma total, morando dentro delas enquanto demolimos tudo até os montantes, mudamos paredes, adicionamos banheiros, trocamos cozinhas de lugar. É difícil (talvez isso seja um eufemismo), mas eu realmente gosto do processo. A gratificação imediata que você sente várias vezes durante a demolição até os ossos e a reconstrução de algo melhor e mais forte é suficiente para te manter em movimento. Para te fazer continuar.

Eu expulso com força um catarro do lado esquerdo do nariz que parece uma mistura de sangue e cartilagem. Será que tem um pedacinho de cérebro aí? Repito o processo no lado direito até ficar completamente limpo antes de mandar meus “amiguinhos” embora pelo ralo. A satisfação de limpar o nariz quase supera o horror absoluto do que é expelido… quase. Antigamente eu ficava muito perturbado com as partes do meu corpo que estavam sendo forçadas para fora e descendo pelo ralo, mas me disseram que era normal, então agora eu vejo de outro jeito. Imagino que todas essas partes se juntam lá no esgoto formando uma espécie de criança mutante usando camiseta do Nirvana, boné de beisebol (ele deixou o capacete na caixa de correio), andando de skate e dominando o submundo do esgoto junto com Don, Mike, Raf e Leo. Acho que estou perdendo a noção.

Voltei a ter o que poderia ser considerado sensibilidade nos dedos das mãos e dos pés. Eles ainda têm aquele formigamento constante, como quando um membro “acorda” depois de dormente, mas isso já virou o normal. Talvez seja uma boa hora de me levantar e começar de fato o banho? Estou me acostumando a lidar com a mangueira. Antes ela ficava do outro lado do peito. Quando tudo aconteceu, duas semanas depois do meu 45º aniversário, uma das 21 consultas nos 30 dias seguintes foi para implantar o porto — minha âncora — cirurgicamente no lado direito do peito. Meu corpo aceitou o porto, minha âncora, que permite que o remédio vá direto para a corrente sanguínea sem foder minhas veias e vasos menores, mas meu corpo rejeitou os pontos que mantinham a âncora no lugar. Isso iniciou um processo de nove meses de pontos saindo da pele, como se fossem cerdas plásticas afiadas crescendo do plástico da âncora para fora, até que a infecção finalmente se instalou e levou a uma cirurgia de emergência para remover a âncora e o tecido infectado, deixando apenas uma cicatriz foda. Duas semanas depois, reinseriram minha âncora no lado esquerdo do peito, dessa vez usando cola em vez de pontos.

Sou o único que usa barra de sabonete. Pelo menos acho que sou. Tentei adotar a esponja vegetal e o sabonete líquido que o resto da família usa, mas aquilo me deixa muito “condicionado”, muito escorregadio. Eu gosto do barulho de limpo da barra de sabonete. Meus filhos adolescentes gostam de cheirar a carvalho e baunilha, e minha esposa tem vários elixires da alma diferentes que ela escolhe dependendo do humor. Eu sou simples. Ensaboo as mãos, cuidado com a mangueira, pés, pernas, ensaboo de novo as mãos, partes íntimas, cuidado com a mangueira, ensaboo de novo, tronco, cuidado com a mangueira, pescoço, ensaboo de novo, rosto, repete… cuidado com a mangueira. Repito o mesmo ritual com xampu na cabeça, com a mangueira batendo constantemente no meu cotovelo. “Partes íntimas.” Não sei quando essa expressão entrou no meu vocabulário, mas me lembro de sempre usar com meus dois meninos quando eram muito pequenos. “Lava atrás da orelha. Não esquece os dedinhos do pé e não esquece as partes íntimas!” Hora do banho era sempre divertida. É engraçado que, olhando para trás, eu sempre me lembro das risadas. Sei que eu devia estar tão estressado quanto estou agora com a vida, só que sem o estágio quatro pairando sobre mim. Será que daqui a mais de dez anos eu vou olhar para trás e, na maior parte do tempo, lembrar das risadas? Será que eu sequer vou conseguir olhar para trás daqui a mais de dez anos?

Não me deram cronograma nem porcentagens. Me deram um caminho para seguir ou…

Acordo do transe que se instala quando a água quente do chuveiro bate na nuca inclinada por muito tempo. Está na hora de sair, contornar minha âncora para me secar e me vestir, e depois ir trabalhar. Me disseram que o remédio realmente não ia afetar meu dia a dia. “As pessoas nem vão perceber que você está tomando.” Afeta, sim. E eu não pergunto para as pessoas. Estou cansado de falar sobre isso.
Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon