domingo, 8 de março de 2026

Brasas de um Coração que Já Ardia

“Tem certeza do que você tá fazendo?”

O cara de capuz suspirou.  
“Tenho.”

“Usando essa música como tortura, você tá me entregando quem você é… Brandon.”

“Acho que não foi lá uma grande reviravolta”, disse Brandon, derrotado, tirando o capuz e a máscara. “Pelo menos você vai morrer com a sua música favorita virando a sua própria tortura enquanto morre de fome.”

Minha música favorita?

Brandon nunca gostou muito de mim. Eu só não fazia ideia do quanto. Ele era grandão; eu não. Ele era bonito; eu não. Ele foi rejeitado; eu não. Nós dois conhecemos a Pearl na mesma época. Ele se apaixonou perdidamente por ela no segundo que botou os olhos nela. Dá pra dizer que eu não. Ela era bonita, mas eu nunca fui do tipo que se apaixona pela primeira garota que fala comigo de boa. Brandon não era popular (eu era). Mas ele foi um bom amigo por um tempo.

Ah, mulheres. Nossa ruína. Mas vale a pena perder uma amizade por alguém que você ama de verdade. Agora, tentar matar alguém? Aí eu traço o limite.

2020 criou um novo tipo de serial killer. Não tinha mais escola pra fazer um assassino estilo Scream, então o Brandon improvisou. Acho que todo mundo tem um lado gênio; o dele era matar. Cada um com o seu, né. A primeira vítima foi a amiga da Pearl, a Vanessa. Ela era engraçada pra caralho. Na época da morte dela, eu já conhecia a Pearl há mais de dois anos e a gente já tinha desenvolvido sentimentos um pelo outro. A morte da Vanessa foi horrível. A Pearl me consolou mais do que eu consolei ela. Ela tava em paz com aquilo, sabendo que a Vanessa tinha seguido o caminho de Jesus e ia subir pra um plano superior de existência.

A Pearl tava se preparando pra ser missionária. Ela perdeu um ano de escola, então ia fazer 18 no ano seguinte. Depois da formatura, tipo o exército, ela ia ser despachada pra outro país — um na Europa. Não lembro mais qual era.

Eu lembro que adorava chamar ela de “minha mórmon bonitinha”. Ela odiava, mas entendia, porque era sempre por mensagem e escrever “minha garota bonitinha da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias” dava um puta trabalho. Mensagem não precisa de tanto texto assim. Então ela me dava um tapa brincalhão toda vez que a gente escapava pra se encontrar. Ela não curtia muito essa parada de distanciamento social. Eu até curtia, mas eu amava ela, então a gente se encontrava sem ligar pra proteção. Não esse tipo de proteção — tô falando de máscara e tal. Ela me convenceu que ia dar tudo certo. E deu, mas foi arriscado pra caralho.

Quando a Vanessa morreu, ela me perguntou várias vezes como eu tava. “Tá tudo bem chorar. Eu sei que você não acredita que vai ver ela de novo numa vida após a morte, então pode chorar por ela. Ela era sua amiga também.” Ela falou tão carinhoso que alguma coisa dentro de mim se quebrou. Eu desabei em lágrimas e prometi que ia encontrar quem tinha feito aquilo. Ela, claro, era contra, mas não ficou insistindo na história de perdão.

“Deixa eu tirar uma foto. É pros momentos que você achar que a vida não vale a pena”, ela disse. “Isso vai te lembrar o quanto uma vida perdida pode ser importante.”

Eu não pensei muito na foto nem no quanto ela ia foder com a minha cabeça depois que eu fiquei sozinho por dias no porão de uma cabana no meio do nada, perigosamente perto de um pântano cheio de jacarés. Eu perdi a esperança depois de 20 horas. Afinal, o “Florida Man” que podia estar por perto tava bêbado demais, ocupado acariciando jacarés e vários outros bichos perigosos, então eu só apaguei depois de perder a voz tentando pedir ajuda. Achei que dormir ia diminuir o tempo que eu ia sofrer com aquela morte de merda que eu tinha nas mãos. Tava molhado, miserável, e a minha música favorita tava tocando bem alto. Foi aí que eu entendi o que minha música favorita significava. De onde o Brandon tirou essa habilidade poética? Filho da puta. Foi o que eu pensei na hora.

Não importa o quanto você se faz de indiferente na frente da pessoa que tá tentando te matar. Quando você fica sozinho, é foda manter aquela pose de “não tô nem aí”. Eu tava com medo pra caralho e puto da vida que o Brandon, logo ele, tinha matado a Vanessa, a Pearl e agora eu. Eu tava completamente indefeso.

O Brandon nunca agiu estranho perto de mim pra eu sacar que ele era o vilão, porque a gente nem se viu até ele me capturar. A gente tava há um mês na pandemia quando a Vanessa morreu. Não deixaram a gente ir pro funeral dela; decretaram como morte relacionada à COVID. Mais uma estatística. Eu não acreditei. A Pearl nunca questionou por que eu achava que ela tinha sido assassinada.

Ela tava perfeitamente saudável no dia anterior à morte.

Depois de 20 horas sem água nem comida, o corpo entra num estado de jejum extremo onde supostamente tira água das células de gordura. Isso quando você tá num lugar seguro. Mas suado e amarrado numa caldeira? Isso só me jogou mais rápido pro desidratação. Eu tava morrendo mais rápido do que deveria. Não ajudou nada que eu também tinha sido drogado com sabe-se lá o quê e apagado por umas seis horas. Eu nem fazia ideia que abstinência também era um problema. Acho que nos filmes eles esquecem isso; você não precisa ser viciado pra sofrer efeitos de abstinência de uma droga forte.

Foi nesse momento que eu entendi que o Brandon tinha pensado em como as mortes por COVID aconteciam — repentinas e meio difíceis de acreditar. Por isso tinha tanta teoria da conspiração maluca em volta. Tudo que ele fez foi dar uma overdose nela. Ele seguiu ela. Eu percebi que a Vanessa morreu por minha causa.

Outra realização veio ali. Eu queria tanto acreditar que era só o estado delirante que eu tava. Pearl…

Horas depois, eu já tinha desistido. Perdi a conta do tempo apesar do relógio na parede. E aí uma foto foi jogada com força suficiente por baixo da porta pra eu conseguir ver de perto. Era a foto que a Pearl tirou de mim quase seis meses antes — quatro meses depois da morte da Pearl. Eu podia ter incluído esse detalhe desde o começo, mas onde é que tá a graça nisso? Meu mundo se estraçalhou ainda mais. Aquela foto não era pra dar coragem. Era um lembrete.

Antes da Vanessa morrer, a gente se encontrava. Já fazia um tempo que a gente se encontrava. É, eu tava traindo a Pearl com a melhor amiga dela. E a Pearl sacou. O Brandon nem era o cérebro da parada. Era a Pearl.

A foto alimentou uma raiva que eu nem sabia que tinha dentro de mim. Provavelmente noradrenalina. Eu nem percebi que minha mão tava quebrada até cair de costas, livre dos canos da sala da caldeira. Eu corri pra fora. O Brandon obviamente ouviu eu caindo que nem saco de batata, então tava voltando pra sala da caldeira. Não tava escuro, mas ele não esperava que um maluco quase morto fosse dar um tackle nele naquele momento sem dor. A gente caiu no chão junto, mas com um movimento rápido eu levantei e continuei correndo. Não tinha tempo pra vingança. Eu tava puto, mas não burro. Até que o “burro” me acertou e me tirou do transe, como se tivessem jogado água gelada no meu momento mais quente. O choque. Foi demais.

Eu até podia ter sacado, mas ver a Pearl levantando do sofá correndo quando ouviu os passos foi o que me matou (não literalmente). Eu fiquei cheio de medo. Não tinha explicação praquilo. Depois eu soube que era por causa de trauma. Perder alguém e ver a pessoa viva, na sua frente… pode te matar. Literalmente.

“Você matou ela!” Foi só isso que eu consegui gritar pra sair daquele transe e fazer meu corpo responder.

A verdade é: eu tava apaixonado pela Vanessa. E ela tinha chegado bem perto de mim flertando de volta várias vezes. Um dia antes da escola fechar — uns oito meses antes —, a Vanessa agiu um pouco diferente. Eu sempre fui bem direto. “Você tem namorado, né?”

“Hum, você acha?”

Eu gostava de usar palavras inglesas menos comuns nos EUA. Pras garotas. Mas a Vanessa era mais amiga e interesse amoroso que a Pearl. Eu sei que não comecei a história com essa narrativa, mas eu vivi uma história tipo romance barato na adolescência, então tive que manter o mistério. Eu nunca desenvolvi sentimentos pela Pearl, mas pela felicidade da Vanessa eu faria qualquer coisa, mesmo que fosse só platônico.

“Então, tô errado?”, perguntei.

“Tá, mas a Pearl confessou que tá louca por você. Olha…” Ela tentou explicar, mas eu já sabia onde ela queria chegar.

“Acho que a maníaca religiosa obcecada com pureza nunca teve namorado e tá confundindo uma crush com amor.”

A Vanessa ficou brava por um segundo, mas sabia que aquilo tava ficando injusto.

“Eu não quero machucar ela”, respondeu. “E por favor não chama ela assim. Além do mais, a gente vai pra faculdade e ela não. Você não acha que é destino a gente ir pra mesma?”

“Você é uma manipuladora ruim”, eu disse sorrindo. “Só se eu puder partir o coraçãozinho dela antes dela ir embora.”

Por algum motivo, os olhos da Vanessa começaram a encher de lágrimas. Ela sabia que a Pearl ia achar que eu ia ser o marido dela se a gente durasse tempo suficiente pra ela ir na missão. Ela não tava ok com a amiga sofrendo por causa do timing ruim. Mas era ela. Uma garota boa. Uma cristã de verdade. Colocando os interesses da amiga na frente dos dela. Ela também era mórmon, só que não tão fanática (eu nunca chamei ela de mórmon. Sempre de cristã. Eu sabia que “mórmon” era usado como ofensa).

Na real ela tinha me contado sobre as bênçãos patriarcais e como o cara falou que ela precisava ir pra missão. Não sei se devo me orgulhar de ter convencido ela a não ir. Talvez isso tenha começado toda a cadeia de eventos. Foi culpa minha.

Claro, a Vanessa fingiu que tava nos juntando pra gente acabar no mesmo lugar e blá blá blá, a gente ficou junto. Eu não era a Vanessa. Eu nunca pensei no Brandon e na crush dele pela Pearl. Se eu tivesse lembrado, podia ter respondido: “Não posso; o Brandon tá apaixonado por você. Não posso magoar meu amigo.”

Idiota egoísta. Eu matei o possível amor da minha vida.

“Então você tá fora. Não acredito que você sacou. Você é mais esperto do que parece, mas mais burro do que deveria. Talvez se você não pensasse tanto com o seu pecado”, disse a Pearl com um ar de superioridade, segurando um livro. Ela tava lendo; o dedo ainda marcando a página. Provavelmente achando que ia voltar a ler. O Brandon veio correndo.

“Tá tudo bem, amor. Eu e o herege precisamos conversar.” O Brandon só deu um passo pra trás. Sem raiva.

“Precisa conversar?” Eu tava perdendo o efeito dos químicos de pânico e raiva no cérebro. Logo eu ia desabar. “Se você insiste, o certo é me dar água primeiro.”

“Água?”, disse a Pearl, ofendida. “Você merece vinagre aguado.” “Foi bom o suficiente pro Jesus”, eu sorri, tentando me manter inteiro.

“Como você ousa.” Ela ficou puta. Abraçou o livro.

“Por que você matou ela?” Como se eu não soubesse.

“Você tirou ela do caminho do Senhor. Eu não queria que ela descesse mais, então eu parei ela antes que…”

“Parou mesmo?”, interrompi. “Não foi porque você percebeu que alguém queria que ela ficasse? Ela era amada demais e amava alguém de volta demais pra dizer não pra sua missão. Você queria isso, né? Imagino que seus pais tavam super felizes de você ir embora. Você é estranha pra caralho, afinal.”

“Você é cheio de si.”

“E você vai pras trevas exteriores. Jesus não vai te perdoar. Seus esquemas. Assassinato e tentativa de assassinato. Você brinca com o Espírito San—” Ela gritou. Eu vi a cara real dela. Aquela era uma boa imagem pra morrer. Mas eu não morri.

“Eu salvei a alma dela!”

“Salvou? Você nunca vai saber o quanto ela falava bonito de você. Ela cometeu o erro de amar. Eu sou culpado pela morte dela. Então nós três… te encontramos no inferno ou onde quer que a Vanessa não esteja.”

Não sei onde ele escondeu aquilo o tempo todo, mas o Brandon confuso puxou um machado do nada e veio correndo pra cima de mim. Eu não queria me mexer. Mas aí todo mundo ouviu um barco e vozes. O Brandon parou. A Pearl ficou com medo e eu pulei pela janela. Única forma deles acreditarem que eu era a vítima antes da Pearl fazer o papel de donzela em perigo. Ela tinha a cara pra isso, afinal.

“Socorro.”

O Brandon tava perdido demais. Descobri que ele tava drogado, provavelmente pra anestesiar a culpa. Ele tava apaixonado e manipulado. De coração partido. Tudo por minha causa. Ele tentou me matar, mas o cara que não tava segurando uma píton morta atirou nele sem nem soltar a cerveja.

“Ela tá com ele. Ela matou a Vanessa.” Eu apaguei.

Do sonho que eu tive sobre ela, a única coisa que lembro é o sorriso gentil dela.

O Brandon testemunhou contra a Pearl e se declarou culpado. A Pearl foi pra prisão por tentativa de assassinato e foi excomungada. Eu passei um mês no hospital, mas a memória da Vanessa me deu força pra estar no julgamento e contar a história. Tenho certeza que dei um relato melhor dos fatos no tribunal. Eu falei da traição. Aceitei minha própria culpa, mas acontece que trair a namorada não é crime nem defesa possível. Foi o próprio juiz que disse isso, olhando pra Pearl enquanto falava.

Ela alegou insanidade temporária e extremismo religioso dos pais. A defesa dela era que ela acreditava que tava fazendo a obra de Deus. Mas todo o planejamento longo — a foto, os detalhes — foi pesado, mas não coisa de alguém só temporariamente insano. Usar a COVID como cobertura pra morte da Vanessa foi calculado demais, quase genial. Quase. No final, ela só pegou três anos e cumpriu metade. A família dela conseguiu que ela fosse julgada como menor, só porque ela não puxou o gatilho (por assim dizer). Felizmente ela foi mandada pra um hospital psiquiátrico. Ela fingiu a própria morte.

Pelo menos isso também significou que a família dela teve que pagar indenização.

Os pais dela disseram que me perdoavam. Eu mandei eles se foderem. Os da Vanessa não perdoaram. Eu pedi desculpas mesmo assim. A Vanessa me ensinou que eu tinha que pedir desculpas independente do que a outra pessoa ia obviamente falar. Perdão é um presente que você pode ou não receber. Não depende de mim. O que dependia de mim era o arrependimento.

“Eu vejo túmulos não como o lugar onde seus entes queridos descansam. Mas igual igreja, ajuda você a focar. Ajuda você a falar com eles com mais clareza. Você ainda pode se queimar se tocar nas brasas que uma pessoa deixou pra trás.”

Um fragmento de uma das muitas conversas que eu e a Vanessa tivemos.

O Bétula Sorridente

O silêncio em Blackwood Verge não é uma ausência de som; é um peso físico, um predador esperando que eu faça o primeiro barulho. Quando herdei a cabana, pensei que o isolamento seria uma bênção. Minhas finanças estavam em ruínas, e meu luto era uma coisa alta e estridente que precisava ser abafada pelas florestas. Eu esperava que o vento suspirasse entre os pinheiros e que os pássaros tagarelassem nos beirais. Em vez disso, encontrei um cenário de privação sensorial. Não há esquilos por aqui, nem insetos zumbindo na grama alta — só uma quietude sufocante que faz o ato de respirar parecer uma intrusão.

Fiquei porque não tinha escolha. Eu não tinha dinheiro, família nem para onde ir. Essa vulnerabilidade, eu percebo agora, era a isca. Eu era um cara sem rede de segurança, despojado do zumbido digital do mundo moderno, deixado sozinho para escutar as batidas do meu próprio coração. Nesse vácuo, minha mente começou a pregar peças, ou pelo menos foi o que eu me disse. Só depois de uma semana dessa quietude pesada e antinatural que notei a anomalia parada bem na beira da clareira.

Era um bétula, mas o nome parece uma mentira. Enquanto as árvores ao redor estavam desgastadas e escuras, essa entidade era de um branco chocante, cirúrgico. A casca não descascava nos cachos naturais e papéis de uma árvore saudável; parecia esticada, como pele pálida puxada com força sobre uma estrutura que não encaixava direito. Seus galhos não cresciam para cima em direção à luz, mas eram articulados, dobrando em ângulos afiados e impossíveis que sugeriam cotovelos e joelhos. O mais perturbador era o "sorriso" — uma fenda profunda e horizontal no tronco. Quando o vento não soprava, um chiado baixo e úmido saía daquela abertura escura e sem lábios, como ar sendo sugado por uma garganta cheia de catarro.

Passei horas na janela, fazendo os malabarismos intelectuais do desesperado. Eu me convenci de que era um raio, um crescimento fúngico esquisito ou talvez um resquício cruel do folclore local — algo que os moradores da região poderiam chamar de manifestação Inklistrad. A gente racionaliza o irracional porque a alternativa é admitir que o mundo nos virou as costas. Fui pra cama e tranquei a porta, tentando esquecer a visão daqueles galhos articulados.

Na manhã seguinte, a árvore estava uns seis metros mais perto, e o sorriso parecia ter se alargado num esgar.

As noites que se seguiram foram uma sinfonia de violações sutis. Comecei a ouvir um som úmido e rasgante, como papelão molhado sendo rasgado devagar por mãos gigantes. Era o som da casca da entidade se expandindo. Na terceira noite, vi aqueles galhos brancos e articulados pressionando contra as janelas altas do sótão, os "dedos" dos ramos arranhando o vidro ritmicamente com o som de uma faca sendo afiada. Acordei na manhã seguinte e encontrei uma seiva viscosa acumulada nas tábuas do chão perto da porta. Toquei nela, depois recuei; não cheirava a pinheiro, mas carregava o aroma enjoativo e metálico de ferro e cobre — o cheiro de uma ferida fresca.

A realidade começou a se desfiar nas bordas. Eu não estava só observando a árvore; a árvore estava me colonizando. Eu via o sorriso em todo lugar — na forma como as sombras caíam no meu próprio rosto no espelho, no arranjo acidental dos meus talheres. Meus próprios dedos começaram a ficar rígidos e lenhosos, minhas juntas estalando a cada movimento como gravetos secos. Foi aí que percebi que o isolamento não era um refúgio, e a cabana não era um abrigo.

A cabana era uma jaula, e o Bétula Sorridente era a única coisa me vigiando através das grades.

O fim não veio com um estrondo, mas com uma intrusão lenta e irresistível. A entidade invadiu o espaço da sala de estar através das tábuas do chão, suas raízes estilhaçando a madeira com a força de um deslocamento tectônico. Não era uma árvore em nenhum sentido biológico; era um organismo predador usando a aparência de um bétula para caçar. Quando seus galhos finalmente se enrolaram ao meu redor, a textura era fria e papirácea, abrasando minha pele até eu sangrar. Tentei gritar, mas minha garganta parecia entupida de serragem.

O sorriso no tronco se abriu largo, revelando não madeira nem polpa, mas um interior escuro e úmido que zumbia com uma vibração baixa e rítmica. Eu não lutei de volta. Não consegui. Estava preso num estado de paralisia aterrorizada, assistindo a casca branca começar a rastejar sobre minhas próprias mãos, costurando minha pele na sua própria arquitetura. Não houve luta heroica, só a frieza absoluta da percepção de que eu estava sendo integrado. Meu último momento de lucidez foi gasto vendo o chão da floresta subir para me encontrar enquanto minhas pernas criavam raízes.

Eu ainda estou aqui, embora o cara que eu era tenha sumido. Agora observo a cabana da perspectiva da linha das árvores, minha visão filtrada pela textura granulada da madeira. Minha pele endureceu em casca pálida e rígida, e minha boca está permanentemente fixada naquele sorriso largo e acolhedor. Sinto o vento, mas não sinto frio. Só sinto a fome.

Ontem, um cara de terno impecável subiu pela trilha longa e tomada por mato. Ele martelou uma placa de "À Venda" na terra macia na entrada da garagem. Olhou ao redor para a quietude, talvez incomodado pela falta de canto de pássaros, mas no fim das contas sorriu pra si mesmo, pensando na comissão. Ele não me notou parado a só alguns metros dali, esperando pela próxima pessoa que precisa de um lugar quieto pra se esconder.

Dá uma olhada na casca das árvores do seu quintal hoje à noite. Se você encontrar um nó que pareça demais com um olho, ou uma fenda que pareça demais com uma boca — não olhe de novo. Só vai embora. A casa não vale a alma que você vai trocar pra mantê-la.

Encontrei uma corda que não leva a lugar nenhum

Encontrei uma corda que não leva a lugar nenhum.

Sem sentido. É tudo sem sentido. Vida, morte, não importa nada; não tem porra nenhuma lá fora e ninguém vai vir te salvar.

Eu… acho que tô me adiantando. Meu nome é Wayne, e tem uma corda no meu quintal que não leva a lugar nenhum.

Hoje é sábado, 6 de março. Enterrei minha mãe hoje de manhã; o câncer no fígado finalmente acabou com ela. Ela era uma lutadora, sempre foi. Não… não tá sendo fácil. Sei que isso não parece importante agora, mas prometo que é. Só continua ouvindo.

Foi um velório bonito. Recebi os pêsames de todas as tias e tios que não via desde o enterro do meu pai, e ouvi o mesmo mantra ensaiado das amigas da minha mãe, tentando me consolar. “Ela tá num lugar melhor agora”, todas diziam. “Ela tá no céu neste exato momento, rindo de nós aqui chorando por causa dela.”

Agora eu tenho mais medo do que nunca do lugar onde ela se meteu.

Naquela noite, voltando pra casa, a única coisa que me impediu de jogar o carro pra fora da estrada foi o pensamento de que minha mãe acordaria no céu e seria recebida pelo abraço quente do meu pai. Ele apertava ela forte, prometendo que nunca mais iria embora. Não posso dizer que esse pensamento me traz consolo algum agora.

Assim que entrei pela porta da frente da minha casinha simples, já tava fuçando dentro da geladeira atrás de uma solução alcoólica pra dor. No final, peguei um fardo de cerveja e decidi beber até apagar na varanda dos fundos. Minha casa não tem nada de especial: um quarto, um banheiro e uma cozinha do tamanho de uma van. O que falta em tamanho sobra na vista. A varanda dos fundos dá direto pra uma clareira pequena na borda de uma floresta atrás do bairro. Algumas das minhas coisas favoritas são fumar charuto olhando pras estrelas, tomar café vendo o sol nascer e, naquela noite, ficar bêbado sob a luz da lua.

Só que quando abri a porta de correr naquela noite, não encontrei a dança dos vagalumes nem o canto dos grilos. Em vez disso, dei de cara com uma corda pendurada. Olhei ao redor do quintal pra ter certeza de que não tinha ninguém estranho por perto, saí da varanda e me aproximei daquela merda. A corda era grossa, com cerca de 1,3 cm de diâmetro, cor marrom escura. Quando segui ela com os olhos pro céu, tomei um susto ao perceber que tava errado: a corda não estava amarrada em árvore nenhuma e simplesmente sumia no nada.

“Que porra é essa?”, murmurei pra mim mesmo, colocando o fardo de cerveja no chão.

Estendi os dois braços, segurei a corda com força e dei um puxão, achando que ela ia soltar e cair como algum erro que precisava ser consertado, virando história pra contar em volta da fogueira. Mas nada. Ela continuou firme, ancorada no nada, sem mexer um milímetro.

Dei um passo pra trás e olhei de novo pra cima. Ainda não sei explicar, mas só de ver aquela coisa eu já fiquei puto da vida. Ela não tinha o direito de estar ali. Era como um dedo do meio apontado pras leis do universo.

Arregacei as mangas e me aproximei com uma confiança arrogante de que ia consertar aquilo. Agarrei a corda e puxei com toda a força que eu tinha. Mesmo assim, ela não se mexeu. Berrei de raiva, enrolei a corda nas mãos e gritei: “Sua merda! Por que você não se MEXE logo!” Meus pés afundaram na terra e eu senti a corda ceder um pouquinho. Já foi o suficiente pra eu continuar puxando.

“Isso aí! Vai se foder—!” rosnei com os dentes travados antes da corda escapar das minhas mãos.

Caí de costas no chão e gritei de dor quando uma queimação insuportável tomou conta das palmas das minhas mãos. Antes que eu pudesse olhar pros ferimentos, a corda voltou pro lugar com tudo e um badalo ensurdecedor explodiu lá do céu. Tampei os ouvidos, perdi a audição por alguns segundos e depois só restou um zumbido agudo na cabeça.

Olhei desesperado ao redor, achando que uma bomba tinha explodido. Mas não tinha nada. Quando minha audição voltou, entendi o que era: a corda balançava devagar enquanto o som de um sino ecoava do alto.

“Que porra tá acontecendo!?”, gritei.

O sino foi diminuindo aos poucos até a corda parar de novo. Só então prestei atenção na dor queimando nas mãos. A pele da palma tinha sido arrancada nos lugares onde eu tinha segurado. Só de olhar já doía dez vezes mais. Comecei a voltar pra varanda pra fazer um curativo.

Mas no instante em que dei as costas pra corda, centenas de milhares de vozes gritaram ao mesmo tempo dentro da minha cabeça. Caí de joelhos apertando a cabeça, rangendo os dentes. Cada voz era diferente, mas todas transmitiam a mesma mensagem.

Elas falavam numa língua que eu nunca tinha ouvido, mas minha alma entendia perfeitamente.

“Quem é você?”, elas gritavam em pura agonia.

“Para, por favor para!”, eu berrei.

“Wayne?”

“Dói! Para, por favor, tá doendo!”

As vozes silenciaram. Abri os olhos e não tinha ninguém. Levantei girando como um doido, procurando de onde aquelas vozes tinham vindo, mas não havia alma viva.

“Você tocou o sino”, as vozes sussurraram novamente, baixinho.

Continuei olhando pra floresta. Conseguia ouvir elas em todo lugar, mas não via ninguém.

“Você pediu nossa presença. Chamou por nossa voz. Fez um sacrifício. Agora, o que você quer?” As vozes estavam ficando impacientes.

“Quem são vocês?!”, gritei, recuando devagar.

“Nós somos tudo. Nós não somos nada. Nós somos todos. Nós somos menos. Nós somos a morte. Nós somos a vida. Nós somos um anjo. Nós somos um demônio. Nós somos quem você chamou.”

“O que vocês querem?!”, berrei, cada vez mais apavorado.

“Você nos invocou. Fez o sacrifício. Queremos que faça sua pergunta.”

“Eu não entendo!”, gritei, o medo tomando conta.

“Quer que a gente te ajude a entender?”

Balancei a cabeça. O sino tocou forte lá em cima e eu gritei.

“Você nos invocou. Sofreu por nós. Então viemos trazer conhecimento em troca do seu sofrimento. Nós sabemos tudo. Nós somos tudo. Vamos revelar qualquer verdade que você pedir… por um pequeno preço”, a voz respondeu com satisfação.

“Por que eu deveria acreditar em vocês?”, perguntei.

Uma pergunta tinha ficado martelando na minha cabeça. Se aquela coisa pudesse responder, eu tinha que perguntar.

“É essa a verdade que você deseja conhecer?”, as vozes sussurraram, ainda mais perto.

“Sim”, respondi firme, me aproximando da corda de novo.

“Você está disposto a sofrer por essa verdade?”

Meu sangue gelou. Repeti a pergunta na cabeça e respondi: “Sim!”

“Estenda sua mão”, as vozes disseram, quase alegres.

Estendi o braço. Em vez de resposta, veio uma dor lancinante. Caí no chão gritando, me contorcendo. Minha mão tinha murchado, a pele rasgada nos nós dos dedos, osso à mostra, veias pretas. Não sangrou, mas doeu mais que qualquer coisa na vida.

“Que porra você fez comigo?!”, chorei.

A dor sumiu tão rápido quanto veio e o sino tocou novamente.

“Seu nome é Wayne, quarenta e três anos, sozinho. Seu pai morreu de infarto, sua mãe morreu de câncer, você...”

“Para. Eu acredito em vocês.” A ferida na mão continuava lá, mas parou de doer. “Onde estão meus pais? Eles estão no céu? Estão felizes?”

Houve silêncio. Depois as vozes voltaram: “Você está disposto a sofrer por essa verdade? O preço é muito maior pra esse segredo. Um preço que só pode ser pago uma vez.”

“Sim, eu estou disposto!”, gritei, a raiva crescendo.

O sino tocou mais uma vez.

“Me ajuda!” Uma voz familiar gritou de dentro do nada.

Era a voz da minha mãe, sozinha dessa vez.

“Mãe?!”, berrei, correndo até a corda.

“Me ajuda, por favor! Eu não quero mais ficar aqui, por favor me tira daqui! POR FAVOR!”, ela implorava chorando.

“Mamãe, onde você está?!”

“Me ajuda!”, uma voz masculina gritou.

“Pai? Pai, onde você tá? Por favor aparece!”

Eu chorava sem parar, me sentindo completamente inútil.

“Eles agora fazem parte de nós”, as milhares de vozes voltaram, abafando tudo. “Eles não estão felizes. Eles estão sofrendo.”

“Traga eles de volta! Para de machucar eles! Pega eu no lugar deles! POR FAVOR!”, implorei de joelhos.

“Você recebeu sua verdade. Agora nos dê seu sofrimento.”

“NÃO! TRAZ ELES DE VOLTA!”, gritei.

Peguei o fardo de cerveja e joguei com toda força na floresta.

“Nos dê...”, as vozes sussurraram antes de sumir.

As cervejas voltaram voando em alta velocidade, explodindo ao meu lado, abrindo um buraco no chão e me encharcando de cerveja.

“O SEU SOFRIMENTO!”, as vozes berraram com puro ódio.

Corri pra dentro de casa, bati a porta e tranquei tudo, fechando todas as cortinas.

Mesmo agora, enquanto digito isso escondido na cozinha, fico olhando pelas frestas das cortinas. Juro que vejo algo magro e pálido correndo entre as árvores, me provocando. Não tenho muito tempo. Ele quer a minha voz também. Quer que eu pague o preço.

A corda mudou. Agora está suspensa a quase dois metros do chão, terminando num laço de forca. Eu sei o que ele quer que eu faça. E não vai parar até conseguir.

Estou com um medo do caralho, completamente aterrorizado. Não quero morrer. Não quero me juntar àquela coisa!

Ainda escuto a voz da minha mãe implorando por ajuda.

O sino está tocando de novo. Chegou a hora. Antes de ir, só consigo pensar: será que essa verdade valeu a pena morrer por ela? Ou tem coisas que é melhor deixar mortas?

Eu Fui Criado pela Morte. Tem Algumas Coisas que Eles Não Te Contam

Oi, galera. Eu sou o Benjamin... bem, na verdade eu nem sei meu sobrenome. Tenho 26 anos — acho — e, exatamente como meu título bem louco diz, a morte é o meu pai.

Ele não é tipo o Ceifador, nem um serial killer, nem nada disso, não. Na real, eu nem tenho certeza do que ele é.

Ele pode ser o vento bagunçando seu cabelo no cemitério, ou o corvo que fica te olhando pela janela depois que sua avó morre. Pode estar no canto do quarto de hospital que seu avô sempre apontava antes de falecer. Ele pode ser literalmente qualquer coisa que quiser — mas pra mim, ele normalmente aparece na forma que eu chamei de “pai” a vida inteira: um senhor grandão, de cabelo grisalho e barba que faz cócegas quando ele me pega no colo.

Ele não é meu pai biológico, obviamente. Acho que ele nem é capaz disso. Ele sempre dizia: “Você é diferente de tudo que eu já vi.” Basicamente, eu não deveria estar vivo. De todas as formas possíveis, eu não deveria existir. Eles normalmente não te contam isso, mas todo mundo tem um destino. Nem sempre é um destino bom — na verdade, quase nunca é —, mas é um destino, e você não pode mudar. Eu deveria ter encontrado o meu destino bem cedo na vida — três dias depois de nascer, pra ser exato. Eu deveria ter sido abandonado na chuva do lado de fora do hospital e morrido exposto ao tempo.

Mas quando o pai veio me buscar, eu ainda estava vivo. Isso nunca tinha acontecido antes. Olha, o pai não mata pessoas. Na verdade, ele nunca machucou uma alma sequer. O trabalho dele é recolher as almas das pessoas que encontraram seu destino e colocá-las pra descansar. Então, quando ele chegou pra me levar, eu já deveria, por todos os critérios, estar morto. Mas não estava. Minha existência, me disseram, é uma coisa estranha. Eu não me encaixo nessa linha do tempo. Eu não deveria estar vivo — e o simples fato de eu continuar vivendo pode causar consequências sérias. Mas, como eu disse, não dá pra me matar, já que tecnicamente eu já encontrei meu destino. Então meu pai decidiu fazer a próxima melhor coisa: me criar sob as asas dele.

Eu tive uma infância até que normal. Bom, eu não ia em festinha de aniversário nem creche. Na maior parte do tempo eu viajava com o pai; aliás, se você nunca viajou através de ondas de tempo e espaço, você tá perdendo pra caralho. Eu visitava todo tipo de gente — vovôs que estavam prontos, aventureiros ambiciosos que não estavam, e tudo no meio. Mas eu tô aqui pra contar uma história que ficou marcada em mim por muito tempo.

O pai não é perfeito no trabalho dele. Algumas pessoas não vão pro descanso. Ou porque ele não consegue ajudar, ou porque morreram com raiva demais no coração. Acontece algo com as almas que ficam tempo demais vagando pela Terra.

Elas param de ser pessoas. Desde esse incidente, eu já vi várias dessas coisas, e toda vez elas me assustam pra caralho. Elas perdem toda a humanidade. O rosto delas fica deformado de dor, pra sempre contorcido em agonia, os membros esticam mais do que você consegue imaginar, os olhos brilhando com fúria e um desespero pra sair daquela existência torturante.

Normalmente elas aparecem de noite. Costumam frequentar lugares escuros tipo becos vazios ou florestas profundas — algum lugar onde ninguém vai ver no que elas se transformaram. Elas são um incômodo, porém. Os chefes do pai não gostam nada de ter essas aberrações soltas pela Terra, e geralmente causa um frenesi na mídia se alguém avista uma. Então, uma parte relativamente comum do trabalho do pai é encontrar essas coisas e colocá-las pra descansar.

Essa história começou como qualquer outro “dia de levar o filho pro trabalho”: no meio da noite, no mato fechado da Austrália, caçando um monstro.

“Fica aqui, Benny”, disse o pai. “É perigoso demais no mato.”

“Não, pai, eu quero ir com você”, reclamei. Acho que eu tinha uns oito anos.

Ele suspirou e pensou por um momento. “Tá bom. Mas fica do meu lado e cobre os olhos quando eu mandar.”

Eu fiz o que ele mandou, segurando feliz a mão dele enquanto ele andava por entre as plantas densas. Logo depois, começamos a ouvir alguma coisa.

“Ótimo”, murmurou o pai. “Ela tá saindo.”

Segurei a mão do pai com mais força quando ouvi o rosnado. Vi de relance olhos amarelos brilhantes e um rosnado feroz.

“Fecha os olhos, Ben.”

“Mas pai, eu—”

“Fecha os olhos.”

Eu obedeci, embora soubesse o que ele ia fazer. Como eu disse, meu pai não é uma pessoa. Ele não é o cara que eu vejo. Em casos assim, ele gosta de mudar de forma. Algo que ele sabe que a alma reconhece bem. Por algum motivo, ele não gostava que eu visse ele mudando de forma.

Eu ouvi o que parecia uma briga grande — um grito quando algo foi derrubado no chão e uns berros que furavam os ouvidos. Eventualmente, parou. Abri os olhos com cuidado e vi que a coisa tinha sumido.

O nome dela era Linda. Ela tinha um filho mais ou menos da minha idade, disse ela, e sentia muita saudade dele. Tinha sido assassinada pelo marido três meses antes. Nunca conseguiu se despedir.

“Eu não quero ir embora sem dizer que amava ele uma última vez”, ela chorou.

“Ele sabe, querida”, meu pai disse com aquela voz firme mas carinhosa. Em algum momento antes de eu abrir os olhos ele já tinha voltado pra forma de pai que eu conhecia.

“E quanto a mim?”

Meu pai fechou os olhos. “Ele te amava. Ele te amava muito.”

Fiquei olhando em silêncio enquanto os olhos amarelos da Linda voltavam a um castanho avelã lindo. Ela sorriu, os dentes brancos e retos bem diferentes do rosnado afiado que eu tinha visto antes.

“Está na hora de ir”, disse meu pai, estendendo a mão.

Mas essa não é a parte principal da história. Eu já lidei com várias Lindas na minha “vida”. A que eu vou contar agora é... diferente.

Eu devia ter uns 10 anos e o pai já confiava mais em me deixar sozinho por períodos maiores. Mas eu tinha regras bem rígidas pra seguir. Na verdade ele não sabia o que poderia acontecer se eu interagisse com outras pessoas vivas. “Tudo se encaixa como um quebra-cabeça”, ele sempre dizia. “Os destinos se movem com precisão — tudo acontece por um motivo. Se uma anomalia como você sair por aí, pode estragar a linha do tempo.”

Infelizmente, eu era uma criança burra e achava que sabia mais que ele.

Quando ele saía, eu dava umas voltas. Isso por si só não era tão ruim — desde que eu ficasse em algum lugar bem isolado onde nunca visse ninguém, o pai dizia que deveria ficar tudo bem. Dessa vez, porém, eu não obedeci. Eu tinha visto vários parquinhos nas viagens com o pai, mas nunca tinha permissão pra brincar em nenhum. Exatamente como ele dizia: “Sempre pise no lado da cautela”, seja lá o que isso significasse. Decidi fugir escondido e encontrar um parquinho perto de onde ele estava recolhendo almas.

Balancei no balanço algumas vezes e tentei as barras de macaco. No geral, foi mais decepcionante do que eu esperava. Já estava me preparando pra voltar quando ouvi uma voz.

“O que você tá fazendo?” Eu me virei e vi um menino mais ou menos da minha idade, com cabelo loiro sujo e uma camiseta com desenho animado.

“Meu pai disse que eu não devo falar com estranhos”, respondi.

“Meu nome é Tyler. Agora não sou mais estranho. Qual é o seu?”

“Eu sou o Ben.”

“Legal. Quer ir jogar pedra no lago comigo?”

A gente virou amigo rapidinho depois disso. Passamos até o anoitecer subindo em árvores e correndo atrás de esquilos. Pela primeira vez na vida, eu me senti um garoto de verdade.

“Tenho que ir. Minha mãe disse que eu tenho que voltar antes do sol se pôr pro jantar. Quer vir pra minha casa? Vamos comer sanduíches de carne moída com molho.”

Eu hesitei. “Não, melhor não”, falei, e me chutei mentalmente por não ter inventado uma desculpa melhor.

Tyler deu de ombros. “Tá bom. Vamos nos encontrar aqui amanhã, beleza? Vamos construir um forte.”

Quando o pai voltou, ele me avisou que a gente ia passar um pouco mais de tempo ali (ao que parece, o Colorado tinha muito mais mortes do que o previsto). Era fora do comum, normalmente a gente nunca passava mais de um dia no mesmo lugar — tínhamos 40 mil almas pra libertar.

“Fez alguma coisa divertida hoje?”, perguntou o pai enquanto servia meu jantar.

Pensei em contar, mas decidi que não. “Nada demais.”

Eu brinquei com o Tyler no dia seguinte também. Combinamos de nos encontrar no mesmo lugar no outro dia.

Mas ele não apareceu. Esperei alguns minutos. Nada. Depois que escureceu, passei escondido pelo meu pai pra ver se ele tinha voltado.

Enquanto eu estava parado no meio do mato escuro, ouvi alguma coisa. Um rosnado que eu já conhecia bem demais.

Girei desesperado, tentando olhar pra todos os lados. Eu sabia o quão perigosas essas coisas eram. Conseguia ouvir ela se aproximando.

“Pai! PAI!”, gritei.

Essa coisa... será que tinha matado o Tyler? A culpa era nossa? Eu tinha levado ela até ele?

De repente, vi um corvo me olhando de um galho.

“Pai, por favor!”, falei mais alto enquanto via a coisa se levantar nas patas traseiras.

Mas através daqueles olhos amarelos ferozes, eu vi algo atrás dela. Olhos azuis, cheios de medo. Aqueles mesmos olhos azuis com quem eu tinha brincado no dia anterior.

“Tyler?”

O reencontro não durou muito antes dele partir pra cima de mim. Eu gritei e tentei correr enquanto o corvo descia em voo rasante. Ele me olhou, e sem nem ouvir a voz do pai eu já sabia o que ele queria que eu fizesse. Fechei os olhos.

Então eu ouvi uma voz familiar. A minha própria voz.

Confuso, abri os olhos.

Meu pai tinha se transformado em mim. Fiquei paralisado de medo vendo o Tyler atacar meu pai. Vi sangue escorrendo do meu próprio rosto, mas também vi esperança enquanto o monstro ia ficando cada vez mais humano.

No final, o Tyler voltou ao normal. Bom, mais ou menos. Morto. Ele estava morto. Meu pai, já de volta à forma de sempre, me encarou.

“É isso que acontece quando você conversa com outras pessoas, filho”, disse ele com a voz baixa.

“Eu matei ele?”, perguntei com a voz trêmula.

“Não... não. Ele... ele sempre ia morrer nessa idade. Eu só não sabia que ia ser por sua causa.” Ele se virou pra mim. “Agora eu sei, Benny, que isso estava destinado a acontecer. Ele sempre ia morrer aos 10 anos. Mas talvez se eu tivesse conseguido te esconder melhor, o fim dele não teria sido assim.”

“Pai, eu não queria—”

“Vamos embora, filho. Estamos indo pra Mongólia.”

A gente não falou muito sobre esse incidente depois. Eu tive que acompanhar o pai no trabalho por anos até ele voltar a confiar em mim. Fui escondido do resto do mundo ainda mais do que antes.

Ao ler isso, espero que o mesmo destino que encontrou o Tyler não encontre você. Me mantém atualizado, eu acho.
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