segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Teofobia

Você acha que os animais acreditam nos seus próprios deuses?

Fiquei encarando essas palavras na tela do computador até elas começarem a borrar. Já passava da meia-noite. A pergunta estava ali na minha caixa de entrada como se fosse algo vivo, esperando.

Sei que pode parecer loucura, mas eu vi isso com os meus próprios olhos. Perdi alguém por causa desse evento — desse fenômeno. Por favor, responda. Não consigo dormir. Não consigo entender isso. Preciso de ajuda. Por favor, me ajude. Sou apenas um criador de ovelhas e preciso de alguém que me ajude a compreender. Por favor, responda. Por favor, Dr. Grant, me ajude. — Charlie Vaughan.

Minha mão pairou sobre o teclado. Animais com seus próprios deuses? Meu primeiro impulso foi apagar a mensagem — talvez fosse algum exercício de escrita criativa de adolescente, ou uma pegadinha. Mas então vi o nome outra vez. Charlie Vaughan. Eu conhecia o Charlie. Já tinha ido à fazenda dele duas vezes antes, consultando sobre o comportamento do rebanho. Era o tipo de homem que media as palavras com cuidado, que não falava a menos que tivesse algo realmente importante a dizer. O tipo de homem que jamais, jamais, enviaria um e-mail como esse. A não ser que algo o tivesse quebrado por dentro.

Respondi imediatamente, dizendo que ele viesse ao meu escritório pela manhã. Ele respondeu em menos de uma hora. Apenas três palavras: Estarei aí.

Sou etólogo. Estudo o comportamento animal — como eles pensam, como sentem, o que os move. Tudo se resume a química cerebral, instinto, evolução e adaptação. Não há espaço para deuses nessa equação. Não há espaço para o sobrenatural. Pelo menos era isso que eu repetia para mim mesmo.

Naquela noite, não consegui dormir. Toda vez que fechava os olhos, via aquela pergunta queimando atrás das pálpebras: Será que os animais acreditam nos seus próprios deuses? Quando o dia amanheceu, já tinha me convencido de que não era nada. Estresse. Talvez luto. Provavelmente Charlie tinha perdido algum familiar e não estava conseguindo lidar. Eu conversaria com ele, recomendaria um terapeuta e encerraria o assunto. Eu estava enganado.

Charlie já estava esperando quando cheguei ao escritório. Quase não o reconheci. O homem que eu conhecera antes era robusto, cheio de energia — alguém que sorria com facilidade e frequência. A figura encostada na porta do meu escritório mal lembrava aquele homem. A barba estava desgrenhada, muito mais branca do que eu recordava. Os olhos afundados em olheiras roxo-escuras, as escleras atravessadas por capilares rompidos. Parecia ter envelhecido dez anos nos poucos meses desde que eu o vira. Como se algo tivesse enfiado a mão dentro dele e arrancado tudo o que era vivo. 

“Dr. Grant,” ele disse. A voz era um ronco rouco, como se tivesse passado a noite gritando. “Bom dia.”

“Charlie.” Tentei manter a voz firme enquanto abria a porta. “Há quanto tempo você está esperando?”

Ele não respondeu. Apenas entrou arrastando os pés quando abri a porta, movendo-se como se os ossos doesse.

Acendi as luzes — as lâmpadas fluorescentes zumbiram e piscaram antes de estabilizar — e liguei a cafeteira. O ritual familiar não conseguiu aplacar a sensação de frio subindo pela minha espinha. Algo estava muito, muito errado.

“A universidade está bonita,” Charlie murmurou, olhando para o nada.

Servi café para ele com as mãos tremendo. “Sem açúcar, né?”

Um aceno mínimo. Sentei-me à frente dele e me forcei a olhar — realmente olhar — para o que ele havia se tornado. As mãos tremiam em torno da xícara. Havia terra sob as unhas. E os olhos… Deus, os olhos eram a pior parte. Tinham aquele vazio assombrado de quem viu algo que jamais poderá esquecer.

“Charlie, o que aconteceu—”

O punho dele bateu na mesa com tanta força que o café saltou nas xícaras. Eu me encolhi para trás, o coração disparado.

“Não.” A voz dele rachou como vidro quebrando. 

“Não me interrompa. Por favor, Dr. Grant. Já contei essa história para todo mundo. A polícia achou que eu estava louco. Os repórteres riram na minha cara. O padre de São Miguel disse que eu estava sendo blasfemo. Os veterinários—” Ele engasgou em algo entre riso e soluço. “Os veterinários disseram que era impossível.”

Lágrimas abriram sulcos no rosto curtido dele. “Você é a última pessoa para quem posso contar. A última que talvez escute.” Seus olhos se fixaram nos meus, desesperados, suplicantes e aterrorizados. “Então estou implorando, Dr. Grant. Não diga uma palavra. Não me diga que estou louco. Não me diga que o que eu vi não foi real.”

Ele se inclinou para frente e senti o cheiro de roupa suja, de terra, e de algo mais — algo podre e orgânico que revirou meu estômago. “Apenas escute,” sussurrou. “Escute o que as ovelhas fizeram.”

As luzes fluorescentes piscaram novamente.

“Há um mês,” Charlie começou, a voz oca, “fui a um leilão de gado. Precisava de mais ovelhas para a fazenda.” Ele envolveu a xícara com as duas mãos como se fosse a única coisa sólida que restava no mundo. “Tinha dinheiro para comprar umas cinco ou seis pelo preço de mercado. Mas aí eu vi esse homem.” Os olhos dele se perderam em algum lugar distante. “Ele parecia quase tão miserável quanto eu estou agora. Vazio. Como se algo já o tivesse comido por dentro.”

“Ele tinha um pequeno rebanho. Doze ovelhas. E o preço…” Charlie deu uma risada sem humor. “O preço era criminoso. Ele praticamente estava dando de graça. Eu devia ter percebido. Devia ter sentido que tinha algo errado quando vi o alívio no rosto dele — não era felicidade. Era alívio. Como se tivesse acabado de se livrar de uma maldição.”

As mãos apertaram a xícara até os nós dos dedos ficarem brancos. “Mas eu não pensei. Só vi o negócio. As ovelhas pareciam saudáveis. Então carreguei elas no reboque e voltei para casa achando que tinha dado sorte grande.”

A voz de Charlie falhou. “Lauren estava me esperando quando cheguei. Minha esposa — ela ficou surpresa de eu voltar tão cedo. ‘Nossa, Chuck,’ ela disse, ‘quanto custou tudo isso?’ Eu disse que era uma bênção. Que gastei só metade do que tinha planejado. Ela me beijou. Mandou separar elas do rebanho principal até se acostumarem umas com as outras. Não queria briga.”

Ele parou. Olhou para o café como se pudesse ver o rosto dela ali.

As luzes fluorescentes zumbiam acima de nós. Lá fora, no corredor, ouvi passos — outro professor chegando cedo. Sons normais. Mundo normal. Mas sentado à minha frente estava algo que não pertencia mais àquele mundo.

“Descarreguei as ovelhas,” continuou Charlie. “Pareciam normais. Todas, menos uma.” A voz dele caiu para um sussurro quase inaudível. “Era a maior do lote. E era… diferente. O jeito que ela ficava em pé — parecia estar em posição de sentido. Alerta. As outras andavam sem rumo como ovelhas normais, mas ela não. Ela andava com propósito. Como se soubesse exatamente para onde ia e o que estava fazendo. E as outras…” Charlie engoliu em seco. “As outras seguiam ela. Observavam ela. Não agiam como ovelhas normais, mas pensei que era só o estresse do novo lugar. Novo lar. Elas iam se acostumar.”

Ele ergueu os olhos para mim e vi algo se quebrar dentro dele. “Eu estava errado.”

A cafeteira gorgolejou atrás de mim, o som obscenamente alto no silêncio. “No começo tudo parecia normal. Depois de uma semana, começou.” A respiração dele acelerou. “Acordei uma noite com um som que nunca tinha ouvido antes. Não era um balido normal — era… harmonizado. Como um hino. Várias vozes encontrando a mesma nota, o mesmo ritmo.”

Minha pele arrepiou. “Pensei que eram coiotes, ou alguém roubando no curral. Peguei a espingarda, as botas e saí pela porta dos fundos.” Os olhos de Charlie estavam desfocados agora, perdidos na lembrança. “Minhas ovelhas normais estavam bem — dormindo, pastando, normais. Mas as novas…” Ele parou. A mandíbula trabalhou como se mastigasse palavras terríveis demais para sair. “Elas estavam em círculo. Cabeças baixas. Olhos fechados. E aquele som — vinha dele. O líder. Ele estava entoando aquele hino, e as outras… estavam adorando.”

A palavra ficou suspensa no ar entre nós como algo sólido. “Cheguei mais perto e ele parou. Simplesmente parou no meio da nota e me encarou.” A voz de Charlie tremia. “Dr. Grant, sei como isso soa. Sei que ovelhas não têm expressões como gente. Mas estou dizendo — eu senti o que ele sentia. Raiva. Raiva pura, fria. Como se eu tivesse interrompido algo sagrado. Como se eu tivesse entrado numa igreja e cuspido no altar.”

Ele passou a mão trêmula no rosto.

“Isso me assustou. Me assustou de verdade. Mas aí meu cérebro voltou a funcionar e eu gritei para elas se dispersarem. Elas não se mexeram de imediato. Mantiveram o círculo, mantiveram as cabeças baixas. Então o líder balidou — só uma vez — e elas se dispersaram. Mas ele continuou me encarando. Aquela raiva… era humana.”

A voz de Charlie mal se ouvia agora. “Tentei racionalizar. Talvez o dono anterior tivesse treinado elas de algum jeito. Talvez fosse alguma peculiaridade comportamental. Não sabia. Mas estava errado. Tudo aquilo estava errado.”

Ele ergueu os olhos para mim e vi as lágrimas prestes a transbordar. “E então,” disse ele, a voz baixando para um rosnado, “foi quando o verdadeiro problema começou.”

Ele olhou para a mesa, incapaz de sustentar meu olhar. “A cada poucas noites, eu ouvia de novo. Aquele canto de balidos. E não era mais só uma ovelha — outras estavam se juntando. Algumas das minhas ovelhas, do rebanho original. Eu as pegava sempre do mesmo jeito: reunidas em torno dele, cabeças baixas, olhos fechados. Às vezes todas cantavam juntas. Outras noites elas se moviam em padrões — formações. Quase uma dança. Lauren também viu. Nós dois estávamos apavorados, mas não sabíamos o que fazer. Para quem você liga? O que você diz?”

As mãos dele tremiam tanto agora que o café derramou pela borda da xícara. “Depois de três semanas disso, peguei a papelada do leilão. Encontrei o telefone do vendedor e liguei.” Ele riu com amargura. “Estava desconectado. Não existia. Tentei procurar o nome do homem, o endereço, qualquer coisa.” Charlie ergueu os olhos para mim, o rosto uma máscara de desespero. “Nada. Nem uma maldita coisa. Era como se ele nunca tivesse existido. Como se tivesse me vendido aquelas ovelhas e depois desaparecido da face da Terra.”

As luzes fluorescentes piscaram de novo. “Ou talvez,” sussurrou Charlie, “ele estivesse apenas fugindo da mesma coisa da qual eu deveria ter fugido.”

A voz dele caiu para um sussurro quase inaudível. “Um dia, fui até os pastos. Foi quando vi.” Ele encarou as próprias mãos como se pertencessem a outra pessoa. “Havia uma marca no chão. No começo pensei que meus olhos estavam me enganando — que meu cérebro estava inventando padrões do nada. Mas não.” Ele balançou a cabeça devagar. “Era um círculo perfeito. E dentro… símbolos. Símbolos que eu nunca tinha visto antes. Não em livro nenhum, não em língua nenhuma que eu conhecesse.”

O escritório pareceu encolher de repente. Ficar mais frio. “Algo tinha mudado. A fazenda inteira ganhou um peso. Como se o ar estivesse pressionando para baixo. Como se algo vasto e terrível estivesse se desenrolando bem debaixo dos meus pés, e eu era pequeno demais, burro demais para entender.”

Ele parou. Inspirou tremendo. Tentou juntar os pedaços de si mesmo que estavam desmoronando. Percebi que eu não tinha tocado no meu café. A xícara estava gelada nas minhas mãos. Tudo o que Charlie dizia soava impossível — fantástico, como um delírio febril ou uma farsa elaborada. Mas o homem à minha frente não estava mentindo. O que quer que ele tivesse visto, o que quer que acreditasse ter visto, o havia destruído.

Charlie fez uma pausa, os dedos traçando a borda da xícara. “Eu devia ter prestado mais atenção na Lauren. Devia ter visto os sinais.” A voz falhou. “Mas eu estava tão focado naquelas malditas ovelhas que não percebi o que estava acontecendo com minha esposa.”

Ele respirou fundo, tremendo. “Começou mais ou menos uma semana depois que eu trouxe elas para casa. Lauren reclamou de dores de cabeça — disse que vinham de repente, como se algo estivesse pressionando a parte de dentro do crânio. Ela nunca teve enxaqueca antes. Eu disse para ela ir ao médico, mas ela ia adiando. Dizia que sempre passavam.”

Os olhos de Charlie se perderam. “Depois comecei a encontrá-la na janela do quarto. No meio da noite, só… olhando para os pastos. Para os currais. Na primeira vez perguntei o que ela estava fazendo. Ela não respondeu de imediato. Só continuou olhando. Quando toquei no ombro dela, virou-se para mim com uma expressão sonhadora e disse: ‘O canto é tão bonito, Chuck.’” As mãos tremiam. “Eu não tinha ouvido nada. Disse que ela devia estar sonhando. Ela só sorriu — um sorriso vazio, distante — e voltou para a cama. Mas continuou acontecendo. Três, quatro vezes por semana. Sempre na janela. Sempre escutando algo que eu não conseguia ouvir.”

Ele se inclinou para frente.

“Ela começou a cantarolar. Notas estranhas, monótonas — nada que eu reconhecesse. Fazia isso enquanto cozinhava, enquanto dobrava roupa. Quando eu apontava, ela ficava confusa, como se nem soubesse que estava fazendo. As dores de cabeça pioraram também. Às vezes ela parava no meio de uma frase, congelava, olhava para o nada. Depois piscava e voltava, mas tinha lágrimas no rosto. Ou estava sorrindo. Nunca conseguia lembrar o que tinha visto.”

A mandíbula de Charlie se apertou. “Uma manhã eu a encontrei lá fora de camisola, descalça na grama molhada. Estava parada na cerca, e aquele líder — aquela coisa — estava do outro lado. Só os dois, se encarando. E ela estava cantarolando aquela melodia de novo.” A voz baixou.

“Chamei por ela. Ela virou, e os olhos estavam… vazios. Vidrados. Como se estivesse olhando através de mim para outra coisa. Mas aí piscou e de repente ficou confusa, assustada. ‘Chuck?’ ela disse. ‘O que estou fazendo aqui fora?’ Ela não lembrava de ter saído. Não lembrava de nada.” Ele pressionou as palmas contra os olhos. “Isso continuou por duas semanas. O cantarolar, o olhar fixo, as dores de cabeça. Às vezes ela desmaiava — simplesmente caía e agarrava a cabeça, dizendo que algo estava tentando entrar na mente dela. Tentando mostrar alguma coisa.”

Charlie ergueu os olhos para mim, o rosto contorcido de angústia. “Aí, três dias atrás, ela teve um momento de clareza. Um momento de verdade. Voltei de checar as cercas e a encontrei na cozinha, chorando. Chorando de verdade. Ela agarrou meus braços e olhou para mim — olhou de verdade — e eu vi minha Lauren de novo. A verdadeira.” A voz quebrou. “‘Chuck, tem algo errado comigo,’ ela disse. ‘Estou perdendo tempo. Estou ouvindo coisas. Hoje de manhã acordei e encontrei isso.’ Ela me mostrou as mãos — tinha terra fresca debaixo das unhas. ‘Não lembro de ter saído. Não lembro de ter cavado. Mas eu sinto… Chuck, eu sinto algo me chamando. E estou com medo. Estou com tanto medo porque uma parte de mim quer responder.’”

Lágrimas encheram os olhos de Charlie. “Ela estava apavorada. Apavorada de si mesma. Do que estava se tornando. Implorou — implorou — para eu me livrar daquelas ovelhas. Disse que tínhamos que fazer isso imediatamente, naquele mesmo dia. Mas eu…” Ele engasgou nas palavras. “Eu disse que faríamos amanhã. Que precisava me preparar, decidir para onde levá-las. Pensei que tínhamos tempo. Pensei que mais uma noite não faria diferença.” Ele bateu o punho na mesa.

“Mas elas sabiam. Aquelas coisas sabiam que ela estava se soltando. Sabiam que ela estava lutando contra o domínio que tinham sobre ela. Então não esperaram. Não podiam arriscar perdê-la.” A voz de Charlie virou um sussurro oco. “Naquela noite — a última noite — Lauren parecia melhor. Mais calma. Fez o jantar, me deu um beijo de boa-noite, disse que me amava. Disse que amanhã tudo estaria bem. Fomos dormir cedo, os dois exaustos. Os dois acreditando que acordaríamos e consertaríamos tudo.”

Ele me olhou com olhos cheios de horror.

Lágrimas frescas encheram os olhos de Charlie. “Então veio a noite em que Lauren morreu.” As palavras acertaram como um soco no peito. 

“Charlie, eu sinto muito—”

A mão dele subiu rápido, me cortando. O rosto se contorceu com algo além de luto — algo cru e primitivo. “Naquela noite, Lauren e eu conversamos. Conversamos de verdade. Estávamos cansados daquilo. A fazenda estava errada. Corrompida. Decidimos que íamos nos livrar daquelas ovelhas — na manhã seguinte, íamos carregá-las, levá-las para o meio do nada e deixar a natureza cuidar do resto.” 

A voz falhou. “Sei como isso soa. Sei. Mas Grant, você precisa entender — o horror daquele canto. Eu ainda ouço. Quando durmo. Quando estou acordado. Nunca para. É enlouquecedor.”

A expressão dele mudou do luto para algo muito pior — o olhar vazio de um homem à beira da loucura.

“Fomos dormir cedo aquela noite. Pensamos que amanhã tudo estaria bem. Estaríamos livres. Poderíamos ter nossa vida normal de volta.” Ele riu — um som quebrado, feio. “Mas não estávamos livres. Nunca íamos estar livres.”

A respiração de Charlie acelerou, o peito subindo e descendo rápido. “Acordei com aquele canto de novo. Mas dessa vez estava mais alto. Mais agressivo. Como se algo vasto e poderoso estivesse forçando a entrada no nosso mundo. E Lauren—” A voz quebrou. “Lauren não estava lá.”

Agarrei os braços da cadeira. “Coloquei as botas, peguei o rifle e corri para fora. Todas as ovelhas — todas elas — estavam dispostas em círculo. Não, não um círculo só. Três anéis. Escalados. Concêntricos. E no centro…”

Ele não conseguiu continuar. O corpo inteiro tremia. “Lauren estava lá. Parada junto do líder. O rosto dela — Deus, o rosto dela estava em branco. Vazio. Como se ela nem estivesse mais ali. Gritei o nome dela. Nada. Nenhuma resposta. Ela ficou lá como sonâmbula.”

Os punhos de Charlie se fecharam. “Eu tinha chegado ao limite. Levantei o rifle e mirei naquela coisa — naquele líder, naquele demônio que trouxe essa maldição para minha casa. Puxei o gatilho.”

As luzes fluorescentes zumbiram acima. “A bala acertou ele. Sei que acertou. Vi ele se encolher. Mas não tinha sangue. Não tinha grito de dor. Não tinha ferimento. Foi como se eu tivesse jogado uma pedrinha nele. Como se ele fosse feito de algo que nada neste mundo pudesse ferir.”

Charlie ergueu os olhos para mim e vi o inferno refletido neles. “Então Lauren se deitou no centro do círculo.” A voz mal era humana agora — um ronco torturado. “E eles começaram a pisoteá-la.”

Senti o estômago despencar. “Todos eles. Primeiro o líder, depois os outros se aproximaram. Pisotearam ela com a força de cavalos de tração. O sangue dela—” Ele engasgou. “O sangue dela espirrou no ar. Cobriu eles. E continuaram cantando. Continuaram dançando. Cada ovelha tinha que tocá-la. Tinha que ser ungida com o sangue dela, as entranhas dela, o—”

Ele não conseguiu terminar.

“Eu só fiquei olhando. Minha mente gritava para eu correr, para pará-los, para fazer alguma coisa. Mas meu corpo não se mexia. Eu não conseguia compreender o que estava vendo. Pareceu horas — assistir minha esposa ser pisoteada até a morte enquanto elas cantavam o hino delas.”

As lágrimas de Charlie caíam livremente agora, pingando na minha mesa. “Quando finalmente pararam, elas se dispuseram em semicírculo. O líder bem no centro. Ele olhou para cima — não para mim, mas para o céu — e começou a cantar de novo. As outras se juntaram. O som… fez minha cabeça rachar. Minha visão embaçou. Mas eu vi. Deus me ajude, eu vi.”

“Viu o quê?” sussurrei.

Os olhos de Charlie ficaram vazios, atravessando-me para algo que só ele conseguia enxergar. “No começo pensei que era uma nuvem. Uma massa escura descendo de cima. Mas nuvens não se movem assim. Não respiram assim. Era imensa — tão vasta que eu não conseguia ver onde terminava. Apenas essa forma preta infinita coberta de milhares de olhos. Não, não olhos. Aberturas. Todas fixadas para baixo. Todas observando.”

A voz dele caiu para um sussurro quase inaudível. 

“E vinha um som dela. Não eram palavras. Não era música. Era algo que existia antes da linguagem. Antes do pensamento. Um som que fazia meus ossos vibrarem, meus dentes doerem, meu coração pular batidas.”

Ele agarrou a borda da mesa até os nós dos dedos ficarem brancos.

“Mas não era só uma criatura, Grant. Era uma presença. Uma divindade. Eu sentia a atenção dela como peso, como gravidade, como a própria mão da criação pressionando sobre mim. Sobre Lauren. Sobre a terra ensopada de sangue. E naquele momento — naquele momento terrível e cristalino — eu entendi.”

Lágrimas escorriam pelo rosto dele.

“Entendi por que os povos antigos construíam altares. Por que arrastavam vítimas para montanhas e templos. Por que ofereciam seus filhos, seu gado, seus inimigos. Não era por amor. Não era por devoção.” A voz falhou. “Era por terror. Pela esperança desesperada e animal de que, se alimentassem o suficiente, se dessem o que ele queria, talvez passasse por cima deles. Talvez os deixasse em paz por mais uma estação. Mais um ano.”

Charlie me olhou com olhos que tinham visto demais.

“Nós chamamos de mitos — aqueles deuses antigos, aqueles deuses famintos. Achamos que evoluímos além deles, que os enterramos debaixo da ciência, da razão e do progresso. Mas eles nunca foram embora, Grant. Estiveram aqui o tempo todo. Esperando. E os animais — os animais nunca esqueceram. Estão adorando eles desde o começo. Desde antes de nós ficarmos de pé.”

A voz dele virou um ronco. “E naquela noite, vi minha esposa se tornar o sacramento deles.”

“Desmaiei, e quando acordei com o sol nascendo… todas as ovelhas tinham sumido. Todas. A única coisa que restou foi…” Ele não conseguiu dizer. “O corpo da Lauren.”

Charlie começou a desabotoar a camisa com dedos trêmulos. Abriu o tecido e revelou o peito. Ali, queimado na pele, estava um símbolo. Um círculo perfeito cercado por runas intricadas — caracteres que pareciam antigos, alienígenas e errados.

“Encontrei isso na manhã seguinte.” Ele tocou o símbolo, fazendo uma careta como se ainda queimasse. “Não estava aí antes. Eu não fiz. Não me marquei. Acordei e estava em mim. Parte de mim.”

A voz dele ficou mais baixa, mais distante. “No começo pensei que podia conviver com isso. Pensei que podia enterrar a Lauren, vender a fazenda, me mudar e esquecer. Mas os sonhos começaram naquela mesma noite.”

Os olhos de Charlie vidraram, vendo algo que eu não via.

“Eu o vejo. O líder. Toda vez que fecho os olhos, ele está lá. Parado em campos que se estendem para sempre. E ele não está mais sozinho, Grant. Agora são milhares. Rebanhos sobre rebanhos, todos em posição de sentido, todos me observando. Todos esperando.”

As mãos começaram a tremer. “E atrás deles — atrás de todos eles — eu vejo. Aquela massa preta. Aquela coisa que eles adoram. Mas nos meus sonhos eu consigo ver com clareza. Consigo ver a forma, o propósito. E é muito pior do que o que vi naquela noite. Muito maior.”

A respiração de Charlie acelerou, ficando curta e rápida. “O símbolo queima quando sonho. Queima como fogo, como ácido. E ouço vozes — não palavras, mas significados empurrados diretamente na minha mente. Estão me ensinando coisas. Me mostrando coisas. Os rituais. Os hinos. A fome.”

Ele ergueu os olhos para mim e vi que algo tinha mudado neles. Algo tinha se quebrado.

“Tentei cortar fora, Grant. Peguei uma faca e enfiei no meu próprio peito. Mas a lâmina não entrava fundo o suficiente. Não cortava. É como se o símbolo se protegesse. Como se quisesse ficar em mim.”

A voz subiu de tom, rachando. “Voltei à fazenda recentemente. Não sei por quê. Algo me puxou de volta. E eu as encontrei, Grant. Encontrei as ovelhas. Não as minhas — outras. Rebanho novo, dono novo. Mas elas já estavam lá. Já se reunindo em círculos. Já aprendendo as canções.”

Charlie agarrou meu pulso, a força dolorosamente apertada. “Está se espalhando. Não termina com um rebanho só. Se move, infecta, ensina. E toda noite que sonho, vejo mais fazendas. Mais campos. Mais rebanhos em posição de sentido, prontos para chamar o deus deles.”

Suor brotava na testa dele. As pupilas dilatadas, desfocadas. “Ontem à noite — ontem à noite sonhei que era um deles. Estava no círculo, cabeça baixa, e eu conseguia sentir, Grant. Conseguia sentir o êxtase da adoração. A alegria da rendição. E uma parte de mim — Deus me perdoe, uma parte de mim queria ficar lá. Queria me curvar e cantar aquele hino para sempre.”

A voz subiu, o pânico vazando. “Estou me perdendo. Pedaço por pedaço, estou virando outra coisa. Algo que entende elas. Que simpatiza com elas. O símbolo está me mudando, reescrevendo de dentro para fora.”

Charlie se levantou de repente, a cadeira caindo para trás com estrondo. Andou de um lado para o outro como animal enjaulado. “Eu consigo ouvir agora. Mesmo acordado. Aquele zumbido. Está na minha cabeça, nos meus ossos, em cada batida do coração. Não para. Não para.”

Ele arranhou as orelhas, o peito, deixando marcas vermelhas. “Tentei rezar. Fui a três igrejas diferentes. Mas toda vez que me ajoelho, toda vez que tento dizer as palavras, sinto ele observando. Rindo. Minhas orações viram cinza na minha boca porque eu sei — eu sei — que tem algo mais antigo escutando. Algo que não liga para misericórdia, salvação ou redenção.”

A voz rachou num misto de riso e soluço. “Não durmo mais. Não consigo dormir. Porque toda vez que fecho os olhos, estou de volta naquele campo. De volta naquele círculo. E Lauren está lá, Grant. Ela está lá, mas não está morta. Está de pé com elas. De pé e cantando. E ela parece feliz.”

Charlie girou para me encarar, lágrimas escorrendo pelo rosto. “Ela está no céu, Grant? Ou está com eles agora? A alma dela está presa na barriga daquela coisa, cantando hinos pela eternidade? Me diga! ME DIGA!”

Ele bateu os dois punhos na mesa, fazendo as xícaras voarem. “Não consigo fazer parar! A queimação, os sonhos, o saber! Está me ensinando a língua deles, os rituais deles, o propósito deles! E a pior parte — a pior parte de tudo — é que está começando a fazer sentido!”

A voz subiu num lamento desesperado. “Grant, eu entendo elas agora! Entendo por que adoram! Entendo o que estão construindo! Todo rebanho é uma congregação, toda fazenda é um templo, e todos estão trabalhando juntos para trazer algo através! Algo vasto, faminto e paciente!”

Charlie agarrou meus ombros, me sacudindo. “Não são só ovelhas, Grant! E se forem todos eles? E se todo animal — todo pássaro, todo inseto, toda criatura que a gente considera sem mente — e se todos estiverem adorando? E se estivermos cercados por igrejinhas minúsculas, por milhões de altares que não conseguimos ver, todos chamando deuses que a gente nem sabia que existiam?”

O aperto ficou doloroso. “E se formos os próximos? E se o símbolo me marca como o primeiro? E se eu tiver que ensinar os outros? E se esse for meu propósito agora — espalhar isso para as pessoas?”

Tentei me soltar, mas a força dele era maníaca, desumana. “Eu não vou fazer! NÃO VOU! Prefiro morrer a virar profeta deles! Prefiro—”

Ele parou de repente. Os olhos se arregalaram, as pupilas dilatando até ficarem quase inteiramente pretas. “Meu Deus. Meu Deus, está aqui. Está na sala com a gente.”

“Charlie, não tem nada—”

“VOCÊ NÃO ESTÁ VENDO?!” ele gritou, apontando para o canto vazio do escritório. “Está bem ali! Todos aqueles olhos! Todas aquelas bocas! Está nos observando esse tempo todo! Está escutando!”

Ele me soltou e cambaleou para trás, arranhando o símbolo no peito. “Não vai me deixar ir! Não vai me deixar morrer! Sou a testemunha dele! Seu PROFETA! E ele quer que eu espalhe a palavra! Quer que eu ensine os outros a ver! A ouvir! A ADORAR!”

Charlie caiu de joelhos, gritando — um som de angústia e terror puro que parecia vir de um lugar mais fundo que os pulmões. Era o som de uma alma sendo despedaçada.

“GRANT, ME AJUDA! ME AJUDA! CORTA FORA! ABRE MEU PEITO E ARRANCA ANTES QUE ELE LEVE TUDO! ANTES QUE EU VIRE—”

O corpo convulsionou. Sangue começou a escorrer do nariz. Corri para o telefone, as mãos tremendo tanto que mal conseguia discar. “911, preciso de ajuda! Meu escritório na universidade — alguém está tendo uma emergência médica—”

Os paramédicos chegaram em minutos, mas Charlie já estava quase inconsciente. Ele se debatia fracamente enquanto o colocavam na maca, os lábios se movendo sem som.

Quando passaram por mim, me inclinei e ouvi ele sussurrar: “Já é tarde demais. A marca está se espalhando. Você me tocou. Você escutou. Agora você também vai sonhar.”

Então os olhos reviraram e ele ficou imóvel.

A polícia tomou meu depoimento. O detetive Morrison chegou logo depois que os paramédicos saíram, fazendo perguntas detalhadas sobre o estado mental de Charlie e as circunstâncias da morte recente da esposa. Falei do luto, do colapso mental evidente. Não mencionei as ovelhas, os rituais ou o símbolo. Quem acreditaria?

Naquela tarde, Morrison ligou de novo.

“Dr. Grant? É sobre Charlie Vaughan. Lamento informar que ele faleceu no County General há cerca de uma hora.”

Meu sangue gelou. “O que aconteceu?”

“Um aneurisma cerebral maciço. Os médicos disseram que foi como se algo tivesse explodido dentro do cérebro dele. Vários vasos, todos de uma vez. Nunca tinham visto nada igual.” Uma pausa. 

“Tem mais uma coisa. Algo estranho.”

“O quê?” perguntei, em choque.

“Quando estavam preparando o corpo… encontraram queimaduras. Queimaduras recentes por todo o tronco, braços, pernas. Símbolos, Dr. Grant. Dezenas deles. Como se alguém o tivesse marcado repetidamente. Mas não há sinal de trauma externo. É como se tivessem queimado de dentro para fora.”

O telefone quase caiu da minha mão. “O legista quer classificar como inexplicado. Mas entre nós?” A voz de Morrison baixou. “Sou policial há vinte anos. Já vi overdoses, surtos psicóticos, todo tipo de colapso mental. Mas a expressão no rosto daquele homem quando morreu…”

“O que tinha?” 

“Ele não estava mais com medo, Dr. Grant. Parecia aliviado. Como se morrer fosse a única maneira de escapar de algo pior.”

Meses se passaram. A história de Charlie me assombrava. Não deveria — era loucura, delírio induzido por trauma. Ovelhas não têm religião. Não fazem rituais. Não invocam deuses. Mas eu não conseguia esquecer o símbolo queimado no peito dele. O terror nos olhos. O jeito que gritou.

Acabei me mudando para o Texas. Emprego novo. Começo novo. Tentei enterrar o que Charlie me contou debaixo de trabalho e rotina.

Então recebi uma ligação de um criador de gado perto de Austin. Disse que precisava de ajuda com o rebanho. Problemas de comportamento.

“Que tipo de problemas?” perguntei.

Houve uma longa pausa do outro lado da linha. “Bem, diabos, doutor — o senhor vai achar que estou louco. Mas minhas ovelhas… elas estão cantando e dançando à noite.”

O telefone quase escorregou da minha mão. “O que o senhor disse?”

“Sei como soa, mas juro — elas se reúnem em círculos e fazem esse som. Como um hino ou algo assim. E se movem em padrões. Como se estivessem realizando algum tipo de…” Ele hesitou. 

“Algum tipo de cerimônia.”

Fechei os olhos e vi o rosto de Charlie. Ouvi os gritos dele. “Estarei aí amanhã,” eu disse.

Desliguei o telefone e fiquei sentado no silêncio do meu escritório por muito tempo.

Sou cientista. Passei a carreira inteira explicando o comportamento animal por meio da biologia, da evolução, da razão. Neurotransmissores e instinto. Estímulo e resposta. Tudo tem explicação racional. Tudo obedece a leis observáveis.

Mas e se estivermos errados? E se a fé não for apenas uma invenção humana — alguma vantagem evolutiva que nos ajudou a cooperar, que nos deu conforto diante da morte? E se os animais sempre souberam algo que nós esquecemos? Algo que passamos séculos tentando enterrar debaixo da lógica, do empirismo e da crença desesperada de que estamos sozinhos neste universo?

E se existirem poderes neste mundo que exigem adoração? Que exigem sacrifício?

Abri o laptop e puxei o último e-mail de Charlie. Li aquelas palavras de novo: Você acha que os animais acreditam nos seus próprios deuses?

Minhas mãos tremiam. Porque se ovelhas podem ter deuses — deuses reais o suficiente para responder às orações delas, deuses famintos o suficiente para se manifestar no nosso mundo — então o que mais existe por aí? Que outras criaturas estão se ajoelhando diante de altares que não conseguimos ver? Que outros rituais estão sendo realizados nos cantos escuros do mundo enquanto dormimos em nossas camas, acreditando que somos os únicos com alma?

E a pergunta que mais me aterrorizava, a que me manteve acordado pelo resto daquela noite: O que esses deuses querem conosco?

No dia seguinte arrumei meu equipamento. Carreguei a caminhonete com câmeras e gravadores. Disse a mim mesmo que ia documentar tudo, encontrar a explicação racional, provar que Charlie tinha apenas testemunhado alguma anomalia comportamental bizarra.

Mas enquanto dirigia pela rodovia em direção àquela fazenda perto de Austin, senti aquilo — o mesmo peso que Charlie descrevera. A pressão para baixo. Como se o próprio ar soubesse algo que eu não sabia.

Como se algo vasto e terrível estivesse observando. 

Esperando.

E entendi, com a certeza fria de um homem caminhando para a própria danação, que eu não ia encontrar respostas no Texas.

Eu ia encontrar a mesma coisa que Charlie encontrou.

A mesma coisa que esteve lá o tempo todo, logo além da borda da nossa compreensão.

Deuses famintos.

E eles estavam esperando por uma testemunha nova.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Eu Morri Hoje

Eu morri hoje. Não foi uma morte que eu estivesse esperando. Não foi por causa de velhice ou fraqueza. Nem mesmo por uma doença comum.

Meu coração simplesmente parou.

Não houve nenhum aviso, nem uma explicação quando acordei. Eles teorizaram um infarto comum, coágulos sanguíneos, algum defeito genético que me deu um produto com falha; mas nada. Eles não entendem como a fonte da minha vida pôde parar de bombear sem motivo algum, e duvido que algum dia entendam.

Estava batendo, e então meu relógio parou. Foi como se alguma entidade em algum lugar decidisse que era a minha hora de morrer, e então estalou os dedos para me puxar mais perto do seu alcance.

É difícil descrever a morte. Suponho que eu já não esteja mais qualificado para falar sobre o assunto. Tenho certeza de que vocês já perceberam, pelo jeito como estou falando — eu estou vivo. Pelo menos, no sentido técnico. O que quer que tenha me arrastado até a porta da morte pode não ter me levado para o outro lado, mas agora eu me encontro batendo naquela porta. Seu corredor escuro me seduzindo a descobrir o que ele esconde.

Num momento eu estava sentado com meus amigos, cerveja na mão, rindo das mensagens bêbadas que o Elliot tinha mandado para a ex dele. No momento seguinte, tudo desapareceu.

Eu poderia jurar que só pisquei por um segundo. Eu poderia jurar que ainda estava no sofá do Jackson. Eu poderia jurar que ainda estava vivo.

Todo mundo tem suas crenças sobre a vida após a morte. Eu sempre encontrei conforto na ideia desse suposto lugar bom para onde as pessoas vão, onde ficam felizes por toda a eternidade. Para sempre protegidas dos erros e dos arrependimentos que a mortalidade traz.

Mas é difícil imaginar. Não só a eternidade, mas o que seria “bom”. O que me faria feliz por tanto tempo? Alguém como eu merece uma coisa dessas?

Essa vida frágil que eu vivi me trouxe muitas dúvidas e medos. Então, é difícil dizer se eu realmente a aproveitei. Ela simplesmente sempre existiu. Eu queria que ela sempre existisse. Só que diferente. Sem mais vícios e tristezas, talvez com um pouco mais de cerveja e companhia. Eu não queria ficar sozinho, mas o preço de ter gente ao redor é o julgamento.

Será que pode existir mesmo um lugar onde eu fosse livre?

Se minha vida tivesse passado diante dos meus olhos, eu teria suspeitado que estava morto. Em vez disso, foi a sensação esmagadora de solidão que me alertou. Tudo parecia vazio, oco, sem propósito. Era só eu, eu mesmo e mais eu. Talvez o silêncio insuportável fosse o preço que eu pagava pela liberdade.

Não consigo descrever imagens, porque eu não conseguia ver. Quando você não tem olhos, não é possível. Não havia cheiros. Não havia sons. Nada para tocar. Eu simplesmente existia. E eu sentia tudo, e ao mesmo tempo nada.

Havia árvores me cercando ao redor de um pequeno lago. Bem, não eram árvores de verdade. O mundo físico não existia mais, então elas também não. Apenas a vaga concepção de árvores preenchia minha consciência. Eu montava o que uma árvore poderia ser, como ela poderia parecer, o que as tornava desconexas e fragmentadas.

Mesmo assim, ainda eram árvores. Pelo menos para mim. A natureza abstrata delas não impedia minha mente de aceitar isso.

A água era parecida, sua incapacidade de refletir a tornava transparente. Eu conseguia ver a terra embaixo, junto com pequenas criaturas indefinidas se movendo entre a poeira e os detritos. O lago não se movia como água. Eu não conseguia tocá-lo nem ouvir suas ondulações. Mas eu sabia o que era. Eu entendia.

Ele não capturava luz nenhuma, uma chapa sólida de azul. Apesar disso, aquela substância translúcida capturou uma imagem quando me aproximei mais. Eu mesmo. Meu verdadeiro eu. Minha alma.

Covarde demais, eu não queria ver. Então recuei para ficar fora do alcance da visão dela.

A cena teria sido linda no nosso mundo. O sol estava se pondo num rosa vibrante, eu não sentia a grama entre os dedos dos pés, mas sabia que era macia. Sentia uma brisa que não era fria nem quente. Ela não agitava minhas roupas porque eu não tinha nenhuma, então eu não sabia quão forte era. Não ouvia os cantos dos pássaros, mas sentia meu corpo relaxar.

Aquilo me lembrava o parque perto da minha casa. Quando eu ouvia aquelas melodias apaixonadas saindo das árvores, os nós nos meus ombros sempre se desfaziam. Eu conseguia me concentrar no que a mãe natureza oferecia, em vez das cartas ruins que eu mesmo tinha distribuído na vida.

O parque… será que eu estou no parque agora?

Era como se tudo se transformasse para se encaixar na minha memória, mas ao mesmo tempo nada mudava. As árvores ficaram mais familiares de alguma forma, não eram mais apenas “uma árvore”, mas sim “aquela árvore”. Eu me peguei pensando se iria esbarrar no velho jardineiro, o Sr. Adams.

Ele sempre me dava as flores que arrancava sem querer. Cuidava delas como se as plantas tivessem sido criadas especialmente para ele, ansioso para compartilhá-las com quem quisesse ouvir. A esposa dele, Evelyn, também estava quase sempre ao lado, grudada nele. Boa com as mãos, ela frequentemente fazia bolos e doces com as frutas que o Sr. Adams cultivava. Será que ela também está por aí?

Espera… eu estou no parque! Eu não estou usando nada, alguém vai me ver!

Não só eu era incapaz de olhar para baixo, como não havia nada para ver. Não havia só ausência de roupas, meu corpo inteiro era apenas uma lembrança. Uma lembrança nebulosa, distante.

Tente estender a mão à sua frente. Veja como sua mão entra no campo de visão. Agora imagine se você estendesse a mão e não houvesse nada lá. Como se você desse comandos ao seu corpo, e ele obedecesse, mas você nunca visse o resultado. Não há como confirmar que está fazendo o que deseja, mas de alguma forma você sabe.

Era assim que qualquer ação minha acontecia. Nem mesmo uma ilusão de corpo físico se formava à minha frente. Era como se eu estivesse movendo um boneco de marionete, mas feito só de fios, sem o personagem de madeira.

Sem saber o que mais fazer, eu me vi vagando. Eu não me movia de verdade, porque não havia para onde ir. Eu entendia o que era andar, e isso parecia ser suficiente. A paisagem mudava vagamente ao meu redor, adaptando minhas memórias a novos lugares.

Será que toda experiência agora vai ser só isso? Minhas memórias? Será que eu nunca mais vou ter uma experiência única, só uma mistura de ideias frouxamente conectadas?

Quanto mais perguntas eu tinha, mais confortável eu ficava com a falta de respostas. Eu sentia algo me chamando, me dizendo para confiar nessa nova existência. Vai ficar tudo bem. Era o que repetia, e eu estava mais do que disposto a aceitar essas palavras.

Você não percebe o quanto de som produz até não ouvir absolutamente nada. A batida do seu coração. O estalo das folhas secas sob os pés. O farfalhar do tecido que você veste todo dia para se aquecer.

Parece tão idiota agora. Eu estava preocupado com o que vestir para uma entrevista amanhã. Foi só ontem, mas percebo o quão trivial era. A roupa nas minhas costas não significava nada na escala grandiosa do tempo.

Tempo. O que é tempo? Já passou algum tempo? Eu estou andando há um tempo. Será? O que foi ontem? Existe um amanhã? Ah, sim, não são só as roupas. Eu não vou conseguir aquele emprego, porque não vai haver entrevista amanhã. Porque não existe amanhã.

A paisagem ao meu redor parecia se desenrolar infinitamente. Com isso quero dizer que não havia horizonte. Não havia fim. Não era só que eu não conseguia ver a terra se estendendo à frente, é que ela continuava para sempre. Não existia mundo, só o tudo que consome tudo.

Havia uma única coisa que eu conseguia ver. Um portão dourado. Estava cercado por arbustos cujos galhos tinham crescido demais, engolindo-o num mar de verde. Um brilho dourado ainda atravessava as frestas. Seria ofuscante se houvesse algo para ofuscar.

Eu não conseguia dizer se era mais um fragmento da minha imaginação. Outra visão estranha que minha mente inventou. Isso não impedia a atração que ele exercia sobre mim, sua luz quente me convidando a me aproximar.

Quanto menor a distância entre nós, mais as trepadeiras se soltavam das barras. Algum tipo de ilusão de ótica também ficou compreensível: o caminho de pedra à frente se transformou em escadas que subiam para o céu. À medida que elas se erguiam, o portão também subia.

Conforme mais detalhes metálicos eram revelados, eu vi algo me olhando de volta. Havia olhos. Muitos olhos. Muitos, muitos olhos. Olhos convidativos. Olhos excitados. Olhos ansiosos. Mas também olhos julgadores.

Eu conseguia ouvir gritos fracos e distantes. Não vinham do portão, mas das minhas memórias. Eu sei que aqueles olhos também os ouviam, conseguiam ver de onde vinham. Se conheciam os gritos, deviam conhecer também os pneus cantando, os soluços de uma mãe e a respiração pesada de um homem à beira da lucidez.

Por favor, por favor, não me façam lembrar. Eu não suporto olhar nos olhos de vocês sabendo por que julgam minha alma. Vocês não podem saber, por que precisam saber? Eu sei? Por que não consigo lembrar? Eu não consigo lembrar os detalhes, a memória me escapa, mas sei que o que quer que eles soubessem de mim, eu não queria que soubessem.

Fui tomado por vergonha. Uma vergonha que eu não entendia. Eu não sabia do que estava sendo julgado, mas estava intimidado demais para enfrentar.

Eu sabia que os olhos queriam que eu me juntasse a eles. Eu via as promessas deles: tratados de paz, vilas para descanso. Havia um lugar esperando por mim, um lugar que eu sempre desejei, bastava entrar. A única ressalva é que eles sabiam de tudo. Sabiam de mim. Sabiam de tudo. O julgamento deles podia ser justo, mas mesmo assim parecia errado.

Foi então que ouvi algo pela primeira vez. Um corvo.

Nas árvores ao meu redor, um bando de corvos havia parado para pousar. Seus olhos não traziam julgamento, eu não sentia culpa. Havia algo atrás daqueles olhos. Curiosidade. Um plano. Um convite.

Um deles pulou do galho e voou passando por mim. Eu ouvia o bater das asas, via seu corpo, sentia o cheiro da última refeição dele. A atração familiar era muito mais forte que a luz do portão. Então eu o segui.

O pássaro voou. Voou e voou e voou. O tempo não estava parado, mas também não marchava. Ele simplesmente existia. Então o corvo não avançava de verdade. O horizonte não mudava. Meu entorno continuava sendo o mesmo parque.

Senti que tinha cometido um erro. O portão era a escolha certa, o que quer que estivesse do outro lado valia o julgamento.

Mas o corvo. Aquele corvo lindo. Ele não julgava. O portão podia me querer, mas eu sabia que o corvo precisava de mim. A alegria que eu sentia naquela jornada infinita compensava qualquer luxo que houvesse além daquelas escadas.

Algo novo começou a crescer maior na distância. Destacava-se em comparação com meu entorno infinito.

Era vazio. Era escuro. Era frio. Como se fosse um buraco negro travado numa batalha perdida para consumir o fio infinito do tempo.

O tempo podia resistir diante dele, mas eu não. Eu precisava me virar. Não sabia o que havia à frente, mas sabia que era errado. Muito errado. Não era vergonha nem culpa. Era simplesmente algo errado.

Mas aquele pássaro lindo. Ele circulava acima de mim, esperando que eu continuasse com ele. Talvez eu fosse um idiota por seguir, mas eu tinha ficado nu diante do portão antes, e esse corvo me fez perceber que eu precisava de roupa. Precisava me esconder.

Com um destino à vista, meus passos ficaram mais evidentes. Cada um trazia o vazio mais perto. O parque começou a desaparecer ao meu redor, e no lugar surgiu uma luz brilhante, que consumia tudo.

Eu sentia o aperto da morte em mim, frio e indiferente. Ele me puxava para frente, mas a cada puxão em direção ao meu destino, eu sentia uma mão quente se estender por trás. Implorando para eu voltar. Me avisando.

Eu conhecia os olhos daquela mão. Não suportava encará-los.

As mãos que me arrastavam para frente agora estavam visíveis. Uma mistura de pele enegrecida e penas. Aquele aperto sufocava minha alma como se quisessem espremer ela para fora de mim. Um pedacinho de mim se perdia a cada vez, sendo substituído por vozes. Um homem, uma mulher, uma criança. Uma mãe, um pai, um filho. Um pregador, um herege, uma bruxa.

Eu não estava mais sozinho.

Havia uma figura na escuridão. Envolta em penas e ossos. Seu rosto não era visível, mas um senso de pavor me dizia que eu não queria vê-lo.

Ela estendeu a mão. A escuridão engoliu a luz, vencendo sua batalha contra o infinito. As vozes aumentaram em número e volume. Meus pensamentos ficaram bagunçados. Nebulosos. Encolhendo.

Eu não conseguia rir. Não conseguia chorar. Não conseguia gritar. Mas como eu queria.

As muitas mãos agora me envolviam, marcando onde meu corpo estaria. A figura, agora mais nítida, tinha um cajado e calos ensanguentados. Sua mão estendida roçava onde minha bochecha estaria. Acariciando meu rosto. Acariciando meu ego.

Eu deveria estar com medo. Deveria estar arrependido de ter dito não ao portão. Mas agora eu não estava sozinho. Agora eu podia ver tudo o que precisava. Agora os olhos não podiam me ver.

Eu não seria julgado. Eu estava com todo mundo. Essa mente coletiva infinita, essa escuridão infinita, esse toque infinito seria meu novo lar.

Eu estava em casa.

A figura me segurou num abraço quente. Não disse nada, mas eu sabia que estava sendo bem-vindo. Ela queria que eu estivesse ali. Eu sabia que queria.

Porque não me soltava.

Sua capa rasgou e se rasgou enquanto seus ombros cresciam. As penas que adornavam sua pele viraram escamas, sua mão virou garras. Seu corpo convulsionava e estalava a cada novo membro que saía de dentro dele.

Seu rosto de bico se esticou numa mandíbula. Parecia a de uma serpente, mas algo mais. Mais bruto. Mais poderoso. Mais mortal.

Ele se erguia acima de mim, ainda me segurando no lugar enquanto as mãos que envolviam meu novo corpo começaram a bater palmas. Suas vozes abafaram a minha. Estavam em todos os lugares, e em nenhum. Cada grito e risada se tornava meu, devorando minha consciência, destruindo minhas memórias.

Como eu estou? Onde eu estou? Quem é você? Quem sou eu? Quem somos nós? Nós? Nós. Nós. Quem somos nós?

Perguntas que nunca poderíamos responder. A serpente pairava sobre nós, estendendo suas garras em direção ao nosso rosto. Se houvesse luz, sua sombra teria nos coberto, mas sombras eram tudo o que existia naquele lugar.

Com duas garras, ela abriu à força onde nossa mandíbula estaria, agora apenas uma série de mãos de cera derretendo e unhas ensanguentadas. As penas das muitas mãos agora alojadas na nossa garganta nos sufocando.

A figura enfiou a cabeça dentro da nossa boca aberta. Ela se virou e se ajustou para caber, rastejando pela nossa traqueia. Tentava se acomodar, garantindo que nossas entranhas fossem adequadas para sua forma irregular. Quanto mais entrava, mais membros tentava enfiar ao mesmo tempo.

Mas uma mão sempre permanecia do lado de fora, acariciando nossa cabeça, enxugando nossas lágrimas.

Nós sentíamos ele consumindo tudo o que éramos. Nos tornando melhores. Nos tornando puros. Nos esticando para o infinito.

Nós sentíamos. Sem entrevistas de novo. Sem nudez de novo. Sem solidão de novo. Sem julgamento de novo. Esse é o nosso lugar bom. Um lugar com todo mundo e sem julgamento. Infinito. Nós somos infinitos, seremos infinitos. Nós somos infinitos.

Infinito.

NÓS SOMOS INFINITOS.

NÓS SOMOS INFINITOS. NÓS SOMOS INFINITOS. NÓS SOMOS INFINITOS. NÓS SOMOS INFINITOS. NÓS SOMOS INFINITOS. NÓS SOMOS INFINITOS. NÓS SOMOS INFINITOS. NÓS SOMOS INFINITOS. NÓS SOMOS INFINITOS. NÓS SOMOS INFINITOS

Espera, mas eu nem sempre estive sozinho, né?

Eu acordei.

Meus olhos se abriram devagar, trazendo um quarto de hospital para a visão. Eu ouvia bipes, alguns suspiros aliviados. Enfermeiras conversando do lado do quarto. O zumbido das saídas de ar. Sentia a firmeza do colchão. As dores no peito.

Eu estava vivo.

Havia um médico em cima de mim, limpando o suor. Alguns outros funcionários batiam nas costas dele enquanto ele dava ordens cansadas sobre o que fazer em seguida.

Mais tarde descobri que eles tinham passado 18 horas tentando me manter vivo. Às vezes conseguiam fazer meu coração voltar, só para ele desistir de novo.

O médico exausto que eu vi limpando uma cachoeira da testa tinha feito massagem cardíaca intermitente desde o momento em que entrei no hospital. Enquanto os outros corriam atrás de desfibriladores e de uma explicação para meu infarto repentino.

Aparentemente, a maioria dos métodos deles fez muito pouco. A única coisa que me manteve vivo foram as mãos no meu peito. Mas dessa vez eu acordei. Agora meu corpo voltou ao funcionamento normal.

Quando descrevi o que vivi do outro lado, me disseram que é bem comum ter esse tipo de visão. Aparentemente eu passei por algo chamado “onda da morte”, algum negócio esquisito de neurônios morrendo que faz as pessoas sentirem que estão experimentando o infinito antes de morrer. Alguns veem a vida passar diante dos olhos, outros descrevem eventos cósmicos e coisas assim.

As explicações deles não me trazem conforto. A tentativa de explicar tudo. Não sei como ou por que minha mente inventaria um horror tão específico. Podia ser minha imaginação me preparando para a morte, mas não parecia assim. De jeito nenhum.

Mais importante: eu tinha sido prometido o infinito. Me senti traído.

Eles lutaram pela minha vida durante 18 horas. Apenas 18 horas. Pareceu muito mais longo, e ao mesmo tempo muito mais curto. Horas para experimentar o infinito. Eu não consigo aceitar. Não vou aceitar.

Meus pais nunca me visitaram no meu caixão que a equipe chamou de quarto de hospital. O álcool me causou vários problemas ao longo dos anos, incluindo tempo de cadeia. A última vez que falei com eles eu estava a 290 km/h numa zona escolar. Estava tão bêbado que não vi as crianças descendo do ônibus escolar.

Isso dificulta arrumar emprego. Dificulta fazer qualquer coisa, na verdade. Isso deixa meus pais mais infelizes do que qualquer outra coisa. O fato de eu não ter feito nada desde então.

Eles provavelmente presumiram que eu fiz isso comigo mesmo e não fizeram mais perguntas. Acho que não posso culpá-los.

É muito mais fácil quando as pessoas não te conhecem. Como aquele jardineiro. O Sr. Adams sempre foi tão gentil. É difícil julgar alguém que você não conhece. Eu sempre gostei de vê-lo e de pegar os doces gostosos da esposa dele. Sinto falta deles.

Enquanto meus pais evitavam o filho fracassado deles, meus amigos apareceram assim que o horário de visitas começou. Trouxeram rosas para me fazer rir, o Jackson até se ajoelhou e começou um pedido de casamento falso. Foi bom rir de novo, mas agora parece tão diferente. Mesmo assim, fiquei feliz em vê-los.

Antes de irem embora, prometeram me contrabandear umas coisas boas quando as enfermeiras não estivessem olhando. Isso me trouxe conforto, saber que mesmo me conhecendo, eles não me julgavam.

Agora estou sentado no quarto, os bipes e zumbidos ainda enchendo meus ouvidos.

As rosas estão na mesinha de cabeceira. Algumas pétalas já estão começando a murchar e cair. A janela foi deixada aberta, a brisa deve estar matando elas.

É estranho. Eu nunca ouvi a voz daquela figura, mas agora consigo ouvi-la. Nos cantos escuros do quarto eu a escuto chamando meu nome. Me tentando. Eu sei que o infinito me espera.

Não sei se isso vai ajudar as pessoas a entenderem meu estado mental neste momento. Não sei se explica minhas ações. Mas eu precisava colocar minha história para fora. Para as pessoas saberem da escolha que as espera. Para as pessoas entenderem o que eu estou prestes a fazer.

Para os caras, eu sinto muito. Mas tem um corvo do lado de fora da minha janela, e ele quer que eu o siga.

Encontrei um homem estranho na mata e descobri que era eu mesmo vindo do futuro

A memória de infância do monstro nos bosques se tornou o projeto da minha própria destruição.

O sol era uma brasa moribunda por trás da silhueta recortada dos pinheiros quando o vi pela primeira vez. Eu tinha dez anos, apertava contra o peito meu cavaleiro de madeira — aquele que meu pai tinha entalhado em carvalho — e estava completamente perdido no Bosque Blackwood. O ar estava denso com o cheiro de agulhas de pinheiro úmidas e algo mais, algo metálico e cortante que arranhava o fundo da minha garganta.

Entrei em uma pequena clareira onde uma fogueira lutava para não apagar, sufocada por madeira verde e folhas molhadas. Sentado ao lado dela estava um homem. Pelo menos, acho que era um homem. Ele estava coberto por um casaco feito do que pareciam várias peles diferentes, costuradas com arame enferrujado. Seu cabelo era uma juba emaranhada, acinzentada, que chegava aos ombros, cheia de gravetos e lama seca.

“Você está bem longe das luzes da varanda, Leo”, o homem disse com voz rouca. Sua voz parecia duas pedras se esfregando no fundo de um poço profundo.

Eu congelei. Não corri, porque, apesar da sujeira e do fedor de cobre velho, os olhos dele estavam cheios de uma tristeza tão profunda que fazia meu próprio medo parecer pequeno. Naquela noite ele me contou coisas — sobre uma fome que começa no coração, sobre como a mata nunca mais te solta depois que ela te reconhece. Ele plantou em mim uma determinação estranha e sombria. Prometi a mim mesmo que nunca seria como ele. Eu seria um herói. Seria a luz que empurrava a sombra para trás.

Aquele encontro foi a faísca que definiu minha vida. Passei os vinte anos seguintes tentando fugir daquela memória, só para descobrir que cada passo que eu dava me levava de volta exatamente para a clareira que eu queria evitar.

A transformação começou no meu trigésimo aniversário. Começou como uma coceira fantasma embaixo das costelas, uma sensação de algo frio e enrolado se desenrolando dentro do meu peito.

No início, pensei que fosse o estresse do meu trabalho como advogado ambiental, tentando proteger exatamente as florestas que assombravam meus sonhos. Mas depois começaram os “apagões”. Eu acordava no meu apartamento com terra debaixo das unhas e gosto de terra crua na boca. Comecei a perceber uma mudança na luz; o sol parecia brilhante demais, artificial demais. Só as sombras profundas e sufocantes do Bosque Blackwood pareciam verdadeiras.

Voltei para a mata em busca de respostas. Dizia a mim mesmo que era por “encerramento”, para provar que o monstro da minha infância era só um homem. Mas a lenda de Blackwood é mais antiga que a cidade. Os moradores falam do “Vaso” — um papel que a floresta exige. A mata não é só árvores e solo; é uma consciência viva e faminta que precisa de uma testemunha para sua podridão. Ela escolhe uma alma, esvazia-a e a enche com o “Enxerto”.

O Enxerto é um processo lento e agonizante. Eu assistia, paralisado de horror, enquanto meu corpo me traía. Não era só crescimento de pelos ou dentes afiados. Era uma mudança de arquitetura. Minha pele começou a ganhar textura de couro molhado, escurecendo para um roxo de hematoma. Minhas juntas não apenas se dobravam; elas se rearranjavam com o som de madeira se partindo.

Lembro do dia em que meus olhos “humanos” falharam. O mundo virou um tapete de calor e vibração. Eu conseguia ouvir o batimento cardíaco de um cervo a três quilômetros de distância, e o som fazia meu estômago se contrair com uma gravidade localizada e excruciante. Era a Fome. Não era desejo por comida; era desejo de consumir a essência da vida para preencher o vazio onde minha identidade costumava estar.

Quanto mais eu lutava, mais a floresta me castigava. Se eu tentava caminhar em direção à estrada, as árvores se inclinavam fisicamente, seus galhos tecendo uma parede de espinhos. O tempo virou algo fluido e traiçoeiro. Eu podia ficar sentado perto de um toco por minutos, só para descobrir depois que as estações tinham mudado e o musgo já tinha crescido por cima das minhas botas.

Perdi meu nome. Perdi meu rosto. Tornei-me uma coleção de cicatrizes e instintos. Passei anos — décadas, talvez — costurando um casaco com as coisas que eu tinha matado, uma tentativa grotesca de me sentir “vestido” outra vez. Usei arame enferrujado que encontrei em um acampamento madeireiro abandonado, o metal mordendo meus dedos até sangrarem preto.

Tornei-me o mito sobre o qual me avisaram. Eu era a sombra que os caçadores viam e se recusavam a relatar. Eu era o “cheiro de cobre” no ar. Eu tinha me tornado o Vaso, o guardião da podridão, esperando pela única coisa que poderia me livrar do meu dever.

Minha mente agora é um mosaico fraturado de quem eu fui e do que eu sou. Ainda lembro do cheiro do perfume da minha mãe, mas ele é ofuscado pelo cheiro do trilheiro que peguei na primavera passada. Lembro do cavaleiro de madeira que enterrei, mas já não lembro por que isso importava. Sou uma tragédia coberta de peles e arame.

A Fome está gritando esta noite. Está mais alta que o vento. Estou agachado perto da minha fogueira moribunda, meus dedos — agora garras retorcidas e enegrecidas — cutucando sem rumo as brasas. A fogueira é a única coisa que impede a parte “Besta” de mim de devorar completamente a parte “Leo”.

Um graveto estala.

O som é como um tiro. Minhas orelhas se mexem, um movimento inteiramente involuntário e predatório. Consigo ouvir o baque frenético e ritmado de um coração pequeno. É um coração jovem, ainda não tocado pela podridão.

Sinto o cheiro do detergente de roupa na camisa dele. Sinto o cheiro de carvalho do brinquedo que ele está apertando.

Um menino entra na clareira. Ele tem dez anos. Olha para mim com olhos que são espelhos do meu passado. Ele vê um monstro. Vê uma besta de sujeira e cobre. Não me reconhece. Como poderia? Eu sou um pesadelo, uma versão distorcida de um futuro que ele ainda não viveu.

A tristeza me atinge como uma onda gigantesca. Quero gritar para ele correr. Quero dizer que cada escolha que ele fizer para ser “melhor” só vai levá-lo de volta para esta clareira. Quero dizer que sou o pai dele, o irmão dele e o assassino dele.

Mas meu maxilar está desarticulado. Minha garganta é um túnel de tecido cicatricial e Fome antiga. A floresta se inclina para dentro, seus galhos sussurrando o roteiro que sou obrigado a seguir. O ciclo está se fechando. Eu sou o fim da história dele, e ele é o começo da minha.

Olho para o menino, meus olhos amarelados vertendo um líquido que talvez tenha sido lágrima há um século. Abro a boca, e a voz que sai não é a minha — é a voz da mata, a voz do monstro que um dia me inspirou a ser herói.

Digo as palavras que iniciaram o meu próprio fim.

“Você está bem longe das luzes da varanda, Leo.”

Vi Dois Cachorros de Rua na Floresta Hoje

Eu estava fazendo uma trilha na minha mata favorita, cheia de árvores caducifólias e coníferas, criando uma paleta de cores que agradava tanto minha mente quanto minha alma. Admirava as folhas outonais quando um movimento chamou minha atenção para a trilha à minha frente. Olhei e vi dois cachorros de rua me encarando, a uns cem metros de distância. Um era branco, o outro marrom, mas não dava pra identificar a raça daquela distância. Me aproximei devagar, com jeitinho, tentando despertar neles aquele lado domesticado... mas os dois saíram trotando pela trilha e sumiram do outro lado de uma elevação. Acelerei o passo e fui atrás deles. Um vento fresco soprava em meu rosto e agitava meu cabelo. Raios de sol atravessavam os galhos quase nus e batiam direto nos meus olhos. O sol já se punha. “Talvez eu deva ligar pro controle de animais”, pensei na hora. Se eu tivesse feito isso, com certeza não estaria escrevendo isto agora.

Passei por cima da elevação e vi os dois cachorros de novo — mais perto dessa vez, lá embaixo na trilha. Vislumbrei-os por um instante antes que desaparecessem do caminho, entrando no mato. Apesar de só ter visto as costas deles fugindo, foi tempo suficiente pra reconhecer a raça... e pra ver sangue grudado no pelo deles. Eram dois buldogues grandes. Mesmo assim, achei que conseguiria levá-los de volta pro meu carro sem muito esforço. Dei uma olhada nos raios oblíquos do sol que iluminavam o chão da floresta e decidi arriscar. “Conheço essas matas”, pensei comigo mesmo. Só que eu não conhecia aquelas matas — nem o que havia nelas — tão bem quanto imaginava.

Seguindo os cachorros, percebi que não seriam difíceis de rastrear: sangue pingava deles, manchava galhos baixos e caía sobre a camada de folhas secas. Tinha que me apressar. Era sangue demais pra andar devagar. Segui a trilha por alguns minutos até encontrar o cachorro mais escuro. Graças a Deus, ele tinha se deitado num emaranhado de arbustos e ofegava pesadamente. Me aproximei com calma, fazendo sons suaves pra acalmá-lo. Daquele ângulo, vi logo que o sangue não era dele — mas cobria todo o corpo dele. Peguei minha garrafa d’água, e, como ele me deixou chegar mais perto, pinguei um pouco na focinha dele. Ele lambeu com avidez. Derramei um pouco mais, e ele bebeu no ar, lambendo cada gota. Dei a ele metade do que ainda restava na garrafa, depois me agachei e afaguei sua cabeça. Seus olhos cansados e tristes disseram mais do que qualquer conversa que já tive com uma pessoa de verdade. Disseram que ele estava exausto, desgastado. Disseram que estava farto de correr... e grato por esse descanso. Mas também disseram que estava preocupado — preocupado com o amigo lá fora — e queria que eu fosse procurá-lo. Rasguei um pedaço do punho da minha camisa vermelha e amarrei nas ramas logo acima dele. Não esperava que ele fugisse.

Continuei seguindo o rastro de sangue sob a luz que se apagava. Caminhei por muito tempo — tempo demais, se o cachorro que perdia aquela quantidade absurda de sangue ainda estivesse vivo. Quase desisti. Pensei em cortar minhas perdas e ficar satisfeito por ter achado ao menos um dos cachorros... quando um som estranho chamou minha atenção. Liguei a lanterna do celular e forcei a vista na escuridão. Fiquei ouvindo, esperando ouvir aquele chamado de novo... mas não veio nada. Um silêncio absoluto preenchia os espaços entre as árvores que iam escurecendo. Troncos outrora acolhedores tinham virado colunas sustentando um teto negro que me engolia — e engolia toda a floresta junto comigo. Foi então que ouvi o outro cachorro ganir.

Comecei a me mover na direção do som, e o ganido foi ficando mais alto, mais urgente. Quanto mais perto eu chegava, pior soava — como se a garganta dele estivesse cheia de líquido. Quase pisei no coitado, porque ele tinha se escondido tão bem. Afastei os galhos espinhosos ao redor dele e me ajoelhei. Ele nem sequer reagiu à minha presença. Mal podia acreditar que ainda estivesse vivo. Suas costas eram tiras de carne, filets rasgados pendurados na espinha, expondo os ossos ao ar gelado. Dava pra ver os músculos das costas dele tremendo. Sangue — e outros cortes menores — cobriam todo o corpo. Embaixo dele, as folhas onde repousava estavam encharcadas, formando uma poça vermelha. Toquei-o com delicadeza, e ele continuou sem reação. Coloquei minhas duas mãos nas partes da carne com menos feridas e empurrei, virando-o de lado. Foi aí que vi uma abertura cavernosa na barriga dele. Arfei, reconhecendo os pontos rompidos de uma cirurgia anterior. “Como você veio parar aqui?”

Ouvi aquele chamado estranho de novo — agora mais perto. Tentei levantar o pobre animal do chão, mas ele estava escorregadio demais... e aquele barulho continuava se aproximando, cada vez mais, e eu mal conseguia enxergar! Tentei de tudo pra agarrar aquela criatura inocente e levá-la embora, pelo menos pra dar um enterro decente. Soltei meu fraco aperto, e seus membros caíram de volta no chão frio. O guincho agora era ensurdecedor — não devia estar a mais de seis metros de distância. Me levantei, ergui a lanterna e tentei vislumbrar o que diabos poderia estar fazendo aquele som.

Na borda do feixe de luz, havia a sugestão de uma forma. Forcei a vista, tentando percebê-la, definir qualquer contorno significativo... mas não consegui. E não era por causa da escuridão. Era porque aquela coisa não tinha traços discerníveis. À medida que se aproximava, tudo o que eu via era uma forma longa e tubular, segmentada como uma lagarta gigante e grotesca, peluda, com pelos finos e afiados cobrindo as costas e a barriga. Avançava em minha direção, com olhos negros enormes refletindo minha própria luz de volta pra mim. Guinchou de novo — um som tão alto que me deixou tonto — e revelou dentes absurdamente longos e afiados, como milhares de palitos de madeira saindo de suas gengivas verdes e nojentas. Me preparei quando a criatura ergueu a metade dianteira no ar, pronta pra saltar...

Mas, naquele exato momento, nós dois ouvimos um latido fraco, patético.

Ela me esqueceu na hora e se moveu muito mais rápido do que eu esperava. Correu entre as árvores e os arbustos com uma agilidade assustadora, deslocando aquele corpo bulboso com tanta velocidade que parecia vibrar. Saí correndo atrás dela, desviando de galhos baixos, pulando moitas e emaranhados, arrebentando através de espinheiros. Nesse instante, a luz da lua cheia irrompeu pelas nuvens, banhando a floresta com um brilho pálido e frio. Dava pra ver a besta correndo ao meu lado. Seus movimentos ridículos quase pareciam cômicos naquela penumbra. O cachorro latiu de novo, desviando o rumo do monstro — e o meu também. Agora ela vinha mais perto de mim enquanto corríamos. Estávamos quase lado a lado, ambos correndo em direção ao mesmo objetivo: chegar primeiro ao cachorro.

Tentei pensar no que fazer — qualquer coisa que impedisse aquela coisa de machucar e matar outro animal inocente. Olhei à frente e agradeci às estrelas ao ver minha solução: um galho grosso de carvalho tinha caído de uma altura imensa e se enterrado pela metade no chão, deixando a outra ponta — lascada e afiada — inclinada precariamente na nossa direção. Bem antes do galho, me joguei contra aquele verme gigante no meio do movimento, batendo meu ombro com força naquela carne mole. Desviei sua trajetória, e o próprio impulso dela a lançou direto contra aquela lança de madeira. A carne da besta cedeu como papel higiênico molhado. Um líquido viscoso — rosa, verde e roxo — jorrou da ferida e da boca dela, junto com vísceras. Ela uivou de dor, tão alto que quase me arrependi de ter causado aquilo. Mas aproveitei a chance.

Continuei correndo em direção ao outro buldogue. Iluminei os arredores com a lanterna e encontrei o pedaço de pano vermelho que eu tinha deixado — e, embaixo dele, o docinho de cachorro. Seus olhos diziam que ficaram felizes em me ver. Sorri com compaixão e, com o máximo de delicadeza possível, levantei-o nos braços.

Barulhos úmidos e quentes interromperam nossa fuga. Sob a tênue luz da lua, aquele verme gigante voltou, espalhando seu sangue multicolorido e suas entranhas por todo o chão abaixo dele. As feridas eram fatais, mas ele insistia, resistindo à morte até o último suspiro. Endireitei os ombros na direção dele, e ele parou. Por um instante fugaz, ficamos nos encarando. Me perguntei o que diabos era aquilo, de onde tinha vindo e por que raios queria machucar cachorros. Ergueu sua forma grotesca no ar e inspirou fundo pra soltar seu último grito. Berrou um guincho ensurdecedor que reverberou entre as árvores, fazendo os troncos tremerem, soltando as últimas folhas e fazendo meus ossos vibrarem dentro do meu corpo machucado. Fiquei firme e reuni todo o ar e força que consegui. Gritei de volta, berrei com toda a potência dos meus pulmões, permitindo-me mergulhar no primordial. Gritei pra aquela coisa com toda a raiva e desespero que meus ancestrais me legaram. Quando meu fôlego acabou e minha visão turvou, meu grito cessou. A criatura imensa recuou lentamente, arrastando sua carne fedorenta de volta para as trevas. Não fiquei pra ver ela ir embora.

Agora estou na sala de espera do hospital veterinário, enquanto cuidam do cachorro. Acabei de contar a eles que um animal selvagem nos atacou durante a caminhada — e isso pareceu satisfazer a curiosidade deles. Disseram que ele vai ficar bem; não levou tantos ferimentos quanto o amigo. Mal posso esperar pra brincar com ele e levá-lo pra passear... lá no quarteirão.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Ser pai não deveria terminar assim...

É difícil explicar pra quem não tem filhos como o amor que você sente pelo seu filho é diferente de qualquer outra emoção. Como, lá no fundo do seu estômago, você sabe que morreria por ele, que sacrificaria qualquer coisa — e qualquer um. Até uns dias atrás, eu nunca tinha parado pra pensar nas consequências de sentimentos desse tipo.

— Você não devia acordá-lo — disse minha esposa da cama.  

Na verdade, eu não ia acordar meu filho. Eu sabia — de onde, não sei — que você não acorda alguém que está sonâmbulo.

Eram 3 da manhã. Sullivan, nosso filho, estava parado feito uma estátua na porta do nosso quarto, uma espécie de manequim infantil vestindo pijama de beisebol. Quanto tempo ele já estava ali, eu não fazia ideia — só sei que, quando me levantei pra fazer minha visita noturna ao banheiro, lá estava ele. Silencioso. Na soleira da porta. Observando.

— Tá tudo bem, campeão? — sussurrei, passando a mão na frente dos olhos dele. Ele nem piscou, nem pareceu enxergar nada. Coloquei a mão no ombro dele pra guiá-lo de volta à cama quando a voz de Penelope me interrompeu:  

— Você acha mesmo que ele devia dormir com aquilo pendurado no pescoço? Pode se enforcar.

Aquela “coisa” era o pingente que eu tinha comprado pro meu filho mais cedo naquele dia.

Sully tinha uma peneira importante de beisebol na sexta-feira, pra ver se entrava no time da escola. Já era um garoto ansioso por natureza, e nos últimos sete dias virou um novelo de nervos. Então, quando esbarrei naquele pingente com trevo de quatro folhas na barraca lá fora da feira de quarta-feira, achei que tinha ganhado na loteria da paternidade. Beisebol é um esporte cheio de superstição — algo que Sully já tinha percebido.

— Ele disse que o pingente o faz se sentir com sorte, e a gente precisa de todos os bons pressentimentos que conseguir agora — falei, apontando pro Sully e fazendo uma cara de “tá vendo só?”.

Penelope franziu a testa.  

— Pelo menos a corrente é fina — murmurou, virando-se de lado.

Na manhã seguinte, quinta-feira, Sullivan não lembrou de nada. Durante o café da manhã de sempre — corn flakes e banana —, estava sendo o típico garoto de onze anos. Deixei ele na fila de carros da escola e rezei pra que, como minha pesquisa na internet sugeriu, o sonambulismo fosse só um episódio isolado causado pelo estresse.

Não foi. Naquela noite, foi Pen quem acordou primeiro. Ela me sacudiu (com força demais, na minha opinião) e lá estava Sully: de novo com aquele rosto em branco, mas dessa vez mais perto — aos pés da nossa cama.

Com delicadeza, como a internet orientava, Penelope disse:  

— Tá tudo bem, amor.

Sully, dormindo mas não exatamente, não respondeu.

— Que legal — sussurrou Penelope. — Acho que isso virou rotina agora.  

Tentou soar descontraída, mas eu conheço minha mulher e dava pra ver que ela tava estressada com aquilo. Pra falar a verdade, eu também tava. Não tanto pelo sonambulismo em si, mas mais porque nem eu nem ela conseguimos voltar a dormir fácil depois que a luz acende.

Na manhã seguinte, eu tava exausto; Penelope, ainda mais. Dizem que a juventude é desperdiçada nos jovens. Pois então, o sono também é desperdiçado neles. Nos nossos vinte e poucos anos, a gente não ligava pra dormir. Agora, na meia-idade, poucas coisas importam mais. Uma delas, claro, era o Sully. Tinha chegado a hora de procurar ajuda profissional. Pen disse que ligaria pro pediatra, mas que estaria em audiência o dia todo — será que eu podia marcar? Claro, respondi.

A única pessoa descansada em casa era o meu garoto. Nervoso com a peneira, sim — mas pulava pela casa feito um chihuahua cheio de cafeína. Ficava passando os dedos no pingente que usava por fora da camiseta. Gostei disso. Gostei de imaginar que aquele pingente era a fonte da energia e do bom humor dele.

Depois que deixei Sully na escola e me acomodei no escritório, liguei pro médico dele. A primeira consulta disponível era na segunda de manhã. Disse à atendente que minha esposa estava muito preocupada (desculpa, Pen!). A moça não ligou. “Crianças fazem esse tipo de coisa o tempo todo”, falou. Nada do que eu contei soou alarmante pra ela.

Quando fui buscar Sully na escola, eu tava mais preocupado com a peneira de beisebol do que com o sonambulismo — e fiquei aliviado ao vê-lo saltitando até o carro. Ele tinha dado um home run! Soltei um grito de comemoração: “Isso aí! Sensacional!”  

O que não foi tão sensacional foi que, em casa, ele ficou ainda mais hiperativo — tipo um chihuahua dopado em Red Bull. Penelope, que teve um dia infernal no tribunal, não tava no seu melhor momento e, por algum motivo, focou de novo no pingente, que Sully nem tirara no banho. Ela queria que ele tirasse aquela droga do pescoço.  
Sully respondeu que foi o pingente que o ajudou a acertar o home run.  

Eu concordei: achei que realmente tinha ajudado.  
E assim, aquela pequena bugiganga — aquele mimo de pai pra filho — virou motivo de discussão.

Pen saiu batendo o pé e foi dormir. Às 22h30, duas horas depois do horário normal de Sully ir pra cama, as luzes do quarto dele estavam apagadas e tudo estava quieto. Quando voltei pro nosso quarto, Pen já tinha acordado de novo, preocupada com o julgamento, preocupada com o nosso filho, e agora preocupada por não estar conseguindo dormir. Pediu que eu desse uma olhada em Sully. Fui lá. Estava totalmente apagado. De volta ao quarto, senti a tensão se dissipar — e, em vinte minutos, os dois estávamos, finalmente, dormindo.

A próxima coisa que lembro é o grito agudo de Penelope.  

Levantei num pulo.  

Sully estava ali, ao lado da cama, com as mãos pousadas no braço da mãe.

É uma sensação horrível sentir arrepios ao ver seu próprio filho. Mas vê-lo ali, com o rosto em branco e as mãos na pele dela, foi assustador.

Não disse nada enquanto repetia o ritual de guiá-lo de volta à cama.

— O pediatra só consegue nos atender na segunda? 

— perguntou Penelope quando voltei.  

O cobertor estava puxado até o pescoço dela.

— Disseram que não tem com o que se preocupar. Que isso é normal.  

Falei com convicção — tanto pra convencer a mim mesmo quanto a ela.

Nenhum dos dois ficou convencido, mas o que mais dava pra dizer? Não pensei em nada… até que pensei.

— Que tal a gente pegar um hotel amanhã à noite? Tipo, umas férias só pra dormir. Uma noite só. Minha irmã pode vir cuidar dele, se estiver livre.

Esperei Pen rebater a ideia, dizer que tava preocupada demais com Sully pra deixá-lo. Em vez disso, ela respondeu:  

— Acho uma ótima ideia.

As coisas começaram a se encaixar, quase como se fosse destino. Minha irmã estava disponível. Contei a ela sobre o sonambulismo, e ela nem se abalou. Sully ficou eufórico só de pensar em passar a noite vendo filmes e comendo porcaria com a tia Summer. Penelope e eu jantamos no nosso restaurante italiano favorito. De sobremesa, pedimos tiramisu — o preferido dela.

Pen adormeceu às sete da noite.

Antes de apagar também, dei uma olhada no celular. 

Tinha uma mensagem da minha irmã:  

“Tudo tranquilo por aqui. Sully deve tá tão cansado quanto vocês — desmaiou antes mesmo da metade de ‘The Sandlot’. Já coloquei ele na cama. Posso abrir aquela garrafa de Turley que você tá guardando?”

Sem hesitar, mandei um joinha.

Em minutos, eu estava tão inconsciente quanto minha esposa e meu filho.

Algum tempo depois, acordei com um clique suave — que agora percebo ter sido o som da porta do hotel se abrindo. Voltei a dormir, só pra despertar de novo segundos depois com o grito de Penelope.

O que vi na penumbra: uma silhueta pequena e escura com o braço erguido. O brilho de metal. Penelope ao meu lado, de costas, uma mancha escura se espalhando pela camiseta dela.

Sem pensar, rolei por cima da minha mulher e me lancei contra o agressor. O corpo era pequeno. E familiar.

Sully perdeu o equilíbrio, e, mesmo com minhas pernas enroscadas nos lençóis, meu peso foi suficiente pra prendê-lo no chão. Gritei o nome da minha esposa enquanto esmagava o braço do meu filho contra o carpete. Penelope calada. Sully calado. A faca saltou e deslizou pelo tapete.

Fui até os joelhos, sem soltar meu garoto, e olhei pra Penelope. A camiseta branca dela agora estava preta de sangue. Os olhos e a boca abertos, imóveis.

Sully tentou se soltar do meu aperto. Joguei ele no chão com mais violência do que jamais usei contra outra pessoa. Ele se encolheu e começou a berrar — o primeiro som que fazia desde que entrara no quarto.

Por mais insano que pareça, por um instante pensei em ir até ele, consolá-lo, fazer tudo voltar ao normal.

Mas Penelope…

Liguei a luz do criado-mudo. Enquanto virava a cabeça na direção dela, algo brilhou no chão. Era o pingente, arrancado do pescoço de Sully durante a luta. Tinha se partido ao meio, soltando o trevo de dentro do vidro.

O trevo não tinha quatro folhas. Tinha cinco.  
E, desenhadas nessas folhas, havia cinco linhas rabiscadas formando uma estrela.  
Um pentagrama.

Meu novo smartwatch tem esse recurso estranho

Então… eu realmente não sei por onde começar com isso, então vou simplesmente começar do jeito mais óbvio possível: adivinha… foi aí que tudo começou.

Antes de mais nada, quero deixar claro que eu nunca gostei muito do Natal. Nunca mesmo. Não tenho nenhum motivo especial pra isso — é só que, pra mim, essa coisa toda nunca fez sentido, nunca “clicou”, como parece fazer pra maioria das pessoas.

Neste Natal, como sempre, eu não pedi nada em particular. Eu nunca peço. Mas minha irmã, como sempre faz, não aceitou um “não” como resposta e ficou insistindo pra ver se eu dava alguma pista, qualquer coisa que eu pudesse usar ou quisesse ganhar. Só que, sério, não tinha nada que eu quisesse. Mesmo assim, ela continuou teimando até achar algo.

Então, quando fui abrir os presentes com a família toda reunida, o dela era… um smartwatch. Confesso que fiquei surpreso com o palpite certeiro. Até porque eu andava de olho num relógio novo depois que o meu antigo morreu de repente — ele bateu com força demais na bancada de mármore da pia do banheiro e simplesmente parou de funcionar. Agradeci muito a ela, é claro. Quanto aos outros presentes, foram coisas bem comuns pra alguém que não pede nada: só as meias de sempre e camisetas com estampas ridículas.

Depois de voltar pra casa, conferi se todas as roupas serviam e separei tudo em duas pilhas: o que ficava e o que eu precisaria trocar pelo tamanho certo. Aí fui configurar o novo relógio e dar uma olhada nele.

Não era uma marca que eu já tivesse ouvido falar, e eu não sabia absolutamente nada sobre ela. Mas, sendo um presente, eu não podia ser exigente nem reclamar — afinal, era um relógio “de graça”, né?

Durante a configuração, apareceram as perguntas de sempre: permissão pra usar dados de localização, sincronização com o celular, se eu queria que ele monitorasse minha frequência cardíaca ou não. Mas aí veio uma opção diferente, que me pegou de surpresa — um recurso que eu nunca tinha ouvido falar:  

> “Deseja ativar o monitor de medo?”

Com botões de “Sim” ou “Não”.

Lembrei que pensei: “Ah, deve ser alguma novidade nova que tão testando nesses modelos mais baratos antes de lançar nos relógios famosos. Tipo um teste beta com usuários reais.” Então pensei: “Por que não? Vamos lá.”

Esqueci disso rapidamente e nem liguei mais por um tempo. Só recebia as notificações normais de smartwatch: “Frequência cardíaca alta” ou “Você deveria descansar um pouco”. Coisas comuns, sabe?

Mas numa noite — eu moro sozinho, então a casa tava vazia, como sempre, e não tinha nada acontecendo — eu tava só deitado no sofá, vendo qualquer besteira na TV, sem pensar em nada de importante. Foi aí que apareceu a notificação:  

> “Medo detectado.”

Isso me pegou completamente de surpresa. Eu não tava com medo de nada, de jeito nenhum. Tava só assistindo a algum filme de comédia aleatório e pensando em ir dormir. Mas só de ver aquela mensagem, senti um frio na espinha — aquela sensação esquisita, tipo quando você sente que tá sendo observado, mesmo achando que tá sozinho.

No fim das contas, ignorei. “É só frescura”, pensei. E fui dormir sem mais nada acontecer.

Só que, depois disso, a notificação começou a aparecer de vez em quando… cada vez com mais frequência. E, com o tempo, eu comecei a sentir medo só de ver a mensagem. Era como se eu tivesse virando paranoico por causa de algo que eu sabia que não existia.

Até que, numa noite, enquanto eu tava deitado na cama tentando pegar no sono, ouvi um barulho vindo do andar de baixo — um clique suave, tipo alguém batendo de leve numa mesa de madeira.

E adivinha? A notificação disparou de novo.  

> “Medo detectado.”

Dessa vez, concordei com ela. Sentia que não tava sozinho. Como se tivesse algo — ou alguém — dentro de casa comigo.

Liguei todas as luzes e vasculhei cada cômodo, procurando qualquer sinal de movimento. Nada. Tudo exatamente como sempre: vazio, silencioso, normal. Concluí que a paranoia tava piorando por causa do relógio, então resolvi desligá-lo. Se o problema era eu ficar assustado com as notificações, então tirar o relógio do jogo resolveria tudo, certo? Voltei pra cama.

Mas aí, por volta das 2h54 da manhã, fui acordado por uma vibração na mesinha ao lado da cama. Era o relógio. A notificação dizia:  

> “Medo detectado.”

Achei aquilo extremamente estranho — e, cara, deu um frio de arrepiar. Foi aí que ouvi de novo. O clique. Só que dessa vez… muito, muito mais perto. Parecia que alguém tava batendo de leve na parede do meu quarto, do corredor.

Naquele momento, eu tava tremendo inteiro. O medo me engoliu por completo e me prendeu na cama, imóvel. Quando o barulho parou e eu finalmente juntei coragem pra sair de novo, fui devagar, cômodo por cômodo, conferindo tudo. Travei a porta da frente, verifiquei todas as janelas — tudo estava trancado desde o início. Na verdade, nada tinha sido mexido. Cheguei até a trancar a porta do meu quarto e guardei o relógio numa gaveta da escrivaninha. Tentei dormir de novo, torcendo só pra conseguir mais algumas horas de sono antes de tentar entender o que diabos tava acontecendo pela manhã. Talvez eu precisasse de um psiquiatra… mas isso seria um problema de amanhã.

Só que… aconteceu de novo.

Fui acordado pelo som abafado do motor de vibração do relógio, ainda dentro da gaveta. Nem precisei levantar pra ver a notificação — eu já sabia o que ia dizer:  

> “Medo detectado.”

Nesse ponto, eu tava completamente apavorado. Meu coração devia estar batendo a mil por hora. E, no canto mais escuro do meu quarto, consegui enxergar — mal, mas enxerguei — dois pequenos pontos brilhantes, sombrios, que eu juro que eram olhos.

Antes mesmo que eu conseguisse reagir, meu instinto de luta ou fuga assumiu o controle… e eu desmaiei.

De manhã, quando acordei de novo, corri por todos os cômodos da casa procurando qualquer coisa fora do normal. Nada. Absolutamente nada. Nem liguei pra me arrumar pro trabalho ou seguir minha rotina matinal. Fui direto pro psiquiatra — o primeiro resultado no Google. Nem me dei ao trabalho de avisar no serviço; eles iam perceber quando eu não aparecesse.

Contei pra ela tudo o que acabei de contar pra você — cada detalhe que lembro. Ela só disse que era paranoia induzida por estresse, já que não havia nenhuma evidência real de que algo tivesse acontecido de verdade.

Receitou uns remédios pra ansiedade, ensinou exercícios de respiração e marcou uma consulta pra semana que vem.  

Mas, mesmo assim…  

Isto aqui é um aviso:
Se você tiver um relógio com esse tal “monitor de medo”… jogue fora.

Já fiz isso. Nunca mais quero ver aquela porra.

Mesmo que seja só minha mente pregando peças em mim…  

Agora eu não sei o que é pior:  

— Ser o relógio me deixando paranoico, me fazendo ver coisas que não existem…  

— Ou ele ter algum sexto sentido, capaz de detectar medo de verdade…  

Ou pior ainda… ser capaz de detectar coisas que a gente não deveria ver.

Na verdade… não quero saber.

Só quero que tudo volte a ser como era antes.

Existem monstros no Meio-Oeste que eu não consigo explicar; hoje preciso falar sobre os trens

Os trilhos cortam as cidades e fazendas, atravessando planícies onduladas e campos secos de trigo postos à venda anos atrás. Eles passam bem pertinho das casas e, um quilômetro depois, seguem direto pelo nada absoluto das antigas terras agrícolas — tão planas que só os celeiros em ruínas conseguem projetar sombras sobre os campos de capim. Os trilhos parecem surgir do nada e desaparecer no mesmo vazio.

Mas essa imagem perde todo o encanto quando você está dirigindo. De repente, as luzes se acendem, e um trem que você juraria não ter visto na visão periférica começa a avançar com aquela lentidão agonizante bem na sua frente. Quando ele finalmente some e você cruza os trilhos, não consegue enxergá-lo em lugar nenhum ao longo do caminho por onde deveria estar. Às vezes, você se pergunta se existe alguma curva na estrada que nunca notou… ou se simplesmente imaginou aquele trem.

Sempre tive essa ideia esquisita sobre os trens: eles vinham e iam embora, mas nunca pareciam presos a nenhuma direção específica. De qualquer forma, ninguém dá muita bola pra essas coisas quando elas estão sempre por perto. É como qualquer outra bizarrice da cidade da sua infância — algo que você nunca questiona até alguém de fora apontar e perguntar: “Ei, isso aqui é normal?”

Enfim, o motivo pelo qual estou escrevendo isto é servir de preâmbulo à história que me arrancou daquela falsa sensação de normalidade que perdi depois do incidente. Nem sei direito por que estou escrevendo isso, mas quero terminar antes de começar a duvidar demais.

Cinco anos atrás, na noite de Halloween, eu e meus amigos decidimos — numa espécie de homenagem ao último ano da nossa infância — sair fantasiados numa derradeira investida por doces grátis. Tô me empolgando demais… O ponto é que, naquela noite, batemos nas portas das casas mais antigas, tocando campainhas e pedindo doces. Sorrimos diante daquela leve decepção nos rostos das pessoas ao verem nossas silhuetas adultas na soleira da porta — uma decepção que, mesmo assim, ainda nos desejava um “Feliz Halloween” e nos entregava guloseimas só pra evitar o constrangimento geral.

Depois de impor nossa pressão social fantasiada, resolvemos aproveitar nossa idade — já tínhamos 17 anos — pra vagar por alguma parte abandonada da cidade, longe dos caminhos seguros das crianças e dos pais. Saímos das ruas residenciais e entramos nas áreas descampadas, sem grama, além dos quintais sem cercas, onde festas clandestinas aqueciam o frio em volta de fogueiras. Atravessamos um pequeno bosque de árvores preservado só pra não desvalorizar ainda mais os terrenos da região, até chegar a um campo de grama verde com aquelas barras metálicas intrusivas sobre cascalho áspero e pedras, a menos de seis metros da linha de árvores. Era como um rio de metal e pedra forçando a natureza ao redor a se afastar e se curvar. Talvez aquela paisagem não fosse tão melancólica naquele dia quanto é agora.

— Então, o que a gente faz agora? — perguntou Maxine, que tinha nos guiado o caminho inteiro. A máscara branca cobrindo metade do rosto dela estava escorregando; ela era a Fantasma de O Fantasma da Ópera.

— Fotos? — sugeriu Lucas, vestido como um mago de barba branca, enrolado num roupão rosa que provavelmente era dele mesmo, e não da mãe.

— Sei lá — respondeu Andrea, com um vestido vermelho e dentes falsos afiados, feitos de cera. Ela tinha explicado que era Carmilla.

— O que mais vocês querem fazer? — perguntei eu.

— Tô boa pra qualquer coisa — garantiu Maxi.

— Pois é, mesma coisa aqui — disse Andrea.

— Tipo… o quê, exatamente? — insisti.


— Ehhh... — murmuramos todos, cada um à sua maneira.

Essa conversa idiota era praticamente o prelúdio da maioria das nossas pequenas aventuras pela cidade — geralmente terminando com um de nós recebendo uma mensagem de “cadê você?” de mãe ou pai, e todos decidindo voltar pra casa. No caminho de volta, fingíamos que a preocupação dos nossos pais era a coisa mais irritante do mundo, escondendo aquele leve nervosismo de que talvez realmente os tivéssemos deixado chateados. Éramos uns idiotas, francamente — barulhentos, arrogantes, achando que o mundo inteiro observava, fascinado, as vidas suburbanas de quatro adolescentes. Talvez soubéssemos, no fundo, que éramos iguais a qualquer outro grupo de moleques crescendo numa cidade do meio do nada, sonhando que dominaríamos o mundo assim que conseguíssemos fugir dali. Talvez isso seja só parte de crescer. Queria ter certeza. Queria saber o que teria sido de nós se todos tivéssemos sobrevivido.

Enquanto enrolávamos ali, decidimos sentar e abrir nossos saques de doces. Lucas tentou trocar pacotinhos de amêndoas salgadas por Skittles, achando que conseguiria enganar alguém com isso. Por pena, Andrea jogou um toffee na cabeça dele.

— Ai! — ele respondeu com cara de tédio. — Por que eu nunca ganho nada bom?

— Porque você parece uma garça-cor-de-rosa.

— E é ilegal alimentar garças-cor-de-rosa.

— Espécie ameaçada de extinção.

Jogamos mais alguns doces de morango na bolsa dele — era o sabor favorito.

Ficamos sentados por um tempo, até ouvirmos um gemido fraco vindo da esquerda dos trilhos, além de uma pequena curva onde não dava pra ver o que se aproximava. O grito soava como uma mistura de ar passando por tubos metálicos estreitos e o ruído verdadeiro, vil, de algo vivo. Exatamente quando pontas de luz começaram a atravessar as folhas, na escuridão que se aprofundava, um cervo entrou no nosso campo de visão. Corria pelos trilhos, a cabeça girando em todas as direções enquanto as patas continuavam levando seu corpo em linha reta. Parecia preso entre as duas linhas de metal; o pescoço, em certo momento, torcido para trás a ponto de quase encostar na curva das costas — como um gancho de açougueiro. Depois, a cabeça virou bruscamente para o lado, a boca escancarada, torta e frouxa. E ele continuou correndo.

Olhei para Maxi enquanto Andrea recuava atrás de nós. Lucas se abaixou, procurando algo pesado — uma pedra ou um galho —, mas sem tirar os olhos daquela pobre criatura. Enquanto a besta errática seguia pelos trilhos, ficamos paralisados, vendo o cervo disparar na nossa direção. Ele passou bem pelo centro do nosso campo de visão, o pescoço dobrado em 90 graus para nos encarar de frente. Ficou imóvel por um instante — e foi então que ouvi o apito novamente.

As luzes de uma máquina se aproximando distorceram nossas sombras. Um trem surgiu na via metálica, com velocidade moderada, porém implacável. Alcançou o cervo. Pegou suas patas traseiras, jogando-o de costas; as patas dianteiras se agitaram por meio segundo antes de se dobrarem contra o corpo, esfacelando-se em pedaços de carne que voaram pelo ar como gotas quentes do animal imolado. O trem pareceu parar.

Ouvi Maxi gritar quando os respingos nos alcançaram — senti a viscosidade esfriar na pele, nos pregando ao chão no choque do que acabara de acontecer. Depois de limpar o rosto, olhei à frente… mas o trem tinha desaparecido. Já havia passado pelo próximo trecho de árvores, mais rápido do que deveria, sem deixar traço algum de luz ou som. Não fazia sentido — um instante antes, parecia quase parado.

Na ausência do trem, recuperamos os sentidos e olhamos uns para os outros. Em silêncio, viramos e saímos correndo. Claro, animais às vezes são atropelados por trens… mas por que aquele cervo agira daquele jeito? Talvez fosse só o comportamento raivoso de um bicho apavorado. De qualquer forma, estava escuro e aterrorizante, então continuamos correndo. Atravessamos um trecho curto de grama, entramos no matagal de árvores, ouvindo nossas respirações ofegantes e os passos pesados. Ouvi a sacola de doces balançando na mão de Maxi — ela nem estava em condições de perceber que ainda a carregava.

Perto do fim da mata, os troncos se fecharam ao nosso redor, nos espremendo. Senti a mão de Lucas alcançar a minha — por medo ou necessidade, tentando se agarrar. Senti a viscosidade que imaginei ser sangue do animal, que ele devia ter esfregado freneticamente. Mas, um segundo depois, com meu aperto fraco, senti sua mão se soltar. Não ouvi ele cair, mas lembro agora da ausência daquela quarta batida de passos nos últimos minutos da nossa fuga. Na hora, talvez nem tenha notado que ele tinha sumido. E mesmo agora não tenho certeza do que o fez agir daquela forma logo depois. Ainda assim, me pergunto: naqueles segundos de silêncio, enquanto ele jazia no chão vendo nossa retirada precipitada, se eu tivesse voltado para segurar a mão do meu amigo… será que ele não teria sofrido aquela crueldade injusta que o levou como consequência do meu abandono?

Quando saímos do outro lado da floresta, corremos pelo capim descuidado e sentimos o cheiro da primeira fumaça de fogueiras apagadas. Olhamos uns para os outros, desesperados.

— Cadê o Lucas? — a voz de Andrea saiu rouca, tensa.

— Ele… acho que caiu — respondi, olhando de volta para as árvores ao longe.

— Será que ele levantou? Dava pra ver ele, mesmo que estivesse bem atrás! — Maxi entrou em pânico com seu próprio raciocínio.

Olhei para as duas, pesando nossas opções. A lembrança da mão dele não saía da minha cabeça. De algum modo, eu sabia que algo tinha acontecido. Contra meu próprio julgamento, mandei que esperassem enquanto eu voltaria só alguns passos para procurá-lo. Eu sabia que ele não estaria lá. Sabia que, assim que confirmasse que ele não tinha saído da mata, eu não voltaria. Era uma convicção estranha, fixa: algo tinha mudado. Havia ocorrido uma alteração na própria atmosfera da Terra — algo que eu não podia apagar, mas precisava testemunhar. Assim, respirei fundo e corri de volta.

Corri para dentro das árvores, entre os troncos escuros de tilia e olmo, e vi novamente os fios brilhantes de luz surgindo pela direita. Ouvi o apito fraco outra vez — mas agora era puramente mecânico: o lamento de uma máquina velha e desgastada que ainda não ia quebrar, que terminaria seu trabalho naquele dia.

Quando me aproximei do outro lado da mata, vi Lucas parado na beira do bosque, dois passos além do ponto onde as raízes visíveis terminavam. À sombra dos feixes de luz de um trem que eu sabia estar se aproximando — mas, por algum motivo, ainda não conseguia ver —, vi sua cabeça virar na minha direção. Ao me ver, ele desviou o olhar. Senti um impulso enorme de ir até ele, não para impedir o que estava prestes a acontecer, mas para ir junto. Mas, no exato momento em que dei um passo à frente, a sombra densa da linha de árvores pareceu pesar sobre mim, ordenando que eu ficasse onde estava. Não era uma força que me impedia fisicamente, mas uma sensação de pavor absoluto diante da ideia de cruzar aquele limite.

Vi Lucas tentar correr — mas era lento, penoso. Uma das pernas dele torcia e girava sem controle; os ombros sacudiam para lá e para cá; o outro pé estava dobrado tão para baixo que o fazia parecer vários centímetros mais baixo do que era, curvado de um jeito antinatural, como se tentasse cravar-se no chão para parar o próprio movimento.

Foi então que percebi, ao fundo do que afligia meu amigo, que um trem estava vindo pelos trilhos.

Gritei por ele enquanto seu pé arrastava no cascalho. Dei um passo para fora da grama, longe da segurança das árvores. Gritei seu nome de novo — um chamado penetrante na atmosfera de tragédia inevitável, um grito de abandono total que eu esperava, desesperadamente, que fizesse alguma diferença. Então, ele olhou para trás. Havia alguma lucidez em sua postura, seu corpo encolhido de dor.

Vi quando ele tentou tirar um pé dos trilhos para escapar — mas o trem agarrou a outra perna, mutilando seu pé e sua canela. Todo o corpo dele se torceu enquanto era arrastado para debaixo da máquina. Foi jogado de bruços, com a perna intacta se contorcendo em espasmos incoerentes pelo trauma infligido ao seu corpo. Estava estirado ali, se debatendo de forma grotesca e desordenada — uma cena horrível, vil, como derradeiro adeus. O trem passou por cima dele, apagando inequivocamente todos os traços do meu amigo deste mundo.

Só restaram as entranhas esmagadas, ossos e sangue — indistinguíveis de qualquer humano ou animal — e a sacola de doces cheia de amêndoas salgadas e toffees de morango, para que nunca esquecêssemos dele.

Já se passaram alguns anos desde aquele incidente. Seria um belo final dizer que seguimos em frente com estoicismo inabalável, mostrando a resiliência vibrante da juventude… mas não foi isso que aconteceu. Nossas vidas pararam quando ele morreu. Andrea nunca mais falou conosco — afinal, tinha sido ideia dela sair no Halloween. Maxi nos contou, depois do funeral, que não aguentava mais os olhares interrogativos das pessoas pela cidade, cochichando que tínhamos feito algo com ele ou cutucando sobre o motivo do “suicídio”. Ninguém acreditou no que contamos.

Quanto a mim, fingi que continuei o mesmo. Esperava esquecer ou distorcer na memória o que tinha visto. Torcia para me autoenganar de propósito: se eu nunca mudasse, nunca envelhecesse, talvez nunca notasse que Lucas não estava ali, envelhecendo comigo.
Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon