segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Acho Que Meu Colega de Quarto Gosta de Comer Agulhas

Como o título já diz, tenho quase certeza de que meu colega de quarto, o Rob, é algum tipo de maluco, de forma bem discreta. Eu gosto bastante do Rob, de verdade, e rezo para estar sendo levado a conclusões erradas aqui.

Tudo começou há alguns anos, na faculdade, quando trombei com o Rob em uma das minhas eletivas. Naquela época, todo mundo no café de domingo depois da igreja ficava me enchendo o saco dizendo que eu precisava conhecer mais gente da minha idade, então resolvi puxar papo com o cara que estava sentado do meu lado. Ele era muito fã de futebol americano, igual a vários dos meus amigos, então pensei que seria legal se a gente se juntasse pra assistir futebol no domingo, e foi mesmo. Viramos brothers de verdade comendo nachos e tomando cerveja durante toda a faculdade. Eu até me lembro de agradecer a Deus no caminho de volta da igreja porque finalmente tinha um grupo de amigos próximos — era assim que eu estava feliz por ter conhecido ele.

Depois que a gente se formou, eu queria sair da casa da minha mãe e me deparei com o absurdo que são os preços de aluguel. Foi ele quem primeiro sugeriu procurar um colega de apartamento. O pai dele estava botando ele pra fora de casa porque os dois viviam brigando feio, o que me deixou chocado. Como uma família pode tratar um ao outro desse jeito? Enfim, decidimos morar juntos. Ele conseguiu um emprego de escritório logo depois da formatura, eu comecei a trabalhar num restaurante e fechamos o acordo.

A primeira vez que percebi que tinha algo estranho foi no segundo dia, enquanto a gente estava desembalando as coisas. O Rob ficou me zoando porque eu estava ouvindo um som bem pop de mulherzinha (Chappell Roan é foda pra caralho, não importa quem você seja) enquanto arrumava minhas coisas, então resolvi dar o troco. Não sou de guardar rancor, mas foi divertido sacanear o Rob. Comecei a fuçar nas coisas dele pra ver o que eu conseguia encontrar de comprometedora.

“Ei, Hersch, não vai mexer nas minhas coisas. Para com isso, cara,” ele disse enquanto me via tramando. Meu nome é Herschel, aliás.

“Não, não, não, você que começou. Que segredos você tá escondendo aí?” falei enquanto pegava uma caixa de papelão média que parecia bem pesada. Corri pro outro lado do quarto, rasguei a fita adesiva e abri esperando encontrar algo que desse pra zoar. Congelei na hora. A caixa estava lotada de agulhas. Não era tipo “ah, ele gosta de costurar” quantidade de agulhas. Era mais “será que ele vende agulhas?”. A caixa estava cheia até a boca, do tipo que se derramasse ia ser um caos — a gente nunca ia achar todas as agulhas. “Hmm, mano, que porra é essa?” perguntei, estendendo a caixa pra ele.

“Tsc, cara, isso é meu, porra. São agulhas, mano,” ele disse, tomando a caixa da minha mão e fechando. Saiu pisando duro resmungando, e parecia genuinamente puto. Minha surpresa inicial virou uma confusão hilária e eu comecei a rir alto. O que ele era, um costureiro enrustido ou o quê? Que porra era aquela? Juro que não queria julgar o Rob, pela minha mão direita e por Deus eu não queria. Mas era definitivamente esquisito.

“Não, mano, o que FOI isso? POR QUE você tem uma caixa inteira delas?” perguntei, dobrando de tanto rir.

“Cara, são só agulhas. Vieram da minha vó. Ela costurou a vida inteira. É sentimental,” ele respondeu, franzindo a testa. Respirei fundo e me endireitei, porque família não é motivo pra piada. O fato de eu ter segurado algo importante pro Rob me deu até uma pontada no peito.

“Tá bom, entendi. Mas imagina se você fosse algum tipo de psicopata? Tipo, começa a comer elas junto com comida e tal? Hahaha. Tipo tomar uma tigela de agulhas com leite no café da manhã?” falei, forçando uma risada pra disfarçar. Espero não ter soado grosso ou insensível antes. O Rob parou um segundo, olhando pra caixa nas mãos. Depois abriu um sorriso e riu da minha piada.

“Hahaha, sim, seria ridículo pra caralho. Mas não, eu não como elas, cara,” ele disse, colocando a caixa de volta no lugar. Sinceramente, se tivesse parado por aí, eu não estaria escrevendo esse texto todo. Mas não parou! Fica mais estranho! Ai, Rob, por que não podia ter parado ali?

Preciso contar que, antes disso, já tinha outra coisa estranha nele, mas sozinha não significava nada. As terças-feiras. Desde que conheço o Rob, ele sempre some do mapa nas terças. Eu sempre pensei que era algo da família dele ou que ele usava as terças pra fazer alguma putaria, tipo transar ou usar droga. Nunca perguntei sobre a vida amorosa dele. Um dos outros caras pegou a ideia de transa e a gente começou a chamar de “terça de pegar e chupar do Rob”, hahaha. O problema é que, quando a gente foi morar junto, descobri que não era nada disso — alívio e horror ao mesmo tempo.

Há alguns dias foi a primeira terça desde que nos mudamos. Acordei com um barulho de tremor tipo às 9 da manhã, sentei na cama confuso no escuro. Vinha de logo depois da porta do meu quarto. Parecia um caminhão de lixo passando, sei lá. Levantei da cama e escutei. Não sabia se o Rob estava arrastando móveis ou o quê.

“Rob, é você?” gritei. Fui pegar a maçaneta da porta pro living, mas parei com a mão quase encostando. Parado ali na luz que entrava pela fresta, senti uma dor surda e uma desorientação de ressaca, mesmo sem ter bebido na noite anterior. A luz do sol que entrava por baixo da porta estava forte, e olhar pra ela piorava tudo. Juro que não lembrava de ter bebido, mas claramente tinha enxaqueca e até suava um pouco, então talvez tivesse bebido? Juro que sou um cara moderado, haha.

“É, mano, só tô arrastando um monte de coisa pelo living. Sua porta tá bloqueada. Espera aí, te aviso quando liberar,” ele respondeu entre grunhidos. De fato, o barulho foi pro quarto dele e depois ouvi a porta dele fechar. Ele gritou “Tá liberado!” através da parede, então abri a porta. Tudo estava arrumado normalmente, com uma luz fraca entrando pela janela que dava pra um céu nublado. Ia voltar pro quarto pra dormir mais, mas aí ouvi o resmungo. Era o Rob murmurando no quarto dele, que agora estava trancado. Cheguei devagar na porta dele e escutei com atenção.

“Deixa passar. Por favor. Pelo amor de Deus, deixa passar. Vai. Desce, desce, desce, desce…” O Rob estava murmurando com a voz tensa, respirando pesado do outro lado da porta. Pensei que ele estava doente, então voltei pro meu quarto pra dormir.

O lance é que, quando acordei da soneca, nada tinha mudado muito. Saí do quarto e vi que a porta do Rob ainda estava trancada. Nada no living fora do lugar, então fiquei confuso sobre o que ele tinha mexido antes. Sabia que ele ainda estava lá porque ouvia ele remexendo nas gavetas. Desisti de tentar entender e me arrumei pro trabalho. Como trabalho em restaurante, normalmente durmo até tarde e só me arrumo tipo 3 da tarde.

Sentei no sofá do living pra calçar o tênis. Pra esclarecer: nosso apartamento é bem pequeno. O living tem exatamente o espaço pra encaixar o sofá na parede com uma luminária alta apertada no canto que sobra. Quando sentei, percebi de canto de olho que a luminária estava meio inclinada. Levantei e tentei endireitar. Não ficava reta. Me inclinei pra ver o que estava atrapalhando no chão e não tinha nada. Simplesmente não cabia mais entre o sofá e a parede. Tentei empurrar o sofá, mas ele não saía do lugar. Verifiquei o outro lado — encostado na parede. Chequei as duas pontas mais duas vezes e fiquei parado, atônito. Ou o sofá cresceu, ou o quarto… encolheu?

Olhando em volta, dava pra ver que outras coisas estavam mais apertadas do que eu lembrava. Sei que casas se mexem um pouco por causa de temperatura, mas isso teria que ser vários centímetros. Fiquei tão confuso que fui até o quarto do Rob pedir opinião.

“Ei Rob, acho que tô pirando aqui. Dá uma olhada nisso?” chamei da porta dele. O barulho de remexer parou na hora.

“Tô ocupado, Hersch. Tô ocupado hoje, cara. Você sabe disso,” ele respondeu de dentro.

“Mano, tô falando sério. Acho que o living encolheu, haha. É loucura. Você tem que ver essa porra,” falei, batendo na porta com um pouco de urgência.

“Quê!? Não…” O Rob abriu a porta de uma vez. Olhos injetados me encararam sem o calor de sempre, camisa amassada, sobrancelhas franzidas. Não estava com a cara bonita de costume, parecia acabado. Apertava a camisa com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, como se estivesse com dor no peito.

“Ei, o que tá rolando contigo?” perguntei, dando um passo pra trás. Aquela dor de cabeça surda voltou.

Ele olhou pra si mesmo, arrotou, fechou a porta de novo dizendo que não estava se sentindo bem. Tem algo errado com ele com certeza, mas não foi isso que chamou minha atenção. No segundo que a porta abriu, eu vi dentro do quarto dele. Estavam em todo lugar. No chão, na escrivaninha, na cama — agulhas como se ele tivesse virado a caixa inteira no quarto. O pior: tinham sido empilhadas bem alto em um prato na escrivaninha. Em um prato! Acho que vi algo que não deveria ter visto.

Na quarta-feira ele estava normal. Me deu um soquinho como sempre, foi trabalhar e passou no restaurante pra ficar de boa como se nada tivesse acontecido. Não toquei no assunto com ele. Em vez disso, fiz uma coisa que ainda acho errado. Eu folgo nas quintas, então enquanto ele estava no trabalho entrei escondido no quarto dele. À primeira vista, nada fora do normal. Mas fuçando nos cantos, comecei a achar. Agulhas que ele perdeu na limpeza, nos cantos, presas nos lençóis e nas roupas. Sei que tô errado por fuçar escondido, mas tô muito perturbado com isso. Meu cérebro fritava tentando montar o quebra-cabeça de um jeito que não fizesse o Rob parecer louco… até abrir a gaveta dele.

Quando puxei a gaveta, a primeira coisa que veio foi náusea e uma sensação vertiginosa de algo se enterrando nos meus pensamentos, me fazendo tropeçar. Foi como se uma imagem fosse forçada na minha mente, borrada e alienígena demais pra eu entender, me deixando tonto a ponto de fechar os olhos com força. Quando passou, abri os olhos e vi o horror, a consequência grotesca da minha curiosidade. Fechei a gaveta na hora, tropecei pra fora do quarto, bati a porta. Mesmo sabendo que o Rob não estava em casa, fiquei olhando pros lados e checando as trancas como se ele fosse entrar correndo a qualquer momento. Até agora fico olhando pela janela. Nem sei se tenho permissão de escrever o que vi ali, mas juro que ainda sinto vontade de vomitar. Só imagina a pior coisa que cabe numa gaveta, coloca agulhas por cima e você chega perto.

Eu simplesmente não entendo, mas quero entender. Quero entender o Rob. Quero me aproximar dele. Essa parada das agulhas não faz sentido. Não pode fazer. E tem o living ainda. Continua menor, aliás. Tive que tirar a luminária do canto e colocar na frente do sofá. Quando falei com o Rob sobre isso, ele deu de ombros e disse que é casa velha, como se não fosse problema nenhum. A não ser que ele tenha feito marcenaria e diminuído o quarto uns centímetros de brincadeira, não entendo. Aquela luminária cabia certinho no canto quando a gente mudou. Agora não cabe.

A pior parte de tudo é que hoje entrei no quarto dele de novo enquanto ele foi ao mercado. O prato sumiu, mas ainda tem agulhas nos cantos. Eu estava pronto pra acreditar que tinha inventado tudo, mas quando virei pra sair notei aquilo que me fez tropeçar da outra vez. Tem uma fresta entre o chão do quarto dele e a soleira da porta, e está em ângulo. De algum jeito, o quarto dele parece ter sido girado uns graus. Minha mente começou a girar de novo, então saí de casa e fui tomar um trago com um amigo pra esquecer. Primeiro uns centímetros aqui, depois uns graus ali, depois aquela coisa no prato e, às vezes, eu até lembro daquela luz dolorosa. Tô com medo. Não sei o que fazer, mas sei que não posso viver com medo do meu colega de quarto pra sempre. Nesta terça eu vou confrontar ele. Sei que Deus vai me proteger. E, claro, rezo toda noite pra que tudo isso seja só coisa da minha cabeça.

O Chef

Eu deveria ter percebido que algo estava errado no instante em que entramos no hall de entrada da casa do Elias. O ar não tinha cheiro de jantar. Não tinha aroma de alho assando nem de vinho caro. Cheirava a ozônio e a cobre molhado, aquele tipo de odor que arranha o fundo da garganta e faz os olhos lacrimejarem.

Meu amigo Mark vinha me enchendo a cabeça com isso há semanas. Segundo ele, o Elias tinha contratado um “especialista culinário particular” que era especialista em proteínas raras e exóticas. Mark é meio esnobe com comida, então eu só revirei os olhos e topei ir junto. Não comentei que, nos últimos meses, eu vinha migrando para uma dieta vegetariana; não queria ser o convidado “problemático” numa ocasião chique e achei que daria para me virar só com os acompanhamentos.

Aí eu vi o chef.

Ele estava na cozinha aberta, emoldurado por aço inoxidável e panelas de cobre penduradas. Era alto, magro de um jeito perturbador, e vestia um casaco branco de um tom tão claro que parecia agressivo. Não parecia nenhum chef que eu já tivesse visto. Também não se movia como um. Seus movimentos eram bruscos, como os de uma marionete sendo controlada por alguém que ainda não dominou os fios. Quando ele ergueu o olhar para nós, seus olhos não pareciam focar nos nossos rostos. Eles desviavam para nossas gargantas, depois para nossos peitos, depois voltavam para a peça de carne escura e iridescente sobre a bancada.

“O prato principal”, anunciou Elias, todo sorridente. “Uma colheita única na vida. O chef diz que vem de um lugar muito… remoto.”

O Chef não falou nada. Apenas sorriu, e seus dentes pareciam numerosos demais para a boca dele.

Quando nos sentamos, o clima mudou de estranho para sufocante. O Chef trouxe os pratos pessoalmente. A carne era de um roxo profundo, machucado, marmorizada com veias prateadas que pareciam pulsar sob a luz baixa da sala de jantar. Quando ele colocou meu prato na minha frente, se inclinou bem perto. Eu sentia aquele cheiro de ozônio saindo da pele dele. Ele ficou ali um segundo a mais do que o necessário, com a mão apoiada no encosto da minha cadeira.

“Coma”, sussurrou ele. Não era um convite. Era uma ordem.

Senti um frio genuíno de medo me atravessar. Olhando para o rosto dele, percebi que suas pupilas não eram redondas — eram ligeiramente irregulares, como vidro rachado. Naquele exato momento eu soube: se eu dissesse que não ia comer a “especialidade” dele, eu não sairia daquela casa.

Então fiz o que precisava fazer. Sou enfermeira; estou acostumada a manter a cara de paisagem sob pressão. Enquanto Mark e os outros atacavam a comida, soltando “hummms” que logo viravam engasgos úmidos de prazer, eu comecei a trabalhar. Usei a faca para remexer a carne no prato, espalhando os sucos roxos escuros no purê de batata. Quando o Chef virava as costas para o fogão, eu enfiava os pedaços maiores no guardanapo de pano. Cheguei até a levar um pedaço à boca, segurando-o contra a bochecha até fingir uma tosse e cuspi-lo dentro de uma taça de vinho tinto escuro.

A mudança nos outros começou antes do segundo prato.

Mark foi o primeiro. Ele parou de mastigar; o garfo caiu com estrondo na porcelana. Um fio fino e translúcido — como uma teia de aranha, só que mais grosso — escorreu da narina dele. Ele nem limpou. Só ficou olhando para o teto, a mandíbula se desencaixando muito além do que seria humanamente possível.

Depois veio a Sarah. Ela começou a coçar o antebraço, as unhas rasgando a pele.

Por baixo da superfície, eu vi. Uma protuberância ritmada, ondulante. Algo se movia sob a pele dela, longo e fino, subindo do pulso em direção ao ombro. Não era um verme da Terra. Aquilo brilhava com uma bioluminescência fraca e doentia, um pulso azul ritmado que acompanhava exatamente as veias prateadas da carne. Olhei para o Chef. Ele os observava com uma expressão de fome aterrorizante. Nem fingia mais que estava cozinhando. Apenas ficou ali, os dedos longos e pálidos tremendo em sincronia com os parasitas que se moviam dentro dos meus amigos.

“Tão vibrantes”, murmurou o Chef. “A colonização foi bem-sucedida.” Ele virou o olhar para mim. Eu congelei, o coração batendo tão forte contra as costelas que achei que ele ia escutar. O guardanapo cheio de carne estava apertado na minha mão debaixo da mesa. Forcei um sorriso, embora meus lábios estivessem tremendo.

“Está… delicioso”, consegui engolir as palavras. Ele deu um passo na minha direção, os olhos estreitando. Olhou para o meu prato, depois para o meu rosto. Achei que estava morta. Mas então Elias soltou um grito gorgolejante e úmido enquanto um membro irregular e multissegmentado irrompia da garganta dele, e a atenção do Chef voltou imediatamente para seu “sucesso” principal.

No meio do caos do corpo do Elias se dobrando sobre si mesmo, eu saí correndo. Não peguei meu casaco. Não olhei para trás para o Mark, que agora fazia um som de clique que ainda escuto toda vez que o silêncio fica pesado demais. Corri pela porta da frente e só parei quando cheguei ao carro. Faz três horas que estou no meu apartamento em Jackson. Esfreguei as mãos até sangrar, mas ainda sinto o cheiro de ozônio. Fico olhando para o meu reflexo, verificando as narinas, procurando qualquer pulso azul na pele.

Estou segura. Não comi. Mas, enquanto olho pela janela para os postes de luz da rua, não consigo deixar de pensar em quantos outros “jantares” o Chef está promovendo esta noite. E não consigo deixar de notar que as estrelas estão um pouco mais brilhantes — e um pouco mais famintas — do que estavam ontem.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O que caralhos eu vi?

Eu sou um garoto normal do norte de Minnesota. Aqui em cima é bem tranquilo, na real. Mas eu moro na margem do Lago Superior, então o turismo é super normal. Tem uns idiotas por aí, mas isso provavelmente é o único problema de verdade que eu enfrento. Normalmente eu não sou o tipo de cara que posta ou fica falando sobre histórias assustadoras, assombradas ou lendas urbanas. Porém, hoje mesmo eu vi uma coisa tão perturbadora e estranha que tá me deixando genuinamente preocupado com o lugar onde eu moro.

Isso não é história inventada. É tudo real pra caralho, e é exatamente isso que torna tudo pior. Eu me sinto louco só de falar sobre isso, mas tá me incomodando tanto que eu precisava botar esses pensamentos em algum lugar. Tudo começou no sábado de manhã. Meu pai e eu estávamos nos preparando pra ir pescar um pouco ao norte da rodovia 61. Entre as cidades de Two Harbors e Duluth fica Knife River. É um vilarejo pequeno, com um restaurante antigo fechado, uma loja de doces e um defumador de peixes pescados no lago (os dois são grandes atrações turísticas), além de uma marina pra quem mora por perto. Chegamos no lago por volta das 14h e planejávamos pegar o movimento da tarde/noite pra tentar uns walleyes, mas só conseguimos uns percas miúdos e um walleye minúsculo (literalmente uns 12 cm). Não foi um dia ruim, só tranquilo e divertido. Saímos do lago, pegamos a Fox Farm Road, que ainda fica um pouco ao norte de Knife River.

Viramos da Fox Farm pra Knife River Road, que fica logo ao norte do vilarejo de Knife River e da rodovia 61. Deviam ser umas 19h30. Só eu e meu pai no carro, conversando sobre qualquer coisa que vinha na cabeça, sabe como é. Foi aí que as coisas tomaram um rumo perturbador e esquisito pra caralho. Estávamos descendo a Knife Road, no meio de uma conversa, quando meu pai avistou alguma coisa bem na vala ao lado da estrada. Alta, muito alta, ele disse que uns 3,6 metros, tão alta quanto o carro do chão até o teto, mesmo estando numa valeta de uns 1,2 metro de profundidade na lateral da estrada. Eu não vi ela parada ali do lado da estrada, porque estava no meio da conversa. Mas o que eu vi foi a criatura cair de quatro e começar a correr na direção do carro, bem na estrada. E ele não estava mentindo. Eu tive uma visão clara, que tá queimada na minha cabeça há umas 8 horas, e não passou um minuto sem eu pensar nisso. Era comprida, de quatro, correndo de um jeito muito estranho, quase como um cachorro. As duas patas da frente impulsionando pra frente, bem juntas, e as de trás em sincronia também, pra dar estabilidade e propulsão. Era branca. Pelagem espessa no corpo principal, e quase pele lisa nas extremidades daqueles membros esquisitos. O que era ainda mais preocupante é que ela não estava atravessando a estrada como um cervo faria. Ela cortou em ângulo. Como se quisesse ser atropelada. Essa foi a parte mais bizarra e assustadora. E quase aconteceu. Ficou literalmente a uns 1,5 ou 1,8 metro do carro antes de sumir da nossa vista.

No primeiro momento eu fiquei confuso. Virei pra olhar pelo retrovisor e soltei em voz alta: “Que porra foi essa?”. Repeti isso mais umas vezes. Fui tomado por uma onda gigante de curiosidade, mas com um toque de medo também. Achei que estava enlouquecendo. Vendo coisas. Não falei nada sobre o que eu tinha visto. Até que, poucos segundos depois, meu pai começou a falar sobre isso também. Foi a prova que eu precisava pra saber que não estava ficando louco. Ele descreveu a coisa com detalhes quase idênticos ao que eu vi. Fiquei muito confuso. Era absurdamente estranho, ainda mais numa hora tão esquisita do dia. Você pensaria que veria algo assim mais tarde, de noite. Mas não, às 19h30. Mil pensamentos passaram pela nossa cabeça. Tentando usar lógica pra entender o que tínhamos visto. O que, de novo, só confirmava que eu não estava pirando. “Não pode ser um urso. É janeiro, eles estão hibernando”. “Não é lobo, era branco puro, sem nenhuma outra cor”. Pensamos em todos os animais de porte médio a grande que conhecíamos, tentando juntar as peças do que formava aquela coisa profana. Mesmo assim, continuamos dirigindo normalmente, com só uns poucos minutos até chegar em casa.

A gente ainda ficou tentando dar sentido àquilo. Ele disse que foi quem viu ela parada na vala. Alta, desengonçada, com olhos pretos e miúdos. E a parte mais assustadora, segundo ele (eu pessoalmente não vi isso, mas depois da precisão com que ele descreveu tudo quando perguntei se ele também tinha visto, eu acredito que não estava inventando), foi que ela tinha mãos parecidas com mãos humanas. Não patas, não cascos, nada disso. Mãos. Absolutamente aterrorizante. Até agora a gente não faz a menor ideia do que era, e eu não tenho nada na cabeça que explique como ela se movia, como era a aparência ou por que parecia daquele jeito.

Aqui estou eu deitado na cama. 2h30 da manhã, sem conseguir dormir. Como eu disse, cada pedaço dessa história é completamente real. Nada foi inventado pela minha cabeça, e tudo aconteceu na mesma sequência que eu contei. Se você não acredita em mim, foda-se. Eu sei o que vi, sei que não estou louco. Eu nem presto atenção nessas coisas de criaturas criptidas ou qualquer merda do tipo. Mas hoje foi diferente. Pode apostar que eu não vou entrar na mata por um tempo depois do que aconteceu. Se você souber de qualquer coisa, por favor me conta. 

Mas não espero que saiba.

As Horas Silenciosas

Não percebi de imediato porque não estava procurando por isso. Só notei porque minha vizinha percebeu primeiro — e, depois disso, ela parou completamente de falar comigo.

O nome dela era Diane. Apartamento 4B, exatamente em frente ao meu (4A). Morávamos no mesmo prédio havia três anos: cumprimentos rápidos na área dos correios, reclamações sobre o zelador, aquele ritmo de vizinhança que a gente nem nota até ele desaparecer. Ela era aposentada. Tinha um gato. Não consigo lembrar o nome dele.

O primeiro sinal foi um bilhete que alguém enfiou por baixo da minha porta em dezembro. Escrito à mão, em papel de caderno pautado, com a tinta um pouco borrada, como se tivesse sido feito com pressa.

Por favor, pare de andar à noite.

Eu não ando à noite. Trabalho em casa numa empresa de entrada de dados e logística, e minha rotina não mudou em dois anos. Acordo às sete. Café. Notebook. Durmo por volta das onze. Não tenho sonambulismo. Pelo menos, nunca tive.

No dia seguinte de manhã bati na porta dela. Ela atendeu, mas deixou a corrente de segurança. O rosto estava tenso de um jeito que eu nunca tinha visto antes. Não era raiva. Era outra coisa.

“Diane, recebi seu bilhete. Acho que houve um mal-entendido.”

“Eu escuto você todas as noites”, ela disse. “Entre três e quatro da manhã. Andando de um lado para o outro no corredor. Só de um lado para o outro.”

“Não sou eu.”

“É a sua porta que abre.”

Ela fechou a porta na minha cara. Não bateu. Apenas fechou com cuidado. Depois ouvi o trinco girar.

Naquela noite coloquei um alarme para as 3:00. Fiquei sentado no sofá no escuro, olhando fixamente para a porta da frente. Nada aconteceu. Às 3:47 voltei para a cama me sentindo ridículo.

Na manhã seguinte, outro bilhete.

Você fez de novo.

Comprei uma câmera de segurança — barata, daquelas que se fixam com fita adesiva. Demorou dois dias para chegar, mais dois para instalar direito. Quando finalmente ficou pronta, Diane já não atendia mais a porta. A caixa de correio dela começou a encher no corredor. Principalmente catálogos. Alguns envelopes que pareciam vir de uma previdência privada.

Durante quatro noites a gravação não mostrou nada. Corredor vazio. Minha porta fechada. O relógio avançando em silêncio.

Na quinta noite, às 3:14 da manhã, minha porta abriu.

Assisti seis vezes antes de aceitar o que estava vendo. O trinco girou — suave, limpo — e a porta se abriu para dentro. Ficou aberta exatamente por quarenta e um segundos. Depois fechou. O trinco voltou à posição.

Nada entrou no corredor. Nada saiu do meu apartamento. A porta abriu e fechou sozinha, a partir de dentro.

Naquela tarde chamei um chaveiro e troquei todo o mecanismo. Trinco novo, maçaneta nova, contraferrolho novo. Duzentos dólares pelo ralo. Ele testou duas vezes antes de ir embora.

Naquela noite, às 3:14, o trinco novo abriu.

Comecei a revisar as imagens quadro a quadro, em câmera lenta. Foi quando percebi a vibração: a luminária do corredor, uma placa fluorescente barata, tremia às 3:13. Um minuto inteiro de tremor fino e rápido, como se algo pesado estivesse mudando de posição bem perto dali. Depois, silêncio. E então o trinco girou.

Verifiquei as cinco noites. A vibração estava lá todas as vezes. Exatamente um minuto antes.

Chamei o zelador. Ele mandou alguém olhar a soleira, as dobradiças. O cara deu de ombros, disse que estava tudo certo. Não mostrei a gravação. Não sei por quê.

Os quarenta e um segundos começaram a me incomodar. Cronometrei em onze noites seguidas. Nem uma variação. O que quer que estivesse acontecendo era preciso. Fazia exatamente o que pretendia, pelo tempo exato que precisava.

Então comecei a calcular. Quarenta e um segundos para ir até o fim do corredor e voltar? Doze segundos. Até a escada? Dezoito. Até a porta da Diane e voltar? Seis.

Nada batia.

Depois tentei outra coisa. Fiquei parado no corredor e simplesmente esperei, contando mentalmente. Quarenta e um segundos em pé, respirando devagar. Parecia o tempo que o corpo leva para voltar a dormir depois de acordar suavemente. O tempo que uma pessoa precisa para se aquietar de novo.

A porta não estava abrindo para algo sair ou entrar.

Depois disso deixei bilhetes para Diane. Enfiava pela fresta da caixa de correio.

Você ouviu de novo ontem à noite?

Tenho na câmera. Não sou eu.

Nenhuma resposta. A correspondência dela continuou se acumulando. Num sábado bati forte, três vezes, e encostei o ouvido na madeira. Fiquei ali quase um minuto inteiro. Quase chamei a administração do prédio para fazer uma visita de bem-estar, mas algo me segurou — não era exatamente preocupação. Era mais uma certeza. Como se eu já soubesse que ela estava bem. Como se soubesse que ela estava do outro lado daquela porta, a poucos centímetros, e simplesmente tinha decidido não abrir.

Deixei ela em paz.

No dia 9 de novembro cheguei do mercado e encontrei a porta do meu apartamento destrancada. Não aberta. Destrancada. Meio da tarde. O trinco estava na posição aberta, a maçaneta ligeiramente girada, como se alguém tivesse acabado de soltá-la.

Fiquei parado no corredor um tempo longo antes de entrar.

Nada fora do lugar. O notebook na mesa estava fechado como eu tinha deixado. O copo na pia era o mesmo que usei de manhã. Mas havia um cheiro — fraco, e errado de um jeito que demorei vários minutos para identificar. Fiquei no meio da sala respirando pelo nariz até entender.

Era o cheiro de sono. Aquele cheiro quente, próximo, de pele e respiração de alguém que ficou deitado por horas num quarto parado. Um corpo em repouso.

Minha cama estava arrumada. Lençóis esticados, como sempre deixo. Mas quando levantei o edredom, o colchão estava quente. Não temperatura ambiente. Quente de corpo. Como se alguém tivesse ficado deitado ali por muito tempo e tivesse se levantado poucos minutos antes de eu chegar.

Eu não estava dormindo sozinho.

Não sabia há quanto tempo.

Saí do apartamento dois dias depois. Não rescindi o contrato direito — só juntei o que consegui carregar em duas viagens e fui embora. Não avisei o zelador. Não avisei ninguém.

Quero ser honesto sobre o que acredito, porque sei como isso soa. Não sou supersticioso. Não acredito em fantasmas, assombrações ou qualquer coisa do tipo. Acho que existe uma explicação para tudo o que aconteceu naquele apartamento. Algo estrutural, algo no prédio, algo que eu não entendi. Provavelmente chato. Provavelmente mecânico.

Instalei a mesma câmera no novo lugar antes mesmo de terminar de desfazer as malas. Mesmo ângulo, apontada para a porta da frente. Coloco alarme para as 3:00 todas as noites. Sento no escuro, olho para a porta e espero.

Nas primeiras três noites, nada aconteceu. A porta ficou fechada. O trinco ficou parado. Comecei a me sentir normal de novo. Comecei a achar que tinha escapado.

Hoje de manhã acordei às 6:41, uma hora antes do alarme. Fiquei deitado um momento e então percebi — os lençóis do outro lado da cama.

Eles estavam puxados para trás. Puxados com cuidado, do jeito que alguém faz quando não quer acordar a pessoa ao lado.
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