Como o título já diz, tenho quase certeza de que meu colega de quarto, o Rob, é algum tipo de maluco, de forma bem discreta. Eu gosto bastante do Rob, de verdade, e rezo para estar sendo levado a conclusões erradas aqui.
Tudo começou há alguns anos, na faculdade, quando trombei com o Rob em uma das minhas eletivas. Naquela época, todo mundo no café de domingo depois da igreja ficava me enchendo o saco dizendo que eu precisava conhecer mais gente da minha idade, então resolvi puxar papo com o cara que estava sentado do meu lado. Ele era muito fã de futebol americano, igual a vários dos meus amigos, então pensei que seria legal se a gente se juntasse pra assistir futebol no domingo, e foi mesmo. Viramos brothers de verdade comendo nachos e tomando cerveja durante toda a faculdade. Eu até me lembro de agradecer a Deus no caminho de volta da igreja porque finalmente tinha um grupo de amigos próximos — era assim que eu estava feliz por ter conhecido ele.
Depois que a gente se formou, eu queria sair da casa da minha mãe e me deparei com o absurdo que são os preços de aluguel. Foi ele quem primeiro sugeriu procurar um colega de apartamento. O pai dele estava botando ele pra fora de casa porque os dois viviam brigando feio, o que me deixou chocado. Como uma família pode tratar um ao outro desse jeito? Enfim, decidimos morar juntos. Ele conseguiu um emprego de escritório logo depois da formatura, eu comecei a trabalhar num restaurante e fechamos o acordo.
A primeira vez que percebi que tinha algo estranho foi no segundo dia, enquanto a gente estava desembalando as coisas. O Rob ficou me zoando porque eu estava ouvindo um som bem pop de mulherzinha (Chappell Roan é foda pra caralho, não importa quem você seja) enquanto arrumava minhas coisas, então resolvi dar o troco. Não sou de guardar rancor, mas foi divertido sacanear o Rob. Comecei a fuçar nas coisas dele pra ver o que eu conseguia encontrar de comprometedora.
“Ei, Hersch, não vai mexer nas minhas coisas. Para com isso, cara,” ele disse enquanto me via tramando. Meu nome é Herschel, aliás.
“Não, não, não, você que começou. Que segredos você tá escondendo aí?” falei enquanto pegava uma caixa de papelão média que parecia bem pesada. Corri pro outro lado do quarto, rasguei a fita adesiva e abri esperando encontrar algo que desse pra zoar. Congelei na hora. A caixa estava lotada de agulhas. Não era tipo “ah, ele gosta de costurar” quantidade de agulhas. Era mais “será que ele vende agulhas?”. A caixa estava cheia até a boca, do tipo que se derramasse ia ser um caos — a gente nunca ia achar todas as agulhas. “Hmm, mano, que porra é essa?” perguntei, estendendo a caixa pra ele.
“Tsc, cara, isso é meu, porra. São agulhas, mano,” ele disse, tomando a caixa da minha mão e fechando. Saiu pisando duro resmungando, e parecia genuinamente puto. Minha surpresa inicial virou uma confusão hilária e eu comecei a rir alto. O que ele era, um costureiro enrustido ou o quê? Que porra era aquela? Juro que não queria julgar o Rob, pela minha mão direita e por Deus eu não queria. Mas era definitivamente esquisito.
“Não, mano, o que FOI isso? POR QUE você tem uma caixa inteira delas?” perguntei, dobrando de tanto rir.
“Cara, são só agulhas. Vieram da minha vó. Ela costurou a vida inteira. É sentimental,” ele respondeu, franzindo a testa. Respirei fundo e me endireitei, porque família não é motivo pra piada. O fato de eu ter segurado algo importante pro Rob me deu até uma pontada no peito.
“Tá bom, entendi. Mas imagina se você fosse algum tipo de psicopata? Tipo, começa a comer elas junto com comida e tal? Hahaha. Tipo tomar uma tigela de agulhas com leite no café da manhã?” falei, forçando uma risada pra disfarçar. Espero não ter soado grosso ou insensível antes. O Rob parou um segundo, olhando pra caixa nas mãos. Depois abriu um sorriso e riu da minha piada.
“Hahaha, sim, seria ridículo pra caralho. Mas não, eu não como elas, cara,” ele disse, colocando a caixa de volta no lugar. Sinceramente, se tivesse parado por aí, eu não estaria escrevendo esse texto todo. Mas não parou! Fica mais estranho! Ai, Rob, por que não podia ter parado ali?
Preciso contar que, antes disso, já tinha outra coisa estranha nele, mas sozinha não significava nada. As terças-feiras. Desde que conheço o Rob, ele sempre some do mapa nas terças. Eu sempre pensei que era algo da família dele ou que ele usava as terças pra fazer alguma putaria, tipo transar ou usar droga. Nunca perguntei sobre a vida amorosa dele. Um dos outros caras pegou a ideia de transa e a gente começou a chamar de “terça de pegar e chupar do Rob”, hahaha. O problema é que, quando a gente foi morar junto, descobri que não era nada disso — alívio e horror ao mesmo tempo.
Há alguns dias foi a primeira terça desde que nos mudamos. Acordei com um barulho de tremor tipo às 9 da manhã, sentei na cama confuso no escuro. Vinha de logo depois da porta do meu quarto. Parecia um caminhão de lixo passando, sei lá. Levantei da cama e escutei. Não sabia se o Rob estava arrastando móveis ou o quê.
“Rob, é você?” gritei. Fui pegar a maçaneta da porta pro living, mas parei com a mão quase encostando. Parado ali na luz que entrava pela fresta, senti uma dor surda e uma desorientação de ressaca, mesmo sem ter bebido na noite anterior. A luz do sol que entrava por baixo da porta estava forte, e olhar pra ela piorava tudo. Juro que não lembrava de ter bebido, mas claramente tinha enxaqueca e até suava um pouco, então talvez tivesse bebido? Juro que sou um cara moderado, haha.
“É, mano, só tô arrastando um monte de coisa pelo living. Sua porta tá bloqueada. Espera aí, te aviso quando liberar,” ele respondeu entre grunhidos. De fato, o barulho foi pro quarto dele e depois ouvi a porta dele fechar. Ele gritou “Tá liberado!” através da parede, então abri a porta. Tudo estava arrumado normalmente, com uma luz fraca entrando pela janela que dava pra um céu nublado. Ia voltar pro quarto pra dormir mais, mas aí ouvi o resmungo. Era o Rob murmurando no quarto dele, que agora estava trancado. Cheguei devagar na porta dele e escutei com atenção.
“Deixa passar. Por favor. Pelo amor de Deus, deixa passar. Vai. Desce, desce, desce, desce…” O Rob estava murmurando com a voz tensa, respirando pesado do outro lado da porta. Pensei que ele estava doente, então voltei pro meu quarto pra dormir.
O lance é que, quando acordei da soneca, nada tinha mudado muito. Saí do quarto e vi que a porta do Rob ainda estava trancada. Nada no living fora do lugar, então fiquei confuso sobre o que ele tinha mexido antes. Sabia que ele ainda estava lá porque ouvia ele remexendo nas gavetas. Desisti de tentar entender e me arrumei pro trabalho. Como trabalho em restaurante, normalmente durmo até tarde e só me arrumo tipo 3 da tarde.
Sentei no sofá do living pra calçar o tênis. Pra esclarecer: nosso apartamento é bem pequeno. O living tem exatamente o espaço pra encaixar o sofá na parede com uma luminária alta apertada no canto que sobra. Quando sentei, percebi de canto de olho que a luminária estava meio inclinada. Levantei e tentei endireitar. Não ficava reta. Me inclinei pra ver o que estava atrapalhando no chão e não tinha nada. Simplesmente não cabia mais entre o sofá e a parede. Tentei empurrar o sofá, mas ele não saía do lugar. Verifiquei o outro lado — encostado na parede. Chequei as duas pontas mais duas vezes e fiquei parado, atônito. Ou o sofá cresceu, ou o quarto… encolheu?
Olhando em volta, dava pra ver que outras coisas estavam mais apertadas do que eu lembrava. Sei que casas se mexem um pouco por causa de temperatura, mas isso teria que ser vários centímetros. Fiquei tão confuso que fui até o quarto do Rob pedir opinião.
“Ei Rob, acho que tô pirando aqui. Dá uma olhada nisso?” chamei da porta dele. O barulho de remexer parou na hora.
“Tô ocupado, Hersch. Tô ocupado hoje, cara. Você sabe disso,” ele respondeu de dentro.
“Mano, tô falando sério. Acho que o living encolheu, haha. É loucura. Você tem que ver essa porra,” falei, batendo na porta com um pouco de urgência.
“Quê!? Não…” O Rob abriu a porta de uma vez. Olhos injetados me encararam sem o calor de sempre, camisa amassada, sobrancelhas franzidas. Não estava com a cara bonita de costume, parecia acabado. Apertava a camisa com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, como se estivesse com dor no peito.
“Ei, o que tá rolando contigo?” perguntei, dando um passo pra trás. Aquela dor de cabeça surda voltou.
Ele olhou pra si mesmo, arrotou, fechou a porta de novo dizendo que não estava se sentindo bem. Tem algo errado com ele com certeza, mas não foi isso que chamou minha atenção. No segundo que a porta abriu, eu vi dentro do quarto dele. Estavam em todo lugar. No chão, na escrivaninha, na cama — agulhas como se ele tivesse virado a caixa inteira no quarto. O pior: tinham sido empilhadas bem alto em um prato na escrivaninha. Em um prato! Acho que vi algo que não deveria ter visto.
Na quarta-feira ele estava normal. Me deu um soquinho como sempre, foi trabalhar e passou no restaurante pra ficar de boa como se nada tivesse acontecido. Não toquei no assunto com ele. Em vez disso, fiz uma coisa que ainda acho errado. Eu folgo nas quintas, então enquanto ele estava no trabalho entrei escondido no quarto dele. À primeira vista, nada fora do normal. Mas fuçando nos cantos, comecei a achar. Agulhas que ele perdeu na limpeza, nos cantos, presas nos lençóis e nas roupas. Sei que tô errado por fuçar escondido, mas tô muito perturbado com isso. Meu cérebro fritava tentando montar o quebra-cabeça de um jeito que não fizesse o Rob parecer louco… até abrir a gaveta dele.
Quando puxei a gaveta, a primeira coisa que veio foi náusea e uma sensação vertiginosa de algo se enterrando nos meus pensamentos, me fazendo tropeçar. Foi como se uma imagem fosse forçada na minha mente, borrada e alienígena demais pra eu entender, me deixando tonto a ponto de fechar os olhos com força. Quando passou, abri os olhos e vi o horror, a consequência grotesca da minha curiosidade. Fechei a gaveta na hora, tropecei pra fora do quarto, bati a porta. Mesmo sabendo que o Rob não estava em casa, fiquei olhando pros lados e checando as trancas como se ele fosse entrar correndo a qualquer momento. Até agora fico olhando pela janela. Nem sei se tenho permissão de escrever o que vi ali, mas juro que ainda sinto vontade de vomitar. Só imagina a pior coisa que cabe numa gaveta, coloca agulhas por cima e você chega perto.
Eu simplesmente não entendo, mas quero entender. Quero entender o Rob. Quero me aproximar dele. Essa parada das agulhas não faz sentido. Não pode fazer. E tem o living ainda. Continua menor, aliás. Tive que tirar a luminária do canto e colocar na frente do sofá. Quando falei com o Rob sobre isso, ele deu de ombros e disse que é casa velha, como se não fosse problema nenhum. A não ser que ele tenha feito marcenaria e diminuído o quarto uns centímetros de brincadeira, não entendo. Aquela luminária cabia certinho no canto quando a gente mudou. Agora não cabe.
A pior parte de tudo é que hoje entrei no quarto dele de novo enquanto ele foi ao mercado. O prato sumiu, mas ainda tem agulhas nos cantos. Eu estava pronto pra acreditar que tinha inventado tudo, mas quando virei pra sair notei aquilo que me fez tropeçar da outra vez. Tem uma fresta entre o chão do quarto dele e a soleira da porta, e está em ângulo. De algum jeito, o quarto dele parece ter sido girado uns graus. Minha mente começou a girar de novo, então saí de casa e fui tomar um trago com um amigo pra esquecer. Primeiro uns centímetros aqui, depois uns graus ali, depois aquela coisa no prato e, às vezes, eu até lembro daquela luz dolorosa. Tô com medo. Não sei o que fazer, mas sei que não posso viver com medo do meu colega de quarto pra sempre. Nesta terça eu vou confrontar ele. Sei que Deus vai me proteger. E, claro, rezo toda noite pra que tudo isso seja só coisa da minha cabeça.

