domingo, 8 de fevereiro de 2026

Vi Dois Cachorros de Rua na Floresta Hoje

Eu estava fazendo uma trilha na minha mata favorita, cheia de árvores caducifólias e coníferas, criando uma paleta de cores que agradava tanto minha mente quanto minha alma. Admirava as folhas outonais quando um movimento chamou minha atenção para a trilha à minha frente. Olhei e vi dois cachorros de rua me encarando, a uns cem metros de distância. Um era branco, o outro marrom, mas não dava pra identificar a raça daquela distância. Me aproximei devagar, com jeitinho, tentando despertar neles aquele lado domesticado... mas os dois saíram trotando pela trilha e sumiram do outro lado de uma elevação. Acelerei o passo e fui atrás deles. Um vento fresco soprava em meu rosto e agitava meu cabelo. Raios de sol atravessavam os galhos quase nus e batiam direto nos meus olhos. O sol já se punha. “Talvez eu deva ligar pro controle de animais”, pensei na hora. Se eu tivesse feito isso, com certeza não estaria escrevendo isto agora.

Passei por cima da elevação e vi os dois cachorros de novo — mais perto dessa vez, lá embaixo na trilha. Vislumbrei-os por um instante antes que desaparecessem do caminho, entrando no mato. Apesar de só ter visto as costas deles fugindo, foi tempo suficiente pra reconhecer a raça... e pra ver sangue grudado no pelo deles. Eram dois buldogues grandes. Mesmo assim, achei que conseguiria levá-los de volta pro meu carro sem muito esforço. Dei uma olhada nos raios oblíquos do sol que iluminavam o chão da floresta e decidi arriscar. “Conheço essas matas”, pensei comigo mesmo. Só que eu não conhecia aquelas matas — nem o que havia nelas — tão bem quanto imaginava.

Seguindo os cachorros, percebi que não seriam difíceis de rastrear: sangue pingava deles, manchava galhos baixos e caía sobre a camada de folhas secas. Tinha que me apressar. Era sangue demais pra andar devagar. Segui a trilha por alguns minutos até encontrar o cachorro mais escuro. Graças a Deus, ele tinha se deitado num emaranhado de arbustos e ofegava pesadamente. Me aproximei com calma, fazendo sons suaves pra acalmá-lo. Daquele ângulo, vi logo que o sangue não era dele — mas cobria todo o corpo dele. Peguei minha garrafa d’água, e, como ele me deixou chegar mais perto, pinguei um pouco na focinha dele. Ele lambeu com avidez. Derramei um pouco mais, e ele bebeu no ar, lambendo cada gota. Dei a ele metade do que ainda restava na garrafa, depois me agachei e afaguei sua cabeça. Seus olhos cansados e tristes disseram mais do que qualquer conversa que já tive com uma pessoa de verdade. Disseram que ele estava exausto, desgastado. Disseram que estava farto de correr... e grato por esse descanso. Mas também disseram que estava preocupado — preocupado com o amigo lá fora — e queria que eu fosse procurá-lo. Rasguei um pedaço do punho da minha camisa vermelha e amarrei nas ramas logo acima dele. Não esperava que ele fugisse.

Continuei seguindo o rastro de sangue sob a luz que se apagava. Caminhei por muito tempo — tempo demais, se o cachorro que perdia aquela quantidade absurda de sangue ainda estivesse vivo. Quase desisti. Pensei em cortar minhas perdas e ficar satisfeito por ter achado ao menos um dos cachorros... quando um som estranho chamou minha atenção. Liguei a lanterna do celular e forcei a vista na escuridão. Fiquei ouvindo, esperando ouvir aquele chamado de novo... mas não veio nada. Um silêncio absoluto preenchia os espaços entre as árvores que iam escurecendo. Troncos outrora acolhedores tinham virado colunas sustentando um teto negro que me engolia — e engolia toda a floresta junto comigo. Foi então que ouvi o outro cachorro ganir.

Comecei a me mover na direção do som, e o ganido foi ficando mais alto, mais urgente. Quanto mais perto eu chegava, pior soava — como se a garganta dele estivesse cheia de líquido. Quase pisei no coitado, porque ele tinha se escondido tão bem. Afastei os galhos espinhosos ao redor dele e me ajoelhei. Ele nem sequer reagiu à minha presença. Mal podia acreditar que ainda estivesse vivo. Suas costas eram tiras de carne, filets rasgados pendurados na espinha, expondo os ossos ao ar gelado. Dava pra ver os músculos das costas dele tremendo. Sangue — e outros cortes menores — cobriam todo o corpo. Embaixo dele, as folhas onde repousava estavam encharcadas, formando uma poça vermelha. Toquei-o com delicadeza, e ele continuou sem reação. Coloquei minhas duas mãos nas partes da carne com menos feridas e empurrei, virando-o de lado. Foi aí que vi uma abertura cavernosa na barriga dele. Arfei, reconhecendo os pontos rompidos de uma cirurgia anterior. “Como você veio parar aqui?”

Ouvi aquele chamado estranho de novo — agora mais perto. Tentei levantar o pobre animal do chão, mas ele estava escorregadio demais... e aquele barulho continuava se aproximando, cada vez mais, e eu mal conseguia enxergar! Tentei de tudo pra agarrar aquela criatura inocente e levá-la embora, pelo menos pra dar um enterro decente. Soltei meu fraco aperto, e seus membros caíram de volta no chão frio. O guincho agora era ensurdecedor — não devia estar a mais de seis metros de distância. Me levantei, ergui a lanterna e tentei vislumbrar o que diabos poderia estar fazendo aquele som.

Na borda do feixe de luz, havia a sugestão de uma forma. Forcei a vista, tentando percebê-la, definir qualquer contorno significativo... mas não consegui. E não era por causa da escuridão. Era porque aquela coisa não tinha traços discerníveis. À medida que se aproximava, tudo o que eu via era uma forma longa e tubular, segmentada como uma lagarta gigante e grotesca, peluda, com pelos finos e afiados cobrindo as costas e a barriga. Avançava em minha direção, com olhos negros enormes refletindo minha própria luz de volta pra mim. Guinchou de novo — um som tão alto que me deixou tonto — e revelou dentes absurdamente longos e afiados, como milhares de palitos de madeira saindo de suas gengivas verdes e nojentas. Me preparei quando a criatura ergueu a metade dianteira no ar, pronta pra saltar...

Mas, naquele exato momento, nós dois ouvimos um latido fraco, patético.

Ela me esqueceu na hora e se moveu muito mais rápido do que eu esperava. Correu entre as árvores e os arbustos com uma agilidade assustadora, deslocando aquele corpo bulboso com tanta velocidade que parecia vibrar. Saí correndo atrás dela, desviando de galhos baixos, pulando moitas e emaranhados, arrebentando através de espinheiros. Nesse instante, a luz da lua cheia irrompeu pelas nuvens, banhando a floresta com um brilho pálido e frio. Dava pra ver a besta correndo ao meu lado. Seus movimentos ridículos quase pareciam cômicos naquela penumbra. O cachorro latiu de novo, desviando o rumo do monstro — e o meu também. Agora ela vinha mais perto de mim enquanto corríamos. Estávamos quase lado a lado, ambos correndo em direção ao mesmo objetivo: chegar primeiro ao cachorro.

Tentei pensar no que fazer — qualquer coisa que impedisse aquela coisa de machucar e matar outro animal inocente. Olhei à frente e agradeci às estrelas ao ver minha solução: um galho grosso de carvalho tinha caído de uma altura imensa e se enterrado pela metade no chão, deixando a outra ponta — lascada e afiada — inclinada precariamente na nossa direção. Bem antes do galho, me joguei contra aquele verme gigante no meio do movimento, batendo meu ombro com força naquela carne mole. Desviei sua trajetória, e o próprio impulso dela a lançou direto contra aquela lança de madeira. A carne da besta cedeu como papel higiênico molhado. Um líquido viscoso — rosa, verde e roxo — jorrou da ferida e da boca dela, junto com vísceras. Ela uivou de dor, tão alto que quase me arrependi de ter causado aquilo. Mas aproveitei a chance.

Continuei correndo em direção ao outro buldogue. Iluminei os arredores com a lanterna e encontrei o pedaço de pano vermelho que eu tinha deixado — e, embaixo dele, o docinho de cachorro. Seus olhos diziam que ficaram felizes em me ver. Sorri com compaixão e, com o máximo de delicadeza possível, levantei-o nos braços.

Barulhos úmidos e quentes interromperam nossa fuga. Sob a tênue luz da lua, aquele verme gigante voltou, espalhando seu sangue multicolorido e suas entranhas por todo o chão abaixo dele. As feridas eram fatais, mas ele insistia, resistindo à morte até o último suspiro. Endireitei os ombros na direção dele, e ele parou. Por um instante fugaz, ficamos nos encarando. Me perguntei o que diabos era aquilo, de onde tinha vindo e por que raios queria machucar cachorros. Ergueu sua forma grotesca no ar e inspirou fundo pra soltar seu último grito. Berrou um guincho ensurdecedor que reverberou entre as árvores, fazendo os troncos tremerem, soltando as últimas folhas e fazendo meus ossos vibrarem dentro do meu corpo machucado. Fiquei firme e reuni todo o ar e força que consegui. Gritei de volta, berrei com toda a potência dos meus pulmões, permitindo-me mergulhar no primordial. Gritei pra aquela coisa com toda a raiva e desespero que meus ancestrais me legaram. Quando meu fôlego acabou e minha visão turvou, meu grito cessou. A criatura imensa recuou lentamente, arrastando sua carne fedorenta de volta para as trevas. Não fiquei pra ver ela ir embora.

Agora estou na sala de espera do hospital veterinário, enquanto cuidam do cachorro. Acabei de contar a eles que um animal selvagem nos atacou durante a caminhada — e isso pareceu satisfazer a curiosidade deles. Disseram que ele vai ficar bem; não levou tantos ferimentos quanto o amigo. Mal posso esperar pra brincar com ele e levá-lo pra passear... lá no quarteirão.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Ser pai não deveria terminar assim...

É difícil explicar pra quem não tem filhos como o amor que você sente pelo seu filho é diferente de qualquer outra emoção. Como, lá no fundo do seu estômago, você sabe que morreria por ele, que sacrificaria qualquer coisa — e qualquer um. Até uns dias atrás, eu nunca tinha parado pra pensar nas consequências de sentimentos desse tipo.

— Você não devia acordá-lo — disse minha esposa da cama.  

Na verdade, eu não ia acordar meu filho. Eu sabia — de onde, não sei — que você não acorda alguém que está sonâmbulo.

Eram 3 da manhã. Sullivan, nosso filho, estava parado feito uma estátua na porta do nosso quarto, uma espécie de manequim infantil vestindo pijama de beisebol. Quanto tempo ele já estava ali, eu não fazia ideia — só sei que, quando me levantei pra fazer minha visita noturna ao banheiro, lá estava ele. Silencioso. Na soleira da porta. Observando.

— Tá tudo bem, campeão? — sussurrei, passando a mão na frente dos olhos dele. Ele nem piscou, nem pareceu enxergar nada. Coloquei a mão no ombro dele pra guiá-lo de volta à cama quando a voz de Penelope me interrompeu:  

— Você acha mesmo que ele devia dormir com aquilo pendurado no pescoço? Pode se enforcar.

Aquela “coisa” era o pingente que eu tinha comprado pro meu filho mais cedo naquele dia.

Sully tinha uma peneira importante de beisebol na sexta-feira, pra ver se entrava no time da escola. Já era um garoto ansioso por natureza, e nos últimos sete dias virou um novelo de nervos. Então, quando esbarrei naquele pingente com trevo de quatro folhas na barraca lá fora da feira de quarta-feira, achei que tinha ganhado na loteria da paternidade. Beisebol é um esporte cheio de superstição — algo que Sully já tinha percebido.

— Ele disse que o pingente o faz se sentir com sorte, e a gente precisa de todos os bons pressentimentos que conseguir agora — falei, apontando pro Sully e fazendo uma cara de “tá vendo só?”.

Penelope franziu a testa.  

— Pelo menos a corrente é fina — murmurou, virando-se de lado.

Na manhã seguinte, quinta-feira, Sullivan não lembrou de nada. Durante o café da manhã de sempre — corn flakes e banana —, estava sendo o típico garoto de onze anos. Deixei ele na fila de carros da escola e rezei pra que, como minha pesquisa na internet sugeriu, o sonambulismo fosse só um episódio isolado causado pelo estresse.

Não foi. Naquela noite, foi Pen quem acordou primeiro. Ela me sacudiu (com força demais, na minha opinião) e lá estava Sully: de novo com aquele rosto em branco, mas dessa vez mais perto — aos pés da nossa cama.

Com delicadeza, como a internet orientava, Penelope disse:  

— Tá tudo bem, amor.

Sully, dormindo mas não exatamente, não respondeu.

— Que legal — sussurrou Penelope. — Acho que isso virou rotina agora.  

Tentou soar descontraída, mas eu conheço minha mulher e dava pra ver que ela tava estressada com aquilo. Pra falar a verdade, eu também tava. Não tanto pelo sonambulismo em si, mas mais porque nem eu nem ela conseguimos voltar a dormir fácil depois que a luz acende.

Na manhã seguinte, eu tava exausto; Penelope, ainda mais. Dizem que a juventude é desperdiçada nos jovens. Pois então, o sono também é desperdiçado neles. Nos nossos vinte e poucos anos, a gente não ligava pra dormir. Agora, na meia-idade, poucas coisas importam mais. Uma delas, claro, era o Sully. Tinha chegado a hora de procurar ajuda profissional. Pen disse que ligaria pro pediatra, mas que estaria em audiência o dia todo — será que eu podia marcar? Claro, respondi.

A única pessoa descansada em casa era o meu garoto. Nervoso com a peneira, sim — mas pulava pela casa feito um chihuahua cheio de cafeína. Ficava passando os dedos no pingente que usava por fora da camiseta. Gostei disso. Gostei de imaginar que aquele pingente era a fonte da energia e do bom humor dele.

Depois que deixei Sully na escola e me acomodei no escritório, liguei pro médico dele. A primeira consulta disponível era na segunda de manhã. Disse à atendente que minha esposa estava muito preocupada (desculpa, Pen!). A moça não ligou. “Crianças fazem esse tipo de coisa o tempo todo”, falou. Nada do que eu contei soou alarmante pra ela.

Quando fui buscar Sully na escola, eu tava mais preocupado com a peneira de beisebol do que com o sonambulismo — e fiquei aliviado ao vê-lo saltitando até o carro. Ele tinha dado um home run! Soltei um grito de comemoração: “Isso aí! Sensacional!”  

O que não foi tão sensacional foi que, em casa, ele ficou ainda mais hiperativo — tipo um chihuahua dopado em Red Bull. Penelope, que teve um dia infernal no tribunal, não tava no seu melhor momento e, por algum motivo, focou de novo no pingente, que Sully nem tirara no banho. Ela queria que ele tirasse aquela droga do pescoço.  
Sully respondeu que foi o pingente que o ajudou a acertar o home run.  

Eu concordei: achei que realmente tinha ajudado.  
E assim, aquela pequena bugiganga — aquele mimo de pai pra filho — virou motivo de discussão.

Pen saiu batendo o pé e foi dormir. Às 22h30, duas horas depois do horário normal de Sully ir pra cama, as luzes do quarto dele estavam apagadas e tudo estava quieto. Quando voltei pro nosso quarto, Pen já tinha acordado de novo, preocupada com o julgamento, preocupada com o nosso filho, e agora preocupada por não estar conseguindo dormir. Pediu que eu desse uma olhada em Sully. Fui lá. Estava totalmente apagado. De volta ao quarto, senti a tensão se dissipar — e, em vinte minutos, os dois estávamos, finalmente, dormindo.

A próxima coisa que lembro é o grito agudo de Penelope.  

Levantei num pulo.  

Sully estava ali, ao lado da cama, com as mãos pousadas no braço da mãe.

É uma sensação horrível sentir arrepios ao ver seu próprio filho. Mas vê-lo ali, com o rosto em branco e as mãos na pele dela, foi assustador.

Não disse nada enquanto repetia o ritual de guiá-lo de volta à cama.

— O pediatra só consegue nos atender na segunda? 

— perguntou Penelope quando voltei.  

O cobertor estava puxado até o pescoço dela.

— Disseram que não tem com o que se preocupar. Que isso é normal.  

Falei com convicção — tanto pra convencer a mim mesmo quanto a ela.

Nenhum dos dois ficou convencido, mas o que mais dava pra dizer? Não pensei em nada… até que pensei.

— Que tal a gente pegar um hotel amanhã à noite? Tipo, umas férias só pra dormir. Uma noite só. Minha irmã pode vir cuidar dele, se estiver livre.

Esperei Pen rebater a ideia, dizer que tava preocupada demais com Sully pra deixá-lo. Em vez disso, ela respondeu:  

— Acho uma ótima ideia.

As coisas começaram a se encaixar, quase como se fosse destino. Minha irmã estava disponível. Contei a ela sobre o sonambulismo, e ela nem se abalou. Sully ficou eufórico só de pensar em passar a noite vendo filmes e comendo porcaria com a tia Summer. Penelope e eu jantamos no nosso restaurante italiano favorito. De sobremesa, pedimos tiramisu — o preferido dela.

Pen adormeceu às sete da noite.

Antes de apagar também, dei uma olhada no celular. 

Tinha uma mensagem da minha irmã:  

“Tudo tranquilo por aqui. Sully deve tá tão cansado quanto vocês — desmaiou antes mesmo da metade de ‘The Sandlot’. Já coloquei ele na cama. Posso abrir aquela garrafa de Turley que você tá guardando?”

Sem hesitar, mandei um joinha.

Em minutos, eu estava tão inconsciente quanto minha esposa e meu filho.

Algum tempo depois, acordei com um clique suave — que agora percebo ter sido o som da porta do hotel se abrindo. Voltei a dormir, só pra despertar de novo segundos depois com o grito de Penelope.

O que vi na penumbra: uma silhueta pequena e escura com o braço erguido. O brilho de metal. Penelope ao meu lado, de costas, uma mancha escura se espalhando pela camiseta dela.

Sem pensar, rolei por cima da minha mulher e me lancei contra o agressor. O corpo era pequeno. E familiar.

Sully perdeu o equilíbrio, e, mesmo com minhas pernas enroscadas nos lençóis, meu peso foi suficiente pra prendê-lo no chão. Gritei o nome da minha esposa enquanto esmagava o braço do meu filho contra o carpete. Penelope calada. Sully calado. A faca saltou e deslizou pelo tapete.

Fui até os joelhos, sem soltar meu garoto, e olhei pra Penelope. A camiseta branca dela agora estava preta de sangue. Os olhos e a boca abertos, imóveis.

Sully tentou se soltar do meu aperto. Joguei ele no chão com mais violência do que jamais usei contra outra pessoa. Ele se encolheu e começou a berrar — o primeiro som que fazia desde que entrara no quarto.

Por mais insano que pareça, por um instante pensei em ir até ele, consolá-lo, fazer tudo voltar ao normal.

Mas Penelope…

Liguei a luz do criado-mudo. Enquanto virava a cabeça na direção dela, algo brilhou no chão. Era o pingente, arrancado do pescoço de Sully durante a luta. Tinha se partido ao meio, soltando o trevo de dentro do vidro.

O trevo não tinha quatro folhas. Tinha cinco.  
E, desenhadas nessas folhas, havia cinco linhas rabiscadas formando uma estrela.  
Um pentagrama.

Meu novo smartwatch tem esse recurso estranho

Então… eu realmente não sei por onde começar com isso, então vou simplesmente começar do jeito mais óbvio possível: adivinha… foi aí que tudo começou.

Antes de mais nada, quero deixar claro que eu nunca gostei muito do Natal. Nunca mesmo. Não tenho nenhum motivo especial pra isso — é só que, pra mim, essa coisa toda nunca fez sentido, nunca “clicou”, como parece fazer pra maioria das pessoas.

Neste Natal, como sempre, eu não pedi nada em particular. Eu nunca peço. Mas minha irmã, como sempre faz, não aceitou um “não” como resposta e ficou insistindo pra ver se eu dava alguma pista, qualquer coisa que eu pudesse usar ou quisesse ganhar. Só que, sério, não tinha nada que eu quisesse. Mesmo assim, ela continuou teimando até achar algo.

Então, quando fui abrir os presentes com a família toda reunida, o dela era… um smartwatch. Confesso que fiquei surpreso com o palpite certeiro. Até porque eu andava de olho num relógio novo depois que o meu antigo morreu de repente — ele bateu com força demais na bancada de mármore da pia do banheiro e simplesmente parou de funcionar. Agradeci muito a ela, é claro. Quanto aos outros presentes, foram coisas bem comuns pra alguém que não pede nada: só as meias de sempre e camisetas com estampas ridículas.

Depois de voltar pra casa, conferi se todas as roupas serviam e separei tudo em duas pilhas: o que ficava e o que eu precisaria trocar pelo tamanho certo. Aí fui configurar o novo relógio e dar uma olhada nele.

Não era uma marca que eu já tivesse ouvido falar, e eu não sabia absolutamente nada sobre ela. Mas, sendo um presente, eu não podia ser exigente nem reclamar — afinal, era um relógio “de graça”, né?

Durante a configuração, apareceram as perguntas de sempre: permissão pra usar dados de localização, sincronização com o celular, se eu queria que ele monitorasse minha frequência cardíaca ou não. Mas aí veio uma opção diferente, que me pegou de surpresa — um recurso que eu nunca tinha ouvido falar:  

> “Deseja ativar o monitor de medo?”

Com botões de “Sim” ou “Não”.

Lembrei que pensei: “Ah, deve ser alguma novidade nova que tão testando nesses modelos mais baratos antes de lançar nos relógios famosos. Tipo um teste beta com usuários reais.” Então pensei: “Por que não? Vamos lá.”

Esqueci disso rapidamente e nem liguei mais por um tempo. Só recebia as notificações normais de smartwatch: “Frequência cardíaca alta” ou “Você deveria descansar um pouco”. Coisas comuns, sabe?

Mas numa noite — eu moro sozinho, então a casa tava vazia, como sempre, e não tinha nada acontecendo — eu tava só deitado no sofá, vendo qualquer besteira na TV, sem pensar em nada de importante. Foi aí que apareceu a notificação:  

> “Medo detectado.”

Isso me pegou completamente de surpresa. Eu não tava com medo de nada, de jeito nenhum. Tava só assistindo a algum filme de comédia aleatório e pensando em ir dormir. Mas só de ver aquela mensagem, senti um frio na espinha — aquela sensação esquisita, tipo quando você sente que tá sendo observado, mesmo achando que tá sozinho.

No fim das contas, ignorei. “É só frescura”, pensei. E fui dormir sem mais nada acontecer.

Só que, depois disso, a notificação começou a aparecer de vez em quando… cada vez com mais frequência. E, com o tempo, eu comecei a sentir medo só de ver a mensagem. Era como se eu tivesse virando paranoico por causa de algo que eu sabia que não existia.

Até que, numa noite, enquanto eu tava deitado na cama tentando pegar no sono, ouvi um barulho vindo do andar de baixo — um clique suave, tipo alguém batendo de leve numa mesa de madeira.

E adivinha? A notificação disparou de novo.  

> “Medo detectado.”

Dessa vez, concordei com ela. Sentia que não tava sozinho. Como se tivesse algo — ou alguém — dentro de casa comigo.

Liguei todas as luzes e vasculhei cada cômodo, procurando qualquer sinal de movimento. Nada. Tudo exatamente como sempre: vazio, silencioso, normal. Concluí que a paranoia tava piorando por causa do relógio, então resolvi desligá-lo. Se o problema era eu ficar assustado com as notificações, então tirar o relógio do jogo resolveria tudo, certo? Voltei pra cama.

Mas aí, por volta das 2h54 da manhã, fui acordado por uma vibração na mesinha ao lado da cama. Era o relógio. A notificação dizia:  

> “Medo detectado.”

Achei aquilo extremamente estranho — e, cara, deu um frio de arrepiar. Foi aí que ouvi de novo. O clique. Só que dessa vez… muito, muito mais perto. Parecia que alguém tava batendo de leve na parede do meu quarto, do corredor.

Naquele momento, eu tava tremendo inteiro. O medo me engoliu por completo e me prendeu na cama, imóvel. Quando o barulho parou e eu finalmente juntei coragem pra sair de novo, fui devagar, cômodo por cômodo, conferindo tudo. Travei a porta da frente, verifiquei todas as janelas — tudo estava trancado desde o início. Na verdade, nada tinha sido mexido. Cheguei até a trancar a porta do meu quarto e guardei o relógio numa gaveta da escrivaninha. Tentei dormir de novo, torcendo só pra conseguir mais algumas horas de sono antes de tentar entender o que diabos tava acontecendo pela manhã. Talvez eu precisasse de um psiquiatra… mas isso seria um problema de amanhã.

Só que… aconteceu de novo.

Fui acordado pelo som abafado do motor de vibração do relógio, ainda dentro da gaveta. Nem precisei levantar pra ver a notificação — eu já sabia o que ia dizer:  

> “Medo detectado.”

Nesse ponto, eu tava completamente apavorado. Meu coração devia estar batendo a mil por hora. E, no canto mais escuro do meu quarto, consegui enxergar — mal, mas enxerguei — dois pequenos pontos brilhantes, sombrios, que eu juro que eram olhos.

Antes mesmo que eu conseguisse reagir, meu instinto de luta ou fuga assumiu o controle… e eu desmaiei.

De manhã, quando acordei de novo, corri por todos os cômodos da casa procurando qualquer coisa fora do normal. Nada. Absolutamente nada. Nem liguei pra me arrumar pro trabalho ou seguir minha rotina matinal. Fui direto pro psiquiatra — o primeiro resultado no Google. Nem me dei ao trabalho de avisar no serviço; eles iam perceber quando eu não aparecesse.

Contei pra ela tudo o que acabei de contar pra você — cada detalhe que lembro. Ela só disse que era paranoia induzida por estresse, já que não havia nenhuma evidência real de que algo tivesse acontecido de verdade.

Receitou uns remédios pra ansiedade, ensinou exercícios de respiração e marcou uma consulta pra semana que vem.  

Mas, mesmo assim…  

Isto aqui é um aviso:
Se você tiver um relógio com esse tal “monitor de medo”… jogue fora.

Já fiz isso. Nunca mais quero ver aquela porra.

Mesmo que seja só minha mente pregando peças em mim…  

Agora eu não sei o que é pior:  

— Ser o relógio me deixando paranoico, me fazendo ver coisas que não existem…  

— Ou ele ter algum sexto sentido, capaz de detectar medo de verdade…  

Ou pior ainda… ser capaz de detectar coisas que a gente não deveria ver.

Na verdade… não quero saber.

Só quero que tudo volte a ser como era antes.

Existem monstros no Meio-Oeste que eu não consigo explicar; hoje preciso falar sobre os trens

Os trilhos cortam as cidades e fazendas, atravessando planícies onduladas e campos secos de trigo postos à venda anos atrás. Eles passam bem pertinho das casas e, um quilômetro depois, seguem direto pelo nada absoluto das antigas terras agrícolas — tão planas que só os celeiros em ruínas conseguem projetar sombras sobre os campos de capim. Os trilhos parecem surgir do nada e desaparecer no mesmo vazio.

Mas essa imagem perde todo o encanto quando você está dirigindo. De repente, as luzes se acendem, e um trem que você juraria não ter visto na visão periférica começa a avançar com aquela lentidão agonizante bem na sua frente. Quando ele finalmente some e você cruza os trilhos, não consegue enxergá-lo em lugar nenhum ao longo do caminho por onde deveria estar. Às vezes, você se pergunta se existe alguma curva na estrada que nunca notou… ou se simplesmente imaginou aquele trem.

Sempre tive essa ideia esquisita sobre os trens: eles vinham e iam embora, mas nunca pareciam presos a nenhuma direção específica. De qualquer forma, ninguém dá muita bola pra essas coisas quando elas estão sempre por perto. É como qualquer outra bizarrice da cidade da sua infância — algo que você nunca questiona até alguém de fora apontar e perguntar: “Ei, isso aqui é normal?”

Enfim, o motivo pelo qual estou escrevendo isto é servir de preâmbulo à história que me arrancou daquela falsa sensação de normalidade que perdi depois do incidente. Nem sei direito por que estou escrevendo isso, mas quero terminar antes de começar a duvidar demais.

Cinco anos atrás, na noite de Halloween, eu e meus amigos decidimos — numa espécie de homenagem ao último ano da nossa infância — sair fantasiados numa derradeira investida por doces grátis. Tô me empolgando demais… O ponto é que, naquela noite, batemos nas portas das casas mais antigas, tocando campainhas e pedindo doces. Sorrimos diante daquela leve decepção nos rostos das pessoas ao verem nossas silhuetas adultas na soleira da porta — uma decepção que, mesmo assim, ainda nos desejava um “Feliz Halloween” e nos entregava guloseimas só pra evitar o constrangimento geral.

Depois de impor nossa pressão social fantasiada, resolvemos aproveitar nossa idade — já tínhamos 17 anos — pra vagar por alguma parte abandonada da cidade, longe dos caminhos seguros das crianças e dos pais. Saímos das ruas residenciais e entramos nas áreas descampadas, sem grama, além dos quintais sem cercas, onde festas clandestinas aqueciam o frio em volta de fogueiras. Atravessamos um pequeno bosque de árvores preservado só pra não desvalorizar ainda mais os terrenos da região, até chegar a um campo de grama verde com aquelas barras metálicas intrusivas sobre cascalho áspero e pedras, a menos de seis metros da linha de árvores. Era como um rio de metal e pedra forçando a natureza ao redor a se afastar e se curvar. Talvez aquela paisagem não fosse tão melancólica naquele dia quanto é agora.

— Então, o que a gente faz agora? — perguntou Maxine, que tinha nos guiado o caminho inteiro. A máscara branca cobrindo metade do rosto dela estava escorregando; ela era a Fantasma de O Fantasma da Ópera.

— Fotos? — sugeriu Lucas, vestido como um mago de barba branca, enrolado num roupão rosa que provavelmente era dele mesmo, e não da mãe.

— Sei lá — respondeu Andrea, com um vestido vermelho e dentes falsos afiados, feitos de cera. Ela tinha explicado que era Carmilla.

— O que mais vocês querem fazer? — perguntei eu.

— Tô boa pra qualquer coisa — garantiu Maxi.

— Pois é, mesma coisa aqui — disse Andrea.

— Tipo… o quê, exatamente? — insisti.


— Ehhh... — murmuramos todos, cada um à sua maneira.

Essa conversa idiota era praticamente o prelúdio da maioria das nossas pequenas aventuras pela cidade — geralmente terminando com um de nós recebendo uma mensagem de “cadê você?” de mãe ou pai, e todos decidindo voltar pra casa. No caminho de volta, fingíamos que a preocupação dos nossos pais era a coisa mais irritante do mundo, escondendo aquele leve nervosismo de que talvez realmente os tivéssemos deixado chateados. Éramos uns idiotas, francamente — barulhentos, arrogantes, achando que o mundo inteiro observava, fascinado, as vidas suburbanas de quatro adolescentes. Talvez soubéssemos, no fundo, que éramos iguais a qualquer outro grupo de moleques crescendo numa cidade do meio do nada, sonhando que dominaríamos o mundo assim que conseguíssemos fugir dali. Talvez isso seja só parte de crescer. Queria ter certeza. Queria saber o que teria sido de nós se todos tivéssemos sobrevivido.

Enquanto enrolávamos ali, decidimos sentar e abrir nossos saques de doces. Lucas tentou trocar pacotinhos de amêndoas salgadas por Skittles, achando que conseguiria enganar alguém com isso. Por pena, Andrea jogou um toffee na cabeça dele.

— Ai! — ele respondeu com cara de tédio. — Por que eu nunca ganho nada bom?

— Porque você parece uma garça-cor-de-rosa.

— E é ilegal alimentar garças-cor-de-rosa.

— Espécie ameaçada de extinção.

Jogamos mais alguns doces de morango na bolsa dele — era o sabor favorito.

Ficamos sentados por um tempo, até ouvirmos um gemido fraco vindo da esquerda dos trilhos, além de uma pequena curva onde não dava pra ver o que se aproximava. O grito soava como uma mistura de ar passando por tubos metálicos estreitos e o ruído verdadeiro, vil, de algo vivo. Exatamente quando pontas de luz começaram a atravessar as folhas, na escuridão que se aprofundava, um cervo entrou no nosso campo de visão. Corria pelos trilhos, a cabeça girando em todas as direções enquanto as patas continuavam levando seu corpo em linha reta. Parecia preso entre as duas linhas de metal; o pescoço, em certo momento, torcido para trás a ponto de quase encostar na curva das costas — como um gancho de açougueiro. Depois, a cabeça virou bruscamente para o lado, a boca escancarada, torta e frouxa. E ele continuou correndo.

Olhei para Maxi enquanto Andrea recuava atrás de nós. Lucas se abaixou, procurando algo pesado — uma pedra ou um galho —, mas sem tirar os olhos daquela pobre criatura. Enquanto a besta errática seguia pelos trilhos, ficamos paralisados, vendo o cervo disparar na nossa direção. Ele passou bem pelo centro do nosso campo de visão, o pescoço dobrado em 90 graus para nos encarar de frente. Ficou imóvel por um instante — e foi então que ouvi o apito novamente.

As luzes de uma máquina se aproximando distorceram nossas sombras. Um trem surgiu na via metálica, com velocidade moderada, porém implacável. Alcançou o cervo. Pegou suas patas traseiras, jogando-o de costas; as patas dianteiras se agitaram por meio segundo antes de se dobrarem contra o corpo, esfacelando-se em pedaços de carne que voaram pelo ar como gotas quentes do animal imolado. O trem pareceu parar.

Ouvi Maxi gritar quando os respingos nos alcançaram — senti a viscosidade esfriar na pele, nos pregando ao chão no choque do que acabara de acontecer. Depois de limpar o rosto, olhei à frente… mas o trem tinha desaparecido. Já havia passado pelo próximo trecho de árvores, mais rápido do que deveria, sem deixar traço algum de luz ou som. Não fazia sentido — um instante antes, parecia quase parado.

Na ausência do trem, recuperamos os sentidos e olhamos uns para os outros. Em silêncio, viramos e saímos correndo. Claro, animais às vezes são atropelados por trens… mas por que aquele cervo agira daquele jeito? Talvez fosse só o comportamento raivoso de um bicho apavorado. De qualquer forma, estava escuro e aterrorizante, então continuamos correndo. Atravessamos um trecho curto de grama, entramos no matagal de árvores, ouvindo nossas respirações ofegantes e os passos pesados. Ouvi a sacola de doces balançando na mão de Maxi — ela nem estava em condições de perceber que ainda a carregava.

Perto do fim da mata, os troncos se fecharam ao nosso redor, nos espremendo. Senti a mão de Lucas alcançar a minha — por medo ou necessidade, tentando se agarrar. Senti a viscosidade que imaginei ser sangue do animal, que ele devia ter esfregado freneticamente. Mas, um segundo depois, com meu aperto fraco, senti sua mão se soltar. Não ouvi ele cair, mas lembro agora da ausência daquela quarta batida de passos nos últimos minutos da nossa fuga. Na hora, talvez nem tenha notado que ele tinha sumido. E mesmo agora não tenho certeza do que o fez agir daquela forma logo depois. Ainda assim, me pergunto: naqueles segundos de silêncio, enquanto ele jazia no chão vendo nossa retirada precipitada, se eu tivesse voltado para segurar a mão do meu amigo… será que ele não teria sofrido aquela crueldade injusta que o levou como consequência do meu abandono?

Quando saímos do outro lado da floresta, corremos pelo capim descuidado e sentimos o cheiro da primeira fumaça de fogueiras apagadas. Olhamos uns para os outros, desesperados.

— Cadê o Lucas? — a voz de Andrea saiu rouca, tensa.

— Ele… acho que caiu — respondi, olhando de volta para as árvores ao longe.

— Será que ele levantou? Dava pra ver ele, mesmo que estivesse bem atrás! — Maxi entrou em pânico com seu próprio raciocínio.

Olhei para as duas, pesando nossas opções. A lembrança da mão dele não saía da minha cabeça. De algum modo, eu sabia que algo tinha acontecido. Contra meu próprio julgamento, mandei que esperassem enquanto eu voltaria só alguns passos para procurá-lo. Eu sabia que ele não estaria lá. Sabia que, assim que confirmasse que ele não tinha saído da mata, eu não voltaria. Era uma convicção estranha, fixa: algo tinha mudado. Havia ocorrido uma alteração na própria atmosfera da Terra — algo que eu não podia apagar, mas precisava testemunhar. Assim, respirei fundo e corri de volta.

Corri para dentro das árvores, entre os troncos escuros de tilia e olmo, e vi novamente os fios brilhantes de luz surgindo pela direita. Ouvi o apito fraco outra vez — mas agora era puramente mecânico: o lamento de uma máquina velha e desgastada que ainda não ia quebrar, que terminaria seu trabalho naquele dia.

Quando me aproximei do outro lado da mata, vi Lucas parado na beira do bosque, dois passos além do ponto onde as raízes visíveis terminavam. À sombra dos feixes de luz de um trem que eu sabia estar se aproximando — mas, por algum motivo, ainda não conseguia ver —, vi sua cabeça virar na minha direção. Ao me ver, ele desviou o olhar. Senti um impulso enorme de ir até ele, não para impedir o que estava prestes a acontecer, mas para ir junto. Mas, no exato momento em que dei um passo à frente, a sombra densa da linha de árvores pareceu pesar sobre mim, ordenando que eu ficasse onde estava. Não era uma força que me impedia fisicamente, mas uma sensação de pavor absoluto diante da ideia de cruzar aquele limite.

Vi Lucas tentar correr — mas era lento, penoso. Uma das pernas dele torcia e girava sem controle; os ombros sacudiam para lá e para cá; o outro pé estava dobrado tão para baixo que o fazia parecer vários centímetros mais baixo do que era, curvado de um jeito antinatural, como se tentasse cravar-se no chão para parar o próprio movimento.

Foi então que percebi, ao fundo do que afligia meu amigo, que um trem estava vindo pelos trilhos.

Gritei por ele enquanto seu pé arrastava no cascalho. Dei um passo para fora da grama, longe da segurança das árvores. Gritei seu nome de novo — um chamado penetrante na atmosfera de tragédia inevitável, um grito de abandono total que eu esperava, desesperadamente, que fizesse alguma diferença. Então, ele olhou para trás. Havia alguma lucidez em sua postura, seu corpo encolhido de dor.

Vi quando ele tentou tirar um pé dos trilhos para escapar — mas o trem agarrou a outra perna, mutilando seu pé e sua canela. Todo o corpo dele se torceu enquanto era arrastado para debaixo da máquina. Foi jogado de bruços, com a perna intacta se contorcendo em espasmos incoerentes pelo trauma infligido ao seu corpo. Estava estirado ali, se debatendo de forma grotesca e desordenada — uma cena horrível, vil, como derradeiro adeus. O trem passou por cima dele, apagando inequivocamente todos os traços do meu amigo deste mundo.

Só restaram as entranhas esmagadas, ossos e sangue — indistinguíveis de qualquer humano ou animal — e a sacola de doces cheia de amêndoas salgadas e toffees de morango, para que nunca esquecêssemos dele.

Já se passaram alguns anos desde aquele incidente. Seria um belo final dizer que seguimos em frente com estoicismo inabalável, mostrando a resiliência vibrante da juventude… mas não foi isso que aconteceu. Nossas vidas pararam quando ele morreu. Andrea nunca mais falou conosco — afinal, tinha sido ideia dela sair no Halloween. Maxi nos contou, depois do funeral, que não aguentava mais os olhares interrogativos das pessoas pela cidade, cochichando que tínhamos feito algo com ele ou cutucando sobre o motivo do “suicídio”. Ninguém acreditou no que contamos.

Quanto a mim, fingi que continuei o mesmo. Esperava esquecer ou distorcer na memória o que tinha visto. Torcia para me autoenganar de propósito: se eu nunca mudasse, nunca envelhecesse, talvez nunca notasse que Lucas não estava ali, envelhecendo comigo.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon