sábado, 7 de fevereiro de 2026

Ser pai não deveria terminar assim...

É difícil explicar pra quem não tem filhos como o amor que você sente pelo seu filho é diferente de qualquer outra emoção. Como, lá no fundo do seu estômago, você sabe que morreria por ele, que sacrificaria qualquer coisa — e qualquer um. Até uns dias atrás, eu nunca tinha parado pra pensar nas consequências de sentimentos desse tipo.

— Você não devia acordá-lo — disse minha esposa da cama.  

Na verdade, eu não ia acordar meu filho. Eu sabia — de onde, não sei — que você não acorda alguém que está sonâmbulo.

Eram 3 da manhã. Sullivan, nosso filho, estava parado feito uma estátua na porta do nosso quarto, uma espécie de manequim infantil vestindo pijama de beisebol. Quanto tempo ele já estava ali, eu não fazia ideia — só sei que, quando me levantei pra fazer minha visita noturna ao banheiro, lá estava ele. Silencioso. Na soleira da porta. Observando.

— Tá tudo bem, campeão? — sussurrei, passando a mão na frente dos olhos dele. Ele nem piscou, nem pareceu enxergar nada. Coloquei a mão no ombro dele pra guiá-lo de volta à cama quando a voz de Penelope me interrompeu:  

— Você acha mesmo que ele devia dormir com aquilo pendurado no pescoço? Pode se enforcar.

Aquela “coisa” era o pingente que eu tinha comprado pro meu filho mais cedo naquele dia.

Sully tinha uma peneira importante de beisebol na sexta-feira, pra ver se entrava no time da escola. Já era um garoto ansioso por natureza, e nos últimos sete dias virou um novelo de nervos. Então, quando esbarrei naquele pingente com trevo de quatro folhas na barraca lá fora da feira de quarta-feira, achei que tinha ganhado na loteria da paternidade. Beisebol é um esporte cheio de superstição — algo que Sully já tinha percebido.

— Ele disse que o pingente o faz se sentir com sorte, e a gente precisa de todos os bons pressentimentos que conseguir agora — falei, apontando pro Sully e fazendo uma cara de “tá vendo só?”.

Penelope franziu a testa.  

— Pelo menos a corrente é fina — murmurou, virando-se de lado.

Na manhã seguinte, quinta-feira, Sullivan não lembrou de nada. Durante o café da manhã de sempre — corn flakes e banana —, estava sendo o típico garoto de onze anos. Deixei ele na fila de carros da escola e rezei pra que, como minha pesquisa na internet sugeriu, o sonambulismo fosse só um episódio isolado causado pelo estresse.

Não foi. Naquela noite, foi Pen quem acordou primeiro. Ela me sacudiu (com força demais, na minha opinião) e lá estava Sully: de novo com aquele rosto em branco, mas dessa vez mais perto — aos pés da nossa cama.

Com delicadeza, como a internet orientava, Penelope disse:  

— Tá tudo bem, amor.

Sully, dormindo mas não exatamente, não respondeu.

— Que legal — sussurrou Penelope. — Acho que isso virou rotina agora.  

Tentou soar descontraída, mas eu conheço minha mulher e dava pra ver que ela tava estressada com aquilo. Pra falar a verdade, eu também tava. Não tanto pelo sonambulismo em si, mas mais porque nem eu nem ela conseguimos voltar a dormir fácil depois que a luz acende.

Na manhã seguinte, eu tava exausto; Penelope, ainda mais. Dizem que a juventude é desperdiçada nos jovens. Pois então, o sono também é desperdiçado neles. Nos nossos vinte e poucos anos, a gente não ligava pra dormir. Agora, na meia-idade, poucas coisas importam mais. Uma delas, claro, era o Sully. Tinha chegado a hora de procurar ajuda profissional. Pen disse que ligaria pro pediatra, mas que estaria em audiência o dia todo — será que eu podia marcar? Claro, respondi.

A única pessoa descansada em casa era o meu garoto. Nervoso com a peneira, sim — mas pulava pela casa feito um chihuahua cheio de cafeína. Ficava passando os dedos no pingente que usava por fora da camiseta. Gostei disso. Gostei de imaginar que aquele pingente era a fonte da energia e do bom humor dele.

Depois que deixei Sully na escola e me acomodei no escritório, liguei pro médico dele. A primeira consulta disponível era na segunda de manhã. Disse à atendente que minha esposa estava muito preocupada (desculpa, Pen!). A moça não ligou. “Crianças fazem esse tipo de coisa o tempo todo”, falou. Nada do que eu contei soou alarmante pra ela.

Quando fui buscar Sully na escola, eu tava mais preocupado com a peneira de beisebol do que com o sonambulismo — e fiquei aliviado ao vê-lo saltitando até o carro. Ele tinha dado um home run! Soltei um grito de comemoração: “Isso aí! Sensacional!”  

O que não foi tão sensacional foi que, em casa, ele ficou ainda mais hiperativo — tipo um chihuahua dopado em Red Bull. Penelope, que teve um dia infernal no tribunal, não tava no seu melhor momento e, por algum motivo, focou de novo no pingente, que Sully nem tirara no banho. Ela queria que ele tirasse aquela droga do pescoço.  
Sully respondeu que foi o pingente que o ajudou a acertar o home run.  

Eu concordei: achei que realmente tinha ajudado.  
E assim, aquela pequena bugiganga — aquele mimo de pai pra filho — virou motivo de discussão.

Pen saiu batendo o pé e foi dormir. Às 22h30, duas horas depois do horário normal de Sully ir pra cama, as luzes do quarto dele estavam apagadas e tudo estava quieto. Quando voltei pro nosso quarto, Pen já tinha acordado de novo, preocupada com o julgamento, preocupada com o nosso filho, e agora preocupada por não estar conseguindo dormir. Pediu que eu desse uma olhada em Sully. Fui lá. Estava totalmente apagado. De volta ao quarto, senti a tensão se dissipar — e, em vinte minutos, os dois estávamos, finalmente, dormindo.

A próxima coisa que lembro é o grito agudo de Penelope.  

Levantei num pulo.  

Sully estava ali, ao lado da cama, com as mãos pousadas no braço da mãe.

É uma sensação horrível sentir arrepios ao ver seu próprio filho. Mas vê-lo ali, com o rosto em branco e as mãos na pele dela, foi assustador.

Não disse nada enquanto repetia o ritual de guiá-lo de volta à cama.

— O pediatra só consegue nos atender na segunda? 

— perguntou Penelope quando voltei.  

O cobertor estava puxado até o pescoço dela.

— Disseram que não tem com o que se preocupar. Que isso é normal.  

Falei com convicção — tanto pra convencer a mim mesmo quanto a ela.

Nenhum dos dois ficou convencido, mas o que mais dava pra dizer? Não pensei em nada… até que pensei.

— Que tal a gente pegar um hotel amanhã à noite? Tipo, umas férias só pra dormir. Uma noite só. Minha irmã pode vir cuidar dele, se estiver livre.

Esperei Pen rebater a ideia, dizer que tava preocupada demais com Sully pra deixá-lo. Em vez disso, ela respondeu:  

— Acho uma ótima ideia.

As coisas começaram a se encaixar, quase como se fosse destino. Minha irmã estava disponível. Contei a ela sobre o sonambulismo, e ela nem se abalou. Sully ficou eufórico só de pensar em passar a noite vendo filmes e comendo porcaria com a tia Summer. Penelope e eu jantamos no nosso restaurante italiano favorito. De sobremesa, pedimos tiramisu — o preferido dela.

Pen adormeceu às sete da noite.

Antes de apagar também, dei uma olhada no celular. 

Tinha uma mensagem da minha irmã:  

“Tudo tranquilo por aqui. Sully deve tá tão cansado quanto vocês — desmaiou antes mesmo da metade de ‘The Sandlot’. Já coloquei ele na cama. Posso abrir aquela garrafa de Turley que você tá guardando?”

Sem hesitar, mandei um joinha.

Em minutos, eu estava tão inconsciente quanto minha esposa e meu filho.

Algum tempo depois, acordei com um clique suave — que agora percebo ter sido o som da porta do hotel se abrindo. Voltei a dormir, só pra despertar de novo segundos depois com o grito de Penelope.

O que vi na penumbra: uma silhueta pequena e escura com o braço erguido. O brilho de metal. Penelope ao meu lado, de costas, uma mancha escura se espalhando pela camiseta dela.

Sem pensar, rolei por cima da minha mulher e me lancei contra o agressor. O corpo era pequeno. E familiar.

Sully perdeu o equilíbrio, e, mesmo com minhas pernas enroscadas nos lençóis, meu peso foi suficiente pra prendê-lo no chão. Gritei o nome da minha esposa enquanto esmagava o braço do meu filho contra o carpete. Penelope calada. Sully calado. A faca saltou e deslizou pelo tapete.

Fui até os joelhos, sem soltar meu garoto, e olhei pra Penelope. A camiseta branca dela agora estava preta de sangue. Os olhos e a boca abertos, imóveis.

Sully tentou se soltar do meu aperto. Joguei ele no chão com mais violência do que jamais usei contra outra pessoa. Ele se encolheu e começou a berrar — o primeiro som que fazia desde que entrara no quarto.

Por mais insano que pareça, por um instante pensei em ir até ele, consolá-lo, fazer tudo voltar ao normal.

Mas Penelope…

Liguei a luz do criado-mudo. Enquanto virava a cabeça na direção dela, algo brilhou no chão. Era o pingente, arrancado do pescoço de Sully durante a luta. Tinha se partido ao meio, soltando o trevo de dentro do vidro.

O trevo não tinha quatro folhas. Tinha cinco.  
E, desenhadas nessas folhas, havia cinco linhas rabiscadas formando uma estrela.  
Um pentagrama.

Meu novo smartwatch tem esse recurso estranho

Então… eu realmente não sei por onde começar com isso, então vou simplesmente começar do jeito mais óbvio possível: adivinha… foi aí que tudo começou.

Antes de mais nada, quero deixar claro que eu nunca gostei muito do Natal. Nunca mesmo. Não tenho nenhum motivo especial pra isso — é só que, pra mim, essa coisa toda nunca fez sentido, nunca “clicou”, como parece fazer pra maioria das pessoas.

Neste Natal, como sempre, eu não pedi nada em particular. Eu nunca peço. Mas minha irmã, como sempre faz, não aceitou um “não” como resposta e ficou insistindo pra ver se eu dava alguma pista, qualquer coisa que eu pudesse usar ou quisesse ganhar. Só que, sério, não tinha nada que eu quisesse. Mesmo assim, ela continuou teimando até achar algo.

Então, quando fui abrir os presentes com a família toda reunida, o dela era… um smartwatch. Confesso que fiquei surpreso com o palpite certeiro. Até porque eu andava de olho num relógio novo depois que o meu antigo morreu de repente — ele bateu com força demais na bancada de mármore da pia do banheiro e simplesmente parou de funcionar. Agradeci muito a ela, é claro. Quanto aos outros presentes, foram coisas bem comuns pra alguém que não pede nada: só as meias de sempre e camisetas com estampas ridículas.

Depois de voltar pra casa, conferi se todas as roupas serviam e separei tudo em duas pilhas: o que ficava e o que eu precisaria trocar pelo tamanho certo. Aí fui configurar o novo relógio e dar uma olhada nele.

Não era uma marca que eu já tivesse ouvido falar, e eu não sabia absolutamente nada sobre ela. Mas, sendo um presente, eu não podia ser exigente nem reclamar — afinal, era um relógio “de graça”, né?

Durante a configuração, apareceram as perguntas de sempre: permissão pra usar dados de localização, sincronização com o celular, se eu queria que ele monitorasse minha frequência cardíaca ou não. Mas aí veio uma opção diferente, que me pegou de surpresa — um recurso que eu nunca tinha ouvido falar:  

> “Deseja ativar o monitor de medo?”

Com botões de “Sim” ou “Não”.

Lembrei que pensei: “Ah, deve ser alguma novidade nova que tão testando nesses modelos mais baratos antes de lançar nos relógios famosos. Tipo um teste beta com usuários reais.” Então pensei: “Por que não? Vamos lá.”

Esqueci disso rapidamente e nem liguei mais por um tempo. Só recebia as notificações normais de smartwatch: “Frequência cardíaca alta” ou “Você deveria descansar um pouco”. Coisas comuns, sabe?

Mas numa noite — eu moro sozinho, então a casa tava vazia, como sempre, e não tinha nada acontecendo — eu tava só deitado no sofá, vendo qualquer besteira na TV, sem pensar em nada de importante. Foi aí que apareceu a notificação:  

> “Medo detectado.”

Isso me pegou completamente de surpresa. Eu não tava com medo de nada, de jeito nenhum. Tava só assistindo a algum filme de comédia aleatório e pensando em ir dormir. Mas só de ver aquela mensagem, senti um frio na espinha — aquela sensação esquisita, tipo quando você sente que tá sendo observado, mesmo achando que tá sozinho.

No fim das contas, ignorei. “É só frescura”, pensei. E fui dormir sem mais nada acontecer.

Só que, depois disso, a notificação começou a aparecer de vez em quando… cada vez com mais frequência. E, com o tempo, eu comecei a sentir medo só de ver a mensagem. Era como se eu tivesse virando paranoico por causa de algo que eu sabia que não existia.

Até que, numa noite, enquanto eu tava deitado na cama tentando pegar no sono, ouvi um barulho vindo do andar de baixo — um clique suave, tipo alguém batendo de leve numa mesa de madeira.

E adivinha? A notificação disparou de novo.  

> “Medo detectado.”

Dessa vez, concordei com ela. Sentia que não tava sozinho. Como se tivesse algo — ou alguém — dentro de casa comigo.

Liguei todas as luzes e vasculhei cada cômodo, procurando qualquer sinal de movimento. Nada. Tudo exatamente como sempre: vazio, silencioso, normal. Concluí que a paranoia tava piorando por causa do relógio, então resolvi desligá-lo. Se o problema era eu ficar assustado com as notificações, então tirar o relógio do jogo resolveria tudo, certo? Voltei pra cama.

Mas aí, por volta das 2h54 da manhã, fui acordado por uma vibração na mesinha ao lado da cama. Era o relógio. A notificação dizia:  

> “Medo detectado.”

Achei aquilo extremamente estranho — e, cara, deu um frio de arrepiar. Foi aí que ouvi de novo. O clique. Só que dessa vez… muito, muito mais perto. Parecia que alguém tava batendo de leve na parede do meu quarto, do corredor.

Naquele momento, eu tava tremendo inteiro. O medo me engoliu por completo e me prendeu na cama, imóvel. Quando o barulho parou e eu finalmente juntei coragem pra sair de novo, fui devagar, cômodo por cômodo, conferindo tudo. Travei a porta da frente, verifiquei todas as janelas — tudo estava trancado desde o início. Na verdade, nada tinha sido mexido. Cheguei até a trancar a porta do meu quarto e guardei o relógio numa gaveta da escrivaninha. Tentei dormir de novo, torcendo só pra conseguir mais algumas horas de sono antes de tentar entender o que diabos tava acontecendo pela manhã. Talvez eu precisasse de um psiquiatra… mas isso seria um problema de amanhã.

Só que… aconteceu de novo.

Fui acordado pelo som abafado do motor de vibração do relógio, ainda dentro da gaveta. Nem precisei levantar pra ver a notificação — eu já sabia o que ia dizer:  

> “Medo detectado.”

Nesse ponto, eu tava completamente apavorado. Meu coração devia estar batendo a mil por hora. E, no canto mais escuro do meu quarto, consegui enxergar — mal, mas enxerguei — dois pequenos pontos brilhantes, sombrios, que eu juro que eram olhos.

Antes mesmo que eu conseguisse reagir, meu instinto de luta ou fuga assumiu o controle… e eu desmaiei.

De manhã, quando acordei de novo, corri por todos os cômodos da casa procurando qualquer coisa fora do normal. Nada. Absolutamente nada. Nem liguei pra me arrumar pro trabalho ou seguir minha rotina matinal. Fui direto pro psiquiatra — o primeiro resultado no Google. Nem me dei ao trabalho de avisar no serviço; eles iam perceber quando eu não aparecesse.

Contei pra ela tudo o que acabei de contar pra você — cada detalhe que lembro. Ela só disse que era paranoia induzida por estresse, já que não havia nenhuma evidência real de que algo tivesse acontecido de verdade.

Receitou uns remédios pra ansiedade, ensinou exercícios de respiração e marcou uma consulta pra semana que vem.  

Mas, mesmo assim…  

Isto aqui é um aviso:
Se você tiver um relógio com esse tal “monitor de medo”… jogue fora.

Já fiz isso. Nunca mais quero ver aquela porra.

Mesmo que seja só minha mente pregando peças em mim…  

Agora eu não sei o que é pior:  

— Ser o relógio me deixando paranoico, me fazendo ver coisas que não existem…  

— Ou ele ter algum sexto sentido, capaz de detectar medo de verdade…  

Ou pior ainda… ser capaz de detectar coisas que a gente não deveria ver.

Na verdade… não quero saber.

Só quero que tudo volte a ser como era antes.

Existem monstros no Meio-Oeste que eu não consigo explicar; hoje preciso falar sobre os trens

Os trilhos cortam as cidades e fazendas, atravessando planícies onduladas e campos secos de trigo postos à venda anos atrás. Eles passam bem pertinho das casas e, um quilômetro depois, seguem direto pelo nada absoluto das antigas terras agrícolas — tão planas que só os celeiros em ruínas conseguem projetar sombras sobre os campos de capim. Os trilhos parecem surgir do nada e desaparecer no mesmo vazio.

Mas essa imagem perde todo o encanto quando você está dirigindo. De repente, as luzes se acendem, e um trem que você juraria não ter visto na visão periférica começa a avançar com aquela lentidão agonizante bem na sua frente. Quando ele finalmente some e você cruza os trilhos, não consegue enxergá-lo em lugar nenhum ao longo do caminho por onde deveria estar. Às vezes, você se pergunta se existe alguma curva na estrada que nunca notou… ou se simplesmente imaginou aquele trem.

Sempre tive essa ideia esquisita sobre os trens: eles vinham e iam embora, mas nunca pareciam presos a nenhuma direção específica. De qualquer forma, ninguém dá muita bola pra essas coisas quando elas estão sempre por perto. É como qualquer outra bizarrice da cidade da sua infância — algo que você nunca questiona até alguém de fora apontar e perguntar: “Ei, isso aqui é normal?”

Enfim, o motivo pelo qual estou escrevendo isto é servir de preâmbulo à história que me arrancou daquela falsa sensação de normalidade que perdi depois do incidente. Nem sei direito por que estou escrevendo isso, mas quero terminar antes de começar a duvidar demais.

Cinco anos atrás, na noite de Halloween, eu e meus amigos decidimos — numa espécie de homenagem ao último ano da nossa infância — sair fantasiados numa derradeira investida por doces grátis. Tô me empolgando demais… O ponto é que, naquela noite, batemos nas portas das casas mais antigas, tocando campainhas e pedindo doces. Sorrimos diante daquela leve decepção nos rostos das pessoas ao verem nossas silhuetas adultas na soleira da porta — uma decepção que, mesmo assim, ainda nos desejava um “Feliz Halloween” e nos entregava guloseimas só pra evitar o constrangimento geral.

Depois de impor nossa pressão social fantasiada, resolvemos aproveitar nossa idade — já tínhamos 17 anos — pra vagar por alguma parte abandonada da cidade, longe dos caminhos seguros das crianças e dos pais. Saímos das ruas residenciais e entramos nas áreas descampadas, sem grama, além dos quintais sem cercas, onde festas clandestinas aqueciam o frio em volta de fogueiras. Atravessamos um pequeno bosque de árvores preservado só pra não desvalorizar ainda mais os terrenos da região, até chegar a um campo de grama verde com aquelas barras metálicas intrusivas sobre cascalho áspero e pedras, a menos de seis metros da linha de árvores. Era como um rio de metal e pedra forçando a natureza ao redor a se afastar e se curvar. Talvez aquela paisagem não fosse tão melancólica naquele dia quanto é agora.

— Então, o que a gente faz agora? — perguntou Maxine, que tinha nos guiado o caminho inteiro. A máscara branca cobrindo metade do rosto dela estava escorregando; ela era a Fantasma de O Fantasma da Ópera.

— Fotos? — sugeriu Lucas, vestido como um mago de barba branca, enrolado num roupão rosa que provavelmente era dele mesmo, e não da mãe.

— Sei lá — respondeu Andrea, com um vestido vermelho e dentes falsos afiados, feitos de cera. Ela tinha explicado que era Carmilla.

— O que mais vocês querem fazer? — perguntei eu.

— Tô boa pra qualquer coisa — garantiu Maxi.

— Pois é, mesma coisa aqui — disse Andrea.

— Tipo… o quê, exatamente? — insisti.


— Ehhh... — murmuramos todos, cada um à sua maneira.

Essa conversa idiota era praticamente o prelúdio da maioria das nossas pequenas aventuras pela cidade — geralmente terminando com um de nós recebendo uma mensagem de “cadê você?” de mãe ou pai, e todos decidindo voltar pra casa. No caminho de volta, fingíamos que a preocupação dos nossos pais era a coisa mais irritante do mundo, escondendo aquele leve nervosismo de que talvez realmente os tivéssemos deixado chateados. Éramos uns idiotas, francamente — barulhentos, arrogantes, achando que o mundo inteiro observava, fascinado, as vidas suburbanas de quatro adolescentes. Talvez soubéssemos, no fundo, que éramos iguais a qualquer outro grupo de moleques crescendo numa cidade do meio do nada, sonhando que dominaríamos o mundo assim que conseguíssemos fugir dali. Talvez isso seja só parte de crescer. Queria ter certeza. Queria saber o que teria sido de nós se todos tivéssemos sobrevivido.

Enquanto enrolávamos ali, decidimos sentar e abrir nossos saques de doces. Lucas tentou trocar pacotinhos de amêndoas salgadas por Skittles, achando que conseguiria enganar alguém com isso. Por pena, Andrea jogou um toffee na cabeça dele.

— Ai! — ele respondeu com cara de tédio. — Por que eu nunca ganho nada bom?

— Porque você parece uma garça-cor-de-rosa.

— E é ilegal alimentar garças-cor-de-rosa.

— Espécie ameaçada de extinção.

Jogamos mais alguns doces de morango na bolsa dele — era o sabor favorito.

Ficamos sentados por um tempo, até ouvirmos um gemido fraco vindo da esquerda dos trilhos, além de uma pequena curva onde não dava pra ver o que se aproximava. O grito soava como uma mistura de ar passando por tubos metálicos estreitos e o ruído verdadeiro, vil, de algo vivo. Exatamente quando pontas de luz começaram a atravessar as folhas, na escuridão que se aprofundava, um cervo entrou no nosso campo de visão. Corria pelos trilhos, a cabeça girando em todas as direções enquanto as patas continuavam levando seu corpo em linha reta. Parecia preso entre as duas linhas de metal; o pescoço, em certo momento, torcido para trás a ponto de quase encostar na curva das costas — como um gancho de açougueiro. Depois, a cabeça virou bruscamente para o lado, a boca escancarada, torta e frouxa. E ele continuou correndo.

Olhei para Maxi enquanto Andrea recuava atrás de nós. Lucas se abaixou, procurando algo pesado — uma pedra ou um galho —, mas sem tirar os olhos daquela pobre criatura. Enquanto a besta errática seguia pelos trilhos, ficamos paralisados, vendo o cervo disparar na nossa direção. Ele passou bem pelo centro do nosso campo de visão, o pescoço dobrado em 90 graus para nos encarar de frente. Ficou imóvel por um instante — e foi então que ouvi o apito novamente.

As luzes de uma máquina se aproximando distorceram nossas sombras. Um trem surgiu na via metálica, com velocidade moderada, porém implacável. Alcançou o cervo. Pegou suas patas traseiras, jogando-o de costas; as patas dianteiras se agitaram por meio segundo antes de se dobrarem contra o corpo, esfacelando-se em pedaços de carne que voaram pelo ar como gotas quentes do animal imolado. O trem pareceu parar.

Ouvi Maxi gritar quando os respingos nos alcançaram — senti a viscosidade esfriar na pele, nos pregando ao chão no choque do que acabara de acontecer. Depois de limpar o rosto, olhei à frente… mas o trem tinha desaparecido. Já havia passado pelo próximo trecho de árvores, mais rápido do que deveria, sem deixar traço algum de luz ou som. Não fazia sentido — um instante antes, parecia quase parado.

Na ausência do trem, recuperamos os sentidos e olhamos uns para os outros. Em silêncio, viramos e saímos correndo. Claro, animais às vezes são atropelados por trens… mas por que aquele cervo agira daquele jeito? Talvez fosse só o comportamento raivoso de um bicho apavorado. De qualquer forma, estava escuro e aterrorizante, então continuamos correndo. Atravessamos um trecho curto de grama, entramos no matagal de árvores, ouvindo nossas respirações ofegantes e os passos pesados. Ouvi a sacola de doces balançando na mão de Maxi — ela nem estava em condições de perceber que ainda a carregava.

Perto do fim da mata, os troncos se fecharam ao nosso redor, nos espremendo. Senti a mão de Lucas alcançar a minha — por medo ou necessidade, tentando se agarrar. Senti a viscosidade que imaginei ser sangue do animal, que ele devia ter esfregado freneticamente. Mas, um segundo depois, com meu aperto fraco, senti sua mão se soltar. Não ouvi ele cair, mas lembro agora da ausência daquela quarta batida de passos nos últimos minutos da nossa fuga. Na hora, talvez nem tenha notado que ele tinha sumido. E mesmo agora não tenho certeza do que o fez agir daquela forma logo depois. Ainda assim, me pergunto: naqueles segundos de silêncio, enquanto ele jazia no chão vendo nossa retirada precipitada, se eu tivesse voltado para segurar a mão do meu amigo… será que ele não teria sofrido aquela crueldade injusta que o levou como consequência do meu abandono?

Quando saímos do outro lado da floresta, corremos pelo capim descuidado e sentimos o cheiro da primeira fumaça de fogueiras apagadas. Olhamos uns para os outros, desesperados.

— Cadê o Lucas? — a voz de Andrea saiu rouca, tensa.

— Ele… acho que caiu — respondi, olhando de volta para as árvores ao longe.

— Será que ele levantou? Dava pra ver ele, mesmo que estivesse bem atrás! — Maxi entrou em pânico com seu próprio raciocínio.

Olhei para as duas, pesando nossas opções. A lembrança da mão dele não saía da minha cabeça. De algum modo, eu sabia que algo tinha acontecido. Contra meu próprio julgamento, mandei que esperassem enquanto eu voltaria só alguns passos para procurá-lo. Eu sabia que ele não estaria lá. Sabia que, assim que confirmasse que ele não tinha saído da mata, eu não voltaria. Era uma convicção estranha, fixa: algo tinha mudado. Havia ocorrido uma alteração na própria atmosfera da Terra — algo que eu não podia apagar, mas precisava testemunhar. Assim, respirei fundo e corri de volta.

Corri para dentro das árvores, entre os troncos escuros de tilia e olmo, e vi novamente os fios brilhantes de luz surgindo pela direita. Ouvi o apito fraco outra vez — mas agora era puramente mecânico: o lamento de uma máquina velha e desgastada que ainda não ia quebrar, que terminaria seu trabalho naquele dia.

Quando me aproximei do outro lado da mata, vi Lucas parado na beira do bosque, dois passos além do ponto onde as raízes visíveis terminavam. À sombra dos feixes de luz de um trem que eu sabia estar se aproximando — mas, por algum motivo, ainda não conseguia ver —, vi sua cabeça virar na minha direção. Ao me ver, ele desviou o olhar. Senti um impulso enorme de ir até ele, não para impedir o que estava prestes a acontecer, mas para ir junto. Mas, no exato momento em que dei um passo à frente, a sombra densa da linha de árvores pareceu pesar sobre mim, ordenando que eu ficasse onde estava. Não era uma força que me impedia fisicamente, mas uma sensação de pavor absoluto diante da ideia de cruzar aquele limite.

Vi Lucas tentar correr — mas era lento, penoso. Uma das pernas dele torcia e girava sem controle; os ombros sacudiam para lá e para cá; o outro pé estava dobrado tão para baixo que o fazia parecer vários centímetros mais baixo do que era, curvado de um jeito antinatural, como se tentasse cravar-se no chão para parar o próprio movimento.

Foi então que percebi, ao fundo do que afligia meu amigo, que um trem estava vindo pelos trilhos.

Gritei por ele enquanto seu pé arrastava no cascalho. Dei um passo para fora da grama, longe da segurança das árvores. Gritei seu nome de novo — um chamado penetrante na atmosfera de tragédia inevitável, um grito de abandono total que eu esperava, desesperadamente, que fizesse alguma diferença. Então, ele olhou para trás. Havia alguma lucidez em sua postura, seu corpo encolhido de dor.

Vi quando ele tentou tirar um pé dos trilhos para escapar — mas o trem agarrou a outra perna, mutilando seu pé e sua canela. Todo o corpo dele se torceu enquanto era arrastado para debaixo da máquina. Foi jogado de bruços, com a perna intacta se contorcendo em espasmos incoerentes pelo trauma infligido ao seu corpo. Estava estirado ali, se debatendo de forma grotesca e desordenada — uma cena horrível, vil, como derradeiro adeus. O trem passou por cima dele, apagando inequivocamente todos os traços do meu amigo deste mundo.

Só restaram as entranhas esmagadas, ossos e sangue — indistinguíveis de qualquer humano ou animal — e a sacola de doces cheia de amêndoas salgadas e toffees de morango, para que nunca esquecêssemos dele.

Já se passaram alguns anos desde aquele incidente. Seria um belo final dizer que seguimos em frente com estoicismo inabalável, mostrando a resiliência vibrante da juventude… mas não foi isso que aconteceu. Nossas vidas pararam quando ele morreu. Andrea nunca mais falou conosco — afinal, tinha sido ideia dela sair no Halloween. Maxi nos contou, depois do funeral, que não aguentava mais os olhares interrogativos das pessoas pela cidade, cochichando que tínhamos feito algo com ele ou cutucando sobre o motivo do “suicídio”. Ninguém acreditou no que contamos.

Quanto a mim, fingi que continuei o mesmo. Esperava esquecer ou distorcer na memória o que tinha visto. Torcia para me autoenganar de propósito: se eu nunca mudasse, nunca envelhecesse, talvez nunca notasse que Lucas não estava ali, envelhecendo comigo.

Quando eu era criança, algo matou minha amada galinha de estimação. Sua próxima vítima poderia ser eu

Gostaria de começar dizendo que não sou do tipo que desanda a soltar jargões espirituais diante de um problema lógico, e nunca tive medo daquilo que possa espreitar na escuridão — afinal, “não há nada lá que já não estivesse à luz do dia”, parafraseando aquele episódio clássico de Twilight Zone. Mas há um incidente da minha infância que ficou gravado em mim, algo que simplesmente não consigo racionalizar nem explicar com lógica. Evitei falar sobre isso com qualquer pessoa porque, francamente, não quero ser rotulado como algum maluco que acredita em monstros e entidades malignas — nem quero me cercar de gente que acredita nisso. É uma lembrança dolorosa, e prefiro não reviver aquela noite… mas acho que contar essa história pode ajudar outras pessoas, caso alguma vez se vejam numa situação parecida.

Cresci numa fazenda grande no interior do estado de Nova York, e desde antes mesmo do meu nascimento minha mãe já tinha um bando de galinhas por lá. Passei a infância batizando os pintinhos que as poedeiras chocavam nas paredes do celeiro, usando tampas de lixeira como escudos contra galo briguento e (exageradamente) alimentando as galinhas com milho quebrado como agrado. Elas sempre foram — e ainda são — meus animais favoritos. Conforme fui crescendo e me tornando mais responsável, ganhei mais autonomia e, eventualmente, montei meu próprio pequeno bando. Era uma mistura de raças amigáveis e coloridas, e meu preferido era um galo Faverolles enorme chamado Fudge. Fudge e suas galinhas viviam num galinheiro separado dos demais, e esse galpão era especial: antes fora uma casa na árvore construída para crianças. Eu nunca brinquei muito lá quando era pequeno — só usava o balanço que minha mãe tinha pendurado ao lado —, mas funcionava bem como abrigo para galinhas.

Logo depois que meu bando foi instalado ali, tive uma ideia que só uma criança de fazenda pouco supervisionada — mas felizmente autossuficiente — seria capaz de ter: uma "pernoite com as galinhas". A casa na árvore era feita de modo que tinha uma pequena varanda a uns quinze centímetros do chão, e a porta da parte inferior — onde ficavam as galinhas — ficava logo acima dela. No canto do galinheiro havia uma escada que levava até uma escotilha de madeira, que eu mantinha fechada exceto quando subia. Lá em cima dava para acomodar alguns travesseiros e almofadas, e de manhã era possível abrir a porta que dava para fora, levando a uma pequena sacada. Era o cenário perfeito para um garoto de 12 anos. Minha mãe ficou preocupada com a ideia, mas prometi passar repelente de insetos e manter a escotilha fechada, para não cair lá embaixo e me machucar feio — além de dar um susto desagradável nas galinhas.

Foi numa noite quente de início de julho que coloquei meu plano em prática. Por volta das 20h30, já estava acomodado na parte de cima do galinheiro. As galinhas tinham voltado do quintal e se empoleirado, mas ainda não tinham dormido. Elas têm esse hábito noturno de fazer uns sons de ronronar suave enquanto o sol se põe — um “brrrrr” baixinho —, então eu as ouvia fazendo isso e resolvi imitá-las. Elas hesitaram, confusas, mas continuaram sua canção de ninar. Levantei um pouco a escotilha e olhei lá para baixo. A maioria já tinha enfiado a cabeça nas penas macias dos ombros, mas Fudge ainda estava sentado em seu poleiro, olhando para mim com aqueles olhos alaranjados brilhantes que surgiam de seu rosto peludo como lascas de âmbar em meio a cinzas. Estiquei o braço o máximo que pude e dei umas palmadinhas nas costas dele.

— Você é um bom garoto, Fudge. Me avisa se precisar de alguma coisa. Hoje à noite a porta não tá trancada porque eu tô aqui dentro, então temos que garantir que não apareça nenhum predador por perto.

Falei com firmeza, como se ele pudesse me entender de verdade. Na realidade, eu não achava que haveria problemas com predadores; o único capaz de abrir a porta destrancada seria um urso, e fazia anos que eu não tinha problemas com ursos por ali. Como não havia como trancar a porta por dentro, só me restava torcer para que nenhum aparecesse naquela noite.

Até hoje, desejo que um urso tivesse aparecido naquela noite. Talvez as coisas tivessem terminado de outro jeito.

Adormeci logo depois de desejar boa noite às galinhas e estava dormindo profundamente quando um som me arrancou da inconsciência.

— Brurrrrrrrrrr…

Pisquei os olhos, desperto, e escutei de novo.

— Buuuuurrrrburrrbrrrrrrrrr…

Era definitivamente real, não uma alucinação auditiva. Parecia vir do campo atrás do pinheiro. E, no entanto, soava tão parecido com…

— Bwwwwrrrrrr!

Desta vez, o som veio logo abaixo de mim — e, diferentemente dos primeiros ruídos, este era claramente identificável como um dos meus pássaros, provavelmente o Fudge, fazendo o chamado de alarme das galinhas. O que tinham feito antes era um som tranquilo da noite, mas este era diferente. Normalmente, os galos emitem esse som quando veem uma ave de rapina, mas qualquer movimento ou barulho estranho também pode desencadeá-lo.

— BURRRRRRRRRRRR!

Agora, o som era mais alto — e verdadeiramente assustador não pela proximidade, mas pela distância. Vinha do mesmo lugar do primeiro ruído, mas parecia uma espécie de repetição do que eu acabara de ouvir Fudge fazer. E eu sabia que não vinha de nenhum dos outros galinheiros — nem de galinhas, aliás. Estava longe demais, em outra direção, e não soava como uma galinha. Era quase como o som que eu mesmo tinha feito ao imitá-las antes — uma clara zombaria, mas errada, profundamente errada. Essa simples constatação me gelou até os ossos, e então ouvi o som novamente — desta vez, muito mais perto.

— BrrrRRRRRRrrrrrrrrrr…

Enquanto o som ia sumindo, ouvi um leve “tum” vindo logo além do pinheiro. Houve um momento de silêncio, em que desejei intensamente que tivesse imaginado aquele barulho… mas logo depois ouvi o som fraco de algo atravessando o riacho que corria perto das raízes da árvore. O que quer que estivesse lá fora tinha se aproximado muito em pouco tempo.

Agora, você precisa entender que eu estava acostumado com os sons de animais como guaxinins, raposas e até coiotes. Já os afugentei várias vezes quando chegavam perto demais dos galinheiros. Ursos eram uma ameaça maior, claro, mas fazia anos que eu não via um urso — nem sequer sinais de um — tão perto dos galinheiros. E eu tinha certeza absoluta de que aquilo não era um urso. Na verdade, duvidava que fosse qualquer animal. Havia algo no ar naquela noite, e algo naquele som — ou na ausência de outros sons. Normalmente, nessa hora, eu ouviria grilos, sapos-cantores e morcegos ativos na escuridão. Mas ali, tremendo debaixo do meu saco de dormir, não ouvia absolutamente nada além dos ruídos daquela criatura e dos alertas das galinhas lá embaixo.

Estava considerando minhas opções quando um som terrível rasgou o silêncio — algo esfregando e soltando pedras da mureta de pedra que separava o pinheiro do riacho.

Nesse ponto, meu coração martelava no peito, e precisei colocar a mão sobre a boca para abafar minha respiração ofegante. De repente, um pensamento me atingiu: será que tranquei a escotilha? E a porta da sacada? O pânico pareceu me paralisar quando percebi que não tinha trancado nenhuma das duas. Será que conseguiria me levantar sem chamar a atenção da criatura? Com extremo cuidado, me desenrolei do saco de dormir, encolhendo-me a cada farfalhar do tecido de poliéster. Levantei-me devagar, pé ante pé, e fui até a porta da sacada. Travei a pequena trava com toda a delicadeza que consegui, depois me virei para a escotilha.

THUNK.

Quase pulei fora da pele quando algo pesado subiu com esforço na varanda da casa na árvore — seguido imediatamente pelo chamado de alarme das galinhas. Encolhi-me, agachando-me no centro do assoalho. Andar agora era arriscado demais… mas talvez eu conseguisse me deitar e alcançar a escotilha assim?

Comecei a me abaixar, primeiro de joelhos, depois de bruços, achatando-me cuidadosamente sobre a madeira fria. Estiquei os braços e comecei a fazer um esquisito movimento de rastejar em direção à escotilha. Justo quando ia tocar na trava, ouvi um rangido baixo — a porta da casa na árvore se abrindo lentamente. Tranquei a escotilha na mesma hora e fiquei imóvel, assim como todo o resto do mundo naquela noite de verão.

Lá embaixo, ouvia agora uma respiração lenta, quase deliberadamente controlada, enquanto o que quer que estivesse sob mim se movia, como se estivesse decidindo algo… ou procurando algo que não via — mas podia sentir.

Como eu.

Normalmente, as galinhas fazem todo tipo de barulho se um guaxinim ou raposa entra no galinheiro no meio da noite. Mas agora estavam completamente silenciosas — e, embora obviamente não pudessem dizer, eu sabia que o medo delas era tão grande quanto o meu. Senti que devia a elas ao menos tentar ver o que estava lá embaixo, então me aproximei com cuidado de um pequeno furo que havia sido perfurado na escotilha.

Embora a casa na árvore ficasse longe de qualquer fonte de luz, havia contraste suficiente para distinguir formas das sombras… e algo que era uma mistura perturbadora das duas. Pressionando o olho contra o orifício, sem fazer o menor som, consegui ver uma figura em pé entre as caixas de ninho de um lado e os poleiros do outro. Era uma figura pálida, acinzentada, parecendo uma boneca frouxa feita de gravetos. Seus membros se estendiam de forma impossivelmente longa além do corpo, numa anatomia que não lembrava nenhum animal ou pessoa que eu já tivesse visto. Sem dúvida, era mais alto do que a própria casa na árvore em sua altura total — mas agora estava parado, examinando a escuridão com olhos brancos incandescentes, como a luz da lua. Sua cabeça pendia do pescoço como um tomate podre e maduro demais, girando lentamente enquanto emitia aqueles sons: “Bwwwwr… bwrrrrrrr…”, imitando os que as aves tinham feito antes.

Depois de um momento de busca, deu um passo cambaleante para frente, na escuridão, e ergueu a cabeça — diretamente na direção da escotilha atrás da qual eu me escondia. Recolhi a cabeça rapidamente, pressionando a orelha contra a madeira, rezando para que não tivesse visto o reflexo do meu olho no furo.

TAP.

Todo o sangue do meu corpo pareceu congelar de terror primitivo e gélido quando vibrações de ossos duros contra a madeira atingiram meu tímpano. Abafei um gemido e tentei impedir que meus dedos trêmulos fizessem barulho na madeira enquanto ouvia o que eu tinha certeza que iria me matar. Podia ouvir os longos e grotescos dedos raspando contra a escotilha. Embora ela estivesse travada, duvidava que resistisse a…

CRACK.

Saltei da escotilha em pânico quando a madeira começou a rachar. Quantas pancadas levaria para a criatura arrombar? Quatro? Cinco? Pensei em pular da sacada e correr para a casa, mas sabia que ela me veria — e tinha certeza absoluta de que conseguiria me alcançar.

— BWWWWWRRRR!

Ao ouvir esse som, as pancadas na escotilha pararam. Não vinha da criatura — vinha do Fudge. Atônito e ainda paralisado de medo, ouvi a criatura se virar da escotilha em direção aos poleiros. Pensei em rastejar de volta até o furo de observação, mas algo profundo dentro de mim disse que me arrependeria. Então fiquei ali, apenas ouvindo.

Fudge continuava fazendo aquele som — um contraste gritante com seu silêncio anterior. Só que não era o chamado normal de alarme de uma galinha assustada. Soava deliberado, como se quisesse ser ouvido. Eu sabia que ele tinha percebido algum tipo de predador no galinheiro, embora mal conseguisse enxergar na escuridão, já que galinhas têm visão noturna péssima. Um rangido soou a poucos metros de distância — a criatura se aproximava do poleiro onde Fudge estava. Ele calou-se… mas meus olhos se encheram de lágrimas quando entendi o que tinha acontecido. Ele fizera o que galos devem fazer: proteger seu bando. E, de algum modo, tinha me incluído nesse bando. E agora ia morrer.

Fudge grasnou quando os membros ósseos da criatura se estenderam e o agarraram — pelo menos foi o que pude deduzir pelos sons. Houve um ruído horrível de esmagamento, seguido pelo gotejar de sangue enquanto carne era rasgada e penas arrancadas. Enterrei a cabeça nos braços, tentando bloquear os sons prolongados de sucção e mastigação. Espero que a morte de Fudge tenha sido rápida, mas não posso ter certeza.

Para uma criança, ouvir aquilo já era terrível — mas o pior era o que eu não ouvia: a partida da criatura.

A noite pareceu se alongar por horas nos minutos após a besta aparentemente terminar sua refeição. Embora não houvesse mais sons de rasgo ou mastigação, o gotejar persistia, e comecei a me perguntar se tudo aquilo não tinha sido um sonho estranho, e se eu agora ouvia apenas um balde com vazamento ou algo assim. Mas tudo parecia real demais, e não ousei usar o furo para olhar lá embaixo.

De algum modo, nas horas de silêncio após a carnificina, caí num sono leve ou num estado de torpor, e acordei não mais na escuridão, mas numa manhã pálida e nebulosa, com raios de sol começando a entrar pelas janelas. Com extrema cautela, abaixei a cabeça até o furo de observação. Dava para ver claramente o cômodo abaixo. Tudo estava como de costume: os comedouros intactos, os bebedouros sem derramar, as aves começando a descer dos poleiros… e Fudge estava com elas.

No começo, fiquei eufórico. Ele tinha sobrevivido! Abri a escotilha de supetão e desci a escada. Mas, ao me aproximar dele, percebi que algo estava errado. As outras aves também pareciam notar — andavam nervosas ao redor dele, evitando contato. Ele parecia meio machucado: faltavam penas, a crista estava pálida… mas, principalmente, a pilha de matéria no chão sob seu poleiro indicava algo muito errado. Sangue tinha se acumulado e coagulado na serragem, e suas penas estavam espalhadas por toda parte. Já vira aves em choque após ataques de predadores, mas o comportamento dele não combinava. Era impossível ter perdido tanto sangue e ainda estar de pé.

E, no entanto, estava.

Quando saltei da escada e fui em direção à porta, Fudge me encarou. Ao chegar mais perto, vi claramente que não era o mesmo de sempre. Seus olhos estavam opacos demais, a crista pálida com um tom arroxeado. Movia-se com rigidez, e as penas pendiam de seu corpo de forma antinatural. Francamente, parecia morto.

Depois de verificar a comida e a água das aves, corri para casa. Minha mãe me cumprimentou e perguntou como tinha sido a noite. Disse que tinha sido tranquila, mas que não queria mais passar outra noite lá fora. Mesmo sendo jovem, eu sabia que ela jamais acreditaria se eu contasse a verdade. Passei o dia inteiro tentando me distrair do que tinha acontecido, buscando racionalizar na minha mente: será que eu realmente vira aquela criatura? Teria sido tudo real?

Antes que eu percebesse, a noite caiu novamente — e não havia nada que eu temesse mais do que voltar à casa na árvore para cuidar das aves e ver Fudge. Ele me assustara mais cedo; embora estivesse vivo, eu sabia que não deveria estar. Tudo aquilo era antinatural de um jeito que minha mente infantil conseguia compreender. Naquela noite, pedi à minha mãe que, por favor, alimentasse as aves e trocasse a água. Ela ficou surpresa — eu adorava fazer essas tarefas — e perguntou por quê. Sem saber o que responder, contei uma mentira:

— O Fudge me atacou.

Nunca mantínhamos galos agressivos. Tínhamos galos bons demais para perder tempo com os ruins, e fica claro rapidamente quando um tem potencial para machucar. Fudge nunca teve um pingo de maldade, então minha mãe ficou chocada. Mas acreditou quando mostrei onde ele supostamente me esporara (na verdade, era um arranhão de ter tropeçado num galho no dia anterior) e concordou em cuidar disso.

A acompanhei para pegá-lo, pois me sentia mais seguro com ela por perto. Quando entramos no galinheiro, todas as aves estavam nos poleiros — exceto Fudge, que permanecia rígido no centro do chão. Nessa hora da noite, já estava escuro demais para a fraca visão noturna das galinhas, mas ele virou a cabeça ao nosso entrar, observando-nos de um jeito estranho. Minha mãe pareceu tão confusa quanto eu. Ela se abaixou devagar para pegá-lo, sem querer assustá-lo. Fudge ficou perfeitamente imóvel, permitindo que ela o segurasse. Algumas penas caíram de seu corpo quando ela o levantou, e ele pendia em seus braços como um peso morto. Recuei para a varanda enquanto ela o levava para o celeiro. Nenhum de nós falou, mas eu sabia que minha mãe também sentia o caráter antinatural daquela situação. Observei-a se afastar com ele, com tanto medo do olhar estranho em seus olhos alaranjados que nem consegui me despedir do meu outrora amado galo. Seu olhar permaneceu fixo em mim enquanto minha mãe o levava para o que seria sua aparente segunda morte.

Nunca fiquei por perto nas vezes em que minha mãe abatia aves — eu sabia por que era necessário, mas sempre achei nojento. Ela planejava usar Fudge para fazer caldo de ossos, já que ele era velho, mas eu tinha tentado dissuadi-la antes de irmos ao galinheiro, dizendo que ele parecia doente e não deveria ser comido. Ela me disse que usaria os ossos apenas para fazer caldo para os cachorros, então, relutante, deixei. Sabia que ela não gostaria de desperdiçar recursos.

Eu estava lendo no meu quarto quando ela voltou do celeiro. Fui falar com ela e vi que seu rosto estava pálido, as mãos tremendo. Perguntei se algo tinha acontecido. No começo, ela se recusou a contar — claramente, o que quer que a tivesse abalado assim seria assustador demais para uma criança. Mas acabou cedendo quando argumentei que precisava saber se havia algo errado internamente com Fudge que o tivesse tornado tão agressivo de repente.

Depois de atordoar Fudge, ela fez um corte na veia jugular para drenar o sangue, como sempre fazia. Mas, em vez do fluxo grosso e escarlate habitual, saiu apenas um filete. Então, encontrou um longo corte no abdômen, parcialmente aberto, que, por si só, já deveria tê-lo incapacitado por completo. Intrigada, fez um corte na pele sobre o osso do peito. Foi aí que sua voz vacilou. Pedi que continuasse, e ela me contou a única coisa de que tenho certeza absoluta: a prova de que algo verdadeiramente antinatural, verdadeiramente maligno, tinha invadido o galinheiro na noite anterior.

Dentro do corpo de Fudge, tentáculos semelhantes a gravetos estavam entrelaçados em torno de seus ossos e órgãos internos, que pareciam empurrados para os lados da cavidade abdominal. Lembravam algum tipo de verme parasita, mas eram extensos demais para serem resultado de uma simples infestação. Tinham se contorcido um pouco quando ela abriu a cavidade, então ela se virou para lavar as mãos e tirar uma foto. Mas, quando voltou, toda evidência daquela infecção estranha tinha desaparecido.

— Foi como se… tivesse pulado para fora e fugido — disse ela, rindo sem nenhuma graça.

E, de fato, foi exatamente isso que aconteceu. Aquela massa mutante tinha abandonado seu hospedeiro e estava à procura de um novo. Um que servisse melhor aos seus propósitos.

Até hoje, nunca mais vi qualquer sinal daquela criatura. Tentei fingir que tudo aquilo nunca aconteceu, mas não adianta. Nos muitos anos que se passaram desde aquela noite, reflito sobre a lógica do que a criatura fez — e me pergunto por que ainda estou vivo. Por que atacar Fudge, e aceitar aquela distração, quando seu novo hospedeiro poderia ter sido eu com tanta facilidade? Talvez tenha decidido que conseguiria mais presas a longo prazo assumindo a forma de algo inofensivo, como uma galinha. Embora isso claramente não tenha dado certo para a besta, me assusta saber que ela testou essa estratégia — que é capaz de aprender.

Ela não conseguiu imitar uma galinha direito. Mas isso foi há anos. Se passou todo esse tempo aprendendo… o que será que é capaz de fazer agora?
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