quinta-feira, 24 de julho de 2025

Eu organizei meu banheiro e agora acho que joguei fora o verdadeiro eu

Passei a maior parte de ontem rearrumando meu banheiro. Não era o plano. Só entrei pra pegar um fio dental e acabei no chão, afundada em caixas plásticas e produtos vencidos. Acho que todo mundo tem aquela gaveta ou armário. Aquele onde as coisas vão pra morrer. O meu, por acaso, é onde guardei quase uma década de reservas de produtos de cuidados com a pele, acessórios pra cabelo e itens de higiene pessoal pela metade.

Não era acumulação. Juro. Eu só gosto do que gosto. Quando encontro um shampoo que funciona, compro cinco. Se um desodorante tem um cheiro bom e passa suave, fico com ele até o fim dos tempos. Pode chamar de hábito, de lealdade à marca, de consumismo exagerado. Eu sempre vi como estar preparada. Até ontem.

No começo, foi estranhamente satisfatório. Jogar fora máscaras faciais ressecadas. Agrupar lâminas de barbear numa bandejinha. Alinhar meus hidratantes reserva como soldadinhos. Senti que estava recuperando espaço. Fazendo um inventário da minha vida.

Aí comecei a notar padrões.

Três escovas de cabelo iguais, todas abertas, mas quase não usadas. Quatro tubos de pasta de dente, do mesmo tipo, mesmo tamanho, comprados em anos diferentes, mas todos abertos pela mesma ponta. Cinco bastões de desodorante. Mesma marca, mesmo cheiro, em diferentes estágios de uso. Eu não lembrava de ter usado mais de um.

Tudo bem. Talvez eu tenha uma mania estranha de abrir algo, esquecer e abrir outro. Tentei ignorar.

Mas havia um peso em tudo. Como se meus pertences estivessem me observando. Esperando que eu tomasse uma decisão. Cada vez que pegava algo, sentia como se estivesse descolando uma parte de mim. Como uma camada de mim mesma que tinha endurecido.

Esfreguei rótulos até a tinta sair. Abri frascos só pra confirmar que estavam vazios. Fui implacável. Chega de estocar. Chega de guardar coisas “só por garantia”. Disse a mim mesma que não traria nada novo pra esse lugar até criar espaço pra isso. Espaço de verdade.

Não só nas gavetas. Em mim.

Acho que foi quando começou.

Comecei a sentir que estava reduzindo mais do que meu banheiro. Cada cotonete, cada tampa encrostada, cada máscara facial esfarelada — eu jogava fora como se estivesse podando uma parte do meu corpo. Não era metáfora. Era físico. Como se estivesse lixando minhas próprias bordas pra me fazer menor.

E não era só lixo. Eram minhas células de pele. Meus cabelos. Saliva seca no fio dental. Meu cheiro, preservado em loções. Minhas digitais, marcadas em tampas, potes e tubos por anos.

Percebi que nosso DNA está em tudo.

Cada vez que uso algo, deixo um rastro. Um resíduo. Um registro. E acho que nunca tinha entendido o quanto de mim deixei neste apartamento. O quanto selei em gavetas, tampas e latas de lixo. Não memórias. Pedaços.

Estava limpando uma caixinha branca organizadora quando encontrei um fio do meu cabelo enrolado num canto. Velho, quebradiço, quase transparente. Peguei sem pensar e joguei no lixo. Mas parei.

Eu tinha cortado meu cabelo há dois meses. Curto. Aquele fio era longo.

Muito mais longo do que deveria ser.

E estava amarrado numa ponta.

Olhei pro saco de lixo. Eu o enchi com pedaços de mim. Não só tranqueira, não só bagunça, mas versões descartadas. Eus passados que, aos poucos, foram sendo apagados com o tempo, deixados pra trás em embalagens, resíduos e fiapos.

Continuei. Não conseguia parar.

Aí encontrei uma caixa.

Estava enfiada no canto mais fundo do armário embaixo da pia. Pequena, branca, sem identificação. Não lembro de tê-la colocado lá. Não lembro de tê-la visto na última vez que limpei.

Dentro da caixa, havia um saco selado. Dentro do saco, lixo. Fios dentais usados. Discos de algodão encharcados de água micelar. Cotonetes com manchas pretas nas pontas. Fios de cabelo. Uma lente de contato. Um curativo.

Tudo meu.

Mas eu nunca guardei isso. Nunca coloquei num saco. Nunca escondi.

Fiquei sentada no chão por muito tempo. Não me mexi. Só olhei pro saco e comecei a respirar mais devagar. Algo não estava certo.

Olhei pra cima e vi meu reflexo no espelho. Nada de errado. Só eu. Mas quando inclinei a cabeça, o reflexo não se moveu na hora. Como se houvesse um atraso. Uma demora no vidro.

Não dormi ontem à noite.

Deixei a luz acesa. Fiquei deitada na cama, pensando em cada item que já joguei fora. Cada toalha que doei. Cada frasco vazio que joguei na lixeira. Quantos pedaços de mim foram replicados. Preservados. Arquivados.

Voltei ao banheiro hoje de manhã e o lixo que ensaquei ontem sumiu.

Não foi levado pra calçada. Não foi colocado no corredor. Apenas... sumiu.

A única coisa embaixo da pia era a caixa de novo. Mesmo tamanho. Mesmo lugar. Mas agora estava cheia de itens que eu ainda não tinha jogado fora. Coisas que eu ia descartar hoje. Uma escova de dentes que não abri. Um sérum que ainda estava usando. Uma lixa de unha que eu juro que estava na gaveta.

Abri o armário de remédios. Todos os produtos estavam cheios. Novos. Alinhados direitinho.

Não lembro de ter feito isso.

Não sei o que joguei fora.

Não sei qual versão de mim eu sou.

E quando sorri pro meu reflexo, ele sorriu de volta cedo demais.

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