sábado, 6 de dezembro de 2025

O Urso Morango

“Ei, olha ali! É o Urso Morango!”

Era uma tarde de sexta-feira escura e deprimente. Minha irmãzinha de oito anos, a Emma, deu um gritinho animado e puxou a barra do meu moletom enquanto a gente voltava da escola a pé. Tirei os olhos do celular e olhei pro outro lado da rua. Lá estava um cara dentro de uma fantasia de pelúcia de urso, com traços exagerados e bem caricatos: olhos azuis enormes cheios de brilho, um laço vermelho gigante no pescoço e um monte de acessórios de morango da cabeça às patas. Ele segurava um buquê de balões flutuantes e dançava de um jeito meio apático.

Coitado, pensei. Deve estar morrendo de calor lá dentro o dia inteiro, balançando pra lá e pra cá entretendo criança barulhenta. O tecido barato do pelo parecia molhado e grudado, provavelmente por causa da chuva forte de mais cedo.

“Posso tirar uma foto com ele, por favor, Luke?”

Emma implorou. Eu fiz cara feia.

“Não, a gente tem que chegar cedo em casa, lembra? Não quero a mãe surtando e me ligando igual da última vez.”

Eu tava sendo um babaca, eu sei. Todas as crianças daqui amavam o Urso Morango, e a Emma não era exceção. A Strawberry Bear Co. começou como uma rede de sorvete e doces, depois o mascote fez sucesso e eles começaram a vender mercadoria e bichos de pelúcia do urso querido. Tirar foto com o Urso Morango era tipo o auge do “cool” pra molecada.

A Emma ficou visivelmente triste. Mas ela sempre foi uma irmãzinha gente boa, então só segurou minha mão e a gente continuou andando pra casa. Eu lembro que fiquei puto. Nenhum de nós queria essa merda. A Emma já tinha idade pra voltar sozinha, a escola dela ficava a poucos quarteirões de casa. Já a minha escola ficava mais longe, e eu tinha que pegar outro ônibus só pra buscar ela. Ou seja: perdia os rolês depois da aula com a galera e, óbvio, descontava nela.

Era uma bosta.

Meus pais não eram assim antes. Na verdade, eles incentivavam a gente a se divertir depois da aula e a ser independente. Tudo mudou quando crianças do bairro começaram a sumir. Algumas foram encontradas… ou melhor, pedaços delas. Quem fez aquilo era um filho da puta monstruoso. Eu ouvi a polícia usar a palavra “espalhados” pra descrever os restos que achavam. Isso deixou minha mãe paranoica pra caralho; ela passou a me obrigar a buscar a Emma todo santo dia e ainda botou horário pra gente chegar junto em casa.

Na sexta passada eu pensei “um sorvete não mata ninguém” e levei a Emma pro parque. Resultado: minha mãe ligando, chorando, fazendo escândalo. Tentei entender, mas uma parte de mim ficou com raiva e se sentindo impotente. Comecei a odiar tudo isso. A Emma era nova demais pra entender o tamanho da parada, mas dava pra ver que ela também tava assustada e frustrada.

Quando passamos correndo pelo Urso Morango, senti ela apertar mais minha mão. Tinha alguma coisa errada naquela fantasia, mas eu não sabia o quê.

O urso ficou parado. Completamente imóvel.

Os dias foram passando, zero pistas sobre as crianças desaparecidas, e eu tava ficando louco de tédio buscando a Emma todo dia. Sentia falta de jogar bola com os caras e, em alguns dias de sorte, ver a Alex no banco também. Ela é legal, vai. Eu me pegava encarando o cabelo curto, fofo e loiro-morango dela mais do que eu queria admitir. O Sam foi o primeiro da turma a sacar.

“Ei, tu não vem pro jogo hoje não?” Ele perguntou no recreio. “A Alex vai estar lá.”

Revirei os olhos, mas meu coração acelerou.

“E tu tem certeza disso porque…?”

“Uma amiga dela me contou. Sabe como é, eu sou o queridinho das minas.”

Eu ri. O Sam sempre se acha o engraçadão, mas aquilo me animou. Era bom pensar em qualquer coisa que não fosse minha irmã e um assassino filho da puta solto por aí.

“Cara, eu adoraria ir, mas tenho que buscar a Emma. Não tem negociação.”

“Pô, mano. Deixa ela sozinha um dia só. A gente sente falta de você no time.”

“Veremos.”

Falei e me despedi. Fiquei pensando nas possibilidades durante as aulas da tarde. Desde o mês passado eu buscava ela todo dia e nunca aconteceu nada. Ninguém chegou perto dela nem tentou levar. Nossa casa era logo ali. Ela já sabia gritar por socorro e minha mãe tinha martelado o papo de “perigo de estranho” na nossa cabeça.

Não ia fazer diferença se eu deixasse ela sozinha um dia só.

Um diazinho. Pra mim. Pros meus amigos. Pra Alex. Como recompensa por eu ser tão responsável o tempo todo. Fazia total sentido. A Emma chegaria em casa antes da minha mãe perceber. Fui inventando desculpa atrás de desculpa até o sinal tocar. Não peguei o ônibus pra escola dela. O Sam me jogou a calça de futebol reserva dele e disse que tava orgulhoso de eu finalmente “ter virado homem”. O tempo tava bom. Uma brisa leve bagunçava o cabelo da Alex enquanto ela sorria pra mim do banco. Ela tem olhos azuis claros, iguais aos meus, iguais aos da Emma. Iguais aos das crianças desaparecidas que eu via nos jornais.

Aquilo me deu náusea.

“Ei, cara, tu tá bem?”

O Sam pareceu preocupado. Tentei respirar fundo e me preparar pro jogo, mas meu estômago revirava. Antes que eu conseguisse organizar a cabeça, já soltei:

“Sam, empresta tua bike?”

“Claro, mano… mas pra quê?”

“Preciso ir buscar a Emma.”

Peguei as chaves dele e saí voando. Não sei se andar de bike daquele jeito dá multa, mas se desse eu teria levado umas dez naquele dia. Pedalei sem parar até ver a Emma voltando sozinha pra casa. Ela tava com carinha triste, provavelmente porque eu não apareci, e pelo tanto que já tinha andado, deve ter esperado pelo menos uma hora antes de desistir.

“Emma!”

Gritei.

“Luke!”

Ela virou a cabeça e abriu um sorriso enorme. Correu e me deu um abraço bem apertado.

“Eu fiquei tão preocupada! Achei que o ‘cara mau’ tinha te pegado.”

Na hora eu quis dar um soco na minha própria cara do passado. Enquanto eu pensava só em mim e nos meus rolês, esqueci que a Emma também tava estressada e com medo por causa de tudo que tava rolando… e mesmo assim ficou preocupada comigo.

“Desculpa, Emma.”

“Tá tudo bem!” Ela murmurou. “Essa bike é do Sam? O que aconteceu?”

“Nada importante. Vamos pra casa.”

Enquanto a gente andava pela rua, eu vi o Urso Morango de novo. Era o mesmo de antes, dava pra reconhecer pelo pelo molhado e grudado e pelo mesmo buquê de balões. Dessa vez a Emma nem pediu pra tirar foto. Só agarrou a manga do meu moletom e abaixou a cabeça. A ficha caiu como um caminhão de isekai (essa eu aprendi com o Sam). Pessoas vestidas de Urso Morango sempre ficam em lugares lotados — parque, shopping, evento — pra fazer propaganda. Por que esse tava ali parado? Numa rua vazia, à tarde, num dia cinzento do caralho? Um arrepio subiu pela minha espinha. Falei pra Emma:

“Pula na bike.”

Ela estranhou, mas não discutiu. Fiquei de olho no urso enquanto a gente passava por ele. Imaginei que ele fosse sair correndo atrás da gente com uma faca ou alguma merda assim.

Mas o Urso Morango só ficou lá. Parado.

Da próxima vez que eu vi ele, tava em tudo que era canal de TV.

Lembro da foto do urso na tela, da bile subindo pela garganta, do medo tão real que arrepiava a pele inteira. Era ele o monstro que tinha matado todas aquelas crianças. O cara, que já tinha trabalhado na Urso de Morango Co., roubou uma fantasia e usava pra atrair as crianças pro porão dele. Só foi pego porque ficou confiante demais e tentou pegar uma criança mais velha, que conseguiu correr e avisar a polícia. Meu corpo inteiro tremia sem parar. Se eu tivesse deixado a Emma sozinha naquele dia, se eu não tivesse largado o jogo e a chance de falar com a Alex…

“Luke?”

A Emma botou a cabeça pra fora do quarto, confusa. Eu só fui até ela, me ajoelhei e puxei ela pra um abraço bem forte, com os dedos tremendo. Eu tava apavorado com o que poderia ter acontecido com ela. Como eu já disse, a Emma é uma irmãzinha gente boa, então só ficou parada ali e deu uns tapinhas sem graça nas minhas costas.

“Luke, não fica triste. Eu te dou meu ursinho antigo, tá? A mamãe comprou um novo pra mim.”

Ela tirou do bolso um bichinho de pelúcia do Urso Morango. Eu dei uma risada meia-boca e recusei — ia ter pesadelo pro resto da vida se aceitasse aquela coisa no meu quarto. Mas olhando pro bicho de novo, com luz do dia, finalmente entendi o que tinha me incomodado tanto.

O ursinho oficial da Emma era rosa choque, quase neon. Abracei minha irmã mais forte ainda, segurando a vontade de vomitar. O Urso Morango assassino que a gente encontrou tava com uma fantasia molhada, grudenta, de um tom bordô escuro.

Estava encharcada de sangue.

Listras

Quando eu era mais novo, a hora de dormir sempre foi uma parada difícil e assustadora pra mim. Não era medo do escuro, não – era uma coisa bem mais sinistra, por conta própria.

Minha cabeça de criança sempre botava a culpa nos sonhos ou na minha família zuando comigo. Olhando pra trás, eu me sinto um completo idiota por achar que alguém da família ia se dar ao trabalho de me sacanear tão tarde da noite.

Família, no caso, era só uma pessoa mesmo. Cresci só eu e minha mãe.

Minha mãe era artista – ou pelo menos era louca por coisa artística quando eu era pequeno. Ela curtia especialmente fazer roupa. Por isso, tinha uns manequins espalhados pela casa. Eles ficavam sempre no ateliê dela, onde ela usava pra provar as peças.

Queria que a gente tivesse sacado o que tava rolando bem antes.

Eu tinha pesadelos com frequência. Experiências aterrorizantes que minha mente inventava na hora de dormir. Acho que era por isso que era tão difícil aceitar. Também era o principal motivo de ir pra cama ser um sacrifício daqueles. Até hoje não sei se os primeiros foram realmente pesadelo ou não.

Eu lembro com detalhes das três vezes que aquilo aconteceu.

A primeira vez eu nem liguei muito. Deitei, consegui dormir sem drama. O problema foi continuar dormindo. Primeiro era só escuridão. Aí meus olhos abriram.

Eu tava no meu quarto, ainda na cama. Só que alguma coisa tava diferente. O quarto tava muito mais escuro do que algumas horas antes – normal, quanto mais tarde, mais escuro fica.

Mas não foi isso que me apavorou. O que me fez mergulhar debaixo do cobertor foi uma figura parada bem no meio do quarto. Só conseguia ver porque tinha uns fiapos de luar entrando pelas frestas da persiana.

Olhei pro vulto o tempo suficiente pra sacar uns detalhes da roupa. A pessoa tava completamente imóvel, vestindo o que parecia uma calça social preta e uma camisa branca com listras pretas. Só isso. Não dava pra ver o rosto, e nem precisava. Ficou lá, parada. Eu não consegui gritar – não era que eu tava segurando, eu literalmente não conseguia. Fiquei tão apavorado que só consegui me enfiar no cobertor e esperar aquilo sumir.

Pode ser que eu tenha dormido de novo. Não sei, não lembro direito. Só sei que num momento eu tava escondido e no outro já tava acordando com o quarto todo iluminado pelo sol. A figura tinha sumido, então achei que tinha sido sonho.

Ainda assim fiquei na dúvida, e na hora do café perguntei pra minha mãe.

“Oi, mãe.” Eu falei. “Você… você colocou um dos seus manequins no meu quarto?”

O rosto dela mudou de tranquilo pra nervoso na hora. “O quê? Não, claro que não. Por que tá perguntando isso?”

“Ah, tá bom.” Respondi. “Então deve ter sido sonho.”

“Como assim?” Ela perguntou.

“Tinha uma pessoa no meu quarto, mas eu mal conseguia ver. Quando acordei de vez, não parecia que alguém tinha entrado. Acho que foi sonho.”

“Hmm.” Ela fez. “Que estranho. Qualquer coisa você me avisa, tá?”

“Tá bom.”

Preciso deixar claro: minha mãe nunca foi burra, em tempo nenhum. Ela pensou nas possibilidades. Revistou a casa inteira depois da nossa conversa e não achou nada. Não tinha como ela imaginar que aqueles sonhos, por mais reais que parecessem, podiam não ser só sonhos. Mas eu tô divagando. Não tinha como ninguém ter invadido a casa. Ela até desceu pro porão, inclusive nas partes que a gente evitava entrar. Nada.

O fato de ela não ter encontrado nada torna o que aconteceu depois ainda mais difícil de explicar, mas vou tentar.

O último caso foi mais ou menos uma semana depois do primeiro. Eu tinha acabado de pegar no sono e tava até sonhando uma coisa boa quando fui interrompido.

Dessa vez teve barulho de verdade. Acordei com o som do meu despertador caindo da cômoda e se espatifando no chão. Eu tinha certeza que tinha deixado ele bem longe da borda, mas vai que eu errei. Achando que tinha sido descuido meu, levantei um pouco o cobertor e me inclinei pra pegar.

Recuei horrorizado. Ali, saindo um pouco debaixo da minha cama, tinha um braço. Não era braço cortado, não – tava claramente ligado a alguém. O despertador não tinha caído perto da mão, então não dava pra ver direito, mas já saquei que era a mesma situação da semana anterior.

A luzinha do despertador mostrou que o braço era da mesma figura. Mesma camisa branca com listras pretas. Eu voltei pra trás na hora e me enterrei de novo no cobertor. Fechei os olhos com força. De algum jeito, mesmo com o pavor absoluto de ver aquela mesma coisa debaixo da minha cama, eu consegui dormir.

Na manhã seguinte, minha mãe tava puta da vida. Desci pro café já me preparando pra contar o que eu achava que podia ter sido sonho de novo. Ela tava de mau humor pra caralho. Pelo visto algum bicho tinha mexido lá fora e quebrado uma das janelas que davam pro porão.

Ela tava resmungando duas coisas. Primeiro: que o bicho que quebrou a janela ainda podia tá lá dentro. Quando ela foi ver, umas coisas tinham sido mexidas, principalmente perto daquela área escura tipo um vão de engatinhar. Segundo: como diabos ela ia pagar pra consertar a porra da janela. Eu e ela descobrimos que ela não ia precisar se preocupar com isso quando eu tentei falar com ela.

“Que foi?!” Ela cortou.

“Eu… hm.” Gaguejei.

“Desculpa.” Ela disse. “Tô só puta com essa janela. O que você queria me contar?”

“Eu vi de novo.” Falei. “A figura. Acho que eu tava sonhando?”

“Você sonha muito com isso.” Ela disse. “Lembra de algum detalhe?”

“Tava usando uma daquelas camisas listradas que você fez.” Respondi.

O rosto da minha mãe congelou. Ela ficou quieta um tempo. Quando falou, foi sério pra caralho. Me pegou pela mão e fomos direto pra porta de entrada. Enquanto eu calçava o tênis, perguntei:

“Por que você tá nervosa?”

Ela só respondeu quando já tava dentro do carro e ligando o motor. Olhou pra mim com aquele tom grave:

“Eu não fiz isso. Eu nunca fiz camisa listrada.”

Nós mudamos naquele mesmo dia.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Não vá até o local do Experimento de Inanição de Minnesota. Eles ainda estão com fome…

Estou escrevendo isso do meu apartamento, e preciso que você entenda uma coisa antes de eu contar o que aconteceu. Preciso que você saiba que o Experimento de Inanição de Minnesota foi real.

Em 1944, na Universidade de Minnesota, o Dr. Keys conduziu um dos estudos psicológicos mais perturbadores da história americana. Trinta e seis objetores de consciência — caras que se recusaram a lutar na Segunda Guerra Mundial — se ofereceram pra passar fome. Durante seis meses, recebiam umas 1.800 calorias por dia enquanto faziam trabalho pesado. Depois, passaram por três meses de “reabilitação”, sendo realimentados aos poucos.

Os resultados foram o puro terror. Os caras ficaram obcecados por comida: juntavam receitas, lambiam os pratos, alguns até pensaram em canibalismo. Entraram em depressão profunda, se mutilavam, mudaram tanto de personalidade que vários nunca mais voltaram ao normal. Um deles, tá registrado, cortou três dedos da própria mão com um machado — e nem lembrava se tinha sido de propósito ou não.

O objetivo do experimento era entender como realimentar populações famintas na Europa pós-guerra. Tudo aconteceu no porão do laboratório da Universidade de Minnesota, num prédio sem graça que ainda está de pé até hoje.

Eu sei disso tudo porque eu era consultor de demolição. Era. Era consultor de demolição.

Há três semanas, a Universidade finalmente liberou a demolição do laboratório antigo — o prédio onde o experimento rolou. A maior parte estava abandonada desde os anos 80, considerada obsoleta e cara demais pra reformar. Meu trampo era avaliar a estrutura, identificar materiais perigosos e planejar a forma mais segura de derrubar aquilo.

Entrei lá numa manhã de terça-feira. Sozinho.

O prédio cheirava errado desde o momento em que pisei lá dentro. Não era o mofo e podridão comum de lugar abandonado. Era mais forte, mais orgânico. Parecia uma fábrica de sebo que eu tinha vistoriado anos atrás, mas com um fundo azedo, de vômito.

Os andares principais eram normais: escritórios vazios, laboratórios sem nada, poeira de décadas. Meus passos ecoavam demais. As plantas mostravam quatro andares, mas quando chequei as escadas, vi marcações de um subsolo que não constava em nenhuma das minhas documentações — só um bilhetinho escondido no final do arquivo.

Curiosidade profissional é um perigo no meu ramo. Eu devia ter deixado pra lá.

A escada era estreita, de concreto institucional pintado de cinza há mil anos. A lanterna pegou algo nas paredes enquanto eu descia: arranhões. Profundos. Cinco linhas paralelas descendo o concreto, como se alguém tivesse cravado as unhas com força suficiente pra rasgar pedra.

O subsolo era um corredor comprido com várias portinhas. Celdas, na real. Cada uma com uma cama de ferro, uma mesinha e uma lâmpada pelada no teto. A anotação no meu arquivo dizia que aquele nível tinha sido usado pra “observação prolongada” em vários estudos. As portas ainda tinham números pintados: S1 até S36.

Trinta e seis quartos.

Trinta e seis cobaias.

Fiquei gelado apesar do casaco.

Os arranhões estavam em tudo ali embaixo: batentes, chão, até no teto. Num dos quartos, alguém tinha gravado na parede: AINDA COM FOME AINDA COM FOME AINDA COM FOME, repetido em espirais loucas que cobriam a parede inteira. A letra ia piorando, ficando mais descontrolada, mais rasgada.

No fim do corredor tinha uma porta pesada de aço com várias trancas. Uma placa dizia: OBSERVAÇÃO DE LONGO PRAZO. SOMENTE PESSOAL AUTORIZADO — DR. KEYS.

As trancas já estavam abertas.

Eu devia ter dado meia-volta. Meu Deus, eu devia ter dado meia-volta.

O cômodo lá dentro era enorme, uns 12 por 18 metros, com o teto sumindo na escuridão acima do alcance da lanterna. O cheiro me acertou como um soco: aquele cheiro de fábrica de sebo multiplicado por cem. E por baixo, outra coisa. Uma coisa que fez meu cérebro reptiliano gritar.

Tinham camas arrumadas em fileiras perfeitas. Trinta e seis camas.

Vinte e três estavam ocupadas.

Preciso que você entenda: eu já vi cadáver antes. Acidente em obra, uns suicídios em prédios que eu avaliei. Eu sei como é um corpo morto. Aquilo não eram cadáveres.

Eles estavam se mexendo.

Pouco. Só a respiração lenta, subindo e descendo. E eram… errados. Esquelético nem começava a descrever: eram corpos que tinham se devorado por dentro, queimado toda a gordura e depois começado no músculo, deixando só pele esticada sobre osso e tendão. Mas eram compridos demais. As proporções estavam tortas. Os dedos passavam muito do que deviam, com unhas grossas, amarelas e curvadas. As articulações inchadas, joelhos e cotovelos do dobro do tamanho normal.

E os olhos.

Quando a luz da lanterna passou pela cama mais próxima, os olhos se abriram de repente. Enormes, ocupando quase metade do rosto, pupilas tão dilatadas que pareciam buracos negros. Refletiam a lanterna como olho de bicho.

A boca daquela coisa se escancarou e eu ouvi um som que nunca vou esquecer: um estalo molhado, desesperado, como alguém tentando falar com a boca cheia de baba. A mandíbula desceu demais, e eu vi que os dentes tinham mudado — mais afiados, mais numerosos.

Depois ele se mexeu.

Nunca vi nada acelerar daquele jeito. Num segundo estava deitado; no outro já estava agachado na cama, cabeça inclinada num ângulo que quebraria o pescoço de qualquer pessoa normal. Não se movia fluido — dava uns trancos, como vídeo pulando quadro.

Todos os vinte e três acordaram. Vinte e três pares daqueles olhos gigantes, famintos, cravados em mim.

Eu corri.

Atrás de mim veio um barulho, não de passos, mas um estalar horrível, como se estivessem correndo de quatro. Ou de mais de quatro. Eu não olhei pra trás. Cheguei na escada e subi três degraus de cada vez, pulmão queimando, coração batendo tão forte que achei que ia explodir.

Uma coisa agarrou meu tornozelo.

Caí com tudo, queixo batendo no concreto. Atordoado, olhei pra trás.

Um deles tinha me pegado. A mão — se é que dava pra chamar assim — envolveu minha perna inteira, aqueles dedos compridos se encontrando do outro lado. O rosto dele estava a centímetros do meu, e eu conseguia ver cada detalhe na luz de emergência da escada.

Tinha sido homem um dia. Ainda dava pra ver na estrutura óssea, nos restos de humanidade agarrados às feições. Mas a fome tinha refinado ele em algo que a evolução nunca quis. A pele era translúcida, veias azuis visíveis como mapa. Os olhos desesperados, famintos, insanos.

A boca se abriu mais do que era possível, e eu vi a garganta se contorcendo, baba escorrendo pelo queixo em fios. O cheiro do hálito era indescritível: podre, ácido estomacal e algo químico.

Ele falou.

“Fome”, sussurrou, voz de folha seca. “Tanta… fome…”

Chutei a cara dele com o outro pé. Algo fez crack. Ele não soltou, mas recuou o suficiente pra eu arrancar a perna. Subi a escada engatinhando, depois me levantei e corri.

Cheguei no andar principal. A saída estava ali, luz do dia visível pelas janelas sujas. Eu ia conseguir.

Aí eu vi eles de novo.

Três no corredor à frente, bloqueando a porta. Deviam conhecer outro caminho pra subir. Se moviam daquele jeito horrível de stop-motion, pulando de um ponto pro outro, cabeças fazendo movimentos bruscos de ave pra me acompanhar.

O do meio usava o que sobrou de um crachá de voluntário da U of M. Ainda dava pra ler o ano: 1945.

Setenta e oito anos. Eles estavam lá embaixo há setenta e oito anos.

Olhei em volta desesperado e vi outra escada subindo. Corri pra lá, ouvindo aquele estalar atrás de mim de novo. Subi um lance, dois. Terceiro andar, corredor de escritórios vazios. Ali — uma janela, e uma escada de incêndio do lado de fora.

Não diminuí. Levantei os braços e me joguei no vidro.

Caí na escada de incêndio com força suficiente pra ver estrelas, vidro cravado na jaqueta e no cabelo. Embaixo, ouvi eles se atirando contra o batente da janela, incapazes ou sem vontade de seguir. Desci meio escalando, meio caindo, e corri pro meu caminhão.

Só parei de tremer direito quando já estava a mais de um quilômetro dali.

Não contei pra ninguém. Quem ia acreditar? Liguei pra universidade e disse que o prédio estava estruturalmente comprometido, que precisariam lacrar antes de qualquer demolição. Eles falaram que iam resolver.

Isso foi há três semanas.

No começo achei que estava bem. Assustado pra caralho, claro, mas bem. Tinha levado um susto, escapado, acabou.

Aí eu comecei a sentir fome.

Não fome normal. Era outra coisa. Eu comia uma refeição completa, enorme, mais do que eu costumava comer, e uma hora depois estava morrendo de fome de novo. Não só com vontade. Fome de verdade, dolorida, como se eu não comesse há dias.

Fui no médico. Ela fez exames. Tudo normal, disse. Metabolismo perfeito. Sugeriu que podia ser psicológico, me deu o contato de uma terapeuta.

Mas não é psicológico.

Eu sei porque perdi sete quilos em três semanas, mesmo comendo sem parar. Sei porque quando olho pras minhas mãos, meus dedos parecem mais compridos. Pouco. Só um pouco. O suficiente pra eu perceber quando digito ou pego um garfo.

Sei porque minhas articulações doem. Meus joelhos estalam quando levanto, e parecem inchados, quentes.

Sei porque ontem olhei no espelho e meus olhos pareceram grandes demais pro meu rosto.

Sei porque não consigo parar de pensar em comida. Todo pensamento volta pra isso. Sonho comendo, acordo com a mandíbula doendo de tanto ranger os dentes. Comecei a juntar receita de forma obsessiva, imprimi e cobri as paredes do apartamento com elas. Quando como, me pego lambendo o prato. Ontem me peguei calculando quantas calorias tem o cachorro da vizinha.

Sei porque a fome não tá mais na barriga. Tá nos ossos, nas células, no meu DNA. Tá me reescrevendo por dentro.

Passei de carro pelo prédio ontem. Tinham caminhonetes da manutenção da universidade lá fora, operários instalando chapas pesadas de aço em todas as janelas e portas. Nova placa: CONDENADO, PROIBIDA A ENTRADA, ESTRUTURA PERIGOSA.

Eles estão lacrando. Lacando eles lá dentro.

Mas pra mim já era.

Escrevo isso como aviso. O Experimento de Inanição de Minnesota não acabou em 1945. Continua rolando. Aqueles caras se voluntariaram pra passar fome pela ciência, pra ajudar a humanidade, e alguma coisa naquele processo transformou eles em algo que não devia existir. Talvez tenha sido a duração, a fome por tanto tempo que os corpos se adaptaram de formas impossíveis. Talvez tenha sido outra coisa, algo naquele prédio, naquele porão.

Não importa mais.

O que importa é que eu sinto acontecendo. As mudanças estão acelerando. Meus dedos estão definitivamente mais compridos hoje. Tive que aumentar o teclado no trabalho. Minha mandíbula estala quando mastigo, como se os ossos estivessem se soltando, se preparando pra esticar. Tô com tanta fome que mal consigo pensar, e comer não adianta mais. Nada adianta.

Ontem à noite senti vontade de voltar. Voltar pro prédio, pro porão. A fome me chama, sussurra que o alívio tá esperando no escuro com os outros. Que eu pertenço lá agora. Que sempre pertenci.

Tô tentando resistir. Tô tentando muito resistir.

Mas eu tô com tanta fome.

E meu contrato de aluguel vence mês que vem. Acho que não vou renovar.

Se você estiver lendo isso, fique longe do laboratório antigo no campus da Universidade de Minnesota. Não chegue perto. Não tente investigar. Lacrararam agora, mas lacre se quebra.

E pelo amor de Deus, se um dia você estiver perto daquele lugar e ouvir som de arranhões vindo de baixo da terra, se sentir aquele cheiro de fábrica de sebo misturado com vinagre e coisa errada, corra.

Porque eles ainda estão com fome.

Nós ainda estamos com fome.

E eu não acho que aguento muito mais tempo.

Meus dedos estão compridos demais pra digitar direito. Vou parar aqui.

Tem trinta e seis camas lá embaixo. Acho que uma delas sempre foi minha.

A Obra-Prima

Pouca gente sabe que tem um pintor morto no meu quintal. É verdade. Eu conto isso pros meus convidados no jantar quando eles têm coragem de aparecer aqui. Só que, assim que eu solto a bomba, eles já agarram os filhos, tiram as crianças do quintal – debaixo do qual tá enterrado um homem morto – e somem na noite. Nunca mais botam o pé na minha propriedade, parece que por muitos anos.

Uma vez, um desses meninos voltou já crescido e me perguntou por que os pais dele tinham me arrancado dali tão depressa e nunca mais deixaram ele voltar pra me ver. Eu contei o que já contei pra você e o que vou contar agora:

Tem um pintor morto no meu quintal. Você pisou na sepultura dele sem querer, e o pintor nunca quis que ninguém fizesse isso. Ele mesmo fez a própria cova e o próprio túmulo: moldou uma torre alta com as próprias tintas e pincéis, uma espécie de obelisco que sai do chão. Depois cavou um buracão na frente, deitou lá dentro e se matou. Aquela torre é frágil pra caralho – aguenta tempestade, mas quebra fácil no toque de gente, não importa o quanto você chegue de mansinho.

Naquele fim de semana, o fim de semana que ele se enterrou, caiu o maior temporal. A chuva e a terra que ele tinha jogado pros lados da cova cobriram o corpo dele. Tinham duas montanhas de terra – uma do lado direito, outra na lateral – pra dar conta dos quase dois metros de profundidade que ele tirou pra fazer a própria porta pro inferno. Dois metros em dois montes. Cada um parecia ter mais de um metro de altura; pareciam uns quatro pés gorduchos.

O pintor já tava morto há quatro dias. O corpo já tinha virado uma massa podre, pele solta, que derreteu e virou um caldo viscoso quando a chuva bateu. Quando a terra finalmente cobriu tudo, só as pernas dele – ainda dentro daquelas calças marrom chiques – não tinham perdido a pele e virado esqueleto. Ninguém sabia do cadáver no quintal – que hoje é meu, exceto a mãe dele. Ela viu o filho morto dentro do buraco e perdeu o juízo de vez. Nunca mais conseguiu voltar lá fora pra enterrar o menino direito. Fui eu mesmo que mandei a coitada pro sanatório lá perto do porto. Presa atrás de paredes brancas, ela deixou Deus e a Mãe Natureza fazerem o que ela, louca, não conseguia: enterrar o filho.

Quando chegou a hora de passar a casa adiante (casa vazia vira fantasma perfeito, né?), eu comprei da mãe dele por uma mixaria, uns trocados que pra ela não valiam nada, mas que pra mim abriram um rombo considerável na conta. Depois disso, fiz a coisa mais humana possível: gerei cinco filhos dentro dessa casa, cada um com uma esposa diferente. Nenhum deles – nem filhos, nem esposas – ficou muito tempo depois de eu soltar o clássico: “Querida, a gente tem um pintor morto no quintal.” Não vejo as crianças que elas levaram embora há até vinte e dois anos. A vida deles já tá longe demais pra ser minha de novo.

Nunca fui lá fora desenterrar aquele morrinho que hoje incha de leve no meu quintal, meter pá naquele montinho que brotou perto do meu canteiro de petúnias, como se a Terra tivesse criado uma espinha baixa no meio da barba rala. Não é alto o suficiente pra me dar trabalho de aplainar, mas incomoda o bastante pra eu tropeçar e cair toda vez que os anos vão matando meus ossos. O pintor era meu amigo; eu gostava mais dele que o próprio pai, aquele filho da puta que fez dele um bastardo. Enfim, eu já morri o suficiente pra não conseguir fazer mais nada sozinho, preciso de ajuda contratada, porque aquele buraco financeiro ainda não fechou, ainda sangra.

Olha lá pra torre. Tá desbotada, as cores agora cinza e mortas, lá na beira das árvores. Ainda é visível pra quem tem um pé no passado e força um pouco a vista: destaca contra a casca escura. Debaixo dela, um metro à frente, estão os restos do pintor morto. Do meu amigo morto. Acho que se você cavar vai achar os ossos dele lá, e a terra toda em volta vai estar impregnada da tinta que ele engoliu pra se matar. Quando eu morrer, você pode desenterrar ele se quiser; eu me arrependo tanto de não ter enterrado direito que jamais desenterraria de propósito, não enquanto ainda tiver um fiapo de moral me guiando.

Quando eu largar essa casa, só você vai poder decidir pelo meu amigo pintor: deixa ele em paz ou faz a coisa certa – acorda ele, invade a casa dele, dá o enterro decente que Deus manda, mesmo depois de cinquenta anos de sono? Pra mim, pensa se quiser, mas nunca faça. Se bater aquela vontade louca, vai lá e finca uma placa no chão, enfia uma faca na porta dele. Ou passa tinta por cima do nome desbotado que ele mesmo pintou na torre, na frente e atrás, se quiser desrespeitar a obra-prima do cara. Repinta essa casa, pinta meu caixão de vermelho antes de pintar de azul, mas nunca passe por cima da assinatura de um artista. Deixa ela gritar o próprio valor, e deixa o valor gritar por ela. Se tiver valor, fica e continua de olho na gente. Se não tiver… bom, acho que você é esperto o suficiente pra descobrir o que acontece.

E quando me enterrarem, me enterra bem longe do meu amigo, do lado da minha mãe, nunca do meu pai ou dos meus filhos. Os dois viveram vidas que eu não quero mais saber e não sou mais obrigado a conhecer. No céu, eu ainda quero deitar a cabeça no colo da minha mãe e soltar setenta anos de suspiro. Não sei o que levou meu amigo a se matar. Não quero encontrar ele lá em cima. Quero só a torre dele e a lembrança – nunca, jamais, a verdade que gerou as duas coisas.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon