sábado, 16 de agosto de 2025

O irmão cego dele está me observando... Eu juro

Eu tinha entrado num relacionamento há pouco tempo — apesar de toda intuição me dizendo para não me apressar. No fundo, eu sabia o que estava fazendo: precisava de um lugar para morar. Um teto. Estabilidade. Minha mãe, claro, tinha um monte de coisas a dizer sobre isso. Ela achava que eu estava indo rápido demais. Mas, depois de oito anos solteira, eu nunca tinha tido tanta certeza sobre um parceiro. E, além disso, meu relacionamento com a família já era bem tóxico.

Eu a tranquilizei mesmo assim. “Ele é um cara legal.”

Ela me deu aquele olhar de lábios apertados. “Só toma cuidado”, ela disse. “Você sempre acaba se metendo em encrenca.”

“Ele é inofensivo”, eu disse, sorrindo largo demais. “A gente vai até conhecer os pais dele.”

Foi quando bateram na porta. Ethan tinha chegado para me buscar. Minhas malas estavam prontas e esperando, como se eu estivesse preparada há mais tempo do que queria admitir. Ele ficou ali na porta, com o nervosismo estampado no rosto enquanto seus olhos procuravam os meus.

“V-você tá pronta?”

“Claro”, eu disse com um entusiasmo ensaiado. “Eu viajaria para qualquer lugar com você nesse momento.”

As palavras quase me convenceram também.

“Ótimo”, ele riu, mas de um jeito inquieto. “Minha família tá super animada para te conhecer... bem, a maioria deles.”

Eu não perguntei o que ele quis dizer. Ele jogou minhas malas no porta-malas do sedã vermelho dele, com cuidado e deliberadamente, e minha mãe observou da porta. Normalmente, ela repreenderia os caras, lembrando que eles tinham que cuidar de mim — mas, quando Ethan abriu a porta do carro para mim, a guarda dela baixou. Ela só ficou ali, estranhamente amolecida, e disse apenas:

“Toma cuidado.”

E, sinceramente, eu queria ter ouvido.

A viagem nos levou a uma casa modesta de dois andares com garagem anexa. Classe média genérica. Nada de mais. Ethan me olhou com aquela mesma expressão preocupada.

“Por favor”, ele disse baixinho, “se você vai ficar aqui... só saiba que minha família é um pouco fora do comum.”

Eu sorri de volta, embora parecesse forçado. “Não se preocupa. Minha família também é doida.”

Eu até ri, tentando vender a ideia. A verdade era que eu precisava disso. Precisava de um lugar longe da minha mãe, longe daquele ciclo infinito de reprovação. Se ser a namorada que mora junto significava me adaptar a uma família de esquisitos, que seja.

Mas, quando entramos, eu quase ri da advertência dele. A casa estava impecável. Normal. Normal demais. As paredes cheias de retratos de família. A cozinha cheirando a pão fresco. Os pais dele até tinham assado para a ocasião.

Sem gritos. Sem portas batendo. Sem brigas de bêbado. Só sorrisos educados, móveis limpos e uma civilidade quieta.

E isso, de alguma forma, me inquietava mais do que qualquer caos.

Do canto da cozinha, os pais dele surgiram — o pai imponente em silêncio, a mãe equilibrando um prato de biscoitos ainda quentes, com o cheiro de manteiga e açúcar pairando no ar.

“Oi!”, ela sorriu radiante. “Meu nome é Mary — mas, claro, você pode me chamar de Mãe.” Ela praticamente enfiou o prato debaixo do meu nariz.

Eu olhei para Ethan, que me deu um aceno tranquilizador, me incentivando a pegar um. “Mãe?”, repeti desajeitada, testando a palavra na boca.

“Se você preferir”, ela disse baixinho, com um sorriso todo carinhoso e acolhedor.

Peguei um biscoito da pilha, o calor surpreendendo meus dedos. “O-obrigada. Desculpa, é que eu não tô acostumada com esse nível de bombardeio de amor.” Ri nervosa, tentando me proteger com humor.

“Que bobagem!”, ela disse, com a voz borbulhando de alegria. “A gente tá feliz que você se juntou ao nosso cirquinho. E, se você tá com um dos meus palhaços, então eu te considero uma das minhas também.”

Eu ri também, embora as palavras dela coçassem no fundo da minha mente. Dois palhaços? Só tinha dois deles ali. Ela não podia estar falando do marido grandalhão. Então quem...?

A porta da garagem rangeu ao abrir.

Uma figura entrou — grande, corpulenta e... ouso admitir, impressionante. Ele se movia com uma graça sobrenatural, quase como se deslizasse em vez de andar. Seus olhos estavam cobertos, enfaixados com o que parecia uma camiseta preta rasgada. Sangue fresco vazava pelo tecido, manchando de escuro onde os olhos deviam estar.

Ele usava só uma calça jeans preta. A pele — marrom escura, músculos tensos — captava a luz de um jeito que me obrigou a desviar o olhar antes de ficar encarando demais. Mas não antes da mãe de Ethan notar.

“Aquele é o Lucas”, Ethan sussurrou, apertando minha mão no ombro como se me preparando. “Ele... sofreu um acidente.”

Ele achou que eu estava olhando com medo. Ou talvez com curiosidade mórbida.

Mas Lucas não tropeçava. Não tateava os móveis. Ele foi direto para o balcão, serviu um copo de leite para si mesmo, pegou um biscoito do prato — sem esforço. Como se a cegueira fosse só um incômodo, não um fardo. Depois, se inclinou e beijou a testa da mãe com carinho.

“Seus biscoitos são sempre os melhores, Mãe.” Ele farejou o ar, depois inclinou a cabeça na minha direção.

As faixas não escondiam a sensação de que seus olhos — o que quer que estivesse por baixo — estavam fixos nos meus.

“Ahhh”, ele disse devagar, mordendo o biscoito. “Parece que temos uma visita. E quem é você?”

Os outros agiam como se nada fosse estranho. Ethan até me deu um aceno sutil, como se me incentivando a responder.

“Eu sou... Emily. Mas pode me chamar de Emmy.”

Lucas mastigou pensativo, depois balançou a cabeça. “Nah. Vou te chamar de M&M. Tipo o doce.”

Os pais dele riram, como se fosse uma piada interna da família.

Ethan forçou um sorriso. “O Lucas tem um jeito bem... excêntrico de ver o mundo.”

“Ou a falta dele”, Lucas rebateu com um sorriso rápido. “Eu só não gosto de coisas previsíveis.”

Depois, ele se virou para mim de novo. O ar no quarto ficou mais pesado. “Então. Você é previsível?”

O silêncio me pressionou. Minha garganta apertou. Eu nem respondi — só respirei superficialmente, de um jeito afiado o suficiente para me entregar.

Lucas sorriu de canto. Levantou o copo de leite e tomou um gole, como se minha reação fosse toda a confirmação que ele precisava.

“Bom saber”, ele disse levemente, antes de voltar flutuando para a garagem.

Eu fiquei ali congelada, me perguntando que diabos tinha acabado de acontecer. Mas todo mundo continuou como se não fosse nada.

“Eu devia preparar o jantar”, Mary disse enquanto olhava para o reloginho de diamante dela. Ela se levantou e foi para a cozinha, enquanto Ethan, o pai dele e eu assistíamos a um filme... ou documentário...

A sala de jantar parecia um showroom. Uma mesa pesada de carvalho, polida até brilhar, e paredes forradas de pinturas que me fizeram parar no meio do passo. Não eram cópias baratas. Eram telas originais, cheias de cores violentas, pinceladas texturizadas. Rostos distorcidos. Membros dobrados em ângulos impossíveis. Algumas pareciam religiosas, outras grotescas, todas assombradoras.

Eu não conseguia parar de olhar.

“São todas obras do Lucas”, Mary disse orgulhosa, colocando uma travessa fumegante de frango assado.

Eu pisquei. “Ele pintou... todas essas?”

“Cada uma delas”, ela disse, com um tom que equilibrava orgulho e humildade ensaiada. “Ele sempre teve um olho para detalhes, mesmo depois...” Ela parou, os olhos desviando para a cozinha. “Bem, ele se vira.”

O marido dela sentou na cabeceira da mesa, silencioso como uma estátua, só acenando uma vez como se confirmasse.

Ethan colocou a mão no meu joelho por baixo da mesa, como se me firmando. Seu sorriso não vacilou. Mas eu sentia os dedos dele apertando, me ancorando no lugar.

Então a porta da garagem rangeu de novo.

Lucas surgiu, dessa vez não com jeans preto, mas sem camisa, salpicado de tintas — escarlate, cobalto, ocre espalhados pela pele como pintura de guerra. As calças estavam arruinadas com manchas, as mãos pingando terebintina e óleo. A faixa ensanguentada ainda estava amarrada sobre os olhos, mas de alguma forma a cabeça dele se inclinou na minha direção no segundo em que entrou.

Ele parecia uma criatura saída direto de uma das próprias pinturas.

“O jantar tá cheirando bem”, ele arrastou a voz, se sentando na cadeira em frente à minha. Nem se deu ao trabalho de se limpar. O cheiro de tinta e químicos se misturou ao do frango assado até meu estômago revirar.

Ele pegou um pão sem errar, rasgou e falou direto comigo. “Então, Emmy”, ele disse, com a voz baixa, quase íntima, “como é se sentar cercada por mim?”

Eu congelei, sem saber se ele falava das artes ou de outra coisa.

A mão de Ethan apertou a minha com força, mas ele não disse nada. A mandíbula dele tensionou, olhos no prato, como se aquilo não estivesse acontecendo.

Mary deu uma risada educada, rápida e frágil. “Lucas”, ela repreendeu levemente, “não deixa nossa visita desconfortável.”

Lucas só sorriu de canto, inclinando a cabeça para mim de novo. “Eu não tava perguntando para deixar ela desconfortável. Tava perguntando porque eu sinto o batimento cardíaco dela daqui.”

O quarto ficou imóvel. A faca do pai tilintou no prato. Ele não olhou para mim. Não olhou para ninguém. Só disse, com uma calma final: “Comam.”

Todo mundo obedeceu.

O resto do jantar se dissolveu em silêncio, pontuado só pelo arranhar de garfos e a risada suave ocasional de Mary para remendar o ar. Lucas nunca parou de sorrir. Ele comeu com a graça de alguém que via tudo. E mais de uma vez, eu peguei aquela sensação impossível de que, atrás daquela faixa ensanguentada, os olhos dele estavam bem abertos — e fixos em mim.

Mais tarde aquela noite, na casa deles, eu não conseguia dormir.

O quarto de hóspedes estava impecável — impecável demais. Lençóis brancos esticados apertados no colchão, o ar perfumado levemente com lavanda, como se alguém tivesse borrifado minutos antes de eu chegar. Deveria ser reconfortante, mas em vez disso me deixava agitada. Cada rangido da casa parecia amplificado, cada tique do relógio de pêndulo no corredor vazava nos meus ouvidos.

Ethan estava deitado ao meu lado, já dormindo, de costas para mim. A respiração dele era pesada, constante. Quase ensaiada. Ele nem tentou me tocar, nem um beijo de boa-noite. Depois da tensão estranha no jantar, eu não sabia se ficava grata ou ofendida.

Eu encarei o teto. Minha garganta estava seca. Seca demais. Finalmente, saí de debaixo das cobertas, cuidadosa para não acordá-lo, e fui descalça pelo corredor.

A casa era diferente à noite. Sombras se alongavam pelas paredes, esticando das pinturas do Lucas. Elas pareciam vivas na luz fraca — santos retorcidos e corpos fraturados se curvando como se me observassem passar.

Eu me disse que era só imaginação, mas acelerei o passo para a cozinha.

Foi quando ouvi.

Um farfalhar fraco. Pés descalços no piso de madeira.

Eu congelei.

E então eu o vi.

Lucas.

Ele estava no fim do corredor, bem na porta do banheiro. Sem camisa, só uma toalha jogada casualmente no ombro. A pele dele brilhava com um brilho de suor, e tinta ainda grudava no peito em listras, como resquícios de um campo de batalha. A faixa — tecido escuro e amarrado — ainda cobria os olhos. As manchas pareciam mais frescas agora, vazando mais escuras no centro.

Por um momento, ele não se mexeu. A cabeça inclinou levemente, como se escutasse.

Depois, com precisão lenta, ele esticou a mão, encontrou a moldura da porta do banheiro e se apoiou nela. Sem tropeçar. Sem se perder. Só... esperando.

Eu devia ter voltado. Devia ter pego minha água e fugido. Mas fiquei ali, plantada, observando.

Ele falou sem se virar para mim. “Você tá com sede.”

Não era uma pergunta.

Minha respiração travou. “Eu... só queria um pouco de água.”

Lucas sorriu, os lábios se curvando na luz fraca. “Meio da noite. Primeira noite numa casa estranha. Você é mais corajosa do que parece, M&M.”

Ele disse baixinho, como um segredo.

Eu engoli em seco. “Você... tá acordado até tarde também.”

“Eu vago”, ele disse simplesmente, os dedos roçando a faixa como se para me lembrar dela. “As paredes não me dizem mais muita coisa. Preciso sentir a casa para saber que ela ainda tá aqui.”

Eu não soube o que dizer. A voz dele preenchia o silêncio, baixa e rica, ressonante de um jeito que deixava o ar quente demais.

Ele se impulsionou da moldura então, se aproximando — sem tropeçar, sem tatear, mas andando com uma certeza sobrenatural. O ombro roçou a parede ao passar, os dedos roçando a superfície levemente, quase com carinho.

Ele parou a poucos passos de mim. Perto o suficiente para captar o cheiro forte de terebintina ainda grudado na pele dele, misturado ao suor limpo de alguém prestes a tomar banho.

“A água tá na cozinha”, ele murmurou. “Mas acho que você já sabia disso.”

Forcei uma risada que saiu frágil. “É... obrigada.”

Ele inclinou a cabeça, como se saboreando o som dos meus nervos. “Você respira mais rápido quando mente.”

Meu pulso martelava tão alto que eu juro que ele ouvia. Ele se inclinou um pouco, sem tocar, só perto o suficiente para eu sentir o calor irradiando do corpo dele.

“Vou tomar banho”, ele sussurrou, a voz caindo para algo quase conspiratório. “Se precisar de alguma coisa.”

Depois, ele passou por mim, toalha no ombro, os olhos enfaixados sem vacilar. Desapareceu no banheiro e fechou a porta com um clique lento e deliberado.

Eu fiquei no corredor, a água esquecida, cada nervo do meu corpo vivo.

E não conseguia me livrar da sensação de que ele não precisava de olhos para me ver.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Eu nunca vou esquecer o que vi na casa do meu amigo

O que a gente viu naquela noite na casa do meu amigo... Eu nunca vou esquecer. Não era algo inexplicável. Não era paranormal. Isso até teria sido quase reconfortante, de certa forma, saber que vinha de fora do nosso mundo, mesmo que fosse aterrorizante. Mas isso... isso era muito mais real.

Era um inverno brutal, durante as férias da escola. A gente tinha 16 anos e já se reunia quase todo fim de semana na casa do meu amigo pra beber e jogar videogame. Nosso passatempo favorito (e bem idiota) era o de pênaltis no FIFA, e toda vez que alguém levava um gol, tinha que virar um shot da vodca mais barata que a gente conseguia achar.

É, era burro, bem burro mesmo, mas a gente ria até não poder mais. Minhas melhores lembranças são daquele quarto, lá no fundão da casa do meu amigo, bem do lado da lavanderia e antes da varanda dos fundos. A mãe dele não podia reclamar do barulho, e ela não fazia ideia de quanta bebida a gente estava mandando pra dentro só por diversão. Pelo menos era o que a gente achava.

Aquela noite não parecia diferente das outras. Saí de casa e avisei pra minha mãe que ia pra casa do Luke. Ela sabia exatamente o que isso significava, mas era... digamos, "seletivamente" permissiva. Ela não aguentava me ver bebendo ou fumando, mas se eu fizesse isso pelas costas dela, de repente não era mais problema. No caminho, parei na vendinha da dona Rosita, aquela senhora que me vendia cigarro e bebida mesmo sabendo que eu ainda estava no ensino médio. Igualzinho sempre: um maço de cigarro e a vodca mais barata que tinha.

Fui o primeiro a chegar na casa do Luke. A mãe dele me deu uma olhada de lado rapidinha e um sorrisinho cúmplice quando ouviu o tilintar da garrafa batendo nas minhas chaves dentro da mochila. Ela sabia, mas, igual à minha mãe, não ia se meter.

Fui direto pro quarto dos fundos. O Luke já estava bebendo uma cerveja, Deus sabe de onde ele tinha tirado aquilo, e jogando um jogo que eu achei que era de tiro no começo, mas na verdade era de terror. Ele estava de moletom e coberto por um cobertor que tapava ele inteiro; eu só via a cabeça e as mãos, o que me pareceu um pouco esquisito. Mas, pensando bem, aquele quarto, por mais que a gente adorasse, era frio pra caramba. Sem aquecedor. A janela fechada, mas de algum jeito o vento ainda entrava. Lá dentro tinha só um colchão velho no chão, uma TV ainda mais velha e nosso tesouro sagrado: o PlayStation 2.

Cinco minutos depois que eu cheguei, a gente já estava jogando aquele joguinho idiota de pênaltis. Enquanto isso, conversávamos sobre as coisas de sempre: garotas, boatos meia-boca e outras bobagens que adolescentes de 16 anos ficam obcecados.

Agora, eu adorava o Luke, ele era meu melhor amigo e eu sempre fui super apoiador dele, não importava o que fosse, mas o relacionamento dele com a namorada era... esquisito. Ela era insanely ciumenta, a ponto de, mesmo sendo um adolescente bobão, eu saber que aquilo passava dos limites. Ela geralmente não aparecia nas nossas reuniões, graças a Deus. Mas de vez em quando, ela surgia do nada, como se estivesse torcendo pra pegar o Luke no flagra traindo.

A gente falou sobre isso naquela noite. Ele estava de saco cheio. Eu não entendia por que ele não terminava logo com ela. Ele disse que, se não respondesse uma mensagem em um minuto, ela ligava pra ele. Se não acordasse antes dela pra mandar "bom dia", ela bloqueava ele. Qualquer interação com uma garota já era motivo pra ela surtar. "O sexo é bom. Muito bom... mas ela curte umas coisas estranhas", ele disse. Eu insisti pra ele explicar. Ele sempre foi do tipo que conta tudo e ri, mas dessa vez ele estava sério pra caramba.

Enfim, a noite seguiu como sempre. O resto da galera chegou, e nós quatro jogamos o joguinho de pênaltis até a bebida acabar. Já era tarde, mas a vendinha da Rosita ainda estava aberta. O bairro era bem tranquilo, mas àquela hora, a gente ainda tinha que ficar de olho aberto.

Deixamos os celulares no quarto. O Luke disse que estava frio demais pra ir, então o resto de nós foi e ele ficou pra trás jogando. Assim que saímos, vimos a namorada do Luke no portão, com o celular na mão e uma mochilinha do Hello Kitty no ombro.

Abri o portão e deixei ela entrar. Ela não disse uma palavra pra gente, odiava todos nós por motivos que a gente nunca entendeu. Assim que viramos a esquina, começamos a rir feito loucos. Ela não podia ser mais esquisita. E o que quer que fosse rolar lá dentro... não ia ser bonito.

Demoramos pra voltar, só pra evitar o climão. Mas depois de meia hora, o frio estava insuportável, então voltamos mesmo assim. Sem gritos, sem vozes. Que alívio. Talvez a gente tivesse escapado do drama.

Mas, quando chegamos mais perto, ouvimos uns... sons molhados. É a única forma de descrever. Achamos que íamos pegar um boquete bem constrangedor no flagra, então, sendo os idiotas que éramos, fomos nos aproximando da porta na ponta dos pés, espiando.

Abri a porta de supetão e todos nós congelamos. Um dos meus amigos correu pra varanda dos fundos e vomitou antes mesmo de chegar lá fora.

O Luke estava deitado sem camisa no colchão velho. O tronco e os braços dele estavam cobertos de feridas mal cicatrizadas. Pedaços de pele faltando. Carne seca, como couro... e músculo fresco, cru, onde um pedaço novo tinha acabado de ser arrancado do antebraço dele.

Do lado dele estava a namorada. Mastigando uma tira de pele e músculo, os dentes afundando naquilo com um som nojento, gosmento. Ela nem parou quando nos viu. Engoliu o pedaço, limpou a boca com um guardanapo de pano da mochilinha do Hello Kitty, se levantou e foi embora.

O Luke implorou pra gente não contar pra mãe dele. Disse que estava "lidando com isso", que ela era perigosa, que não podia simplesmente largar ela. De alguma forma... a gente acreditou nele. Acho que estávamos chocados demais pra pensar direito.

Não vi muito o Luke naquele inverno. Ele parou de responder minhas mensagens no Facebook. Quando as aulas voltaram, descobrimos que ele tinha se mudado pra outra cidade. Meses depois, ele me mandou uma mensagem dizendo que não teve escolha, tinha que se afastar o máximo possível dela. A gente se encontrou de novo eventualmente. Ainda saímos de vez em quando.

Nunca tocamos no assunto. Ele quer deixar no passado. Fingir que não aconteceu. E, sinceramente, eu também quero. Mas não consigo apagar aquela imagem da minha cabeça. Nem o som. Aquele som nojento, gosmento de mastigação... dela comendo aquele pedaço de carne.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Minha namorada terminou comigo depois de uma lesão na minha cabeça. Sete meses depois, descobri o porquê...

No começo deste ano, minha ex-namorada, Alexandra, terminou comigo por motivos que ela ainda não me contou pessoalmente. As semanas antes do término são um borrão na minha memória. Eu sofri uma lesão na cabeça, sem me lembrar de como aconteceu, e suspeito que isso seja o motivo de eu não conseguir recordar nada do que supostamente fiz ou disse para ela.

A Alex e eu nos conhecemos desde o ensino médio, mas só viramos um casal no nosso primeiro ano de universidade. Agora estamos no segundo ano, e nossas moradias ficam a uns 20 minutos de distância uma da outra.

Três dias atrás, o diário da Alex chegou pelo correio na minha casa. Provavelmente foi ela quem mandou, mas não tenho como confirmar. Ao ler as entradas das datas que eu não lembro, senti um terror que não dá para sacudir. Um que não me largou desde então.

Um pouco de contexto extra para essa história: Bunny-Bunny era um grupo infame no Facebook em 2022, onde os membros postavam fotos supersaturadas de crianças da escola (a maioria meninos), junto com uma nota de zero a cinco cenouras. Isso vinha acompanhado de legendas perturbadoras, tipo "gosto único" ou "boca linda". O grupo começou a circular por quase todas as escolas da minha região e era o que todo mundo comentava. A teoria principal entre os alunos era que predadores locais usavam o grupo para avaliar vítimas em potencial, mas nunca teve prova disso. O grupo foi banido rapidinho do Facebook depois que os pais das crianças envolvidas descobriram as postagens. Depois do incidente, e de umas dezenas de reclamações na minha escola, fomos proibidos de falar sobre isso de novo, por respeito aos alunos afetados.

Abaixo, vão trechos do diário que eu resumi para incluir só as partes sobre mim, nos dias que antecederam o nosso término.

Terça-feira, 7 de janeiro

O Daniel me ignorou o dia inteiro. Ele costuma me mandar uma mensagem fofa toda manhã para começar o dia bem, mas hoje só respondeu por volta das 17h. Quando finalmente falou, perguntou se eu queria ir até lá, e eu disse que sim, toda animada. Mas, quando cheguei, o comportamento dele estava... estranho.

Ele me deu um sorriso esquisito e parecia estar agindo todo tímido perto de mim; me olhando como se estivesse deslumbrado. Achei fofo e pensei que era porque ele me achava linda naquele dia. Tinha também um hematoma bem visível do lado esquerdo da testa dele, o que me preocupou, mas ele dispensava sempre que eu tocava no assunto. "Não é nada" "Para de se preocupar". Decidi deixar pra lá porque ele ficava visivelmente irritado com os meus comentários, e eu tinha medo de ter envergonhado ele.

Sexta-feira, 10 de janeiro

O comportamento do Daniel está ficando preocupante. Ele não está indo às aulas como de costume e fica esquecendo coisas básicas, tipo onde deixou as chaves, datas que a gente marcou, senhas dos e-mails etc. E tem um cheiro horrível vindo da cama dele.

Ele também pegou uns hábitos esquisitos, coisas que nunca demonstrou antes. Hábitos como lamber os lábios toda vez que me vê, cheirar meu cabelo, me apertar mais forte do que o normal quando a gente se abraça, e quase não piscar. Acho que o pior é a queda óbvia na higiene dele. Ele não toma banho nem escova os dentes a menos que eu fale, e eu tenho que praticamente forçar. A gente divide os mesmos produtos de skincare, e dá pra ver que ele está negligenciando tudo.

Segunda-feira, 13 de janeiro

Ontem à noite, fui para a moradia do Daniel depois da minha aula, e ele estava ainda mais desleixado do que nos últimos dias. Os olhos dele estavam vermelhos de sangue e a respiração dele era bem pesada. Parecia que ele estava ficando sem ar. Perguntei se ele estava bem, e ele praticamente se jogou em cima de mim e começou a me beijar de forma agressiva. Isso me pegou de surpresa, então eu o empurrei com toda a força, mas mesmo assim ele continuou tentando subir em cima de mim. Eu gritei "Que porra é essa que tá acontecendo com você!", e isso pareceu acordá-lo, mas ao longo do resto do dia ele ficava tentando me convencer a transar com ele.

À medida que a noite foi escurecendo, o Daniel ficou mais frustrado. Toda vez que eu ousava recusar as investidas sexuais esquisitas dele, ele me olhava como um animal selvagem. Sinceramente, aquilo estava começando a me dar arrepios. Ele tinha uma expressão vazia no rosto, não piscava, e os olhos dele até começaram a encher de lágrimas. Fui escovar os dentes para fugir da situação, mas quando voltei uns minutos depois, ele estava completamente apagado, como se já estivesse dormindo há horas. Percebi que os olhos dele estavam vermelhos provavelmente por exaustão, e, por sorte minha, o sono finalmente o pegou.

Aliviada, peguei meu celular e chamei um Uber na hora para não ter que voltar sozinha para a minha moradia, mas logo depois de pagar, vi algo se mexendo no canto inferior do meu olho. Olhei rápido para baixo e vi uma mão de pessoa, rastejando devagar de debaixo da cama do Daniel. Não tem palavras para descrever o medo que eu senti nesse momento. Fiquei parada, paralisada, enquanto esse homem de meia-idade começava a sair de baixo do corpo inconsciente do meu namorado. O cara era um pouco acima do peso, careca, e parecia um cadáver de uma semana. Depois que ele se levantou, a gente se olhou por um instante, e a boca dele se contorceu no sorriso mais horrível que eu já vi, antes de dizer as palavras "obrigado". Nesse momento, saí do transe de pavor, gritei o mais alto que pude e corri direto para fora do prédio, sem perder tempo pegando nenhuma das minhas coisas.

Quinta-feira, 16 de janeiro

Passei os últimos três dias na casa dos meus pais, só tentando processar toda essa situação com o Daniel. Ele voltou a me mandar mensagens de bom-dia como se nada tivesse acontecido, e alega não ter ideia de quem era o homem debaixo da cama dele. O que eu quero saber é por que ele disse "obrigado". Será que ele estava nos gravando? O Daniel sabia disso e estava sendo pago para realizar a fantasia pervertida desse cara de espiar uma garota de 19 anos? Talvez por isso ele tenha insistido tanto em transar comigo o dia todo, e ficado bravo quando eu recusava. Acho que vou simplesmente cortar ele da minha vida, porque essa história toda estragou a forma como eu o vejo.

Sexta-feira, 17 de janeiro

Hoje de manhã, recebi um e-mail de uma ex-colega da minha antiga escola com um link anexado. O link era para um grupo no Facebook chamado "Rabbit-Rabbit". Cliquei por curiosidade e não estava nem um pouco preparada para o que vi. O grupo era o Bunny-Bunny em tudo, menos no nome. Centenas de postagens de crianças e adolescentes sendo avaliados com cenouras. Esses tarados estavam ativos e postando o tempo todo, pelo menos duas postagens por dia no último ano. Minha raiva durou pouco e logo virou horror quando rolei para baixo e vi um rosto familiar em uma postagem de terça-feira, 14.

A foto de perfil do usuário que postou era o mesmo sorriso torto que eu vi no quarto do Daniel. Era o homem debaixo da cama. O nome de usuário dele era "Elmer Fudd" e, para o meu choque total, ele postou uma selfie supersaturada do Daniel, com cinco emojis de cenoura na testa dele.

A legenda dizia "Pele confortável".

Fim dos trechos do diário

Eu chequei a selfie usada na postagem do Rabbit-Rabbit (que, surpreendentemente, ainda está no ar) e não me lembro de ter tirado ela. Achei que a Alex estava mentindo quando me perguntou sobre um tal "homem que saiu rastejando de debaixo da cama". Espero que alguém aqui consiga dar algum sentido a tudo isso, mas acho que o melhor é eu tentar não entrar em contato com ela mais.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Toda vez que durmo, vejo pessoas sendo massacradas

Quase não quero mais dormir. Estou tão exausto que só penso em morrer. Lembro dos bons tempos. Minha cabeça no travesseiro depois de um banho quente. O sono vindo quase instantaneamente.

Sempre tive esse talento. Cheguei a me gabar disso, em outra época.

Agora, é o meu inferno. Especialmente agora, tentando ficar acordado. Tentando adiar o inevitável. Se eu me deitar, apago na hora.

Por que isso começou? Que se dane, eu não sei. Só quero que acabe. Não uso eletrônicos antes de dormir. Nada de telas. Não como nada menos de uma hora antes de ir pra cama. Tomo banho todas as noites. Leio um livro. Algo chato, tipo filosofia ou sei lá o quê. Algo pra apagar as luzes. E, nossa, como elas apagam.

Em menos de uma hora, meus olhos começam a pesar, e agora me deito para dormir.

Eu costumava amar dormir. Fazia isso o tempo todo. Até durante o dia, tinha períodos de cochilos marcados e um horário fixo pra dormir à noite. Levo meu sono a sério, me processem. Na verdade, agora, só me matem.

Não são pesadelos. Sei o que você tá pensando, mas não são. Toda vez que acontece, estou lá. No segundo em que minha cabeça toca o abraço gostoso do travesseiro, os demônios começam a aquecer os tridentes pra me atormentar a noite toda.

E, de repente, é como se eu estivesse acordado de novo. Estou sentado no sofá de alguém, alguém real. Na mesa de jantar de alguém, alguém real. Na cama com eles, de verdade. Perto demais pro meu gosto, de verdade. Observando.

E é diferente a cada vez. Alguém novo. Como se eu estivesse assistindo a um filme do qual faço parte, mas sou aquela mosca na parede que ninguém nota, mesmo estando bem na frente deles.

E todos estão sendo massacrados.

Lá estou eu, sentado na poltrona reclinável da casa de uma velhinha e um velhinho. O carpete é tão macio. A poltrona cheira a suor de idoso e queijo. As lâmpadas são todas velhas e amareladas. Iluminam o suficiente pra enxergar, mas não com clareza. À minha frente, uma TV. Ao meu lado, um sofá com uma senhora comendo amendoins de uma tigela, sem olhar pra TV. Ouço cada mastigada e estalo como se fossem engrenagens triturando. Vejo e ouço tudo em 4D. O marido dela está ao lado, encarando a televisão, o pé batendo no chão antes de ele se levantar.

Ele resmunga, com a voz rouca: “Vou pegar um cigarro.”

“Isso vai te matar, sabia?”, diz a velhinha.

Tem uma porta à esquerda da TV que não paro de olhar. Uma daquelas portas de correr que entram na parede. Está totalmente aberta. A escuridão aberta boceja como a boca de um blasfemo.

Porque o que vem de lá é profano.

O velho é jogado contra a parede do outro lado. Ainda não o vejo, mas sei o que está acontecendo pelo barulho. Ele cai no chão, convulsionando violentamente, batendo em tudo que é quebrável na sala. A esposa ao lado dele, gritando. Amendoins e cigarros voando por aí. Eu, incapaz de me mover, e ele finalmente para. Ele olha pra esposa uma última vez.

“Por favor, Edith. Só me beije mais uma vez…”

Confusa e assustada, ela o faz. Eles se abraçam, e os lábios se unem. O som de carne molhada se chocando, saliva escorrendo pelos rostos, línguas fazendo um aperto de mãos secreto. A mão dele ainda segurando o maço de cigarros. A esposa limpa a boca e olha pra ele.

“Querido… o que foi isso?”

Foi quando o rosto dele se abriu.

Eu trabalhava numa criação de pombos. Vendíamos as aves pra fazendas e acampamentos de caça, pra treinar cães. Não sei se você já viu um filhote de pombo natimorto dentro do ovo, depois que você puxa a camada de carne e vê ele lá, todo vermelho e amontoado, como um verme deformado encharcado de grenadine e salpicado com lascas de madeira. Era mais ou menos assim que parecia.

Aconteceu em, no máximo, cinco segundos. Toda a pele e os ossos do rosto dele se abriram. Como uma pupila se dilatando ao máximo. Só que dentro havia algo como lama vermelha misturada com carne, que caiu direto no rosto dela e na boca ainda aberta.

Um último beijo de despedida.

A mulher se contorcendo e se debatendo de nojo. Cuspindo, tossindo, engasgando. Eu desejando poder fazer o mesmo. Ela se arrasta, o rosto rosado virando de um lado pro outro, procurando um agressor. Fazendo um gemido baixo, como o de uma mula, repetidamente. Recuando, recuando, recuando. Ela não viu a mesinha de centro e cai de lado. Ouço um estalo audível e um suspiro raso.

E então, apago.

Como o fade-out de uma cena de filme, as cortinas se fecham, e sou puxado pra uma escuridão turva, de volta a algo como o sono. O resto da noite sem interrupções.

Agora me deito para dormir.

Mas não é um sono tranquilo. É um sono longo, atormentado, suado, quente, que me faz acordar sentindo como se tivesse dormido por dias e com uma enxaqueca que faria um padre botar uns trocados no pote de palavrões.

Revirando o cérebro. Dizendo a mim mesmo que foi um sonho. Ainda sentindo o cheiro daquele filhote de pombo quente e se contorcendo.

Tomo banho toda manhã também. Não só por causa do suor, da enxaqueca e da urina, mas também do sangue. Minhas narinas parecem ter sido perfuradas por um lápis Ticonderoga até a letra R.

Não, não bati o rosto. Não, não estou doente. Não, não vou ao maldito médico. Não tenho plano de saúde e, literalmente, não posso pagar por isso.

Toda manhã é assim. O cheiro de órgãos recém-abertos nunca vai embora. Um cheiro quente, ardido. Fica pior quanto mais isso acontece. Como se o cheiro estivesse apodrecendo nas minhas vias respiratórias, e a cada manhã, uma nova camada é cuidadosamente aplicada. Dói pra respirar, pra comer, pra engolir, tossir, espirrar. As bordas do meu nariz estão cheias de cascas de tanto limpar as gotas, rasgando a pele a cada vez.

Toda noite é a mesma coisa, mas diferente.

Dessa vez, é uma esposa e filhos encolhidos num canto enquanto o pai é espancado e mutilado na frente deles por um invasor que nenhum de nós consegue ver. Ele gritando, repetidamente:

“Me desculpe! Me desculpe! Me desculpe! Não consigo evitar—”

Enquanto isso, eu fico pendurado com uma mão no ventilador de teto. Só apreciando a vista.

Em outra, estou aos pés da cama de alguém, na posição de sapo. Os pés deles pra fora do cobertor, começando a convulsionar silenciosamente, correndo no lugar por um instante, como um porco baleado, enquanto uma voz vem debaixo da porta.

“Tom?”

Em resposta, o volume na outra ponta da cama começa a manchar, se espalhar, vazar. Um rio de sangue escorre dos dois lados, e um pouco respinga em mim.

Deveria ter mantido os pés debaixo do cobertor.

E de novo, agora estou em cima de uma cômoda, olhando enquanto um homem abre as gavetas. Ele pega uma caixa. Um envelope. Muito dinheiro. Mete a mão no bolso e coloca outra pilha de dinheiro no envelope. Uma mulher se junta a ele e olha dentro, impressionada. Eles riem e falam sobre o que vão fazer com o dinheiro antes de pararem e olharem pra baixo, cada um pro próprio peito, e começarem a se despir. Algo está se movendo. Algo dentro deles. Eles gritam, choram, as costelas explodem pra fora enquanto caem de cara no chão, mortos, e as costelas batem de cada lado como pequenas asas.

Elas não voam muito longe. As asinhas os elevam ligeiramente, mas os braços e rostos moles só arrastam no chão. Eles voam em círculos, em direções opostas, ao redor do envelope e da pilha de dinheiro espalhada, deixando um rastro duplo de sangue como lesmas.

E sou sempre eu que tenho que ver.

Já faz três dias que não durmo. Tento entender isso. Não quero que aconteça de novo. Não quero ver de novo. Não assisto às notícias. Não saio mais de casa.

Não quero dormir. Mas está tão tarde, e estou tão cansado. Preciso. Não entendo. Preciso de um drinque. De muitos drinques.

Talvez essa seja a cura. Vou ficar bêbado. Bêbado demais pra isso acontecer. Só apagar até amanhã. Como nos velhos tempos.

Minha mão na garrafa. Levanto pra tomar um gole longo e glorioso. Mas, de repente, minha cabeça dói de novo, muito. Uma enxaqueca rasgando meu cérebro como uma agulha quente de veneno, e meu nariz começa a sangrar.

Não de novo.

Perco o equilíbrio e desabo no chão, chorando, nu e gritando como no dia em que nasci.

E sinto o leve cócegas de uma mosca pousando no meu pé.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon