terça-feira, 14 de outubro de 2025

O que deixei na colina

Nunca pensei que voltaria aqui. A cidade está menor do que eu lembrava, e olha que ela nunca foi grande coisa. Tudo está mais quieto agora, como se alguém tivesse abaixado o volume uns graus.

É outono, então a praia não foi limpa pra receber nadadores ou famílias. Montes de algas vermelhas e enegrecidas, misturadas com conchas vazias, emolduram a linha d’água, trazendo o mesmo cheiro de sal, peixe e podridão. Pelo menos isso não mudou.

Voltei porque quis ver tudo de novo. Meus filhos já cresceram e saíram de casa, e meu marido faleceu há algumas semanas — câncer de próstata, quem diria — e eu só precisava de um pouco de conforto. Estava me sentindo tão sozinha.

Tive um sonho com ela, também. Ela estava sentada debaixo da macieira, a maior de todas, com o cabelo grudado no rosto. Aquele sorriso brincalhão estampado, como se tivesse acabado de me vencer em algum jogo que ela mesma inventou. A gente sabia que ela tinha trapaceado.

Encontrei um aluguel bem legal. É fácil achar um, especialmente na baixa temporada. Da janela do meu quarto, dá pra ver as telhas vermelhas da casa amarela. Não são as mesmas, claro. Reconstruíram depois do incêndio. Ninguém diria que uma criança morreu ali.

Também consigo ver minha antiga casa. Parece a mesma, só que renovada. Mais nova do que era. Tem um trampolim no quintal da frente e um balanço pra crianças pequenas. É reconfortante imaginar que uma criança pode estar dormindo no meu antigo quarto, com as paredes recém-pintadas, pôsteres grudados com tachinhas e livros numa prateleira. Eu teria adorado isso. Quando era meu, o teto vazava quando chovia; cheirava a mofo, não a tinta fresca ou produto de limpeza. Eu não podia guardar livros ali.

Naquela época, e acho que agora também, a cidade ficava morta por nove meses do ano. Os adultos brincavam que a gente só acordava quando os turistas começavam a chegar, lá pela metade de junho, pouco antes do solstício de verão. Era quando os restaurantes ficavam abertos mais de dois dias por semana, quando as lojinhas de souvenirs no píer paravam de parecer abandonadas. O mercadinho local ficava bem abastecido com frutas e legumes que não eram só maçãs da região, repolho ou batatas.

Meu pai ficava fora a maior parte do ano, trabalhando na Noruega, mas voltava pros verões. Tinha uma barraquinha no píer onde vendia lanches e balões, e sempre chegava em casa cheirando a pipoca, algodão-doce quente e fumaça de charuto. Acho que ele era mais gentil com os filhos dos turistas do que com os próprios.

Não acho que minha mãe queria ter filhos, mas acabou com três. Ela e meu pai mal se falavam, e aquele verão não foi diferente. Ele estava ocupado demais com o trabalho e, suponho, com outras mulheres. Ela, por sua vez, estava atarefada com meu irmãozinho e minha irmã. Havia sete anos de diferença entre mim e minha irmã, que tinha três anos, e dez entre mim e meu irmão. Naquele verão, eles não eram boa companhia pra brincar. Nem depois, mas por outros motivos.

Eu nunca fui uma criança popular. Não que sofresse bullying, ou que as outras crianças fossem cruéis comigo: eu participava das brincadeiras, como pega-pega ou esconde-esconde, mas nunca era escolhida primeiro. Tinha que lembrar aos outros que eu estava ali. No geral, me sentia meio invisível.

Não me importava tanto, ou pelo menos gosto de fingir que não.

Entre nossa casa e a amarela ao lado havia um pedaço de terreno que, no verão, virava um matagal de ervas altas e flores silvestres, com um pequeno círculo de árvores, meio cercado e inútil pra qualquer construtora. Não era grande o suficiente pra construir nada, e o lote tinha um formato esquisito. Ficava ali, esquecido, zumbindo com abelhas no verão e ficando cinza e duro no inverno. Eu passava muito tempo lá.

Costumava levar um cobertor e um livro da biblioteca, às vezes uma maçã, e sentava debaixo da maior bétula. Era o único lugar que parecia meu. Minha mãe não se importava onde eu estava ou o que fazia, desde que voltasse antes do jantar, e não tenho certeza se meu pai lembrava da minha existência.

Ninguém mais se incomodava com aquele lugar, nem as outras crianças. O capim era alto o suficiente pra se esconder. Eu me lembro de deitar ali, olhando o céu por entre os talos, sentindo que o mundo fora do meu santuário estava pausado. Que nada importava além das nuvens e de mim, que éramos as coisas mais importantes — as únicas — no universo.

Um dia, encontrei um ninho. Estava mais baixo que o normal, no espaço onde um galho quebrado se encontrava com o tronco. Era lindamente trançado com gravetos e palha, com um fio de plástico vermelho entrelaçado nas formas complexas. Dentro, três ovos: pequenos, azuis com pintas escuras, cada um único. As coisas mais lindas que eu já tinha visto. Me lembro de prender a respiração enquanto me aproximava, com medo de que até isso pudesse quebrá-los. Parecia que tudo aquilo era pra mim, e tornava minha clareira ainda mais mágica.

Eu os visitava todo dia. Nunca toquei neles, nem ousava encostar no galho pra ver melhor. Só ficava na ponta dos pés, contava-os e sussurrava pra eles. Contava o que comi, o livro que estava lendo, como odiava ouvir os choros do meu irmão através da parede. Como me sentia sozinha. Que estava torcendo por eles. Era o melhor tipo de segredo.

Depois, eu sempre ia pra casa amarela. O jardim, cheio de banheiras pra pássaros, macieiras e pedras gastas, parecia uma extensão da magia. Eu caminhava por ali, tocando as árvores, fingindo que era filha de uma família rica que me amava, e que um dia aquela casa seria minha. Viveria ali com meu marido, comendo bolinhos frescos com geleia na varanda branca, vendo minhas filhas subirem na velha macieira.

A rotina era quase sempre a mesma, e eu geralmente terminava o dia sentada na pequena colina atrás da casa amarela, onde ela encontrava a floresta. Era cheia de morangos silvestres e cheirava a pinho e bétula, abafando o fedor do mar. Era perfeita pra rolar morro abaixo, se você não se importasse com as manchas de grama.

Um dia, eu estava deitada de bruços na grama no topo da colina. O sol estava se pondo, e eu observava uma fileira de formigas pretas cruzando meu braço. Era uma cócega. Tinha acabado de decidir parar de enfiar morangos silvestres em talos secos quando ouvi o zumbido. Um som suave carregado pelo vento, mas suficiente pra quebrar minha rotina e me assustar.

Havia uma garota debaixo da velha macieira, olhando pros galhos. Seu zumbido parecia distraído, como se estivesse pensando muito em algo.

Ela usava um vestido branco com detalhes azul-claros, do tipo bonito demais pra correr ou subir em árvores, e seus sapatos tinham fivelas prateadas. Fiquei imediatamente com ciúmes, mas também intrigada. Suas mãos estavam cruzadas nas costas, educadamente, e eu me lembro de pensar que ela não pertencia àquele lugar, no meio do matagal.

Ela virou a cabeça quando me viu, e eu congelei. Ninguém vinha aqui, e parecia que eu tinha sido pega fazendo algo secreto e errado. Então, ela sorriu e acenou, animada. Pulando, ela veio em direção à colina, com a mão ainda nas costas.

“Oi!” disse ela, sem um pingo de timidez. “Não sabia que alguém brincava aqui.”

Não respondi de imediato. Sentei, tentei limpar a grama e as manchas de morango das calças, cruzei os braços.

“Não é bem um lugar pra brincar,” falei com cuidado, as bochechas ardendo. “Só gosto de sentar aqui.”

“Ah, é onde eu sento também!”

Quase disse que não era, mas desviei o olhar.

“Meu nome é Clara,” disse ela, soltando as mãos e colocando-as na cintura. “Você mora por aqui?”

Assenti, e ela começou a subir a colina, sem se importar que o vestido ia ficar verde e vermelho. Não falei nada.

Ela se jogou ao meu lado e suspirou.

“É o único lugar que parece meu,” disse ela.

A partir daquele dia, ela ficou. Foi gradual: não me lembro de termos dito que éramos amigas, mas foi o que aconteceu.

Alguns dias, ela estava sentada debaixo da macieira de manhã quando eu chegava, com os joelhos dobrados, o cabelo brilhando ao sol. Outros dias, ela vinha pulando da casa amarela até a clareira, chamando meu nome.

Os dias ganharam um novo padrão. Nos encontrávamos de manhã, explorávamos os jardins, subíamos a colina, fazíamos coroas de margaridas e deitávamos na grama até cheirarmos a verde. Ela falava sem parar: sobre a cidade, a escola, os pais que a deixavam ter um toca-discos próprio. Eu ouvia, na maior parte. Ela gostava de decidir o que faríamos, e eu ficava feliz em seguir. Ela era ótima em inventar jogos, e igualmente boa em mudar ou ignorar as regras pra vencer. Não me incomodava. Eu gostava de ser escolhida.

Às vezes, eu a pegava me olhando com uma pequena ruga no canto da boca, como se estivesse tentando entender algo. Outras vezes, ela ficava quieta no meio de uma história, distraída, e então ria de novo como se nada tivesse acontecido. Era um pouco estranha, assim, mas eu não ligava. Finalmente tinha uma amiga.

Eventualmente, levei ela pra clareira. Foi quando tudo começou a dar errado.

O ar naquele dia estava quente e pesado. O céu parecia desbotado e manchado. Passamos a manhã correndo ao redor da macieira, olhando flores e rolando a colina até meu cabelo ficar cheio de sementes e o vestido dela não estar mais branco. Ela riu o tempo todo. Eu me lembro de pensar que não era possível rir tanto de algo tão comum. Será que ela não fazia coisas mais emocionantes do que rolar uma colina na beira da floresta?

Quando deitamos na grama, depois, contei sobre a clareira. Sobre como era mágica pra mim, como ninguém mais ia lá. Sobre o ninho, com os ovinhos azuis, e como eu tinha certeza que logo iam chocar. Como me sentia quase uma mãe, de um jeito mágico: que sussurrava meus segredos pros ovos, e inventei uma história sobre desejos se tornarem realidade se contasse pros ovos antes de chocarem. Não sei por quê. Acho que, naquele momento, queria algo que fosse meu. Tentar ser quem guiava, pra equilibrar nossa amizade. Talvez eu devesse algo a ela.

Ela se apoiou num cotovelo, me olhou com os olhos arregalados.

“Você vai me mostrar?” perguntou.

Assenti, sentindo um misto de orgulho e nervosismo. Fomos juntas, dedinhos mindinhos entrelaçados. Meu coração estava cheio, e havia uma excitação no ar.

Fui tão cuidadosa, afastando os galhos pra mostrar o ninho no berço, garantindo que ela visse como eu era delicada.

Os ovos estavam iguais. Três ovais azuis perfeitos, aninhados entre a palha e o fio vermelho. Então, o ar pareceu esvaziar.

“Só isso?” disse ela, com uma sobrancelha erguida.

Senti um frio repentino. Desviei o olhar, dei de ombros. Não sabia o que dizer.

Clara olhou pros ovos, depois pra mim. Sentia seus olhos queimando na lateral do meu rosto. Ela ficou na ponta dos pés, levantou um dedo pros ovos.

“Não!” falei, segurando seu braço. Puxei de leve, mas ela continuou o movimento. O dedo roçou a palha, deu um empurrãozinho. Os ovos balançaram.

“São só ovos,” disse ela, suspirando. “Quem liga? Vamos nadar.”

Ela puxou a mão, deixando os galhos voltarem. Eles bateram no ninho. Então, ela saiu pulando da clareira.

Eu a segui. O que mais podia fazer?

Naquela noite, não dormi. Toda vez que fechava os olhos, via os passarinhos: rosados e indefesos, sem asas, logo abaixo das cascas. Vivos e esperando, alheios. Um dedo grande, a ponta manchada de suco de morango, bem ali do lado. Eles não sabiam.

Na manhã seguinte, estava tudo errado.

O galho estava quebrado na base. O ninho pendia por um fio de palha, o cordão vermelho partido ao meio por alguma força. Dois ovos caíram na terra, um deles rachado. Nas frestas da casca, dava pra ver a membrana fina como papel molhado. Dentro, algo que deveria ficar escondido — rosado e malformado, inacabado, ossinhos brancos brilhando onde as formigas começaram. O outro estava esmagado, cacos azuis com pintas numa bagunça de vermelho, amarelo e viscoso que revirou meu estômago.

O último ovo ainda estava no ninho, mal se segurando. A casca tinha uma rachadura no meio, um buraco do tamanho de um polegar. O conteúdo coagulou no ar da noite, e uma única pena estava grudada na meleca, tremendo ao vento. Eu tinha certeza de ouvir a mãe pássaro lá em cima, chorando.

Fiquei lá, tremendo. Meu estômago parecia vazio, mas não chorei. Não de imediato. A clareira estava quieta e parada, exceto pelo zumbido das moscas perto do meu ouvido.

Naquela tarde, encontrei Clara sentada nos degraus da casa amarela, balançando as pernas e comendo uma maçã. Era do mesmo tom de vermelho dos restos dos meus pássaros.

“Cadê você?” perguntou, com um tom mais ríspido que o normal. Dava pra ver que estava irritada comigo.

Dei de ombros, não olhei pra ela. Sentei ao seu lado nos degraus, as mãos cruzadas no colo.

“Aconteceu algo com os pássaros?” continuou, com simpatia.

Estremeci, meus olhos fixos no rosto dela.

“Como você sabe?” engasguei. As lágrimas vieram, então. Via os pássaros toda vez que piscava, e era triste demais.

“Bem, você não devia ficar contando sobre essas coisas por aí. Sabe como são os meninos.”

“Eu não contei pra ninguém—”

“Contou, sim! Quando brincamos de esconde-esconde com os meninos ontem. Te falei que era má ideia.”

Não discuti com ela, nunca discutia. Mas naquela noite, pensei nas palavras dela, revirando-as até fazerem ainda menos sentido.

Eu não tinha contado pra ninguém. Sabia que não. Mesmo assim, no dia seguinte, na praia, os meninos sorriram estranho pra mim. Um deles imitou o bater de asas com os braços, depois fez um gesto de esmagar algo entre as palmas.

Quando contei pra Clara, ela só deu de ombros.

“Viu? Te falei que eles descobririam. Meninos estragam tudo.”

Algo dentro de mim rachou, então. Pequeno, mas permanente.

Depois disso, ela começou a querer passar mais tempo com as outras crianças. Eu a via correndo descalça pela areia, gritando, rindo e brincando de luta, com o vestido levantado até que, mais tarde, trocou por um short e uma camiseta amarrada na cintura, como as turistas mais velhas. Ela não olhava mais pra mim com frequência, e eventualmente parou de me chamar de manhã. Nunca estava em casa quando eu chegava, e, com o tempo, parei de ir também.

Quando ela finalmente apareceu de novo, uma semana depois, já era agosto. Não chovia há um tempo, e tudo estava amarelo e seco. A grama estalava sob seus pés quando ela correu até mim aquela manhã. O sol já estava alto: precisei semicerrar os olhos pra vê-la.

Ela falou rápido, como sempre fazia quando queria dominar o ar entre nós, e me puxou junto. Segui, mais por hábito, deixando ela me arrastar pro jardim. Ela garantiu que mantivéssemos uma boa distância da clareira, e nenhuma de nós olhou pra lá ao passar.

Enquanto subíamos a colina, senti esperança. As últimas semanas foram como antes de Clara, e eu não estava mais acostumada com a solidão. Era bom ouvir a voz dela de novo. Talvez tudo pudesse voltar ao que era antes.

Mas, em vez disso, ela tirou uma caixinha de lata do bolso do short. Era azul, com iniciais gravadas na tampa. A caixa de fósforos do meu pai, que ele usava pros charutos.

“Tô entediada,” começou, sorrindo com expectativa. “Vamos brincar de algo novo. Só pra nós.”

Uma inquietação me acertou como um tijolo, mas sentei ao lado dela mesmo assim. Bem no topo da colina, onde as raízes das árvores apareciam e o chão era pelado. Íamos levar bronca por sujar a roupa.

Clara abriu a caixinha, derramou os fósforos na palma da mão. Rolou-os entre os dedos, o sorriso nunca deixando o canto dos lábios. Ela não me olhou diretamente.

“Olha,” disse, e riscou um. A faísca pulou, e uma pequena chama nasceu na ponta; laranja, depois azul na base. Ela a trouxe perto, muito perto do rosto, os olhos brilhando de deleite.

Mal conseguia respirar. “Clara, para. Você vai se queimar.”

Ela riu, aquela risada fácil que parecia feita pra me fazer sentir menor. “Tá tudo bem. Olha? É só um pouco de fogo.”

Ela começou a falar sobre homens das cavernas, mas eu não ouvia. O fósforo queimava rápido, e meus olhos estavam grudados nele. Cada músculo do meu corpo estava tenso.

Quando chegou na ponta dos dedos, ela gritou e soltou o fósforo. Caiu sem som na grama seca. Uma fumaça começou a subir, serpenteando entre as lâminas. Ela pisou com o pé descalço, o sorriso crescendo. “Viu? Nada.”

Mas ela não parou. Outro risco, outra chama. Um leve cheiro de enxofre, misturando-se ao aroma seco do campo e da floresta. Cada fósforo ela jogava mais rápido, mais brilhante, mais perto da parte mais seca do mato.

“Clara, para,” implorei. “Só criança acha que brincar com fósforos é legal.”

Ela me ignorou, agachando, observando enquanto o vento empurrava as brasas pro lado.

Foi quando disse que ela ia pra casa, que estava sendo idiota. Que eu ia me meter em encrenca, e eu não queria isso.

Ela nem olhou pra mim. Só riu, e riscou outro fósforo.

Virei e comecei a descer a colina, em direção a casa. Não corri, embora quisesse. Sentia o sol queimando minha nuca, e minha garganta estava apertada. Ouvi o fósforo riscar de novo, e o cheiro de fumaça. O leve chiado que veio depois, e então, nada. Eu já estava muito longe.

Não vi o que aconteceu depois.

Não vi.

Mas, às vezes, quando penso nisso, consigo imaginar como deve ter sido. Ela agachada, acendendo outro fósforo, o cabelo caindo pra frente, a fita azul um pouco perto demais da chama no chão. A grama seca finalmente pegando fogo, primeiro baixo, depois rápido demais. Ela pensaria que era só um fio de fumaça, mas estava muito, muito seco. A chama se inclinando, pegando num cardo seco, a fita dela encostada ali. Então, puff. A camiseta branca grudada nas costas com o suor, ela se levantando rápido, em pânico, derrubando a caixinha. O vento fazendo o resto.

A próxima coisa que me lembro é o cheiro de madeira queimando, e minha mãe gritando meu nome da varanda. O céu, lá no horizonte, estava laranja: uma fumaça preta e densa subia da colina numa linha bagunçada, como um tornado desenhado no papel.

As pessoas corriam e gritavam, apontando.

Nunca mais subi aquela colina.

Também não fui pra casa. Fui pra clareira, sentei ao lado da árvore onde estavam meus passarinhos. Onde ainda via pedaços de casca azul com pintas espalhados pela grama. Peguei o maior que encontrei e guardei no bolso.

Depois, chamaram de acidente. O chão estava muito seco, que azar. Não era incomum, crianças brincando com fogo. Estúpido, mas não incomum.

O funeral foi de caixão fechado, e os adultos decidiram que era melhor eu não ir. A mãe dela me deu uma mecha do cabelo dela, amarrada com uma fita azul. Ainda a tenho.

Trouxe a caixa de memórias pra cá. Acho que sei por quê. Minha infância não foi feliz, mas teve pedaços que me fizeram quem sou hoje. Aquela Barbie que eu tinha, o cabelo todo embaraçado de tanto brincar; o pedaço de casca de ovo, ainda azul com pintas; alguns gizes de cera, a mecha de cabelo; coisas aleatórias que guardei.

Hoje de manhã, quando voltei de um passeio na praia, a caixa estava na bancada da cozinha. A caixinha azul de fósforos. Tenho certeza que não a tirei de lá.

A luz do sol batia nela, perfeita. Refletindo no esmalte azul gasto. A tampa estava meio aberta, e eu podia ver as pontas vermelhas dos fósforos que sobraram.

Agora, no escuro, meus olhos ficam voltando pra casa amarela, aquela que não estava vazia naquele verão. As macieiras cresceram tortas e cheias de galhos, curvadas sob o peso, as copas cheias de maçãs vermelhas, prontas pra colher. Parecem crocantes.

De vez em quando, a vejo ali, debaixo da maior delas. Uma figura pequena, de branco, com fitas azuis no cabelo loiro que brilha na luz. Quando pisco, ela some.

Acho que amanhã levo a caixinha de fósforos pra colina. Só pra devolver ao lugar certo. Parece que ela está se aproximando, e isso me assusta.

Sempre que fecho os olhos, sinto o cheiro do mar — e da fumaça.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Encontrei um culto de fantasmas

Recentemente, perdi meu pai para o câncer. 
Passamos anos enfrentando quimioterapia e radioterapia, que o deixaram em um estado tão irreconhecível que meus filhos tinham medo de visitá-lo. Não era pela aparência dele, eles não ligavam para isso. Era a mudança de humor.

Às vezes, ele ficava irritado e descontava em quem estivesse por perto, não importava quem fosse. Era algo imprevisível, vinha em surtos depois de momentos em que ele parecia até alegre. Depois, ele esquecia que tinha agido assim e voltava a ser carinhoso com as pessoas que havia maltratado.

A visão dele piorou muito, ele desenvolveu cataratas grossas, então frequentemente confundia as pessoas, achando que você era outra pessoa, alguém que ele detestava, talvez de quando era mais jovem, porque eu não fazia ideia de quem ele estava falando. Talvez fossem só as enfermeiras que tinham que aguentá-lo dia após dia. Não sei ao certo. Ele sempre demorava muito para entender o que os médicos queriam que ele fizesse.

Tenho quase certeza de que ele esqueceu que tinha câncer e passou a acreditar que as pessoas que tentavam ajudá-lo o estavam mantendo refém. Não sei quanto disso era por causa dos tratamentos ou da demência, mas os dois juntos tornavam difícil para mim estar lá, mesmo sem as crianças.

Ele finalmente faleceu aos 84 anos. Tristemente, isso acabou sendo um alívio para mim. Sei que meus filhos também sentiram esse alívio, mesmo que indiretamente, por verem o peso saindo dos meus ombros. Ouvi um deles dizer: “Ele está voltando a ser nosso pai de novo.”

Isso me abalou por um tempo danado. Será que eu não estive presente o suficiente para eles enquanto ele estava no hospital?

Depois que ele morreu, recebi uma carta pelo correio que dizia: “Você pode falar com eles novamente, nem que seja para encontrar um fechamento.”

A carta mencionava meu pai: nome, sobrenome e nome do meio, a idade com que ele morreu e o hospital onde foi internado.

Eu mal sabia de todas essas informações, como é que eles sabiam?

A carta também trazia um endereço. Pesquisei na internet e não encontrei nada de especial. Parecia apenas um prédio qualquer que você passaria sem notar na estrada. Estava bem cuidado. O gramado era impecável. Havia arbustos bem podados, árvores decorativas e um jardim cheio de flores silvestres locais misturadas com orquídeas e rosas. Coisas assim.

Fui instruído a levar apenas a carta para ser admitido, e seria recebido no saguão.

A dor do funeral dele ainda ecoa na minha cabeça. A família e os amigos apareceram com memórias lindas de antes do diagnóstico, mas eles nunca vivenciaram o fim dele como eu vivi. Não tornamos pública a deterioração mental dele. Eles não precisavam saber disso. Não escondi minhas lágrimas. Acho que é bom que as crianças vejam esse lado seu. Que saibam que está tudo bem ficar triste e chorar. Quero que elas entendam que as emoções que sentem são reais e devem ser enfrentadas, não escondidas. Abraçei meus filhos enquanto a família estendida compartilhava histórias do vovô. Eles também tinham algumas memórias dele e, com suas vozinhas, falaram coisas que tornaram tudo ainda mais devastador.

Durante o funeral, a carta não saía da minha cabeça, junto com todas aquelas memórias. Uma pergunta ficou martelando no fundo da minha mente: “Será que posso ter essa versão dele de volta?”

Foram semanas me questionando antes de tomar uma decisão. Guardei a carta na minha cômoda, mas nunca contei às crianças o que era. Não que elas se interessassem, era só um pedaço de papel. Nunca escondi a carta delas, mas também nunca toquei no assunto. Era um lembrete constante do meu pai. Da memória dele. Pensei nisso o tempo todo, a ponto de meus filhos ficarem preocupados comigo.

As perguntas deles acabaram decidindo por mim. Perguntei à minha irmã se ela poderia cuidar das crianças por algumas semanas, dizendo que precisava de um tempo. Nossos filhos se dão super bem, e eu fui o principal cuidador do nosso pai antes de ele falecer. Ela estava lá, mas, como irmão mais velho, quis proteger ela dessa memória dele. Acho que ela ficou grata por isso, mas nunca toquei no assunto, e ela também não. Mantive a carta escondida dela, no entanto. Não sei por quê.

Os mapas não mentiram sobre a aparência do lugar. Era tão bonito quanto parecia na internet. Um doce aroma floral flutuava no ar enquanto borboletas pousavam nas flores silvestres por perto. Sentei em um banco perto da entrada por uns trinta minutos, encarando a carta enquanto pessoas entravam e saíam. Pessoas normais. Pareciam até felizes, ou pelo menos fingindo estar. Isso me fez questionar se a carta era real. Será que as pessoas agiriam assim por algo que a carta prometia? Estavam vestidas de forma casual, como se fossem ao mercado.

No fim, empurrei a porta e fui recebido por uma recepcionista com um sorriso gentil. Ela perguntou como poderia me ajudar, e eu, em silêncio, entreguei a carta. O sorriso dela se abriu ainda mais, e ela me deu as boas-vindas com uma gratidão genuína. Pediu para fazer uma cópia do meu documento de identidade para entradas futuras e um número de telefone para contato. Hesitei por um segundo, mas forneci ambos. Ela disse que eu poderia usar qualquer um dos dois para entrar a qualquer momento. Nem mencionou horários.

Depois que assinei a cópia com meu documento e telefone, ela apontou para uma porta atrás dela. As luzes da sala eram de um laranja suave, e havia um leve aroma das mesmas flores que tínhamos no funeral dele. Quase saí correndo. Um homem estava sentado em uma poltrona de couro diante de uma biblioteca cheia de livros antigos e plantas exuberantes. Ele vestia um estilo casual de negócios e tinha um sorriso tranquilo. Ele apontou para um sofá confortável e disse: “Olá, meu nome é Mike. Sou o conselheiro de luto deste lugar. Por favor, sente-se.”

Respondi: “Oi, Mike. Eu sou o Paul.”

“Olá, Paul. Prazer em conhecê-lo. Posso perguntar quem você perdeu?”

“Perdi meu pai há pouco tempo. Ele faleceu de câncer e demência. O final foi difícil, ele...”

“Por favor, vamos lembrar dos bons momentos”, ele interrompeu. “Ajuda a longo prazo. Vai tornar tudo mais fácil para você e seu pai.”

“Então é verdade? O que a carta dizia?”

“Claro, Paul. Nosso objetivo é aliviar as dores dos vivos, dando a eles acesso àqueles que nos deixaram.”

“Como vocês fazem isso?”

“Seria mais fácil mostrar a você”, ele respondeu. “Por favor, deite-se.”

Fiz o que ele disse.

“Agora, pense no seu pai. Na sua memória favorita dele. Isso será o gatilho.”

A memória que escolhi foi dele assinando a guarda das crianças, que vieram da minha outra irmã, viciada em drogas. Eu as vejo como minhas, embora sejam minha sobrinha e meu sobrinho. O pai biológico deles morreu de overdose, e minha irmã está na prisão por assalto à mão armada. Ela roubou a pistola do meu pai e usou para assaltar um posto de gasolina para sustentar o vício. Meus filhos eram muito pequenos para lembrar de qualquer coisa, então me veem como o pai deles.

“Tá bem. Mantenha essa memória na cabeça. Veja o sorriso orgulhoso dele. Sinta o perfume amadeirado enquanto ele assina a guarda da Kelly e do Cameron.”

“Pai?” Ele estava diante de mim, com sua jaqueta jeans e calça cáqui. Sorrindo para mim com o braço estendido para que eu o segurasse. Estava exatamente como naquela época. Tão cheio de vida. Tão grato por eu ter assumido as crianças.

“Vamos buscar o Cameron e a Kelly. Eles estão te esperando no hospital”, ele disse.

Então ele sumiu no ar. O toque dele ainda ficou na minha mão. Parecia tão real. Dormi profundamente em um hotel, sem coragem de voltar para casa. Não sei por que peguei um quarto. Pela primeira vez em anos, senti paz.

Liguei para meus filhos para saber como estavam. Eles contaram que foram à praia com a tia Carol. Brincaram nas ondas e fizeram o maior castelo de areia de todos, depois o destruíram com toda a força. Pensei: “Será que o pai poderia levá-los à praia?” Mas também: “Será que isso os confundiria?” Eu poderia tentar explicar.

Depois da ligação, agradeci ao meu pai por eles.

No dia seguinte, voltei. Tinha que voltar.

A mesma recepcionista me cumprimentou com o mesmo sorriso gentil. Ela disse, no entanto: “O Mike não está aqui hoje, mas você pode entrar na sala principal.” Ela apontou para outra porta por onde outras pessoas entravam e saíam livremente. Ela não pediu meu documento, o que achei estranho. Mas também não pediu o dos outros. Então, fui junto.

A sala era confortável, com poltronas, janelas grandes que deixavam entrar a luz quente da manhã, uma mesa farta de café da manhã contra a parede e pessoas desaparecendo em quartos no fundo da sala. Um homem me cumprimentou, dizendo que eu poderia usar os quartos no final para as pessoas que perdi. Peguei um prato e comida, pois não tinha comido, e refleti sobre o que ele disse. Pessoas. Enquanto comia, pensei: “Será que posso chamar mais do que só meu pai?”

Um cartaz chamou minha atenção. Dizia: “Menos sofrimento para todos. Abriremos 24 novas instalações pelo país e nove internacionalmente. Conte para sua família agora!”

Depois de comer, me preparei e entrei em um quarto vazio.

O quarto era tão bonito quanto o escritório do Mike, mas sem janela. Fiz como me lembrava, guiado por instruções visuais pintadas na parede.

“Oi, pai”, disse, admirando a presença dele. Estava com as mesmas calças cáqui de antes.

“Oi, filho”, ele sorriu. “Você é bem-vindo para se juntar a nós quando quiser. Pode trazer a Kelly e o Cameron também. Eles gostariam do além tanto quanto eu. Voltar é maravilhoso.”

Rememoramos os velhos tempos. Tempos de paz. Fiquei com ele por três horas antes de ir embora. Tirei uma foto do cartaz, mas ela sumiu depois que saí do prédio.

Acho que realmente era meu pai. Parecia mesmo ele, embora eu mesmo o tenha enterrado. Joguei terra sobre o caixão enquanto o baixavam na sepultura. Coloquei flores ao lado da lápide.

Pesquisei e algumas das novas instalações já estão abertas. Acho que ninguém deveria entrar nesses lugares, mas, ao mesmo tempo, ainda quero vê-lo de novo. Isso faz meu coração disparar. Ele quer ver as crianças de novo, e estou tentado a levá-las. Estou preocupado que, se as vir, vou acabar levando-as lá. 

Não sei mais o que fazer.

Uma Noite com uma Fera

O topo do Pico de Covington estendia um dedo rochoso sobre as colinas úmidas dos Ozarks. Lá embaixo, ficava a pequena cidade de Covington, onde nossa família definhava às margens do rio Arkansas. No final dos anos 70, com a chegada da primavera, o rio chicoteava sua cauda de serpente de um lado para o outro, de planície em planície.

Papai tinha um criadouro e tanto, e a pequena Ros e eu passávamos o tempo nas margens abaixo do Pico de Covington. Sabe, as correntes haviam escavado um canal profundo na face do pico, e bem na beira do rio — do lado íngreme de Covington — elas formaram uma caverna. A gente amarrava todo tipo de tranqueira no corpo, embrulhava em plástico e mergulhava fundo na encosta da montanha: revistas pornô, fogos de artifício M-80, placas de carro velhas — qualquer coisa que conseguíssemos surrupiar e que chamasse a atenção dos nossos olhos de esquilo.

Naqueles dias, antes de crescermos, antes que a mina e a represa secassem as margens e deixassem apenas um filete de pântano, ainda tínhamos esperança para nossa família. Agora, uma colina árida, um trailer murado e os restos fantasmagóricos de um criadouro e uma mina abandonada são tudo o que sobrou do nosso nome. O rio secou há muito tempo, deixando apenas um penhasco rochoso. A corrente verdejante que outrora enchia nossos bolsos e corações a cada primavera não passa agora de uma marca seca e sinuosa, como uma cicatriz de enforcamento numa cidade velha demais — teimosa demais — para morrer.

Uma colina amaldiçoada desde os dias em que homens brancos perseguiam trabalhadores de plantações até a morte ali, e um homem — não, um maldito garoto — fica parado, vendo os espectros do seu passado dançarem sobre os destroços da sua vida. Apropriado, suponho, que este lugar seja onde tudo termina.

Naqueles dias nas cavernas lá embaixo, olhando as revistas de nudez — foi quando percebi que era diferente. Um tipo de renascimento. Mas diferente de um jeito que um garoto é melhor não falar; guardar pra si e vomitar em conversas sussurradas no quarto. Eu sentia tanto medo da verdade. Mas a verdade era turvada pela minha mente adolescente cheia de tesão. Não importava quem eu era. Todos tínhamos segredos, e de algum jeito grotesco, essa cidade trancava nossas mandíbulas. Todos dormíamos e caminhávamos pela vida, zumbificados sob o peso da verdade e presos por juramentos às tradições dos mais velhos — um fardo carregado pelos jovens, se contorcendo em seu silêncio miserável.

Estou cansado agora. Tá quente aqui. Esse último verão indígena me concede um momento final de felicidade. Folhas secas e queimadas pelo sol caem ao meu redor, e a lua brilha fraca esta noite, sob a ameaça de chuva. Vou saborear este momento como um chocolate quente, pensar no meu irmãozinho e dar esses últimos passos.

Na sátira cruel que é minha vida, a percepção chocante das águas da enchente assaltou minha visão. Justo quando a paz havia se instalado em mim — satisfeito com o desfecho — percebi que a chuva da manhã enviara uma torrente sobre o penhasco rochoso abaixo. Não foi rápido; tive tempo de sobra pra me arrepender da minha saída teatral e mal planejada. Pular de um maldito penhasco — quem diabos faz isso? Por que eu não podia ter sido mais simples? Por que não podia ter sido como meu pai? Um .45 resolveu pra ele, e eu até tinha o mesmo…

Acontece que a maioria das pessoas deixa este mundo do jeito que viveu nele. Usei meus últimos momentos me arrependendo de mim mesmo — uma ópera trágica de destino, destinada a nada mais do que todos nós somos. Não havia salvador pra mim, apenas a onda de água que partia ossos e um impacto ligeiramente amortecido — o suficiente pra quebrar meus ossos de quase todas as formas imagináveis e me deixar flutuando de barriga pra cima, à deriva na dor das minhas escolhas.

Uma clareza tomou meu corpo em pânico. Com tanta dor, era como se eu não conseguisse focar o suficiente pra sentir cada uma delas individualmente. Então, em vez disso — clareza. A dor quente de sofrimento demais estava lá, mas parecia distante, como se eu flutuasse acima dela. Tossi uma risada úmida, senti o gosto inesquecível de ferro, e lentamente vi as estrelas desvanecerem acima.

Acordei em agonia ardente, meu grito se acalmando lentamente num entorpecimento profundo e refrescante — como muito Vick’s das mãos frias e ásperas da mamãe. Através de olhos embaçados e úmidos, o quarto brilhava em laranja com um fogo crepitante. Eu estava sentado ereto, corpo amarrado, mas de algum modo confortado. Trapos e tecidos foram colocados nos pontos de pressão das cordas.

“Ahh, tão cedo, tão cedo. Nunca consigo acertar isso.” Uma voz veio por cima do meu ombro, jovial e irregular. As palavras pareciam desajeitadas, mal pronunciadas — como um cachorro tentando imitar seu dono — um sotaque tão familiar, mas completamente estranho.

“Ah, minha máscara!” A imagem borrada de galhos e folhas passou por mim, raspando contra minha carne dolorida. “Nossa, não, não, não. Argh.” A voz bufou. “Isso simplesmente não tá certo. Me perdoe — onde tá essa maldita máscara?”

Conforme minha visão clareava, a massa desajeitada à minha frente remexia um baú velho, jogando itens com abandono. O quarto rangia e gemia; as pedras cobertas de musgo que formavam as paredes pingavam com a chuva recém-caída. O teto acima era entrelaçado com galhos que cresceram de propósito numa trança que — quase — cumpria seu papel, exceto por alguns buracos por onde a luz da lua entrava.

A mesa à minha frente era familiar. Era a velha mesa de esfola que papai montava lá na curva — a que pensávamos que a enchente levou. Agora, estava adornada com louças quebradas e utensílios de cozinha jogados fora há muito tempo.

“Achei!” a voz exclamou, puxando algo do baú e erguendo-o à luz da lua. “Acho que você vai gostar também!” O objeto foi abaixado com cuidado entre os galhos amontoados e, num movimento rápido, a coisa girou.

A luz iluminou uma velha máscara do Garfield — amarrada com madeira nodosa, pedaços de musgo e galhos torcidos numa caricatura grotesca do que já foi humano.

“Você gosta de espaguete?” riu, orgulhoso da sua humanização. “Espera — não, lasanha! Droga…” A fera balançou a cabeça. “Não importa. Gostou? Lembra dela? A mesma que você usou em 86 — você tava tão orgulhoso, tão exibido, se me lembro bem! O jeito que você desfilava, com o macacão de gato e a máscara, gritando ‘Eu amo lasanha!’ sem parar…”

Ergueu os braços, galhos de bétula longos e retorcidos subindo de um tronco nodoso. A fera era inteiramente feita de bétula, exceto pelo icor pingando da base da máscara do Garfield. Lentamente, removeu a máscara, revelando um rosto calejado por crescimentos de casca e musgo pendendo como uma barba. Pedaços de osso brilhavam à luz da lua, e bem ali — quase totalmente tomado pelo crescimento ao redor — um olho vermelho e esponjoso se movia dentro do resto de uma órbita.

“Me desculpe,” disse, encolhendo-se de vergonha. “Você é o primeiro convidado que tenho em muito tempo. Muitos anéis!” Riu e deu um tapa nas raízes da árvore ao lado. “Piada de árvore. Desculpa — onde eu tava? Ah, sim. Pequeno Gussy! Tava tão animado por esse dia.”

Ele se levantou, arqueando as costas pra não romper o teto baixo da cabana. “Esse lugarzinho apertado — argh, ainda ser humano…” Com as costas viradas, pegou uma chaleira do fogo. “Sabe, parte de mim ainda lembra. Difícil se livrar, mesmo depois de todos esses anos… Meu irmão, o calor do leite da minha mãe. A pele quente e escura dela.”

O quarto úmido tremeluzia com sombras selvagens na presença da criatura. Um frio penetrante tomava o ar, brigando com o calor do fogo que agora aquecia minhas canelas e pés.

“Você acha que elefantes não esquecem? Ha! Espera só — árvores são outra coisa!” Colocou uma xícara na mesa e arrancou um broto fresco de um trecho perto da lareira. O cheiro de menta doce explodiu da água fumegante. A criatura se agachou lentamente diante de mim, levando a xícara aos meus lábios.

“Eu sei — você acha que sou um monstro.” O chá era calmante, mas cuspi em desafio.

“Calma, calma… é só chá. Se eu quisesse te envenenar, teria me dado ao trabalho de te amarrar com conforto?” Um pedaço de musgo se ergueu como uma grotesca imitação de uma sobrancelha. “Hmm? Além disso, se eu quisesse você morto, parece que bastava deixar a natureza seguir seu curso. Pobre Gussy. Um penhasco. Até seu pai, aquele desgraçado horrível, teve ideias melhores que essa.”

Ele pressionou a xícara de volta aos meus lábios. Pensei, que se foda, e bebi fundo.

“Viu?” disse, orgulhoso, sorrindo.

“Quem é você?” rosnei com as cordas vocais destroçadas.

“Por favor, não deve…” Um olhar sincero de preocupação e pena enrugou seu rosto de madeira. “Tá bem, tá bem…” Remexeu em bugigangas e tranqueiras escondidas em cavidades escuras dentro de seu corpo. “Jogo de memória.”

Franziu o rosto, cavando mais fundo até puxar uma série de papéis molhados e um pequeno caderno. “Bem, é um pouco difícil dizer,” murmurou, folheando as páginas com destreza quase humana. “Minha mãe me chamou de Ezequiel — e apesar da péssima referência literária, acabei gostando. Mas já tive muitos nomes. Para o povo que vagava por essas terras — minha tribo nativa — eu era Betula. Pro seu pai? Um fantasma. Azar. Tudo e todos que ele culpava por sua desgraça. O motivo de ele ter tirado a própria vida — e o acidente que fechou aquela mina nojenta dele.”

A voz de Ezequiel ficou afiada. “Uma mina! Uma reivindicação numa floresta que ele não tinha direito. Nenhum direito!” 

O quarto vibrou, o som ecoando pela madeira e pedra, e então caiu em silêncio sob o peso de sua voz.

“Não importa. Veja, Gussy, a irreverência dele foi sua ruína — inferno, a ruína da cidade inteira. Eu não queria, não!” Ele cambaleou até a lareira e pegou um anuário desgastado do mantel. “Mas ritual é ritual, e sangue é sangue, e tínhamos um acordo!” Girou com fervor e se aproximou, livro aberto, dedos de madeira podre apontando firme para uma foto.

“Querido irmão,” sua voz tremulou. “Acredito que isso é… ugh, ugh… 1965! Ele morreu numa guerra, e eu… nasci… de certa forma. Seu pai nojento tinha acabado de fazer um acordo sujo com um verme de homem, numa tentativa de tomar terras que não eram dele. Ele e esse homem — seu próprio Senador Covington — encomendaram um projeto que garantiria a ele dificuldades de guerra e a capacidade de produzir carvão como fonte de energia pro rio Arkansas. Veja,” ele enfiou o livro na minha cara, “sempre observei de perto, segui, cutuquei e tropecei nos fios certos em favor do meu irmão. Elias teria o benefício do seu querido irmão ao seu lado, mesmo que ele não soubesse…”

Ele folheou as páginas até uma foto familiar demais — um recorte de jornal do dia em que meu pai treinou até o campeonato estadual. “Olha, esse é seu pai, o técnico de basquete, e meu doce Elias.” Um franzido triste enrugou seu rosto enquanto seu corpo sacudia, como um cachorro se livrando de água. “Elias herdaria os dons abundantes do sacrifício da nossa família. Mas seu pai…” Ele abaixou a cabeça ao peito. “Vendeu a maior parte do criadouro, conseguiu os direitos pra uma mina e virou herói da cidade! Uhu, tantos empregos.” Ele agitou os braços e jogou o livro pelo quarto.

“E convenceu meu irmão a se alistar…” O tom de sua voz se enrolou em ira, e eu podia ouvir o ranger dos músculos de madeira se apertando. “Não era o fardo dele pra carregar. Nossa pobre mãe já tinha perdido demais.”

O clima ficou mais sombrio, e os galhos de folhagem murcharam com reverência ao meu redor.

“Um garoto, perdido na floresta — todos sabiam do acordo. Acho que eu também sabia, mesmo com apenas três anos. A floresta na minha janela sempre me chamava. Sempre cuidava de nós. Sempre cuidava de Keokuk.”

Franzi o nariz. “Keokuk, a vila abandonada?” perguntei.

“Haha, não parece abandonada pra mim. O velho Sr. Covington só deu uma nova pintura, só isso.”

“Isso simplesmente não é verdade! Meu pai disse pra nunca ir pras cabanas abandonadas naquelas matas.”

“Seu pai é um mentiroso…” Ele arrastou as palavras num tom irritado, lento e grave. “Já não estabelecemos isso?”

O ar úmido ficou silencioso, e o zumbido distante das cigarras ecoava sobre o murmúrio do rio.

“Brady Covington era uma cobra de homem. Senador estadual, recém-eleito…” ele bufou. “E seu herói papai fez ele encomendar um projeto pra novas terras, assim que os cheques da herança da sua família foram descontados.”

“Sempre gostei de você, Gussy. Sabia que você era diferente, assim como eu, então…” Ele alcançou uma mochila velha e fedorenta que parecia dolorosamente familiar.

“Não pode ser!” Tentei me soltar das amarras.

“Pensei que se ele soubesse, vocês dois poderiam ser felizes.” Ele encolheu os ombros arbustivos em vergonha — uma vergonha que caía vazia contra a raiva fervendo no meu corpo meio morto.

“Você me expôs, seu filho da puta!”

“Achei que se ele encontrasse suas cartas, ele perceberia… Não pensei que os amigos dele encontrariam primeiro,” ele lamentou, implorando perdão.

“Fui espancado, fui abusado, fui ridicularizado e torturado por sua causa!” A raiva jorrava em saliva ensanguentada pelo meu peito. Sentia lágrimas quentes ardendo nas feridas frescas do meu rosto.

Ele desabou no chão, e um choro fraco farfalhava por suas folhas. “Eu sei, eu sei. Sempre acho que sei o que é melhor — sábio, antigo e tudo mais. O orgulho cresce nas raízes de árvores antigas antes de serem derrubadas pelo vento. Aquela noite, no acampamento de guardas, quando encontraram… e vocês dois… Pensei que seu irmão ajudaria. Pensei que eu também…”

Lágrimas verdadeiras brotaram em sua órbita quebrada e molharam sua barba de musgo como orvalho. “Queria ajudar…” Ele estufou o peito e respirou fundo, rangendo como vento em galhos mortos. “Mas tínhamos planos,” ele sorriu.

“O filho de Brady foi o primeiro a ir — um escorregão acidental da borda do Pico de Covington.” Ele gargalhou com uma ironia seca. “Parece apropriado, não é? A cidade que seu pai roubou de nós, e o pico homônimo de Brady, seria o mesmo toco” — ele riu, fazendo aspas com os dedos — “que o filho dele tropeçaria e cairia pra morte. Fala sobre tropeçar nas ambições da sua família. A mina que faliu a cidade… sem carvão pra encontrar.”

“Essa eu me orgulhei bastante. Tive que usar um pouco de inteligência pra conseguir esse feito.”

“E o colapso?” gritei, tremendo de raiva. “O colapso que matou Henry!” Puxei forte contra as amarras, fazendo jorrar sangue quente que pingava no chão.

“Ele também era parte do problema!” Ele se ergueu num fervor demoníaco, pisando lentamente pelo quarto. “Ele não ia te amar, Gussy! Não como eu amo! E quando o vi encolhido no canto… com o que os amigos dele fizeram com você—”

“O que você fez comigo! O que você, porra, fez comigo!” Cuspi o que podia de saliva ensanguentada.

“Ele era um covarde!” Minha cabeça caiu no peito. “Me mata. Me mata, por favor.” Choraminguei, desolado.

“Um sonho morreu aquele dia, Gussy. A ideia de que pureza e entendimento poderiam sobreviver. Eu ansiava por conexão humana — sofria por isso. Vi meu irmão, minha mãe envelhecerem, relembrando álbuns de fotos, quando nossa família era inteira. Queria tanto que ela me abraçasse, Gussy!” Rios de lágrimas jorravam do seu rosto. “Não ousava mostrar minha cara. Não podia. Eles já sofriam demais.”

Ele parou — recompôs-se. “Desculpe-me pelo colapso. Isso foi particularmente vingativo.”

Eu bufei.

“Não significa nada, eu sei. Mas eu sinto muito… Observei, protegi, e me senti abandonado com tudo o que estava acontecendo na nossa bela Keokuk. Mas fiquei de lado enquanto a família Covington destruía tudo o que eu havia sacrificado e nascido pra proteger. Então percebi…”

Um sorriso brilhante iluminou seu rosto. “Era por isso que eu era necessário — por que o ritual existia, por que deve continuar. Estou aqui pra impedir o mundo de invadir nossa terra. E se os Covingtons, lavados pela modernidade,” ele gesticulou com nojo, “tivessem esquecido seu ritual e juramento, eu teria que fazê-los lembrar por quê.”

“Por favor, me mata,” chorei.

“Ah, não. Não por um tempo danado — eras, ouso dizer.”

Ele arrastou-se até uma chaleira e arrancou ervas do seu peito, amassando-as rapidamente antes de jogá-las na chaleira. Derramou um líquido escuro de um cantil costurado, que chiou ao tocar a água fervente. Um cheiro acre subiu do fogo e formou uma nuvem que parecia despertar a floresta ao nosso redor.

Os sons de correria, uivos e gemidos de animais nos cercaram. E algo mais antigo rangia e gemia abaixo — rugia em murmúrios febris sob nossos pés.

“Não é agradável. Vou usar a máscara, porém — pra te levar pra casa. Sabe, boas lembranças. Você terá que estar acordado, mas…” Ele puxou uma faca afiada, feita de pedra, de uma bolsa de musgo e deslizou até mim. Lutei a princípio enquanto ele levantava minha cabeça, mas afundei na futilidade quando ele derramou o líquido horrível na minha garganta.

A floresta ganhou vida, e uma aura brilhava de todos os cantos. Zumbidos e murmúrios passavam numa torrente de tons que lentamente se fundiam numa melodia suave. Senti calor, dormência, medo — mas principalmente calor. Eu literalmente tinha acabado de tentar me matar, então, quer saber… que se foda.

Enquanto eu vagava no torpor, deixando o zumbido me envolver, ele segurou minha cabeça gentilmente e deslizou a faca de pedra na minha garganta.

“Queria essa conversa, Gussy. Tinha que confessar. Te amo, e isso é uma honra. Mas não posso te deixar pedir ajuda. Você vai renascer, como eu — e então consumirá o que resta do meu casco, e com ele, o conhecimento de tudo ao seu redor.”

A caminhada até o topo do Pico de Covington foi um borrão. A vida selvagem da floresta se movia ao nosso redor com respeito e estima. Juro que os cervos estavam olhando pra mim. O desfile estava vivo.

No pico, vi um bosque de bétulas — uma delas aberta como um útero. O ar ao meu redor vibrava com uma energia que picava como agulhas. O horror dos meus membros sendo removidos quase passou despercebido, exceto pelos jorros arteriais que banharam seu rosto.

Deslizei pra dentro da árvore, como imagino que um esquilo faria num ninho, e senti o movimento de galhos — ou raízes — entrando nas minhas feridas. Não pra machucar ou devorar, mas pra me segurar, como uma mãe faria.

Senti silêncio. Não podia falar mesmo que quisesse, mas não teria. A beleza da floresta e das árvores era onipresente. Senti-me amado. Senti-me aceito — algo que não sentia há muito tempo. O útero me envolveu lentamente como um cobertor.

Ele colocou a máscara do Garfield, e justo antes de se fechar, vi uma lágrima rolar pela máscara.

“Te amo, Gussy.”

Nove

Sete, Oito, Nove.

Mais um turno noturno. A maioria das pessoas faria qualquer coisa pra escapar de um horário depois das dez, mas eu gostava da solidão. Me dava espaço pra pensar. Isso, e o fato de que ninguém curtia muito o jeito que eu fedia depois de um tempo por aqui.

Nossa bomba de gasolina é pequena, pouco movimentada e fica no meio do nada, em Oregon. Com esse isolamento, meus turnos basicamente consistiam em cuidar do estoque, arrumar as prateleiras e, de vez em quando, levar o lixo pro contêiner lá atrás.

Sozinho, eu podia planejar tudo pra quem quer que fosse arrastado pra cá pra ganhar um salário mínimo.

Com a natureza do trabalho, a rotatividade era alta, quase um novato por semana. Uma coisa que eu sempre deixava clara pros recém-chegados era a fossa lá atrás, perto dos contêineres.

Ninguém quer cortar um turno mais cedo.

Aquele contêiner era meio que meu território, e com o perigo invisível e o fedor persistente, era melhor pra todo mundo que só eu lidasse com ele. O pessoal do turno do dia entendia bem — eles enchiam um saco preto grande ao longo das oito horas anteriores, pronto pra mim.

Quanto menos falassem, melhor.

Nosso gerente, que quase nunca aparecia por aqui, me deixava no comando, só mandando uma mensagem avisando que eu teria um novato em breve.

Antes de começar meu turno, patrulhei o prédio, espantando qualquer bicho indesejado. O cheiro atraía essas criaturas pro contêiner, mas, na época, eu ainda não tinha achado uma solução decente pra disfarçar o fedor.

Naquela noite estranhamente fria, enquanto me aproximava da porta da frente, ele entrou em pânico, derrubando a lista de tarefas que eu tinha deixado embaixo do balcão no dia anterior. Entrei e o cumprimentei. O garoto magrelo, no final da adolescência, se apresentou.

“Erm, oi. Eu sou o Lewis, é meu primeiro dia... ou noite. Você é o Rob, né?”

Assenti enquanto passava por ele e ia pro escritório. Ele me pegou desprevenido. Não é todo dia que alguém chega antes de mim.

Cuidadosamente, deixei minha mochila no armário com meu nome e ajustei meu comportamento. Repassei minhas falas ensaiadas, estalei o pescoço, me animei e voltei pro salão, tentando puxar conversa.

“E aí, tá fazendo o quê ultimamente?”

Meu tom saiu meio estranho, mas ele nem pareceu notar, enquanto tentava dar uma resposta tímida.

“Nada demais. Tô estudando, então isso aqui é só pra ganhar uma grana extra. E tu?”

Evitando contato visual enquanto checava as prateleiras e anotava os espaços vazios, minha resposta foi interrompida por uma notícia na pequena TV pendurada no teto.

“Mais restos humanos encontrados numa bomba de gasolina na rota dezessete, perto de Norfolk, Virgínia. As autoridades ainda não conseguiram identificá-los, mas muitos dizem que tá ligado a outros quatro corpos encontrados no último mês, entre Geórgia e Carolina.”

“Nossa, mais um. Minha mãe disse pra tomar cuidado trabalhando até tarde. Pra falar a verdade, ela nem queria que eu pegasse esse trampo, mas preciso de grana pra comprar uns tênis novos. Desculpa, tu tava dizendo?”

Suspirei e dei um sorriso forçado.

“Tranquilo. Tá afim de me ajudar com o reestoque depois de conferir o caixa?”

Lewis assentiu, correndo pra contar o dinheiro antes de me ajudar a pegar umas caixas no depósito.

A noite passou devagar, sem muito o que fazer além de passar o rodo no chão de novo e reorganizar o estoque pela terceira vez. Nossa conversa acabou indo pros hobbies.

Descobri que ele era fanático por beisebol, falando sem parar sobre a temporada dos Emeralds e suas habilidades. Pelo menos, não precisei dar respostas muito elaboradas enquanto ele continuava falando.

Depois de matar umas duas horas, eu ia avisar que ia tirar uma pausa quando ouvimos um barulho suave do lado de fora. Eu sabia o que era, mas temia que ter um parceiro me impedisse de cuidar de uma das minhas muitas tarefas.

Por sorte, Lewis não parecia interessado em sair sozinho.

Imitando o olhar assustado dele de antes, a conversa parou quando ele soltou uma frase que quase me fez rir. Fazia tempo que eu não ria.

“Que barulho foi esse? Será que é, sabe... o Esfolador?”

Obviamente, ele tava obcecado com uma história de crime que tava rolando a estados de distância, enquanto pegava uma caixa de suco da prateleira.

Não deixei ele ver que revirei os olhos com aquele apelido ridículo ou com a maneira desajeitada que ele pegou o suco, enquanto eu alcançava o rodo.

“Provavelmente um guaxinim. O cheiro lá fora atrai eles.”

Isso pareceu acalmá-lo um pouco enquanto ele pensava.

“Já tentou limpar o contêiner? Meu pai usa um produto químico pra limpar o nosso.”

Meu sorriso de lado enquanto ia pro fundo pra tirar minha pausa disse tudo que ele precisava saber.

Deixando ele cuidar da frente, eu precisava dar uma olhada no depósito. Saí pela porta do escritório e espantei mais alguns bichos indesejados, fazendo uma nota mental de que precisava neutralizar o cheiro antes de ir embora.

Com toda essa correria, precisei de um tempo pra me ajustar.

Folheando minha lista de tarefas, algo que eu fazia com frequência no caixa, ouvi o sino da porta da frente.

Quase corri pra lá, tão acostumado a passar essas horas sozinho, mas a voz animada do Lewis me fez relaxar e voltar pra cadeira.

Depois de uns dez a quinze minutos, estiquei o corpo e voltei pro salão. Ao virar numa prateleira pra checar o progresso dele, surpreendentemente, a conversa ainda tava rolando.

Dois policiais, comprando energéticos e barras de cereais, tavam numa conversa animada com Lewis, embora eu não entendesse todos os termos de esporte que eles tavam jogando.

Chegando mais perto, Lewis desviou a conversa pra mim.

“Ei, Rob, esses dois policiais tavam perguntando se aconteceu algo estranho por aqui. É minha primeira noite, então não sei de nada, mas tu tá aqui há um tempo. Viu algo?”

A pergunta me pegou de surpresa, mas mantive a compostura e dei uma resposta decente.

“Não, nada que possa dizer que é estranho.”

Assentindo, os dois homens me olharam de cima a baixo com um olhar intrigado antes de se despedirem do Lewis com um aviso sinistro.

“Se cuidem por aqui, não queremos ver vocês no noticiário.”

Irônico, mas peguei o papo abafado deles enquanto saíam, ainda me encarando enquanto voltavam pro carro.

“Nossa, que cara fedido.”

“Com essa cara, não é à toa que tava escondido no fundo.”

Obviamente, Lewis ouviu um pedaço também.

“Não liga pra eles, tem gente que é simplesmente babaca. E aí, o que mais falta fazer no turno?”

Dando um sorriso fraco, logo voltamos a estocar o que precisava e limpamos outro derramamento, até que mais uma série de sons chamou a atenção do Lewis.

“Rob, tu ouviu isso, né? Tô te falando, pode ter alguém lá fora. Será que a gente devia chamar aqueles policiais de volta?”

Sério, eu entendia por que ele tava nervoso, mas simplesmente não me afetava da mesma forma.

“Te prometo que não tem nada lá fora pra se preocupar. Deixa eu dar uma olhada.”

Saí pela porta de vidro e cheguei ao pequeno estacionamento. A noite tava tranquila. O som suave dos insetos se misturava com a brisa fria balançando os pinheiros ao redor.

Além do meu carro e do Lewis, não havia mais ninguém à vista. Voltei, endireitei uma placa que tava caída e entrei na loja com um sorriso tranquilizador.

“Viu? Nada pra se preocupar.”

Na hora perfeita, enquanto eu falava, um cara apareceu vindo de trás do prédio e entrou.

O homem branco, todo de preto com o capuz levantado, era exatamente o tipo de figura que eu sabia que faria o Lewis surtar se estivesse sozinho. Aceitando isso, espantei ele do balcão e assumi a posição.

Lewis obedeceu, mas também não parecia querer me deixar sozinho com o cliente misterioso enquanto ia pra uma prateleira ao lado e fingia organizar algo que já tava cheio.

O cara rondou quase todos os freezers e prateleiras, antes de pegar um Monster e pagar. Não falou nada, nem olhou pra cima, antes de sair pro estacionamento.

Saindo de trás da prateleira, Lewis e eu vimos o cara atravessar a rua, parar, tomar o energético e, depois de uns dez minutos, virar à esquerda e simplesmente sumir andando pela rua.

Estranho alguém vir a pé pra loja, mas eu não ia julgar.

Lewis obviamente achou que o cara tinha más intenções, mas com uma leve persuasão e a saída rápida do sujeito, a loja ficou calma de novo.

Com a ajuda dele, conseguimos ensacar todo o lixo em tempo recorde pra mim. No meio do nosso trabalho em equipe, devo ter suado, porque até eu senti o cheiro.

Avisando ao Lewis que levaria o lixo pro contêiner em um segundo, sugeri que ele guardasse o resto dos materiais de limpeza antes de fecharmos. Naquele momento, pareceu que uma lâmpada acendeu na cabeça dele antes de gritar “Scrubb”.

Com um leve inclinar de cabeça confuso, ele continuou.

“É o produto que meu pai usa nas lixeiras; com certeza vai acabar com esse cheiro.”

Dando a ele um sorriso surpreendentemente caloroso, girei pro escritório.

Correndo pro banheiro, era óbvio que eu tava deixando rastros. Lewis era um bom garoto, mas eu devia saber que ele não era ingênuo. Talvez fosse só uma pessoa legal demais, uma pena.

Chamando o nome dele enquanto saía do fundo, o turno tinha voado. Estranho como uma boa companhia faz o tempo passar, mas ao olhar pro salão, ele não tava lá, nem o saco de lixo.

Minha expressão caiu, mas isso era o de menos. Peguei minha mochila e fui pros contêineres atrás.

Naquelas horas geladas da manhã, vi a silhueta dele tremendo sob a luz fraca do poste. A luz mal o iluminava, mas junto com as nuvens de vapor da respiração e aquele olhar histérico, ele obviamente tinha visto.

Tremendo enquanto a voz falhava, ele se virou pra me encarar.

“Rob, tem corpos aí dentro. Não quis jogar o saco com força, mas o fundo rasgou e tinha...”

A mente dele deve ter feito o clique, vendo meu rosto sem expressão e a Ruger na minha mão direita. Não era como se alguém fosse nos ouvir. Aquela mata densa abafava qualquer eco num sussurro.

Uma pena, quase pensei em deixar ele curtir o caminho pra casa, mas minha máscara caiu. Tô usando esse rosto há mais tempo do que gostaria, então por que não mudar?

Nenhum produto de limpeza tira o fedor da podridão completamente, e ele era perfeito. Graças à sugestão dele, aquela solução química funcionou direitinho. Sem problemas de cheiro da próxima vez.

Ele tinha um pouco de grana, então pelo menos consegui sair do estado. Vamos ver quanto tempo consigo durar dessa vez.

Parece que vou ter que mudar esse título de novo. Dois dígitos, primeira vez.
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