quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Nunca beba o que ele te oferecer

Como qualquer outra sexta-feira à noite, eu saí pra uma festa com a minha melhor amiga, a Bree. Às vezes a gente ia pra festas de gente que a gente conhecia. Às vezes ia pra festas aleatórias que ela achava não sei onde. Sempre foi uma diversão nossa. A gente até tinha um joguinho que chamava de “Hooked”: quem pegava ou ficava mais com caras ganhava.

É bem idiota e parece que a gente tava implorando pra pegar DST. Acho que a gente inventou esse nome de “jogo” só pra ela se sentir menos… sei lá, menos vadia. Enfim, depois do que rolou, eu jurei pra mim mesma que nunca mais ia jogar essa merda.

Há uns anos, em 2017, eu fui numa festa em algum dia de outubro. Lembro direitinho que era uma festa de Halloween.

Naquele ano a gente foi em várias festas de Halloween, mas essa que eu vou contar foi a última que eu pisei na vida, por causa do terror que tomou conta daquela noite.

Era igual qualquer outra festa que a gente frequentava naquele mês. As duas de gatinha preta combinando, prontas pra dar em cima de um monte de cara e ficar bêbada.

Pensando bem agora, queria ter dado bola pros bandeirão vermelhão que eu ignorei. O primeiro, gigantesco: a Bree não conhecia NEM UMA ALMA naquela festa. Nenhuma cara conhecida. Normalmente isso não seria problema, mas o bairro era perigoso pra caralho. Tava todo mundo sumindo. Os corpos apareciam depois, só que nunca inteiros. Fazer o quê? A gente era nova e burra.

Eu era nova, burra e, infelizmente, aquela pessoa que faz qualquer coisa pra agradar os outros, por isso nem abri a boca pra falar “não” pra Bree.

Quando chegamos, até parecia normal. Todo mundo super extrovertido, simpático. Ficamos conversando com geral, conhecendo todo mundo, até que a Bree viu um cara que achou gostoso. O gosto dela é horrível, ela pega qualquer um que respire.

Ela me largou sozinha pra ir dar em cima dele e eu fiquei lá, moscando, me sentindo um peixe fora d’água. Também sabia que precisava tentar ganhar o jogo, então comecei a rodar, olhando os caras. Conversei com uns dois, mas meu olho travou num cara específico. Não era que ele fosse bonito, era algo na energia dele que me deixou intrigada. Hoje eu sei: eu nunca devia ter chegado perto. Talvez não fosse “intrigante”, talvez fosse o alarme de perigo dentro de mim que tava com defeito.

Seja lá o que fosse, eu fui falar com ele. Conversamos um tempão, ele até me fez dar umas risadinhas. Estávamos no meio de um papo chato que eu nem lembro mais qual era, mas lembro perfeitamente dele me entregando uma bebida.

Era um copo que eu achei que tava sendo servido pra todo mundo na festa, então nem desconfiei. Ele ainda perguntou se eu queria sair pra dar uma volta com ele. Eu, impulsiva do caralho, disse que sim.

A volta foi até sonhadora no começo. Ele era engraçado, parecia romântico, me deixou interessada. Comecei a pensar nele como algo além do jogo. Talvez um amigo, talvez algo a mais. Meu sonho desmoronou mais rápido que luz quando eu comecei a tomar os goles.

Cada gole era um segundo mais perto da minha quase morte. Minha cabeça começou a embolar, eu fui ficando mole. Falei que não tava me sentindo bem e ele começou a rir. Rir sem parar, com o sorriso mais assustador e largo que eu já vi na vida.

Ele me jogou no chão e tirou uma faca. Sussurrou no meu ouvido que isso acontecia o tempo todo, que ele adorava vítima burra. Disse que ia curtir me cortar em pedacinhos.

Eu chorei rios, literalmente. Implorava pela minha vida. A faca quase abriu meu pescoço, mas a Bree e o cara que tava com ela pularam em cima dele.

Você acha que terminou com ele preso, né? Infelizmente o filho da puta era forte pra caralho e conseguiu lutar e fugir. Eu liguei pra polícia, falei tudo, dei descrição, fiz tudo que podia. Não acharam ele. Nem um rastro. Até hoje eu procuro no Google e nas redes sociais, não tem nada que me ajude a encontrar o cara.

É como se ele tivesse evaporado. Nunca mais na minha vida eu aceito bebida de estranho. Tomara que um dia peguem ele. Pelo lado bom, os crimes pararam naquele bairro depois daquela noite do inferno. Pelo lado ruim… crimes parecidos voltaram a acontecer faz pouco tempo.

É só isso que eu tenho pra dizer: nunca beba o que ele te oferecer.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Minha última caçada

Eu moro numa cidadezinha do interior tão pequena que dói. População? Uns 345 habitantes. A cidade mais próxima fica a uns trinta minutos de carro pela interestadual, bem no meio do cu do nada no Texas. Só tem argila vermelha e pé de mesquite pra todo lado. Aqui, quem não cria gado ou participa do programa agrícola da escola, planta algodão ou milho miúdo.

Os campos de milho miúdo ficam no que a gente chama de “arredores” da cidade – se você for generoso o bastante pra dizer que o lugar tem arredores. Nessas lavouras é comum ver porco morto jogado. Esses javalis selvagens adoram milho miúdo e, sendo Texas, a gente tá infestada dessa praga do caralho. Não é raro ver fazendeiro esperando na beira do campo e estourando uns dez, treze porcos só pra espantar. Só que eles sempre deixam os corpos lá. Os porcos, por mais feios que o pecado e cheios de consanguinidade, viram um ótimo adubo depois que a natureza faz o serviço. Não dá pra comer, então muita gente tenta envenenar mesmo. Nesse ponto já virou só controle de praga.

Era fim de outubro e a temporada de cervo já tinha aberto no começo do mês. Meu pai e eu atirávamos em porco o ano inteiro pra ajudar os fazendeiros da cidade, mas cervo era raridade, era presente. Quando a gente caça não é por maldade nem por esporte. Claro que um cervo grande, com chifre bonito, sempre é legal, mas na maioria das vezes a gente só abatia um mesmo. Dessa vez a gente tinha um em mente. Achamos ele pelas câmeras de trilha que colocamos na nossa propriedade. Não era um cervo enorme de galhada, mas dava pra ver pelas cicatrizes de briga e pelo olho direito cego que ele era o chefe daqueles matos de mesquite. A gente batizou de Uno, por causa do olho que ainda funcionava. Era um cervo bonito, corpo grande, oito pontas. Eu chutaria uns cinco ou seis anos de idade.

Meu pai e eu compramos milho, passamos horas estudando onde ele dormia, os caminhos que fazia, os trechos que mais gostava de comer. Decidimos que tava na hora. Nos equipamos praquela tarde. Pegamos os arcos compostos, umas facas e uma pistola. Só por garantia – os porcos da região às vezes são bem filhos da puta. Já aconteceu de um javali idiota achar que ia me ensinar quem mandava e partir pra cima da gente.

Chegamos na propriedade umas 3:30 da tarde, estacionamos a caminhonete e entramos a pé pro resto do dia. Meu pai foi pro posto dele perto do tanque d’água – um tripé de metal com cadeira a uns dois metros e meio do chão, encaixado direitinho entre uns galhos pra ter cobertura. Eu nem imaginava que aquela seria a última vez que eu ia ver meu pai vivo.

“Quem vir o Uno primeiro, garoto.” Ele brincou. “Eu peguei o cervo no ano passado, mas não fica muito animado não.” Eu sorri pra ele. “É mesmo? Ele vai te sentir de um quilômetro de distância, seu velho fedido!” A gente se abraçou e eu comecei a andar mais pra dentro da propriedade até o meu posto. “Quer a pistola hoje, durona? Os porcos podem te farejar.” Eu fiz cara de quem pensa e balancei a cabeça. “Não, valeu! Eu não sou doce o suficiente!” A gente riu e cada um foi pro seu lado.

Eu precisava escrever isso. Precisava contar pra alguém o que aconteceu. E também porque eu nunca mais fui caçar desde então. Me desculpa, pai.

A propriedade tem uns quarenta hectares. Não é grande coisa, mas pra atravessar todo o mato e as trilhas de bicho leva uma hora e meia a pé. Até a cidade são mais quarenta e cinco minutos, e sinal de celular? Nem em sonho. Pedir ajuda era praticamente impossível.

Desci a trilha de terra, curtindo o ar fresco da tardezinha. Pulei galhos e cactos pequenos até conseguir subir no meu posto – um tripé de quatro pernas feito pra caçar de rifle. Lá eu sentei… e percebi uma coisa. Não tinha ouvido um pássaro sequer. Nem coelho, nem esquilo. Silêncio total. Só dava pra ouvir o vento balançando leve as árvores. Dia quieto acontece, claro, mas aquele era diferente. Sinistro. Parecia que tinha alguma coisa esperando do outro lado da cerca. Com o tempo, começou a chegar um cheiro. Devagar no começo, quase imperceptível. Forte, almiscarado, parecia lama de porco depois de chuva pesada. Já eram umas seis da noite e ficou escuro demais pra caçar de arco.

Desci do posto tentando não fazer barulho. Alguma coisa tava errada. O cheiro agora tava inconfundível. Só que era um cheiro velho, como se o que quer que tivesse causado aquilo já tivesse ido embora fazia tempo. Senti um aperto no peito enquanto voltava pro lugar onde meu pai tava.

Quando cheguei perto, o crepúsculo já tinha virado noite. Tirei a lanterna de cabeça e liguei. Dava pra ver o posto do meu pai, mas ele não tava lá. Fiquei confuso. Ele não ia sair sem avisar. Procurei em volta e vi alguma coisa no mato ali perto.

Fui chegando de fininho e olhei. Era o Uno. Meu pai tinha pegado o Uno! Por um segundo um sorriso enorme abriu na minha cara, mas quando eu segurei na galhada pra puxar ele do mato e ver a cara… larguei na hora. A cara dele não existia mais. Parecia que tinham arrancado a cara do Uno inteira! Pedaços de osso e músculo rasgados, sangue por todo lado, cobrindo os galhos quebrados e as folhas. Arranhões gigantes no corpo todo, e a pata traseira torcida num ângulo que só podia estar quebrada.

Outra coisa entrou no meu campo de visão: a mochila de caça do meu velho. O conteúdo espalhado no chão: flechas, embalagens de lanche, o arco do meu pai. Revirei tudo e achei a pistola no fundo, ainda no coldre. Meu coração batia forte contra o silêncio absoluto do mato de mesquite. Aí eu ouvi.

A voz do meu pai. Só que cada célula do meu corpo gritava pra eu correr. Alguma coisa tava terrivelmente errada. Mesmo assim eu chamei: “P-pai? Cadê você?” Ouvi um movimento no escuro. O cheiro ficou mais forte, parecia grande e pesado. Um almíscar podre, grosso, que só dava pra comparar com javali. Nesse momento tirei a pistola do coldre e engatilhei.

Ouvi de novo, vindo de perto do corpo mutilado do Uno. Um barulho forte de arrastar, junto com uma versão distorcida da voz do meu pai. Grave, gutural, arranhada. Parecia um esqueleto falando com brita na boca. “Duuuuroooonaaa?” Antes que eu pudesse entender o que tava acontecendo, a coisa jogou algo em mim. Eu desviei, a coisa rolou no chão e bateu na escada do posto antes de parar.

Mantendo o olho na direção do Uno, recuei até a escada. Olhei rápido pra baixo e pulei pra trás no mesmo instante. Eu vi só por um segundo, mas vi: a cabeça do meu pai, agora uma massa sangrenta mastigada. Um rugido que parecia um porco em pânico. Então eu corri. O cheiro me acompanhou até a caminhonete. Peguei a chave no bolso, entrei de qualquer jeito, joguei minhas coisas no banco de trás e girei a chave na ignição. O motor roncou e os faróis iluminaram o horror.

A uns vinte e cinco metros da caminhonete estava “aquilo”. Tinha uns dois metros de altura. Corpo curvado, pelagem dura e arrepiada, músculos se retorcendo de um jeito que não era possível. A cabeça lembrava porco, mas torta, como se tivessem quebrado várias vezes e colado errado. O focinho torto farejava o ar e fez contato visual comigo.

Os olhos refletiram nos faróis, deixando a criatura ainda mais assustadora. “Seu filho da puta!” eu gritei. Os ombros dele começaram a subir e descer. Roncos encheram o ar. A coisa tava rindo. Tava rindo pra caralho. Coloquei a caminhonete em drive e pisei fundo.

A besta urrou de surpresa quando eu atropelei ela com tudo. Dei ré e passei por cima de novo antes de sair pelo portão e cair na estrada. Cheguei em casa voando aquela noite. Chamei a polícia. Fiz tudo que podia, mas não mudou nada. Eles acharam o que sobrou do corpo dele e até trouxeram o arco e a mochila de volta pra mim. Eu não consigo explicar o que aconteceu naquela noite, mas eu sei que não matei aquilo. Sei porque de vez em quando eu ainda escuto a risada.

Por favor, nunca se separe do seu parceiro de caça. Você nunca sabe o que pode aparecer pra fazer uma visitinha pra ele.

Algo se senta comigo à noite

Fala aí, pessoal. Tô escrevendo aqui porque tô passando por uma experiência muito doida e precisava desabafar com alguém.

Pra começar: eu sou cego. Não é fácil, mas também não é esse drama todo que o povo acha. A parte mais chata, na minha opinião, é ter que ficar sempre esperto em público, então eu quase não bebo. Quando bebo, é pouquinho.

As bebedeiras pesadas eu deixo pra festa em casa ou praquelas noites raríssimas em que você simplesmente decide “hoje vou encher a cara sozinho em casa mesmo”.

Foi numa dessas noites que tudo começou. Eu me mudei pra Vermont pra fugir dos insetos do sul. Sempre curti ficar no meio da natureza, mas depois que fiquei cego minha pele ficou super sensível àqueles pezinhos de bicho. Me dá um nojo do caralho. Quando juntei uma grana, me mudei na hora. Achei uma cidade legal, nem pequena demais nem grande demais, com calçada, e comprei uma casa. Meu quintal encosta direto numa área de mata. Pode ser até parque nacional, sei lá. Não é como se eu pudesse ler as placas, né? (piadinha de cego ruim, desculpa aí)

Mandei fazer um banco bem grande, de madeira reforçada, coloquei na beirada do terreno e cavei um buraco pra fogueira. Não tem coisa melhor do que ouvir um audiobook esquentando a mão no fogo numa noite fria.

Foi mais ou menos um mês depois que me mudei que o visitante começou a aparecer.

Na primeira vez, eu tinha acabado de me despedir de uns amigos novos (fiquei checando se todo mundo tinha motorista sóbrio). Tranquei a frente da casa, fiz mais um drink e cambaleando fui pro banco e pra fogueira. O fogo ainda tava aceso, a gente tinha acendido pra festa. Fui com a bengala varrendo o chão, juntando latinha e copo usado, empilhei tudo embaixo do banco, me sentei e apertei play no audiobook.

O fogo já tava bem baixo, eu tava quase indo dormir, quando ouvi passos se aproximando. “Quem diabos vem aqui essa hora?”, pensei, mas tava bêbado demais pra ligar.

Eu sou aquele bêbado alto, feliz e que quer que todo mundo aproveite a noite. Então meu segundo pensamento foi: “Amigo novo!” Gritei: “Fala aí, parceiro! Quer vir sentar na fogueira?”

Silêncio por um tempo, até que os passos pesados vieram mais perto. Mais perto, mais altos… comecei a pensar “caralho, que tamanho é esse cara?”. Aí ele sentou na outra ponta do banco. Meu banco é grandão, uns dois metros e pouco, pra eu poder deitar se quiser e ainda sobrar espaço pro som ou pra comida.

Comecei a puxar papo, mas ele não falava quase nada. Às vezes soltava um grunhido, mas na maior parte do tempo ficava quieto me deixando falar. E eu falei pra caralho.

Contei da minha cegueira, da mudança pra um lugar estranho, que tava procurando amizades pra ter gente que me ajudasse a ficar de olho no perigo. Falei, falei, até cansar. Aí estendi a mão. Ele segurou com uma mãozona enorme e apertamos. Desejei boa noite e cambaleei até a cama.

Isso virou rotina. Meu novo amigo não aparecia toda noite, mas quando aparecia só sentava perto do fogo e ouvia. Comecei a reparar umas coisas nele. Primeiro foi o cheiro – achei que era morador de rua precisando de um banho. Ofereci o banheiro da minha casa, ele só grunhiu. Interpretei como “valeu, mas não, obrigado”, mas também não tinha certeza.

Na minha cabeça, era um cara de rua que tinha passado por algum trauma e ficou mudo. Não é o melhor amigo que um cego pode ter, mas vai saber… talvez eu fosse o único amigo que ele tinha no mundo.

Essa amizade estranha rolou de boa por uns meses. Até aquela noite. A noite que todo cego tem pesadelo.

Eu tava na fogueira, ouvindo audiobook no volume baixo. Meu amigo – eu tinha começado a chamar ele de Carvalho, porque igual carvalho ele era grande e calado – tava no lugar de sempre. De repente ouvi vidro quebrando. Levantei pensando que tinha deixado um copo na beirada da pia, coisa que acontece às vezes. Dei um passo em direção à casa pra limpar antes que esquecesse onde era.

Um rosnado atrás de mim me parou na hora. Nunca tinha ouvido um som daquele na vida: grave, fundo, parecia que vibrava dentro do meu cérebro. Aí meu amigo se levantou e com duas ou três passadas pesadas já tava dentro de casa. Ouvi ele abrir a porta de correr de vidro do fundo e entrar.

Fui dar outro passo quando veio o primeiro grito lá de dentro: “PORRA, QUE CARALHO É ESSA COISA?!” “SAI, SAI!” – um berreiro do caralho, e a porta de vidro voou pra fora com alguém correndo desesperado.

“QUEM É VOCÊ, PORRA?”, eu gritei.

Agora, uma coisa que vocês precisam saber sobre cego: a gente esquece luz. Simplesmente não pensa nisso porque não precisa. Então quando gritei, gritei do escuro total. O cara soltou um grito tão agudo e alto que doeu meu ouvido e me assustou pra caralho. Eu gritei de susto também, ele pirou de vez e meteu o pé na mata.

Fiquei ali parado uns minutos, totalmente apavorado, já pensando em ligar pra polícia.

Ouvi vidro estalando e meu amigo passou do meu lado arrastando alguma coisa. O cheiro dele misturado com cheiro de sangue veio forte. “Tá tudo bem?”, perguntei. Só veio um grunhido de volta.

Entrei em casa, achei o celular que realmente pega sinal e liguei pros policiais.

Depois os caras explicaram que acreditavam que dois ladrões tinham entrado na minha casa, mas que “alguma coisa” atacou eles. Encontraram um braço humano cortado jogado no meu sofá. Tinha sangue pra cacete. Pedi pros policiais tirarem foto pra mim – o seguro ia adorar essa porra.

Eles acharam as pegadas do que correu e as marcas de arrasto do meu amigo, que tinha levado o outro embora. Pelo tanto de sangue, acharam que o segundo ladrão tava morto.

Agora eu tô em casa sozinho. A equipe de limpeza acabou de sair depois que a perícia demorou uma eternidade. Tem lona na porta dos fundos e na janela do escritório. Eu fico feliz pra caralho que meu amigo me defendeu, mas ao mesmo tempo… que tipo de “pessoa” arrasta um corpo pro mato? Meu amigo é humano mesmo? Com o que eu tenho dividido a fogueira esse tempo todo?

Não sei. Por isso tô postando aqui. E se um dia ele ficar puto comigo? Eu nem vou ver chegar.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

A Mulher nas Árvores

Era ou entrar numa academia, ou começar a fazer trilha. Cara, como eu queria ter escolhido a academia.

Depois do término com o Carl — e depois de um período mais do que necessário de autopiedade descarada e de me afundar na fossa —, eu sabia que precisava fazer alguma coisa positiva, me mexer de novo, me sentir bem comigo mesma. Decidi pela trilha por alguns motivos. Nunca tinha sido do tipo “gente da natureza” e queria provar pra mim mesma que conseguia me desafiar. Tinha ficado confortável demais, confortável demais mesmo no relacionamento, tava na hora de sair da zona de conforto. Além disso, eu curtia a ideia da solidão que a trilha ia me dar. Precisava de tempo pra pensar e refletir.

Bom, digamos só que essa parte eu errei feio, mas sair da zona de conforto? Isso eu consegui. E muito.

Depois de gastar uma fortuna num par de botas de trilha, numa mochila de ataque e um monte de equipamento (nada disso ia servir pra porra nenhuma, como vocês vão ver), escolhi uma trilha a uns quarenta e cinco minutos de carro de onde eu morava.

Cheguei cedo no início da trilha. O ar tava fresco, gostoso. Renovador até.

Entrei na casinha do guarda florestal pra assinar o livro de visitantes. Me receberam dois caras: um mais velho, com sobrancelhas grisalhas gigantes e cabelo grisalho preso num rabo de cavalo, e um mais novo, provavelmente da minha idade, uns 30 e poucos, cabelo preto lambido pra trás.

— Bom dia! — disse o Rabo de Cavalo, todo animado. — Dia lindo pra uma trilha, hein?

Tive que acreditar na palavra dele, já que era literalmente a minha primeira vez fazendo trilha na vida, mas sorri de volta enquanto ele me entregava a caneta pro registro.

O Rabo de Cavalo explicou umas regrinhas básicas: ficar na trilha marcada, não levar nem deixar nada pra trás… e aí ele falou uma coisa que me fez congelar.

— A gente tá tendo um probleminha com uma… hã… moradora de rua aqui no parque. Uma mulher. Ela tem incomodado alguns trilheiros. A gente não sabe… — ele foi interrompido pelo telefone tocando lá no fundo. Levantou o dedo pra mim, pedindo pra esperar, e foi atender.

Durante todo esse tempo, o Cabelo Lambido tava sentado num banquinho atrás do balcão, me encarando com uma expressão que eu não conseguia decifrar. Não tinha falado um “a” até o Rabo de Cavalo sair.

— Escuta aqui — ele falou baixinho assim que ficamos sozinhos. — Aquilo não é mulher coisa nenhuma. Ele sabe — apontou pro Rabo de Cavalo atendendo no outro cômodo — e eu sei. O que eu vou te falar agora pode fazer você dar meia-volta e correr pro carro, mas se mesmo assim você quiser fazer a trilha, presta muita atenção.

Ele mantinha a voz baixa, claramente pra o outro não ouvir.

— Se você vir ela… ou aquilo… seja lá o que for… vai ser numa árvore. Ela sempre tá nas árvores. Ela vai tentar falar com você. Não responde. Tenta nem olhar pra cima se ouvir uma voz vindo das árvores. Mas se não conseguir evitar, pelo amor de Deus, não fala de volta. Faz de conta que não existe, dá meia-volta, volta pro início da trilha, entra no carro e cai fora. Se você vir ela uma segunda vez, corre. Se ela começar a descer da árvore… reza.

Eu fiquei olhando pro Cabelo Lambido de boca entreaberta, sem saber se ria ou se gritava.

— Só tô te falando isso — ele continuou — porque, sem ofensa, dá pra ver que você não é exatamente uma trilheira experiente. — Ele me mediu de cima a baixo, reparando nas botas claramente zero quilômetro e no cinto da mochila apertado demais na minha cintura. — E ela parece escolher justamente gente como você. O problema é que agora não parece que ela só tá observando mais, mas… — ele parou de repente quando o Rabo de Cavalo voltou pro balcão.

O Cabelo Lambido me encarou sério pra caralho.

— Beleza — disse o Rabo de Cavordo. — Desculpa aí. Você levou água suficiente? O percurso de ida e volta leva umas quatro horas, cinco se você… hã… não andar muito rápido ou não estiver acostumada com a trilha.

Eu balancei a cabeça, ainda tonta.

É óbvio que essa era a hora de eu ter dado meia-volta e corrido pro carro. Mas o problema é que eu sou teimosa pra cacete. Com o julgamento implícito do Rabo de Cavalo e o explícito do Cabelo Lambido sobre minha experiência zero, eu fiquei decidida a provar que os dois tavam errados.

Dez minutos trilha adentro, eu já tinha me convencido que o Cabelo Lambido só queria me assustar porque achou que eu ia dar trabalho, tipo sair da trilha ou tentar fazer carinho num puma…

Meia hora depois, minhas botas começaram a machucar pra valer.

Uma hora depois, o ar tinha virado um forno úmido e opressivo, e o dedão do meu pé esquerdo latejava que era uma beleza. Eu não sabia quanto tempo mais minha teimosia ia me segurar.

Achei um banco uns minutos depois e desabei nele. Tirei a bota e a meia na hora pra ver a bolha gigante, vermelha e em carne viva que tinha se formado.

Não tinha levado kit de primeiros socorros e fiquei me xingando enquanto dava um gole caprichado na garrafa d’água.

De repente — não tem outro jeito de descrever — eu senti a presença de outra pessoa. Olhei automaticamente pro caminho, certa de que ia ver outro trilheiro dobrando a curva. Nada. Ninguém.

Prendi a respiração. A floresta ficou num silêncio do caralho, como se ela também estivesse prendendo a respiração comigo.

E aí eu levei um puta susto quando um bando de graúnhas explodiu de uma árvore lá atrás, grasnando feito loucas enquanto voavam pra longe.

Talvez fosse a dor, o calor desgraçado, ou talvez eu já tivesse ficado assustada com o que o Cabelo Lambido falou, mas decidi dar o fora dali. Calcei a meia e a bota de novo e guardei a garrafa em tempo recorde.

Ia levar mais uma hora pra voltar pro carro, talvez um pouco mais porque eu já tava mancando pra não apoiar o pé esquerdo.

Ainda sentia aquele aperto no peito de que não tava sozinha, que a qualquer momento outro trilheiro ia aparecer no caminho.

Em vez disso, ouvi um “Oi” bem fraquinho vindo de cima.

Eu olhei. Claro que olhei. Qualquer um olharia.

O que eu vi foi uma mulher magérrima, pálida pra caralho, sentada num galho baixo da árvore bem acima de mim.

Os braços dela abraçavam o tronco, e demorei um segundo pra sacar que eram compridos demais — tipo, impossivelmente longos —, porque davam quase a volta inteira no tronco grosso. Se fosse eu, minhas mãos nem se encontrariam. Os dedos eram longos, abertos na casca, com unhas enormes e imundas.

O rosto dela vai ficar queimado na minha memória pra sempre. A pele era tão branca que parecia papel, os olhos eram azul-leitosos, grandes demais e muito afastados. Tinha um cabelo loiro quase branco, fino e ensebado.

Ela tava completamente pelada.

— Tá com dor? — ela perguntou com uma voz rachada, sussurrada, e começou a sorrir.

Eu esperava ver presas, mas os dentes eram minúsculos, espaçados em gengivas rosadas e inchadas. Mas eram afiados pra cacete, pontiagudos tipo de jacaré.

Quanto mais eu ficava chocada, mais o sorriso dela abria, e eu senti a adrenalina explodir no meu corpo.

As palavras do Cabelo Lambido ecoaram na minha cabeça: volta pro início da trilha e entra no carro.

Coração na boca, pescoço suado, comecei a andar rápido, sem saber se virar as costas pra ela era a pior ideia do mundo. Sentia os olhos dela cravados em mim.

Andei num trote dolorido, rangendo os dentes de dor, por cinco minutos ou cinquenta — nem sei.

Por favor, meu Deus, não deixa eu ver ela de novo.

Minha cabeça tentava processar o que eu tinha acabado de ver, mas eu empurrava os pensamentos pra longe. Ficar pensando nisso ia embolar meus sentidos, e eu precisava de cada neurônio funcionando pra chegar no carro.

Impossível, mas ela conseguiu chegar numa árvore à minha frente. Parei e senti o coração afundar quando uma perna branca apareceu no meio da copa densa, uns seis metros à frente. E aí a outra perna. Ela tava descendo.

Saí correndo, abaixando a cabeça enquanto passava pela árvore. Um braço comprido desceu tentando me agarrar, mas consegui desviar das garras.

Olhei pra trás e vi que ela já tava no chão, de quatro. As proporções eram humanas, mas erradas pra caralho. Ela começou a correr atrás de mim como caranguejo, passos curtos e rápidos. Cobria o chão numa velocidade assustadora e eu sabia que não tinha como escapar correndo.

Cheguei numa clareira que eu lembrava que ficava perto do estacionamento. Se eu aguentasse mais cinco minutos, talvez, talvez eu conseguisse.

E aí tropecei. Uma dor do caralho explodiu nos dedos já sangrando e cheios de bolha quando bateram numa pedra. Caí de cara no chão, de mãos, e esperei o inevitável — tava tão certa que ela ia me pegar que quase senti o impacto. Mas nada. Ainda de quatro, virei a cabeça tremendo.

Ela tava lá, de quatro, mas parada. Deu um grito animalesco, mas não chegou mais perto.

Demorei pra sacar: ela não entrava na clareira. Ficava na sombra das árvores, rondando, procurando um jeito de me alcançar.

O sol tinha me salvado.

Mil pensamentos passaram pela minha cabeça. Eu podia ficar na clareira até alguém aparecer. Mas e se ninguém viesse? E se a pessoa não conseguisse me ajudar? Ia escurecer eventualmente.

Sabia que depois da clareira, por uns cem metros, a trilha voltava a ter sombra antes do estacionamento. Será que eu conseguia se corresse tudo?

Com o estômago revirando de pavor, sabia que ia ter que tentar. Mantive os olhos nela e comecei a andar pra trás, devagar. Ela ficou na beira da sombra, me observando, calculando.

Sessenta metros até a sombra voltar. Trinta. Quinze. Três. Aí virei e saí correndo feito uma louca. A trilha subiu e eu consegui ver o estacionamento. Ainda não tava aliviada, ainda não tava segura, mas conseguia ver a segurança e me permiti ter esperança.

Pelo canto do olho, vi um flash branco. Virei e vi ela correndo entre as árvores, fazendo uma curva pra me interceptar. Na velocidade que ela vinha, ia me alcançar antes de eu sair da trilha.

Sei lá como, consegui dar um gás a mais, e ouvi ela dar outro grito — um som de pura frustração e fome animal — quando pisei no asfalto ensolarado do estacionamento.

Passei voando pela casinha do guarda, tremendo tanto que quase deixei as chaves caírem. Consegui abrir o carro, entrar e trancar. Liguei o motor e já engatei a ré, saindo da vaga sem nem olhar.

O Cabelo Lambido saiu correndo da casinha, cara de choque e suspeita.

Abaixei o vidro um tiquinho e gritei pra ele voltar pra dentro e trancar a porta.

Ele hesitou um segundo e correu de volta, batendo a porta.

Não parei de tremer durante os quarenta e cinco minutos inteiros até chegar em casa.

Não sei o que ela era. Não sei o que ela queria, nem o que teria feito comigo se tivesse me pegado. O que eu sei é que depois dessa única trilha, nunca mais me senti segura de verdade, e nunca mais consegui me livrar da sensação de estar sendo observada. Deixo todas as luzes da casa acesas o tempo todo.

Evito sombra. Minha própria sombra agora é sinal de segurança e conforto.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon