sábado, 6 de dezembro de 2025

Listras

Quando eu era mais novo, a hora de dormir sempre foi uma parada difícil e assustadora pra mim. Não era medo do escuro, não – era uma coisa bem mais sinistra, por conta própria.

Minha cabeça de criança sempre botava a culpa nos sonhos ou na minha família zuando comigo. Olhando pra trás, eu me sinto um completo idiota por achar que alguém da família ia se dar ao trabalho de me sacanear tão tarde da noite.

Família, no caso, era só uma pessoa mesmo. Cresci só eu e minha mãe.

Minha mãe era artista – ou pelo menos era louca por coisa artística quando eu era pequeno. Ela curtia especialmente fazer roupa. Por isso, tinha uns manequins espalhados pela casa. Eles ficavam sempre no ateliê dela, onde ela usava pra provar as peças.

Queria que a gente tivesse sacado o que tava rolando bem antes.

Eu tinha pesadelos com frequência. Experiências aterrorizantes que minha mente inventava na hora de dormir. Acho que era por isso que era tão difícil aceitar. Também era o principal motivo de ir pra cama ser um sacrifício daqueles. Até hoje não sei se os primeiros foram realmente pesadelo ou não.

Eu lembro com detalhes das três vezes que aquilo aconteceu.

A primeira vez eu nem liguei muito. Deitei, consegui dormir sem drama. O problema foi continuar dormindo. Primeiro era só escuridão. Aí meus olhos abriram.

Eu tava no meu quarto, ainda na cama. Só que alguma coisa tava diferente. O quarto tava muito mais escuro do que algumas horas antes – normal, quanto mais tarde, mais escuro fica.

Mas não foi isso que me apavorou. O que me fez mergulhar debaixo do cobertor foi uma figura parada bem no meio do quarto. Só conseguia ver porque tinha uns fiapos de luar entrando pelas frestas da persiana.

Olhei pro vulto o tempo suficiente pra sacar uns detalhes da roupa. A pessoa tava completamente imóvel, vestindo o que parecia uma calça social preta e uma camisa branca com listras pretas. Só isso. Não dava pra ver o rosto, e nem precisava. Ficou lá, parada. Eu não consegui gritar – não era que eu tava segurando, eu literalmente não conseguia. Fiquei tão apavorado que só consegui me enfiar no cobertor e esperar aquilo sumir.

Pode ser que eu tenha dormido de novo. Não sei, não lembro direito. Só sei que num momento eu tava escondido e no outro já tava acordando com o quarto todo iluminado pelo sol. A figura tinha sumido, então achei que tinha sido sonho.

Ainda assim fiquei na dúvida, e na hora do café perguntei pra minha mãe.

“Oi, mãe.” Eu falei. “Você… você colocou um dos seus manequins no meu quarto?”

O rosto dela mudou de tranquilo pra nervoso na hora. “O quê? Não, claro que não. Por que tá perguntando isso?”

“Ah, tá bom.” Respondi. “Então deve ter sido sonho.”

“Como assim?” Ela perguntou.

“Tinha uma pessoa no meu quarto, mas eu mal conseguia ver. Quando acordei de vez, não parecia que alguém tinha entrado. Acho que foi sonho.”

“Hmm.” Ela fez. “Que estranho. Qualquer coisa você me avisa, tá?”

“Tá bom.”

Preciso deixar claro: minha mãe nunca foi burra, em tempo nenhum. Ela pensou nas possibilidades. Revistou a casa inteira depois da nossa conversa e não achou nada. Não tinha como ela imaginar que aqueles sonhos, por mais reais que parecessem, podiam não ser só sonhos. Mas eu tô divagando. Não tinha como ninguém ter invadido a casa. Ela até desceu pro porão, inclusive nas partes que a gente evitava entrar. Nada.

O fato de ela não ter encontrado nada torna o que aconteceu depois ainda mais difícil de explicar, mas vou tentar.

O último caso foi mais ou menos uma semana depois do primeiro. Eu tinha acabado de pegar no sono e tava até sonhando uma coisa boa quando fui interrompido.

Dessa vez teve barulho de verdade. Acordei com o som do meu despertador caindo da cômoda e se espatifando no chão. Eu tinha certeza que tinha deixado ele bem longe da borda, mas vai que eu errei. Achando que tinha sido descuido meu, levantei um pouco o cobertor e me inclinei pra pegar.

Recuei horrorizado. Ali, saindo um pouco debaixo da minha cama, tinha um braço. Não era braço cortado, não – tava claramente ligado a alguém. O despertador não tinha caído perto da mão, então não dava pra ver direito, mas já saquei que era a mesma situação da semana anterior.

A luzinha do despertador mostrou que o braço era da mesma figura. Mesma camisa branca com listras pretas. Eu voltei pra trás na hora e me enterrei de novo no cobertor. Fechei os olhos com força. De algum jeito, mesmo com o pavor absoluto de ver aquela mesma coisa debaixo da minha cama, eu consegui dormir.

Na manhã seguinte, minha mãe tava puta da vida. Desci pro café já me preparando pra contar o que eu achava que podia ter sido sonho de novo. Ela tava de mau humor pra caralho. Pelo visto algum bicho tinha mexido lá fora e quebrado uma das janelas que davam pro porão.

Ela tava resmungando duas coisas. Primeiro: que o bicho que quebrou a janela ainda podia tá lá dentro. Quando ela foi ver, umas coisas tinham sido mexidas, principalmente perto daquela área escura tipo um vão de engatinhar. Segundo: como diabos ela ia pagar pra consertar a porra da janela. Eu e ela descobrimos que ela não ia precisar se preocupar com isso quando eu tentei falar com ela.

“Que foi?!” Ela cortou.

“Eu… hm.” Gaguejei.

“Desculpa.” Ela disse. “Tô só puta com essa janela. O que você queria me contar?”

“Eu vi de novo.” Falei. “A figura. Acho que eu tava sonhando?”

“Você sonha muito com isso.” Ela disse. “Lembra de algum detalhe?”

“Tava usando uma daquelas camisas listradas que você fez.” Respondi.

O rosto da minha mãe congelou. Ela ficou quieta um tempo. Quando falou, foi sério pra caralho. Me pegou pela mão e fomos direto pra porta de entrada. Enquanto eu calçava o tênis, perguntei:

“Por que você tá nervosa?”

Ela só respondeu quando já tava dentro do carro e ligando o motor. Olhou pra mim com aquele tom grave:

“Eu não fiz isso. Eu nunca fiz camisa listrada.”

Nós mudamos naquele mesmo dia.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Não vá até o local do Experimento de Inanição de Minnesota. Eles ainda estão com fome…

Estou escrevendo isso do meu apartamento, e preciso que você entenda uma coisa antes de eu contar o que aconteceu. Preciso que você saiba que o Experimento de Inanição de Minnesota foi real.

Em 1944, na Universidade de Minnesota, o Dr. Keys conduziu um dos estudos psicológicos mais perturbadores da história americana. Trinta e seis objetores de consciência — caras que se recusaram a lutar na Segunda Guerra Mundial — se ofereceram pra passar fome. Durante seis meses, recebiam umas 1.800 calorias por dia enquanto faziam trabalho pesado. Depois, passaram por três meses de “reabilitação”, sendo realimentados aos poucos.

Os resultados foram o puro terror. Os caras ficaram obcecados por comida: juntavam receitas, lambiam os pratos, alguns até pensaram em canibalismo. Entraram em depressão profunda, se mutilavam, mudaram tanto de personalidade que vários nunca mais voltaram ao normal. Um deles, tá registrado, cortou três dedos da própria mão com um machado — e nem lembrava se tinha sido de propósito ou não.

O objetivo do experimento era entender como realimentar populações famintas na Europa pós-guerra. Tudo aconteceu no porão do laboratório da Universidade de Minnesota, num prédio sem graça que ainda está de pé até hoje.

Eu sei disso tudo porque eu era consultor de demolição. Era. Era consultor de demolição.

Há três semanas, a Universidade finalmente liberou a demolição do laboratório antigo — o prédio onde o experimento rolou. A maior parte estava abandonada desde os anos 80, considerada obsoleta e cara demais pra reformar. Meu trampo era avaliar a estrutura, identificar materiais perigosos e planejar a forma mais segura de derrubar aquilo.

Entrei lá numa manhã de terça-feira. Sozinho.

O prédio cheirava errado desde o momento em que pisei lá dentro. Não era o mofo e podridão comum de lugar abandonado. Era mais forte, mais orgânico. Parecia uma fábrica de sebo que eu tinha vistoriado anos atrás, mas com um fundo azedo, de vômito.

Os andares principais eram normais: escritórios vazios, laboratórios sem nada, poeira de décadas. Meus passos ecoavam demais. As plantas mostravam quatro andares, mas quando chequei as escadas, vi marcações de um subsolo que não constava em nenhuma das minhas documentações — só um bilhetinho escondido no final do arquivo.

Curiosidade profissional é um perigo no meu ramo. Eu devia ter deixado pra lá.

A escada era estreita, de concreto institucional pintado de cinza há mil anos. A lanterna pegou algo nas paredes enquanto eu descia: arranhões. Profundos. Cinco linhas paralelas descendo o concreto, como se alguém tivesse cravado as unhas com força suficiente pra rasgar pedra.

O subsolo era um corredor comprido com várias portinhas. Celdas, na real. Cada uma com uma cama de ferro, uma mesinha e uma lâmpada pelada no teto. A anotação no meu arquivo dizia que aquele nível tinha sido usado pra “observação prolongada” em vários estudos. As portas ainda tinham números pintados: S1 até S36.

Trinta e seis quartos.

Trinta e seis cobaias.

Fiquei gelado apesar do casaco.

Os arranhões estavam em tudo ali embaixo: batentes, chão, até no teto. Num dos quartos, alguém tinha gravado na parede: AINDA COM FOME AINDA COM FOME AINDA COM FOME, repetido em espirais loucas que cobriam a parede inteira. A letra ia piorando, ficando mais descontrolada, mais rasgada.

No fim do corredor tinha uma porta pesada de aço com várias trancas. Uma placa dizia: OBSERVAÇÃO DE LONGO PRAZO. SOMENTE PESSOAL AUTORIZADO — DR. KEYS.

As trancas já estavam abertas.

Eu devia ter dado meia-volta. Meu Deus, eu devia ter dado meia-volta.

O cômodo lá dentro era enorme, uns 12 por 18 metros, com o teto sumindo na escuridão acima do alcance da lanterna. O cheiro me acertou como um soco: aquele cheiro de fábrica de sebo multiplicado por cem. E por baixo, outra coisa. Uma coisa que fez meu cérebro reptiliano gritar.

Tinham camas arrumadas em fileiras perfeitas. Trinta e seis camas.

Vinte e três estavam ocupadas.

Preciso que você entenda: eu já vi cadáver antes. Acidente em obra, uns suicídios em prédios que eu avaliei. Eu sei como é um corpo morto. Aquilo não eram cadáveres.

Eles estavam se mexendo.

Pouco. Só a respiração lenta, subindo e descendo. E eram… errados. Esquelético nem começava a descrever: eram corpos que tinham se devorado por dentro, queimado toda a gordura e depois começado no músculo, deixando só pele esticada sobre osso e tendão. Mas eram compridos demais. As proporções estavam tortas. Os dedos passavam muito do que deviam, com unhas grossas, amarelas e curvadas. As articulações inchadas, joelhos e cotovelos do dobro do tamanho normal.

E os olhos.

Quando a luz da lanterna passou pela cama mais próxima, os olhos se abriram de repente. Enormes, ocupando quase metade do rosto, pupilas tão dilatadas que pareciam buracos negros. Refletiam a lanterna como olho de bicho.

A boca daquela coisa se escancarou e eu ouvi um som que nunca vou esquecer: um estalo molhado, desesperado, como alguém tentando falar com a boca cheia de baba. A mandíbula desceu demais, e eu vi que os dentes tinham mudado — mais afiados, mais numerosos.

Depois ele se mexeu.

Nunca vi nada acelerar daquele jeito. Num segundo estava deitado; no outro já estava agachado na cama, cabeça inclinada num ângulo que quebraria o pescoço de qualquer pessoa normal. Não se movia fluido — dava uns trancos, como vídeo pulando quadro.

Todos os vinte e três acordaram. Vinte e três pares daqueles olhos gigantes, famintos, cravados em mim.

Eu corri.

Atrás de mim veio um barulho, não de passos, mas um estalar horrível, como se estivessem correndo de quatro. Ou de mais de quatro. Eu não olhei pra trás. Cheguei na escada e subi três degraus de cada vez, pulmão queimando, coração batendo tão forte que achei que ia explodir.

Uma coisa agarrou meu tornozelo.

Caí com tudo, queixo batendo no concreto. Atordoado, olhei pra trás.

Um deles tinha me pegado. A mão — se é que dava pra chamar assim — envolveu minha perna inteira, aqueles dedos compridos se encontrando do outro lado. O rosto dele estava a centímetros do meu, e eu conseguia ver cada detalhe na luz de emergência da escada.

Tinha sido homem um dia. Ainda dava pra ver na estrutura óssea, nos restos de humanidade agarrados às feições. Mas a fome tinha refinado ele em algo que a evolução nunca quis. A pele era translúcida, veias azuis visíveis como mapa. Os olhos desesperados, famintos, insanos.

A boca se abriu mais do que era possível, e eu vi a garganta se contorcendo, baba escorrendo pelo queixo em fios. O cheiro do hálito era indescritível: podre, ácido estomacal e algo químico.

Ele falou.

“Fome”, sussurrou, voz de folha seca. “Tanta… fome…”

Chutei a cara dele com o outro pé. Algo fez crack. Ele não soltou, mas recuou o suficiente pra eu arrancar a perna. Subi a escada engatinhando, depois me levantei e corri.

Cheguei no andar principal. A saída estava ali, luz do dia visível pelas janelas sujas. Eu ia conseguir.

Aí eu vi eles de novo.

Três no corredor à frente, bloqueando a porta. Deviam conhecer outro caminho pra subir. Se moviam daquele jeito horrível de stop-motion, pulando de um ponto pro outro, cabeças fazendo movimentos bruscos de ave pra me acompanhar.

O do meio usava o que sobrou de um crachá de voluntário da U of M. Ainda dava pra ler o ano: 1945.

Setenta e oito anos. Eles estavam lá embaixo há setenta e oito anos.

Olhei em volta desesperado e vi outra escada subindo. Corri pra lá, ouvindo aquele estalar atrás de mim de novo. Subi um lance, dois. Terceiro andar, corredor de escritórios vazios. Ali — uma janela, e uma escada de incêndio do lado de fora.

Não diminuí. Levantei os braços e me joguei no vidro.

Caí na escada de incêndio com força suficiente pra ver estrelas, vidro cravado na jaqueta e no cabelo. Embaixo, ouvi eles se atirando contra o batente da janela, incapazes ou sem vontade de seguir. Desci meio escalando, meio caindo, e corri pro meu caminhão.

Só parei de tremer direito quando já estava a mais de um quilômetro dali.

Não contei pra ninguém. Quem ia acreditar? Liguei pra universidade e disse que o prédio estava estruturalmente comprometido, que precisariam lacrar antes de qualquer demolição. Eles falaram que iam resolver.

Isso foi há três semanas.

No começo achei que estava bem. Assustado pra caralho, claro, mas bem. Tinha levado um susto, escapado, acabou.

Aí eu comecei a sentir fome.

Não fome normal. Era outra coisa. Eu comia uma refeição completa, enorme, mais do que eu costumava comer, e uma hora depois estava morrendo de fome de novo. Não só com vontade. Fome de verdade, dolorida, como se eu não comesse há dias.

Fui no médico. Ela fez exames. Tudo normal, disse. Metabolismo perfeito. Sugeriu que podia ser psicológico, me deu o contato de uma terapeuta.

Mas não é psicológico.

Eu sei porque perdi sete quilos em três semanas, mesmo comendo sem parar. Sei porque quando olho pras minhas mãos, meus dedos parecem mais compridos. Pouco. Só um pouco. O suficiente pra eu perceber quando digito ou pego um garfo.

Sei porque minhas articulações doem. Meus joelhos estalam quando levanto, e parecem inchados, quentes.

Sei porque ontem olhei no espelho e meus olhos pareceram grandes demais pro meu rosto.

Sei porque não consigo parar de pensar em comida. Todo pensamento volta pra isso. Sonho comendo, acordo com a mandíbula doendo de tanto ranger os dentes. Comecei a juntar receita de forma obsessiva, imprimi e cobri as paredes do apartamento com elas. Quando como, me pego lambendo o prato. Ontem me peguei calculando quantas calorias tem o cachorro da vizinha.

Sei porque a fome não tá mais na barriga. Tá nos ossos, nas células, no meu DNA. Tá me reescrevendo por dentro.

Passei de carro pelo prédio ontem. Tinham caminhonetes da manutenção da universidade lá fora, operários instalando chapas pesadas de aço em todas as janelas e portas. Nova placa: CONDENADO, PROIBIDA A ENTRADA, ESTRUTURA PERIGOSA.

Eles estão lacrando. Lacando eles lá dentro.

Mas pra mim já era.

Escrevo isso como aviso. O Experimento de Inanição de Minnesota não acabou em 1945. Continua rolando. Aqueles caras se voluntariaram pra passar fome pela ciência, pra ajudar a humanidade, e alguma coisa naquele processo transformou eles em algo que não devia existir. Talvez tenha sido a duração, a fome por tanto tempo que os corpos se adaptaram de formas impossíveis. Talvez tenha sido outra coisa, algo naquele prédio, naquele porão.

Não importa mais.

O que importa é que eu sinto acontecendo. As mudanças estão acelerando. Meus dedos estão definitivamente mais compridos hoje. Tive que aumentar o teclado no trabalho. Minha mandíbula estala quando mastigo, como se os ossos estivessem se soltando, se preparando pra esticar. Tô com tanta fome que mal consigo pensar, e comer não adianta mais. Nada adianta.

Ontem à noite senti vontade de voltar. Voltar pro prédio, pro porão. A fome me chama, sussurra que o alívio tá esperando no escuro com os outros. Que eu pertenço lá agora. Que sempre pertenci.

Tô tentando resistir. Tô tentando muito resistir.

Mas eu tô com tanta fome.

E meu contrato de aluguel vence mês que vem. Acho que não vou renovar.

Se você estiver lendo isso, fique longe do laboratório antigo no campus da Universidade de Minnesota. Não chegue perto. Não tente investigar. Lacrararam agora, mas lacre se quebra.

E pelo amor de Deus, se um dia você estiver perto daquele lugar e ouvir som de arranhões vindo de baixo da terra, se sentir aquele cheiro de fábrica de sebo misturado com vinagre e coisa errada, corra.

Porque eles ainda estão com fome.

Nós ainda estamos com fome.

E eu não acho que aguento muito mais tempo.

Meus dedos estão compridos demais pra digitar direito. Vou parar aqui.

Tem trinta e seis camas lá embaixo. Acho que uma delas sempre foi minha.

A Obra-Prima

Pouca gente sabe que tem um pintor morto no meu quintal. É verdade. Eu conto isso pros meus convidados no jantar quando eles têm coragem de aparecer aqui. Só que, assim que eu solto a bomba, eles já agarram os filhos, tiram as crianças do quintal – debaixo do qual tá enterrado um homem morto – e somem na noite. Nunca mais botam o pé na minha propriedade, parece que por muitos anos.

Uma vez, um desses meninos voltou já crescido e me perguntou por que os pais dele tinham me arrancado dali tão depressa e nunca mais deixaram ele voltar pra me ver. Eu contei o que já contei pra você e o que vou contar agora:

Tem um pintor morto no meu quintal. Você pisou na sepultura dele sem querer, e o pintor nunca quis que ninguém fizesse isso. Ele mesmo fez a própria cova e o próprio túmulo: moldou uma torre alta com as próprias tintas e pincéis, uma espécie de obelisco que sai do chão. Depois cavou um buracão na frente, deitou lá dentro e se matou. Aquela torre é frágil pra caralho – aguenta tempestade, mas quebra fácil no toque de gente, não importa o quanto você chegue de mansinho.

Naquele fim de semana, o fim de semana que ele se enterrou, caiu o maior temporal. A chuva e a terra que ele tinha jogado pros lados da cova cobriram o corpo dele. Tinham duas montanhas de terra – uma do lado direito, outra na lateral – pra dar conta dos quase dois metros de profundidade que ele tirou pra fazer a própria porta pro inferno. Dois metros em dois montes. Cada um parecia ter mais de um metro de altura; pareciam uns quatro pés gorduchos.

O pintor já tava morto há quatro dias. O corpo já tinha virado uma massa podre, pele solta, que derreteu e virou um caldo viscoso quando a chuva bateu. Quando a terra finalmente cobriu tudo, só as pernas dele – ainda dentro daquelas calças marrom chiques – não tinham perdido a pele e virado esqueleto. Ninguém sabia do cadáver no quintal – que hoje é meu, exceto a mãe dele. Ela viu o filho morto dentro do buraco e perdeu o juízo de vez. Nunca mais conseguiu voltar lá fora pra enterrar o menino direito. Fui eu mesmo que mandei a coitada pro sanatório lá perto do porto. Presa atrás de paredes brancas, ela deixou Deus e a Mãe Natureza fazerem o que ela, louca, não conseguia: enterrar o filho.

Quando chegou a hora de passar a casa adiante (casa vazia vira fantasma perfeito, né?), eu comprei da mãe dele por uma mixaria, uns trocados que pra ela não valiam nada, mas que pra mim abriram um rombo considerável na conta. Depois disso, fiz a coisa mais humana possível: gerei cinco filhos dentro dessa casa, cada um com uma esposa diferente. Nenhum deles – nem filhos, nem esposas – ficou muito tempo depois de eu soltar o clássico: “Querida, a gente tem um pintor morto no quintal.” Não vejo as crianças que elas levaram embora há até vinte e dois anos. A vida deles já tá longe demais pra ser minha de novo.

Nunca fui lá fora desenterrar aquele morrinho que hoje incha de leve no meu quintal, meter pá naquele montinho que brotou perto do meu canteiro de petúnias, como se a Terra tivesse criado uma espinha baixa no meio da barba rala. Não é alto o suficiente pra me dar trabalho de aplainar, mas incomoda o bastante pra eu tropeçar e cair toda vez que os anos vão matando meus ossos. O pintor era meu amigo; eu gostava mais dele que o próprio pai, aquele filho da puta que fez dele um bastardo. Enfim, eu já morri o suficiente pra não conseguir fazer mais nada sozinho, preciso de ajuda contratada, porque aquele buraco financeiro ainda não fechou, ainda sangra.

Olha lá pra torre. Tá desbotada, as cores agora cinza e mortas, lá na beira das árvores. Ainda é visível pra quem tem um pé no passado e força um pouco a vista: destaca contra a casca escura. Debaixo dela, um metro à frente, estão os restos do pintor morto. Do meu amigo morto. Acho que se você cavar vai achar os ossos dele lá, e a terra toda em volta vai estar impregnada da tinta que ele engoliu pra se matar. Quando eu morrer, você pode desenterrar ele se quiser; eu me arrependo tanto de não ter enterrado direito que jamais desenterraria de propósito, não enquanto ainda tiver um fiapo de moral me guiando.

Quando eu largar essa casa, só você vai poder decidir pelo meu amigo pintor: deixa ele em paz ou faz a coisa certa – acorda ele, invade a casa dele, dá o enterro decente que Deus manda, mesmo depois de cinquenta anos de sono? Pra mim, pensa se quiser, mas nunca faça. Se bater aquela vontade louca, vai lá e finca uma placa no chão, enfia uma faca na porta dele. Ou passa tinta por cima do nome desbotado que ele mesmo pintou na torre, na frente e atrás, se quiser desrespeitar a obra-prima do cara. Repinta essa casa, pinta meu caixão de vermelho antes de pintar de azul, mas nunca passe por cima da assinatura de um artista. Deixa ela gritar o próprio valor, e deixa o valor gritar por ela. Se tiver valor, fica e continua de olho na gente. Se não tiver… bom, acho que você é esperto o suficiente pra descobrir o que acontece.

E quando me enterrarem, me enterra bem longe do meu amigo, do lado da minha mãe, nunca do meu pai ou dos meus filhos. Os dois viveram vidas que eu não quero mais saber e não sou mais obrigado a conhecer. No céu, eu ainda quero deitar a cabeça no colo da minha mãe e soltar setenta anos de suspiro. Não sei o que levou meu amigo a se matar. Não quero encontrar ele lá em cima. Quero só a torre dele e a lembrança – nunca, jamais, a verdade que gerou as duas coisas.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Narcose

O profundímetro no meu computador de pulso marcava 84 metros. Uns 275 pés de água preta esmagadora, canalizada por uma garganta de calcário tão estreita que meus cilindros de estágio raspavam na rocha com um grito de metal contra osso.

A gente tava no “Intestino” — uma restrição num sistema de cenote ainda não mapeado, em algum lugar debaixo do chão da selva, a quilômetros do ponto de saída mais próximo. Meu parceiro de mergulho, o Beckett, ia na minha frente. Eu via as pontas amarelas das nadadeiras dele e o halo violento e sacolejante da luz principal dele cortando o breu absoluto.

A gente tava forçando demais a barra. Eu sabia. Ele sabia. O perfil do mergulho era agressivo pra caralho, quase suicida pra uma dupla em circuito aberto, mas o prazo da bolsa de pesquisa tava acabando e o Beckett tava com uma obsessão febril de conectar o Intestino com o aquífero principal.

— Pressão — murmurei no regulador, as palavras gorgolejando na boquilha. Bati a lanterna no cilindro duas vezes: clanc, clanc. O sinal pra checar. O Beckett nem respondeu. Só deu um coice mais forte, as nadadeiras levantando a camada de sedimento do fundo.

Esse é o pecado capital do mergulho em caverna: você não toca no chão. O fundo de uma caverna virgem é feito de eras de argila depositada e podridão orgânica. Se você mexe nisso, detona um silt-out. A água vira do cristalino pro leite com chocolate em segundos. Você perde o alto, o baixo e a saída.

Uma nuvem marrom rolou de trás das nadadeiras do Beckett e me engoliu.

Puta que pariu. Eu esvaziei o colete pra parar o avanço, tentei nadar de ré pra fora da nuvem. Mas o túnel era apertado demais. O sedimento me envolveu. O facho da minha lanterna morreu, espalhando uma parede branca cegante contra as partículas suspensas.

— Beckett! — gritei, esquecendo que ele não ia me ouvir. Apalpei procurando a linha-guia, aquele fiozinho de náilon que era nossa única ligação física com a superfície. Minha mão pegou só água.

Pânico, gelado e afiado, cravou no meu peito. Varri o braço pra esquerda, pra direita. Pedra. Pedra. Água. Nada de linha. O Beckett devia ter cortado numa quina afiada ou soltado o enrolamento quando deu aquele arranco pra frente. Eu tava cego. Tava fundo. E tava respirando ar num profundidade em que o nitrogênio age como narcótico. Aos 84 metros, a pressão parcial de nitrogênio fode o cérebro igual quatro ou cinco martínis de estômago vazio. Chamam de Efeito Martini. Lentifica o tempo de reação, mata o instinto de medo e troca o raciocínio lógico por uma aceitação fofa e eufórica da morte.

Forcei o corpo a ficar parado. Respirar. Entra. Sai. O som da minha própria respiração era ensurdecedor. Sss-clic. Rugido. Bolhas trovejando.

Olhei o manômetro: 110 bar. Uns vinte minutos de ar se eu ficasse calmo. Cinco se pirasse.

Decidi esperar. Às vezes, se a corrente ajudar, o silt-out limpa. Fiquei flutuando no vazio marrom, sentindo o peso imenso da rocha em cima de mim. Foi aí que a narcose começou a sussurrar. Não era voz. Era sensação. A água não parecia mais água, parecia melado. Eu sentia calor. O frio cortante do rio subterrâneo virou um calorzinho gostoso, anestesiante. Deu vontade de cuspir o regulador só pra provar o gosto da água. Provavelmente tinha gosto de ferro. De sangue.

Não, caralho, falei pra mim mesmo, cravando os dentes na borracha da boquilha. Isso é a narcose. Fica esperto.

Aí eu vi a luz.

Era fraca no começo, um brilho difuso atravessando a nuvem de sedimento na minha frente. Balançava ritmado. Esquerda, direita. Esquerda, direita. Era o Beckett. Ele tinha voltado. Vinha me buscar. Bati no cilindro de novo. Clanc. Clanc. A luz parou. Ficou ali, suspensa na lama, uns três metros de mim.

Esperei o sinal dele. O “OK” padrão. Polegar pra cima pra abortar o mergulho. Qualquer coisa. A luz só ficou parada.

Avancei devagar, mão esticada. O sedimento tava assentando um pouco, caindo pro fundo pesado e estagnado. Quando cheguei perto, a silhueta de um mergulhador surgiu do escuro. Era o Beckett. Flutuava na vertical, trim perfeito, braços pendendo ao lado do corpo.

“Beckett”, pensei, alívio me invadindo. “A linha. Cadê a porra da linha?”

Joguei a luz na cara dele pra chamar atenção. O Beckett não reagiu. Só flutuava, derivando levemente na corrente fraca. Cheguei perto, a um braço de distância. Foi aí que notei o equipamento dele.

O colete dele tava desabotoado no ombro. Um dos cilindros laterais pendia só por uma mangueira, balançando que nem membro decepado. E tinha alguma coisa errada com as bolhas. Não tinha bolha nenhuma. Ele não tava respirando.

Eu travei. A névoa da narcose no meu cérebro de repente virou um horror afiado e cristalino. Se ele não tava respirando, tava morto. Ou infartou, ou levou uma embolia, ou pirou e prendeu o ar.

Estiquei a mão pra agarrar o colete dele, pra chacoalhar. A cabeça do Beckett levantou num estalo. Não foi um movimento lento. Foi mecânico, violento: queixo no peito e depois esticando pra me encarar direto nos olhos.

O facho da minha lanterna bateu na máscara dele. Os olhos tavam escancarados. Não era o olhar vazio de cadáver, era o olhar dilatado e hiper-focado de um predador. Mas foi a boca que congelou meu sangue.

O Beckett não tava com o regulador na boca. O regulador flutuava atrás da cabeça dele. Ele tava sorrindo. Aos 84 metros a pressão da água é umas 135 libras por polegada quadrada. Se você abre a boca sem gás pressurizado empurrando de volta, o mar entra nos seus pulmões com força de mangueira de bombeiro. Você afoga na hora. Os pulmões colapsam. O Beckett tava me sorrindo, dentes brancos e perfeitos na luz crua do LED. Os lábios puxados até a gengiva. Não entrava água. Não saía bolha.

Ele só flutuava ali, boca aberta naquele sorriso impossível, me encarando.

Narcose, meu cérebro gritou. Isso é alucinação. Você tá completamente narcosado. Ele tá morto e seu cérebro tá desenhando uma cara na tragédia.

Fechei os olhos com força, contei até três, abri.

Ele tava mais perto. Não tinha nadado. Não tinha mexido as pernas. Simplesmente… se deslocou pela água. Tava a centímetros da minha máscara agora. Eu via os poros do nariz dele. Via as veinhas vermelhas no branco dos olhos. E via que a garganta dele se mexia. Um volume ritmado, pulsando, subindo pelo pescoço, por baixo da pele, como se engolisse ao contrário.

Ele esticou a mão.

A mão dele, com luva preta de neoprene, não pegou meu colete. Foi direto na minha cara. Especificamente no meu regulador.

Eu bati na mão dele. Parecia sólida. Real.

— Sai pra lá, porra! — gritei dentro da boquilha, o som abafado e inútil.

O sorriso do Beckett se alargou. Esticou. As comissuras da boca não pararam nos molares. A pele das bochechas rasgou — não com estalo, mas com uma separação úmida e silenciosa, tipo abrir massa crua. O sorriso continuou, partindo o rosto até as orelhas.

Dentro da boca não tinha língua. Não tinha garganta.

Tinha um tubo pálido, translúcido. Um sifão carnoso, pulsando, forrado de cílios minúsculos e transparentes que batiam na água.

Não era o Beckett. Era uma coisa vestindo o Beckett.

Eu chutei. Arranquei as nadadeiras no chão de pedra, explodindo o sedimento de novo, dane-se a visibilidade. Precisava de distância. Nadei de ré, raspando o cilindro no teto da caverna, hiperventilando.

Sss-ssss-ssss. O regulador entregava ar em rajadas desesperadas.

Iluminei a nuvem marrom. Nada. Aí veio um som. Som viaja quatro vezes mais rápido na água. Vem de tudo quanto é lado. Você não consegue localizar. Clic. Clic. Clic. Parecia pedra molhada batendo. Ou dentes rangendo.

Olhei o manômetro: 50 bar. Eu tava gastando ar pra caralho. Tinha que sair. Tinha que achar a saída. Girei 180 graus, deixando a nuvem pra trás, e nadei às cegas pro escuro. Rezei pra estar voltando pro entrada, pro salão maior onde a luz do sol pudesse infiltrar. O túnel afunilou. Meu peito raspou no chão. Meus cilindros rasparam no teto. Uma restrição. Eu não lembrava dessa restrição. Caminho errado. Você veio pelo caminho errado.

Tentei dar ré, mas a válvula do meu cilindro enganchou numa ponta de calcário. Fiquei preso. Girei o quadril tentando soltar. A pedra me segurava firme. Tava encurralado, 84 metros abaixo, num caixão de pedra.

Clic. Clic. O som tava mais alto. Mais perto.

Virei a cabeça, olhando por cima do ombro, de volta pro túnel que eu tinha acabado de passar. A lanterna cortou um cone na água limpa atrás de mim.

O Beckett tava lá. Não nadava. Rastejava. Se arrastava pelo chão usando cotovelos e joelhos, com uma coordenação insectoide e quebrada que destruía qualquer anatomia humana. As pernas dobravam nos ângulos errados. As costas tavam arqueadas pra trás, côncavas, que nem boneco quebrado.

Ele parou a uns três metros. O sedimento tinha assentado o suficiente pra eu ver os detalhes. A “roupa Beckett” tava folgada agora. O neoprene enrugado, murcho. O que tava dentro tinha encolhido, se condensando.

A cabeça pendia frouxa, queixo no peito. Aí o pescoço estalou pra cima de novo. O sorriso tinha sumido. A mandíbula inferior tinha sumido. Pendia solta, desencaixada, batendo no pescoço.

Do buraco escancarado onde era a boca, o sifão saiu. Tava maior agora, grosso que nem jiboia, pálido e translúcido. Ondulava na água, sentindo a corrente. Sentindo a vibração do meu pânico. Eu vi movimento dentro do sifão. Alguma coisa escura e sólida sendo empurrada do peito pra cima, viajando pelo tubo.

Era o computador de mergulho do Beckett. A coisa cuspiu. O disco de plástico bateu no chão de pedra.

Aí cuspiu uma aliança de casamento. Aí um dente. Tava purgado as partes não-comestíveis.

Eu me debati contra a rocha, esperneando, gritando no regulador até sentir gosto de cobre na garganta. Manômetro marcava 10 bar. Dois minutos. Talvez menos.

A coisa voltou a rastejar. Raspa. Arrasta. Clic. Não tinha mais olhos — os olhos tinham rolado pra dentro do crânio, substituídos pela carne branca e brilhante do parasita — mas sabia exatamente onde eu tava. Sabia que eu tava preso.

Parou bem na sola das minhas nadadeiras. Senti uma mão — ou o que sobrou de uma mão, ossos esmagados juntos num gancho — agarrar meu tornozelo.

A narcose me pegou de vez então, uma onda final de indiferença morna. O terror não sumiu, mas se desprendeu. Eu assisti tudo de longe. Vi a coisa-Beckett subir pelas minhas pernas. Senti o peso dela se acomodando nas minhas costas, me empurrando pro sedimento.

Ouvi o chiado do meu regulador entregando os últimos restos de ar. A agulha bateu zero. A próxima respirada foi dura. Vácuo. Olhei pra pedra na frente do meu rosto. Tinha um fóssil ali. Uma conchinha espiral, milhões de anos de idade. Era linda.

Uma cara apareceu do meu lado. Era a máscara. A face do Beckett, esvaziada, pendurada na coisa que nem pano molhado. O sifão empurrou pelas bochechas rasgadas, procurando vedação. Encostou no meu regulador. Queria entrar.

Aí entendi por que tinha usado o Beckett. Não era só camuflagem. Era roupa de pressão. Precisava de um casco pra manter a forma contra o peso do fundo. E o casco do Beckett tava quebrado. Precisava de um novo.

Eu cuspi o regulador.

Não pra lutar. Mas pra receber a água. Pra deixar o mar esmagar meus pulmões antes que ela tomasse eles.

Mas a água não veio.

O sifão grudou na minha boca aberta na mesma hora. Tinha gosto de podre e salmoura antiga estagnada. Formou uma vedação perfeita, hermética, nos meus lábios. E aí empurrou ar pra dentro de mim. Respirava por mim. Um gás reciclado, fétido, bombeado da própria bexiga dela pros meus pulmões. Tava me mantendo vivo. Me queria quentinho. Me queria fresco.

Quando o sifão começou a descer pela minha garganta, se expandindo pra encher meu esôfago, a narcose finalmente me deu uma pequena misericórdia.

Eu comecei a rir. Não saía som, entupido que eu tava, mas meu diafragma convulsionava num loop silencioso e tremendo.

Eu ia ser o novo uniforme. E a gente tinha uma nadada longa de volta pro escuro.
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