segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Eu tinha dificuldade pra dormir quando era mais novo. Ontem à noite eu descobri o porquê

Tudo começou quando eu tinha 8 anos. Nessa época, eu comecei a ter esses “estremecimentos” no sono. Lá pelas tantas, perto da meia-noite, eu era arrancado do sono de repente. Era igual àqueles momentos em que você tá quase pegando no sono e o corpo dá um tranco, como se você estivesse caindo, só que esses trancos me faziam sentir que eu tava sendo jogado pro alto. Meus pais, no começo, acharam que era só insônia – a escola tava bem estressante pra mim, com um monte de matéria nova e aula diferente, então até entendo eles pensarem isso. Só que os trancos eram raros no início, mas com o tempo começaram a acontecer toda noite, e aos poucos eu acordava com mais pânico, gritando e socando o ar contra uma ameaça que não existia.

Cinco dias depois que esses trancos pioraram de vez, meus pais começaram a achar que insônia não explicava mais. Começaram a perguntar se eu tava sofrendo bullying na escola, se tinha professor filho da puta, essas coisas. Eu não tinha bully nenhum na época e todos os professores eram legais, então a resposta era sempre “não”. Me levaram pra umas consultas na clínica infantil da cidade, não acharam nada errado fisicamente, mas anotaram que eu tinha um monte de “trauma auto-infligido” – vai entender que porra era essa. Deram uma receita de remédio pra dormir pros meus pais e falaram pra eu tomar um uma hora antes de deitar, pra ver se me mantinha apagado. O remédio nunca funcionou porra nenhuma. Eu até ficava mais sonolento antes de dormir, mas os trancos continuavam acontecendo, toda santa noite, pontualmente à meia-noite.

Isso durou um tempão e eu só queria que aquele inferno acabasse. Acabei perguntando pros meus pais se existia um “médico do sono”. Eles falaram que não tinha isso, mas que podiam me levar num psiquiatra. Logo eu tava sentado num consultório cheio de brinquedo, fidget toy e livro espalhado, enquanto o Dr. Cole, meu psiquiatra na época, me fazia um monte de pergunta. Perguntas ridiculamente básicas: “Quantos anos você tem? Sempre quis procurar ajuda psiquiátrica? Dorme bem? Come direitinho?” e tal. Depois disso ele tirou umas folhas, aquelas com borrões pra ver como a cabeça do paciente funciona identificando imagem. Juro por Deus, cada uma por uma, todas as folhas tinham dois círculos pretos gigantescos dos lados, tão escuros que parecia que eu podia enfiar a mão ali e perder pra sempre. Sei que algumas realmente tinham traços assim, mas pra mim todas eram iguais: vazios absolutos que pareciam me encarar direto. Lá pela nona folha eu desabei chorando e tentei me esconder embaixo da mesa. O Dr. Cole juntou as folhas, guardou na pasta e começou a preencher um relatório. No mesmo dia meus pais foram informados que eu podia ter um caso leve de esquizofrenia, que fazia meu cérebro projetar imagens que eu não queria ver nas folhas. Deram outra receita. Meu pai fez o maior escândalo, falando que não ia deixar o filho caçula tomar remédio pra um transtorno de verdade em vez de tratar de verdade. Resumindo: nunca mais voltei lá.

Por meses eu tive que aguentar aqueles trancos o tempo todo, e ficou tão insuportável que parei de dormir no meu quarto e passei a dormir com meu irmão David. David tinha 10 anos na época e, pra ser sincero, já tava de saco cheio da minha palhaçada, mas ainda me deixava dormir com ele se isso fizesse eu calar a boca. Depois de um tempo chegou meu aniversário. A festa era pra ser uma desculpa pra eu pegar ar livre, mas por causa dos trancos da meia-noite meus pais decidiram que todo mundo ia ficar dentro de casa pra “se conectar mais”. Na festa tinham três dos meus amigos mais próximos – dois eram vizinhos, o outro era da sala. Além deles, dois primos meus que eram pelo menos cinco anos mais velhos que o David, mas ainda curtiam vir em casa zoar com a gente de vez em quando.

Durante a festa eu consegui esquecer completamente dos trancos. Todo mundo jogando, falando de coisa que ia rolar, e principalmente rindo de piada escrota e besta pra caralho. No fim da tarde eu e o David pegamos os sacos de dormir. Ele foi abrir o sofá-cama enquanto eu juntava cobertor e travesseiro. O David parou na frente de todo mundo e avisou que os sacos de dormir eram só pra mim e pra ele, e que o sofá-cama ia ser “quem chegar primeiro leva”. Eu dei um sorrisinho e falei pra eles “se “se matarem pela cama”. Achei que ia rolar guerra de polegar ou pedra-papel-tesoura, mas os primos se ofereceram pra dormir no chão e meus amigos resolveram na queda de braço. Depois de decidir quem dormia onde, ficamos acordados umas boas duas horas depois do horário de dormir, desafiando um ao outro pra ver quem aguentava mais tempo sem apagar. Claro que eu fui o último a dormir.

Enquanto eu ia apagando, sorria com o dia inteiro de diversão, mesmo tendo ficado só dentro de casa rindo até doer a barriga. Aí, lá pela meia-noite, senti aquele tranco me jogando pra fora do sono de novo, e a vontade de gritar e socar o que tivesse mais perto veio com tudo – só que minha voz não saía. Minha boca tava aberta, mas as cordas vocais não funcionavam. Meus braços, já dentro do saco de dormir, não mexiam. Lembrei que meu primo tinha falado que sentia isso direto: paralisia do sono, quando você acorda rápido demais e o corpo não destrava os movimentos. Varri o ambiente com os olhos pra ver se tinha alguém acordado. Só via a bagunça de jogo de tabuleiro e salgadinho, meu irmão, meus primos e meus amigos dormindo, e a janela grande do lado da porta da frente.

Meu primo sempre dizia que, quando ficava paralisado, tentava ficar olhando pras coisas diferentes porque sabia que a mente acabava ficando entediada e inventava monstro. Meu irmão retrucava que ficar olhando em volta só incentivava a mente a criar os demônios. Meu primo dava de ombros e falava que nunca tinha visto nada que não estivesse ali de verdade. Eu fiquei olhando cada canto da sala que conseguia pra garantir que nada mudava. Quando me senti seguro, fechei os olhos e tentei dormir de novo. Logo depois de fechar os olhos, ouvi um farfalhar no mato bem do lado de fora da janela grande. Abri os olhos num pulo e virei pra ver o que porra era aquela. Fiquei apavorado.

O cara – a coisa, melhor dizendo – que tava do lado de fora da janela era alto e todo escuro. Parecia usar um moletom preto, mas o rosto… nunca vou esquecer aquele rosto. Escuro e ao mesmo tempo pálido, sem boca nem nariz que desse pra ver, e os olhos eram exatamente aqueles círculos pretos gigantescos que eu vi nas folhas do Dr. Cole, só que ainda mais fundos. De algum jeito consegui franzir a cara numa careta de raiva, torcendo pra ele ver que eu tava puto e ir embora. Ele viu mesmo a careta, virou pro lado da porta e… caminhou até ela. Pisquei só pra ter certeza que não tava louco, mas a coisa agora tava dentro da minha casa, parada bem na frente da janela. Com medo de piscar de novo, forcei os olhos a ficarem abertos. A coisa começou a andar na minha direção, bem devagar. Meus olhos lacrimejaram, lutei com tudo pra não piscar, até que, de repente, piscar foi inevitável. Quando abri os olhos de novo, a coisa tinha sumido. Varri a sala inteira: nada fora do normal. Percebi que meu corpo já tinha destravado da paralisia e corri pro David pra acordar ele.

“David! David!” gritei. “Tem um cara, eu vi ele! Tá escondido aqui dentro de casa!”

Meu irmão se mexeu e virou de costas pra mim. “Vai dormir, cara, tá tarde pra caralho.”

“Não! Eu não consigo dormir, David! Ele tá na nossa casa! Pode tá esperando pra matar a gente!” retruquei gritando.

David se levantou devagar, espreguiçou e falou bocejando: “Que tal a gente procurar esse cara e, se achar, a gente vai chamar o papai e a mamãe. Combinado?” Eu balancei a cabeça que sim. Levantamos e fomos procurar pela sala: debaixo do sofá-cama, debaixo da mesinha de centro, até no armário do corredor. Nada. Voltamos pra cama e o David apagou quase na hora. Eu sabia o que tinha visto. Sabia mesmo.

Depois daquela noite os trancos pararam. Nunca soube o porquê, então por um tempo achei que era só uma fase de medo de medo de tudo. Hoje eu tenho 19 anos e ontem à noite eu fui provado errado: senti um tranco de novo, olhei pra janela do meu quarto e lá tava ele – o homem sem olhos.

Eu fiz parte de uma equipe de resposta enviada pra uma instalação secreta por causa de um surto. O que a gente descobriu nunca deveria ter existido… e agora eles estão soltos

Não sei quanto tempo eu ainda tenho. Minhas mãos não param de tremer e meu pulmão tá queimando como se eu tivesse respirado fogo, mas eu preciso botar isso pra fora porque não sei se vou conseguir sair vivo dessa mata antes que o que quer que esteja se mexendo ali na beirada das árvores me ache. Se você tá lendo isso, entenda uma coisa: tudo sobre os Laboratórios Helixion não era boato. Não era teoria da conspiração. Era real. E a gente libertou uma coisa que devia ter ficado enterrada pra sempre.

Eu era de uma equipe de cinco caras: Comandante Coleman, Matthews, Fields, Torres e eu. Fomos mandados pra conter uma brecha de segurança numa instalação ultra-secreta. Comunicação cortada, número de mortos desconhecido. Aquela missão que a gente treina a vida inteira mas reza pra nunca cair.

O lugar chamado Helixion Labs não era nenhuma instalação civil. Era financiada pelo governo, enterrada sob uns bons quinze metros de concreto armado no cu do mundo. Pesquisa genética, evolução experimental… aquele tipo de coisa que só existe em filme de terror e fantasia. Eu tinha ouvido os boatos: animais com genes misturados, híbridos humano-animal, supersoldados feitos pra sobrevriar qualquer coisa. Achava que era papo de maluco, mas eu não fazia ideia do quanto tava errado.

Pousamos logo depois do amanhecer. A neblina tava baixa e pesada, engolindo qualquer som antes dele chegar nas árvores. O portão de aço tava escancarado, dobrado pra fora, como se alguma coisa tivesse forçado passagem pra sair.

Antes de entrar, Coleman passou o plano:

“Vamos resgatar sobreviventes, descobrir o que rolou, achar a sala dos geradores, colocar as cargas e vazar pelo túnel que sai dali pros lados da mata”, explicou ele. “A porta é trancada com código que me passaram. Assim que a gente sair, as cargas detonam e levam o prédio inteiro pro saco junto com tudo que tiver dentro.”

Terminou de falar e a gente entrou. Energia cortada. Só as luzes de emergência deixando os corredores num vermelho sufocante. Silêncio total, só o barulhinho do nosso equipamento e o chiado de vapor vazando de cano quebrado. Quanto mais fundo, pior o cheiro: carne queimada, sangue, podre e um troço químico que arranhava a garganta.

Achamos o primeiro corpo na recepção… ou o que sobrou dele. Um cientista, metade do tronco sumida. As costelas abertas pra fora tipo flor desabrochando, as tripas espalhadas pelo chão. Alguém tinha escrito uma palavra na parede do lado com os dedos tremendo.

CORRE.

“Ataque de animal?”, Torres sussurrou.

Coleman nem olhou pra ele. “Animal nenhum faz isso.”

Seguimos mais fundo, varrendo o corredor leste. Cápsula de bala, marca de queimado e jaleco rasgado pra todo lado. Num canto, um corpo meio fundido na parede. Carne e concreto misturados como se fossem a mesma coisa.

Os elevadores eram sucata retorcida, então descemos pela escada de serviço pro Subnível 3 – Divisão Genética. Cada degrau ecoava e meu coração parecia que ia rasgar o peito pra sair.

Aí a gente ouviu: um arranhado, metal no concreto.

Fields virou o fuzil com lanterna pro corredor e, por um segundo, eu vi movimento. Uma coisa pálida, rápida demais pra focar.

“Olhos abertos”, Coleman mandou. “Não tá vazio aqui. Cuidado com a retaguarda.”

Achamos outro corpo. Os ossos moles, dobrados em ângulo impossível. A pele escorrendo como cera de vela.

Torres quase vomitou: “Porra, Jesus Cristo, o que caralhos faz uma coisa dessas?”

Aí veio a respiração. Lenta, pesada e errada.

A coisa apareceu debaixo de uma porta que ela devia ter que se abaixar pra passar. Pele pálida quase brilhando, como se não tivesse sido feita pra luz. A mandíbula desencaixada, dentes pretos e finos que nem agulha, mas os olhos… puta merda, aqueles olhos… me encarando com uma inteligência humana que me congelou no lugar.

Coleman atirou primeiro, mas a coisa era mais rápida que qualquer coisa que eu já vi. Chegou no Fields antes da gente piscar.

Começou a rasgar ele com garras que pareciam lasca de osso. O som não era rugido… era tipo risada, distorcida, mecânica.

A gente abriu fogo tudo. Bala atravessava, mas a coisa não caía. Soltou um grito agudo que fez minha visão embaçar.

Quando ela sumiu de volta no duto de ventilação, Fields não tava mais de pé com a gente. Só sobrou uma poça de carne triturada, roupa, equipamento e sangue.

Seguimos porque tinha que seguir. Parar era começar a pensar no que a gente tinha acabado de ver.

Chegamos na sala de controle. Coleman achou um único vídeo que ainda rodava. A maioria tava corrompida, mas um funcionava: filmagem de uma cela de contenção. Um cara amarrado numa maca, gritando. As costas arqueando enquanto alguma coisa mexia debaixo da pele, aí a pele se abriu como casulo e uma coisa rastejou pra fora. Igualzinha à que matou o Fields.

Nome do arquivo queimou na minha cabeça: SUJEITO 47B – TESTE DE REGENERAÇÃO

Torres quis abortar a missão, mas Coleman bateu o pé que não.

Subnível 4 foi pior. O ar tava úmido e vivo. As paredes pulsavam de leve, como se respirassem junto com a gente. Uma coisa caiu do teto – fina, pálida, mais rápida que o olho consegue acompanhar. Matthews atirou por reflexo.

O clarão do cano iluminou outras penduradas nas paredes, agarradas que nem aranha, mas com forma de gente pela metade da transformação. Andavam de quatro, osso estalando a cada movimento.

A gente correu, mas elas vieram atrás gritando. Uma pulou em cima do Torres e grudou na perna dele. Virei e meti bala à queima-roupa, explodi metade dela fora dele… mas os tentáculos já tavam entrando na pele. Ele gritou até a voz virar gorgolejo.

Elas começaram a enxamear ele, os tentáculos se retorcendo debaixo da carne, esvaziando o cara por dentro. Quando terminaram, arrastaram o que sobrou dele pra parede – usando o corpo dele como saco de ovo.

Selamos o Subnível 4 e tentamos respirar, mas Coleman manteve a gente andando. Não pela missão… pela sanidade, pela ilusão de que ainda tinha algum controle.

O rastreador do Matthews pegou sinais fracos – vários, se movendo devagar e de forma irregular.

“Pode ser sobrevivente”, eu disse, voz falhando.

“Duvido muito”, Matthews respondeu. “Ninguém sobreviveu a isso aqui.”

Coleman suspirou: “Ele tá certo, mas a gente vai conferir mesmo assim.”

Aí veio o som. Primeiro baixo, depois crescendo.

Cantoria.

Uma melodia suave, meio desafinada mas dolorosamente familiar.

Cantiga de ninar. Aquela que toda criança conhece, mas meio segundo fora do tom, como se alguém tivesse esquecido a letra.

O som nos levou pra uma câmara onde o ar era quente e úmido, fedendo a podridão. Cabos pendurados no teto… só que não eram cabos. Balançavam e se retorciam no ritmo da música. Alguma coisa molhada pingou no ombro do Matthews. Quando ele olhou pra cima, congelou no meio da respiração.

O teto não era metal. Era carne viva. Os cabos eram intestino e língua pendurados, com nervo enrolado em volta.

E tinha dezenas… talvez centenas… de bocas humanas cravadas na superfície. Lábios rachados e tremendo, dentes batendo em perfeita harmonia. Algumas articulavam palavras mudas, outras cantavam em tons quebrados. As línguas se esticavam pra baixo, tateando o ar.

“Jesus Cristo…”, eu sussurrei.

Aí elas começaram a gritar. Todas ao mesmo tempo. O som parecia sucção virada do avesso.

Matthews abriu fogo e sangue – ou sei lá o quê – choveu em cima da gente, chiando no chão. Mas as bocas não paravam. Formavam palavras que não existiam em língua nenhuma.

De repente uma língua desceu chicoteando, enrolou no pescoço do Matthews. Ele arranhou, olhos esbugalhados. Segurei as pernas dele e puxei. A língua se soltou… junto com metade da garganta dele. Morreu na hora nos meus braços.

As bocas começaram a rir.

Coleman jogou uma granada incendiária. Fogo tomou o teto inteiro, carne estourando que nem óleo quente. A cantoria parou e virou grito que foi morrendo no silêncio.

Quando a chama apagou, só sobraram dois de nós.

Chegamos no setor de segurança. A energia reserva piscou por alguns segundos. Naquele clarão, vimos dentro das celas reforçadas: formas que talvez um dia tinham sido gente, ou bicho, ou os dois. Corpos pegos no meio da transformação, congelados em posições que doíam só de olhar.

Foi aí que caiu a ficha: todos aqueles boatos sobre Helixion eram verdade. As aberrações nas celas eram soldados, protótipos que deram errado. Eles tavam tentando construir a própria evolução… e conseguiram.

Achamos a sala dos geradores e armamos as cargas. Coleman mandou eu cobrir a porta.

Quando ele colocou a última carga, ouvi respiração vindo de cima. A coisa começou a falar com várias vozes ao mesmo tempo, tipo rádio trocando de estação sem parar.

Caiu em cima do Coleman com um baque pesado. Essa era diferente – maior, mais completa. As outras pareciam protótipos ou no meio da evolução… essa era o produto final.

O corpo era um remendo perfeito de várias pessoas costuradas. Eu reconheci pedaços… rostos que eu conhecia, olhos que eu conhecia. Não mortos, não vivos… só presentes.

A boca se abriu na vertical, partindo a cabeça no meio, revelando fileira atrás de fileira de dente fino e afiado.

Coleman gritou pra eu correr, mas eu travei, Deus me perdoe, eu travei.

“É ORDEM, MARTINEZ! CORRE! Usa o túnel – código 8593! AGORA VAI!”

Aí a coisa começou a rasgar ele, carne e osso que nem manteiga. Coleman não gritou… foi lutando, enfiando a faca até o corpo amolecer.

Atirei na aberração até o pente acabar. Quando terminou com o Coleman – que agora era só um monte de carne rasgada e sangue – ela olhou pra mim e ficou parada. Aí falou.

Não com palavras, mas a última coisa que eu ouvi antes da explosão foi a criatura imitando perfeitamente a voz do Coleman, implorando pra eu não abandonar ele.

Nem lembro de digitar o código, entrar no túnel ou como cheguei na mata. Só sei que não tava sozinho quando cheguei lá.

Quando as cargas explodiram, a instalação desabou… mas a floresta se mexia de um jeito que não era vento. Da encosta onde eu tava, vi formas rastejando pra fora dos escombros. Dezenas, talvez centenas, se espalhando pela mata.

Tô escondido há três horas. Rádio morto, a mata ficou em silêncio total, como se tudo aqui estivesse prendendo a respiração.

Tô usando o celular pra botar isso no mundo. Já tentei ligar e mandar mensagem, mas o sinal caiu. As criaturas devem ter derrubado as torres, isolando todo mundo aqui do resto do planeta.

Pelo menos a internet ainda pega, então postar isso é minha única chance de avisar vocês. Eu sei que vazar isso vai custar meu emprego, minha carreira, tudo… mas eu não ligo mais. Vou fazer o possível pra continuar atualizando.

Se alguém tá lendo isso: NÃO MANDA RESGATE. NÃO VEM INVESTIGAR. Só espalha esse post pra caralho pra avisar o que tá vindo e prepara tua casa.

Porque eles tão na superfície agora… e evoluíram pra máquinas de matar perfeitas.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Mãe

O quarto respirava aquela quietude cara, cara mesmo, daquele tipo de casa que parece montada por decorador de revista, não vivida. Tudo no lugar, tudo perfeito, tudo gritando dinheiro velho e terapia cara. A mãe estava plantada no meio disso tudo como se fosse a peça que segurava o arco inteiro, ombros pra trás, postura impecável, aquela simetria ensaiada que tinha carregado ela por décadas de crise sem nunca deixar rachar a fachada. O mundo dela dependia de superfície intacta. Ordem era sinônimo de nada sair do lugar. Ela sabia disso sem nunca precisar falar em voz alta.

Eu entrei sem cerimônia, não invadi, cheguei. Cheguei com o peso de algo que já estava atrasado vinte anos. Passos lentos, firmes, cada um dizendo que aquilo não era conversa, não era negociação. Não tinha raiva no meu peito. Tinha era uma neutralidade pesada de quem já pagou o preço da briga dentro da própria cabeça antes de abrir a boca. O ar entre a gente engrossou, encolheu, virou uma coisa viva em volta da gente.

Ela me observou chegando do mesmo jeito que sempre observou tudo que ameaçava o equilíbrio do mundo dela: analítica, olhos farejando mudança de tom, de postura, de intenção. A cabeça dela já procurando automático uma gaveta, uma categoria, uma alavanca pra controlar a situação. Mas não tinha. Não tinha linguagem clínica, não tinha manual, não tinha terapeuta pra botar no meio e absorver o impacto. Só nós dois. Só ela. E a sombra comprida da nossa família esticada no chão entre nossos pés como um fantasma.

Ela nunca vai esquecer o segundo em que eu atravessei a linha que sempre existiu entre a gente. Antes, sempre um abismo. Eu não fui pra cima dela com raiva, nem com súplica. Fui com uma calma que desmontava muito mais. Levantei a mão devagar, dedos abertos, desarmado. O gesto era simples, mas o significado era foda: depois de vinte anos rodando um ao outro em órbitas calculadas, eu finalmente escolhi tocar.

Foi aí que apareceu a primeira rachadura fina na máscara dela. Não era medo, nunca. Era o estalo de perceber que ela não estava mais dirigindo aquela cena. A respiração dela falhou quando a palma da minha mão encontrou a dela. A mão dela era quente, firme, absurdamente estável. O instinto dela era gerenciar o momento, moldar aquilo em algo suportável, mas meu aperto recusou o roteiro com jeitinho, mas recusou total.

Eu puxei ela pra um abraço. Um abraço que foi crescendo aos poucos, cada centímetro de aproximação desfazendo mais um tijolo daquela fortaleza que ela construiu desde o dia em que me entregou pra tentar arrancar a dor do próprio peito. Pra mim, aquilo era a subida: a verdade virando carne. Eu segurei ela como quem segura o peso inteiro do passado, sem esmagar mais, só sem deixar escapar de novo sem ser reconhecido nunca mais.

Pra ela, o abraço era desorientação pura. Sentiu meus braços na cintura dela; não era força, não era castigo, era só constância. E foi essa constância que fodeu com ela. Minha mãe, que dominava todas as formas de controle menos essa: o momento em que o passado resolve aparecer vivo e respirando.

Quando meu abraço apertou mais, devagar, com vontade, não era pra dominar. Era pra impedir que o mundo dela desviasse o olho da verdade. O abraço virou cadinho onde tudo que nunca foi dito virou vapor. Eu joguei toda minha resistência ali, músculos tremendo não de esforço físico, mas de contenção. Não pra machucar ela, mas pra impedir que o estrago que eu carregava dentro de mim transbordasse errado. A densidade emocional daquele toque era insana. Eu não estava segurando só o corpo dela. Estava segurando vinte anos de silêncio.

Pra ela, foi o instante em que ela se dissolveu, não porque eu tirei, mas porque a verdade que ela tinha emparedado finalmente arrebentou a parede. Minha insistência era o solvente. Minha firmeza era o instrumento.

Meu ápice veio quieto. Sem grito. Sem acusação. Só o momento em que o abraço chegou no limite. Quando meu corpo começou a ceder sob o peso psíquico que eu arrastei até ali. Senti o tremor nos braços, o corpo querendo colapsar, e segurei mesmo assim, não deixando o momento virar simbólico ou contido.

Ela sentiu também, o tremor, o esforço. Aquilo bateu nela como revelação. Não era dominação. Não era teatro. Era o filho dela segurando ela como se a única forma de falar a verdade fosse sangrando o próprio corpo até o fim.

Eu passei a lâmina no meu pescoço. E aí ela gritou.

Não era medo. Não era choque. Era o som do controle dela, a língua materna dela, estilhaçando. Explodiu do fundo da alma, cru, sem filtro, a nota exata que ela engoliu por vinte anos toda vez que repetiu pra si mesma “ele vai ficar bem”, toda vez que assinou mais um cheque, toda vez que preferiu acreditar nos profissionais do que no próprio instinto.

Eu aguentei o grito, deixei passar por mim como tempestade. Quando minha força acabou, não foi desabar. Foi conclusão. Afundei, não pra longe dela, contra ela, corpo dobrando enquanto meus braços amoleciam, esgotados de carregar a verdade até onde precisava.

Ela me amparou sem pensar, joelhos cedendo, o suéter de lã merino branca fudido pra sempre. O grito foi morrendo, deixou ela ofegante, tremendo, suspensa nas ruínas da própria certeza. Ela me apertou porque não sobrava mais nada pra fazer. Nenhuma estrutura, nenhum roteiro, nenhum sistema pra consultar. Só consequência.

Eu fiquei lá no chão, não quebrado, não derrotado. Não mesmo. Só vazio. Ela meio ajoelhada, meio de pé em cima de mim, mãos tremendo, respiração curta, olhando o ponto exato onde filho e culpa se encontravam numa cena impossível de negar.

No silêncio que veio depois, nada foi resolvido. Nada foi perdoado. Nada foi consertado.

Mas tudo foi visto, finalmente, sem os filtros que o sistema ensinou ela a usar.

E pela primeira vez em vinte anos, ela não tinha controle nenhum.

Só verdade.

Os olhos da minha senhora não são nada parecidos com o sol…

Eu não tô escrevendo isso porque acho que alguém vai poder me ajudar.

Tô escrevendo porque, se eu não tirar isso da cabeça, vou vacilar — e se eu vacilar, talvez eu fique. E ficar é pior.

As pessoas dizem que o luto faz a gente ver coisa onde não tem. Que ele preenche o vazio com qualquer forma que doa menos. Eu acreditava nisso, naquela época em que acreditar ainda parecia uma escolha. Hoje eu sei que o luto não inventa nada. Ele só arranca as partes de você que dizem “não”.

Eu tinha trinta e quatro anos quando minha esposa morreu. Sou corretor de imóveis — daqueles simpáticos, que lembram nome de cliente, que riem fácil demais, que ouvem o tempo todo que são “gente boa”, como se isso fosse um mérito só por não ser um babaca completo. Antes de tudo isso, eu tinha uma vida normal. Não perfeita. Mas real. Tínhamos uma casa que rangia no inverno e uma cafeteira que só funcionava se você desse um tapa do lado. Brigávamos por cor de tinta, esquecíamos aniversário um do outro e nos beijávamos na cozinha como se o tempo fosse infinito.

O local de trabalho dela pegou fogo numa terça-feira.

Na quinta, a imprensa já chamava de “evento com múltiplas fatalidades”. Na sexta, os restos eram “não identificáveis”. Eu lembro da frase porque quem falou disse com voz mansa, como se isso tornasse mais leve. Como se ainda não significasse que você nunca mais vai ver a pessoa.

Eu nunca vi o corpo dela. Não tinha corpo pra ver. Tinham fragmentos, disseram. Cinza, calor, desabamento. Então assinei papéis que não li e fiz que sim com a cabeça pra gente cujos rostos escorregavam da minha memória assim que paravam de falar. Uma semana depois, alguém me entregou uma caixinha e disse que eu podia levar ela pra casa.

O velório foi de caixão fechado. Claro que foi. Não tinha nada pra abrir.

Naquela noite, coloquei a urna na mesa da cozinha e sentei na frente dela até o sol se pôr. Lembro de pensar, absurdamente, que era mais leve do que eu esperava. Isso me incomodou mais do que qualquer outra coisa. Como se uma prova mínima, baseada em peso, tivesse sumido.

Apaguei no sofá depois da meia-noite.

Ela me acordou falando meu nome.

Não da porta. Não do corredor. Da sala, como sempre fazia quando me pegava cochilando em lugar idiota.

Eu lembro exatamente do que pensei, porque pareceu tão lógico que quase doeu.

Eles erraram.

Erro de identificação acontece. Eu já tinha ouvido falar. Registro dentário incompleto. DNA demora. Incêndio é caos. Em algum hospital que eu ainda não chequei, ela tinha acordado confusa, machucada e sozinha, e agora tinha voltado pra casa porque pra onde mais ela iria?

Ela estava na porta quando levantei a cabeça, vestindo roupa que devia ter ganhado no hospital porque não servia direito.

Sorriu pra mim do jeito que sempre sorria quando queria que eu parasse de fazer pergunta.

“Não quero falar sobre isso”, disse, antes mesmo de eu abrir a boca. “Eu vi muita coisa. Não quero reviver.”

Aquele deveria ter sido o momento.

Em vez disso, pareceu piedade.

O luto deixa a gente grato pelas menores permissões.

Por um tempo — mais tempo do que eu gostaria de admitir — quase funcionou. Ela circulava pela casa do mesmo jeito. Sabia onde ficava tudo. Reclamava da dobradiça frouxa do armário e dava comida pro gato do vizinho quando eles esqueciam. Dormia encolhida em mim, quente e respirando, como uma pessoa que nunca tinha sido queimada pra fora do mundo.

Eu não contei pra ninguém. Dizia pra mim mesmo que era cautela. Que precisava de tempo antes de corrigir o erro oficialmente. Ia ter papelada. Pedidos de desculpa. Investigações. Imaginava notícias sendo atualizadas discretamente, o nome da minha esposa retirado das listas de mortos.

Mas toda vez que eu tentava imaginar a explicação, algo travava na minha cabeça. A explicação engasgava. As palavras se desfaziam.

Então eu esperei.

Ela nunca falava do incêndio. Se eu chegava perto demais sem querer, ela virava o rosto, ou encostava a cara no meu peito, ou dizia que ainda não aguentava. Eu me convencia que trauma fazia isso. Pesquisei sintomas. Dissociação. Mutismo seletivo. Culpa de sobrevivente. Tudo encaixava se você forçasse o suficiente.

No começo eu nem notei os olhos.

Ou notei e escolhi não processar. Isso é mais difícil de explicar, mas é mais verdadeiro.

Foi durante o sexo. Acho que isso importa. Não foi uma descoberta carregada de romantismo. Não foi ela sorrindo no escuro nem parada errada na frente do espelho. Foi cru, perto, humano. Suor, respiração, o som que ela fazia quando eu fazia aquela coisa que ela gostava.

O rosto dela estava a centímetros do meu. Me inclinei pra beijar e os olhos dela se abriram.

Pupila e córnea eram pretos.

Não dilatados. Não sombreados. Pretos, como se alguém tivesse preenchido com caneta. O resto do olho era normal — branco onde tinha que ser branco, veias fininhas e rosadas. Mas o centro engolia luz de um jeito que não fazia sentido.

Eu travei.

Ela percebeu na hora. Claro que percebeu. Minha esposa sempre percebia quando eu ficava assim, parado.

“Ei”, sussurrou, tocando meu rosto. “Tá tudo bem?”

Eu disse pra mim mesmo que era a luz. Que meu cérebro tava dando pane de tanto estresse, luto, alívio absurdo de tê-la de volta. Quando pisquei, quando me afastei só o bastante pra respirar, ainda estavam lá.

Pretos.

Nunca voltaram ao normal.

Eu não falei nada.

Essa é a parte que eu não consigo me perdoar — não completamente. Eu sabia que algo estava errado. Uma parte de mim soube na hora, com a clareza de um sino batendo. Não que ela tinha sobrevivido. Não que tinham errado. Algo mais frio.

E mesmo assim eu escolhi.

Depois disso, os olhos dela eram sempre assim quando eu olhava de perto. De manhã, à tarde, refletidos em janelas e na TV. Às vezes eu quase conseguia esquecer se ficasse no ângulo certo, se não focasse. Mas se ela me pegasse encarando, a ilusão quebrava de novo.

Uma vez ela perguntou por que eu olhava pra ela “daquele jeito”.

“Que jeito?”, perguntei, já sabendo.

“Como se estivesse vendo um fantasma.”

Eu ri. Até fiz piada. Alguma besteira sobre falta de sono.

Ela me olhou por um tempo longo antes de se inclinar pra beijar minha bochecha. Os lábios estavam quentes. A pele cheirava como ela.

No trabalho, o pessoal dizia que eu parecia melhor. Menos oco. Diziam que era bom eu estar “seguindo em frente”.

Ninguém mais via os olhos.

Eu testei, primeiro de leve. Convidei gente pra vir em casa. Observei reflexos. Fiquei atrás de amigos enquanto ela conversava com eles, procurando confusão, medo, qualquer coisa nos rostos deles. Nada. Pra todo mundo, ela era exatamente o que parecia ser.

Quando ela me contou que estava grávida, eu chorei tão forte que assustei nós dois.

O bebê parecia prova. Não exatamente da humanidade dela — mas de continuidade. De um futuro que não tinha sido totalmente queimado. Eu me convencia que nenhum monstro se daria ao trabalho com algo tão pequeno, tão frágil. Que nenhuma mentira se deixaria crescer daquele jeito.

A gravidez foi normal. Consultas, vitaminas, vontades. Ela ficou mais doce naqueles meses, mais suave, como se soubesse que estava sendo observada mesmo quando eu tentava não olhar.

Comecei a beber mais. Fumar também. Só o suficiente pra tirar a ponta, pra amaciar o quanto eu percebia as coisas. Não fazia os olhos sumirem, mas desacelerava o jeito como meus pensamentos se encaixavam. Me deixava existir no meio-termo.

Eu dizia pra mim mesmo que fazia isso por ela. Pelo bebê.

Nosso filho nasceu quieto.

Saudável, disseram os médicos. Peso bom. Coração forte. Olhos normais. Não chorava muito. Na verdade, quase não fazia nada. Só olhava.

Só chorava quando ela demorava demais pra voltar.

Ela era uma boa mãe. Talvez essa seja a parte mais cruel. Paciente, atenciosa, delicada. Segurava ele como se ele importasse. Se tinha algo errado no jeito que ela o amava, era sutil demais pra eu separar do meu próprio medo.

Eu achava que dava pra viver assim. Achava mesmo.

Achava que saber, em silêncio, era suficiente. Que enquanto eu não dissesse em voz alta — você não é minha esposa — o mundo não ia desabar com a confissão.

Mas só dá pra olhar pros olhos de alguém e sentir algo recuando dentro de você um número limitado de vezes.

Perto do fim — acho que isso aqui é o fim, né? — comecei a observá-la quando ela achava que eu não estava vendo. Parado nas portas. Parando no meio da escada. Me convencendo que era só cuidado, como um homem protegendo a família.

Uma noite eu não consegui dormir. O baby monitor zumbia baixinho na mesinha de cabeceira. Ela tinha se levantado mais cedo, ido pro quartinho.

Eu fui atrás.

A porta estava entreaberta. Não sei o que eu esperava. Acho que uma parte de mim ainda torcia pra não ver nada. Pra eu ter estado errado de um jeito que doesse, mas que desse pra sobreviver.

Ela estava de costas pra mim, em pé ao lado do berço.

Os braços estavam longos demais.

Não de um jeito dramático. Não uma transformação grotesca repentina. Simplesmente errados — esticados além da proporção, dobrando em ângulos que sugeriam juntas que eu nunca tinha visto antes. As pernas eram iguais, alongadas e finas, a postura levemente curvada pra dentro, como um marionete cujas cordas tinham afrouxado.

Ela balançava.

O bebê não chorava.

Eu não respirava.

Por um momento — só um momento humano e idiota — achei que ela parecia cansada.

Aí ela virou a cabeça, e mesmo sem ver o rosto dela, eu soube que se ela me olhasse, algo dentro de mim ia se quebrar de vez, sem conserto.

Recuei. Devagar. Com cuidado. Como quem sai de uma cena de crime que ainda não quer nomear.

Foi aí que admiti pra mim mesmo, de verdade, sem escapatória nem linguagem suavizada.

Eu tinha sabido o tempo todo.

Só tinha amado mais a mentira do que a verdade.

Arrumei uma mala antes do sol nascer. Pouca coisa. Só o suficiente pra parecer decisão. Ela não acordou. O bebê continuou dormindo.

Fiquei na porta mais tempo do que deveria. Tempo suficiente pra gravar na memória o formato do quarto como ele estava. Tempo suficiente pra imaginar, idiotamente, que eu podia congelar tudo ali.

Não disse pra ela o que eu ia fazer. Não sei se ela teria me impedido.

Não sei se ela teria se importado.

Agora tô aqui no carro, digitando isso com as mãos tremendo, tentando ter coragem de terminar o que comecei. Não tenho respostas. Não sei o que ela é, o que ela quer, nem no que nosso filho vai se transformar.

Só sei que não aguento mais carregar isso.

Se você tá lendo isso e acha que reconhece a situação — se o luto um dia te devolver algo que parece quase certo — por favor, olha pros olhos. E se eles não forem o que deveriam ser, não faça o que eu fiz.

Não fique.

Tô tão cansado.

Desculpa.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon