A casa era um rancho de dois níveis. O gramado da frente estava razoavelmente bem cuidado. A grama cortada, as árvores aparadas. Uma tinta branca meio fresca cobria a fachada. Pra uma casa abandonada, estava até que bonita. O maior problema parecia ser o telhado — um grande plástico preto cobria metade dele. Telhas novas talvez tivessem sido um passo longe demais pra associação de moradores da vizinhança.
Eu olhei pro meu parceiro. “Ei, parece que a associação tá cuidando bem desse lugar. Ainda assim, vai custar mais pra consertar do que vale.”
Ele me deu aquele sorriso de corretor de imóveis. “Honestamente, tá até que bonito. Mas tô meio preocupado com o interior. Não tem como a associação ter feito mais do que o mínimo pra manter os preços das casas altos.”
Quanto mais chegávamos perto, mais ficava óbvio que a tinta era só uma obrigação. Tava bolhando e rachando sobre camadas antigas não lixadas. “Bom, a terra já vale metade do preço mesmo.”
Jeff espiou pela janela ao lado da porta. Sorriu. “Ei, isso aqui tá até que bom também!”
Eu enfiei a chave na fechadura e tentei puxar a porta. Nada. “Acho que pintaram a porta fechada.”
O sorriso do Jeff vacilou por um segundo. Ele remexeu nos bolsos. “É, faz sentido.” Tirou uma faca de utilidade e cortou ao redor do batente.
Segurou a maçaneta e puxou com toda força. A porta abriu com um suspiro de ar, como se tivesse quebrado um selo a vácuo. Jeff deu o primeiro passo pra dentro, fazendo careta com o ar parado que entrou pelo nariz. O tapete felpudo velho rangia sob seus pés. Eu fui logo atrás, tampando o nariz ao cruzar o batente.
Parecia que a gente tinha entrado em outro mundo. O ar livre, a poucos metros de distância, parecia impossivelmente longe. Mas, como o Jeff disse, o interior tava até que bom. Tudo perfeitamente preservado, exceto por uma camada de poeira e teias de aranha — como se a gente tivesse entrado numa versão mumificada dos anos 2000. Com toda a mobília deixada pra trás, dava pra quase imaginar alguém vivendo ali.
Fui eu quem quebrou o silêncio: “Bom, quem morava aqui saiu correndo.”
O Jeff tava com uma energia nervosa, mas falou calmo: “Olha, eu devia ter te contado isso antes, e não sei muito sobre isso, mas alguém morreu aqui. E os donos depois disso juraram que a casa era assombrada.”
“Tá falando sério? Você devia me contar isso quando descobrisse. Quanto tempo faz que morreu?”
Ele não encarou meus olhos por um segundo, mas ganhou confiança ao falar: “Há 28 anos. O que significa que a gente tá limpo — a menos que os compradores perguntem!”
Virei as costas pra ele e entrei na sala de estar. “Certo,” respondi, “isso é mais um ponto pra derrubar a casa.” Agachei e peguei uma fita VHS do chão. “Vamos chamar uns carregadores pra limpar essa bagunça. Aposto que tem alguém lá fora que quer isso.”
A TV gigante atrás de mim ligou sozinha, com um ruído estático alto e irritante enchendo a sala escura.
Girei a cabeça pra olhar pro Jeff de novo. “Espera, alguém tá pagando pra manter essa casa ligada?”
O Jeff tava tão confuso quanto eu. “Não... que eu saiba?”
Minha cabeça começou a ficar estranha, como se o ruído estático tivesse mexendo com ela. Sem pensar, enfiei a fita no player.
O ruído sumiu, substituído por um chiado agudo enquanto a fita começava a rodar. A cena mostrava dois adolescentes no quintal de uma casa de rancho verde. O garoto de cabelo castanho falou, com voz animada e chiando pelo sistema de som antigo: “Ei, MTV, eu e meu parceiro Ed estamos aqui pro Concurso de Melhores Acrobacias em Casa da MTV!” O loiro, provavelmente o Ed, continuou: “Vamos fazer algo totalmente insano...” Ele mexeu a câmera pra cima, mostrando o telhado da casa, e continuou: “...e vamos jogar um carrinho de compras do telhado, direto na piscina!” Ele imitou um mergulho, depois virou a câmera pra uma piscina vazia.
Eu virei pro Jeff enquanto os dois garotos explicavam as regras do concurso: “O que diabos é isso?”
A cara dele ainda tava com aquela expressão confusa. “Não sei, alguma inscrição pro concurso da MTV... a TV tá mesmo ligada?”
Na TV, o loiro, Ed, reposicionou a câmera enquanto o castanho puxava um carrinho de compras por uma escada até o telhado. Ed tava no fundo da piscina, olhando pra cima. “E aí, Alex, como a gente vai entrar no carrinho?” Alex pareceu encarar isso como um desafio. “Assim!” Ele pulou dentro da cesta. O movimento sacudiu o carrinho, que começou a descer rápido pelo telhado. Enquanto descia, arrancou várias telhas. Ao bater na beirada, voou e esmagou o garoto loiro embaixo.
“OH merda,” a boca do Jeff tava aberta.
Um jorro de líquido vermelho se espalhou no azulejo. Alex se levantou trêmulo, depois olhou pra baixo, pro Ed. “Ei, cara, tá bem?” Sem verificar mais, ele foi até a câmera e deu um crotch chop. Com voz trêmula, disse: “Oh, cara, o Ed acabou de cair feio, vamos tentar de novo! Só me deixa pegar...” Os olhos dele viraram pra trás e ele caiu de costas na piscina com um estalo nojento.
Eu recuei da tela. “Puta merda! É isso que você queria dizer? Meu Deus, por que ainda tem essa fita aqui? A gente precisa ir pra polícia ou algo assim!”
A cara do Jeff tava suada, mas imóvel. Os olhos dele não saíram da TV, mas a boca abriu mais: “Nancy, preciso que você se afaste, por favor...”
Corri o mais rápido que pude pro outro lado da sala, onde o Jeff tava, antes de olhar pra trás. A tela da TV tava se distorcendo e se movendo — o ruído estático que tava na tela agora enchia o ar com estática colorida como arco-íris. Uma mão saiu da tela, como se emergisse da água. Depois uma segunda, e mais duas.
Eu não fiquei pra ver o que saía da TV. Corri pra porta e fiquei tentando abrir a maçaneta. Não importava o que eu fizesse, ela não abria. “Ei, Jeff, vem logo aqui!” Nós batemos com o corpo na porta, mas ela não se mexeu — estávamos presos.
A cara normalmente impecável do Jeff tava uma máscara de medo. “Certo, certo, a porta não tá funcionando, a janela — vamos tentar a janela!” Viramos, mas na sala de estar, agora tinham duas figuras flutuando preguiçosamente acima do chão — os garotos da fita.
O de cabelo castanho, Alex, caiu no chão e deu um passo na nossa direção. “Ei, galera, gostaram do nosso vídeo? Tá totalmente foda, né?” O corpo granulado dele tremeu ao dar mais um passo, como se tivesse assumido as características da fita. “Olha, eu sei que a gente acabou de se conhecer, mas a gente precisa de um pequeno favor — aí a gente deixa vocês ir embora!” O outro garoto flutuou até perto. “É, a gente só precisa que vocês façam uma coisa por nós, aí podem ir pra casa.”
O Jeff tava mudo, a cara dele como um bloco de gelo.
Eu gaguejei: “Vocês... vocês querem que a gente destrua a fita? É isso que tá prendendo vocês aqui?”
Os garotos ficaram horrorizados. A cara do Alex se transformou em algo horrível por um segundo, antes de ele gritar: “QUE PORRA, NÃO TEM CHANCE!” O Ed recuou, cintilando levemente ao se mover. “N-não, a gente só quer que vocês mandem pra MTV.”
Fiquei chocado. Olhei pro Jeff em busca de apoio, mas ele tava afundado no tapete empoeirado. Acho que eu tava sozinho. Gaguejei: “Acho que eles não fazem mais isso... provavelmente vão jogar a fita no lixo...”
Os dois garotos ficaram devastados. O espaço ao redor do Alex começou a se distorcer e brilhar, como se tivesse colocado um imã na tela da TV. A cara dele se alongou, os membros se esticaram. A palidez doentia da pele dele piorou, a boca cresceu e se abriu e fechou, com dentes irregulares brotando das gengivas. O corpo dele rachou e se torceu enquanto virava algo horrível. Os braços com três articulações rastejavam pelo chão enquanto ele se arrastava até mim. Abriu a boca pra falar e um jorro de baba vermelha escorreu entre os dentes. Ele gritou: “NÓS VAMOS PRA TV, VOCÊS NÃO VÃO NOS PARAR!”
O Ed parecia aterrorizado. Recuou pra trás de uma cadeira, espiando a cena horrível na nossa frente. O braço monstruoso do Alex me jogou contra o papel de parede descascado, esmagando meu ombro. A boca encheu de vômito e senti minhas entranhas se contorcendo de medo.
Do chão, o Jeff estendeu a mão fracamente, tentando agarrar a perna do Alex — mas não conseguiu tocar.
A bile saiu da minha boca e a visão começou a escurecer. Do outro lado da sala, eu ouvi o Ed gritando: “Por favor, para, Alex, não faz isso de novo!”
Com o pouco de energia que me restava, consegui soltar: “Espera... eu tenho um jeito de consertar isso!”
Num instante, a pressão sumiu. O Alex tava em pé na minha frente, parecendo totalmente normal. Bem, tanto quanto um fantasma pode. A mão dele tava no quadril, e ele perguntou impaciente: “Bom?”
Caí no chão e cuspi o que restava do meu café da manhã. Cuspi as palavras também: “A internet... é tipo um canal de TV gigante. Todo mundo vai poder ver o vídeo de vocês.”
O Alex sorriu — um sorriso largo e antinatural. “Ah, isso é foda, vamos fazer isso!”
O Ed flutuou de volta. “Como a gente faz isso?”
Eu olhei pro Alex. “A gente só precisa pegar a fita e botar no computador, tá? Eu não vou tocar na VHS — vocês podem carregar ou o que for. A gente só precisa de algo que consiga digitalizar... ou eu posso gravar com o celular?”
O Jeff gemeu do chão e se encolheu em bola. Os três ignoramos ele. Os olhos amarelados e fundos do Ed brilharam. “Ei, espera, acho que os novos moradores tinham algo assim no escritório lá em cima! Dava pra botar fitas VHS no computador, e acho que tinham internet também!”
“Talvez seja mais fácil se a gente usar meu cel...” eu comecei.
O Alex me cortou. “Vamos fazer a ideia do Ed.” Ele flutuou até a TV — o vídeo ainda tava rodando, só uma imagem parada dos corpos dos dois garotos na piscina. A fita materializou nas mãos dele. “Talvez a gente consiga cortar a parte em que a gente tá deitado na piscina. Tá bem chato.”
Os três subimos as escadas rangentes até o escritório, meu braço doendo a cada degrau. O Alex me guiou até o cômodo enquanto o Ed vinha atrás. Arrisquei uma olhada pra trás — o Jeff parecia estar saindo do colapso.
Como o resto da casa, o escritório tava impecável. Notei a falta surpreendente de danos por água — deve ter sido uma parte do telhado que não tava sob o plástico.
O computador era antigo, provavelmente de 20 anos atrás. Olhei pro Ed. “Você acha que funciona? Tá bem velho.”
Ed respondeu: “Não sei, cara. A TV funciona.”
Meu ombro doeu enquanto eu navegava no desktop retrô desconhecido. Ignorei a dor, cliquei nas vinte ou mais mensagens de erro que apareceram. Não queria deixar o Alex nervoso, mas não tinha certeza se a fita ia sobreviver à conversão. Cliquei em “importar”.
Ele já tava ficando inquieto. O ruído estático de fundo, geralmente imperceptível, tava mais alto. Abri rapidamente o Internet Explorer e fui recebido por um homem careca ao lado de uma barra de pesquisa. Digitei “YouTube” rapidamente. Cinco minutos até o upload terminar.
“Certo, porra, essa velocidade de upload é incrível.”
O Ed abraçou o Alex, jogando os dois no ar. “CONSEGUIMOS!”
O Alex combinou a empolgação do amigo, gritando pro ar: “CARALHO, SIM!”
A atmosfera da sala ficou turva, o ar parecia pesado.
Um barulho repentino veio do corredor. O Jeff subiu lentamente até o batente da porta. Tava encharcado de suor, parecendo extremamente nervoso, mas agora um pouco funcional. “Uhhh... ei, Nance... você tá bem?”
A energia do Alex ficou escura. Ele lançou os olhos pra porta, toda a emoção focada no Jeff. “Você não vai vender essa casa, entendeu, né?”
Ele recuou um pouco da porta. “É... eu sei.”
— UPLOAD FINALIZADO —
Virei pra eles. “Certo, garotos, parece que a gente terminou. Podem nos soltar agora...”
Os dois garotos tava cintilando rapidamente. A expressão do Alex mudou de empolgação pra raiva. “O QUE VOCÊ FEZ!?”
Eu me afastei na cadeira, mas o braço dele se estendeu pelo ar, rachando, se distorcendo e crescendo. A mão monstruosa agarrou minha garganta, apertando minha traqueia.
Mal conseguindo respirar, eu arranhei a mão enorme, tentando respirar.
E então, sem aviso, eles sumiram — implodiram num único piscar de luz.
“Que porra foi essa?”
Olhei de volta pro computador.
— VÍDEO REMOVIDO — CONTEÚDO VIOLENTO OU GRÁFICO —
A energia apagou de repente.
O Jeff correu pela sala. “OH MEU DEUS, Nance, você tá bem?”
Eu murmurei: “A gente vai derrubar essa casa.”

