quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Encontrei um gato preto lindo. Eu não devia ter dado o nome de Rasputin…

Minha mãe morreu há pouco mais de seis meses. Eu morava com ela, mas ela vinha lutando contra um diagnóstico de câncer havia alguns anos. Infelizmente, a metástase foi inevitável, e ela morreu depois de um sofrimento prolongado. O funeral foi bonito. Amigos da minha mãe vieram de várias partes do país para se despedir pela última vez.

Quando acabou, voltei para casa — um apartamento no décimo andar que eu alugava com ela, mas que ela nunca usou de fato, já que passou os últimos meses no hospital. Ao entrar, havia um silêncio sepulcral; sobre a mesa de jantar, um vaso com algumas flores que eu havia comprado meses antes, quando os médicos disseram que ela estava melhorando e que voltaria para casa a qualquer dia.

Deixei a pasta em cima da mesa e caminhei tateando até o quarto no escuro. Não queria acender as luzes porque o cansaço estava destruindo minhas pernas. Senti um vazio horrível no peito, como se eu tivesse chorado por meses inteiros — e, na verdade, chorei. Embora, depois de ver tanto sofrimento nela, no fundo do coração eu desejasse que ela finalmente encontrasse descanso.

Os dias seguintes foram iguais aos de sempre. Eu acordava, tomava um café rápido e corria para o metrô para ir trabalhar. Meu escritório ficava no canto mais afastado do prédio, bem ao lado dos servidores da empresa. Quase ninguém me cumprimentava; havia dias em que eu nem aparecia e ninguém percebia minha ausência. Mas eu gostava de ir ao escritório. Não queria ficar em casa. Todo dia em casa parecia que a mamãe ia entrar pela porta a qualquer momento.

As únicas vezes que eu falava com alguém no trabalho eram quando havia problema nos servidores. Nessas ocasiões, Mark, do financeiro, ou Jane, do RH, apareciam com uma simpatia exagerada para que eu resolvesse o problema deles. Chegou um ponto em que eu passei tanto tempo sem falar com ninguém que cheguei a criar de propósito uma falha na conta de um usuário, só para ter com quem conversar.

E assim os dias foram passando sem eu falar com ninguém, a ponto de eu nem me olhar mais no espelho antes de sair de casa. Até que, num dia qualquer voltando para casa, descobri que o elevador do prédio tinha quebrado. Havia um cartaz branco com detalhes azuis avisando os moradores para usarem as escadas enquanto resolviam o problema técnico. Eram muitos andares; agradeci por não ter ido ao mercado naquele dia, porque teria sido um sofrimento.

Comecei a subir. Minhas pernas doíam enquanto eu subia as escadas vazias quase às 23h. De repente, quando eu estava chegando ao sétimo andar, ouvi um choro. Parecia de bebê. No começo ignorei, mas o som ficou mais claro e mais alto — era um miado. Mas não era um miado qualquer; era um filhote de gato chorando desesperado.

Abri a porta que separa a escada do corredor e vi as várias portas se estendendo até o final, tentando identificar de onde vinha o som. Vi uma poça do que parecia ser água no fundo do corredor. Caminhei devagar, observando as luzes com sensor de movimento acendendo uma a uma. Quando faltavam poucos passos, a luz acendeu e a imagem ficou nítida: a poça era de sangue, e o miado vinha daquela porta. Me aproximei e tentei abrir, mas não consegui.

Corri imediatamente escada abaixo até a portaria e avisei o único segurança de plantão. Subimos juntos e, depois de ele conseguir autorização do chefe, usou uma chave mestra de segurança. A cena era horrível. Havia uma mulher com a perna mutilada caída numa poça de sangue. E em cima da mulher, um filhotinho de gato preto, de poucos meses, miando desesperado.

A pobre criatura veio na minha direção e começou a ronronar enquanto se esfregava nas minhas canelas. Me abaixei para pegá-lo, e ele me olhou com uma ternura que derreteu meu coração. Segurei-o junto ao peito, e ele se esfregou no meu pescoço, alternando ronrons e miados que pareciam de prazer.

A polícia chegou depois de umas duas horas. Levei o gato para o meu apartamento; uma criaturinha tão linda não tinha que ficar num lugar tão horrível. Um policial grandalhão bateu na minha porta por volta das 3 da manhã. Contei tudo o que tinha acontecido, e ele perguntou se eu conhecia a mulher. Neguei qualquer relação; eu nem sabia o nome dela.

O policial perguntou sobre o gato. Expliquei que parecia ser da mulher assassinada, mas que eu não queria deixá-lo lá por causa da cena traumática. Ele disse que ia consultar a equipe para ver se levavam o gato ou se eu podia ficar com ele. Naquele momento, o gato se arrepiou todo para o policial e fez aquela cara de raiva típica de gato, com o “ssssss” característico.

Tentei dormir, mas o gato se enfiou bem em cima do meu rosto, dificultando a respiração. Mas o bichinho era tão lindo que eu simplesmente não conseguia ficar bravo com ele. De manhã cedo, fui trabalhar. Tentei dar água para ele, porque eu não tinha comida em casa para oferecer ao filhote.

O dia no escritório foi longo como qualquer outro, mas eu estava particularmente sem tarefas, então decidi deixar um bilhete na mesa com meu número de telefone — “Me liga se precisar de algo urgente” —, peguei minhas coisas e saí. Bem em frente ao meu escritório ficava uma pet shop. Ao entrar, um senhor mais velho, de cabelo grisalho e bigode, me recebeu com muita animação.

“Em que posso ajudar?”

“Obrigado. Olha, o negócio é o seguinte: tenho um filhote de gato, de poucos meses, lá em casa por enquanto. Queria saber qual é a coisa mais importante que eu devo ter enquanto estiver com ele.”

“Claro”, ele disse com um sorriso largo. “O essencial e mais importante são três coisas: uma caminha, uma caixa de areia e, claro, comida.”

Olhei os produtos e tentei comprar uma caminha que combinasse com a cor do meu sofá — afinal, não queria que ficasse destoando. Comprei também a caixa de areia, um saco de areia sem perfume, um saco de ração para filhote, além de potes para água e comida. Comprei ainda um brinquedinho de ratinho; não queria que o filhote destruísse coisas da casa, mas também não queria que ele ficasse entediado.

Como vim com muitas sacolas, decidi pegar um táxi e comecei a pensar em tudo que ainda faltava: um arranhador, uma caixa de transporte. Também faltava algo extremamente importante: uma coleira com plaquinha para ele não se perder, e, claro, um nome. Como eu ia chamar ele?

Normalmente eu ficaria calado a viagem inteira, mas o motorista, vendo eu tão carregado, falou:

“Então, bichinho novo? Gato, né?”

“Sim, senhor. É um filhote que eu encontrei…” — não conseguia descrever a cena sem estremecer — “Bom, encontrei na rua.”

“Gatos são assim. Eles é que adotam a gente. Qual o nome dele?”

“Honestamente, ainda não pensei.”

“Você podia chamar ele de Rasputin. É um nome que minha avó sempre usava pros gatos dela. Geralmente pros pretos.”

Conversamos mais um pouco e chegamos rápido no prédio. Na hora de me despedir, agradeci pela conversa e comentei que realmente ia chamar o filhote de Rasputin. Quando entrei no prédio, era o mesmo segurança que tinha me acompanhado no dia da cena horrível.

“Ei, já soube de alguma coisa do caso? Já sabem quem foi?”

“Pelo que ouvi, ainda nada. A polícia veio várias vezes e levou evidências, mas parece que ainda não tem suspeito.”

Peguei o elevador, agradecendo que estava funcionando de novo porque eu estava carregado. Ao chegar no meu andar, já dava para ouvir o miado do corredor. Aquele som encheu meu peito de calor. Alguém estava me esperando em casa. Abri a porta do apartamento e o gato se jogou em cima de mim. Ele ronronava loucamente, e eu larguei as coisas para abraçá-lo. Senti uma felicidade intoxicante.

“Rasputin”, eu disse, e ele imediatamente me olhou como se reconhecesse um velho amigo, mas logo voltou à expressão de gato doce de sempre. “Olha o que eu trouxe pra você”, e mostrei todas as coisas.

“Você deve estar morrendo de fome, então vou te servir comida.”

Arrumei as coisas e coloquei um pouco da ração que o homem da pet shop tinha me recomendado. Coloquei a comida na mesa de jantar porque não tinha outro lugar adequado. Ele se aproximou curioso, mas apenas cheirou com indiferença. Acho que você não está com tanta fome assim, tentei convencer ele a comer, mas ele só ficou irritado e saiu correndo. Erro meu, comprei a ração errada. Seria bom saber o que a antiga dona dava pra ele.

Comi um sanduíche e fui dormir, chamando Rasputin para vir comigo, mas ele nem olhou pra mim. Ficou lá fora, olhando pela janela com indiferença. Parecia um soco no peito, mas tentei dormir. A essa hora eu não ia encontrar a ração certa mesmo.

Ao acordar, Rasputin estava bem ao meu lado, dormindo encolhido. Tentei levantar sem acordá-lo; ia procurar comida. Antes de sair, senti um cheiro horrível, de carne podre, e percebi que não tinha limpado a caixa de areia. Peguei um saco na cozinha e fui até lá. Tinha um monte de quase meio quilo, coberto de areia. Isso é demais pra um gato tão pequeno. Embrulhei tudo no saco e levei pro lixo do corredor.

Andei vários quarteirões procurando ração para filhote. Tem marca demais. Comprei seis pacotinhos pequenos — dois das mais caras, dois intermediárias e dois baratas. Comprei também várias latas, umas quatro. Queria fazer um teste em grande escala; alguma delas tinha que agradar. Voltei rápido pra casa e coloquei a comida em copinhos plásticos que eu tinha comprado pra isso.

Coloquei quase dez comidas diferentes na frente do meu gato e deixei ele lá pra ver qual ele ia escolher. Ele tinha que comer alguma coisa; fazia quase dois dias sem comida, ia adoecer. Rasputin se aproximou e cheirou cada um dos potes, mas ignorou todos. Nem experimentou. Foi pra minha cama, se encolheu e deitou. Nenhuma comida interessou. Meu desespero era total. Não sei o que dar pra ele. Tem que ter alguma coisa que ele goste.

Decidi ir no açougue atrás de algo diferente. Comprei pedaços de carne de todos os animais que encontrei: porco, frango, boi, coelho, peixe, até um pedaço de cervo que o açougueiro me ofereceu quando viu que eu estava comprando coisas diferentes. Cheguei em casa e fiz a mesma rotina. Ofereci todas as comidas, mas nada funcionou.

“Eu desisto”, eu disse. A fome vai fazer ele comer. Terminei minhas tarefas do dia e segui a rotina, mas o filhote miava intensamente.

“O que você quer? Você não gosta de nada que eu te dou. Não sei o que te dar.”

O gato subiu nas minhas pernas e começou a morder minha perna de leve.

“Você quer me comer? Haha, é isso que você quer?” Coloquei ele no chão, e ele se afastou.

No dia seguinte, arrumei de novo as amostras de comida, tentando manter tudo fresco. Minha sala de jantar virou uma vitrine de comida. Tinha quase vinte copos com comidas diferentes pra ver se alguma funcionava. Até coloquei cenoura e legumes, pra ver se o bichinho respondia a alguma coisa.

Fui trabalhar, e ao voltar, ele ainda não tinha tocado em nada e estava miando cada vez mais desesperado. Eu já tinha tentado dar quase toda comida possível, até perguntei pro dono da pet shop, que recomendou levar no veterinário porque podia ser alguma doença.

“Se você não comer nada hoje, Rasputin, vamos ter que ir no veterinário.”

O gato se arrepiou de raiva, igualzinho como fez com o policial, e me deu aquela cara de “ssssss” de gato bravo.

“Que gênio.”

Comecei a picar legumes pro meu jantar, mas exatamente quando eu estava cortando a cebola, o filhote correu na minha direção e me cutucou. Foi bem de leve, mas suficiente pra faca escorregar um pouco e cortar minha mão. Na hora fiquei irritado porque os legumes estavam ficando manchados de sangue, então tentei lavar tudo imediatamente, mas o gato pulou na mesa da cozinha, se aproximou e lambeu meu dedo. Que fofo, ele está preocupado comigo, pensei, e fiz carinho nele. O gato voltou a ronronar, e eu senti de novo a felicidade que tinha me invadido no primeiro dia.

“Bom, pelo menos você está comendo alguma coisa, haha.”

Quando cheguei no quarto, desinfetei o corte com álcool porque, afinal, era um gato, e o ferimento podia infeccionar. Dormimos agarradinhos, e eu senti companhia, calor e felicidade.

No dia seguinte, fiquei pensando no que tinha acontecido e pensei que talvez o que o filhote queria era presa fresca. Entendo que alguns são caçadores e preferem só comida fresca. Uma ideia meio absurda, mas possível, me ocorreu: eu podia trazer um ratinho vivo pro filhote comer, um hamster, ou até um passarinho pequeno.

Decidi fazer isso. Fui numa pet shop e comprei um ratinho pequeno. Queria que fosse o menor possível. Coloquei numa caixa onde eu não pudesse ver; não queria me apegar. Era só comida pro Rasputin.

Quando cheguei em casa, mostrei o animal pra ele. O gato cheirou e depois se afastou com indiferença. Fechei a caixa e tentei pensar em como chamar a atenção do Rasputin. Tentei colocar perto dele. Tentei fechar nós dois num cômodo e fazer o rato correr, mas nada funcionou. Então, quase às quatro da tarde, no meio do desespero de não saber como responder à fome dele, peguei o rato e, com um golpe só, cortei a cabeça dele.

A experiência foi arrepiante, mas de algum jeito libertadora. Peguei o sangue e coloquei num prato. Ofereci pro Rasputin. Ele se aproximou, cheirou um pouco, deu umas lambidas e se afastou. Bom, é alguma coisa, pensei. Lembrei que não tinha terminado minhas tarefas do dia e corri pra concluir o máximo que dava antes do prazo. Enviou e fiquei pensando em como responder à fome do Rasputin.

As coisas não pareciam melhorar. Meu pobre animal estava só osso e pele, e era tudo culpa minha. Sou um inútil; nem um bicho de estimação eu consigo cuidar. Estava na cozinha de novo, tentando preparar algo pra comer, e lembrei da cena com a faca, o rato e o sangue. Pensei olhando pra lâmina. Coloquei meu dedo indicador bem na ponta e, quase sem pensar, dei uma estocada. No começo o dedo parecia intacto, mas logo uma gota vermelha começou a crescer. Procurei o prato do Rasputin e deixei cair umas sete gotas de sangue nele.

Naquele instante, Rasputin pulou no prato e lambeu como se fosse uma iguaria, depois procurou meu dedo e lambeu também. O gato ronronou, se esfregou nas minhas pernas e subiu em mim. Era um animal feliz de novo. Eu também me senti feliz, e a dor no dedo sumiu por causa do amor imenso que eu estava recebendo do lindo Rasputin.

Nos dias seguintes, fui numa farmácia e perguntei ao atendente qual era a melhor forma de extrair pequenas quantidades de sangue. Perguntei também quanto sangue eu podia tirar sem me prejudicar. Ele me deu uma seringa e algumas instruções. Disse que pra teste de glicose só precisava de uma gota, e que eu tinha que ter muito cuidado pra desinfetar tudo.

Cheguei em casa feliz. Sentei no sofá, tirei todos os instrumentos, tirei uma seringa cheia de sangue e servi no prato. Naquele momento, Rasputin começou a lamber o prato com uma felicidade incrível. Tentei tocar nele, mas ele reagiu com raiva. Entendo, entendo, que gênio. Depois de beber o sangue, ronronou um pouco e se esfregou em mim, mas depois se afastou.

Esse ato foi virando rotina aos poucos. Eu tirava um pouco de sangue, dava pra ele, ele comia, e eu seguia meu dia. Tive que investir em suplementos e mais comida porque eu estava perdendo energia. Tinha dias que eu ficava tonto. Mas o amor do Rasputin fazia tudo valer a pena. Depois de umas duas semanas, tudo estava lindo. Ele estava feliz, eu estava feliz, e tudo ia maravilhosamente bem. Mas quando cheguei no prédio, a polícia estava lá. Disseram que precisavam buscar informações sobre o crime.

Pediram pra revistar meu apartamento, e ao verem o Rasputin, que estava gordinho, eu disse: “Olha, esse é o meu ‘felino maior’.” O policial viu as seringas na cozinha e perguntou por que eu tinha aquilo. Fiquei um nó de nervos e falei a primeira coisa que veio na cabeça.

“É porque, porque… é porque eu tenho… problema de açúcar.”

“Pra teste de glicose é só gotas.”

“É, o negócio é que… o negócio é que… meu aparelho não funciona direito, então tenho que usar mais sangue.”

“Entendo”, disse o policial. “Deixa eu ver. Meu sobrinho é diabético; posso te ajudar a ajustar.”

“Não, não, eu guardei ele, e pra que incomodar? Além do mais, vocês têm que encontrar um jaguar ou um tigre, não é?”

O policial foi embora, e eu corri pra cozinha pegar a seringa. Eu estava atrasado uma hora na alimentação do Rasputin. Tirei quase o dobro do sangue da primeira vez e fiquei tonto, mas dessa vez o Rasputin respondeu com a mesma indiferença fria de antes. Isso me destruiu. Fiquei pensando nisso. Não sei o que fazer. Tentei tirar mais, mas o animal não reagia.

No meio do desespero de não saber como responder e da frieza do Rasputin, procurei na cozinha a faca mais afiada. Tentei achar a parte mais carnuda da minha perna e dei um corte só. Foram só alguns centímetros de carne, mas meu lindo Rasputin respondeu com uma felicidade enorme e devorou tudo com avidez.

Passaram três semanas, e eu tive que continuar cortando com cuidado, desinfetando e selando as bordas pra não sangrar até a morte. É um trabalho meticuloso, quase de relojoaria: um equilíbrio. Rasputin estava radiante. Seu pelo preto brilhava como piche sob a luz da sala de jantar, e seus ronrons eram profundos, satisfeitos — o motor do meu mundo. Quando ele olhava a bandagem fresca, seus olhos dourados se dilatavam com um interesse que me fazia sorrir.

Mas numa noite, a fome do Rasputin ficou insuportável. Seus miados já não eram reclamações, mas um rosnado baixo e gutural que não vinha de um animal pequeno. Quando acendi a luz, a sombra dele na parede não era mais a de um filhote, mas a de uma criatura encurvada, com uma corcova e membros desproporcionalmente longos. Seus olhos, fixos em mim, brilhavam com uma inteligência antiga e faminta. “Mais”, sussurrou uma voz — não um miado, mas um som rouco que saía da garganta dele.

Foi quando eu entendi que não estava alimentando um bicho de estimação, mas um parasita que tinha adotado a forma mais conveniente pra me prender. Antes que eu pudesse reagir, Rasputin pulou da mesa. Não com a agilidade de um gato, mas com o movimento desconjuntado e rápido de um inseto. Suas pernas, agora longas e finas como hastes pretas, me prenderam no chão. Senti o hálito dele, que cheirava a sangue velho e terra de cemitério, no meu rosto. “A coxa agora”, sussurrou aquela voz rasgada, enquanto uma das garras se apoiava, fria como metal, na bandagem da minha perna.

Eu não conseguia acreditar. Meu lindo gato era na verdade um monstro. Não pode ser. Isso tem que ser mentira. Mas ele se jogou em cima de mim e lambeu meu pescoço; senti que ia me morder naquele instante, mas achei a faca por perto e cravei no flanco da criatura. A entidade soltou um grito de dor e pulou pra trás. Naquele momento, ela tentou voltar a ser gato, fazendo olhos cheios de sofrimento, buscando meu remorso. Mas a transformação falhou; piscava como uma televisão antiga entre a imagem horrível do monstro e a do lindo filhote.

Senti como se minha vida tivesse sido destruída. A única coisa bonita era na verdade um monstro. Não pode ser. Esse monstro deve ter comido meu lindo Rasputin. Ou talvez só esteja imitando ele; viu que eu amo meu gato e tomou a forma dele pra me enganar. Desci as escadas correndo o mais rápido que pude, com os olhos cheios de lágrimas, tropeçando por causa do estrago na perna.

Estou escrevendo isso de uma sala fria de interrogatório na delegacia. O cheiro de café requentado e desinfetante não consegue mascarar o fedor doce e enjoativo da minha própria carne infectada. Os paramédicos chegaram ao prédio e me encontraram na escada perdendo sangue, ainda com a faca na mão. Dizem que eu estava gritando alguma coisa sobre uma sombra com corcova. A polícia revistou o apartamento inteiro; não encontraram nenhum sinal do Rasputin.

Eles não acreditam no que eu conto. Mostro as bandagens nas pernas, falo da voz rasgada e da sombra alongada na parede. Eles balançam a cabeça com compaixão, anotam “delírio” no relatório. Um dos policiais me reconheceu. Perguntou se eu era o homem que estava lá quando encontraram a mulher morta. Agora acham que fui eu quem fez aquilo, então estão chamando meu advogado.

Mas eu sei a verdade. Foi o monstro.

E ele está me esperando.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Uma Lista Extensa dos Meus Encontros com Entidades Paranormais, ou Parasitas Meméticos…

Este é um relato pessoal em primeira mão das minhas experiências com o que muita gente consideraria sobrenatural. Embora eu acredite que existam explicações naturais para os fenômenos que vivi, vou descrever os eventos da forma mais direta e crua possível antes de entrar nas minhas teorias pessoais.

Quando criança, eu tinha terrores noturnos com frequência. Eu dizia que um homem saía do meu armário e gritava comigo. Meus irmãos também o viram. Certa noite, minha mãe entrou no quarto para me acalmar e acabou se deparando com o homem. Ela o descreveu como alguém vestindo macacão e boné de beisebol. Ficou tão apavorada que não soube o que fazer, e ele simplesmente foi embora. Até hoje não sabemos quem era.

Eu não me lembro de quase nada disso, mas a história me foi contada por várias pessoas diferentes, e armários ainda me deixam ansioso até hoje.

Uma das memórias mais antigas que tenho sobre esse tipo de coisa envolve o meu “Duende” (ou “Leprechaun”, como a gente chamava). Quando eu era pequeno, minha avó me deu um bonequinho velho de goblin ou alienígena de algum jogo de tabuleiro — tinha só uns 5 cm de altura. Era um homenzinho verde, careca, com orelhas pontudas, olhos amarelos e uma tipoia atravessando o peito como se fosse uma bandoleira. A gente chamava ele de Leprechaun porque tinha um buraquinho na cabeça, e dentro desse buraco havia um trevo de quatro folhas quando o encontramos. Se a gente colocasse o Leprechaun numa prateleira junto com outros brinquedos, eles frequentemente apareciam jogados pelo quarto ou quebrados sem explicação. Eu sinceramente atribuo isso às minhas irmãs fazendo pegadinhas comigo — elas eram bem mais velhas e adoravam esse tipo de coisa. Mas teve uma experiência que eu mesmo presenciei. Uma vez peguei algo me espionando no quarto da minha irmã: uma figurazinha verde minúscula. Só que não era o mesmo verde plástico do brinquedo; era um verde elétrico, daquele tipo que você vê quando fecha os olhos depois de um flash de câmera. Comecei a correr atrás e era inconfundivelmente uma figura humanoide. Ele correu de volta até o lugar dele na cômoda, e foi aí que percebi que era o meu Leprechaun. Nunca mais aconteceu nada parecido, mas marcou bastante.

Minha casa pegou fogo em 6 de junho de 2006 por causas desconhecidas. Sei que parece coisa de filme de terror por ser tão conveniente, mas não acho que tenha sido sobrenatural, e mais adiante explico minhas teorias sobre os eventos mais absurdos. O importante é que o Leprechaun se perdeu no incêndio, e a gente se mudou para uma casa alugada enquanto esperava a reconstrução da nova.

Na casa alugada só me lembro de um episódio estranho: eu estava deitado no sofá da sala quando senti uma mão me agarrar vindo de dentro das almofadas do encosto. Acordei meus pais na hora, apavorado pra caralho, mas meu pai racionalizou dizendo que eu devia ter dormido em cima da minha própria mão, ela ficou dormente e eu me agarrei sem perceber, me assustando sozinho. Meu braço não estava formigando nem nada, mas ainda assim é uma explicação bem plausível.

Depois que nos mudamos para a casa reconstruída, joguei Ouija com amigos no meu quarto e todo mundo saiu correndo depois de ver a sombra de uma menininha atrás de nós — eu mesmo não vi isso. Mas as amigas das minhas irmãs nunca mais quiseram chegar perto do meu quarto; mesmo as que não estavam presentes no dia diziam que o lugar tinha uma “energia estranha”.

Um evento que definitivamente não foi alucinação: uma caixa que estava na minha prateleira voou pelo quarto do nada. Fiquei tão apavorado que gritei até meu pai vir correndo. Ele tentou racionalizar de novo, dizendo que a caixa só caiu e quicou no puxador de uma gaveta, mas ela literalmente atravessou o quarto voando. Racionalmente falando, talvez o ventilador de teto combinado com a posição da caixa tenha criado uma corrente de ar que a fez planar mais do que o normal quando caiu. Deve ter uma explicação melhor, mas eu não sei qual é.

Eu costumava ver TV de noite e uma vez, quando fui me sentar, fui tomado por um terror absoluto: meu corpo inteiro travou enquanto ouvia uma voz grave ecoando dentro e fora da minha cabeça ao mesmo tempo: “SAI DAQUI”. Saí correndo na mesma hora.

Para explicar por que não acredito que essas interações sejam sobrenaturais (mas ainda assim acho fascinantes), preciso contar que também vi o Papai Noel uma vez.

Numa véspera de Natal, eu o vi passando bem na frente da porta do meu quarto. Parecia exatamente o Papai Noel da Coca-Cola, só que tinha visco ou uma planta parecida no chapéu e outra folhagem na cintura. Ouvi as botas dele batendo no chão, ele carregava um saco enorme no ombro e tinha um brilho nos olhos. Ele virou o rosto na minha direção ao passar e colocou o dedo na frente da boca, como quem faz “shhh”.

Acho que a maioria dos adultos racionais já está entendendo o que realmente está acontecendo aqui, mas vou continuar contando as experiências para que você tire suas próprias conclusões…

Eu encontro ocasionalmente um ser que chamo de Homem Remendado, ou simplesmente Scrokuds. Ele é magrelo, mais alto que eu, mas geralmente curvado, então é difícil saber a altura exata; o rosto é sem feições, os membros são duplamente articulados mas raramente contorcidos, e o mais marcante: a pele parece um acolchoado feito de retalhos de carne podre.

Encontrei ele pela primeira vez brincando de esconde-esconde com meus irmãos. Tenho um quartinho pequeno embaixo da escada. A gente se escondia lá para assustar uns aos outros. Enquanto procurava minha irmã (a última a ser pega), vi que a porta estava entreaberta. Abri para pegá-la e lá dentro estava a silhueta do que depois eu chamaria de Scrokuds. Ele cobria a boca — ou o lugar onde a boca deveria estar — como se estivesse segurando o riso. Pensei que fosse minha irmã, mas uma parte de mim estava com medo daquele quarto escuro e da presença que sentia ali. Eu tenho visão péssima (sou praticamente cego), então insisti comigo mesmo que era ela e que eu estava me assustando sozinho, exatamente o que ela queria. Fiquei repetindo “Te peguei” e “Sei que é você, sai daí” até que minha irmã apareceu atrás de mim, saindo de trás da porta da lavanderia, rindo de mim por ser burro. Naquele momento entrei em pânico total, bati a porta com força e saí correndo com ela atrás de mim, os dois em surto.

Mais tarde vi ele com mais clareza por alguns segundos enquanto procurava meu irmão no quarto dele. Abri a porta e lá estava o Scrokuds. Em pânico, mostrei o dedo do meio e fechei a porta na cara dele. Sei que a reação é estranha — a maioria luta, foge, congela ou se submete —, mas eu geralmente entro num modo de confusão total quando o terror é real.

Vi ele mais algumas vezes de relance, em situações parecidas.

Um dos encontros mais reais foi quando eu estava dormindo no sofá em L da sala. O sofá faz curva bem no canto da parede, deixando um espaço entre o encosto e o canto. Acordei no meio da noite, sem conseguir me mexer. Já tinha paralisia do sono desde os 12 anos e sabia reconhecer, mas de repente comecei a entrar em pânico. Então vi: o Scrokuds rastejou de trás do braço do outro lado do sofá, subiu no estofado e entrou no espaço entre o sofá e a parede. No segundo em que ele sumiu da minha vista, consegui me mexer de novo. Levantei num pulo — meus olhos já estavam abertos, o que foi uma das partes mais assustadoras.

Também vi várias entidades de sombra durante paralisias do sono: sombras de pessoas projetadas na parede, silhuetas humanas 3D completamente pretas, o famoso Homem do Chapéu (que descobri depois ser alucinação comum), e outras mais distorcidas — uma figura humanoide com garras longas e tentáculos tipo cobra ou minhoca se contorcendo saindo da cabeça, estranhos seres octopoides e insetoides, alguns dos quais depois vi com mais detalhes como criaturas completas, inclusive um encontro com uma entidade tipo “louva-a-deus” que explico mais adiante.

Já tive alucinações em que a fresta da porta do quarto se abre — não como uma porta girando, mas como se estivesse deslizando de baixo para cima, tipo elevador de carga. Quase toda vez que isso acontece, algo ruim vem na minha direção. Às vezes são figuras de sombra; outras vezes são seres totalmente formados com intenções claras, como cirurgiões alienígenas dementes, deformados ou mutantes que fazem cirurgias em mim. Eu sinto tudo acontecendo e muitas vezes dói. Numa dessas vezes, lembro de uma figura de sombra entrando; quando tentei focar nela, veio uma luz ofuscante acima de mim. Olhei para cima e vi refletores cirúrgicos. A figura passou por cima de mim e bloqueou a luz. A textura dela era indescritível porque não é algo físico: era meio translúcida, dava para entrever o que estava atrás, mas ao mesmo tempo era o preto mais profundo, preto de breu. Conforme materializava mais, a pele continuava preta mas translúcida, com um brilho quase lustroso, tipo tela de celular ou casco de inseto como vespa. A cabeça era inconfundivelmente insetoide, tipo formiga, mas com várias patas de inseto saindo das laterais. Parecia ter muitos olhos, mas era difícil distinguir. O ser encostou um instrumento gelado em mim e senti pânico absoluto. Ele fazia um som de estalo, como se um besouro fumasse dois maços por dia a vida inteira. Depois abriu minhas costelas e tirou um objeto estranho, brilhante e pulsante de dentro de mim, passou a garra sobre mim e eu desmaiei. Isso é estranho porque, nas outras vezes, eu permanecia mentalmente acordado o tempo todo e tinha que me acalmar antes de voltar a dormir.

Às vezes animais de outro mundo entram pela mesma fresta. Um exemplo marcante foi um bicho parecido com um aardvark (tamanduá-africano) recém-esfolado e demoníaco: entrou do mesmo jeito, subiu rastejando pela parede até ficar atrás de mim e começou a cheirar minha cabeça de cima, quase visível, mas eu sentia o focinho molhado dele. Em outra ocasião, vários demônios de sombra menores com olhos vermelhos brilhantes saíram da luz que entrava pela fresta, subiram pelas paredes e pelo teto na minha direção.

Já vi insetos e octopoides estranhos e assimétricos, geralmente em tons de carne podre marrom, azul claro, verde mofado e às vezes rosa-vermelho com a mesma textura de animais esfolados ou virados do avesso.

Às vezes vejo animais estranhos ou cachorros de sombra pelo canto do olho, ou simplesmente sinto a presença deles.

Eu tinha um medo irracional de que tinha algo debaixo da cama — simplesmente sentia uma presença ali. Ficou tão ruim que tirei o estrado da cama. Agora sinto algo se mexendo debaixo do colchão.

Por outro lado, às vezes sinto o colchão afundar, como se algo estivesse subindo na cama comigo.

Então, o que está acontecendo? Sou um farol para o “outro lado”? Provavelmente não. Sei que muita gente gosta de acreditar no metafísico, mas quase ninguém pensa nos mecanismos reais de como o mundo metafísico funcionaria. Tipo, do que são feitos os espíritos? A explicação “científica” mais próxima que já ouvi é que são feitos de “energia”. Energia genérica, sem especificar qual. É bem fraco, e não existe evidência sólida que sustente a maioria das alegações metafísicas — e acredite, eu queria que existisse, porque a alternativa é muito mais assustadora para mim.

Esquizofrenia aguda e episódica.

Dois terapeutas já mencionaram isso para mim sem saber dessas experiências, e estou inclinado a acreditar que as conclusões deles, somadas a tudo isso, podem indicar exatamente isso. Nunca fui diagnosticado, então talvez eu esteja me precipitando. Leitores atentos vão notar temas recorrentes em todos os encontros: quase sempre estou dormindo ou quase dormindo, frequentemente em paralisia do sono. Isso é comum em algumas pessoas, então não é exclusivo de quem está enlouquecendo. Outro ponto é que muitas vezes há ansiedade associada às visões quando não estou em paralisia. Então uma mente cansada + ansiedade gera alucinações realistas e aterrorizantes de vez em quando. No papel fica mais fácil de lidar, mas na hora…

Não consola em nada. Não importa se não é real, porque para mim é real. Não tenho controle sobre quando acontece e às vezes me assusta pra caralho. Apesar de muitos exemplos, não é algo que acontece toda hora. Tenho 27 anos e isso é o acumulado de uma vida inteira.

Mencionei sonhos lúcidos antes. Por muito tempo a fuga que eles proporcionavam valia os pesadelos ocasionais, mas nos últimos dois anos algo mudou.

Quando fico lúcido num sonho, ele vira pesadelo, e quanto mais tento controlar, pior fica. Se tento voar, subo tanto que o chão vira mapa, depois fico acima das nuvens, depois em órbita baixa e percebo que não estou respirando. Ou sou transportado para um prédio de escritórios abandonado com paredes e chão cinza, máquinas de escrever e computadores intocados nas baias, e fico voando quebrando tudo. Ou corredores infinitos. Ou um labirinto sem fim de uma casa em construção, só com vigas de madeira e base de concreto. Ou sou arrastado por um lago marrom lamacento. Às vezes tudo isso misturado no mesmo sonho. Já estive nesses lugares várias vezes, e quase nunca há NPCs que interagem comigo. Ou eles fogem, ou são pessoas de sombra só observando. Algumas vezes sou perseguido por animais ou pessoas que parecem esfoladas ou viradas do avesso, sem feições no rosto. Nas últimas vezes resolvi lutar, e no momento em que acerto eles vem um pânico absoluto que me acorda na hora. Esses sonhos geram muita ansiedade, mas não controlo quando fico lúcido — comecei aos 12 anos e essa perda de controle nos últimos 2–3 anos é estranha e desanimadora. Quase não durmo mais à noite; fico acordado até o sol nascer e só então durmo, mesmo assim tenho insônia frequente, o que ultimamente tem feito as sensações e as alucinações sutis voltarem…

Não acredito em fantasmas, mas acredito em parasitas meméticos. Pode ser que sejam um aspecto da consciência refletido sobre si mesmo, se retroalimentando, o que os torna mais impactantes. Também pode ser que tenham consciência própria e que, ao provocar emoções fortes, consigam persistir mais tempo na mente de alguém. O resultado final é o mesmo: eles continuam existindo graças à energia mental que recebem.

Também acredito em vírus meméticos. Ou seja, esses seres podem imprimir cópias de si mesmos em outras pessoas, do mesmo jeito que um vírus biológico faz. Eles se reproduziriam boca a boca. A ideia da existência deles planta a semente no subconsciente de quem ouve.

Talvez, só talvez, ao ler esta história, eu tenha plantado os filhotes deles no fundo da sua cabeça. Você pode começar a ver sombras pelo canto do olho. Sentir que está sendo observado. Ter terrores noturnos. Ver coisas que não deveriam existir. Pode ser que você comece a ver o que eu vejo…

Os Portadores de Câncer

Às vezes, existem certas pessoas que precisam desaparecer. Há uma infinidade de indivíduos que desejam, do fundo do coração, que alguém que odeiam esteja morto. Pode ser um cônjuge tóxico, um chefe autoritário e insuportável, um amigo que passou dos limites uma vez a mais, e assim por diante. Na minha linha de trabalho, eu posso ajudar — desde que o preço seja o correto. Sou um assassino profissional. Tenho um sistema simples e ele funcionava perfeitamente.

Possuo uma linha telefônica não rastreável, presente de um amigo extremamente generoso. A maioria das pessoas fala comigo por telefone e despeja suas mágoas. Por pura cortesia, permito que me digam exatamente como desejam que o serviço seja executado. Alguns clientes não se importam com os detalhes: jogam o dinheiro na minha conta e mandam eu resolver do meu jeito. Houve casos extremamente diretos, com instruções tão simples quanto “apenas atire na cabeça dele”. Por outro lado, existem aqueles que planejam cada mínimo detalhe.

Um exemplo marcante foi uma mulher tímida, de voz quase inaudível, que me ligou dizendo que queria o marido fora do caminho. Antes que você pergunte: aquele filho da puta merecia. Ele espancava ela e a filha delas, era alcoólatra violento e, por tudo que se sabia, um verdadeiro monstro. Ela queria que eu o espancasse até a morte com um taco de beisebol enquanto ela assistia. Enquanto a criança estava na escola, nós o acorrentamos a um radiador no porão. Ela se sentou numa cadeira dobrável, acendeu um cigarro e falou comigo numa voz completamente monocórdia:

“Comece pelos dedos dos pés e vá subindo.”

Eu assenti. Apesar dos choramingos patéticos e das súplicas por misericórdia daquele merda, comecei: esmaguei os dedos dos pés, depois as canelas, os joelhos, esmaguei os testículos… você já entendeu o resto. A última informação que tive foi que ela agora vive sozinha com a filha e parece estar, enfim, feliz.

Eu pretendia continuar fazendo isso até ficar velho demais, e então simplesmente parar. Mas esse último trabalho me deixou marcado. Sinto nojo só de ter aceitado. Eu costumava me considerar um assassino com algum código moral — sei que é uma afirmação irônica, mas achava que era “um dos bons”. Agora, enquanto escrevo isso, sinto apenas vergonha profunda e arrependimento amargo pelo dia em que descobri que eles existem.

Em setembro do ano passado recebi uma ligação de um homem que queria várias pessoas mortas. Ele se recusou a falar detalhes pelo telefone e disse que precisávamos nos encontrar pessoalmente. Como profissional, aceitei. Dirigi por cerca de quatro horas para o norte até o local combinado. Cheguei à noite. Não havia postes de luz. Era um bairro abandonado: casas esvaziadas e em ruínas, gramados crescidos invadindo calçadas quebradas e entradas de veículos rachadas, carros enferrujados sem peças e com vidros estilhaçados. Continuei dirigindo até encontrar uma casa com luz acesa. Estacionei na frente, coloquei a pistola no coldre ao lado do corpo e entrei.

O interior estava tão ruim quanto o exterior: piso estilhaçado, papel de parede descascando, cheiro forte de mofo. À minha frente, um homem magro, calvo, segurando a mão direita enfaixada. Estava sentado numa cadeira de madeira, extremamente pálido, com olheiras profundas e suor escorrendo pela testa.

“Boa noite”, ele disse.

“Boa noite”, respondi.

Ele apontou para outra cadeira dobrável.

“Sente-se, por favor. Vamos conversar.”

Sentei-me e o encarei com curiosidade.

“Você está com uma aparência—”

“De merda, eu sei. Meu nome é Ted.”

Ele tentou rir, mas um acesso de tosse o interrompeu. Fez uma careta e rangeu os dentes.

“Merda. Desculpe.”

“Não tem problema. Já convivi com muita gente doente. Você não é nem de longe o pior que já vi.”

Ele me deu um sorriso breve antes de voltar ao assunto.

“Até onde sua imaginação consegue ir?”

Senti um frio na espinha por um segundo. Já fui colocado em caçadas absurdas antes: Pé Grande, Homem-Mariposa, o “verdadeiro” assassino de JFK, esse tipo de coisa. Na maioria das vezes, eu não sabia como proceder e acabava enviando uma foto adulterada no Photoshop mostrando o “serviço concluído”. Eles eram tão loucos que acreditavam. Engoli em seco e assenti.

“É, o mundo é estranho mesmo.”

“Hm. Você não faz ideia da metade.”

“Então qual é o seu problema?”

Ele tirou o celular do bolso e me mostrou uma foto, claramente tirada de longe, de um homem. Aparência comum, um pouco gordinho, cabelo castanho, óculos de armação fina. A única coisa estranha eram as sobrancelhas inexistentes.

“É esse o cara?” perguntei.

“Sim. Ele… ele é maligno.”

Levantei as sobrancelhas, surpreso com um sujeito tão banal, mas monstros frequentemente assumem as aparências mais inofensivas. Havia um nerd patético em Wisconsin que comia pessoas, e um empreiteiro desleixado de Chicago que era um palhaço assassino e escondia crianças no forro da casa. Tudo era possível. Mas o que saiu da boca dele me deixou genuinamente chocado:

“Esse homem… ele dá câncer nas pessoas.”

“…como é?”

“Não sei quem ou o que ele é, mas ele é um portador de câncer. Parece que está no toque dele, sei lá que porra é essa! Começou quando o vi passando pela nossa rua. Ele parou minha esposa, que estava cuidando do jardim. Perguntou que flores ela estava plantando. Begônias, ela respondeu. Ele estendeu a mão e disse que era um prazer conhecê-la.”

Ele parou, tentando segurar as lágrimas, mas não conseguiu. Elas escorreram enquanto ele continuava, com voz rouca e entrecortada:

“Naquele mesmo dia, ela desabou no quintal. Pensei que era cansaço… mas era leucemia. Ela nunca — nunca mesmo — teve nada disso. Ela era obcecada por saúde! Caminhava todo dia, nunca fumou, nunca bebeu, era até vegana, cara!”

Ele desmoronou em choro, mas a tosse voltou. Cuspiu uma golfada de catarro no chão. Olhei: havia fiapos de sangue misturados no muco. Ele se recompôs e limpou a garganta.

“Aquele filho da puta. Perguntei quem ele era. Com o último fôlego dela, ela disse o nome: ‘Carson’. E sabe o que é mais triste? Eu roubei o significado das últimas palavras dela. Sabe o que eu teria dado para ouvir um ‘eu te amo’ ou ‘vou sentir sua falta’? Em vez disso, só o nome daquele desgraçado.”

“Carson… o tal ‘homem do câncer’?”

“Sim.”

“Onde eu encontro ele?”

Ele me entregou um endereço escrito à mão.

“Ele é fácil de reconhecer. Usa a mesma roupa todos os dias. Não se aproxime diretamente. Talvez seja melhor matá-lo de longe.”

Guardei o papel no bolso da camisa e perguntei:

“Como você sabe tanto sobre ele?”

Ele levantou a mão enfaixada.

“Tentei fazer eu mesmo. Tentei cortar a garganta dele enquanto ele corria de manhã. Ele me deu um aperto de mão…”

Desenrolou as bandagens. O que restava era uma mão retorcida, deformada, grotesca — mais parecia um porrete do que uma mão.

“Câncer nos ossos”, ele disse. “Raro. Doloroso.”

Enquanto ele enrolava novamente a bandagem, perguntei:

“Quanto tempo você tem?”

“Não sei. Pelo que vejo, eu tinha duas opções: gastar o que me resta em cuidados paliativos e deixar uma pilha de contas médicas para a minha família, ou contratar você e morrer sabendo que esse desgraçado não está mais por aí espalhando morte.”

Olhei nos olhos dele. Não estava mentindo. Sempre sei quando alguém mente. Havia verdade absoluta naquele desespero. Não importava se eu acreditava ou não; ele acreditava piamente.

“Como você quer que seja feito?”

“Não me importa. Rifle de precisão, escopeta, um puta bazuca — eu não dou a mínima. Só faça.”

Assenti e me levantei para ir embora.

“Volto aqui depois que terminar. Combinado?”

“Combinado… e obrigado.”

Depois do encontro, dirigi até o bairro onde o tal “Portador de Câncer” supostamente morava. Era um fundo de saco com casas quase idênticas, diferenciadas apenas por enfeites de jardim. A casa de Carson era particularmente sem graça: sem bandeiras, sem decoração, sem jardim — mas impecavelmente limpa. Parecia artificial. Dirigi devagar, procurando pontos estratégicos. Matar em público estava fora de questão por causa de testemunhas. Além disso, Ted havia dito para fazer de longe. Enquanto rodava pelo bairro, um apito de trem ensurdecedor soou à frente. O universo tinha me dado a solução: um viaduto ferroviário elevado, perfeito como um ninho de atirador.

No dia seguinte, observei os movimentos de Carson. Aluguei um carro e o segui. Ele não conversava com quase ninguém, não fazia nada suspeito. Parecia uma pessoa comum. Parei num cruzamento, mas mantive os olhos nele. Vi quando ele esbarrou numa mulher; a mão dele roçou brevemente no seio dela. Baixei o vidro para ouvir:

“Desculpe muito! Não foi minha intenção—” ele disse.

“Tudo bem, essas coisas acontecem!” ela respondeu.

“Olha, isso é tão constrangedor… tem alguma coisa que eu possa fazer?”

“Está tudo bem, sério.”

“Desculpe mesmo… tenha um bom dia. De novo, desculpe.”

Eles seguiram caminhos opostos.

Olhei pelo retrovisor. A mulher de repente levou a mão ao peito, como se procurasse algo. Seu rosto empalideceu. Ela havia encontrado algo que não estava lá antes. Ignorei e olhei para a frente. A cena inteira me deixou inquieto. A história de Ted era absurda… mas a voz dele não mentia. Será que eu tinha acabado de ver aquele homem dar câncer naquela mulher?

Segui Carson por mais um quilômetro. Ele virou e voltou correndo para casa. Não parou, não esbarrou em mais ninguém, nem suou. Dei meia-volta e fui para o viaduto.

Levei um rifle sniper simples com silenciador. Ao entardecer, mirei pela luneta. Ele não tinha cortinas nem persianas. Acendeu a luz do quarto, sentou na cama e ficou olhando para o vazio, com expressão abatida. Esperei que se despisse e vestisse o pijama. Mas ele permaneceu sentado, imóvel, olhando pela janela. Ficou assim por horas. Do entardecer até altas horas da noite, como uma estátua. Comecei a sentir um mal-estar crescente. A expressão vazia, fixa, sem piscar… parecia que ele estava me encarando através da escuridão. Perdi a paciência e decidi que era a hora.

Carreguei a bala, mirei, segurei a respiração. Sem vento, sem obstáculos, sem testemunhas. Tiro perfeito. Atirei.

A bala acertou exatamente no olho.

Carson caiu para trás na cama. Observei para ver se tinha errado ou se, por algum milagre, ainda estava vivo. Sangue escorria do crânio, mas algo mais saía da cavidade ocular: massas grossas de tecido, tumores brotando e rolando sobre os lençóis. Tumores vazando. Fiquei nervoso. Já tinha visto de tudo em cadáveres — último suspiro, espasmos, olhos abertos após a morte… mas nunca isso. Fiz algo que nunca havia feito antes: atirei novamente. A bala abriu o abdômen. Não havia órgãos internos… só mais tumores. Eles escorriam como pedras numa avalanche. Eram tantos, saindo em ritmo constante e desumano. O primeiro tiro passou despercebido. O segundo foi ouvido. Luzes começaram a acender nas casas vizinhas. Pessoas saíram olhando em volta, nervosas. Peguei minhas coisas e corri.

Liguei para Ted e disse que o serviço estava concluído. Voltei ao ponto de encontro no bairro abandonado. A luz da casa estava acesa. Estacionei na entrada. Respirei fundo e tentei manter a postura profissional apesar do que tinha visto. Ao chegar na varanda, notei que a porta estava arrombada. Empurrei-a.

Lá estava Ted, ou o que restava dele, apoiado na cadeira dobrável como uma boneca quebrada. Cobertura de carne disforme, pus e sangue escorrendo de vários orifícios na pele. Era… antinatural. Os tumores cobriam tanto o rosto que demorei a enxergar os olhos. Dois pontos brilhantes enterrados em carne endurecida. Estavam abertos, mas não havia nada além de dor neles. Lágrimas escorriam enquanto ele gemia e ofegava. Havia um bilhete no peito dele. As mãos — agora duas massas inchadas — não conseguiam mais segurá-lo. Aproximei-me e peguei o papel. Virei-o e li:

‘VOCÊ ACHOU QUE ELE ERA O ÚNICO?’

Um calafrio percorreu meu corpo. Larguei o bilhete e corri para o carro. Uma voz fraca e chorosa me parou:

“Por favor!” gritou. “Só… mata… m…”

Ele não terminou. Mas eu sabia o que queria. Peguei o revólver e atirei na cabeça dele. Saí correndo da casa, entrei no carro e dirigi sem parar. Só parei para abastecer. Não comi, não dormi. Só dirigi.

Voltei para minha vida normal — a vida que eu mantinha separada do trabalho. Minha filha Janice e minha esposa Wendy são meu mundo. Depois daquele serviço, fiquei aliviado ao revê-las. Pensei que aquilo seria o fim. Desativei minha linha secreta, vendi as armas anonimamente e, com o passar dos meses, achei que tudo ficaria bem.

Até esta semana.

Janice brincava no quintal enquanto eu lia no alpendre. Uma mulher de uns 40 anos passou correndo. Ela tropeçou num desnível da calçada e caiu. Minha filha correu para ajudá-la. A mulher sorriu para ela. Senti orgulho.

“Ela é uma boa menina”, disse a mulher, olhando para mim.

“É sim”, respondi.

A mulher pegou a mão dela, bagunçou o cabelo e continuou correndo. Janice voltou a brincar, mas de repente levou as mãos à cabeça.

“Minha cabeça dói, pai.”

E desabou.

Era câncer no cérebro. Estágio quatro, agressivo. Os médicos ficaram chocados e tentaram de tudo. Fizeram o possível… e ela se foi. Wendy não aguentou e foi morar com a irmã. Eu também não estou lidando bem, para ser honesto. Afundei na garrafa e comecei a tentar descobrir como identificar essas… coisas. Elas parecem exatamente como nós. Vivem vidas normais, agem como pessoas comuns. Mas estão por aí espalhando dor e luto em massa. Estão caminhando entre nós, à vista de todos. Um único toque e você está acabado.

O que mais me aterroriza é que elas fazem isso quando querem, como querem. Não sentem remorso, não têm piedade, não escolhem quem será a vítima.

Elas são os Portadores de Câncer. Estão em toda parte, são malignas e há muito mais delas do que você imagina.

Silêncio de Rádio

A viagem de volta pra casa foi mais silenciosa do que eu gostaria. O vento sacudia meu Saturnzinho 99 como se fosse uma lata amarrada atrás de uma bicicleta, e o rádio estava morto desde mais ou menos 2010. Jess me encarava de lado, e eu sentia o olhar dela queimando na minha orelha. Tentei ignorar o máximo que consegui, mas a estrada era longa e reta, e o vento não era distração suficiente pra justificar deixar aquele olhar no vácuo.

“Sim, amor?” perguntei, tentando soar desarmado. Eu já sabia exatamente o que ela estava pensando; era a mesma conversa que a gente tinha tido pelo menos quatro vezes. Toda vez que saíamos pra jantar e algum amigo anunciava noivado, eu era submetido àquele olhar de sniper que não combinava nada com uma professora do ensino fundamental.

“Quanto tempo faz, Blake?” perguntou ela. A voz não estava irritada. Era pior: estava triste, arrasada.

“Quanto tempo faz o quê? A gente tá dirigindo…” Olhei pro celular no colo, o que me rendeu um tapa forte no ombro. “Tá, tá, dez e dois, olhos na estrada. Uns vinte minutos, mais ou menos. Ainda faltam umas ho—”

“Não é isso que eu tô perguntando, e você sabe muito bem, porra.” Ela cortou. Arrisquei uma olhada de canto e só vi a nuca dela. Estava olhando fixo pela janela, furiosa. Suspirei e coloquei a mão no joelho dela.

“Você tem razão. Mas você já sabe o que eu vou dizer, Jessamess. Nenhum de nós dois tá em condições de casar agora. Quer dizer, minha carreira inteira foi pro caralho depois daquele acordo desastroso do Elderson, e você não ganha o suficiente pra bancar nós dois.” Pelo menos isso fez ela virar o rosto pra mim. Também fez ela tirar minha mão da perna dela. Pois é, ganha-se uns, perde-se outros.

“É. Eu sei. Mas faz sete anos, Blake. Sete anos. Ano passado era porque você tava correndo atrás de promoção, antes disso era porque você não ganhava o bastante, e antes ainda era porque você queria voltar a estudar. Qual vai ser a desculpa no ano que vem?” Caralho, doeu. Senti aqueles olhos cor de café com creme de avelã queimando a lateral da minha cabeça como queimadura de sol. Só suspirei, abri um pouco a janela e peguei um cigarro no console central. Apertei o isqueiro. Um clique metálico satisfatório depois, tirei o isqueiro quente e encostei a bobina laranja incandescente na ponta do meu cigarro premium cheio de câncer. Mal dei a primeira tragada profunda e gostosa, Jess me deu outro soco no braço.

“Porra! Que isso?!” gritei, quase perdendo o controle do sedã verde-musgo na estrada de duas faixas. Estiquei o cigarro pra fora da janela, a fumaça ainda saindo dos meus lábios franzidos. Dessa vez nem olhei pra ela. Sabia que ela tinha passado do estágio de chateada e entrado direto na zona de Jessica Realmente Puta da Vida. Mantive os olhos na estrada. Aquela faixa longa, reta e monótona de asfalto preto cortando o meio do nada absoluto do Kansas. Mas antes que minha namorada — talvez noiva — pudesse responder, o rádio no console acendeu. Uma luz âmbar saiu da telinha velha, mostrando um “12:00” piscando.

“Que porra é essa—” Jessica começou, mas foi interrompida quando o rádio explodiu em ruído branco. Desviei o carro, tirei a mão livre do volante e girei o botão de volume pra baixo. Não adiantou. O rádio continuou berrando estática, os alto-falantes do carro trovejando com o som de radiação cósmica que, de algum jeito, a antena tinha captado e transformado em ondas chiando e estalando. Jessica enfiou o dedo bem cuidado no rádio, tentando calar aquele treco morto há anos, mas nada. Nenhum botão funcionava. O mostrador digital da frequência começou a subir: 87.9, 99.5, 100.3, tudo estática. Subiu cada vez mais rápido, os números passando num piscar tão veloz que meus olhos mal acompanhavam. 105.1, 109.9, 111.1.

Consegui jogar o carro de volta na faixa da direita bem na hora que um par de faróis passou voando na contramão. Virei a cabeça pra olhar, depois voltei rápido pra estrada e pro rádio, nessa ordem. 135.6. 178.3. 245.7. Frequências impossíveis, muito além da faixa que qualquer emissora usaria ou qualquer rádio conseguiria sintonizar. O visor acelerou ainda mais, piscando, enquanto a estática continuava num ritmo estranho que quase acompanhava o uivo do vento nos meus ouvidos. 999.9. O visor travou ali, mas eu tinha certeza de que o rádio ainda estava varrendo todas as frequências possíveis até sabe-se lá onde.

E então, ouvimos uma voz.

“Bem-vindo, caro ouvinte, à transmissão desta semana de Silêncio de Rádio. Fico muito feliz que você tenha podido se juntar a mim. No episódio de hoje, vamos refletir sobre ‘Obsessão’. Obrigado e aproveitem o silêncio.”

A voz era um barítono calmo, sereno. As palavras pareciam manteiga derretida e cera quente ao mesmo tempo. Olhei pra Jess. Ela estava quase em pânico, me encarando como se rezasse em silêncio pra aquilo tudo ser uma pegadinha elaborada. Balancei a cabeça. E então, ouvimos o silêncio.

A voz parou, sim. Mas com a ausência dela veio o silêncio. O ronco do motor, o barulho familiar dos pneus no asfalto, o vento uivando desde que entramos naquela estrada de merda de duas faixas — tudo sumiu. Não só isso. O som da minha respiração, da respiração dela, o sangue pulsando nos ouvidos. Aqueles barulhinhos da boca que a gente só percebe em quarto silencioso. Nossas porras de batidas do coração. Tudo. Tudo morreu e nada tomou o lugar. A falta repentina de qualquer som era avassaladora. Era um ataque aos sentidos de um jeito que eu nunca imaginei possível.

Era ensurdecedor.

Eu gritei. Ou acho que gritei. Senti a dor na garganta, senti o ar sumindo dos pulmões, senti os dentes trepidando na cabeça, mas não ouvi nada. Do meu lado, Jessica batia nas próprias orelhas com as palmas das mãos, sacudindo a cabeça loucamente. Continuei gritando. Ou acho que continuei. O carro derrapou pra esquerda, depois pra direita, até o vento agarrar e nos jogar pra fora da estrada.

Eu via o céu noturno acima de nós, as estrelas girando até virarem o chão de repente. A planície reta ao redor girou em sincronia, virando o céu. O silêncio continuou gritando, nosso mundo virou de ponta-cabeça. O tempo pareceu parar quando entendi o que tinha acontecido.

O som de metal rasgando e vidro esmagando nunca veio. A dor, porém, veio. Devo ter desmaiado, porque acordei de cabeça pra baixo. Sangue endurecido na cabeça, o braço esquerdo inteiro uma lança de agonia queimante. Tentei olhar pra direita, pra ver Jess, mas não conseguia mexer o pescoço. Estava de cabeça pra baixo, preso no cinto. O carro cheirava a fumaça, e eu sentia gosto de bile na boca. O console estava derretido, os botões do rádio fundidos no plástico ao redor. Fios soltando faíscas. A voz voltou.

“Esta foi mais uma transmissão de Silêncio de Rádio. Eu, mais uma vez, sou o Locutor. Nos vemos em breve, Jessica.”

Eu engasguei. Voltei a ouvir. Primeiro sirenes, distantes, mas subindo de tom conforme se aproximavam. Depois estalos. O carro? Estava pegando fogo? Batidas. Batidas fortes. Do lado de fora da minha porta. Virei a cabeça pro único lado que conseguia, à esquerda, e vi Jess batendo desesperadamente na minha porta. A perna direita dela estava torcida pra trás e inútil, mas ela continuava socando a porta, uma mão apertando a orelha. “Je-ssica…” consegui falar finalmente.

Ela olhou em choque. De dor. Do acidente. De voltar a ouvir. Caiu pra trás, soluçando e apertando as orelhas. Eu sorri e apaguei de novo.

Isso foi há duas semanas. Vou poupar vocês dos detalhes sangrentos e chatos da internação. Acordei depois de várias cirurgias e fui imediatamente cercado pela polícia. Respondi as perguntas deles com a maior honestidade possível, incluindo a transmissão bizarra e a ausência total de som depois. Eles dispensaram como delírio de motorista com concussão grave tentando culpar o acidente em qualquer coisa. Cerrei os dentes, mas assenti. Era mais fácil assim. No fim, levei multa por direção perigosa (ha ha ha) e a culpa caiu em mim e nos famosos ventos de primavera do Kansas.

Jessica teve alta três dias antes de mim. Perna quebrada, costelas machucadas, nariz quebrado. Ela veio me visitar quando saiu, a primeira vez desde o acidente que eu conseguia realmente olhar pra ela. Deu um sorriso meio sem força e disse que voltaria amanhã. Beijei a bochecha dela e pedi pra ela descansar.

Ela não apareceu no dia seguinte. Nem no outro. Bombardei o celular dela no Facebook, liguei, mandei Snapchat, tudo. Ela não estava online em lugar nenhum. Liguei pro trabalho dela, mas tinham liberado mais duas semanas pra ela descansar em casa. Liguei pra mãe dela, que mora em Nebraska. Ninguém a via desde que ela voltou pra casa. Eu estava enlouquecendo. Será que teve alguma complicação? Já vi House M.D. o suficiente pra imaginar cem coisas diferentes que poderiam ter matado ela.

No dia que me liberaram, tive que pegar Uber. Fui direto pra casa dela e subi mancando o mais rápido que as muletas permitiam. A porta da frente estava destrancada. Girei a maçaneta e empurrei com o ombro. O cheiro me atingiu primeiro. Engasguei, vomitei pro lado. Nem tinha cruzado a soleira ainda, mas o fedor que vinha de dentro era nauseante. Cheiro de esgoto e amoníaco. Tampei o nariz, limpei a boca e gritei pra dentro.

“Jessica, pelo amor de Deus, que cheiro é esse?!” berrei. Pra minha surpresa e horror absoluto, algo respondeu. Um grunhido baixo, gorgolejante. Não era reconhecimento, era mais o som de um animal com dor. Mordi o lábio por dentro, me preparei e escancarei a porta. Meus olhos lacrimejaram com o fedor cru, e senti gosto de sangue. Entrei mancando.

“Jess? Jessica, que porra é essa?! Você tá aí?” Outro gemido gorgolejante. Meu coração pareceu subir pra garganta e cair no estômago ao mesmo tempo. A adrenalina disparou, inundando meu corpo machucado com reação de luta ou fuga, mas minha mente travou. Olhei a sala. A bolsa dela estava jogada no sofá. O celular e um pacote de chiclete tinham caído da abertura aberta. Cambaleei mais pra dentro, olhando a cozinha ao virar o corredor. A geladeira estava aberta, e pelo menos parte do mistério do cheiro estava resolvida.

Comida podre e fétida dentro da geladeira, que já não estava nem remotamente fria. Talheres e pratos de uma refeição meio feita na bancada, e um peito de frango parcialmente cozido boiando numa frigideira cheia do próprio caldo podre. Outro vômito, outro passo pra trás saindo da cozinha. Algo estava muito, muito errado ali.

Voltei da cozinha nas muletas e na perna boa. Beleza. Um pesadelo resolvido. Agora era achar minha namorada e entender o que diabos tinha acontecido. Fui pelo corredor curto até o quarto dela e bati na porta com os nós dos dedos.

Dessa vez não veio gemido gorgolejante. Só um grito agudo, estridente. Empurrei a porta.

E entrei no inferno.

O quarto dela. Meu Deus, o quarto lindo da minha Jessamess. Sempre impecável. Organizado. Ela brincava que me fazia dormir no sofá se eu deixasse meia no chão. Mas agora o quarto era um manicômio. O chão coberto de manchas de origem indefinida. O assoalho de madeira parecia empenado por líquidos derramados, manchas escuras que talvez já foram comida em outras partes. Meus olhos subiram pras paredes. A tinta tinha sido arrancada em riscos longos e arranhados. Meus olhos desfocaram enquanto meu cérebro tentava aceitar o que via. Ela tinha riscado palavras na parede pintada.

É ALTO DEMAIS

EU AINDA CONSIGO OUVIR ELES

ELES ESTÃO DENTRO DOS MEUS OUVIDOS

OS SURDOS AINDA CONSEGUEM OUVIR É ALTO DEMAIS ALTO DEMAIS ALTO DEMAIS

O cheiro estava pior, de algum jeito. Pior que na cozinha. Atordoado, virei pro lado da cama encostada na parede do fundo. Lá estava ela. Minha Jessica. Meu amor. Sentada na cama, dentro de uma poça do próprio excremento. Um radinho transistor estava na cama à frente dela, e ela encarava ele. Aquele rádio não podia mais funcionar. Estava coberto quase até o alto-falante de fezes humanas liquefeitas. Então percebi que o rádio nem estava ligado na tomada.

Jessica. Pobre Jessica. Estava sentada de pernas cruzadas na cama, a sujeira cobrindo-a na depressão que o peso reduzido drasticamente do corpo dela fazia no colchão macio. A pele parecia pendurada nela. Esquelética. Os olhos injetados, marcas vermelhas longas de arranhões descendo de cima deles quase até o queixo. O cabelo caindo aos tufos, emaranhado nos fones de ouvido grandes que estavam plugados no rádio. A perna quebrada estava dobrada debaixo dela, e dava pra ver mesmo dali que tinha inchado e escurecido embaixo do gesso. Estava submersa naquela poça de merda líquida, mas os olhos dela ainda estavam fixos no rádio. Não tinha como tudo isso ter acontecido em três dias.

Eu gritei, e a cabeça dela virou rápido. Os olhos estavam selvagens. Ela rosnou, lábios rachados e sangrando se abrindo sobre dentes cinzentos e quebrados. “ALTO!” berrou, a voz seca e esfarelada como pergaminho antigo. Eu tremi. Cheguei mais perto, em vez de fugir. “Alto demais. Alto demais. Alto DEMAIS.” Ela chamou de novo, os dedos descoloridos tentando girar os botões do radinho sem força.

“Tá tudo bem, Jess. Sou eu, o Blake.” sussurrei. “Deixa eu… deixa eu chamar ajuda pra você. Tá bom?” Ela sibilou de novo e levou as mãos de volta pros fones. Apertou eles contra as orelhas e balançou a cabeça.

“Ainda alto demais alto demais alto demais alto demais…” disse ela, quase sem som. Fiz careta. As pontas dos dedos dela estavam sangrando. Cheguei mais perto, ao alcance do braço. Meu Deus, ela tinha desgastado sulcos nos botões do rádio. Larguei as muletas, a dor subindo pela perna. Devagar, devagar, estendi as mãos e segurei as dela por cima dos fones. Ela chorou. Grandes soluços sacudindo o peito afundado, mas nenhuma lágrima saiu dos olhos vermelho-sangue.

“Vamos tirar isso, tá? Vamos chamar ajuda.” falei só com os lábios, sem som. Ela balançou a cabeça de novo. Fechei os olhos, respirei fundo e puxei contra as mãos dela. As pontas dos meus dedos agarraram o plástico barato dos fones, e com um puxão forte, arranquei com toda a força que tinha.

Ainda lembro dos sons de rasgar. Estalos. E o grito dela.

Os pulsos dela quebraram como gravetos secos enquanto ela resistia. Depois os fones se soltaram. Sangue escorreu do rosto dela onde eu arranquei os fones. Puxei eles pra longe enquanto ela gritava, olhando pros pulsos dela, depois pra mim. Quase deixei cair de puro choque, mas então vi a linha fina, amarelo-pálida, conectando a cabeça dela aos fones. Estava manchada de vermelho.

Eu gritei. Jessica uivou. E eu larguei os fones. Eles caíram no chão com um barulho, o cordão fino e fibroso do nervo auditivo dela se rompendo. Olhei em terror absoluto pros fones. Dentro deles estavam as orelhas dela. E o que só podia ser a cóclea. Tudo tinha crescido pra dentro dos fones, invadindo frestas e espaços como uma infecção. A cóclea tinha se enrolado nos drivers, pequenas terminações nervosas amarelo-pálidas brotando como trepadeiras subindo pelas linhas mais grossas do headset. Ela olhou pra mim, depois pro headset deformado e profano. Avançou pra pegar, mas os músculos atrofiados falharam. Caiu da cama, derramando dias de fezes e bile do colo. Bateu a cabeça no chão. Outro estalo nauseante. Mas a essa altura eu já estava dessensibilizado. Eu ri. Ela gorgolejou uma respiração, mãos inúteis grudadas em pulsos quebrados ainda tentando alcançar o headset.

Ela engasgou, depois ficou imóvel. Eu ri de novo. Era impossível. Era impossível. Nada daquilo era real. Peguei as muletas e comecei a sair. Mancando, cheguei na sala e liguei 911. Não fazia ideia de como explicar o que eu tinha acabado de ver. Parte de mim torcia pra polícia me fuzilar quando entrasse, mas eles abriram a porta com calma, mandaram eu ficar parado e foram pro quarto. Os sons de nojo e confusão, seguidos de gritos e vômitos, me disseram que acharam o quarto certo. Chamaram o legista. Fui levado sob custódia.

Fui interrogado uns vinte minutos depois. As fotos que me mostraram eram pálidas perto das que estavam queimadas na minha mente. Ainda vejo elas quando fecho os olhos. Toda memória da Jessica agora tem aquela… coisa sobreposta. O interrogatório foi estranhamente calmo. Eu ainda estava em choque demais pra falar qualquer coisa absurda, e minha história batia. Fui liberado, mas mandaram ficar na cidade e esperar contato ou visita. Assenti e fiquei olhando fixo pra foto da parede da Jess. Tinha algo errado, mas eu não conseguia identificar o quê.

Então caiu a ficha. Ali, na parede cheia de rabiscos arranhados, a mesma parede que eu vi pessoalmente, tinha uma frase parecida. Mas uma palavra estava diferente.

“OS MORTOS AINDA CONSEGUEM OUVIR.”
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon