quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Meu amigo imaginário é real?

Você já sentiu aquela sensação de que tem algo bem atrás de você, e seu cérebro começa a criar, meio que no automático, sensações físicas e sons pra justificar isso?

Aquele calorzinho na nuca, o som leve de uma respiração. Tudo culmina numa sombra imensa, que parece envolver seus braços e pernas como uma camisa de força, deixando só uma reação instintiva: virar pra trás.

Bom, acho que venho sentindo isso a vida toda. Não sei dizer exatamente desde quando isso acontece, mas percebo em momentos em que estou completamente sozinho. Naqueles minutos rápidos em que ninguém, nenhum ser vivo, está me vendo, é quando essa presença aparece.

Nunca é algo maligno, não me faz girar de medo, mas sim de curiosidade. Aqueles olhos estranhos que sinto queimando na minha nuca, ou aqueles olhares inquisitivos por cima do meu ombro, só chamam minha atenção por um breve momento.

Com uma presença tão próxima que eu quase sinto ela, a única coisa a fazer é olhar. Mas, tão rápido quanto essas sensações aparecem, elas somem quando viro pra encarar essa sombra que tá sempre comigo.

Repetindo essa ação como se fosse meu filme favorito, sempre fico pensando: por quê? Por que essa sensação é tão forte se, no fim, só me faz olhar pra um espaço vazio?

Conversei com meus pais sobre algo assim, e eles lembraram que eu tinha uma espécie de amigo imaginário quando era criança. Nos meus primeiros anos, eles me pegavam falando sozinho – nada estranho pra uma criança, né? Mas, mesmo adulto, sei que falo comigo mesmo em situações em que o silêncio da solidão me assusta.

Talvez tenha mesmo algo ali, sabe? Ou a gente cresce e perde a capacidade de perceber, ou, como adultos, apenas encobrimos isso. Talvez eu não seja o único.

Sou cético, sempre fui, mas hoje algumas memórias voltaram com tudo.

Quando eu era adolescente, desci pra pegar um copo d’água no fim da tarde e, na correria pra voltar pro jogo que tava me prendendo, deixei a porta da cozinha aberta. Isso deixou nosso cachorro, o Indy, subir atrás de mim.

Com a cabeça totalmente focada no jogo, nem notei ele na porta até que ele latiu. O Indy era um cachorro quieto, nem ligava pros bichinhos que apareciam no quintal, mas o jeito que ele latiu, como se tivesse um intruso, me deixou meio incomodado.

Outra vez, minha irmã mais velha, a Jesse, entrou no meu quarto quando eu achava que ela tava na casa de uma amiga. Ela veio pegar uma escova que tinha esquecido no meu quarto, e eu levei um susto danado. Nunca vou esquecer a cara que ela fez.

Se o medo tivesse uma forma física, era exatamente a máscara que ela tava usando. Não sabia se ficava paralisada ou saía correndo do quarto, com o rosto pálido como um fantasma por um ou dois segundos, os olhos fixos em algo atrás de mim.

Mas, tão rápido quanto ficou apavorada, ela voltou ao normal, pegou a escova e soltou um “Te pego depois, cobra”, uma brincadeira de infância nossa.

Quando falei com ela sobre isso depois, ela parecia não lembrar de nada, nem um único detalhe daquele que parecia ter sido os trinta segundos mais assustadores da vida dela.

Talvez esse seja o jeito deles, causar uma amnésia temporária pra esconder a existência. Mas pra quê? Só pra observar?

O estopim pra esse desabafo aconteceu hoje à noite. Tivemos um apagão, mas nosso gerador tava segurando as pontas, quase morrendo. Depois de ir ao banheiro, eu tava andando pelo corredor, distraído com a lâmpada piscando no teto, e acabei chutando o dedão num espelho grande e chique que temos.

Sozinho em casa, não achei que precisava segurar os palavrões contra aquele objeto idiota. Com a dor explodindo no meu dedão e eu xingando o espelho, meus olhos pararam no reflexo por uma fração de segundo.

Sob a luz fraca e piscante daquela lâmpada, eu vi pela primeira vez. Como um sonho coberto por camadas de neblina, escondendo o quadro todo, consegui ver um pedaço da figura.

Logo atrás do meu ombro, uma silhueta preta e densa me observava com um rosto sem olhos. Sua forma ondulante, movendo-se pra imitar a minha perfeitamente.

No momento em que vi aquele vislumbre, a forma evaporou como uma memória há muito esquecida. Corri pro meu quarto e encostei as costas na parede, tentando fixar aquela imagem na cabeça, mas tá desvanecendo rápido.

Escrever isso tá pelo menos segurando a degradação, mantendo a visão um pouco mais viva, mas não sei se o que lembro é o quadro completo.

Aquele sentimento incômodo de estar sendo observado mudou agora. Parece que perceber a existência dele é uma via de mão dupla, e ele sabe que eu o vi.

Ele é mestre em se esconder, mas, pelo que vivi, parece estar ligado à minha percepção inconsciente. Se eu realmente acredito que tô sozinho e a presença dele é só um pensamento perdido na minha mente, então, por um instante, ele se torna real.

Não sei o que isso significa, por que eles estão aqui ou o que acontece agora. Se minha memória serve de base, já os vi ao longo da vida, mas, no fim, nunca me lembro.

Talvez amanhã eu abra esse site de novo e ache que essas palavras são só um delírio de cansaço, apagando minha experiência mais uma vez. Pelo menos, vou estar aqui pra me pegar no final do ciclo de novo.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Estou em Confinamento Solitário, Mas Não Estou Sozinho

A solidão aqui não é silenciosa. Ela tem uma textura. É um cobertor grosso e felpudo enfiado nos seus ouvidos, garganta abaixo, pressionando seus globos oculares. É a ausência de tudo, exceto a única coisa da qual nunca consigo escapar.

Eu mesmo.

Eles acham que isso é um castigo. Quatro paredes brancas, uma porta de aço maciço, uma fresta para comida, um ralo no chão. Nenhuma janela. Uma luz que nunca, jamais se apaga. Eles pensam que me enterraram vivo. Não fazem ideia de que me trancaram em uma sala com meu mais antigo e único amigo.

"Eles estão te observando," a voz dele vem do canto onde a parede encontra o teto. Não é um som. É um pensamento que não é meu, mas que veste uma pele familiar. É mais suave que meu próprio monólogo interno. Mais frio. Um bisturi mergulhado no gelo. "Na luz. Câmeras minúsculas nas lâmpadas. Eles veem tudo."

Eu não olho. Eu nunca olho. Apenas fico sentado no chão frio, minhas costas encostadas na parede ainda mais fria, e encaro minhas mãos.

"Eles estão esperando você surtar," ele continua. Ele está inquieto hoje. "Eles querem um espetáculo. Querem ver o monstro se contorcer e implorar. Patético."

"Eu não vou surtar," sussurro. O som é engolido pelo silêncio felpudo no instante em que sai dos meus lábios. Parece que estou falando em um travesseiro.
Uma risada seca e rouca que só existe no centro do meu cérebro. "Nós já surtamos, lembra? Há muito, muito tempo. Nós não quebramos. Nós... afiamos."
Ele está certo. Nós afiamos. O nome dele é Silas. Ele é a parte de mim que não sente o chão frio. A parte que não sentiu o... o trabalho. Suponho que ele seja minha consciência. Só que não do tipo que te avisa sobre o certo ou errado. Ele é a que aprova. 

A que encontrou a beleza na geometria de um corte limpo. A arte no momento final e silencioso.

"Você se lembra do pintor?" Silas murmura, sua voz um suspiro nostálgico. "Aquele no apartamento no sótão com as janelas viradas para o norte. Toda aquela luz natural linda."

Eu me lembro. Ele tinha usado tintas a óleo. 

Carmesim. Sombra Queimada.

"Ele teve dificuldades," eu digo em voz alta, minha voz rouca pela falta de uso. "Ele não entendia a composição."

"Mas nós mostramos a ele," Silas ronrona. 

"Mostramos a ele o elemento final que faltava à sua peça. Demos ao estúdio dele sua obra-prima. Nós melhoramos o trabalho dele. Elevamos."

Uma onda de calor me invade. Orgulho. De certa forma, nós éramos colaboradores. Eu era a mão. Ele era a visão.

A memória é tão vívida que quase consigo sentir o cheiro da terebintina. É um alívio bem-vindo do ar estéril e com cheiro de alvejante. Isso é o que fazemos aqui dentro. Revisitamos a galeria das nossas obras. É tudo o que temos.

O calor se esvai tão rapidamente quanto veio. O frio da cela se infiltra novamente nos meus ossos.

"Eles vão nos matar, Silas," eu digo. As palavras são vazias. Sem emoção.

"Eles vão tentar," ele corrige, sua voz se afiando. 

"Mas eles não podem me matar. Eu não estou aqui com você. Você está aqui comigo. Eles apenas nos deram... tempo de qualidade. Ininterrupto."

Ele se move. Sinto-o mudar do canto para um lugar bem na minha frente. Uma pressão no ar.

"Olha para você," ele diz, e agora sua voz está carregada com um desprezo que é inteiramente meu. "Se apiedando. Sentado na sua própria sujeira. Você é um artista. Um purificador. E está choramingando porque o mundo finalmente te colocou em uma moldura."

"Eu não estou choramingando."
"Não está? Por dentro? Você sente falta de lá de fora. Da caçada. Da sensação da chuva no seu rosto. Do som de um batimento cardíaco desacelerando sob seus dedos."

Eu sinto. Deus, como eu sinto. O vazio deste lugar é um vácuo, e está sugando tudo o que eu sou, deixando apenas a casca oca para Silas morar.

"Eles venceram," eu suspiro.

A reação é instantânea. Um rosnado psíquico, um flash de raiva pura, não diluída, que não é minha, mas é.

"VENCER? Isso é um intervalo! A plateia está inquieta. Eles viram o primeiro ato, mas a peça não acabou. O melhor ainda está por vir."

"Como?" Eu gesticulo ao redor da tumba branca e sem feições. "Como, Silas? Não há nada aqui!"

"Há você," ele sibila, a pressão se intensificando, inclinando-se para o meu rosto. "Há eu. Há esta tela perfeita e imaculada. Eles nos deram o desafio definitivo. Sem ferramentas. Sem sujeito, a não ser nós mesmos. Sem meio, a não ser o tempo."

Um pavor frio, mais frio que o chão, começa a rastejar pela minha espinha. "Do que você está falando?"

"Um artista precisa se adaptar," ele diz, e sua voz agora está pingando com uma razão terrível e exultante. "O mundo lá fora está fechado para nós. 

Muito bem. Nós nos voltamos para dentro. A maior obra-prima é o próprio ser. A purificação máxima... é da fonte."

Eu finalmente entendo. A galeria não é uma memória. É uma proposta.

"Não," eu sussurro, puxando os joelhos para o peito. 

"Não, eu não vou."

"Você vai," Silas diz, e sua voz é a mais reconfortante que já foi. É a voz da certeza absoluta. "Porque eu vou te mostrar como. Porque será lindo. Porque é a única coisa que resta a fazer."
Ele começa a descrever. Em detalhes meticulosos e amorosos. A geometria. A composição. A forma como a luz disponível vai brincar com as novas texturas. A poesia de usar o ralo. A declaração profunda de fazer o recipiente se tornar o conteúdo.

Eu tapo os ouvidos com as mãos. É inútil. Ele está aqui comigo.

"Eles acham que enjaularam o animal," ele sussurra, suas palavras rastejando pelas fissuras da minha mente. "Eles não fazem ideia de que penduraram a pintura em um cofre. Mas nós os faremos ver. Quando eles abrirem aquela porta, não encontrarão um monstro. Encontrarão nossa magnum opus. Encontrarão uma coisa de uma beleza tão terrível e de tirar o fôlego que eles finalmente, finalmente entenderão."

Eu estou balançando agora. Para frente e para trás. Para frente e para trás. As paredes brancas estão se fechando. A luz é forte demais. Está destacando cada falha, cada poro, cada ponto de partida em potencial.

"P-para," eu imploro. "Por favor."

"Shhh," Silas acalma. "Não lute. É a única saída. A única maneira de vencer. É o último, o maior, o mais puro trabalho. Nossa obra-prima em monocromático."

Ele me mostra. Ele pinta a imagem na minha mente, pincelada por pincelada terrível. E a pior parte, a parte que realmente me quebra, é que eu consigo ver. Consigo ver a beleza naquilo. A harmonia perfeita e silenciosa.

O artista em mim desperta. Ele empurra o medo para o lado. Ele estuda a composição. Ele aprova.
O balanço para.

Eu lentamente abaixo as mãos dos meus ouvidos. Olho para as paredes brancas não como uma prisão, mas como uma demão de primer. Olho para o ralo não como um ralo, mas como parte da instalação. Olho para as minhas próprias mãos — as ferramentas, os pincéis.

Uma calma estranha se instala sobre mim. O silêncio felpudo recua, substituído pela quietude focada de um estúdio antes do trabalho começar.
Silas está certo. Eles não nos venceram. Eles nos deram nossa maior encomenda.

Eu me levanto. Meu coração não está acelerado. Ele está firme. Um metrônomo.

Caminho até a parede mais clara, sob o centro da luz. Coloco minha mão contra ela. É fria. Pronta.
Eu me viro e olho para a porta. Para o olho escondido que eu sei que está ali.

E eu sorrio.

O espetáculo está prestes a começar.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Há um Motivo para Não Queimar Bruxas

Deixa eu começar dizendo que eu sempre fui bem honesta sobre o que sou. Nunca tive vergonha do que eu sou, do que minha mãe era, minha avó; e uma longa linhagem de mulheres que remonta ao que parece o início dos tempos.

Eu sou uma bruxa. Sempre pratiquei, sempre tive poder; e nem uma vez na vida eu machuquei outro ser vivo. Nem uma vez, apesar do que qualquer um possa dizer.

Há vários anos, eu vi uma camiseta que uma moça jovem estava usando em uma rara ida à cidade. Dizia: “Eu sou descendente das bruxas que vocês esqueceram de queimar.” Aquela camiseta me fez rir. Acabei comprando uma pela internet na biblioteca pública. Eu não tenho internet em casa, sabe como é.

Eu me tornei uma eremita autoimposta há décadas. É o melhor assim, eu fiz uma escolha, e tenho que me ater a ela. Lá nos anos 70, quando eu ainda era relativamente jovem, algo sombrio chegou à nossa cidade. Nem eu consegui descobrir de onde veio. Nem minha mãe, nem minha avó, nem nenhum membro do nosso pequeno coven conseguiu entender a origem dessa coisa. Independentemente de onde veio, ela chegou aqui.

Nós nos demos conta dessa coisa sombria pela primeira vez quando a primeira criança desapareceu. O menininho apareceu depois, morto, drenado e emaciado como uma casca seca de cigarra. Nós fomos as primeiras a ser acusadas, claro que sim. Se havia qualquer coisa, de chuva a neve, passando por alguém com uma acne braba, todo mundo na cidade apontava o dedo pra nós. Alguns faziam de brincadeira, outros por hábito, e alguns com ódio puro e malicioso.

Edith foi a primeira a sentir a presença da coisa. Eu ainda lembro daquela noite. Nós tínhamos nos reunido para um chá, nada de negócios de bruxaria, foi uma tarde de chá deliciosa; quando a pobre senhora apertou seus colares de pérolas e deu um suspiro como se tivesse visto um rato.

“Você está bem, Edith? O chá tá quente demais?” minha mãe perguntou baixinho.

Mas eu sabia que ela suspeitava que não era o caso. Não com o jeito que os olhos dela se estreitaram ao olhar para a mulher de meia-idade.

“Não! Meu Deus do céu. Algo chegou à nossa cidade. Eu senti ele passando como um vento frio pela minha espinha. Algo perverso.” Lágrimas nos olhos dela enquanto falava.

Minha mãe assentiu e derramou seu chá, lendo as folhas de chá enquanto o resto de nós observava com expectativa.

O rosto dela ficou sério ao ler o que as folhas de chá encharcadas de água tinham a dizer.

“Minhas queridas senhoras, temos trabalho pela frente”, minha mãe disse, se levantando e limpando as mãos no avental enquanto ficava de pé.

E nós nos pusemos a trabalhar. Dia e noite, cada uma de nós usando nossos talentos particulares não só para rastrear a coisa, mas para encontrar uma forma de contê-la.

Constance lia seus tomos e textos antigos. Mary rastreava a besta até sua toca usando suas habilidades de adivinhação. Minha mãe e minha avó tinham seus feitiços e poções, e eu ajudava. Meus dons eram com sonhos e sua interpretação. Passei muitos dias dormindo profundamente, em um torpor induzido por remédios, para tentar descobrir o que pudesse sobre esse intruso.

Tudo o que eu consegui aprender era que ele era antigo. Talvez em algum momento tenha sido adorado, foi invocado por aqueles com menos habilidade para fazer sua vontade, mas em vez disso matou seus supostos carcereiros e fugiu para o mundo; encontrando vítimas e sangue onde pudesse.

“Você tem um nome pra ele, Gretchen? Sem um nome para prendê-lo, nossa prisão não vai ser tão eficaz.” Minha mãe me perguntou, a voz cheia de preocupação e raiva. Felizmente, essa raiva não era direcionada a mim.

“Não, mãe. Nenhum nome. Ele tem muitos nomes, e os sonhos não revelaram o nome verdadeiro pra mim.” Eu disse baixinho.

“Não importa. A magia e os feitiços de contenção vão segurar. Embora nós mesmas fiquemos presas a ele até nossas mortes”, minha avó explicou. A voz dela estava velha e cansada depois de tantas semanas trabalhando magia. Ela parecia frágil como papel, e tão magra.

“E depois das nossas mortes, Elizabeth? O que acontece então?” Mary perguntou, a voz afiada e desgastada de paciência.

“Aí ele fica livre. A menos que a gente descubra o nome verdadeiro dele e o banha de onde veio”, minha avó disse com um encolherzinho de ombros.

“Um preço que a gente tem que pagar pra contê-lo. Ele tá matando crianças. E não vai parar até ter passado por toda vida inocente da cidade”, Edith disse, com os olhos cheios de lágrimas.

Nós armamos nossa armadilha. Foi fácil. Eu fui a isca voluntária pra coisa. Eu era a mais jovem, e mãe e avó me encheram de poções e tinturas pra me tornar mais apetitoso pra ela.

Nós o atraímos pra uma pequena caverna na nossa propriedade. Precisávamos de um lugar privado onde olhos curiosos não nos vissem, e mais importante, não perturbassem a coisa uma vez capturada.

Ele veio rápido, com seus pés sombreados. Não fez esforço nenhum pra se esconder, ele era a própria escuridão. Nenhuma presa escapava dele uma vez que ele punha os olhos nela.

Nessa altura, mais de uma dúzia de crianças e mulheres jovens tinham sido mortas. Mais culpa foi jogada aos nossos pés. Estávamos sendo ameaçadas na cara. Animais mortos eram jogados nos nossos quintais, tijolos com ameaças escritas eram atirados pelas janelas.

Quando eu senti a presença da coisa nas minhas costas, usei toda a força que tinha pra não correr. Nossa magia era forte, e sem que a coisa soubesse, ela já estava presa. Eu pude sentir o pânico dela quando percebeu que não conseguia sair da caverna. Ameaças sussurradas foram proferidas enquanto ela estendia a mão pra mim e descobria que não conseguia me agarrar.

Ele se contorceu, gritou e implorou, e prometeu todo tipo de bens e poderes mundanos se a gente o deixasse ir. Nós o ignoramos. Todas nós nos revezamos pra selar a pequena caverna com tijolos e argamassa. Não era tarefa fácil fazer isso na floresta, em terreno instável, mas nós conseguimos.

Quando o último tijolo foi colocado, nossos poderes ficaram atados à contenção dele, à vida dele e, com sorte, eventualmente à morte. Enquanto uma de nós estivesse viva, ele ficaria trancado atrás de sua prisão de terra e tijolos.

Mas aí nós começamos a morrer. Uma por uma, à medida que a velhice nos levava. Minha avó primeiro, seguida pela minha mãe. Constance se afogou em uma viagem à Flórida. Edith e Mary viveram até os noventa e poucos, mas o ceifador vem pra todo mundo no final.

Eu sou a última. Estou nos oitenta. Nunca me casei nem tive filhos, embora não tenha sido por falta de tentativa. Os boatos de que fui eu e meu coven que matamos aqueles inocentes tantos anos atrás nunca sumiram, só cresceram. E nenhum homem me quis. Estou sem amigos há muitos anos.

Eu tentei descobrir o nome verdadeiro da coisa, mas nada. Procurei em livros, vasculhei a internet e não achei nada. Procurei outras supostas bruxas e só me deparei com golpistas e mentirosos. Me sinto tão sozinha.

E agora eu tô morrendo. Nos últimos anos, o assédio piorou muito. Não consigo sair de casa com segurança, porque quando saio sou seguida e stalkeada. Fui ameaçada de morte, e hoje parece que eles cumpriram a ameaça.

Minha casa tá pegando fogo. As chamas estão se espalhando pelo meu corredor, e eu vejo a luz do fogo ficando mais forte. E tem fumaça, tanta fumaça!

Pela janela, eu ouço eles gritando. Gritando a mesma coisa que gente como eles grita há séculos.

“Queime a bruxa! Queime a bruxa!”

Eu caí no chão e tô tossindo. E eu tô com medo. Medo por mim e pelos outros, tem muita gente inocente que mora nessa cidade agora.

Eu sinto a coisa se mexendo agora. Sinto a antecipação dela. Assim que eu morrer, ela vai ficar livre, e os tijolos já começaram a cair.

Enquanto as chamas finalmente chegam à minha porta, eu sinto pena. Não tenho ilusões sobre a dor e o medo que essa criatura vai soltar nas pessoas dessa cidade. E eles estão prestes a aprender uma lição bem importante, uma que vai ser escrita no sangue dos filhos deles.

Há um motivo pra você não queimar bruxas.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Algo Dentro de Mim Não Para de Me Devorar

As pessoas dizem que estou doente. Psicótico. Que eu poderia machucar alguém.  
Isso não é verdade. Eu não machuco ninguém. 

Nunca fiz isso.  

É só que… as pessoas nunca me entenderam de verdade. Sempre digo que tem algo dentro de mim, algo que me consome por dentro. Essa sensação começou há alguns meses.  

Minha irmã mais velha e eu sempre fomos muito próximos. Contamos tudo um pro outro, sem segredos. Ela vivia falando do namorado dela — um cara na casa dos vinte anos, inteligente, com um bom emprego, aparentemente bonito — toda vez que conversávamos. Era óbvio que ela estava apaixonada por ele.  

Uma noite, ela me ligou com uma notícia incrível: queria se casar com ele. Fiquei radiante. Foi como se fosse um dos melhores momentos da minha vida.  

Alguns dias depois, minha irmã e o namorado dela conheceram meus pais. Tudo parecia estar indo bem — até ele mencionar a casta dele. Meus pais ficaram chocados. Ele pertencia a uma casta diferente da nossa. Eles não aprovaram. Disseram que não era certo os dois ficarem juntos. Minha irmã tentou de tudo pra convencer eles, mas nada adiantou.  

Nas nossas conversas por telefone, ela chorava muito, dizendo que meus pais não entendiam o amor que ela sentia pelo namorado. Então, um dia, minha mãe me ligou. Só conseguia ouvir os soluços dela. Não entendia o que tinha acontecido até ela explicar: minha irmã fugiu de casa e se casou.  

Fiquei feliz por ela, mas triste pelos meus pais. Eles estavam arrasados. No fim, acabaram expulsando ela da família. Tentei consertar as coisas, mas não tinha como sustentar a situação. Me obrigaram a cortar contato com minha irmã. Fiquei destruído, devastado por não poder mais falar com ela — tudo por causa de casta. Foi quando as coisas começaram a desandar.  

Alguns dias depois do caos, comecei a sentir uma dor abdominal. Não conseguia entender o motivo. Tomei analgésicos e tentei seguir em frente, mas a dor não passava. Pesquisei na internet, tentei remédios caseiros, mas nada funcionava. Fui ao médico — ele disse que eu estava bem e receitou uns remédios, mas eles não ajudaram.  

Duas semanas se passaram, e a dor continuava. À noite, eu ficava pelado na frente do espelho, procurando a causa. Procurava por hematomas ou feridas, mas nunca encontrava nada.  

Uma noite, minha mãe insistiu pra sairmos pra jantar. Éramos eu, minha mãe e meu pai. Os jantares agora eram vazios; ninguém falava nada. Meu pai chamou a garçonete e fizemos o pedido. Era o primeiro dia dela, então ela tropeçou um pouco no atendimento. Depois que ela saiu, minha mãe disse: “Uma garota da montanha — provavelmente de uma casta tribal.”  

Meu pai completou: “Eles não sabem de nada, então faz sentido que ela não consiga atender direito.”  

De repente, senti uma dor aguda no abdômen, como se alguém estivesse me socando. Corri pro banheiro e comecei a vomitar violentamente — primeiro comida, depois sangue. Muito sangue. O chão do banheiro ficou encharcado. Olhei no espelho: pálido, acabado. Tirei a camisa e vi uma erupção se espalhando pela minha barriga, uma que eu nunca tinha visto antes.  

Nos dias seguintes, fui a vários médicos por causa da erupção. Todos disseram a mesma coisa: não havia erupção nenhuma. Minha cabeça ficou cheia de perguntas. Tentei ignorar a dor, me distraindo como podia.  

Até consegui marcar um encontro pelo Tinder. Ela era doce, e combinamos de nos encontrar num bar. Conversamos sobre nossas vidas, interesses, trabalho. Por um momento, a dor sumiu. Mas aí ela disse que não conseguiu entrar na universidade dos sonhos dela por causa das cotas de casta — muitas pessoas com notas mais baixas tinham sido aceitas no lugar dela. O clima ficou estranho. Senti um formigamento na barriga, mas ignorei.  

Um músico começou a tocar, e as pessoas dançaram. Fui dançar com minha acompanhante. Enquanto me movia, começaram as visões: um homem negando recursos a outro por causa de casta, uma empregada sendo espancada por tocar na comida, um padre ateando fogo a um homem de casta inferior. Cada pessoa parecia pertencer a uma era diferente. Mesmo assim, continuei dançando, vendo atrocidades se desenrolarem em inúmeras variações — uma idosa jogando comida nas mãos de uma empregada, um pai permitindo que o filho namorasse apenas dentro da própria casta.  

De repente, uma dor excruciante me atravessou. Corri pro banheiro. A erupção tinha se espalhado pelo meu abdômen. Então eu ouvi: algo mastigando a carne dentro de mim. Desmaiei.  

Quando acordei, estava no meu quarto. Minha mãe disse que eu tinha desmaiado e me levaram pra casa. Escovei os dentes e olhei no espelho. A erupção ainda estava lá — na verdade, tinha se espalhado.  

Mais tarde, ouvi minha mãe falando com a irmã dela sobre um grupo de WhatsApp pra pessoas da nossa casta na cidade. Senti nojo. O som de mastigação dentro de mim continuava, roendo meu corpo. A dor era insuportável. Quis me matar. Voltei ao médico. Mesma resposta. Ele sugeriu que eu procurasse um psiquiatra. Mas eu não sou psicótico.  

Nos dias seguintes, o som de mastigação ficou mais alto. No começo, era só a dor — agora tinha som também. Tentei usar algodão nos ouvidos, fones de ouvido. Nada funcionava.  

Uma noite, apesar da minha agonia, minha família decidiu assistir a um filme sobre castas e crimes de honra. Todo mundo adorou. No caminho pra casa, meu pai disse: “Não entendo. Quase todo mundo é educado. Por que seguem o castismo? Não somos todos iguais?”  

Minha mãe completou: “Quem segue casta é um idiota educado. Não merece ser chamado de humano.”  

Meu estômago se contorceu de agonia. Pedi pros meus pais pararem no McDonald’s pra eu usar o banheiro. Lá dentro, me examinei. Meu torso estava infeccionado. Pus escorria de vários lugares. Minha pele tinha ficado cinza. A dor e a mastigação aumentaram. Um fedor horrível tomou o ar. Vomitei e me encarei no espelho com nojo.  

Recuperei o controle, voltei pro carro e fomos pra casa. Passei pomadas e cremes, mas nada adiantava. Então ouvi meus pais de novo:  

“A gente tem nossa casa, né? Vamos passar pra alguém da nossa casta. Forasteiros vão estragar tudo.”  

Não aguentei mais.  

Fui pra varanda, pronto pra me jogar, mas o que vi me paralisou: inúmeras pessoas lá embaixo, como zumbis, murmurando, separadas em grupos — alguns de castas superiores, outros de castas inferiores, cada um agarrado à sua casta. Minha mãe chamou meu nome. Virei. Ela parecia um zumbi.  

Sem pensar, peguei uma faca na cozinha e cravei na garganta dela. Meu pai gritou — ele também era um zumbi. Tirei a faca da minha mãe e esfaqueei ele, de novo e de novo, umas vinte ou trinta vezes, até tudo ficar quieto.  

Mas a dor não parou. Ficou pior, insuportável. Corri pro banheiro e comecei a cortar pedaços da minha carne, gritando enquanto o sangue cobria o chão. Eventualmente, pessoas invadiram o lugar e me arrastaram dali.  

A próxima coisa que lembro é estar num quarto mal iluminado, sozinho. Acho que é uma ala psiquiátrica. Um homem vem às vezes e me diz pra escrever coisas como essa.  

Mas eu não sou psicótico.  

O pior de tudo é que dói. Ainda dói pra caralho.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon