domingo, 2 de novembro de 2025

Fui ensinado a prender a respiração quando passava de carro por um cemitério. Agora sei o porquê

Um hábito que aprendi quando era criança: prender a respiração se eu estivesse num carro que estivesse passando por um cemitério. Não lembro quem me contou, mas lembro que era algo que eu e meus amigos seguíamos religiosamente na infância, não importava quem estivesse dirigindo ou pra onde a gente ia. E se as janelas do carro estivessem abertas, era pânico geral pra enrolar todas pra cima antes que as rodas chegassem na entrada do cemitério. Naquela época eram as janelas de manivela manual. Aquelas que exigiam toda a força de criança magricela que eu tinha pra fechar. Mas nesses momentos elas sempre conseguiam fechar na hora H.

Não sei se algum de nós sabia por que a gente fazia isso. Eu com certeza não sabia.

Mesmo assim, é um hábito que mantenho até hoje, mesmo com o meu trigésimo aniversário batendo na porta. Não é que eu tivesse grandes planos pro meu aniversário, mas teria sido legal poder comemorar.

Lembro de tomar a decisão concreta quando tirei minha carteira de motorista: eu ia continuar jogando o jogo nem que fosse só por mim mesmo. Às vezes o hábito parece bobo de admitir, mas minha mentalidade sempre foi “melhor prevenir do que remediar”. Se tem mais gente no carro, eu sou discreto. Bem menos fanfarra do que quando eu era criança. Só uma inalada grande enquanto os pneus continuam deslizando na estrada. Eu subo as janelas casualmente, como se não fosse nada demais. Talvez como se eu tivesse visto um inseto que não queria que entrasse no carro.

Mas nem sempre dá pra prender a respiração a tempo, né. Eu nem sempre vejo o cemitério até estar bem no meio dele. Paro de respirar na hora que percebo por onde tô passando, mas aí já parece tarde demais. Até dois dias atrás, eu não sabia as consequências. Agora sei.

Foi porque me mudei pra uma cidade nova que tudo isso aconteceu. Eu não sabia que as estradas secundárias que levavam à loja de artesanato tinham tantos cemitérios. Era da minha natureza simplesmente evitar esse tipo de estrada, pegar a rodovia mesmo se tivesse mais trânsito.

Eu tava sozinho indo buscar material pra um dos meus muitos projetos de artesanato. Eu devia ter dado meia-volta quando vi que a estrada em que eu ia ficar por sete quilômetros não tinha nada além de curvas, espaço aberto e grama. Não tinha ninguém no carro pra questionar minhas ações. Eu devia ter sacado que, descendo aquela estrada sinuosa, ia ter vários cemitérios. Mas me disse pra não ser ridículo. Um jogo de criança não devia me impedir de pegar o caminho mais rápido pra algum lugar.

Meu outro erro foi deixar as janelas abertas. Nesse ponto já era um ato de desafio. Eu sabia que ia ter cemitérios, mas me recusei a reconhecer antes que eles aparecessem. Claro que hoje em dia as janelas sobem bem mais rápido com botão elétrico, mas aparentemente não rápido o suficiente.

Eu nem percebi que algo estava errado até o dia seguinte. Acordei grogue, esfregando o sono dos olhos enquanto cambaleava pelo corredor até o banheiro. Meus olhos estavam saltados e injetados, como se algo tivesse pressionado por dentro do meu crânio, tentando sair pelos olhos. Um filete fino de sangue seco de algum momento da noite tinha grudado no meu pescoço. Segui a trilha de volta até a orelha direita, como se algo tivesse tentado forçar saída por ali. Meu nariz estava inchado, e a pele do meu rosto queimava ao toque, como se estivesse lutando contra algum tipo de infecção.

Mas antes de ir mais longe, preciso voltar ao ponto central. O evento em si. Então, como eu disse, eu tava dirigindo numa estrada desconhecida com aquela coceira familiar subindo pelas costas, aquela que me dizia que ia ter um cemitério em cada curva. O motivo de eu não ter visto logo de cara foi porque meu celular me distraiu. E antes que você torça o nariz pra mim, eu sei que não devia olhar pro celular dirigindo, mas eu tava esperando uma atualização importante do trabalho. O irônico é que nem era a atualização que eu esperava.

Era minha irmã em crise. Ela vive em crise, mas normalmente as crises dela não me afetam tanto assim. Normalmente não se transferem como uma maldição esperando engravidar a próxima pessoa. Cliquei na mensagem e vi uma parede de texto azul com um monte de pontos de exclamação e carinhas bravas. Foi por isso que não percebi que meu carrinho vermelho tinha cruzado o plano. Eu nem tava lendo a mensagem. Fechei o app de mensagens verdes quase na hora. Só queria ter certeza de que não era algo grave, algo que realmente precisasse ser resolvido naquele momento.

É difícil descrever pra vocês o surto de medo que desceu pela minha espinha quando voltei a olhar pra estrada. Claro, parei de respirar na hora. Sim, apertei os quatro botões das janelas assim que meus dedos soltaram o volante. Acabou em meros segundos. Num momento eu tava no meio de passar por um cemitério e no seguinte o momento passou.

O sol entrava queimando no carro e começou a cozinhar tudo lá dentro agora que não tinha como escapar. Mesmo com o momento passado, eu não queria baixar as janelas de novo, como se eu pudesse ganhar favor dos fantasmas se continuasse seguindo as regras. Mas óbvio que eu tinha que respirar em algum momento e soltar o ar logo depois.

Continuei respirando e cozinhando dentro do carro, o ar-condicionado temporariamente quebrado. Eu tinha todas as ferramentas pra trocar o motor do ventilador, a peça que tinha pifado na semana passada, mas como era um dia bonito achei que podia esperar. Então essa era a razão do suor escorrendo pelas costas, pura preguiça.

Mas eu sabia que não podia ser descuidado e baixar as janelas de novo. Fiz a curva devagar e me deparei com outro cemitério. Esse eu consegui me preparar; dava pra ver um pouco adiante. Consegui dar aquela inalada profunda que precisava antes de passar por ele. Nem me importei de estar assando como frango de padaria porque eu tava seguro. As janelas fechadas e a falta de respiração me mantinham seguro.

Você acharia que eu tô mentindo se eu dissesse que encontrei outro cemitério a uns dois quilômetros e meio na mesma estrada? Juro que foi o último, mas eu não inspirei ar fresco, sem circular, até estacionar e escancarar a porta quinze minutos depois. Aquelas respiradas foram algumas das mais gostosas que já dei; o ar outonal bateu nas minhas narinas de um jeito tão fresco, tão limpo. Talvez esse tenha sido meu erro — fui ganancioso demais com o ar do outono.

A mensagem que arruinou minha vida? Sei que alguns de vocês devem estar curiosos. Era porque o namorado atual dela, o cara com quem ela tinha saído duas vezes, não gostava de gatos. Dá pra chamar alguém de namorado depois de dois encontros? Ela morava sozinha com dois gatos, Canela e Açúcar, então claramente esse relacionamento nunca ia dar certo. Ela tava indignada que alguém pudesse odiar gatos, especialmente o cara dos sonhos dela. Bom, acho que ele não era mais o cara dos sonhos.

Quando paguei na loja de artesanato, eu já tinha quase esquecido da aventura no caminho até lá. Como eu disse, não percebi as consequências. Até ontem de manhã era só um joguinho bobo de criança. E sim, respondi a mensagem da minha irmã com todas as platitudes certas tipo “como ele ousa” e “você merece coisa melhor”. Quando penso nisso agora, eu peguei um caminho diferente pra voltar, se foi consciente ou subconsciente, aí é discussão. Não tinha cemitério nenhum no caminho de volta, pelo menos nenhum que eu tenha visto.

Isso foi há dois dias, quase quarenta e oito horas exatas. A maior parte do meu cabelo caiu. Tô digitando com um dedo só, o único que ainda tem unha. Pelo menos é o indicador. Pequenos milagres e tal. O resto caiu ontem à noite. Encontrei eles grudados no lençol. Unhas dos pés também. Sumiram.

Tentei ditado por voz no computador, só pra descobrir que não tenho mais voz. Só saía um som de engasgo estrangulado. Acho que faz sentido. Quando olhei no espelho, meu peito tava afundado — o pescoço enrugado, todas as dobras da traqueia e do esôfago visíveis sob a camada fina de pele.

Tô começando a deixar manchas de sangue no teclado. Acho que essa unha não vai durar muito mais. Acho que devia ir logo ao ponto. Acho que já passou do ponto de pedir ajuda. Então isso virou um daqueles posts de alerta. Sabe, aqueles que te mandam tomar cuidado, sempre olhar atrás da esquina, acender a luz antes de dormir — nesse caso, sempre checar se tem cemitério. Nunca tirar os olhos da estrada.

Tem tanta pergunta que vai ficar sem resposta. E o ar-condicionado ou o aquecedor? Os fantasmas entram se você ligar isso? Foi a janela aberta ou as janelas nem importam? É todo cemitério? Todo fantasma? Tem que estar dirigindo? Não tenho tempo pra responder nenhuma dessas. Já tô infectado, possuído, assombrado, ou seja lá o que for isso.

Vocês podem testar todas essas teorias se quiserem. Não sei se recomendo. Outro dente caiu da minha boca agora há pouco. Acho que só tenho dois sobrando. Tá difícil manter a mandíbula fechada; tô tentando impedir que o sangue escorra. Não tá funcionando. O teclado tá escorregadio agora.

Minhas respirações estão mais rasas. É como se eu não conseguisse recuperar o fôlego. Meio irônico, como se os fantasmas ainda estivessem roubando o ar dos meus pulmões. Como se eu ainda estivesse passando de carro por aquele cemitério.

Acho que só tenho mais alguns momentos. O suficiente pra postar isso. Fico imaginando o que minha família vai pensar quando eu não atender as ligações. Fico imaginando quanto tempo vai levar pra eles encontrarem meu corpo. Fico imaginando se vou ter um corpo pra deixar pra trás.

sábado, 1 de novembro de 2025

Os Faróis

Girei a chave até o tambor encaixar com um estalo bem audível, depois puxei a maçaneta por via das dúvidas pra garantir que as portas estavam trancadas antes de virar e caminhar até o meu carro solitário no estacionamento mal iluminado. Tinha sido um dia daqueles, e eu tava mais do que pronto pra voltar pro meu trailer e apagar.

Entrei no meu velho Caprice Classic 92, o calcanhar encontrando fácil o buraco no assoalho embaixo do acelerador no escuro, e dei partida. A rodovia tava escura e vazia enquanto eu virava pro norte rumo de casa, longe das cidades maiores e mais agitadas, mergulhando na imensidão rural que eu chamava de lar. Liguei o rádio capenga com uma caixa só funcionando e deixei a música pop chiada encher o carro enquanto dirigia. A escuridão líquida escorria lá fora, quieta, só interrompida de vez em quando pela luz de um poste em estacionamento de comércio vazio ou outdoor.

Eu acabava de descer do viaduto quando avistei os faróis ao longe.

Em qualquer outra noite, esses faróis teriam passado batido. Eu costumo entrar num transe dirigindo pra casa depois do turno noturno no varejo e não reparar em quase nada, mas esses faróis chamaram atenção. Eram fracos, quase laranja, e tinha algo neles que gritava antigo e deslocado quando meus olhos deslizaram pelo brilho distante no retrovisor. Com todos os LEDs cegantes na estrada hoje em dia, aquelas bolas alaranjadas pareciam até sem graça em comparação.

Quando parei no acostamento pra entrar na minha estradinha, dei outra olhada no retrovisor e vi que ainda tavam lá, mas na mesma distância de quando notei pela primeira vez.

“Alguém aí curtindo um rolê tranquilo ou tá bêbado e não quer chamar atenção”, pensei com ironia enquanto entrava na garagem e seguia pro trailer.

Eu tava redondamente enganado.

O dia seguinte terminou igual ao anterior: tranquei tudo em silêncio, dei boa-noite pro meu funcionário de meio período e cada um foi pro seu lado. Ela já tinha sumido de vista quando eu saí pra rodovia e peguei o caminho de casa. Eu tava cantando baixinho junto com o rádio quando vi aqueles faróis de novo no retrovisor.

“Que porra é essa?”, pensei sozinho. Morando a uns 30 km do trabalho, a chance de ver o mesmo carro na mesma hora, de noite, duas vezes seguidas era… esquisita. A maioria do pessoal da região não fica na rua até tarde em dia de semana, e a rodovia costuma ser um deserto completo a essa hora. Então, achei bem estranho que o mesmo veículo tivesse, potencialmente, caído atrás de mim.

Os faróis foram se aproximando enquanto eu descia do viaduto, o brilho redondo e antiquado ficando mais nítido com a proximidade.

“Provavelmente algum aposentado dando uma volta no carrão antigo dele”, pensei sorrindo. A imagem de alguém da idade do meu avô rodando num carro que deve ter usado pra ir ao baile de formatura do colégio, com o vento bagunçando o cabelo na rodovia aberta e silenciosa, aqueceu meu coração.

“Força na peruca pra eles”, pensei.

Os dias seguintes foram mais do mesmo. Trancava tudo, pegava o caminho de casa e, toda vez que passava pro outro lado do viaduto, lá tavam os faróis. Parecia que se aproximavam um pouquinho mais a cada noite.

Comecei a ter muita dificuldade pra dormir. Meus sonhos ficavam cheios do cheiro de asfalto quente, cascalho rangendo embaixo de pneus girando e bolas alaranjadas queimando a escuridão. Acordava encharcado de suor, sentindo como se tivesse corrido uma maratona dormindo. Nunca na vida desejei tanto descansar, mas seguia em frente. As contas não iam se pagar sozinhas, afinal, e amanhã era o último turno antes de três dias abençoados de folga.

“É só aguentar amanhã”, eu me dizia. “Você consegue.”

Os faróis apareceram de novo no caminho de volta, mas hoje era diferente.

Hoje, quando parei no acostamento pra entrar na minha estrada, eu vi o motorista.

Era um homem magrelo com um chapéu escuro que mantinha o rosto na sombra. Ele ergueu a mão e tocou a aba do chapéu. Peguei um vislumbre do sorriso pálido e fino dele enquanto passava. Um arrepio desceu pela minha espinha quando vi as lanternas traseiras sumindo na rodovia pelo retrovisor enquanto eu entrava na minha estradinha.

Não sei exatamente o que me deixou tão inquieto com essa novidade, mas parecia que o cara me conhecia. Não conseguia lembrar dele, mas era como se a gente já tivesse se encontrado antes, tipo um sussurro fraco lá no fundo de uma igreja vazia que eu não conseguia identificar.

Virei e mexi a noite toda e acordei sentindo como se nem tivesse deitado. Me arrastei pro trabalho e fiz o possível pra sobreviver a doze horas longas, longas de varejo. Quando tranquei tudo e cheguei no carro, parecia que tava sonâmbulo.

Tava tão fora de órbita que quase cheguei na minha estrada antes de notar os faróis se aproximando do meu lado.

Meu corpo inteiro deu um salto quando reconheci o motorista e o chapéu escuro de aba larga. Os LEDs fortes que vinham na direção contrária iluminaram a curva triste do sorriso dele no momento em que o caminhão de dezoito rodas esmagou meu velho Chevy.

Meus faróis cederam a metal rangendo, retorcido e asfalto quente soltando vapor enquanto o homem do chapéu escuro no carro escuro seguia pela rodovia, as lanternas traseiras um sussurro vermelho na noite quieta enquanto ele deslizava de volta pra escuridão.

Não tem luz lá dentro...

Quando eu tinha treze anos, saí pra pedir doces ou travessuras com meus dois últimos melhores amigos, Stilly e Paul. A gente não tinha ido no ano anterior porque, quando tínhamos onze, nosso outro melhor amigo, Mark, sumiu. 

Tinha rolado uma briga naquela noite — a gente devia voltar pra casa até as nove, e o Mark queria continuar batendo de porta em porta pra pegar mais doce. O Stilly teria topado qualquer coisa, mas eu e o Paul éramos certinhos. A gente quase nunca se metia em encrenca, e isso incluía ficar na rua depois do horário. Eu lembro de pedir pro Mark voltar com a gente, mas ele e o Paul tinham ficado se xingando, e ele ainda tava puto. Então ele mostrou o dedo do meio pra gente, fez um barulhinho de galinha e foi embora na direção oposta do nosso bairro. 

Ninguém nunca mais viu ele depois disso.

Procuraram por meses, claro. Polícia investigou, os pais dele colaram cartazes e apareceram em programas de TV locais, essas coisas. E eu fui interrogado várias vezes porque era o único que tinha recebido qualquer mensagem dele. Era no meu celular — meus pais tinham acabado de me dar dois meses antes, quando eu comecei o sexto ano, e o Mark era o único amigo meu que também tinha um. Naquele Halloween, eu esperei até as dez pra mandar uma mensagem pra ter certeza que ele tinha chegado em casa. Foi quando eu peguei o celular que ele acendeu com uma mensagem curta do número dele.

Encontrei uma Casa nova. 

Eu não fazia ideia do que ele tava falando, e mandei mensagem de volta perguntando. Nada. Perguntei se ele tinha chegado em casa, mas nunca mais veio nada. Só no dia seguinte de manhã que eu soube que algo tava realmente errado e contei pros meus pais sobre a mensagem.

Desde então... bom, tudo parecia vazio. Nossos pais não queriam que a gente saísse no Halloween do ano seguinte, e a gente não brigou muito pra ir. Até esse ano, foi meio sem graça. Minha mãe praticamente me empurrou porta afora, talvez achando que sair com os outros amigos de novo, mesmo no Halloween, ia me ajudar a superar tudo. No fim das contas, eu só andava quieto enquanto o Paul e o Stilly discutiam sobre algum seriado que tavam assistindo.

A gente parou em algumas casas e pegou doce, sim, mas sem combinar nada, nosso caminho evitou alguns dos nossos points antigos e entrou em bairros que eu conhecia, mas nunca tinha ido pedir doce. Olhando pro céu, eu franzi a testa. Tá escurecendo, e eu sabia que meus pais queriam a gente de volta logo.

“Então, vocês querem começar a voltar pelo caminho que a gente...”

“Olha isso aí. É novo.”

Eu olhei pro Paul e depois pro que ele tava encarando. Era uma casa grande e velha, agachada no canto mais distante do bairro que a gente tava saqueando sem ânimo. Eu levantei a sobrancelha pra ele.

“Essa casa parece velha pra caralho.”

O Paul deu de ombros pra mim. “Pode ser, mas eu te juro que ela não tava aqui da última vez que passei por aqui. Nunca teve.” 

Eu olhei pro Stilly, que copiou o dar de ombros do Paul. “Tipo, eu também não lembro dela, Gillian. A namorada do meu irmão mora na rua de baixo, e eu nunca lembro de algo assim aqui.”

Franzindo a testa pra ele, eu continuei andando mais perto da casa, estudando o máximo que dava na penumbra que crescia. Eu também não lembrava dela, mas e daí? A casa não tinha brotado do nada como erva daninha. Parecia que tava ali há anos. 

“Talvez alguém tenha mudado ela de lugar? Tipo, eu tive um tio que mudou a casa dele pra outro condado quando ficou puto com meus avós. Tipo, mandou um caminhão mudar aquela porra toda.”

Eu assenti distraidamente enquanto continuava encarando a casa. “Tipo, talvez. Mas tá tudo crescido. Por que alguém mudaria ela pra cá há pouco tempo e depois não cuidaria do quintal nem nada? Parece tão...” Eu parei quando a porta da frente se abriu e alguém saiu.

Era o Mark.

“Jesus... É você mesmo?” O Paul já tava correndo na direção dele, e o Stilly não ficava muito atrás. Eu também tava andando pra frente, mas mais devagar. Parecia que eu tava me mexendo debaixo d’água, cada passo lento, flutuante e estranho, com um zumbido e pressão na cabeça e nos ouvidos. Eu quase cheguei onde o Paul e o Stilly tavam abraçando o outro garoto freneticamente antes de perceber que tava chorando. 

“... que porra, cara?”

“... te sequestraram?” 

“... você precisa de um médico do caralho ou algo assim? A gente pode chamar a polícia e...”

Eu estiquei a mão pra tocar nele, mas algo me fez hesitar. Ele tava sorrindo pra eles, até rindo um pouco, mas não respondia nada. E os olhos dele... quando encontraram os meus, pareciam estranhos.

Baixando a mão, eu dei um passo pra trás. “Onde você tava?”

O rosto dele ficou sério e ele me deu um aceno pequeno. Virando-se, ele gesticulou pra porta entreaberta que tinha acabado de sair. “Eu tava com ele.” 

Nas sombras além da porta, eu via uma forma se mexendo. Podia ser truque da escuridão, mas parecia um pedaço de preto se movendo contra o preto, tipo riscos animados apagando um pedaço da realidade. Meu cérebro torceu só de olhar, um medo febril subindo da barriga, tentando escapar num grito.

E aí o terror sumiu. Pelo canto do olho, eu notei vagamente o Paul e o Stilly fazendo o mesmo, ficando tensos enquanto começavam a recuar ou correr, só pra parar de repente e relaxar de novo. Uma parte de mim sabia que era errado, que tudo isso era errado, mas eu não conseguia agarrar o sentimento ou a ideia. Era tudo muito macio e escorregadio. E aí o Mark tava falando de novo.

“O nome dele é Sr. Krinkle. Essa é a Casa dele.”

Eu via as palavras na minha cabeça enquanto ele falava. Krinkle como papel amassado, mas com K. Casa com maiúscula, igual na mensagem dele dois anos antes. Tinha um peso quente nelas enquanto elas entravam no meu cérebro.

“Ele convida vocês pra entrar também.”

Algo em mim congelou. Eu ainda não tava com medo, mas a sensação de que algo tava muito errado cresceu mais forte enquanto o resto da minha capacidade de correr ou resistir fisicamente escorria. Provavelmente eu parecia calmo por fora enquanto via o Mark pegar a mão do Stilly e levar ele pra dentro da casa, fechando a porta atrás dele. Mas por dentro eu tava gritando.

Mesmo depois que eles sumiram, eu e o Paul não nos mexemos de verdade. Não falamos. Só ficamos ali como lápides nas sombras que aprofundavam, esperando... bom, esperando a nossa vez.

Meus pensamentos patinavam no meu crânio, terror correndo junto com meus instintos pra entender e sobreviver. Era mesmo o Mark? Parecia com ele e... sim, eu achava que era ele, embora ele tivesse mudado. Parecia maior e mais velho, igual o resto de nós, e tava vestindo roupas que eu nunca tinha visto ele usar. Não era fantasia, talvez, só um moletom escuro? Eu não tinha certeza, tudo tinha acontecido rápido demais.

A porta se abriu e o Stilly saiu, seguido pelo Mark. Num relance, pareciam os mesmos de quando entraram, mas não era verdade. O rosto do Stilly, os olhos dele, não eram mais macios, doces e inseguros. E quando ele sorriu, tinha uma dureza que não existia antes. 

“É foda, gente. Não se preocupem, não é tão esquisito quanto parece.” O Stilly já tava esticando a mão pra pegar o Paul quando o Mark parou ele.

“Ainda não. É cedo demais pra você. Eu faço. Só assiste.”

Eu tentei gritar, pra avisar o Paul ou implorar pro Mark, mas nada saía. O Mark pareceu sentir e olhou na minha direção antes de baixar os olhos e pegar o braço do Paul. Sem mais uma palavra, ele levou ele pra dentro, pro negócio preto que esperava lá.

O Stilly ficou do lado de fora, mas não fez mais aquela coisa nervosa de falar demais. Não disse uma palavra. Só me encarou com aquele sorriso filho da puta.

Foi a mesma coisa quando o Paul voltou. Eu era a única que sobrou, e quando o Mark atravessou o quintal até mim, eu senti minha garganta apertar enquanto tentava falar de novo. Já tava completamente escuro, e o rosto dele só dava pra ver vagamente na luz de um poste distante.

“Vem, Gill. Eu te levo lá dentro e mostro. Você precisa ver. É uma coisa do caralho.” Ele deu aquele mesmo sorriso duro que os outros usavam enquanto pegava minha mão.

Algo naquele momento, quando ele pegou minha mão, eu senti o controle sobre mim afrouxar só um pouquinho — o suficiente pra eu soltar uma pergunta sem sentido que eu não esperava.

“Por que tá tão escuro lá dentro?”

Parecia uma pergunta idiota e vaga que podia significar mil coisas, mas de alguma forma eu sabia o que queria dizer e o Mark também. A expressão dele já tinha mudado um pouco quando tocou meus dedos, e agora o rosto dele desabou numa tristeza tão vazia que eu quis abraçar ele apesar do medo.

Com o que pareceu um esforço enorme, ele encontrou meus olhos. “Porque... porque não tem luz lá dentro, Gill.” O Mark olhou de volta pra porta da casa, aberta e esperando como uma boca faminta, e depois pra mim. Ele apertou meus dedos com força. “Você precisa correr agora. Precisa correr e nunca mais voltar aqui. E se um dia você vir essa casa de novo, qualquer hora, qualquer lugar, corre pro outro lado.” 

Ele me soltou e deu um passo pra trás. Eu fui pedir pra ele vir junto, pra nós quatro escaparmos juntos, mas ele já tava balançando a cabeça e articulando “corre” sem som. O Paul e o Stilly já tavam começando a notar que algo tava errado, e ele virou pra parar eles. Eu percebi que tava livre do que quer que me segurava, meu corpo já recuando enquanto o Mark olhava pra trás uma última vez. Ele não disse nada, mas eu ainda senti na minha cabeça.

Corre. 

Então eu corri. Corri pra casa, e quando cheguei, passei meia hora histérica tentando convencer meus pais de uma versão das coisas que eles entenderiam e acreditariam. Eu já sabia que nada ia ajudar, mas ainda tinha que tentar. E pra honra deles, em uma hora já tinha polícia e pais lá no fim da rua, procurando nossos três garotos. Diferentes pessoas me interrogaram durante a noite, e quando o sol tava nascendo, meus pais me levaram pra lá de novo. 

Tinha pais chorando, encarando com raiva, frenéticos na dor esperançosa e brava. Tinha policiais e voluntários, todos com a mesma cara de cansaço e frustração. E aí tinha minha mãe e meu pai, que nunca mais me trataram exatamente igual depois disso.

Não que eu culpe eles de verdade. 

Porque o lugar onde a casa tinha estado tava vazio — nenhum prédio ou garotos. Só um lote vazio e crescido, sem sinal de ninguém além de umas garrafas de cerveja quebradas na beira da grama. Claro que tudo tinha sumido. Eu sabia que ia ser assim. Ainda assim, eu tinha que tentar, né? E eu tive que omitir as partes mais importantes pra eles acreditarem em qualquer coisa. 

Naquele momento, com eles fazendo tantas perguntas, querendo me acusar de algo mas sem ousar de verdade, eu quis gritar a verdade pra eles, por mais terrível e impossível que fosse. Mas eu sabia que não ia ajudar ninguém e ia piorar tudo pra mim.

Então eu fiquei quieta. E quando fiz dezoito, me mudei e fui pra bem longe. Tenho trinta e três agora, e vi a casa mais cinco vezes.

Toda vez eu faço a mesma coisa.

Paro antes de chegar perto demais. Levanto a mão num aceno pequeno — saudação e despedida tudo junto.

E aí eu corro.

Minha Esposa Não Podia Ter Filhos. Mas no Dia em que Ela Morreu, Ela Deu à Luz..

Mia foi minha esposa por cinco anos. Eu nunca imaginei que encontraria o amor fazendo trilha, mas foi exatamente assim que aconteceu. Ainda consigo lembrar o momento: ela estava sentada num banco numa área de descanso, mexendo no cadarço puído das botas de caminhada já bem gastas. Eu me ofereci pra ajudar, e depois disso a gente continuou andando junto. Nem sei direito como as coisas rolaram depois, mas a gente se apaixonou, e três anos mais tarde nos casamos. Foi uma alegria pros dois, e até tivemos lua de mel. Eu nunca tinha me sentido tão feliz na vida.

Pelo menos, não até a gente decidir ter um filho. Foi aí que descobrimos que Mia não podia ter filhos. Os médicos diagnosticaram algum tipo de condição, ela era infértil, e seria impossível a gente ter um filho juntos. No começo, isso jogou uma sombra no nosso casamento, mas depois de mais três anos a gente concluiu que existia vida além de ter filhos. Decidimos simplesmente curtir a companhia um do outro, como sempre tínhamos feito.

Tudo finalmente voltou pro ritmo familiar que a gente tinha quando se conheceu. Até a primeira doença dela.

As coisas entre a gente tinham acabado de voltar ao normal, e tudo estava melhor do que em anos. A gente estava feliz e cheio de vida de novo. Aí Mia ficou doente. Não sei o que aconteceu com ela, mas ela ficava sempre fraca, cansada, sem energia. O humor dela virou monótono, sem graça. Era como se nuvens escuras tivessem se juntado em cima dela e não deixassem o sol passar.

A partir daí, era como se Mia não estivesse mais ali comigo de verdade. Ela foi ficando cada vez mais magra, e eu via cada vez menos consciência nos olhos dela. O corpo dela tinha ficado tão fraco que ela só andava com ajuda de bengala. Na maior parte do tempo, ela só ficava sentada ou deitada, como se a vida em si tivesse abandonado ela... ou como se a alma dela estivesse escapando devagar.

Ninguém conseguia nos dizer o que ela tinha. A gente foi em incontáveis médicos, passou por tratamentos sem fim, mas nada. Ou não encontravam nada, ou só chutavam o que poderia ser o problema. Mia mal falava comigo agora — não porque não conseguisse, mas como se não quisesse.

Eu até fui falar com os pais da Mia, torcendo pra que eles soubessem de algo, talvez ela tivesse tido problemas parecidos quando criança, ou quem sabe fosse alguma doença hereditária. Mas aí descobri que Mia tinha sido adotada. Os pais dela nunca contaram pra ninguém, nem pra ela. O acordo de adoção proibia explicitamente. Essa pista também foi um beco sem saída. Eu teria feito qualquer coisa pra melhorar ela, mas nada ajudava.

Por semanas eu cuidei dela, testando todo remédio, pomada e tratamento que os médicos sugeriam, mas nada funcionava. Na verdade, o estado da Mia só piorava. Ela virou tipo um esqueleto ambulante — o corpo inteiro reduzido a pele e osso. Eu tentava alimentar ela, até levei pra fazer soro na veia pra nutrir o corpo, mas era como se ela só emagrecesse mais. Ela mal conseguia arrastar os pés agora, e só dentro de casa; subir uns poucos degraus já a deixava exausta.

O que mais me preocupava era a queda de cabelo. Saía em tufos, descascando do couro cabeludo como se nunca tivesse crescido ali de verdade. Em poucos dias, o cabelo loiro lindo dela ficou marcado por placas carecas do tamanho da palma da mão.

Por mais que eu amasse a Mia, e por mais disposto que eu estivesse a cuidar dela pro resto da vida, eu estava começando a quebrar.

A gente ainda rodava de médico em médico. Devo ter ligado pra todos os cantos dos Estados Unidos, perguntando se alguém podia me dar uma dica, um tratamento, qualquer coisa, pra melhorar a Mia. A gente viajava de um lugar pro outro, e eu pagava — muitas vezes caro — por certos tratamentos. Mas nada dava resultado. Alguns tratamentos pareciam tortura pra Mia; outras vezes, não tinha nem o menor sinal de melhora. Eu estava completamente perdido sobre o que mais podia fazer.

O tempo passou assim até uma manhã em que eu acordei com Mia tossindo violentamente. Eu pulei da cama na hora, correndo pro lado dela. Eu temia o que podia ter dado errado de novo, e eu tinha razão de ter medo. Os dentes da Mia tinham começado a cair. Não todos de uma vez, mas um por um. Às vezes a gente acordava de manhã e encontrava um faltando; outras vezes ela perdia um durante o dia. Era uma visão horrível.

Nessa altura, o cabelo dela já tinha caído completamente. Comprei uma peruca pra ela pra que as pessoas não ficassem encarando se a gente saísse, e pra que ela se sentisse ainda bonita aos meus olhos. Mas na maior parte do tempo ela só ficava sentada ou em pé, sem graça, com a peruca escorregando pros olhos ou torta na cabeça. Ela estava careca agora, e quase sem dentes. O peso dela tinha caído pra uns trinta e poucos quilos, e os músculos tinham atrofiado tanto que ela mal conseguia se segurar em pé.

Ela parecia uma velhinha. Aos trinta e um anos, a minha Mia parecia uma bruxa encarquilhada de setenta. Mal dava pra reconhecer ela.

Um dia, porém, a doença da Mia deu outra virada. Feridas começaram a aparecer no corpo dela, de vários tipos, a maioria parecendo como se furúnculos tivessem estourado. Elas simplesmente surgiam do nada.

Foi aí que decidi que a gente ia tentar absolutamente tudo. Fomos em mais médicos, curandeiros, healers espirituais... Até levei um padre pra abençoar ela. Mas nada fazia diferença. O estado dela era terrível: feridas ulceradas cobriam ela da cabeça aos pés, ela mal andava, e até se mexer parecia sugar tudo que restava dela. Não tinha mais dentes, e todo o cabelo tinha ido embora.

Os médicos estavam de mãos atadas, ninguém conseguia me dizer o que era. Às vezes internavam ela por uns dias, mas nunca ajudava. Não tinha mudança.

Aí me disseram a coisa que eu mais temia: Mia não ia durar muito se as coisas continuassem assim. Mandaram eu passar o máximo de tempo possível com ela. Eu fiz tudo que pude, mas Mia estava além de salvação. O corpo dela estava sendo destruído.

E aí, numa manhã, chegou o momento que eu esperava, mas não do jeito que eu imaginava. Eu estava lá embaixo tomando café; Mia geralmente ficava na cama nessa hora. Um pouco depois, subi com comida pra ela, torcendo pra conseguir fazer ela comer algo. Tinha preparado um pratinho de legumes e batido no liquidificador pra virar um smoothie, achando que talvez ela conseguisse beber.

Mas quando abri a porta do quarto, o horror me recebeu. A cama estava encharcada de sangue. As pernas da Mia estavam cobertas dele, assim como o cobertor. Gritando, arranquei as cobertas dela, exigindo saber o que estava acontecendo agora.

O que eu não esperava era o bebezinho minúsculo deitado entre as pernas dela. Uma criança. Uma menininha. Mia tinha dado à luz uma bebê.

Não sei como processei tudo aquilo. Talvez nem tenha processado, talvez só tenha me convencido que sim. Mas a vida seguiu. Mia se foi. Ela sangrou até a morte ali na nossa cama. Fizeram autópsia, rodaram incontáveis testes e experimentos nela, ou Deus sabe o quê. Os médicos me disseram que ela não podia estar grávida. Não tinha um único sinal no corpo dela de que tinha carregado uma criança. E mesmo assim, o bebê estava perfeitamente saudável. Era como se Mia não tivesse dado à luz num estado horrível e agonizante.

Ninguém conseguia me explicar. Mas uma coisa era certa: essa criança era minha filha. Quando Mia e eu ainda planejávamos um filho, ela tinha dito que, se fosse menina, queria chamar de Elizabeth. Então, a partir daquele dia, ela era Elizabeth pra mim.

Criar uma criança foi brutalmente difícil. Sozinho, com o peso e o vazio que Mia deixou, acho que eu não teria conseguido sem ajuda profissional. Consultei um psicólogo; precisava falar com alguém sobre o que tinha acontecido com Mia. O começo foi incrivelmente duro, e os anos seguintes foram, se possível, ainda piores. Mas eu amava Elizabeth. Ela era nossa filha. E eu sabia que Mia ia querer que eu a criasse.

Eu nunca imaginei que criar um filho pudesse ser tão “fácil”. Elizabeth era o anjinho perfeito. Claro, eu tinha ajuda dos pais adotivos da Mia e da minha própria família. Mas Elizabeth era o tipo de criança que todo pai sonha. Dormia a noite toda, quase nunca chorava, só quando realmente tinha algo errado. Raramente ficava doente, comia tudo que eu dava, e birras eram completamente desconhecidas pra ela.

Os anos passaram. Eu não tinha muito tempo pra ficar remoendo o que aconteceu. Entre trabalho, casa e criar Elizabeth, meus dias eram cheios.

Quando Elizabeth fez oito anos, decidi arrumar um tempinho pra mim, ou melhor, pra minha vida amorosa. Comecei a namorar uma mulher chamada Linda. O filho dela era da turma da Elizabeth, e Linda também era mãe solteira. Ela se mostrou uma ótima companhia. Eu gostava dela.

Mas foi aí que as coisas começaram a mudar com Elizabeth. Naquelas poucas semanas em que eu via Linda, ela mal parecia ela mesma. Nos dias em que eu tinha encontros, ela fazia de tudo pra me impedir de sair ou pra me fazer ficar com ela em vez de ir com Linda. Continuou assim até que, um dia, ela cruzou a linha.

Uma noite, Linda e eu saímos, deixando Elizabeth e o filho da Linda com uma babá. Eles eram da mesma turma, pelo menos podiam passar o tempo brincando juntos. Mas Elizabeth não levou bem. Depois soube que ela passou a noite humilhando o filho da Linda, dizendo coisas horríveis sobre o que ia acontecer com ele e com a mãe dele.

O que acabou de vez com Linda, e fez Elizabeth não poder mais ficar na escola dela, foi um ato de violência brutal. Naquela noite, enquanto Linda e eu estávamos num restaurante chique, a babá me ligou, desesperada e gritando. Elizabeth tinha mutilado o filho da Linda. Ainda não sei exatamente como aconteceu, mas ela cortou três dedos dele com uma faca de cozinha.

Linda nunca mais quis me ver. E eu fiquei furioso com Elizabeth.

A partir daí, levei Elizabeth pra uma psicóloga infantil. Muita coisa foi diagnosticada. A especialista disse que o comportamento extremo da Elizabeth provavelmente vinha da ausência da mãe, e porque ela queria me ter só pra ela. Digamos que, a partir daí, tanto a psicóloga quanto eu trabalhamos pra ajudar Elizabeth a virar uma menininha comum. Mudei ela de escola, onde ninguém sabia do passado dela. E desisti de procurar um novo relacionamento.

Elizabeth sempre agia de forma estranha sempre que eu mencionava alguém que tinha conhecido ou estava conhecendo. Era como se ela não fosse ela mesma nesses momentos. Então deixei pra lá. Nos anos seguintes, éramos só nós dois de novo.

Quando Elizabeth fez doze anos, as coisas começaram a ficar ainda mais estranhas. A semelhança entre ela e Mia virou quase assustadora. Eu sei — ela era filha dela, afinal. Mas não era só a aparência. A personalidade tinha ficado quase idêntica. Ela ria do mesmo jeito, corava do mesmo jeito quando eu provocava. Usava o cabelo do jeito que Mia usava, e a cor parecia ficar cada vez mais loira.

Num dia de final de verão, tudo ficou claro. Estávamos comemorando o aniversário de treze anos da Elizabeth. Organizei uma festinha pequena pra ela e as amigas. Assei hambúrgueres pra elas no quintal, e elas nadaram na piscina. Depois da festa, eu estava na cozinha lavando louça quando Elizabeth veio por trás e me abraçou. Aí ela disse que ia tomar banho.

Quando ela se virou, juntando o cabelo castanho-claro na mão, eu vi a nuca dela. Tinha uma marca ali, tipo uma cicatriz antiga de cirurgia. Elizabeth nunca tinha operado nada. Mas Mia tinha. Ela me contou que ganhou numa acidente de bicicleta aos treze anos, um tombo que quase a deixou paralisada depois de cair no pescoço.

Como uma cicatriz idêntica estava na nuca da Elizabeth? Dias atrás não tinha nada ali. Como tinha aparecido?

Meus pensamentos dispararam. Fiquei paralisado na cozinha enquanto Elizabeth se afastava devagar. A ficha caiu como gelo: Elizabeth não era minha filha. E talvez... nem da Mia.

“Mia!”, gritei atrás dela quando ela chegou na escada. “O que é tudo isso, afinal esses anos?”

Elizabeth parou devagar. Não virou pra mim. Só ficou ali, uma mão no corrimão, um pé já no primeiro degrau.

“Não me chama assim, Jack”, disse ela, com tom de repreensão. “Eu sou Elizabeth agora.”
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon