segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Um cara me assaltou no mês passado. Ele não levou minha carteira, mas levou uma coisa que eu nunca vou conseguir de volta...

Escrevo isso porque não tenho outra forma de falar. O boletim de ocorrência da polícia só diz "agressão grave". Eles não entendem. Não podem entender.

Antes disso tudo, minha voz era a minha vida. Mais que a vida: era o meu propósito. Todo dia eu achava um canto nessa cidade imensa e indiferente e pregava. Sou jovem, sei como parece. Uns riam na cara, outros passavam correndo, mas alguns paravam pra ouvir. Nunca gritei fogo e enxofre. Falava de esperança, de achar luz nas rachaduras dessa selva de concreto. Minha voz era um sino. Forte, ressonante, um dom que eu achava que Deus tinha me dado pra dividir. Eu sentia as palavras vibrarem no peito, uma força física que eu jogava por cima de uma praça lotada, cortando o barulho dos carros e da multidão até alcançar quem precisava ouvir. Aquela sensação... era estar vivo de verdade.

Tudo acabou há um mês.

Era uma terça. Terminei tarde, garganta arranhada mas alma nas nuvens. Tive um dia bom; umas pessoas pararam pra conversar, pra desabafar. Voltava pra casa por um atalho que já fizera cem vezes. Um beco estreito, mal iluminado, que te cospe a um quarteirão do meu prédio. Sempre parecia um segredinho, um momento de silêncio entre o rugido da avenida e o zum-zum do bairro.

Naquela noite, o silêncio era outro. Pesado. Predatório.

Ele era só uma forma no fundo da sombra, no meio do beco. Só vi quando já tava em cima. Primeiro pensei num morador de rua, e minha mão foi automática pra carteira — não de medo, mas pra dar o troco que eu tinha.

"Deus te abençoe, irmão", comecei a dizer. As palavras morreram na garganta.

Não era morador de rua. Era... errado. Magrelo é pouco. A pele parecia grande demais pros ossos, esticada num esqueleto fino demais. Os olhos eram buracos negros na luz fraca. Tinha um cheiro também, de terra úmida e papel mofado.

Ele se mexeu mais rápido que eu consegui reagir. Num segundo era forma, no outro a mão dele tava cravada no meu braço. Gelada pra caralho, um frio morto que atravessava o casaco. Fiz o que qualquer um faria. Abri a boca e berrei.

Foi um berro bom, daqueles que nascem do medo puro, com toda a potência que eu botava nos sermões. Deveria ter ecoado nas paredes de tijolo e trazido gente correndo.

Mas não ecoou.

O cara, esse boneco de palha, nem piscou. Não tentou me calar. Em vez disso, se aproximou, cara a centímetros da minha. E enquanto eu berrava, ele fez uma coisa que até hoje não cabe na cabeça. Inspirou.

Não foi respiração normal. Foi uma sugada funda, rangida, impossível, um vácuo. Eu senti. Senti a minha voz, o som, a força, a vibração, sendo puxada dos pulmões, arrancada da garganta. Era físico, como se tirassem um fio do meu âmago. O berro afinou, tremelicou e... sumiu. Só silêncio.

Minha boca ainda aberta, pulmões ainda arfando, mas zero som. Só um silêncio aterrorizante onde minha voz devia estar. O cara se endireitou, um brilho de satisfação nos olhos fundos. Não pegou a carteira. Não me tocou de novo. Só soltou o braço, virou e derreteu nas sombras do fundo do beco.

Fiquei ali um tempão, tentando gritar por socorro, tentando fazer barulho. Respirava, tossia, mas a parte que faz som... sumiu. Era tentar mexer um membro fantasma. A máquina tava lá, mas o sinal não chegava.

Os primeiros dias foram um borrão de médicos e especialistas. Andava com bloquinho e caneta pra todo lado.

*Fui assaltado. Berrei e minha voz parou.*

Olhavam com pena. Um otorrino enfiou câmera pelo nariz até a garganta. Mostrou o monitor. "Olha", disse, apontando. "Pregas vocais perfeitas. Sem inchaço, sem paralisia, sem nódulos. Fisicamente, zero motivo pra você não falar."

Deram nome: transtorno de conversão. Trauma psicológico grave virando sintoma físico. Minha mente, disseram, ficou tão chocada que desligou a voz pra me proteger. Explicação plausível, científica. Fez sentido pra todo mundo menos pra mim.

Fui pros meus mentores, os pregadores mais velhos que me guiaram. Sentei numa cadeira de carvalho numa sala cheirando a livro velho e escrevi tudo num bloco amarelo. Leram, caras marcadas de preocupação.

"O inimigo age de muitas formas, filho", disse um, voz grave e reconfortante. "Ele quer calar os mensageiros do Senhor. Foi um trauma. O choque roubou tua língua por um tempo. Tenha fé. Ore. Descanse. Deixe Deus curar tua mente, e a voz volta."

Psicológico. Todo mundo concordava. Vítima de crime violento, mente quebrou de um jeito específico e raro. Tentei acreditar. Oreí. Descansei. Enchi cadernos com sermões mudos, súplicas mudas a Deus. Mas eu sabia o que senti. Não foi a mente quebrando. Foi roubo. Sentia o vazio no peito onde antes ressoava. Um buraco que doía de silêncio.

A vida virou pesadelo quieto. O mundo parecia atrás de um vidro. Não trabalhava. Não pregava. Nem pedia café sem apontar e escrever. Virei fantasma na própria vida, identidade arrancada. O silêncio era o barulho mais alto que já ouvi.

Aí, exatamente uma semana depois do ataque, o horror de verdade começou.

Eu tava no apê, tentando ler. Janela aberta, ar da noite e som distante da cidade entrando. Primeiro foi um murmúrio, no limite do ouvido. Quase ignorei, rádio de carro ou briga de casal. Mas o ritmo... tinha algo familiar.

Fui à janela, me debrucei. O som subia e descia, vindo com o vento. Aí ouvi claro, uma frase ecoando de umas ruas dali.

"...e eu vos digo, a compaixão do próximo é fraqueza que você pode explorar..."

Congelei. Suor frio tomou o corpo inteiro. Era a minha voz.

Sem erro. Meu tom, meu timbre, meu jeito de esticar vogais quando enfatizo. A voz que usava todo dia pra falar de amor e perdão. Mas as palavras... veneno. Uma gozação torpe de tudo que eu preguei.

Peguei as chaves e saí correndo, coração batendo na garganta. Desci a rua atrás do som. Parecia vir de um parquinho a dois quarteirões. Cheguei sem fôlego, frenético, e... nada. Só uns cachorreiros, um casal no banco. Silêncio. Voz sumiu.

Tentei me convencer: alucinação auditiva, sintoma do trauma. Médicos diriam isso. Mente pregando peça, criando fantasma da voz perdida. Fazia sentido.

Mas na noite seguinte, aconteceu de novo.

Dessa vez mais perto. Parecia do telhado do prédio em frente. Fiquei na janela, sangue gelando.

"...olhem pros desesperados e vejam não alma pra salvar, mas ferramenta pra usar. A esperança deles é moeda, gaste à vontade..."

Minha voz, pregando evangelho do mal puro. Egoísmo como virtude, crueldade como força. Sermão do inferno, no mesmo tom apaixonado que eu usava pra consolar perdidos. Fiquei meia hora olhando o telhado. Ninguém. A voz cuspiu sujeira no ar noturno e... parou, como se desligassem.

Toda noite depois, ficava mais perto.

Uma noite, do beco atrás do prédio. Outra, do cruzamento bem embaixo da janela. Eu descia correndo, mas nunca tinha ninguém. Fantasma.

Eu tava desmoronando. Não dormia. Ficava no escuro, na janela, esperando, temendo o momento que eu começava a falar. Amigos e mentores da igreja vinham ver. Tentava explicar, rabiscando loucamente.

*Ouço minha voz. Alguém tá usando. Diz coisas horríveis.*

Mesmos olhares de pena. "É o trauma", diziam suave. "Sua mente tá processando. Talvez seja sua raiva, seu medo se manifestando."

Achavam que eu pirava. E, pra ser honesto, eu começava a achar o mesmo. Era esse o meu novo normal? Preso no silêncio, assombrado por uma versão distorcida de mim?

Ontem à noite decidi que não aguentava mais. Louco ou não, tinha que enfrentar. Quando a voz começou, mais perto que nunca, vindo do mesmo beco onde perdi, não hesitei. Peguei a lanterna mais pesada e saí pra encarar meu fantasma.

O beco tava igual, e a voz... tava ali. Alta, ricocheteando nas paredes, torrente de palavras lindas, persuasivas, horrendas.

"...porque o verdadeiro poder não tá em erguer os outros, mas na certeza de que você pode derrubá-los..."

Vinham do fundo. Me aproximei devagar, feixe da lanterna cortando a escuridão, e vi ele.

O mesmo magrelo. Mesmo espantalho. Não tava sozinho. Encurralara uma garota contra a parede. Ela olhava pra cima, olhos arregalados, mas não de medo. Era... fascínio. Hipnotizada.

A voz saía dele. Mas os lábios não acompanhavam. Parecia dublagem ruim. O som, *meu* som, brotava do peito, transmissão perfeita da minha voz roubada, torcida pro propósito dele.

Sangue gelou, mas aí acendeu outro fogo. Raiva justa. Aquela que eu canalizava nos sermões. Sou pastor, e isso... era lobo no meio do rebanho.

Ele me viu. O feixe pegou o rosto, olhos fundos cravaram nos meus. A voz cortou de repente, mergulhando o beco num silêncio chocante. A garota piscou, como acordando, e medo de verdade finalmente surgiu.

O magrelo inclinou a cabeça. Não pareceu surpreso. Um som seco, folhas mortas no asfalto, saiu da garganta. Talvez risada. Aí falou, voz dele dessa vez. Sussurro.

"Você. Voltou. O fogo em você é forte. Tempera o som."

Sabia. Falava comigo, mas parecia entender minhas perguntas mudas. Dei um passo, erguendo a lanterna como porrete. Não sabia o que ia fazer. Só sabia que não podia deixar ele machucar ela.

"Se pergunta como?", chiou, olhos fixos. "É um dom. Pego instrumentos de convicção. Sermão do pregador, promessa do político, sussurro do amante. Bebo o som, uso a fé que sobra pra atrair." Apontou o queixo pra garota, que agora tremia. "Eles ouvem voz que querem acreditar. Se aproximam. Muros caem. O resto fica fácil."

Não tinha voz pra gritar aviso. Não tinha palavras pra condenar. Só convicção. Num gesto desesperado, fiz o único que podia. Me joguei nele.

Não sou grande, e ele era forte pra caralho, mas a surpresa bastou. Bati nele, caímos embolados.

"CORRE!", articulei pra garota, grito mudo, desesperado.

Por um segundo ela ficou parada, aí o instinto de sobrevivência ligou. Saiu raspando, passos ecoando enquanto fugia na noite.

Senti um lampejo de vitória. Durou pouco.

O ladrão me jogou longe com força assustadora. Bati na parede, ar fora. Antes de me recuperar, tava em cima, mão esquelética no meu pescoço.

Se inclinou, cara a centímetros. Fedor de terra podre tomou conta.

"Gesto inútil", sibilou, voz farfalhando na escuridão. "Teu rebanho fugiu. O pastor vai ser devorado."

Aperto aumentou, consciência escorregando. Ria, mesmo som de folhas, e abriu a boca.

Vou ver isso em pesadelo pro resto da vida, por mais curta que seja. Não era mais boca. Esticou, desengonçou, alargou, carne se contorcendo fora da física, da biologia. Abriu mais, mais, até a cabeça ser só um buraco perfeito, círculo de breu sem estrelas. Buraco no mundo. Um zumbido agudo saía, puxando as bordas da alma. Baixava aquele vazio no meu rosto, e eu sabia, com certeza além do terror, que ia me engolir. Não só o corpo, tudo que eu era.

Aí uma sirene cortou a noite.

Começou longe, mas cresceu, uivando. O ladrão congelou. O buraco da boca recuou, voltando a linha fina sem sangue. Cara de puro saco.

Com um último sibilo de desprezo, soltou meu pescoço, levantou e sumiu. Não correu. Desmanchou nas sombras do fundo e evaporou.

Fiquei ali, ofegante, puxando ar rasgado e mudo, enquanto o carro de polícia freava na boca do beco. A garota que salvei achou eles.

Claro, não acreditaram na história real. Me acharam machucado, vítima histérica. Pra eles, assalto que deu errado. Tentativa de agressão. Ela tentou explicar da voz, do transe, mas anotaram como choque. Quando pediram meu depoimento, só mostrei o bloquinho. Chamaram psicólogo da assistência a vítimas. Foram gentis, profissionais, e totalmente inúteis.

Então aqui estou. Garganta roxa, mas médicos dizem que fico bem. Fisicamente. Voz não voltou. Sei que não volta. Tá lá fora com ele.

Escrevo porque sou pregador, e pregador tem que espalhar a palavra. Esse é meu novo púlpito. Meu novo sermão. Aquela coisa tá solta. Caça na minha cidade, usando minha voz. Pode tá caçando na sua.

Então, por favor, escute. Se voltar pra casa à noite e ouvir uma voz num beco escuro, voz que parece confiável demais, convincente demais... voz que fala de esperança mas te dá um frio na espinha... CORRE. Não escute. Não deixa as palavras criarem raiz. Porque pode ser promessa de político, sussurro de amante.

Ou pode ser a minha.

Algo nojento tá rolando na minha casa nova

Eu peguei essa casa faz mais ou menos um mês. É alugada, porque comprar uma agora? Nem no meu pior pesadelo, com esses preços malucos. O lado bom é que não fica no subúrbio — achei que isso era top. Moro no interiorzão, na beira da cidade. Não tem outra casa num raio de uns bons minutos de carro. A casa tem 80 anos, é pequena, uns 140 m². Dois quartos, um banheiro só. Mas só porque é dos anos 40 e compacta não quer dizer que seja ruim. O dono cuidou dela direitinho; ele me contou que reformou tudo quando comprou, há um ano, e dá pra ver. Basicamente, ninguém mexia nela desde que os primeiros donos abandonaram, uns 60 anos atrás.

O dono, vamos chamar de Dan, era esquisito pra caralho. Quando me mostrou a casa, foi na correria. Qualquer pergunta — tipo idade da casa, quem morou antes, se tinha algum problema — ele respondia curto e grosso, ou desviava total. Mas dane-se, desde que a casa fosse boa, eu topava um dono esquisito.

O primeiro dia foi tranquilo. Chamei meus brothers, John e Jason, pra ajudar na mudança; foi massa. A primeira coisa que montamos foi a TV pra ver o jogo enquanto trabalhava, e compramos duas caixas de cerveja. Levou umas horas, mas esvaziamos o caminhão antes do sol cair.

Quando acabou, John teve que vazar pra voltar pra namorada — nunca me case, cara. Eu e Jason resolvemos comprar mais cerveja e fazer um esquenta de casa nova. Foi aí que a parada começou a ficar estranha. Entramos no meu carro, girei a chave... nada. Motor morto. Não lembro de ter deixado farol ligado, mas quem lembra? Jason zoou minha cara e ofereceu o carro dele. Beleza, fomos.

Voltamos da única bomba de gasolina por perto — cinco minutos de carro — e, ao entrar, sentimos na hora: tava gelado pra cacete lá dentro. Outubro, noite ainda quente, mas parecia que alguém tinha ligado o ar. Não via a fumaça da boca, mas dava pra sentir a diferença vindo da rua. Olhei o termostato: desligado o dia todo, tempo ameno, nem precisava de aquecedor. Jason checou as janelas: tudo fechado. Fodam-se, liguei o aquecedor e começamos a festa. Filme, salgadinho, cerveja. Foi da hora.

Acordei umas 3 da manhã com a cabeça explodindo de ressaca. Jason tinha escorregado do sofá e dormia de bunda pra cima no chão. TV ligada, tela azul de entrada. Só a luz da cozinha acesa, fraquinha. Peguei um cobertor, joguei em cima do bêbado. Fui pro meu quarto. Passei pela cozinha, apaguei a luz e ouvi um barulhinho, tipo papel amassando atrás de mim. Virei: na luz azul da TV, o cobertor do Jason tinha descido até os tornozelos, mas ele não tinha mexido um músculo. Fiquei parado, olhando. Confuso. Mas não ia dar bola pra besteira. Fui arrumar o cobertor e tapei o nariz. “Jason, porra, o que você comeu?” O cheiro era de lixo orgânico no verão, podre. Achei que o cara tinha cagado nas calças. Cobri ele de novo e capotei.

Acordei com Jason me cutucando. “Mano, cadê minha chave? São quase 8h30, tenho que estar no trampo às 9.” Levantei, ainda de ressaca, e ajudei a procurar. Sofá, tapete, geladeira... Nada. Às 8h45 ele tava surtando. “Vou me foder! E ainda tô apertado pra mijar.” Mandei ele ir no banheiro enquanto eu continuava. Se não tava nos lugares óbvios, ia nos malucos. Ia abrir a lava-louça quando ouvi: “PORRA, MANO!” Corri pro banheiro. Ele tava com a chave na mão, pingando água.

“Meu Deus, onde tava?” “Ia mijar e vi no fundo do vaso”, ele riu. “Bebi mais que pensei, irmão.” Rimos, mas no fundo eu não tava rindo. Algo errado. Jason foi embora logo depois, e fiquei eu, a casa e o carro morto.

Voltei pro banheiro, só pra dar uma olhada. Não sei o que esperava achar, mas certeza que nem eu nem ele jogamos a chave no vaso; não tava tão bêbado. Levantei a tampa e... puta que pariu. O cheiro invadiu tudo. Uma gosma preta grossa escorrendo dos jatos da borda pro água. Fedor de legume podre. Abri a caixa acoplada: água limpinha. Liguei pro Dan, contei. Ele nem piscou, como se esperasse a ligação. Disse que o vaso era o único original da reforma, que devia ter sujeira entupida nos jatos. “Dá umas descargas que resolve.”

Jason voltou depois do trampo pra dar tranco no carro, e fiquei sozinho o resto da semana. O dia foi normal; a semana inteira, na real. Mas no sábado seguinte... aí fodeu.

Fiquei em casa o dia todo, sem escolha. Acordei cedo pra caralho, antes do sol, querendo um McDonald’s. Carro morto de novo. Puto, bati a porta e ia entrar pra fazer algo em casa. De repente: *bam!* A porta abriu e bateu sozinha. Pulei, virei. Fiquei parado, esperando. Nada. “Tô louco”, pensei, e entrei. À noite chamei Jason de novo — pra dar tranco e pra ter companhia. Comemos bife, mais cerveja, ele ficou pra dormir.

Capotamos tarde. Acordei umas 3 de novo, não de dor de cabeça, mas de barulho. Durmo leve, qualquer som me acorda. Mas esse me gelou: passos pesados no chão de madeira. Sentei na cama, coração na boca. Passos lentos, vindo pro meu quarto. “Jason, é você?” — parecia criança chamando a mãe.

Os passos vieram mais perto, pararam na porta. Silêncio. Segurei a vontade de me esconder. “Oi?” Os passos voltaram — correndo. Congelei, fechei os olhos, me encolhi no cobertor como criança. Os trovões vieram até mim e pararam. Silêncio ensurdecedor.

Lembrei: não tenho chão de madeira. O cheiro podre do vaso encheu meu nariz. Baixei o cobertor devagar: pegadas pretas escorrendo no teto, como se pingasse bota. Bem em cima da minha cabeça. Meu cobertor tava manchado de gosma fedida. Congelado. Uma mancha escura se formou no gesso, escorrendo como tinta no papel, até virar um homem. O fantasma pulou em cima de mim, me imobilizou na cama. Agarrou meus pulsos, me sujando de lama podre. Me debati, chutei. Ele copiava cada movimento — até eu balançar a cabeça pra fugir dos pingos. Abri a boca pra gritar; ele abriu a dele, imitando. E vomitou um jato de muco preto na minha garganta. Acordei engasgando.

Levantei num pulo — o bicho sumiu. “Só sonho”, pensei, aliviado. Acendi o abajur e... caralho. Meus pulsos vermelhos, esfolados, como se tivessem sido amarrados com silver tape. Não acabou. Mal vi as marcas e ouvi Jason gritando na sala. Corri: sofá de cabeça pra baixo, pratos, talheres, tudo quebrado no chão, armários abertos. Como não ouvi? Cadê o Jason? Mas o pior: uma poça de gosma preta podre no meio da sala, e pegadas descalças indo até a porta dos fundos... aberta.

domingo, 2 de novembro de 2025

A escuridão dentro de você tá morrendo de fome e não vai ficar quieta por mais tempo

“Sexta-feira, último dia de trabalho, primeiro dia do fim de semana, que era pra ser aguardado com ansiedade, finalmente um tempo pra relaxar.

Engraçado, eu costumava sentir isso, eu costumava detestar as segundas-feiras. No domingo eu já começava a ficar pra baixo, sabendo que não ia poder jogar videogame e ficar de boa pelos próximos cinco dias. Eu amava jogar videogame; eles me deixavam escapar da minha vida de merda pelo menos por um momento. A única coisa boa das segundas era que a minha namorada estaria aqui. Ela volta pra cidade natal dela todo fim de semana, me deixando sozinho com os meus pensamentos. Antes, eu lidava com isso de boa, sem drama: dois dias comendo porcaria e jogando, com só uns pensamentos intrusivos de vez em quando.

Mas isso era antes.

Porque, desde que eu comecei a ouvir isso, ouvir essa voz, as coisas começaram a desabar. Meu nome é Paul e eu luto contra TOC.

Eu moro num apartamento em Varsóvia. É meio apertado, admito, mas pra um estudante como eu dá pro gasto. E, pra ser justo, o aluguel era bem baratinho pra um lugar bem no centro da cidade. Eu moro no quarto andar, apartamento 36. Meus vizinhos são meio esquisitos, não muito de conversa; pra ser honesto, acho que nunca troquei uma palavra com eles. Também não os vejo muito. Eles ficam quase sempre trancados dentro de casa; nossas interações se resumem a um “oi” quando nos esbarramos na saída pro mercado.

Como eu sou meio tímido e fico envergonhado de falar com os outros por causa da minha doença, antes eu até gostava disso. Mas hoje em dia eu queria ter alguém, qualquer um, pra conversar, pra me ajudar a sair dessa merda.

Mas vamos voltar pro começo.

Há mais ou menos um mês, eu comecei a perceber uma coisa estranha. Sabe, TOC já é uma merda danada de lidar: ficar checando a casa toda, ver se não tem nada escondido no escuro, se desliguei o fogão, ficar preocupado em morrer por qualquer coisinha que eu logo imagino ser uma doença ou lesão fatal. Mas isso não era o papo chato de sempre, aquele que eu já tinha me acostumado — se é que dá pra chamar de “acostumar” fumar um maço de cigarro por dia só pra tirar da cabeça.

No começo, eram barulhos estranhos à noite, que pareciam vir de dentro da minha cabeça. Não dei muita bola; quer dizer, meus remédios às vezes causam alucinações hipnagógicas. Mas não parou por aí, puta que pariu, não parou nem fudendo. A primeira vez que ouvi aqueles barulhos (só consigo descrever como um rosnado baixo, tipo um cachorro que fareja um estranho e quer assustar pra longe) deve ter sido no dia 11 de março. Lembro que me senti exausto no trabalho no dia seguinte, porque o barulho me acordava toda vez que eu começava a cair no sono.

Desde então, os barulhos foram ficando cada vez mais altos, toda noite.

Nos dias seguintes, as coisas ficaram relativamente normais, tirando o rosnado.

Mas aí, no dia 15, mudou tudo: eu ouvi ela chamar meu nome pela primeira vez. Parecia a minha própria voz, mas distorcida, estranha pra caralho. Minha voz soava como se eu nunca tivesse ouvido antes.

“Paul, você checou o fogão?”

Essas foram as palavras que ecoaram na minha cabeça. Eu já tinha pensamentos intrusivos sobre o fogão, então não era tão fora do comum. Se não fosse pelo fato de que não era só um pensamento — era uma pergunta. Uma porra de uma pergunta. Não era eu me perguntando se tinha checado, não; eu nunca falo comigo mesmo em terceira pessoa.

Na semana passada, fui pro trabalho pela última vez. Minha chefe disse que não podia mais me deixar perto dos clientes, que ia fazer mal pro negócio. Eu entendo; eu ia pedir pra sair mesmo. Não confio mais em mim perto de gente.

Há duas semanas, minha namorada terminou comigo; acho que não aguentou mais esses rituais que eu faço. Fiquei aliviado que ela não desceu pro porão antes de ir embora. Tenho certeza que teria chamado a polícia se soubesse.

“O monstro vai te pegar se você não sacrificar o gato do vizinho pra ele.”

Porra, que idiotice, né? Fazer coisas que você sabe que são inúteis e beiram a loucura, mas ainda assim precisar fazer só pra coçar aquela coceira irritante dentro da cabeça. Eu odeio TOC, odeio pra caralho.

Mas, bom, o que eu posso dizer? Não controlo nada, talvez meus remédios estejam fracos demais agora. Talvez eu precise aumentar a dose.

Uma semana depois que comecei a ouvir ela falar comigo, senti necessidade de fazer rituais novos, que nunca tinha feito antes. Pintar símbolos nas paredes com sangue (nem sempre o meu), pra afastar espíritos malignos. Repetir as palavras “Te invito Zabulus” mesmo sem saber o que significam. E muito, muito mais.

Ela disse que eu não precisava de remédio mais forte, mas de um padre. Achei que era só cansaço das minhas palhaçadas, mas agora não tenho mais certeza.

Quer dizer, eu sei que TOC anda de mãos dadas com síndrome do impostor e que eu posso estar achando que isso não é TOC e sim outra coisa, mesmo sendo só a doença, mas... tudo parece real demais.

Acho que a gente devia voltar pro presente.

Eu não consigo mais controlar meu corpo; minhas mãos fazem o que querem, minhas pernas andam quando eu não quero. Me sinto um espectador passivo da minha própria vida, só assistindo as coisas acontecerem. Ainda tenho um restinho de controle; não é constante. Vem em ondas: posso estar normal e, de repente, começar a enforcar um cliente aleatório.

Por isso não saio mais de casa. Só saio quando é estritamente necessário; peço delivery quando dá e, o resto do tempo, simplesmente não como.

Meus pais ajudam o quanto podem; mandam dinheiro pra compras. Meu senhorio disse que vai me dar um tempinho pra me reerguer antes de cobrar aluguel.

Mas eu acho que não consigo. A voz não cala a boca. Eu ouço o tempo todo; ela fala comigo, me diz coisas horríveis, coisas que eu nem imaginaria. Fico feliz que minha namorada tenha ido embora quando foi, antes de piorar, senão acho que ela não estaria viva hoje.

Vou tentar buscar ajuda; talvez ainda dê pra voltar a ser eu mesmo.

Terça-feira, 4 de dezembro de 2025.

Não consegui fazer nada, absolutamente nada. Sou prisioneiro da minha própria mente. Essa é a primeira vez em séculos que consigo estar no banco do motorista. No que minha vida virou? Deus, por favor, acaba com isso, se é que você tá aí.

Quarta-feira, 25.

Não aguento mais. Foi longe demais. Ela disse pro meu pai que eu sempre odiei as entranhas dele, que queria que ele morresse pra eu pelo menos herdar alguma coisa. Meus pais cortaram todos os laços comigo. Não tenho mais dinheiro, não tenho mais apoio. Esse pode ser o fim da linha pra mim.

Ela me contou o nome dela: Waoavuvz. Quer que eu sinta como é perder tudo. Se alimenta da minha dor. Disse que adora me ver lutando pra quebrar as correntes, pra impedir ela. Que sou divertido demais de brincar porque eu era tão cego à existência dela, tentando explicar tudo só como minha doença piorando. Não me resta nada; ela levou tudo. Ontem quase matei minha vizinha; ela só estava no lugar errado na hora errada. Ainda não sei como não fui preso. Minha casa é uma zona: cheiro de podre, mofo, lixo, ratos mortos. Me dá ânsia; se eu pudesse vomitar, vomitaria, mas não consigo — perdi o reflexo de vômito depois da quinta vez que comi ensopado de barata. Meus braços estão cobertos de cicatrizes, runas cortadas no corpo. Pareço uma bruxa de filme de terror.

Quero morrer, quero simplesmente deixar tudo isso pra trás. Detesto acordar, não porque estou seguro nos meus sonhos — não estou, ela me segue pra todo lugar. Odeio acordar porque sinto as garras dela cravadas nos meus ombros, na minha alma, me forçando a fazer coisas contra a minha vontade, me forçando a machucar pessoas.

1º de janeiro de 2026.

Silêncio. Silêncio ensurdecedor. A presença que era tão avassaladora sumiu, não tem mais sinal. Mas, junto com ela, também sumiu o único motivo de eu ainda estar vivo: a falta de oportunidade. Não me resta nada: amigos, família, dinheiro, emprego. Fui expulso da faculdade. Meu senhorio disse que tenho três dias pra desocupar ou vai chamar a polícia. Minha ex se casou; acho que superou bem rápido, sem surpresa — eu também ia querer esquecer alguém como eu o mais rápido possível se estivesse no lugar dela. Meu irmão se formou e eu não fui convidado pra festa de formatura. Pelo visto, meus pais não querem mais nada comigo.

Vou acabar com isso amanhã. Desculpa por te deixar ciente dele. Você não tá seguro; ele não vai se contentar comigo, vai vir atrás de você em seguida. Fique seguro e não ceda às exigências dele; essas compulsões são o motivo de ele ter conseguido tomar controle.

Adeus e, pros meus amigos e família, por favor, não me esqueçam — o eu que vocês conheciam, o eu de antes. Amo vocês. Paul.”

Oi, eu sou o Matt. Essas foram as últimas páginas do diário do meu irmão; encontrei no apartamento dele depois do enterro. Preciso da sua ajuda: ontem à noite comecei a ouvir barulhos.

Fui ensinado a prender a respiração quando passava de carro por um cemitério. Agora sei o porquê

Um hábito que aprendi quando era criança: prender a respiração se eu estivesse num carro que estivesse passando por um cemitério. Não lembro quem me contou, mas lembro que era algo que eu e meus amigos seguíamos religiosamente na infância, não importava quem estivesse dirigindo ou pra onde a gente ia. E se as janelas do carro estivessem abertas, era pânico geral pra enrolar todas pra cima antes que as rodas chegassem na entrada do cemitério. Naquela época eram as janelas de manivela manual. Aquelas que exigiam toda a força de criança magricela que eu tinha pra fechar. Mas nesses momentos elas sempre conseguiam fechar na hora H.

Não sei se algum de nós sabia por que a gente fazia isso. Eu com certeza não sabia.

Mesmo assim, é um hábito que mantenho até hoje, mesmo com o meu trigésimo aniversário batendo na porta. Não é que eu tivesse grandes planos pro meu aniversário, mas teria sido legal poder comemorar.

Lembro de tomar a decisão concreta quando tirei minha carteira de motorista: eu ia continuar jogando o jogo nem que fosse só por mim mesmo. Às vezes o hábito parece bobo de admitir, mas minha mentalidade sempre foi “melhor prevenir do que remediar”. Se tem mais gente no carro, eu sou discreto. Bem menos fanfarra do que quando eu era criança. Só uma inalada grande enquanto os pneus continuam deslizando na estrada. Eu subo as janelas casualmente, como se não fosse nada demais. Talvez como se eu tivesse visto um inseto que não queria que entrasse no carro.

Mas nem sempre dá pra prender a respiração a tempo, né. Eu nem sempre vejo o cemitério até estar bem no meio dele. Paro de respirar na hora que percebo por onde tô passando, mas aí já parece tarde demais. Até dois dias atrás, eu não sabia as consequências. Agora sei.

Foi porque me mudei pra uma cidade nova que tudo isso aconteceu. Eu não sabia que as estradas secundárias que levavam à loja de artesanato tinham tantos cemitérios. Era da minha natureza simplesmente evitar esse tipo de estrada, pegar a rodovia mesmo se tivesse mais trânsito.

Eu tava sozinho indo buscar material pra um dos meus muitos projetos de artesanato. Eu devia ter dado meia-volta quando vi que a estrada em que eu ia ficar por sete quilômetros não tinha nada além de curvas, espaço aberto e grama. Não tinha ninguém no carro pra questionar minhas ações. Eu devia ter sacado que, descendo aquela estrada sinuosa, ia ter vários cemitérios. Mas me disse pra não ser ridículo. Um jogo de criança não devia me impedir de pegar o caminho mais rápido pra algum lugar.

Meu outro erro foi deixar as janelas abertas. Nesse ponto já era um ato de desafio. Eu sabia que ia ter cemitérios, mas me recusei a reconhecer antes que eles aparecessem. Claro que hoje em dia as janelas sobem bem mais rápido com botão elétrico, mas aparentemente não rápido o suficiente.

Eu nem percebi que algo estava errado até o dia seguinte. Acordei grogue, esfregando o sono dos olhos enquanto cambaleava pelo corredor até o banheiro. Meus olhos estavam saltados e injetados, como se algo tivesse pressionado por dentro do meu crânio, tentando sair pelos olhos. Um filete fino de sangue seco de algum momento da noite tinha grudado no meu pescoço. Segui a trilha de volta até a orelha direita, como se algo tivesse tentado forçar saída por ali. Meu nariz estava inchado, e a pele do meu rosto queimava ao toque, como se estivesse lutando contra algum tipo de infecção.

Mas antes de ir mais longe, preciso voltar ao ponto central. O evento em si. Então, como eu disse, eu tava dirigindo numa estrada desconhecida com aquela coceira familiar subindo pelas costas, aquela que me dizia que ia ter um cemitério em cada curva. O motivo de eu não ter visto logo de cara foi porque meu celular me distraiu. E antes que você torça o nariz pra mim, eu sei que não devia olhar pro celular dirigindo, mas eu tava esperando uma atualização importante do trabalho. O irônico é que nem era a atualização que eu esperava.

Era minha irmã em crise. Ela vive em crise, mas normalmente as crises dela não me afetam tanto assim. Normalmente não se transferem como uma maldição esperando engravidar a próxima pessoa. Cliquei na mensagem e vi uma parede de texto azul com um monte de pontos de exclamação e carinhas bravas. Foi por isso que não percebi que meu carrinho vermelho tinha cruzado o plano. Eu nem tava lendo a mensagem. Fechei o app de mensagens verdes quase na hora. Só queria ter certeza de que não era algo grave, algo que realmente precisasse ser resolvido naquele momento.

É difícil descrever pra vocês o surto de medo que desceu pela minha espinha quando voltei a olhar pra estrada. Claro, parei de respirar na hora. Sim, apertei os quatro botões das janelas assim que meus dedos soltaram o volante. Acabou em meros segundos. Num momento eu tava no meio de passar por um cemitério e no seguinte o momento passou.

O sol entrava queimando no carro e começou a cozinhar tudo lá dentro agora que não tinha como escapar. Mesmo com o momento passado, eu não queria baixar as janelas de novo, como se eu pudesse ganhar favor dos fantasmas se continuasse seguindo as regras. Mas óbvio que eu tinha que respirar em algum momento e soltar o ar logo depois.

Continuei respirando e cozinhando dentro do carro, o ar-condicionado temporariamente quebrado. Eu tinha todas as ferramentas pra trocar o motor do ventilador, a peça que tinha pifado na semana passada, mas como era um dia bonito achei que podia esperar. Então essa era a razão do suor escorrendo pelas costas, pura preguiça.

Mas eu sabia que não podia ser descuidado e baixar as janelas de novo. Fiz a curva devagar e me deparei com outro cemitério. Esse eu consegui me preparar; dava pra ver um pouco adiante. Consegui dar aquela inalada profunda que precisava antes de passar por ele. Nem me importei de estar assando como frango de padaria porque eu tava seguro. As janelas fechadas e a falta de respiração me mantinham seguro.

Você acharia que eu tô mentindo se eu dissesse que encontrei outro cemitério a uns dois quilômetros e meio na mesma estrada? Juro que foi o último, mas eu não inspirei ar fresco, sem circular, até estacionar e escancarar a porta quinze minutos depois. Aquelas respiradas foram algumas das mais gostosas que já dei; o ar outonal bateu nas minhas narinas de um jeito tão fresco, tão limpo. Talvez esse tenha sido meu erro — fui ganancioso demais com o ar do outono.

A mensagem que arruinou minha vida? Sei que alguns de vocês devem estar curiosos. Era porque o namorado atual dela, o cara com quem ela tinha saído duas vezes, não gostava de gatos. Dá pra chamar alguém de namorado depois de dois encontros? Ela morava sozinha com dois gatos, Canela e Açúcar, então claramente esse relacionamento nunca ia dar certo. Ela tava indignada que alguém pudesse odiar gatos, especialmente o cara dos sonhos dela. Bom, acho que ele não era mais o cara dos sonhos.

Quando paguei na loja de artesanato, eu já tinha quase esquecido da aventura no caminho até lá. Como eu disse, não percebi as consequências. Até ontem de manhã era só um joguinho bobo de criança. E sim, respondi a mensagem da minha irmã com todas as platitudes certas tipo “como ele ousa” e “você merece coisa melhor”. Quando penso nisso agora, eu peguei um caminho diferente pra voltar, se foi consciente ou subconsciente, aí é discussão. Não tinha cemitério nenhum no caminho de volta, pelo menos nenhum que eu tenha visto.

Isso foi há dois dias, quase quarenta e oito horas exatas. A maior parte do meu cabelo caiu. Tô digitando com um dedo só, o único que ainda tem unha. Pelo menos é o indicador. Pequenos milagres e tal. O resto caiu ontem à noite. Encontrei eles grudados no lençol. Unhas dos pés também. Sumiram.

Tentei ditado por voz no computador, só pra descobrir que não tenho mais voz. Só saía um som de engasgo estrangulado. Acho que faz sentido. Quando olhei no espelho, meu peito tava afundado — o pescoço enrugado, todas as dobras da traqueia e do esôfago visíveis sob a camada fina de pele.

Tô começando a deixar manchas de sangue no teclado. Acho que essa unha não vai durar muito mais. Acho que devia ir logo ao ponto. Acho que já passou do ponto de pedir ajuda. Então isso virou um daqueles posts de alerta. Sabe, aqueles que te mandam tomar cuidado, sempre olhar atrás da esquina, acender a luz antes de dormir — nesse caso, sempre checar se tem cemitério. Nunca tirar os olhos da estrada.

Tem tanta pergunta que vai ficar sem resposta. E o ar-condicionado ou o aquecedor? Os fantasmas entram se você ligar isso? Foi a janela aberta ou as janelas nem importam? É todo cemitério? Todo fantasma? Tem que estar dirigindo? Não tenho tempo pra responder nenhuma dessas. Já tô infectado, possuído, assombrado, ou seja lá o que for isso.

Vocês podem testar todas essas teorias se quiserem. Não sei se recomendo. Outro dente caiu da minha boca agora há pouco. Acho que só tenho dois sobrando. Tá difícil manter a mandíbula fechada; tô tentando impedir que o sangue escorra. Não tá funcionando. O teclado tá escorregadio agora.

Minhas respirações estão mais rasas. É como se eu não conseguisse recuperar o fôlego. Meio irônico, como se os fantasmas ainda estivessem roubando o ar dos meus pulmões. Como se eu ainda estivesse passando de carro por aquele cemitério.

Acho que só tenho mais alguns momentos. O suficiente pra postar isso. Fico imaginando o que minha família vai pensar quando eu não atender as ligações. Fico imaginando quanto tempo vai levar pra eles encontrarem meu corpo. Fico imaginando se vou ter um corpo pra deixar pra trás.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon