sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Era uma vez por ano...

Sinceramente, nem sei direito por que tô escrevendo isso, nem pra quem. Talvez só pra avisar o pessoal. Do quê, eu nem sei. Ou quem sabe pra tentar achar alguém que tenha passado por coisa parecida.

Eu cresci numa cidadezinha minúscula. Nem sei se dá pra chamar de cidade, na real; era mais uma vila, um lugarejo. Daqueles que parecem presos nos anos 50, onde todo mundo se conhece e tem mais igreja do que casa. Parece charmoso, né? Mas quem mora num lugar desses sabe que, na melhor das hipóteses, é um tédio do caralho, e na pior, uma tortura.

Tinha só uma escola, pra todas as crianças nascidas ali, desde que saíam das fraldas até se formarem e, se dessem sorte, darem o fora daquele fim de mundo. No máximo, uns 30 alunos no colégio inteiro, e mesmo nessa comunidade tão unida, eu era o excluído.

Não que eu ligasse, na verdade. Também não curtia aquelas crianças. Meu único amigo de verdade era a vizinha do lado, a Molly. Nossos pais eram bem próximos, e a gente jantava junto com frequência, o que acho que explica por que ficamos tão grudados.

Mas não é por isso que você tá lendo. Duvido que você queira saber de um menininho magrelo, solitário e sem amigos numa vila chata pra cacete.

Minha casa não era chata, na verdade. A gente tinha uns rituais esquisitos. Parte disso você podia culpar pela cultura do Cinturão da Bíblia: se você faltasse à missa de domingo, era praticamente excomungado; as esposas ficavam em casa cozinhando enquanto os maridos iam trabalhar na mina ali perto; se você não tivesse pelo menos três Bíblias transcritas à mão pela nossa igreja, nem podia entrar no culto, essas coisas. Mas tinha outra parada que eu achava estranha pra caralho.

O festival acontecia uma vez por ano. Se você tá se perguntando o que era o festival, a gente também se perguntava. Ninguém sabia o que era, nem por que a gente fazia. Puta merda, ninguém nem sabia o que acontecia se a gente não fizesse. Um dos nossos muitos pastores, o Padre Sinclair, geralmente comandava tudo.

De fora, parecia um festival de igreja normal. Durante o dia, era mais ou menos isso. Uma oração em grupo, os pais na churrasqueira fazendo salsicha ou hambúrguer, as crianças correndo e jogando bola enquanto as mães traziam biscoitos e fofocavam. Talvez até uma musiquinha se o Padre Sinclair tivesse arrecadado grana suficiente.

Mas à noite, as coisas mudavam. Todo mundo tinha que entrar em casa, menos o Padre Sinclair e uns voluntários da escola. Depois que eles garantiam que todo mundo tava mesmo dentro de casa, eles faziam “aquilo”. Crianças curiosas que queriam saber o que rolava podiam colar o ouvido na janela do quarto, mas não ouviam nada além de silêncio. Bom, até as 3:33 da manhã. Todo ano, sem falhar, às 3:33, vinha um som estridente, seguido de um cântico sobrenatural, e depois silêncio de novo. Eu sei disso porque era uma dessas crianças curiosas. Eu e a Molly, os dois.

A história que eu tô contando aconteceu no nosso décimo segundo festival. Nessa época, já fazia uns anos que a Molly e eu teorizávamos sobre o que era aquele festival. Faltava mais ou menos uma semana pro próximo, e nesse ano a gente tava decidido a descobrir o que era. Talvez a gente pudesse dar um jeito de sair escondido na parte noturna do festival? Bom, isso era só daqui a uma semana. Decidimos fuçar o escritório do Padre Sinclair, pra tentar achar algum podre dele.

Depois do culto de domingo de sempre, a Molly e eu aproveitamos que todo mundo tava distraído com a venda de bolos pra invadir o andar de cima da igreja. Não sei se a gente tava fazendo isso por curiosidade de verdade ou se era só pela adrenalina de fazer algo proibido, mas de qualquer jeito, eu lembro que meu coração tava na boca enquanto a gente se esgueirava pro escritório do padre.

“Sem tranca”, a Molly sussurrou, enquanto a gente segurava o riso. “Sabe, se ele é tão paranoico com o escritório, devia fazer um trabalho melhor pra manter o povo do lado de fora.” Os dois prenderam a respiração enquanto abriam a porta devagar, tomando cuidado com qualquer rangido.

Foi meio decepcionante. Talvez a gente esperasse algo tipo a caverna do Satanás, com tapeçarias de demônios e câmaras de tortura, mas parecia só um escritório normal.

Eu revirei todas as gavetas da mesa enquanto a Molly fuçava o armário de arquivos. Nada. Já távamos quase desistindo quando eu tropecei no tapete. Uma parte virou, e aí a gente viu.

Bem no meio do chão, tinha um símbolo esquisito. Parecia uma estrela. Nenhum de nós reconhecia.

“…tá, talvez seja só um desenho. Talvez ele seja um artista secreto”, a Molly disse, tentando me fazer rir, já que eu devia tá com cara de quem viu fantasma.

Eu, ainda o menininho religioso que fui criado pra ser, agarrei uma Bíblia que achei na mesa do Padre Sinclair. Sem pensar, comecei a folhear as páginas.

“Ei, Molly?”, eu disse. “Essas páginas são estranhas.”

Ela pegou a Bíblia das minhas mãos, franzindo a testa. “Não reconheço nenhum desses versículos. Eu li a Bíblia tipo um milhão de vezes. Isso não tá certo.”

“Oi, crianças.” A gente ouviu, e os dois deram um pulo pra trás. Era o Padre Sinclair.

“Ora, ora, se não são a pequena Molly e o Robert. Que curiosos. Bom, não tão pequenos assim. Devem ter uns doze anos agora, né?”, ele disse, andando na nossa direção de um jeito ameaçador.

“S-sim, padre”, a Molly disse enquanto eu tremia que nem vara verde, sem conseguir falar nada. “Desculpa a gente ter invadido seu escritório.”

“Bobagem! Não tem nada de errado com um pouco de curiosidade”, o padre disse, pisando no símbolo que a gente tinha acabado de descobrir. Ele nos olhou com um olhar afiado, de quem sabe das coisas. “Eu podia usar umas crianças curiosas como vocês no festival da semana que vem. Que tal, crianças? Querem ser meus voluntários?”

Eu comecei a balançar a cabeça dizendo não, mas ele pôs uma mão gelada no meu ombro. Um gesto que eu conhecia, ele fazia com todo mundo na cidade como se fosse um conforto, mas agora era completamente diferente. Ele apertou com força, o suficiente pra deixar um hematoma. “Robert, você e eu sabemos que você não tem muita escolha aqui”, ele disse, piscando.

“Não é nada pra se preocupar, de verdade”, ele disse, nos empurrando pra fora do escritório. “Agora vão pra casa. Abracem suas mães.”

Naquela noite, a Molly e eu ficamos no quarto dela, sem falar nada. A gente tava abalado demais. Em silêncio, ela pegou uma das cinco Bíblias da família dela, as que o Padre Sinclair tinha dado pra gente. Aí ela fuçou a mochila que levou pra igreja naquele dia. Tirou a Bíblia que a gente achou no escritório.

“Molly! Você pegou isso? Ele vai matar a gente!”, eu avisei.

“Acho que ele ia fazer isso de qualquer jeito”, ela disse, seca, enquanto abria as duas Bíblias lado a lado.

Eu vi ela ficando cada vez mais confusa. “Não faz sentido, Rob”, ela disse, virando as páginas dos dois livros. “Esses livros dizem o oposto um do outro. Não sei em qual acreditar.”

“Olha, esse versículo não tá na nossa Bíblia. O que diz?”

Eu apontei pra um, e a Molly começou a ler em voz alta. “Estejam alertas e de sobriedade. O inimigo de vocês, o diabo, prowla como leão rugindo, à procura de alguém para devorar.”

Todo ano, sem falhar, às 3:33, vinha um som estridente,

Os voluntários da escola.

“Molly?”, eu disse, hesitante. “O que acontece com os voluntários todo ano?”

“Bom, normalmente eles se mudam. Vão pra faculdade ou algo assim”, ela disse, mas não parecia convencida.

“Molly?”, eu disse de novo, hesitante. “A gente tá orando pro Deus errado?”

No fim, o festival chegou, e a Molly e eu, como deveríamos estar, passamos a semana inteira apavorados. Quando o dia chegou, e depois a noite, a gente tentou dar no pé. Mas não tinha como passar pelo Padre Sinclair.

“Vocês dois, bravos voluntários, vão ficar aqui”, ele disse, agarrando a gente com força pelos braços.

A gente sentou sob o luar num silêncio ensurdecedor.

“Não precisa mais mentir pra gente, Sinclair”, a Molly disse, quebrando o silêncio. “A gente sabe o que você tá fazendo.”

O Padre Sinclair virou de repente. Deu um tapa na cara dos dois enquanto eu gritava de dor.

Ele deu um sorrisinho. “Vocês sabem por que vivem vidas tão abençoadas? Por que todos nós vivemos vidas tão abençoadas? Eu faço isso por nós, de verdade. Por todos nós. E logo, vocês vão ter feito isso por todos nós também. Deveriam estar orgulhosos.” Ele disse enquanto desenhava aquela estrela esquisita no chão com um graveto. A gente viu ele acender velas e falar palavras estranhas.

De repente, um grito estridente fez a Molly e eu nos abaixarmos e taparmos os ouvidos.

Acho que eram 3:33.

Quando ajudei a Molly a se levantar, eu vi.

Ele se erguia acima de nós, desafiando a altura das árvores. Uma figura alta, escura, com chifres e tudo. Olhou pra gente de cima.

O Padre Sinclair se curvou. “Seus súditos, senhor.” Ele nos empurrou na direção dele enquanto a gente tentava correr.

Ele se abaixou. “Você quebrou as regras, Sinclair. Achei que eu tinha deixado as coisas bem claras.”

Num instante, o Padre Sinclair largou a pose de sempre e eu vi o medo tomar conta dos olhos dele. “Q-que regra? Eu não quebrei regra nenhuma. Seus súditos, como prometido.”

“Minhas condições”, ele trovejou, “pela vida que vocês levam, pelos bens que eu concedo, vocês nunca mais devem ferir uma alma. As almas feridas eram pra ser guardadas pra mim.”

Ele tocou em mim com uma garra enorme que queimava. “Isso é um hematoma que eu vejo?” Ele virou pra Molly, e a marca vermelha no rosto dela. “Inacreditável.”

“Mas senhor!”, o Padre Sinclair implorou, de joelhos. “E o bem da minha vila? Todas essas pessoas, orando só por você. Por minha causa. Não podemos fazer outro acordo?”

Ele pensou um pouco. “Muito bem. Posso permitir mais um ano de prosperidade pra essa vila. Mas vou precisar de outro sacrifício.”

O Padre Sinclair nos empurrou pra frente de novo.

Ele balançou a cabeça. “Não eles. É você que eu quero.”

E com isso, a gente viu ele agarrar o Padre Sinclair com uma garra imensa e jogá-lo no chão como se fosse uma boneca, enquanto ele era consumido pelas chamas abaixo. Ainda ouço os gritos dele até hoje.

A Molly e eu ficamos em choque até aquela criatura gigantesca virar a atenção pra gente.

“E vocês dois”, ele disse, se abaixando até nosso nível. “Vão. Saiam desses terrenos e não voltem. Vocês precisam dar o fora daqui.”

Confusos, mas sem querer desobedecer aquela coisa, a gente começou a ir embora.

Eu virei pra trás. “Te vejo em breve?”

Ele deu um sorrisinho. “Com certeza.”

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Enquanto reformava minha casa, descobri um espaço de rastejo. O diário lá dentro tinha entradas sobre mim...

Só moro aqui há um mês. Não é grande coisa, mas peguei o lugar por um bom preço. Com certeza é uma casa pra consertar. Fica num bairro bom e tranquilo, então pra mim foi óbvio. Sou bem prático e manjo de ferramentas, então calculei que daria conta da maior parte do trabalho físico sozinho. Trocar carpete e drywall era o primeiro da lista. A casa é bem pequena, então eu sabia que conseguiria fazer quase tudo por conta própria.

A primeira semana foi de boa: arranquei o carpete da sala e passei uma demão de tinta fresca. Os dias eram longos, mas o trabalho tava valendo a pena. Eu fazia a maioria das reformas quando chegava do trabalho, então, no fim de cada dia, minha cama tava me chamando. Toda noite, quando deitava pra dormir, ouvia um arranhar leve. Parecia vir de dentro da parede do meu quarto. O que só podia significar uma coisa: eu tinha roedores, com certeza. A casa era velha e os caras que moravam aqui antes fizeram um péssimo trabalho com a manutenção. Infelizmente, não tinha muito o que fazer. O dinheiro já tava curto e eu não podia pagar um exterminador no momento. No começo, tentei ignorar e só disse pra mim mesmo que resolveria quando pudesse.

As noites seguintes foram bem parecidas.

Trabalho. Reformas. Sono.

Depois de uma semana monótona de trampo pesado, algo estranho aconteceu: o arranhar leve, que eu já tinha me acostumado a ouvir, parou de repente.

No começo, nem percebi. Mas naquela noite, deitado na cama, notei que a casa tava completamente silenciosa. Prendi a respiração, esperando.

Nada.

Pela primeira vez em semanas, relaxei. Silêncio. Silêncio puro, lindo.

Eu tava quase pegando no sono quando ouvi de novo. Não do meu quarto, não. Do quarto de hóspedes do outro lado do corredor. Justo quando pensei que tinha dado sorte, voltei pra dura realidade de ser dono de casa.

Tirei folga do trabalho no dia seguinte pra terminar mais uns projetos pela casa. Faltavam só mais algumas coisas grandes pra resolver.

Depois de trabalhar o dia todo, peguei uma comida e liguei pro meu amigo Mike. Tava tão puta ocupado com a casa que tava difícil manter a vida social. O Mike era faz-tudo também, então qualquer dúvida sobre a casa eu sabia que podia passar por ele.

“Cara! Como tá indo a casa?” o Mike perguntou.

“Na real, tá ficando melhor a cada dia. Só que é extremamente demorado. Ah, e por falar nisso, é normal sentir que tô sangrando dinheiro?”

“Ah, sim, bem-vindo ao doce mundo da casa própria!” Ele disse, rindo.

“Pergunta rápida. Já lidou com ratos na sua casa? Juro que tô ouvindo eles nas paredes.”

“Não, cara, isso aí é fantasma, você tem fantasmas.”

“É, bom, quem sabe eles não livram a casa dos ratos!”

Conversamos mais um pouco antes dele me deixar voltar pro resto das melhorias. O último projeto era o quarto de hóspedes. Tinha que arrancar o carpete e tirar um papel de parede horrível.

Eu tava prestes a entrar no quarto de hóspedes quando notei que a porta do meu quarto tava entreaberta. Eu tinha certeza absoluta de que tinha fechado. Virou hábito desde adolescente: toda vez que saía do quarto, fechava a porta. Pensei que talvez o cansaço tava me pegando. Mal podia esperar pra terminar essa porra de casa.

O carpete saiu fácil. O papel de parede foi outra história. Demorou uma eternidade. O resto do papel tava no armário. Eu tava mais ou menos na metade de tirar o papel do armário quando dei de cara com o espaço de rastejo. Tava completamente coberto e, quando vi, admito que levei um susto.

Usei a lanterna do celular pra espiar lá dentro e foi aí que vi.

As fezes de rato. Eu sabia. Sabia que tinha alguma coisa rastejando ali atrás. Fiquei aliviado por não tá louco. Justo quando ia fechar de novo, notei algo no canto mais fundo.

Travesseiros e um cobertor. Velhos e empoeirados. Restos do passado, sem dúvida.

Mas tinha mais uma coisa: um livro, tipo um diário.

Tava coberto de poeira e as páginas, murchas. Essa coisa tava ali há um tempão.

Li a primeira entrada.

Entrada 1: “Sempre tô sozinho. Ninguém nunca vê como EU tô. Eu amo eles, por que eles não me notam?”

Virei mais algumas entradas, todas na mesma caligrafia bagunçada.

Entrada 3: “Às vezes ouço eles se mexendo lá em cima. Queria estar lá com eles. Sinto falta de fazer parte das coisas.”

Entrada 5: “Vi eles saindo hoje de manhã. A casa fica tão quieta quando eles vão embora.”

Entrada 6: “Gosto desse cantinho escondido. É como se eu pudesse escapar da realidade. Deixar todos os meus problemas do outro lado dessa parede.”

Não dava pra saber se a pessoa tava solitária, delirando ou só escrevendo uma história creepy. As entradas eram estranhas, mas não ameaçadoras de cara. Ainda assim, algo naquela frase, “a casa fica tão quieta quando eles vão embora”.

Estranho.

Deixei o diário de lado e peguei o celular.

“Fala” o Mike atendeu. “Não me diz que achou os fantasmas.”

“Quase isso. Mas ó” eu disse, segurando o riso. “Tava tirando papel de parede no armário do quarto de hóspedes, né? Achei um espaçozinho de rastejo. Fezes de rato, nojento pra caralho, mas também esse diário velho pra cacete.”

“Diário?”

“É, ouve isso. ‘A casa fica tão quieta quando eles vão embora.’” Eu disse na minha melhor voz de narrador assustador.

O Mike caiu na gargalhada. “Mano, que tipo de psicopata morava aí?”

“Sei lá. Provavelmente desenterrei a história trágica de algum maluco recluso. Talvez tenham trancado ele aí e ele nunca saiu.”

“Melhor parar de ler isso em voz alta à noite. É assim que todos os filmes de terror começam.”

“Por favor. A única coisa me assombrando agora é o preço do drywall.”

A gente riu um bom tempo antes de desligar.

Mas mesmo depois de largar o telefone, me peguei olhando pro espaço de rastejo aberto de novo. O diário ainda tava ali no facho da lanterna, meio aberto, como se esperasse eu ler a próxima página.

Minha casa finalmente tava pronta. Bom, pronta o suficiente pra mim. Precisava aliviar o estresse e achei que não tinha jeito melhor do que uma festinha de aquecimento. Convidei uns amigos só pra comida, bebida e risada.

Enquanto esperava a comida chegar, o Mike teve a “melhor” ideia.

“Vai lá pegar o diário, cara, lê umas historinhas de ninar pra gente!” Ele disse no meio das risadas.

Teve umas caras confusas dos outros amigos, que não sabiam do que ele tava falando.

“É, ele achou num espaço de rastejo antigo. A coisa parece pré-histórica.”

Depois de umas vaias sarcásticas e incitação, decidi agradar a galera.

Pigarriei e virei pra uma página aleatória.

Entrada 47: “Tô aqui há um tempo. Gosto do que eles fizeram com o meu lugar. Finalmente parece casa.”

“Trabalho incrível, continua!” Alguém disse num tom debochado.

Continuei mais adiante.

Entrada 62: Eles finalmente tão indo embora! Fiz minha parte pra garantir que soubessem que era hora de ir. Agora é tudo meu!

“Tá bom, tá bom, mais uma pra noite.” Eu disse.

Virei pro final do diário.

Entrada 89: Ele tá mudando tudo! Essa é MINHA casa. Remendando buracos e arrancando carpete. MERDA. Essas são MINHAS memórias que ele tá pintando por cima. Ele sai bastante. Isso me dá um tempão pra planejar. Ele precisa saber que essa casa é minha.

Isso foi perturbador. Parecia errado. Senti um nó na garganta. Olhei pro Mike justo quando terminei as últimas palavras. Ele tava lá com aquele sorriso bobo.

“Ah ha! Muito engraçado, seu babaca, tentando me assustar!”

Ele devia ter encaixado uma entrada “pessoal” ali quando tava me ajudando a arrumar pra festa. Esse cara nunca levava nada a sério.

A gente meio que riu daquilo e continuou a noite. A comida tava ótima, as bebidas ainda melhores. Meus últimos amigos deram tchau e era hora de eu dormir um sono merecido.

Depois de arrumar um pouco, me joguei na cama. Não demorou pra eu apagar.

Pensei que tava sonhando quando ouvi.

Uma batida.

Não tinha certeza se vinha das paredes. Aí ouvi de novo.

Uma porta.

Sabia que era uma porta. Minha porta? Levantei pra ver o que caralhos tava acontecendo. E aí ouvi de novo.

Não era da minha porta.

O quarto de hóspedes. Vinha do quarto de hóspedes.

Abri a porta do meu quarto e entrei no corredor.

Escancarei a porta do quarto de hóspedes. Fiquei parado tentando ouvir algo. A casa tava quieta. Só dava pra ouvir minha respiração pesada.

Outra batida.

Vinham do armário.

Deixei a porta do espaço de rastejo aberta? Deixei uma janela aberta? Era corrente de ar? Todos pensamentos que passaram pela minha cabeça na meia segundo desde a batida.

Dei mais um passo, o assoalho rangendo sob meus pés. A porta do armário tava entreaberta, e eu via a borda do painel do espaço de rastejo lá dentro. Estiquei a mão pra empurrar a porta inteira, me sentindo meio ridículo enquanto sussurrava “Alô?” pro escuro.

No mesmo instante, a porta explodiu aberta.

Uma figura saiu do armário, uma sombra se jogando em cima de mim com um brilho de aço na mão. Antes que eu pudesse gritar, uma faca cortou o ar, arranhando meu braço e mandando uma onda de dor.

Adrenalina tomou conta. Tropecei pra trás, tentando ganhar distância, mas o atacante caiu em cima de mim num piscar de olhos. Mal registrei a dor enquanto me contorcia e corria pra janela. Meu único pensamento era fugir.

Pulei e me atirei pela janela, caindo com tudo no chão lá fora. Dor subiu pela perna quando aterrissei forte, mas não parei. Mancando o mais rápido que dava, fui pra casa do vizinho, coração batendo mais alto que nunca.

Foi lá que chamei a polícia, ofegante, sangrando e finalmente forçado a admitir que algo muito pior que ratos tava vivendo nas minhas paredes.

No fim, a polícia achou o espaço de rastejo exatamente como eu deixei, exceto pelo diário aberto na última entrada. Nenhum sinal do atacante, nenhuma explicação de como ele tava vivendo ali sem ser notado. Mas eu sabia o que vi. As palavras finais do diário queimaram na minha mente.

“Essa casa sempre vai ser minha.”

Mudei na semana seguinte. O que quer que assombrasse aquela casa, quem quer que tivesse reivindicado como sua, eu não ia ficar pra descobrir o que acontecia depois.

Minha viagem virou um pesadelo

Eu nunca tinha dirigido até Miami antes. Era pra ter ido anos atrás, mas tudo fechou e viajar parecia impossível. Quando a vida finalmente voltou a algo parecido com o normal, eu planejei a estrada sozinho. Metade dos lugares que o Jeremy e eu falávamos em visitar tinham sumido de vez, mas eu achei que ainda valia a pena ir.

Eu tava no meio do nada quando aconteceu. O rádio cortou do Dr. Dre pra um chiado puro. A tela não piscou — derreteu, os números das estações se contorcendo em sequências aleatórias de letras, como se o sinal estivesse tentando falar. Antes que eu pudesse mexer no botão, ele deslizou sozinho pro controle de volume. Eu baixei e fingi que não tinha acabado de ver meu carro tentando se comunicar comigo.

Três minutos depois o céu escureceu. Nuvens pesadas rolaram tão rápido que parecia que alguém tinha ligado um interruptor. Aí veio a chuva — lençóis grossos batendo no para-brisa, mesmo sendo pleno verão e o app jurando céu limpo. O GPS dizia que faltavam 53 km. Isso — quilômetros. Eu uso métrica; faz mais sentido. Mas o que me gelou não foi a distância. Foi a luz amarela de combustível piscando fraquinho, como se estivesse respirando. Eu devia ter notado antes. O Jeremy me mandou encher o tanque antes de sair, e eu dei de ombros.

Rezei pra ter um posto ali perto. De algum jeito, a rodovia cuspiu um logo à frente, como se estivesse me esperando.

A chuva parou na hora. Não devagar — sumiu. Passei a mão no para-brisa uma vez, e pelo vidro embaçado vi uma placa de estrada, ou o que sobrou dela. O metal pendia torto, preso por um único parafuso. O vento já devia ter arrancado aquilo há tempos, mas ela ainda tava lá, como se tivesse um propósito.

A área de serviço parecia abandonada de longe, mas as luzes tavam acesas. Encostei, saí do carro e fui direto pro banheiro antes de abastecer. Dentro, umas poucas pessoas sentadas nos balcões de fast-food: Subway, KFC, um chinês pequeno e um cafézinho meio escuro. Ninguém falava. Ninguém erguia o olhar. Comiam como se estivessem tentando lembrar como era mastigar.

Entre os restaurantes, uma lojinha estreita, mal cabia a porta. Só notei por causa da placa desbotada em cima: Souvenir.

Não sei por que entrei. Hábito, vai ver. Lá dentro, uma velhinha no caixa. Cabelo prateado preso num coque apertado, óculos finos, um livro de palavras-cruzadas aberto na frente dela. Não se mexeu quando entrei. Não acenou. Não piscou. Só ficou me olhando, como se estivesse me esperando.

A loja não tinha nada de especial — cartões-postais empoeirados, pulseiras baratas, bonés, camisetas velhas. Aquela tralha que a gente só compra quando não tem mais motivo pra continuar andando.

Aí eu vi. Um boné com o logo antigo do touro de Miami. Não o atual — o antigo, que tiraram de circulação anos atrás por causa de uma briga de plágio. O Jeremy sempre zoava que compraria um se achasse. A gente usava o logo original no ensino médio; o diretor era louco por aquele time. Ver aquilo ali parecia impossível.

Não sei por que aquela lojinha de souvenir me incomodou tanto.  
Ficava bem na beira da rodovia, neon rachado zumbindo como se estivesse morrendo. As prateleiras lotadas de tranqueira velha — não antiguidades, mas coisas que pareciam... erradas. Como adereços de um lugar que lembrava o passado de um jeito diferente do nosso.

Achei uma camiseta com um mascote de touro — Team Bulls, o logo quase idêntico ao do meu colégio antigo. Mesmas cores, mesmo rosnado. Só um detalhezinho no olho era diferente, como se alguém tivesse copiado de memória depois de anos no subsolo. Comprei de zoeira pro Jeremy. Uma Pepsi também. O atendente não falou uma palavra. Nem olhou pra mim. Só passou as coisas no caixa e empurrou a sacola pelo balcão, como se tivesse medo de encostar em mim.

A estrada até Miami devia ter sido moleza. Mas vinte minutos depois, quando entrei na cidade, tudo parecia fora do lugar — como se a cena alegre de praia do lado de fora da janela fosse encenada. Brilhante demais. Limpa demais. Como se estivesse se esforçando.

Aí o cara surgiu na frente do carro.

Pisei no freio com tudo, pneus gritando. Uma criança saiu de trás dele — pálida, sorvete escorrendo pelo pulso. O homem só me encarou, olhos arregalados como se eu tivesse cometido um pecado. Como se eu não devesse ter chegado.

Meu coração quase parou. Estacionei a um quarteirão de distância e fiquei lá tremendo, tentando respirar. Fiquei me dizendo que era cansaço. Que eu só tinha imaginado o olhar dele.

Quando cheguei na casa do Jeremy, o sol tava se pondo. Ele tava esperando do lado de fora com o cachorro — Rudolf. Um vira-lata simpático, olhos castanhos, abanando o rabo com tanta força que o corpo todo balançava. Coloquei o boné da lojinha nele e a gente riu. Por um momento, pareceu normal.

Aí a noite caiu, e algo na casa parecia... observando.

O Jeremy falava — histórias do hospital, esgotamento, cansaço da pandemia. Tentei prestar atenção, mas minhas pálpebras pesavam, como se o próprio quarto estivesse me puxando pra baixo. O cachorro saiu pro jardim. A sitcom tocava. O Jeremy continuava falando, sem me olhar.

E aí eu ouvi.

Um estalo seco, como madeira rachando no calor. Dei um pulo.  
O Jeremy nem reagiu. Só continuou falando, voz firme, olhos na TV.

Olhei pra fora.

O Rudolf corria pelo quintal, mas não era mais um cachorro. Era uma forma — queimando, piscando, se movendo errado, como se o fogo tivesse resolvido imitar uma coisa viva. Gritei o nome do Jeremy, berrei sobre o cachorro dele, mas quando ele olhou, o Rudolf tava ali do lado dele, bocejando. Perfeitamente bem. Como se nada tivesse acontecido.

Me convenci de que era choque do quase-acidente de antes. Cansaço. Estresse. Tentei respirar. Tentei agir normal. O Jeremy pegou água pra mim. Pediu pizza. Comemos enquanto o sol sumia, e a casa parecia afundar mais na terra.

Aí a TV piscou. Um programa de auditório.  
O competidor parecia o Jeremy — quase idêntico, exceto pelo cabelo.

A pergunta era sobre a deusa grega Héstia.

“Fogo!”, o Jeremy gritou pra TV, meio de brincadeira. E aí ele congelou. Olhos arregalados.

“Tá pegando fogo”, ele sussurrou. “No jardim.”

Virei. E vi de novo. A forma queimando — correndo, em pânico, com o contorno inconfundível de um cachorro em chamas.

Corremos pra fora com água, apagamos o fogo, engasgando com fumaça e pânico. Quando as chamas morreram, a forma desabou, e o que sobrou não era um animal queimado — era nada. Só terra chamuscada, soltando vapor, como se algo tivesse queimado pra sair do mundo.

Quando nos viramos, o Rudolf tava atrás da gente.  
Rabo abanando. Língua pra fora. Totalmente ileso.

Mas os olhos dele tavam errados.  
Refletiam o fogo.  
Mesmo no escuro.

O silêncio entre a gente parecia vivo.  
Quando olhei pro Jeremy, reconheci cada emoção arranhando o rosto dele — medo, arrependimento, um pavor esmagador que eu nunca tinha visto em outro ser humano. Não era só que algo ruim tinha acontecido. Era que algo errado tinha se instalado sobre a gente, e nós dois sabíamos.

Não teve choro. Ele não tremeu nem gritou. Só ficou olhando além de mim, como se o mundo do lado de fora da janela tivesse virado algo que ele não reconhecia mais. Aí uma batida na porta da frente. A voz de uma mulher veio de fora — vizinha perguntando se tava tudo bem.

“Tá”, o Jeremy disse. “Tudo bem.”

Não tava. Eu sabia. Ele sabia.

Quando a porta se fechou de novo, o silêncio engoliu o quarto. Por um momento, nenhum de nós se mexeu. O tempo não parecia real. Finalmente, o Jeremy falou sem me olhar.

“A gente conversa sobre isso depois”, murmurou.

Tentei responder, mas ele já tava subindo as escadas. A porta fechou. Um segundo depois, ouvi tampinhas de cerveja batendo na madeira.

Não dormi. Toda vez que fechava os olhos, via de novo — aquela coisa, aqueles momentos impossíveis, o pesadelo que não parecia sonho nenhum.

Quando a manhã finalmente chegou, meu cérebro parecia oco e pesado ao mesmo tempo. Demorei um minuto pra lembrar o que tinha sonhado, e quando caiu a ficha, o medo voltou como um soco.

Eu corria subindo uma ladeira, perseguindo o Jeremy por uma névoa grossa. Parecia um jogo de terror antigo — atmosfera granulada, sem som além da minha respiração e do esmagar da terra. O Jeremy nunca olhava pra trás. Quanto mais perto eu chegava, mais densa ficava a névoa, até eu não enxergar minhas próprias mãos. Aí o chão sumiu debaixo dos meus pés — eu tava prestes a despencar de um penhasco. Parei bem a tempo, e a névoa se dissolveu. As pegadas do Jeremy terminavam bem na beira. Uma pegada incompleta pairava ali, como se ele tivesse dado um passo pro nada.

Uma batida suave me acordou de verdade.  
“Tá acordado?”, o Jeremy perguntou pela porta.

Falei que sim — ou pelo menos acho que falei — e me arrastei da cama. Ele já tinha feito panquecas. Pela janela, um montinho de terra no gramado. Em cima, uma foto. Do Rudolf.

Ele não falou nada sobre aquilo. Nem olhou. Só empurrou um prato pra mim e mastigou em silêncio. Entendi. Não era pra falar sobre a noite passada. O que quer que tivesse acontecido — o que quer que a gente tivesse visto — não era pra ser dito em voz alta.

Depois do café, o Jeremy insistiu que a gente pegasse meu carro.

“Confia em mim”, ele disse baixinho. “Você vai querer ir embora quando quiser.”

Sorreiu como se fosse piada, mas eu sabia que não era.

Ele disse que conhecia um lugar — “praias de coral no meio do mato”, ele chamou. Essa frase ficou grudada na minha cabeça desde então. Acho que não é algo que as pessoas dizem de verdade, mas ele agiu como se eu devesse saber. Não usava roupa de trilha. Sem botas. Sem equipamento. Só jeans e aquela camiseta de beisebol desbotada que eu dei pra ele ontem.

Dirigimos em silêncio até a cidade derreter em campos e trilhas estreitas. Era lindo — lindo de um jeito inquietante. Flores por todo lado, como se alguém tivesse pintado. Fileiras perfeitas. Cores vibrantes. Aquele tipo de paisagem que só parece real se você tá sonhando ou na frente de um folheto photoshopado.

Subimos uma encosta suave até um mirante. Pessoas andavam ao nosso redor, quietas e sorridentes, como se nada de ruim pudesse acontecer naquele lugar. Por um segundo, acreditei. Respirei o ar frio e deixei a paz me invadir. Meus ombros relaxaram. Meus pensamentos pararam.

Aí eu pisquei.

E o mundo não era mais o mesmo.

A colina sumiu.  
Os jardins sumiram.  
O céu, as pessoas — tudo desapareceu.

Eu tava em uma planície gramada engolida por névoa branca. Meu corpo se recusava a se mexer. Meus olhos travados pra frente, presos. O pânico rastejava dentro das minhas costelas, mas não tinha pra onde ir. Eu respirava — sei que respirava — mas não conseguia levantar um dedo.

Acho que eu não tava mais no controle.

Quando tentei me mexer, parecia que eu tava acordando dentro do meu próprio corpo pela primeira vez, como se tivesse sido amarrado por correntes que eu não via. Quanto mais eu lutava, mais sentia que tava rompendo o que quer que me segurasse.

Foi aí que notei.

Algo vinha na minha direção. Não andava. Deslizava. Não flutuava como quem anda na ponta dos pés no escuro — não rastejava nem se escondia. Se movia como se o chão não fosse real, como se não precisasse do mundo em que o resto de nós tá preso.

Por um segundo, esqueci como respirar. Cada parte de mim gritava que se eu não me mexesse agora, se não me arrancasse do que quer que me segurasse, algo definitivo ia acontecer. Algo de que eu não voltaria.

Continuou vindo.

Mais perto. Perto demais. A poucos metros —

“Não. Não. Não — fica longe de mim!”

Não sei como, mas de repente ele tava bem à frente e eu conseguia me mexer de novo. Corri. Corri como se minha vida dependesse disso — e talvez dependesse — mas aquela coisa deslizava mais rápido. Não era humana. Eu sentia. Parecia puro erro.

Aí ela me pegou.

Tudo ficou branco. Uma voz gritou — não a minha — “Para ele!”

Abri os olhos e tava pendurado na beira de uma plataforma de mirante na cidade, minhas mãos agarradas pelas de estranhos tentando me puxar de volta. Meu corpo parecia impossivelmente pesado, como se a gravidade tivesse me escolhido. Dezenas de pessoas se esforçavam pra me erguer... e eu mal me mexia.

Olhei pra baixo.

O Jeremy tava agarrado nas minhas pernas, tremendo, desesperado. E atrás dele — agarrado nele — tava aquilo. Um peso morto puxando pra baixo. Subia pelas costas dele como se tivesse todo o tempo do mundo.

Ninguém mais via. Juro que não.

Um segurança agarrou meu braço e tentou me levantar. Subi centímetro por centímetro — e a coisa também. Subiu até o rosto dela pairar a centímetros do meu. Sorriu. Os dedos cravaram na minha roupa, como se decidisse quem levar.

Tentei gritar o nome do Jeremy. Tentei avisar. Mas o demônio envolveu a mão no pulso dele, como quem marca propriedade. O Jeremy nem reagiu.

Num momento ele tava lá.

No outro, o aperto afrouxou... e ele sumiu.

Sem grito. Só o som de um corpo batendo em algo lá embaixo. Um baque surdo, final. Todo mundo ao meu redor ficou em silêncio, paralisado, como se não entendesse o que tinha acabado de ver.

O demônio sumiu.

Fiquei olhando pro corpo do Jeremy enquanto me puxavam de volta pro chão firme. Depois, testemunhas disseram que só viram eu escorregar — pendurado na beira, apavorado — e o Jeremy tentando ajudar. Não viram a coisa. Não sentiram.

Eles querem respostas. Eu também.

Dirigi pra longe depois. Não consegui ir pra casa do Jeremy. Não liguei música. Não pensei. Só dirigi, em silêncio, tentando não sentir a forma da mão dele ainda em mim.

Quando cheguei na rodovia, o rádio ligou sozinho de novo. Desliguei. Não aguentava ouvir.

Parei numa área de serviço — a mesma da noite anterior. Só que dessa vez, a lojinha de souvenir não tava lá. O prédio simplesmente... não existia. Todos os outros lugares tavam no mesmo lugar. Mas a loja? Sumiu como se nunca tivesse existido.

Rodei procurando. Nada. Nenhum rastro, nenhum sinal de que tinha sido real.

Não achei desde então.

Entre Minhas Bocas

Não me lembro quando comecei a gostar de ficar na beira.

Talvez tenha sido da primeira vez que mergulhei os pés numa água quente demais e senti o calor latejando subindo pelos tornozelos. Ou quando deixei a mão parada no ferro, recém-desligado, só o tempo suficiente pra ouvir aquele chiado silencioso que a pele faz antes da dor. Não era masoquismo, acho. Era outra coisa. Uma espécie de tremor que me deixava suspensa, como se o corpo respirasse sozinho sem precisar de mim.

Às vezes eu entrelaço as pernas até elas deixarem de existir. Espero o tempo que for preciso pra parar de sentir temperatura ou textura. Quando chega esse momento, mexo de novo. Aí a corrente começa a fluir, o formigamento corre pelo corpo inteiro, como um eco acordando debaixo da pele. As vias das pernas doem, queimam, me fazem franzir a cara, os músculos se tensionam, e eu tento mexer devagar só pra maximizar a sensação.

Já tentei outras coisas. Deixar algo cair nos dedos do pé, até o impacto arrancar um gritinho interno e o corpo se contorcer por um segundo. Prender a respiração até o peito queimar, a cara esquentar, as veias das têmporas incharem, e o coração bater no lugar errado, bem entre as pernas. Mas não é sobre chegar no ponto, nem gozar, nem nada disso. Se eu cruzar a linha, se eu ceder ao impulso, tudo desliga. Então eu paro. Sempre antes. Sempre a tempo. Ali, na antessala, tudo tá vivo: o ar, a pele, a umidade, o ardor, a queimação.

Ultimamente tá mais difícil. O corpo não responde mais do mesmo jeito. As pernas demoram mais pra ficar dormentes, o queimor some rápido, como se a pele tivesse aprendido a se defender de mim. Comecei a procurar jeitos novos de voltar. Às vezes mergulho as mãos em água gelada, tão fria que parece queimar, os dedos ficando num vermelho-cereja lindo. A pele racha e as unhas escurecem, violeta pálido, quase como o sangue mais grosso que se pode imaginar.

Mas não dura muito. O corpo esquece com uma facilidade que me assusta, me desespera. Cada tentativa me deixa um pouco mais longe, um pouco mais oca. Às vezes acordo de madrugada e não sinto os lençóis na pele. Tenho que cerrar os punhos, morder o lábio inferior até sangrar, que já não tem gosto de metal enferrujado, nem calor. Tenho que arranhar o colchão e quebrar as unhas, só pra checar que ainda tô aqui.

Há semanas o corpo se comporta como algo emprestado. Ando, respiro, me mexo, mas é como se eu fizesse isso dentro de um macacão que nunca serve direito. A pele não registra mais o que toca: água, ar, tecido. Tudo tem a mesma temperatura morna de coisas que não existem de verdade.

Tento voltar pro umidade, pro pulsinho que antes me mantinha viva, mas a corrente não chega. Nem o formigamento, nem o pulso, nem a pressão que me lembrava que eu tava ali. Tentei enganar o corpo com contrastes, com mudanças bruscas, com choque térmico, com o silêncio de um quarto escuro demais. Nada.

Há uma semana, tomei meio litro de óleo de cozinha no café da manhã. A textura da água parecia incerta, fraca, sem vida. Bebi direto da garrafa. Era mais grosso e escorregadio. Era o óleo que usei no dia anterior pra fritar batata. Abri a boca e deixei pingar direto da boca pras mãos. Dava pra ver os pontinhos pretos espalhados no líquido. Era diferente. Levei o óleo de volta à boca e deixei vagar entre os dentes. Mexi a língua na substância. Parecia alguém tentando correr dentro de piscina. Engoli o óleo devagar. Só aí senti o óleo chegar entre as pernas.

Eu tava expelindo da boca entre as pernas. Limpei rápido a mão direita e levei entre as pernas. Lá tava, sorri. A umidade. Minha umidade abençoada tinha voltado. Sorri extasiada, dentes engordurados e língua dormente. Peguei a garrafa de óleo e dei mais uns goles, seguindo aquele ritualzinho que acabara de aprender. No mesmo instante, como uma dança sincronizada, um marzinho terno, claro e morno escorreu da boca entre as pernas, o suficiente pra me aquecer no caminho até os tornozelos. Era eu. Era meu cheiro de pele úmida. Era meu grito pra poder sentir. As pontas dos dedos formigavam, loucas pra me provar, pra detectar a temperatura, pra me cheirar mais de perto. Era delicioso. Quase translúcido. Porque eu não me deixava ser, porque precisava do controle que só eu posso dar pro meu corpo. Porque precisava das regras que eu mesma me obrigo a seguir. Precisava daquela umidade, daquele pulso, daquela falta de controle. Precisava arrastar ele junto, acorrentar, rir na cara dele. Precisava das pernas tremendo e dele implorando um pouquinho de mim.

Teria sido só isso.

Se tivesse funcionado pra sempre.

Repeti esse momentinho mais três ou quatro vezes naquela semana. Só que numa manhã tudo parou de novo. Já não sentia o gosto de cinza que conhecia antes. Não parecia especial, amargo, viscoso. Nada. O jeito que ficava entre os dentes não funcionava; a língua não flutuava na densidade e engolir parecia inútil.

Olhei pro fogão e depois pra geladeira. A temperatura tinha funcionado antes. Mas uma colher de óleo queimado? O que eu ia conseguir sentir com esse elemento a mais? A umidade da língua congelada na superfície e a ferida resultante dos botões gustativos sendo arrancados da carne. Eu conhecia bem aquela dor: o gosto enferrujado do sangue congelado, o latejar da língua esfolada, e a visão da minha carne grudada naquela superfície fria. Precisava de outra coisa.

Olhei de novo pro fogão. O calor podia ser regulado, e talvez… uma colher de óleo reutilizado na temperatura certa pudesse acender meu corpo de novo. Fechei os olhos e balancei a cabeça, nervosa. Mas o que eu era não era humana, mulher. Era um impulso, e eu vivia por ele. Peguei a frigideirinha, coloquei um fio de óleo e acendi o fogão. Girei o botão e deixei no mínimo. Não passaram mais que alguns segundos até eu segurar a palma da mão em cima. Sentia morno. Bom o bastante.

Despejei a colher de óleo, levei pro rosto, e o cheiro de óleo encheu minhas narinas e a cabeça. Uma nova expectativa encheu o corpo. Toquei o óleo com o lábio superior… tinha uma mudança. Coloquei a colher na boca e deixei o óleo cair na língua. Dei um gritinho por uma fração de segundo, mas a sensação de brasas sumiu tão rápido quanto veio. Minha boca tava quente demais pra temperatura que eu tinha levado o óleo. Precisava de um pouco mais.

Girei o botão e vi as chamas crescerem um tiquinho. Contei até 60 e tirei a panela do fogo antes de despejar na colher. Mergulhei o mindinho no óleo, só a pontinha e um pedacinho da unha. Senti uma fisgada que fez minhas pupilas dilatarem. Eu sabia porque o filtro nos olhos mudou. Tudo parecia mais… ocre, mais cor de canela. Tava chegando lá. Tirei a ponta e levei à boca. A substância parecia bem mais quente. Com um pouco mais de calor, eu chegaria no objetivo.

De novo, com um pouco mais de óleo, coloquei a panela no fogão. Fogo mais alto e 60 segundos. Aos 45 segundos, já dava pra ver bolhinhas minúsculas na borda da panela. Sorri com a gengiva. Despejei rápido o óleo num copo e segurei no rosto. Agora tinha um cheiro doce de petróleo, tipo rímel deixado no sol. Não conseguia tirar o sorriso da cara, e até meus dentes do siso estavam ficando dormentes. Respirei fundo e despejei o óleo na boca, bem na língua. O arrepio foi imediato. O corpo deu um tranco, e lágrimas começaram a rolar pelas bochechas. Girei o óleo entre os dentes e senti o espaço entre eles crescer. Como uma represa que não segurava a água inteira. Um vazamento.

A língua parecia pesada e flutuava no óleo quente, queimando, inchando. Aí comecei a sentir a boca enchendo, como se o óleo tivesse dobrado de tamanho. Escorria do canto dos lábios, e resolvi engolir. Com toda a calma que merecia. O líquido grosso começou a descer pela traqueia; as pernas tremiam, assim como as mãos. O peito queimava, e eu sentia como se a caixa torácica estivesse se dissolvendo.

O rosto quente, o pescoço quente, os olhos quentes. Agora eu tinha um filtro vermelho nos olhos, tipo filme colorido numa balada barata. Engoli uma boa porção e o corpo convulsionou enquanto a umidade da boca entre as pernas aparecia. Se deixou, escorreu do corpo. A boca entre as pernas não se continha e eu via o óleo quente e a saliva da boca que morava entre as pernas rolarem morro abaixo até sumirem nos chinelos.

Fiquei hipnotizada, absorta naqueles caminhos que se formavam. As pernas queimavam, cheiravam a sexo e alcatrão. A cor começou a mudar pra um vermelho vivo e depois pra um vinho. Franzi a testa e levei as mãos trêmulas à boca entre as pernas, peguei um pouco daquela mistura de substâncias e levei os dedos à outra boca. Tinha gosto de óleo velho, ovulação e sangue. O óleo tinha cavado seu caminho como uma corrente de rio na terra. Saboreei o gosto entre os dentes, e aí eu soube. O círculo tava completo; o que entrou pela boca saiu e entrou de novo.

Não consegui evitar sorrir ainda mais largo; a plenitude corria pelas veias e roía a mente.

Só que senti um leve torpor. Algo ácido, algo que queimava mais que óleo fervendo. Era náusea. Sem conseguir controlar o corpo, caí de joelhos no chão gelado. A coluna arqueou, e senti como se as vértebras fossem se deslocar. Era algo vindo das entranhas, ou do estômago, ou das veias das panturrilhas — não sei. Não queria expelir, mas não mandava no corpo, e eu odiava isso.

Ondas e ondas de vômito sanguinolento saíram da boca. Não era só líquido. Dava pra ver coágulos vermelhos, pedacinhos vermelhos de algo. As paredes da boca e o tubo longo da traqueia pareciam ferver. O vômito vermelho encheu as mãos, o queixo, a pele fina do pescoço, os seios. Era tão… inebriante. Uma queimação quase corrosiva de dentro pra fora. Estava descascando a pele dos órgãos. Mas era tão, tão quente contra a pele. Alucinógeno e prazeroso. Tanto que a boca entre as pernas se encheu de novo de sangue oleoso, ainda morno.

Me senti totalmente absurda.

E tão gratificada.

Era isso que eu tinha procurado a vida inteira.

Só que eu não sabia se ia sobrar pele suficiente nos órgãos pra próxima vez.
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