domingo, 9 de novembro de 2025

Algo Estava Batendo Debaixo do Meu Barco

A gente passava a maior parte dos verões na casa de praia da minha avó, no lago. Ela vivia pedindo pra gente ir mais vezes desde que o vovô morreu no ano anterior, mas era foda pros meus pais tirarem folga do trampo por mais de um dia ou dois de cada vez. A semana que a gente passava na casa dos avós era a única férias de verdade que qualquer um de nós tinha no ano inteiro.

Minha parte favorita daqueles verões era quando o vovô me levava no barco à noite. Eu amava o jeito que a água ficava no escuro, e a gente sempre pegava um monte doido de bagre. O melhor, porém, era o silêncio.

Eu não tinha permissão pra tirar o barco sozinho, como se eu conseguisse.

Uma noite, depois de passar o dia andando pela cidade, comendo em restaurantes locais e fazendo compras, meus pais e a vovó capotaram cedo. Eu fiquei acordado mais uma hora ou coisa assim, olhando o lago da margem, ouvindo as ondas batendo na areia e desejando poder tirar o barco.

Notei o velho barracão do vovô, bem do lado do cais. Ele nunca me deixou entrar lá quando eu era criança, dizendo que era perigoso. Mas, como eu não era mais criança, resolvi eu mesmo achar a chave do barracão numa das gavetas da cozinha e dar uma fuçada.

Eu torcia pra ter um barco a remo ou um caiaque. Puta merda, até um boia inflável daria pro gasto. Eu só queria fazer a única coisa que eu realmente curtia no lago.

Abri o barracão e logo entendi por que o vovô queria que eu ficasse longe. Tinha objeto cortante e ferramenta pesada pra caralho em todo canto. Lá no fundo, vi uma lona azul cobrindo um troço grande. Dei uma espiada por baixo e sorri.

Arrastei o velho barco a remo de madeira que encontrei pra fora do barracão e pra margem. Olhei pra trás, pro chalé, pra ter certeza que todo mundo tava dormindo, e vi que as luzes tavam todas apagadas, exceto a da varanda.

Empurrei o barco pra água e comecei a remar. O chalé sumiu atrás de mim enquanto eu ia cada vez mais longe. Logo, tudo o mais sumiu no céu noturno, e o único som era das ondinhas batendo no barco e dos insetos cantando.

Deitei de costas e deixei o balanço suave do barco me relaxar enquanto eu olhava as estrelas brilhando espalhadas pelo céu azul-escuro. Por um momento, todas as preocupações que eu tinha na época sumiram. Fechei os olhos e respirei fundo, desejando poder ficar ali pra sempre…

Toc, toc.

Foi leve no começo. Tão leve que eu pensei se uma onda não tinha empurrado um galhinho contra o lado do barco. Ignorei por um instante e tentei me concentrar de novo no som das ondas, mas a batida voltou mais alta.

Toc, toc.

Sentei e vasculhei a área pra achar de onde vinha o som, mas não vi nada suspeito. Pensei se não tinha algo preso debaixo do barco.

Toc, toc.

Meus olhos fixaram no meio do barco, onde parecia que o som tava saindo. O barco tremeu um pouco quando me movi pro centro. Ajoelhei e encostei o ouvido no fundo.

Toc, toc.

Caí pra trás, quase virando pro lado, mas consegui me equilibrar. Ficou em silêncio por uns minutos. Pensei que o que quer que fosse tinha se soltado, ou, Deus me livre, nadado embora. Mexi no assento, percebendo que tava com medo de me mexer.

Toc, toc, toc, toc, toc, toc…

Peguei o remo e enfiei fundo na água enquanto a batida continuava. Tentei remar por uns segundos antes de perceber que não tava me movendo. O barco ficou parado, como se tivesse enroscado em algo. Remei com toda força, tentando soltar, mas nada.

A batida parou por um momento.

Toc, toc.

Algo espirrou a uns metros do meu barco. Não vi, mas o que quer que fosse era grande, pelo menos do tamanho de um bagre grande. Me movi pro lado oposto do barco e trouxe os joelhos pro peito. Abaixe o rosto pros joelhos e comecei a rezar.

Toc, toc.

“Ele quer que você pergunte quem é”, disse uma voz.

Minhas mãos tremiam, e a respiração acelerou. Não queria erguer a cabeça, mas sabia que não ia conseguir me defender se não fizesse. Respirei fundo antes de erguer a cabeça e ver uma figurinha pequena do outro lado do barco. Era um menininho, de uns 7 ou 8 anos, com roupa encharcada como se tivesse nadado até o barco e subido.

“Que porra você tá fazendo?”, perguntei, a voz tremendo mais do que eu esperava.

Toc, toc.

“Ele quer que você pergunte quem é”, o garoto repetiu. O rosto dele não mostrava emoção nenhuma.

As batidas voltaram, aumentando de velocidade e volume a cada vez.

Toc, toc, toc, toc, toc…

Toc, toc, toc, toc, toc…

“Pergunte quem é”, acho que o menino disse, embora eu mal conseguisse ouvir.

Tampei os ouvidos, mas não parou o som. Era como se a batida estivesse dentro da minha cabeça.

Toc, toc, toc, toc, toc…

Toc, toc, toc, toc, toc…

“Quem é?!”, gritei.

Parou…

Abri os olhos e vi que o menino tinha sumido. O lago tava calmo. Vasculhei a área, mas não vi sinal do menino nem de ninguém. Respirei aliviado, escolhendo acreditar que tinha imaginado tudo.

Coloquei o remo na água e comecei a remar. O barco avançou, me permitindo relaxar um pouco.

Eu tava a poucos metros da margem quando o barco parou de repente, quase me jogando pra frente. Caí enquanto o barco balançava violentamente, como se estivesse numa tempestade braba. A água ao redor borbulhava como se estivesse numa panela fervendo.

Gritei o mais alto que consegui. O barco parou de balançar quando a água se acalmou. Vasculhei a área por mais um momento quando notei algo pálido se movendo debaixo. Quase rompeu a superfície antes de afundar de novo.

Algo bateu no fundo do barco, e vi a silhueta pálida se mover pelo outro lado. Aconteceu várias vezes antes de eu perceber que tinha mais de uma coisa na água.

Todas pararam ao mesmo tempo e flutuaram logo abaixo da superfície.

Contei sete delas. Eram de cores diferentes, mas todas pareciam tufos de alga ou alguma vegetação fina e esvoaçante.

Uma por uma, romperam a superfície, e percebi que o que eu via era cabelo preso a algumas das crianças mais pálidas que já vi.

Só as cabeças flutuavam acima da água, e todos os olhos fixavam em mim. Fechei os olhos com força, torcendo pra que fosse um pesadelo, mas quando abri de novo, as crianças ainda me encaravam. Meus lábios tremiam enquanto lágrimas caíam dos meus olhos.

“Não chora, sr. Bryson”, disse uma menininha de cabelo escuro, que nadou mais perto do barco. “Eu fiz tudo que você mandou.”

“Conta outra piada de toc toc, sr. Bryson”, disse um menino. “Isso vai te fazer se sentir melhor!”

Todas as crianças gritaram “É!” em uníssono.

“Eu não…”, comecei.

“Outra piada de toc toc!”, gritaram de novo.

“Eu não sei nenhuma”, disse, a voz tremendo.

“Sabe, sim”, disse a menina de cabelo escuro antes de se aproximar mais do barco até bater no lado. Os dedinhos dela se enrolaram na borda enquanto ela se puxava pra cima e olhava fundo nos meus olhos. Só agora eu via, mas os olhos dela eram azul-claros, como quando um cachorro tem catarata. Veias roxas serpenteavam pela pele. Ela usava um macacão azul e sapatos rosa, ambos cobertos de lama e alga.

“Você contou uma pra gente antes de amarrar a gente num saco e jogar no lago”, disse ela.

Minha boca se abriu, e a respiração parou.

Toc, toc.

As crianças nadaram pro barco e subiram. Tentei me encostar num canto, mas elas invadiram o barco em questão de minutos. Senti as mãos frias e úmidas delas cobrirem meu corpo enquanto eu tentava gritar, mas nenhum som saía da minha boca…

Quando acordei, o sol tava no meio do céu. Cobri os olhos antes de sentar e enxugar o suor da testa. Vasculhei a área por qualquer sinal do que tinha acontecido na noite anterior, mas não achei nada.

Respirei um pouco pra me acalmar e organizar os pensamentos antes de remar de volta pra margem. Tinha que ter sido tudo um sonho, pensei enquanto arrastava o barco do vovô pra terra.

Ao colocar o barco de volta onde achei, notei uma pequena gravação no lado. Era o nome do vovô, Henry, com o ano 1973 embaixo. Imaginei que foi quando ele e o bisavô construíram o barco.

Comecei a ir pra entrada do barracão quando notei algo debaixo de uma das bancadas laterais. Era um saco de aniagem grande. Tinha vários.

Olhei mais de perto e vi algo rosa e branco encostado na parede. Tirei um sapatinho pequeno, enterrado numa camada de poeira. Larguei na hora. Tampei a boca enquanto me ajoelhava mais perto, percebendo que era o mesmo sapato que a menina usava no barco…

Passei a maior parte daquela semana fuçando o barracão e o antigo escritório do vovô enquanto meus pais e a vovó dormiam. O vovô era bom em esconder coisas de todo mundo, até da vovó. Consegui achar uma chave na escrivaninha dele que abria um cofre enterrado no fundo do barracão, debaixo de caixas de revista.

Dentro, encontrei fotos de crianças, a maioria das quais eu reconheci do barco. Tinha recortes de jornal e cartazes de crianças desaparecidas, que imaginei que ele guardava como troféus. Tinha coisas ainda mais tristes lá dentro, como pulseiras e braceletes.

Fiquei pensando por um tempo se valia a pena contar pra polícia, já que provavelmente não sobrava nada dos corpos. Pelos recortes de jornal, os corpos tavam debaixo d’água há décadas.

Não conseguia tirar os rostos delas da cabeça. Via elas, encharcadas e pálidas, toda vez que tentava dormir. Meus pais notaram a mudança em mim, embora eu negasse. Depois de um tempo, jurei que via as crianças em todo lugar que ia. Não aguentava mais…

Eles dragaram o lago algumas semanas depois. As únicas coisas que restavam eram esqueletinhos minúsculos de alguns deles. Alguns foram identificados por registros dentários. Uma delas era a menininha dos sapatos rosa.

Vi a família dela na TV. Falaram o quanto ela era uma alma linda e que monstro o meu avô era. Não dá pra discordar.

Minha avó nunca mais nos convidou pro lago. Não sei como ela se sentiu com o vovô depois disso, mas sei que odiava a atenção que aquilo trouxe.

Sinto falta daqueles verões no lago, mas sei que não seria a mesma coisa sabendo o que o vovô fez com tantas crianças, e fico muito feliz que ele nunca tenha me contado uma piada de toc toc.

Eu morava lá no norte, e é por isso que eu me mudei

Eu morava numa cidadezinha lá no norte – tipo, norte mesmo, onde neva metade do ano. Nasci lá e fiquei até os treze anos. Meu pai era pescador, saía pro mar por semanas seguidas, e minha mãe ficava em casa cuidando de mim. Não foi a melhor infância, mas eu tinha pais que se importavam comigo.

O motivo de a gente ter saído quando eu tava no sétimo ano foi um dia que eu tava voltando da escola no inverno. Quando você mora no subártico, as noites ficam mais longas. Eu fiquei um pouquinho mais na escola pra ver a aurora boreal. Sempre ficava olhando pela janela da sala, tanto que às vezes o professor precisava me mandar prestar atenção na aula.

Eu tava olhando as luzes no céu na praia perto da escola, mas aí vi um par de olhos mais perto da areia. Eles tavam me encarando direto. Minha mãe e o professor, o Sr. Lacroix, às vezes me falavam que os ursos polares apareciam naquela época do ano, mas eu achei que cinco minutos depois da aula não ia dar nada.

Eu não corri. Não de cara. Fiquei olhando pros olhos dele e fui recuando devagar. Meu coração já tava disparado, meus olhos vasculhando tudo em volta atrás de uma saída.

Era assim na minha cidade: o pessoal deixava o carro destrancado caso alguém topasse com um urso. Eu vi uma caminhonete; uma picape preta com rodas grandes, e quando cheguei perto o suficiente, finalmente disparei pra dentro e bati a porta com força. Travei as duas portas assim que entrei, e o urso tava a uns três metros quando eu consegui; arranhando a porta.

Comecei a chorar, encolhido no banco de trás dessa caminhonete com esse urso polar rondando do lado de fora. Só pensava: “Quero ir pra casa. Quero ir pra casa. Não quero morrer. Por que esse urso não vai embora?”

O urso branco tava com fome, e quando não tava batendo na porta, ficava me encarando pela janela. Os olhos dele refletiam a aurora boreal e jogavam a luz de volta pra mim. Meu pai tava no mar pescando e minha mãe em casa, sem conseguir chegar lá; a neve tava alta e mais ainda caindo naquela noite.

Eu sabia que não ia conseguir correr mais que o urso. Tive sorte de achar a caminhonete e de ter tido o bom senso de recuar devagar pra não fazer ele disparar na minha direção. Não sabia de quem era a caminhonete, mas fiquei feliz que tava ali. Devia ser de algum professor, seja lá qual fosse.

Então fiquei preso ali, trancado numa caminhonete com um urso polar me encarando e esperando eu sair. Ele era paciente. E eu sabia que não podia esperar tanto quanto ele.

Parecia uma eternidade dentro daquela caminhonete por horas, só vendo o urso me encarar do lado de fora. Ele sentava ali, esperando. Era isso que mais me apavorava: ele sentava e esperava, como se tivesse todo o tempo do mundo.

Ele fez um barulho, podia ser um bocejo ou um rosnado, mas eu ouvi o que parecia bem com:

“Sai… daí…”

Eu tava com muito frio, com muita fome, dentro daquela caminhonete. Tentei girar a chave, mas o motor só engasgou. A caminhonete tava congelada dura. Tentei me aquecer com as camadas de roupa e ficava olhando pela janela pro urso.

Um dos professores, o Sr. Lacroix, saiu por uma porta lateral da escola. Mas ele congelou ao ver o urso. Correu de volta pra dentro, mas o urso disparou atrás dele, arrombando a porta.

Forcei as pernas pela neve que batia no joelho. Cada passo parecia mais pesado que o anterior, mas eu não podia parar. Me obriguei a correr até chegar em casa e entrar. Minha mãe me agarrou e, claro, perguntou onde eu tava.

Tudo que consegui dizer pra ela foi: “Urso.”

Na manhã seguinte, minha mãe não me deixou ir pra escola por causa da neve e depois de ouvir no rádio local que o Sr. Lacroix tinha morrido no ataque do urso. Uma parte de mim se sente culpada por ter ficado lá fora, porque ele teria chegado na caminhonete dele em segurança e eu estaria em casa.

Todo mundo teve que esperar até a polícia espantar os ursos da escola, e os que conseguiam capturar eram levados pra um centro até poderem ser soltos. Mesmo depois que os ursos foram embora, as estradas ainda precisavam ser limpas. Tudo levou meses, e só em junho as pessoas voltaram a circular nas ruas e estradas. Fiquei aliviado, mas também assustado porque eles podiam voltar no inverno de novo.

Fico feliz de estar vivo, e pouca gente teria sobrevivido no meu lugar. Quando chegou o verão, meus pais e eu decidimos nos mudar. Meu pai virou operário de armazém na cidade grande, e minha mãe trabalhava no shopping. Mesmo sentindo falta dos amigos do fundamental, fiz novos amigos no ensino médio e na faculdade.

Não acho que eu conseguiria ter ficado naquela cidade com ursos aparecendo todo inverno. Sempre que neva, eu me lembro da minha casa antiga. Mas em algumas noites de neve, penso na aurora boreal e naquela noite que vi o urso me encarando.

Não acho que o urso era mau. Ele só tava fazendo o que precisava pra sobreviver. Isso não quer dizer que eu queira chegar perto de um de novo. Não tem muito mais o que eu dizer, a não ser uma coisa que ouvi sobre como lidar com ursos:

Se for preto, lute.

Se for marrom, deite no chão.

Se for branco, diga boa noite.

sábado, 8 de novembro de 2025

Os passageiros começaram a chorar de repente ao olhar para o mar

Desci do ônibus de turismo e senti o cheiro do mar. As risadas dos outros passageiros se misturavam à brisa fresca enquanto eu olhava para o navio de cruzeiro que se erguia imponente sobre o cais. A excursão ao centro histórico tinha sido perfeita — comida local, lembrancinhas e dezenas de fotos, a maioria de gatos de rua. Eu mal podia esperar pelo jantar a bordo, quando o navio zarparia do porto e começaria uma viagem de sete dias pelo Atlântico em direção ao Caribe.

Depois de trocar de roupa e me refrescar na cabine, fui para o salão de jantar principal. Um anúncio informou que a saída estava atrasada uns dez minutos porque um casal de passageiros tinha se atrasado. Putz, a segunda vez no cruzeiro que isso acontecia. Passei por passageiros com cara de irritados e cheguei ao salão. Era um restaurante lindo, que se estendia por toda a largura do navio e tinha três andares de altura. Decorado com painéis brancos, completados por enfeites azuis nas mesas e nos lustres. A maioria dos passageiros já estava sentada, enquanto eu fui levado a uma mesinha para dois no fundo do salão. Não dava pra ver nenhuma janela, mas isso não me incomodava porque a comida era ótima. As outras pessoas conversavam, riam e curtiam as férias.

Terminei o prato principal e estava ansioso pela sobremesa quando notei, pela primeira vez, um casal sentado perto de uma janela. A janela estava um pouco suja e tinha cantos arredondados, mas o que chamou minha atenção foi que eles estavam chorando. Não pareciam particularmente tristes, mas lágrimas escorriam pelo rosto deles. Sem dizer uma palavra, os dois se levantaram ao mesmo tempo e saíram. Logo depois, ouvi gritos e barulhos altos do lado de fora do salão, mas não dei muita bola e terminei minha sobremesa.

Não vi o casal depois disso e fui para uma salinha de biblioteca num dos conveses inferiores. No caminho, vi vários membros da tripulação conversando baixinho, com cara de nervosos. Depois de me sentar com meu livro — um romance policial dos anos 30 —, senti um leve arrepio. Tinha certeza de que vinha de uma sensação geral de desconforto dos tripulantes por perto. Quando notei dois deles conversando, comecei a andar devagar na direção deles, fingindo olhar as prateleiras de livros. “Levaram eles pra sala de resfriamento no convés 3!”, ouvi um deles dizer, seguido de “Ouvi dizer que foi uma bagunça! Ainda bem que a gente não tava lá.” Depois eles saíram, me deixando curioso pra caralho sobre o que estavam falando. Perdi a vontade de ler e subi pros conveses abertos pra tomar um ar.

Subi as escadas, convés por convés, pensando nos dois tripulantes. Que tipo de bagunça era aquela? Por que a sala de resfriamento? Quando cheguei no topo da escada, indo pra porta que dava pro convés superior, uma mulher jovem abriu a porta e voltou pra dentro. Ou melhor, ela simplesmente atravessou a porta sem nem levantar a mão; o corpo dela bateu nas portas e as empurrou enquanto andava devagar pra frente, como um objeto imparável. Ela olhava fixo à frente, sem notar ninguém ao redor, mas eu vi logo as lágrimas. Não eram lágrimas pequenas, mas um rio escorrendo pelo rosto. Ela nem tentava enxugar, só continuava andando em direção à escada, olhando pra frente. Passou devagar por mim. Achei que ia voltar pra cabine, mas de repente ela parou no meio da escada.

Ela virou devagar com um sorriso — não um sorriso feliz, mas daquele tipo que você dá pra uma criança chorando, cheio de compaixão e pena. De repente, ela se curvou e bateu a cabeça com uma força enorme contra a borda de um degrau. Sangue cobriu a escada, e o som do crânio dela se partindo ecoou pelas paredes de aço do poço da escada. Eu corri. Deveria ter chamado um tripulante ou tentado fazer primeiros socorros, mas o medo era tão grande que saí correndo pro convés aberto, mas o que vi lá me fez parar na hora. Uns cinco passageiros estavam do lado de fora, mais uns dez jaziam no chão cobertos de sangue. Os cinco sorriam com lágrimas escorrendo pelo rosto. Um deles segurava uma barra de aço fina e quebrada, mas antes que eu visse o que ele pretendia fazer com aquilo, gritei e corri de volta pra dentro, passando pela mulher no chão e indo direto pra minha cabine.

Bati a porta com força e me sentei, enterrando o rosto nas mãos e soluçando. Examinei a cabine: tudo limpo e arrumado. Queria ter uma varanda ou pelo menos uma janela, mas só encarei a parede. O balanço lento do navio era reconfortante, e eu me acalmei um pouco. Fiquei sentado no chão por o que pareceram horas até criar coragem pra espiar do lado de fora da cabine de novo.

Abri a porta e olhei pelo corredor. Silêncio. O corrimão na lateral do corredor tinha manchas vermelhas num ponto, das quais desviei o olhar rapidinho. Fui pro convés dos botes salva-vidas procurar um tripulante. Subi um convés e, logo antes da porta que dava pros botes, parei. Letras escritas com sangue seco cobriam a janela de vidro da porta. “Não olhe pra baixo”, era tudo o que dizia.

Hesitei e não empurrei a porta. Virei e vi uma mulher me olhando a poucos metros. Olhei direto pros olhos dela e, graças a Deus, não tinha lágrimas, só um olhar assustado. Percebi na hora que o olhar dela também foi direto pros meus olhos pra checar se tinha lágrimas. “Você olhou?”, ela gritou pra mim. Disse que não. Quando ela se aproximou, perguntei se sabia o que tinha acontecido. “Passageiros por todo o navio começaram a chorar e se machucar! Não sei o que dá neles. Notei primeiro quando tava conversando com um cara no átrio principal, aí ele olhou pela janela e começou a chorar como se alguém tivesse dito que a família dele morreu. Mas ele não parecia triste por ele, parecia triste por outra pessoa. Cheio de compaixão. Aí ele… ele foi e…” Ela começou a soluçar, mas não precisou continuar. A gente sabia o que acontecia com todo mundo que olhava.

Depois que ela se apresentou como Sarah, decidimos ir mais pra proa do navio atrás de tripulantes que talvez conseguissem chamar ajuda. Já era estranho ninguém ter aparecido; ainda estávamos perto o suficiente da costa pra helicópteros ou guarda costeira nos alcançarem. Tentamos usar os celulares, mas sem sinal. O Wi-Fi do navio, que a companhia anunciava como um dos mais rápidos do mar, tinha sumido. Enquanto andávamos, passageiros com lágrimas escorrendo entravam do convés dos botes, mas a gente nunca olhava pra eles por muito tempo.

Logo antes de chegar na proa, vimos um tripulante em pânico indo pros botes. Ele nos viu e fez sinal pra gente ir. Mesmo que os passageiros chorando nunca prestassem atenção na gente, ele sussurrava: “Eles olharam! Todos os oficiais na ponte olharam!”. O medo apertou mais. Se não tem mais ninguém na ponte, não dá pra falar com o mundo lá fora nem pra dar meia-volta. O tripulante, que se apresentou como Jim, disse que ia tentar descer um bote salva-vidas pra fugir usando uma venda nos olhos.

Com um aceno de aprovação, nos preparamos pra sair pro convés dos botes, amarrando uma manga rasgada na cabeça como venda. Jim foi na frente e empurrou a porta. Ar gelado bateu no nosso rosto como mil agulhas. Andamos devagar pra frente e depois pra esquerda. Depois de uns sete metros, chegamos num guindaste de bote. Jim puxou uma alavanca, e o bote começou a descer do alto das nossas cabeças até o nível do convés pra gente entrar. Logo antes de tocar o chão, uma parte do braço do guindaste que descia do teto bateu na minha cabeça e arrancou minha venda. O impacto me jogou no chão e me deixou zonzo. Ouvi os outros gritarem algo pra mim, mas eu tava tonto e só ouvia as vozes como um trovão distante. Abri os olhos.

Vi as ondas lá embaixo. Uma visão linda, com o luar refletindo nas ondas. Primeiro não vi nada, depois notei movimento debaixo d’água. Achei que eram tubarões ou golfinhos pelo tamanho, mas quando meus olhos se ajustaram ao escuro, percebi. Corpos humanos, se movendo junto com o navio. Um dos corpos esticou a mão pro casco e começou a escalar, de algum jeito se agarrando na superfície perfeitamente lisa do navio. O corpo parecia afogado há muito tempo, mas subia com a boca escancarada num sorriso largo.

Coitadinho, pensei. Deve estar com tanto frio e fome. Senti pena dele, como se tivesse encontrado um bicho morrendo na estrada. Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. Eu sentia que ele tava com tanta fome, passando fome havia anos. Se ao menos eu pudesse dar algo pra ele comer. As lágrimas não paravam. Ele chegou no topo e sorriu pra mim. Se ao menos eu tivesse comida comigo. Talvez eu pudesse dar algo meu? Ele precisa do meu corpo mais do que eu. Tá tão fraco e desesperado por comida. Sorrindo tão amigável. A borda afiada do corrimão chamou minha atenção. Se ao menos eu pudesse dar algo pra ele comer. Eu tava na frente do corrimão, erguendo devagar a cabeça. Queria rachar meu crânio pra dar comida pra criatura. Me encheu de alegria saber que ele finalmente ia poder comer. Quando os músculos do meu pescoço se prepararam pra bater pra baixo, uma mão tentou agarrar a parte de trás da minha camisa. Não me incomodou, eu tava concentrado no corrimão.

De repente, a mão me agarrou e me puxou com força pra trás; era a Sarah, me arrastando pro bote. O sorriso da criatura sumiu, e ela abriu a boca escancarada revelando fileiras de dentes afiados. O olhar dela de repente se encheu de uma raiva incompreensível. Ela deu um salto pra frente, mas o bote já tinha descido. Pareceu uma eternidade até chegar na linha d’água, mas assim que tocamos a água, parei de chorar. Confusos e apavorados, remamos em direção à costa enquanto o navio sumia devagar no horizonte.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Tenho encontrado pedaços de uma estátua perto do meu carro

Não sou o melhor motorista do mundo. Pelo menos consigo admitir isso. Conheço um monte de gente que dirige tão mal quanto eu, e a maioria jura de pé junto que é acima da média. Sempre é culpa de outro os amassados no para-choque e os arranhões nas laterais do carro. Sempre tem uma historinha pra explicar por que não foram eles que erraram.

Eu, por outro lado, aprendi há muito tempo a assumir a responsabilidade pelos meus vacilos e a trabalhar pra não repeti-los. Estaciono bem longe dos outros carros. Deixo um espaço extra no trânsito. E se ouço ou sinto o carro bater na guia ou em qualquer coisa, desço na hora pra ver como ficou. Não fico achando que “tá tudo bem” e saio acelerando. Já perdi calotas assim, e coisa pior.

Há mais ou menos um mês, estava saindo de um estacionamento fazendo uma curva à direita quando subi na guia. Não tinha visto, nem imaginava que estava tão perto, até que de repente senti o carro dar um pulo pra cima e descer do lado do passageiro. Suspirei, dei meia-volta pro primeiro espaço vazio e saí pra inspecionar o estrago.

O carro estava de boa. Tinha uns arranhões leves na lateral do pneu, mas nada sério. Sem bolhas suspeitas, sem furos. Nada que precisasse consertar.

Parecia que eu tinha arrancado um pedação da guia, porém. Pelo menos foi o que pensei de cara. Tinha um bloco de pedra quebrado, do tamanho dos meus dois punhos juntos, jogado na sarjeta, mas eu não conseguia ver de onde na guia ele tinha saído. Quando me aproximei, percebi que nem era o mesmo material. A guia era de cimento, mas a pedra parecia algo mais natural, talvez granito. E estava estranhamente lisa do lado de fora, como se tivesse sido moldada. Claramente não tinha vindo da guia.

Peguei pra examinar. Era pedra trabalhada mesmo. Não dava pra identificar direito o que tinha sido. Tinha uma parte que parecia um sapato, e era possível que o pedaço que eu segurava fosse uma perna inferior. Se fosse isso, a escultura não era lá grande coisa. Os detalhes eram corridos e vagos. O escultor claramente não tinha prestado muita atenção.

Não quis deixar ali pra alguém bater, então joguei no porta-malas do carro. Pensei em jogar fora na próxima vez que passasse perto de uma caçamba.

Claro que esqueci na hora. Só lembrei uns sete dias depois. Pisei no freio com força pra parar num sinal que não tinha visto, e ouvi o bloco de pedra rolando no porta-malas. Quase me matou do coração, porque de primeira não saquei o que era e pensei que tinha atropelado algo que não vi. Fiquei olhando todos os retrovisores em pânico e teria descido pra checar a rua se o cara atrás não tivesse buzinado pra avisar que eu estava travando tudo.

Enquanto acelerava pelo cruzamento, ouvi a pedra quebrada rolar de novo e de repente entendi o que era. Dei uma risada meio nervosa e anotei mentalmente tirar aquilo do porta-malas o quanto antes.

Tinha uma caçamba do lado de fora do condomínio pra onde eu ia, então estacionei na frente, abri o porta-malas. Fiquei surpreso de ver dois pedaços de pedra em vez de um. Primeiro pensei que tinha rolado com força suficiente pra quebrar ao meio, mas quando tirei os pedaços ficou ainda mais confuso.

O pedaço que eu tinha achado outro dia, aquele que parecia uma perna, estava intacto, igual quando encontrei. O segundo pedaço era totalmente novo. Não fazia ideia de como tinha ido parar no porta-malas.

Igual ao primeiro, era granito liso que tinha sido quebrado de forma bruta. Nenhuma das bordas dos pedaços encaixava uma na outra, mas dava pra ver que eram da mesma peça. Onde o primeiro lembrava uma perna rabiscada às pressas, esse dava a impressão de um braço. A mão era clara, cinco dedos abertos. O resto se misturava numa massa vaga.

Obviamente eu tinha pegado dois pedaços naquele dia e esquecido. Era a única explicação que fazia sentido. Nem lembrava que tinha algo no porta-malas até agora. Parecia razoável que também tivesse esquecido que eram dois pedaços.

Talvez eu tivesse conseguido me convencer disso se não fosse pelo terceiro pedaço. Ele não estava no meu carro. Estava encostado na lateral da caçamba.

Era maior que os outros dois e bem menos claro quanto ao que pretendia ser. Sozinho, eu nem teria percebido que era parte de uma estátua. Era um cilindro de granito disforme, quebrado de todos os lados. Quem olhasse de relance acharia que era entulho de obra.

Mas tinha partes alisadas, e a mesma cor dos pedaços de estátua que eu segurava. Encostei a perna nele, girando até achar onde as quebras batiam. O braço também encaixava.

O pedaço jogado fora era três quartos de um tronco, uma imagem borrada, meio vista, esculpida na pedra. Era em escala de metade, supondo que fosse um adulto. Podia ser uma estátua em tamanho real de uma criança.

Não me importei. Joguei os três pedaços na caçamba e estacionei o mais longe possível dela. Quando saí da casa do meu amigo naquela noite, chequei o porta-malas antes de ir pra casa. Estava vazio, ainda bem.

Duas semanas depois, a coisa toda já começava a parecer besteira. Sim, era esquisito, mas um monte de coisa é. Coincidências estranhas acontecem o tempo todo. A maioria nunca é explicada. É assim que o mundo gira. Eu tinha outras coisas pra me preocupar.

Estava pensando em algumas dessas outras coisas enquanto dava ré pra sair da minha vaga no trabalho. Tinha sido um dia longo no fim de uma semana longa. Fui o último a sair do escritório. O sol ainda não tinha nascido quando cheguei de manhã, e já tinha se posto quando saí. Meu escritório não tem janelas. Não vi o sol aquele dia inteiro. Tentava lembrar se tinha visto durante a semana toda.

Estava distraído, é o que quero dizer. Não tinha ninguém no estacionamento. Não tinha motivo especial pra prestar atenção. Até que um estalo alto quebrou meus pensamentos e me trouxe de volta à realidade.

Não tinha nada no retrovisor. Não tinha outros carros no estacionamento. Eu não estava perto de nenhum canteiro. Joguei o carro em ponto morto e pulei pra fora pra ver o que rolou.

A estátua estava quebrada no asfalto, os pedaços exatamente como eu tinha visto antes. A perna esquerda estava embaixo da roda traseira. O braço com os dedos abertos estava a uns metros de distância. O tronco danificado balançava de leve ali perto. Nenhum pedaço do lado direito estava lá, mas a cabeça…

A cabeça estava em mil pedacinhos de granito, espalhados pelo asfalto preto numa constelação horrível. Era tão impressionista quanto o resto da estátua, mas eu conseguia ver um triângulo vago de nariz, um pedaço que parecia ligar um olho e uma orelha, e dezenas de outros pedaços reconhecíveis entre os cascalhos.

Era só uma estátua, só um pedaço de pedra sem vida. Eu podia ter varrido pro lado. Podia ter seguido em frente. Talvez devesse ter feito isso.

Em vez disso, agachei ali no frio da noite, pegando pedaços de granito quebrado até minhas mãos ficarem dormentes. Empilhei os pedaços grandes no porta-malas e joguei todos os menores numa sacola. Quando terminei, o estacionamento estava limpo. Nenhum pedaço da estátua sobrou.

Tenho remontado tudo em casa, colando os pedaços com epóxi. Tem sido surpreendentemente fácil. Eu sei como deve ficar. Já vi antes.

Talvez eu não seja o melhor motorista. Mas assumo a responsabilidade pelos meus erros.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon