terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Eu achava que ia ficar segura trabalhando de casa. Já não tenho tanta certeza

Não tenho mais ninguém pra contar isso, então tô despejando tudo aqui pra você. Faz um ano que trabalho 100% remoto. Dá uma solidão do caralho ficar trancada no apartamento adentro, mas minha gata Mimi me faz companhia. Enquanto eu fico corcunda na frente do monitor, ela esfrega a cabecinha na minha perna com carinho e pula no meu colo. Eu endireito a postura, largo o mouse um segundo só pra fazer cafuné naquela cabeça doce cabeça. Em todos os momentos, pra tudo, ela é a minha luz.

Até o ano passado eu era barista. Salário mixuruca, mas dava pra sustentar a vidinha simples que a Mimi e eu tínhamos construído. Eu era feliz, adorava passar o turno batendo papo com os clientes, tomar café de graça era o bônus. Mas larguei tudo depois de um incidente que me deixou marcada — literalmente.

Resumindo a ópera: um cliente, docinho na fala mas meio esquisito, pegou um tesão incômodo por mim. Era figurinha carimbada, tomava café preto com um tiquinho de creme que ele mesmo colocava no balcão.

Numa noite ele me esperou do lado de fora da cafeteria, mão fechada em volta de um tijolo que pegou num canteiro de obra ali perto.

Eu achava que trabalhando de casa ia ficar segura. Já não tenho tanta certeza.

Hoje trabalho pra uma empresa de tecnologia, dando feedback humano pra modelos de linguagem grande, IA generativa e motores de busca. É repetitivo pra cacete, mas até que interessante, embora seja extremamente impessoal. Nunca falei com ninguém da empresa, nem conheço colega de trabalho — nem sei se tenho. Mal assinei contrato direito. Mas o pagamento cai direitinho, e eu posso assistir filme enquanto faço tarefas infinitas e burras pra caralho. Uns centavos por submissão vão somando rápido, e ainda ganho extra pra aceitar avaliar conteúdo NSFW.

Começou há uns dois meses. Eu tava na mesa de sempre, prestes a dar uma pausa pra dar comida pra Mimi que já tava arranhando as costas da cadeira. “Só mais uma tarefa, meu amor”, sussurrei enquanto clicava. Eu tava avaliando resultados de busca do Google pra certas queries. Enviei a tarefa, pronta pra deslogar. Foi aí que eu vi.

Meu nome completo, escrito na barra de pesquisa.

Meu nome é bem único, vai. A empresa obviamente tem meus dados de contato arquivados — será que eles usam dados de funcionário pra gerar queries falsas pra gente avaliar? Não lembro de ter lido nada sobre isso nos documentos de onboarding.

Então era uma busca real? Fiquei olhando pro monitor.

Já procurei um ou outro colega de escola pra ver o que eles viraram na vida, mas não tinha como me sentir lisonjeada. A palavra que vinha depois do meu nome me deu um arrepio na espinha: “endereço”. Alguém tava me procurando?

Olhei os resultados que eu tinha que avaliar. Nenhum, graças a Deus, mostrava meu endereço de verdade. Achei que tava viajando. Desde o incidente na cafeteria eu fico em alerta máximo. Perdi os poucos amigos que tinha assim, inclusive a colega que nos encontrou e me salvou naquela noite do caralho.

A paranoia venceu. Queria poder dizer que trabalhei em mim mesma, mas não trabalhei. Me fechei, tranquei a porta e joguei a chave fora. Hoje em dia peço quase tudo online — mercado, livro, tudo. Eu amava livraria de bairro, aquele cheiro de livro velho era o céu pra mim, mas navegar na Amazon substituiu todos os rituais da minha vida antiga.

Então sim, eu tava ligada no 220. Quando um pacote meu sumiu e depois descobri que o vizinho pegou por engano, a cara dele foi a primeira coisa que veio na cabeça. O sorrisinho torto dele também apareceu num flash. Será que era ele me procurando? Olhei a localização do usuário. Minha cidade. Nossa cidade.

No fim tive que enviar a tarefa e deslogar. A Mimi tava roendo o pé da cadeira. Não consegui tirar a sensação de que tava sendo vigiada. Mas quando voltei meia hora depois, a rotina já tinha engolido tudo. Nada estranho. Nada fora do normal.

Queria contar pra alguém, ligar pra uma amiga, mas a linha ficou muda.

Naquela noite fiquei espiando pela persiana no escuro antes de apagar a luz.

Há poucas semanas começaram a me mandar tarefas novas: avaliar prompts de geração de imagem. Basicamente classificar se o pedido do usuário era seguro ou inseguro. Sem imagem, só o texto. Acho que pra impedir o modelo gerar coisa imprópria.

A maioria era tranquila — até engraçada. Eu ainda tava rindo de um prompt anterior quando cliquei “enviar”. Joguei uma uva na boca esperando o próximo carregar.

Meu coração desabou quando vi meu nome na barra de pesquisa.

cadela morta *******-** *******

Me deu náusea. Fui atacada de novo. Meu corpo inteiro tremia enquanto eu passava o mouse em cima do botão “inseguro”. Li e reli o prompt torcendo pra ter lido errado. Não li. Era mesmo meu nome. De ninguém mais. Cliquei “enviar” e chamei a Mimi com a voz tremendo, implorando um pouco de colo. A página atualizou; o prompt sumiu.

O que apareceu em seguida estava longe de ser alívio. Dei um grito abafado, os olhos marejaram.

*******-** ******* cara esmagada com tijolo

Era ele, sem sombra de dúvida. A Mimi, minha melhor e única amiga, tinha entrado no quarto, e por mais que os miados dela fossem suaves, naquele momento não adiantavam porra nenhuma. Pensei em chamar a polícia, mas apesar de lembrar do hálito dele, do olhar vazio, da camisa surrada que ele usava quase todo dia no café, eu nunca soube o nome dele. Sempre pagava em dinheiro vivo e nunca foi preso. Nunca entrou no sistema.

Meu segundo impulso foi entrar em contato com a empresa. Será que eles conseguiam desanonimizar o usuário com base na violência dos pedidos? Mas de novo: nunca falei com ninguém da gerência. Não sei quem é meu líder de equipe — se é que tenho um. Recebo newsletter de funcionário, mas duvido muito que o time de marketing possa fazer alguma coisa por mim.

Nunca me senti tão sozinha, e olha que Deus sabe que já me senti.

Isso tudo, por mais assustador que tenha sido, não foi o que me fez escrever aqui. Depois do segundo incidente eu parei de trabalhar um tempo, morrendo de medo do que a tela ia me mostrar em seguida. A vantagem de ser só uma engrenagenzinha numa máquina tão grande e intangível é que você pode sumir a hora que quiser, sem dar satisfação. Ninguém ia notar, e no meu caso ninguém notou mesmo.

Mas logo vi que precisava do dinheiro. Não dava pra largar. Esse era o único emprego que me dava abrigo do mundo lá fora. Com o que eu sei, não posso — não consigo — arriscar botar o pé na rua.

Então voltei a aceitar umas tarefas, coração na mão toda vez que a página demorava pra carregar. Soltava um suspiro aliviado toda vez que desligava o monitor no fim do dia. Durante dois meses as persianas ficaram fechadas.

Mas não dá mais pra fingir que nada aconteceu depois do que eu vi hoje.

Peguei mais tarefas NSFW pra moderar, tentando compensar a semana que passei na cama. Tapava os olhos da Mimi toda vez que ela vinha pro meu colo — embora tela nunca tenha interessado ela, e eu nem sei se ela entende essas coisas.

Muitas fotos eu reconhecia de filme, outras eram meio cartunescas. Essas eram de boa. Outras eram granuladas, escuras. Prefiro nem saber de onde vieram nem quem tirou. Apesar do nojo da tarefa, eu me sentia segura avaliando aquelas imagens. Achava — ingenuamente — que por mais que ele pesquisasse o que quisesse, ele não tinha nada assim de mim. Não correria risco de ver meu nome de novo.

Estava errada. Hoje fui provada completamente errada, porque na minha tela só tinha vermelho.

Tudo vermelho.

Sangue vermelho.

Carne vermelha.

Tijolo vermelho.

E eu. Meu rosto era uma massa disforme, espancado até virar uma polpa nojenta, vermelho como eu nunca vi na vida real nem na tela. Mas aquele cabelo era o meu, e a gola da camisa, apesar de encharcada de sangue na foto, era inconfundível. Já não me serve há anos, mas eu sei de onde é.

Minha conta no Facebook é antiga, mas continua pública. Perdi a senha faz tempo. Na foto de perfil eu ainda tenho dezoito anos, cheia de vida e cor, intocada, intocável. A Mimi ainda era filhote — postei uma foto daquela bolinha laranja cheia de energia que ela era. Minha página tá cheia dos meus pensamentos — tudo que eu achava engraçado ou interessante eu jogava lá pro mundo ver. Essa parte inteira de mim ainda existe online. E eu sei que ele viu. Sei que ele meteu a mão bem lá dentro.

Não consigo tirar aquela imagem da cabeça. Não consigo esquecer como eu parecia morta naquela foto. Não sei pra quem recorrer. Não sei o que fazer. Será que ele consegue descobrir meu endereço com isso? Será que essa foto vai bastar pra saciar o desejo dele?

Uma pergunta que eu me faço todo santo dia há um ano voltou com força total.

Por quê?

Por que eu?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Apodrecendo por Dentro

Há trinta anos nos mudamos para o apartamento 304 do condomínio Willow Manor, logo depois de um divórcio dos brabos em que meu ex-marido me botou pra fora de casa junto com nosso filho de seis anos. Tive que gastar até o último centavo das minhas economias pra pagar o depósito pro dono do prédio — um véio de uns setenta e poucos anos, daqueles que parecem que já estão de saco cheio da vida. Ele falava o mínimo possível, mas foi gente boa o suficiente pra deixar a gente trazer a Bia, nossa pastora alemã, mesmo o apê sendo minúsculo e mal cabendo eu e o Matt. Era isso ou largar ela na rua e partir o coração do meu filho.

Os dois eram unha e carne. Desde o dia que o Matt nasceu, a Bia nunca largou do lado dele, quase uma segunda mãe. Toda vez que o ex surtava bêbado, gritando comigo e quebrando tudo, ela ficava de guarda na porta do quarto dele. Quando eu finalmente arrumava coragem pra levantar, ir pro banheiro e cuidar do nariz quebrado, os dois vinham atrás e só ficavam olhando. Os dois sem poder fazer nada pra me ajudar. Saímos daquela casa depois que o infeliz decidiu que não queria mais “gastar dinheiro criando o filho que ele mesmo mandou eu ter”. Eu devia ter agradecido por escapar, mas de repente a responsabilidade de sustentar minha famíliazinha caiu toda nas minhas costas depois de anos sendo mantida na dependência e tomando porrada. Eu não fazia ideia de por onde começar.

Depois de mudar com os poucos móveis que consegui levar, chegou a hora de arrumar meu primeiro emprego da vida. Tinha uma vendinha bem embaixo do prédio e, por sorte, eles podiam contratar mais uma caixa. O salário mal dava pro aluguel e pras coisas básicas, mas a gente sobrevivia. Os primeiros meses foram tranquilos, estávamos nos acostumando com uma casa silenciosa. À noite, depois de buscar o Matt na escola, a gente sentava no sofá, via TV e a Bia ficava deitada na porta de entrada. Desde o começo ela parecia estranhar o apartamento, como se sentisse algo que a gente não via. Achei que era só ela se adaptando ao lugar novo. Quando anoitecia, Matt e eu dormíamos juntos — coisa que nunca acontecia na casa do pai dele. Eu queria que ele se sentisse seguro antes de ir pro quarto dele.

Pouco tempo depois, os vizinhos da frente se mudaram e ficamos como o único apartamento ocupado no terceiro andar. O corredor era esquisito: eram quatro apartamentos no total, o nosso ficava entre dois, um na frente e o elevador lá no canto direito. Não demorou muito pra começarem os barulhos. Acordei uma manhã com som de furadeira na parede, achei que eram vizinhos novos e saí pra cumprimentar. Abri a porta: ninguém. Mas o barulho continuava. Pensei que vinha do andar de cima e deixei pra lá. A partir daí, barulho de obra quase o dia inteiro, a ponto de me dar enxaquecas brabas. Liguei pro síndico pedindo pra eles trabalharem em horário decente. Ele respondeu que não tinha obra nenhuma acontecendo no prédio e que eu tivesse paciência até “terminar”. Não quis brigar com vizinho de cima, calei a boca e aguentei.

Uns meses depois, novembro, o sétimo aniversário do Matt estava chegando. Meu presente foi arrumar o quartinho dele e comprar uma caminha com o pouco que juntei no trabalho. Ele ficou louco de felicidade por finalmente ter o próprio quarto e não precisar mais dividir a cama comigo. Fiquei até triste, mas entendi: ele estava crescendo, precisava de independência. Enquanto montava a escrivaninha, reparei num buraquinho na parede que nunca tinha visto. Como o prédio era velho pra caralho e todo detonado, achei que era só mais um defeito. A parede era a que dividia nosso apê do 303. Fiquei curiosa, dei uma espiada: o buraco era pequeno demais, só dava pra ver escuridão.

O Matt nunca foi de me acordar de noite chorando, mas depois que foi pro quarto dele virou rotina. Ele dizia que tinha um homem alto, de barba comprida, que ficava parado na porta olhando ele dormir. Meu ex era exatamente assim, então achei que era trauma, medo dele voltar e destruir tudo de novo. Pelo menos era o que eu queria acreditar. Entre o Matt me acordando toda noite e o barulho do andar de cima, eu mal dormia. Virei um trapo irritado, a paciência zerou, parei de dar atenção pro meu filho. Chegava do trabalho, me trancava no quarto e tentava relaxar.

Com o tempo o buraco na parede foi crescendo — começou a vazar um líquido e criar mofo preto. Eu limpava toda manhã, no dia seguinte voltava pior. Não tinha grana pra chamar pedreiro. O Matt se recusava a dormir sozinho, a Bia nem entrava no quarto, só ficava choramingando na porta. Minha cachorra calma e quietinha começou a correr pela casa latindo pra qualquer barulhinho e mal comia. Ela já era velha, passava o dia deitada, mas nessa época, quando eu levava pra passear, ela fazia de tudo pra não voltar pra casa. No fim, os dois voltaram a dormir comigo, acabando com o restinho de privacidade que eu tinha naquele apê minúsculo. Resolvi trancar a porta do quarto do Matt e fingir que nada estava acontecendo até conseguir alguém pra ver aquilo.

A gente estava infeliz pra caralho. Eu morria de medo de chegar em casa e ver meu filho. Ele vivia falando daquela figura, eu tentava convencer que era imaginação porque não queria acreditar que fosse outra coisa. Ele era muito novo pra entender que a gente não podia se mudar, e eu me sentia a pior mãe do mundo por não conseguir fazer nada. Ele estava assustado, paranoico com a casa — igualzinho antes de sairmos da casa do pai. Eu só queria me jogar na cama e não lidar com nada disso, mas tinha que cuidar dele, senão ia virar o mesmo monstro que o ex. Prometi que a vida ia mudar depois da mudança, que finalmente ele ia se sentir feliz e protegido. Mas a realidade não deixava. Escapei de um pesadelo e caí em outro, talvez pior. Pelo menos antes a gente se tinha; agora parecia que éramos eu contra ele. Eu tinha virado o monstro. Juro que tentei com todas as forças não deixar isso acontecer, mas alguma coisa dentro de mim tinha quebrado. Os dias passavam assim: quase não nos falávamos mais, parecíamos estranhos dividindo o mesmo teto, não uma família. Até a Bia mudou — não queria mais carinho, virava as costas e saía de perto de mim. Eu me odiava.

O cheiro que vinha do quarto trancado era insuportável, um fedor de podre e umidade. Enchi a casa de odorizador, mas não adiantava porra nenhuma. A toalha que coloquei embaixo da porta ficava encharcada de uma água preta, e eu morria de medo de abrir e ver o estado daquilo, porque sabia que não ia poder fazer nada. Parecia que tinha alguma coisa lá dentro querendo sair, e a porta era só uma ilusão de segurança — não pra nos proteger dela, mas pra manter a mentira de que estávamos seguros. A casa estava apodrecendo, e a gente junto. Era uma prisão, mas era isso ou morar na rua. Eu era a responsável por proteger minha família, e isso estava me destruindo. Às vezes me sentia uma criança assustada fingindo ser adulta, sem ninguém pra recorrer.

Chegou a hora de fazer alguma coisa. Minha única saída era pedir pro dono do prédio trocar de apartamento. Não aguentava mais passar um dia naquele lugar. Quando ele veio visitar, a porta do quarto estava quase toda preta de mofo, e eu tinha pavor de abrir depois de tantos meses. Parecia errado entrar ali — estava quase completamente escuro por falta de janela, o mofo preto tinha tomado as paredes. O cheiro era tão forte que parecia que dava pra ver no ar. O buraco já estava tão grande que dava pra passar agachado. O dono ficou puto achando que fomos nós que estragamos tudo e não acreditou numa palavra do que eu contei. Chegamos perto do buraco, tentando não pisar naquela lama preta e nos pedaços de entulho, e olhamos esperando ver o apartamento 303. Só tinha uma parede de tijolos empilhados. O prédio tinha sido construído no final do século XIX e nunca foi totalmente demolido — só reformaram por cima porque estava “bom o suficiente” pra alugar pra gente como eu, desesperada e sem grana. Aquela parede de tijolos provavelmente estava ali há décadas.

Já estávamos quase com tudo empacotado pra mudar no dia seguinte quando a equipe de limpeza chegou. O quarto escuro ficou cheio de gente e luz — senti um peso enorme saindo do peito. Eles desmontaram os tijolos pra limpar a fonte do mofo e atrás encontraram uma poça de líquido com restos humanos boiando. Alguém tinha sido literalmente emparedado ali, tijolo por tijolo, até sufocar. Fiquei horrorizada só de pensar que a gente morou tanto tempo com um esqueleto do lado e que deixei meu próprio filho dormir no mesmo quarto que aquilo. Não quis saber mais nada, só queria cair fora e nunca mais olhar pra trás. O dono insistiu pra gente mudar pra outro apartamento no prédio, num andar diferente, por metade do preço até eu achar outro lugar. Decidi que precisávamos mudar de ares mesmo, procurei um monte de anúncio e achei um lugar num bairro diferente. Saímos dali o mais rápido que deu.

Fiquei aliviada de ir embora, mas o medo do que descobriram ficou comigo por muitos anos. Às vezes passo pelo bairro antigo e ainda sinto o mesmo frio na espinha do dia que olhei pro buraco pela última vez — mesmo o prédio já tendo sido demolido. Morar no Willow Manor hoje parece um pesadelo horrível, e ainda bem que o Matt era muito pequeno pra lembrar de alguma coisa. Nunca contei a verdade inteira pra ninguém, talvez de vergonha por não ter conseguido proteger minha família daquele horror todo. Falar sobre isso torna real, e eu prefiro fingir que nunca aconteceu de verdade.

Onde a Luz Caiu

Eu bem que gostaria de não estar de plantão no meu dia de folga. Mas aquela propriedade rural velha e acabada na beirada da cidade subiu na lista de demolição mais cedo do que eu esperava. Precisei dar uma passada pra conferir se não tinha nenhum morador de rua, pra equipe poder derrubar tudo sem sustos nem surpresas.

A primeira coisa que me chamou atenção foi o quanto a casa ficava longe da estrada. Acho que os donos originais gostavam mesmo era de privacidade. De longe, o lugar parecia até comum. De perto, os detalhes saltavam.

Trepadeiras subiam pelas paredes, rompendo pedaços do que um dia foi tinta branca. Canos enferrujados pendiam soltos, prontos pra despencar ao menor toque, e um capacho de boas-vindas jazia meio comido pelos ratos.

Quando pisei no limiar, algo mudou. Os pardais lá fora calaram a boca de uma vez, e o calorzinho da primavera virou um frio úmido e cansado. Fechei a porta atrás de mim e ela rangeu de um jeito estranho, quase intencional. Como se estivesse tentando falar alguma coisa que eu não conseguia entender direito.

Eu esperava que uma casa velha assim cheirasse a mofo ou podridão. Em vez disso, o ar trazia um leve perfume doce, floral. Jasmim, logo jasmim. Aqui não tem jasmim, muito menos numa casa abandonada sem ninguém pra regar. Mesmo assim o cheiro ficava ali, suave e teimoso, ficando mais claro conforme meus olhos se acostumavam com a penumbra.

Outra coisa esquisita: o interior parecia escuro demais, mesmo com sol entrando pelas janelas. A luz nunca caía de qualquer jeito. Ela escolhia lugares. Tocava só certos pontos, como se tivesse critério. Uma escova de cabelo jogada no chão. Um livro em cima da mesinha de centro. Um par de luvas de forno pendurado na parede da cozinha. Um presente de Natal ainda embrulhado embaixo de uma árvore seca. Um soldadinho de brinquedo nas tábuas empoeiradas. A luz evitava o vazio e se acomodava só nos objetos que pareciam ter história, como se a casa quisesse me mostrar eles de propósito.

O soldadinho era o mais estranho de todos. Estava lá no chão empoeirado, mas impecável. Limpo demais, como se alguém tivesse brincado com ele ontem. Ajoelhei pra olhar melhor. Nem uma partícula de poeira. A casa estava abandonada há pelo menos cinco anos.

Também não sabia o que pensar das sombras que ficavam pelos cantos. Eu só via pelo canto do olho. Pareciam sólidas demais pra serem só sombra, mas sem forma definida. Às vezes, quando eu tentava focar nelas de lado, elas escureciam mais, quase pulsando com um brilho abafado. Mas bastava virar a cabeça e pronto, sumiam. Enquanto eu revistava o térreo, ficava ouvindo um barulhinho delicado de páginas virando. Um estalinho leve, depois silêncio. Eu parava toda vez, certo de que não era coisa da minha cabeça. Mas quando ia atrás do som, não tinha livro nenhum. Nada.

Subi a escada velha de madeira pra conferir o andar de cima. A cada degrau, as tábuas rangiam de um jeito que parecia… pessoal. Não era o ranger comum de madeira velha. O ritmo mudava, o volume subia e descia, como se os rangidos estivessem tentando formar palavras presas ali dentro. “James, desce pra jantar”, pareceu murmurar um degrau. “Tá bom, mãe”, sussurrou o seguinte.

Na metade da escada, o vento lá fora ficou mais forte. Mas até isso não soava certo. Por baixo do barulho normal de ar batendo nas venezianas quebradas, eu ouvia uma melodia suave, uma mulher cantarolando. Quando parei pra escutar melhor, a música ficou cristalina. The Skye Boat Song. “Carry the lad that’s born to be king… over the sea to Skye.” Minha mãe cantava isso pra mim quando eu era pequeno.

No andar de cima o ar mudou. O cheiro leve de jasmim quase sumiu. Ficou mais frio, com uma quietude que parecia feita de propósito. A luz de uma única janela alcançava só um lugar: a maçaneta da porta no fim do corredor. As sombras aqui demoravam mais pra sumir do canto do olho. Principalmente perto daquela porta.

Quando segurei a maçaneta, o calor dela me assustou. A porta abriu quase sozinha, sem resistência, e no mesmo instante algo relaxou no ar. Soltei o ar sem querer. A casa pareceu soltar junto comigo.

Era um quartinho pequeno. A cama estava desarrumada, o cobertor intocado exceto por duas marcas suaves sob a poeira. Uma maior. Outra menor, encolhida bem pertinho. A luz do quarto escolhia de novo: um livro de receitas na mesinha de cabeceira, um livrinho infantil e um aquecedor portátil coberto de poeira. A janela estava bem fechada. O quarto parecia lacrado, como se tivesse prendido a respiração por anos. Cheguei mais perto do aquecedor. O botão estava quebrado. Um aquecedor avariado num quarto sem ventilação era uma tragédia anunciada.

Olhei de novo pra cama. As marcas iluminadas pelo sol estavam tão quietas, tão acomodadas, como se ninguém tivesse mexido nelas desde o dia em que foram feitas.

Liguei pra polícia local e avisei o que tinha encontrado. Não tinha mais nada que eu pudesse fazer, só torcer pra que tratassem o caso com o respeito que merecia. Enquanto esperava eles chegarem, deixei um pequeno sinal de respeito. Tirei a poeira dos dois livros que a luz tinha escolhido. Ajeitei o cobertor com cuidado pra não apagar as marcas. Olhei o aquecedor e, com quase nenhum esforço, girei o botão quebrado de volta pro lugar. Um consertozinho bobo que poderia ter salvado os dois.

Na saída, fechei a porta do quarto. A maçaneta agora estava fria, igual ao resto da casa. O perfume de jasmim tinha sumido de vez. O vento lá fora era só vento. A escada não sussurrava mais sob meus pés, e o virar de páginas tinha calado. As sombras se esticavam de forma comum. A luz caía sem graça pelo chão.

Antes de sair, vi o soldadinho de novo. Agora não estava mais impecável — coberto de poeira, com umas teias de aranha penduradas no capacete. Sorri.

Uma paz quieta, inesperada mas firme, desceu sobre mim enquanto eu ia embora. A casa agora parecia vazia. Vazia de verdade.

Reconhecimento de padrões

"Antes de você ir embora, eu queria te contar sobre um novo estudo de pesquisa", diz Sarah.

Faz seis meses que eu faço terapia com a Sarah, e ela usou o mesmo cardigã em todas as nossas sessões. Eu sei que isso é por minha causa, porque uma vez eu apareci de surpresa pra remarcar um horário e ela estava de suéter verde. Hoje o cardigã está desabotoado e uma parte de mim já tá morrendo de medo da inevitável troca de guarda-roupa do verão.

"Que tipo de estudo?"

"É pra analisar os efeitos de um treinamento pra ajudar pessoas com prosopagnosia a reconhecer rostos. Eles vêm desenvolvendo um software há cinco anos e agora estão prontos pro primeiro teste com gente de verdade. Você toparia participar?"

"Tô dentro."

Não foi uma resposta cheia de animação. Já deixei de reconhecer minha própria irmã quando ela entrou na mesma academia que eu, e um ex particularmente nojento uma vez se aproveitou da minha condição pra tentar me cantAR depois do término fingindo ser literalmente um cara novo. Por sorte isso rolou numa festa e uma amiga me salvou rapidinho, mas dá pra entender por que eu não tava pulando de alegria com a ideia.

No dia seguinte já caiu um e-mail com todas as informações do software. Tinha até versão de app, além do site. Os dois registravam quanto tempo eu passava treinando e me diziam em que “nível” de reconhecimento facial eu estava. Era tipo Duolingo ou aqueles joguinhos de treinar o cérebro. Eu continuava sem muita esperança, mas fiquei com medo da Sarah perguntar quantos exercícios eu tinha feito e eu parecer a preguiçosa que nem tentou…

A primeira semana foi um saco. Meu nível subia devagarzinho, mas parecia que eu estava chutando o tempo todo. Na segunda semana, porém, comecei a melhorar de verdade. Reconheci as pessoas do app — reconheci de verdade — e até consegui identificar minha irmã dentro da sauna da academia. O cabelo dela estava molhado e mais cacheado do que ela costuma deixar, o rosto vermelho do vapor, a luz bem fraca… e mesmo assim eu soube quem ela era sem ela abrir a boca! Fiquei eufórica.

Logo eu já estava gastando todo tempinho livre no app e transformei reconhecer gente na rua num jogo particular. Tinha umas duas ou três pessoas da academia que deviam morar no meu prédio, porque os rostos delas apareciam direto e eu nunca tinha percebido. Comecei a sacar quais atores apareciam em mais de uma série que eu assisto. Fiquei obcecada com meu próprio reflexo, fascinada por finalmente conseguir me reconhecer até em vidros de janela e tela de celular.

Um dos exercícios do software de reconhecimento de padrões mostrava primeiro um rosto normal, inteiro, depois a mesma cara feita só de pontinhos ou pontinhos e linhas. Parecia aquelas capturas de movimento de filme. Aí eu tinha que achar esse rosto de pontinhos no meio de um monte de outros rostos de pontinhos. Não tô te contando isso porque acho interessante, mas pra explicar por que, na primeira vez que eu vi um rosto solto, eu não fiquei apavorada. Estava numa toalha que eu tinha deixado embolada no chão do banheiro. Já tinha ouvido falar que as pessoas veem formas de rosto em lugar nenhum, mas, talvez por causa da minha prosopagnosia, nunca tinha acontecido comigo.

"Quem é você, hein?", perguntei pra toalha e fiquei olhando com cara de boba antes de decidir que ela provavelmente não devia ficar no chão — com rosto ou sem rosto.

Continuei batendo recorde atrás de recorde no meu app favorito. Um dia mostrei pra minha amiga Lisa.

"Então, ele te mostra esse rosto aqui, ó, depois mostra o mesmo rosto distorcido de algum jeito e você tem que achar ele no meio de um monte de outros distorcidos igual. Nas primeiras fases a mudança era super sutil, a pessoa só passava de cara neutra pra levemente irritada ou virava um pouco a cabeça, mas eu fiquei tão boa que agora ele me dá distorções extremas. Preparada?"

A Lisa ficou mais um segundo decorando o rosto do cara na tela e fez que sim com a cabeça, decidida. Apertei o botão e o rosto normal sumiu, dando lugar a dez rostos ondulados e borrados.

"Espera, quê?", a Lisa gritou. "Não, isso é impossível! Eu não sei. Quatro. Meu chute é o quatro."

"É o sete."

Apertei o rosto número sete e minha escolha ficou contornada de verde — sinal de que acertei.

"Isso é loucura. Você chutou? Ou já tinha feito esse?"

Sorri toda orgulhosa pra ela.

"Nenhum exercício se repete. Eu simplesmente soube."

"Nossa. Acho que não vou mais precisar te proteger de ex namorado pilantra, hein."

Dei de ombros.

"Sei lá… o app melhorou meu reconhecimento facial, mas não melhorou meu gosto pra homem. Aposto que ainda vou namorar uns caras com formas novas e criativas de me foder pra você ter que me salvar."

Como se respondesse a uma discussão que eu nem estava acompanhando, o barman desligou a TV e eu olhei automaticamente pra tela, já pronta pra testar se conseguia identificar algum rosto refletido. Em vez do barman ou dos clientes, eu vi o rosto de uma mulher da academia. O rosto dela estava tão grande na tela que, se fosse um reflexo de verdade, ela teria que estar colada na televisão, tão perto que tampava tudo.

"Tá tudo bem?", a Lisa perguntou.

O rosto na TV já tinha sumido. Eu sabia que as pessoas às vezes viam caras falsas em nuvem e tal, mas não sabia que dava pra ver rostos que não existem com tanto detalhe em superfície lisa. Nem que o rosto podia ser de alguém que você já tinha visto antes.

"Tô de boa", respondi.

Talvez não fosse o mesmo rosto. Meu reconhecimento tinha evoluído muito, mas provavelmente ainda não era perfeito. Provavelmente eu só tinha visto um rosto parecido e achado que era alguém conhecido. Se eu continuasse treinando, esse tipo de coisa ia parar de acontecer.

Da próxima vez foi dentro do ônibus. Eu já tinha chegado no ponto de reconhecer quais rostos ao meu redor eu via todo dia no mesmo horário, mas o rosto que me assustou dessa vez não estava dentro do ônibus. Estava escuro e chovendo lá fora e, no reflexo de uma das janelas, eu vi ele. O Cara da Toalha. O rosto que eu tinha visto pela primeira vez numa toalha amassada no chão do banheiro e agora estava aqui, refletido no vidro. Olhei pro banco onde ele deveria estar sentado: ninguém. Quando voltei a olhar pro reflexo, percebi que eu conseguia ver o rosto dele, mas era só isso. Sem cabelo, sem ombro, sem corpo…

O ônibus parou e eu saí correndo na chuva mesmo estando a meia hora de caminhada do meu ponto. Me senti mal, com ânsia, precisava ficar longe daquele rosto. Pela primeira vez desde que comecei o treinamento, fiz de tudo pra não olhar nenhum reflexo nas vitrines que passei. Fiquei encarando o chão na minha frente e, quando uma sequência de rachaduras no asfalto formou um rosto que eu sabia que era familiar, eu dei um grito. Corri o resto do caminho pra casa e me escondi embaixo do edredom como criança, de olhos bem fechados pra nenhum rosto entrar no meu campo de visão.

No dia seguinte liguei pro trabalho dizendo que estava doente — e não era mentira total. Eu realmente me sentia mal, a boca azeda toda vez que eu pensava demais nos rostos que tinha visto. Por que o Cara da Toalha não tinha corpo? Tinha outra coisa me corroendo, esperando eu perceber. Eu não queria saber, mas meu cérebro perguntou mesmo assim: a mulher que eu vi na TV da academia, será que ela tinha corpo mesmo? Ou eu só a tinha visto refletida em lugares onde ela poderia estar atrás de outras pessoas ou no meio do vapor da sauna? Saí do quarto pra pegar água e fingi que não estava vendo o contorno de um rosto na parede.

Ainda podia ser relativamente normal? Pesquisei “ver rostos onde não deveria” e caí na pareidolia, mas aquilo parecia bem mais leve do que o que eu estava passando. Tentei outras buscas com termos diferentes e o Google sugeriu desde motivo espiritual até esquizofrenia pura e simples.

Só no dia seguinte eu lembrei de procurar o contato dos caras que fizeram o app. Fui abrir o aplicativo pra ver se tinha uma seção “fale conosco”, mas o app inteiro estava em manutenção. Desesperada, resolvi ir até o consultório da minha terapeuta. Cada parte da missão foi um pesadelo. Abri o armário pra pegar roupa: tinha um rosto escondido nas dobras. Procurei a chave na bolsa: tinha um rostinho ali também. Fechei os olhos em boa parte do trajeto de ônibus só pra não ver os rostos sem corpo e, quando cheguei no consultório da Sarah, eu devia estar com uma cara horrível.

"Vou ver se ela pode te atender agora", a recepcionista falou assim que me viu entrar.

A Sarah saiu com cara de preocupada.

"Oi, sou eu, a Sarah."

"Eu sei."

O cabelo dela estava preso e ela usava só camisa, sem suéter nem cardigã. Antes essas mudanças teriam feito dela uma completa estranha pra mim, mas agora não mais. Fomos pro consultório dela.

"O que aconteceu?", ela perguntou.

"É o estudo, eu acho que—"

Parei no meio da frase porque, quando eu disse que o problema era o estudo, a Sarah ficou tão tensa que quase se encolheu. Ela já tinha falado da minha prosopagnosia e da ansiedade que vinha junto com uma cara de paisagem perfeita, mas ela sabia que algo tinha dado errado com o estudo.

"Não sou só eu, né?", perguntei.

"Recentemente apareceram alguns relatos de outros participantes do estudo vendo rostos onde não esperavam. Isso só começou faz muito pouco tempo e, embora pareça assustador, ver um rosto de vez em quando nas sombras pode ser perfeitamente normal. O estudo foi pausado por enquanto e, mesmo quando voltar, ninguém vai te obrigar a continuar se você não quiser."

Queria pedir mais detalhes, queria saber o que fazer, mas vi um rosto nos papéis triturados dentro da lixeira ao lado do pé da Sarah. Eu já tinha visto aquele rosto antes, era familiar. E o pior: os olhos dela se mexeram e olharam direto pra mim.

Saí correndo do consultório apesar dos pedidos da Sarah pra eu esperar e, quando cheguei em casa, apaguei todas as luzes. Enquanto escrevo isso, a luz do celular é a única iluminação no quarto e até isso parece perigoso. Mas eu precisava contar pra alguém o que está acontecendo porque eu não sei o que esses rostos são, mas eles estão em tudo.

E eles sabem que eu consigo vê-los.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon