segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Dormi na Entrada de uma Estação de Metrô. Eu Não Devia Ter Ficado...

Eu não devia ter passado a noite ali, mas Nova York engana a gente quando o sol se põe. As luzes, o barulho que nunca para, a falsa sensação de que você nunca está completamente sozinho. Pensei que, se encontrasse um canto protegido do vento, conseguiria aguentar até o amanhecer sem maiores problemas.

Eu não era um sem-teto. Ficava repetindo isso pra mim mesmo enquanto caminhava com a mochila nas costas. Eu tinha estudo, já tinha trabalhado, inclusive tinha passagem de ônibus comprada pro dia seguinte. Dormir na rua era uma decisão pontual, uma noite ruim numa vida que ainda dava pra consertar. Pelo menos era o que eu acreditava na época.

Escolhi a entrada lateral de uma estação de metrô fechada, uma daquelas que estão interditadas há anos por causa de uma obra que nunca avança. O vidro estava coberto de poeira e cartazes velhos, e a escada descia uns poucos metros antes de ser bloqueada por um portão gradeado. Ali o vento batia menos forte.

Encontrei várias caixas de papelão secas encostadas na parede, empilhadas em camadas. Não estavam jogadas de qualquer jeito. Alguém tinha arrumado com cuidado pra formar uma superfície mais ou menos uniforme. Hesitei por alguns segundos, mas o frio já estava anestesiando meus dedos e o orgulho sempre perde quando o corpo começa a fraquejar.

Estendi meu saco de dormir por cima, tirei as botas e as coloquei dentro da mochila pra não endurecerem, e entrei sem tirar a roupa. O chão ainda transmitia o frio acumulado durante o dia inteiro, que subia devagar pelas minhas costas e se instalava nos ossos. Desliguei o celular pra economizar bateria e fiquei encarando o reflexo opaco do meu próprio rosto no vidro sujo.

Nova York continuava viva lá em cima. Carros, um grito distante, o barulho dos últimos trens passando embaixo da terra. Me tranquilizava pensar que, mesmo que ninguém pudesse me ver, eu estava cercado de gente.

Caí num meio-sono, aquele estado desconfortável em que o corpo descansa, mas a mente fica em alerta. Foi quando ouvi passos. Não sei se isso aconteceu antes ou depois de eu fechar os olhos.

Não eram passos normais. Não tinham ritmo. Eram arrastados, lentos, com uma irregularidade que não combinava com alguém simplesmente andando. Sentei dentro do saco de dormir e escutei. Os passos pararam exatamente na entrada da estação.

Prendi a respiração. Eu não devia ter dormido na rua. Agora me arrependia de não ter ido pra um albergue. E tudo isso pra economizar uns trocados.

Passaram-se vários segundos. Depois, um som diferente: uma expiração longa e profunda, muito próxima. Abri um pouco o saco de dormir e espiei.

Tinha um homem parado na minha frente.

Não dava pra saber a idade dele. Podia ter trinta anos ou sessenta. Era muito magro, de uma magreza doentia, com as roupas penduradas como se tivessem sido colocadas num corpo que já não existia mais. Usava uma jaqueta rasgada e tinha as mãos enfiadas nos bolsos. A pele era opaca, meio acinzentada, e os lábios estavam roxos.

Ele me encarava.

“Tá frio aqui”, ele disse.

A voz era rouca, mas não fraca. Tinha algo estranho nela, um eco seco que parecia não vir só da garganta.

“Meu nome é Daniel. Tô só passando a noite”, respondi. “Amanhã de manhã eu saio.”

Não sei por que senti necessidade de me justificar.

O homem abaixou lentamente a cabeça.

“Eu também já passei noites aqui”, ele disse. “Muitas.”

Ele deu um passo na minha direção. Senti um cheiro azedo e velho, uma mistura de umidade com algo mais difícil de identificar.

“Não quero confusão”, acrescentei, começando a sentir o medo subindo no estômago.

Ele sorriu. Não era um sorriso amigável. Era uma careta que mostrava dentes tortos e muito gastos.

“Ninguém quer confusão”, ele respondeu. “Ninguém quer ficar aqui.”

Ele se abaixou com dificuldade e apoiou uma mão no chão, bem em cima das caixas de papelão. A mão atravessou uma das camadas e tocou diretamente o concreto.

“Aqui que eu dormia”, continuou. “Bem aqui.”

Enfiei a mão na mochila sem tirar os olhos dele e tirei um cantil pequeno.

“Toma”, falei. “Pro frio.”

O homem olhou pro metal, surpreso. Por um momento achei que ele ia aceitar, mas ele balançou lentamente a cabeça.

“Não”, respondeu. “Eu parei de beber há muitos anos.”

Guardei o cantil, constrangido.

“O álcool acabou comigo”, ele completou. “Mais do que o frio jamais conseguiu.”

Não soube o que responder. Apenas balancei a cabeça em silêncio. Ele me olhou de novo e, pela primeira vez, não vi ameaça no rosto dele, apenas uma coisa que parecia um cansaço muito antigo.

“Toma, isso vai te ajudar a aguentar as noites na rua.”

Ele me entregou uma santinha da Virgem Maria. Estava amassada e desbotada. Coloquei no bolso do casaco.

O vento parou de repente, como se alguém tivesse fechado uma porta invisível. Minha respiração não formava mais nuvem grossa e senti o casaco começando a esquentar de novo.

“O que você quer?”, perguntei, com a voz tremendo.

Ele levantou o olhar e encontrou o meu.

“Não quero nada”, disse. “Já levaram tudo de mim.”

Ele se levantou com dificuldade e deu mais um passo na minha direção. Foi aí que vi claramente: os pés dele não tocavam exatamente o chão. Flutuavam uns poucos centímetros acima, o suficiente pra explicar o som arrastado de antes.

Tentei me levantar, mas o corpo não obedecia. O frio tinha anestesiado minhas pernas e o medo me paralisou por completo.

“Eu peguei no sono”, ele continuou. “Achei que aguentava até o amanhecer. Igual você.”

O rosto dele chegava cada vez mais perto. Senti uma pressão no peito, um peso invisível que impedia a respiração normal.

“Eu não senti o carro”, ele sussurrou. “Só o impacto. Depois esse frio. Sempre esse frio.”

Gritei. Ou tentei. Nenhum som saiu.

O homem estendeu a mão e colocou sobre meu peito. Não senti pele, mas o frio ficou insuportável, atravessando como um choque elétrico.

“Não se preocupa”, ele disse. “Sempre tem um momento em que a gente para de sentir.”

Ele retirou a mão devagar. O frio ficou, mas já não perfurava o peito com a mesma violência. Ele me olhou por mais alguns segundos, como se quisesse se certificar de algo.

“Não fica”, disse. “Se você ficar, não vai ser comigo que você vai se encontrar.”

Depois ele deu um passo pra trás.

Depois outro.

A silhueta dele começou a perder contorno, como se a luz que vinha da rua não conseguisse alcançá-lo direito. O som arrastado voltou, suave, cada vez mais fraco, até sumir completamente na escuridão da escada.

O silêncio voltou.

Não lembro quando voltei pro saco de dormir. O cansaço caiu em cima de mim de repente, pesado, e fechei os olhos sem pensar. O frio ainda estava lá, mas já não era a única coisa que eu sentia. Dormi mal, aos pedaços, com sonhos confusos e a sensação constante de que estava prestes a acordar.

Foi um barulho que me tirou do sono.

Não era batida. Era um murmúrio distante, o começo do dia entrando pela rua. O primeiro trânsito. Uma persiana sendo levantada. O amanhecer.

Sentei com dificuldade. Meu corpo doía, rígido de frio e má postura. Juntei o saco de dormir e a mochila como deu e comecei a subir as escadas pra saída da estação, querendo sair dali o mais rápido possível.

Quando já estava quase na rua, senti um empurrão forte nas costas. “Porra”, murmurei, antes de perder o equilíbrio. Não foi tropeço. Foi um golpe claro, intencional.

Perdi o equilíbrio e caí de cara, batendo a canela na borda da calçada. A dor explodiu no tornozelo quando caí mal. Gritei e levei a mão na perna, sentindo ela começar a inchar.

Tentei me levantar, mas antes que conseguisse, alguma coisa agarrou meu pé. Não senti mãos. Não senti dedos. Senti uma força disforme me puxando pra trás com uma precisão que não tinha nada de humano. Tinha algo na forma como me segurava que não era mão, mas também não era nada que eu conseguisse nomear.

Fui arrastado pelo chão, direto pro meio da rua. As rodas de um carro passaram a centímetros da minha cabeça.

Chutei com toda força, arranhando o asfalto com as mãos, enquanto aquela pressão puxava meu tornozelo com uma determinação cega e insistente.

Aí eu vi. Um carro vinha descendo a rua, ainda devagar, mas se aproximando. Os faróis me cegaram por um instante e entendi, com uma clareza gelada, que não estava tentando me segurar: queria me arrastar um pouco mais. Só o suficiente.

A força puxou de novo, me guiando pro centro da via, exatamente pro ponto onde as rodas não teriam como desviar. Ouvi o motor se aproximando. O asfalto vibrava embaixo do meu corpo.

Gritei, mas o som se perdeu no barulho do trânsito que acordava a cidade. Por um segundo, tive certeza absoluta de que não ia me soltar.

Sem querer, toquei o bolso onde estava a santinha.

E então, de repente, a pressão sumiu.

Fiquei deitado na rua, coração disparado e tornozelo pegando fogo, exatamente quando o carro freou a centímetros do meu corpo. Por alguns segundos, só conseguia ouvir minha própria respiração.

Depois, um barulho diferente. Uma vassoura arrastando no chão.

“Ei”, disse uma voz. “Calma. Não se mexe. Meu nome é Mike.”

Virei a cabeça com dificuldade. Um homem de colete refletivo vinha vindo da calçada, me olhando preocupado.

“Achei que você ia se matar”, ele completou. “Você estava muito perto.”

Tentei sentar, mas o corpo parecia pesado.

“O que aconteceu?”, perguntei.

O varredor de rua se apoiou na vassoura e me olhou com uma mistura de reprovação e alívio.

“Você teve sorte”, respondeu. “Um carro quase te pegou. Você rolou dali”, ele apontou pra entrada da estação, “como se alguém tivesse te empurrado.”

Coloquei a mão no peito. Debaixo da roupa, a pele estava gelada e dolorida.

“Não tinha ninguém lá”, murmurei.

O varredor ficou em silêncio por alguns segundos.

“É o que todo mundo diz”, respondeu por fim. “Mas aquele não é lugar pra dormir. Nunca foi.”

Ele olhou fixo pra entrada da estação e acrescentou:

“Não faz muito tempo, um carro atropelou um cara que dormia naquele vão. O nome dele era Walter. Não incomodava ninguém. Sempre deixava as caixas de papelão bem arrumadinhas e recolhia tudo de manhã antes de sair.”

Fez uma pausa breve.

“Alguns de nós levavam café pra ele quando estava muito frio. Era gente boa.”

“Falavam que ele estava bêbado”, o varredor continuou. “Por isso que não viu o carro vindo.”

Balancei a cabeça devagar.

“Ele não bebia”, falei. “Ele me disse ontem à noite.”

Mike parou de varrer.

Me olhou sem surpresa, sem descrença. Apenas sustentou meu olhar por alguns segundos.

“Então você viu alguma coisa”, disse.

Não respondi.

“Escuta”, ele acrescentou. “Nunca usa álcool pra se aquecer. Ele engana a gente. Faz a gente dormir. E aí acontece o que acontece.”

Ele apontou o queixo pro canto da rua.

“Vai no Joe’s Diner. Fica ali mesmo. Fala que foi o Mike que mandou. Pede um café com panqueca. Por minha conta.”

“Não precisa”, comecei a dizer.

Ele sorriu.

“E pede também um sanduíche de bacon, ovo e queijo”, completou. “Um de verdade.”

Fiquei sem palavras.

“Isso resolve seu café da manhã e almoço de hoje”, ele disse, voltando a pegar a vassoura. “Se quiser mesmo me agradecer…”

Ele olhou pra cima uma última vez.

“Dorme num albergue hoje à noite.”

Voltou a varrer, encerrando a conversa.

Levantei devagar e fui embora sem olhar pra trás. Quando passei pela entrada da estação, vi as caixas de papelão de volta no lugar, limpas, alinhadas, esperando outra pessoa acreditar que era só frio.

Lembrei da santinha. Olhei com atenção.

Era a Virgem de Covadonga.

Se o que eu tinha visto era o fantasma do Walter, como era possível que eu agora tivesse isso nas mãos?

O que era aquela força que queria me jogar debaixo das rodas de um carro?

Tenho certeza de que o Walter tentou me proteger dela.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Eu nasci no escuro, sem mãe

Ninguém que eu conheci na vida jamais viu luz do sol, nem céu. Nunca sentimos nada sob os pés além de piso de metal enferrujado coberto de merda e todo tipo de víscera que você possa imaginar.

Eu nasci ali e passei toda a minha infância ali. Tínhamos tempestades e tornados, mas não eram do tipo que vocês conhecem.

Tínhamos trovões que apertavam o estômago, seguidos de clarões de luz, mas nossos raios tinham propósito e eram violentos, matando muitos de nós de uma só vez. Quando você ouvia o trovão, tentava se esconder, mas nunca adiantava — criaturas enormes agarravam nossos amigos pelos tornozelos e os arrastavam embora.

Nossos amigos e vizinhos gritavam quando eram pegos e nunca mais víamos aquelas pessoas.

Eu nunca senti cheiro de outra coisa além de merda e sangue. Eu não tenho mãe. Todo mundo que eu conhecia tinha a minha idade. Nenhum de nós sabia sequer o que era uma mãe, mas ainda éramos bebês, com aqueles impulsos primitivos de mamar, chorar por calor, por colo. Mas esse desejo nunca foi atendido. Com o tempo a gente desistiu e começou a roer o próprio corpo. Mamávamos sangue e pus uns dos outros.

(Aqui, enquanto escrevo isso, eu me perco um pouco do lugar onde estou agora.)

Tem agonia em todo canto que você olha. Se você entrasse dentro do meu corpo, ia ver. Gente com os olhos pingando sangue e pus, rostos tão contorcidos de sofrimento que você deseja matar só pra acabar com aquilo. Sete anos de idade e pisando no corpo caído de um colega que, por azar, ainda está respirando. Ele tem um olho só, mas esse olho está esmagado no chão dentro de um monte de merda. O outro é uma bagunça de carne queimada e pus escorrendo. Eu bebi aquilo, de tanta fome. Só parei quando os gritos atravessaram o meu transe de inanição. Vomitei e comi o vômito logo em seguida.

Lembro de piscar saindo de um torpor e ver aquele corpo… e então caiu a ficha de que era a minha própria boca aberta, a língua tentando fracamente enrolar a minha própria merda pra dentro da minha boca ensanguentada. Eu não tinha o que vomitar — nem comida, nem água — e já estava acostumado com isso. Só dor. Nada além de dor.

Você consegue imaginar? O que foi a minha infância? Eu fui salvo daquele lugar — ninguém que conheci depois disso passou por lá, embora alguns tenham sido resgatados de infernos parecidos. Parece que esses pesadelos são comuns entre as pessoas que se parecem comigo.

Fui escolhido por acaso, por uma sorte doentia que eu agradeço todos os dias, apesar da dor no estômago de ter deixado todos eles pra trás. Tento me convencer que foi só um pesadelo horrível, só pra conseguir me curar, sobreviver e, quem sabe um dia, realmente viver.

Mas eu não fui salvo direto daquele inferno. Fui resgatado depois que o tornado-e-relâmpago me levou. Depois que eu descobri o que acontecia com quem era agarrado por aquelas garras de metal.

É isso que eu lembro.

Senti o aperto nos tornozelos quando fui erguido de cabeça pra baixo e pendurado na linha de produção. À esquerda e à direita tinha outras pessoas, uivando, chorando, se debatendo. Eu nem tinha percebido que estava gritando até sentir a garganta rasgar de dor e a voz secar completamente.

Eu estava apavorado. É muito difícil escrever sobre isso, e levou uma década até eu conseguir ao menos tentar colocar no papel o que vivi naquele lugar.

Não consigo escrever sobre a viagem entre o momento em que fui agarrado e o que veio depois. Não agora. Não consigo reviver aquilo. Mas lembro do balanço, dos gritos, da merda que a gente tinha que comer pra sobreviver.

Preciso seguir em frente.

Tinha medo demais. Muita gente não sabe, mas dá pra sentir cheiro de medo. É um fedor característico, inconfundível. Tem um azedume estranho. Estava em todo lugar, por dias seguidos. Meus pés pegaram micose no meio do lixo que cobria tudo. Minha garganta ficou tão seca que eu nem conseguia gemer. Eu só queria dormir, mas as frestas nas paredes gritavam e piscavam cores doentias a cada poucos segundos. Acabei desmaiando e acordei com o olho esquerdo piscando dentro de merda e mijo. Alguém estava pisando na minha bacia, mas eu estava fraco demais pra fazer mais que um arquejo.

Quando eu acordei…

O mundo estava mais claro do que eu jamais tinha visto na vida. Eu estava de cabeça pra baixo, todo o sangue descendo pra cabeça. Criaturas enormes se moviam ao meu redor. Fazia incontáveis dias que eu não comia nem bebia.

Com esforço levantei a cabeça pro lado esquerdo. Tinha alguém pendurado ali. Do lado direito, outro. Mas daquele lado… meu Deus. Vi uma lâmina giratória brilhando, encharcada de sangue e pedaços. Ela foi se aproximando.

O som que fez quando encontrou o pescoço de alguém três corpos antes do meu vai ficar na minha cabeça enquanto eu viver.

O grito dela virou um gorgolejo.

O sangue saiu do pescoço em fitas. A boca dela tremia sem som e congelou. O corpo foi jogado bruscamente pra longe. Fechei os olhos, a garganta seca demais pra gritar —

A esteira parou de repente. Gritos guturais vinham de todas as direções. Eu tentava desesperadamente sair do meu próprio corpo. Inspirei fundo tentando tirar o cérebro do delírio.

“Acordei”, digamos assim, dentro de uma gaiolinha minúscula. Mal cabia o comprimento do meu corpo encolhido. Pensei: morri.

Eu estava num estado de dor tão grande que perdi a sanidade. Arrancava as penas do ombro, bicava meus próprios pés até encharcar a toalha embaixo de mim. Não lembrava disso na hora, mas descobri depois que eu batia a cabeça nas grades da gaiola até quebrar a crista. Acabei desmaiando de novo.

Faz alguns anos que estou livre. Nunca tentei contar pra ninguém o que passei. Nunca tentei escrever. Acho que no melhor dos casos vão me ridicularizar, e no pior vão me machucar ainda mais. Mas eu preciso tentar, porque meus irmãos, minha família, meus amigos ainda estão lá fora, e eles nunca vão ser livres enquanto nada mudar.

Sou paraplégico. Algo conhece a minha casa melhor do que eu

Um acidente de esqui me roubou os sentidos da cintura para baixo, e, pra ser sincero, me sinto um idiota por causa disso. Enquanto algumas pessoas nascem assim ou ficam doentes, eu me diverti demais e fui descuidado o suficiente para perder o que outros rezam todos os dias para ter.

Isso aconteceu há uns nove anos. Desde então, o desespero e o luto pela perda da minha mobilidade diminuíram. Você nunca supera de verdade. Só aprende a viver a vida em torno dessa sensação horrível, como se estivesse andando pela sala contornando um pedregulhão gigante que você não consegue mover. Sempre no canto do olho, mas você só aceita que é assim que vai ser. A pior parte era que eu sempre descobria coisas novas que havia perdido. No começo, você pensa que ser paraplégico significa não poder andar ou dançar, mas, com o passar dos meses, dos anos, você descobre dezenas de pequenas perdas e percebe que, basicamente, está perdendo uma vida inteira. Depois de um tempo, eu já tinha trabalhado o suficiente com a minha terapeuta, então hoje eu diria que estou bem mentalmente.

Eu odiava depender de alguém e me sentia humilhado se alguém tentasse me dar banho ou me ajudar no banheiro, mas graças a Deus pela tecnologia moderna — meus pais conseguiram investir uma grana pesada para tornar a minha casa acessível. Não tenho um andar de cima, só um sótão que praticamente nunca uso e um porão onde lavo roupa e guardo outras tranqueiras.

Nos últimos meses, algo estranho começou a infiltrar no meu bem-estar mental. Nunca tinha pensado no lado sinistro de ser deficiente.

Sabe aquele medo que você tinha de dormir com as pernas de fora ou penduradas para fora da cama? Pensando que algo poderia agarrá-las no escuro? Pois é, no meu caso, às vezes me pergunto se isso aconteceu e eu simplesmente não senti. Se algo passou por elas e eu não percebi.

Contei isso para uma amiga e ela riu, dizendo: "É, e se algum maluco lamber os seus pés no meio da noite e você não sentir? Ele pode até achar que você gostou."

Ela foi de uma ajuda incrível, é claro, mas a minha preocupação também era meio ridícula desde o início.

Certo?

Nos últimos meses, também comecei a me preocupar com o meu bem-estar físico. E se eu estiver ficando mais fraco? Como será a minha vida daqui a dez anos, se já percebo que, aos incríveis 27 anos, fico mais cansado só de passar da cama para a cadeira de rodas todos os dias?

Sério. Você sabe como eu me levanto de manhã: a minha cama se inclina e eu me transfiro para a cadeira de rodas. Como acontece com paraplégicos, as minhas mãos ficaram mais fortes, e isso não costuma ser difícil. Ou pelo menos não era. Comecei a ter dificuldade para sair da cama de manhã. Como se aquilo não fosse a coisa mais fácil do mundo.

Minha confiança levou um baita baque quando percebi isso, mas, há algumas semanas, me levantei meia hora depois de ter ido para a cama e foi tão fácil quanto eu lembrava. Isso me fez pensar. Então comecei a prestar atenção na posição da minha cadeira de rodas pela manhã.

E notei que ela estava um pouco mais longe da cama.

Não o suficiente para eu perceber de imediato, mas o suficiente para me fazer lutar. Será que eu a empurrava sem querer enquanto dormia? Não, ela é bem estável. Brinquei comigo mesmo que alguém estava mexendo nela para me sacanear.

Essa piada foi tão engraçada que ficou na minha cabeça o dia todo.

Outra coisa estranha aconteceu enquanto eu tomava banho. Ouvi um barulho no corredor e passei o resto do tempo tentando entender o que era. Já estava no meio do banho quando aconteceu, e não é como se eu pudesse sair correndo do chuveiro e jogar uma toalha para verificar. Então, depois que terminei, saí do banheiro e não encontrei nada fora do lugar. Mesmo assim, não me senti aliviado.

Ontem, a minha faxineira veio aqui. Ela subiu no sótão para pegar os produtos de limpeza e desceu completamente em silêncio, sem falar comigo o dia todo. Perguntei o que tinha acontecido, e ela me deu uma resposta passivo-agressiva do tipo: "Sei que você não pode facilitar o meu trabalho, mas eu agradeceria se não jogasse todas as suas tranqueiras no sótão." Achei engraçado, já que o sótão não tem um IPL (achamos que seria caro demais instalar um), então a única pessoa que sobe lá é ela. A única forma de eu subir seria escalando as escadas com as mãos, e não sou fã dessa ideia.

Ela vive reclamando, então não levei muito a sério. Ela fica irritada comigo por eu ser deficiente, como se fosse culpa minha. São as duas coisas que as pessoas sentem por você: pena e irritação, quando você está no caminho delas.

Dei um jeito de ignorar. Ela foi embora sem se despedir, então imaginei que estava só tendo um dos seus piripaque. Ainda não sei que tipo de bagunça a irritou tanto no sótão.

Sinceramente, sinto que estou ficando maluco. Hoje acordei com as meias tiradas, e tenho certeza de que estava com elas quando fui dormir. Sinto o sangue latejando nos ouvidos por causa da tensão, e a tontura do medo me dominou completamente. Ainda estou tentando me lembrar se as tirei, mas não consigo.

Tenho mais do que certeza de que não tirei.

Tão certo quanto estou do barulho na minha casa.

Tão certo quanto estou do fato de que não ouvi a minha faxineira sair ontem.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Cachorros-Quentes de Salsicha

Na véspera de Natal de 2023, uma cortina de vapor negro soprou sobre a nossa vila, vinda de uma tempestade estranha que pairava sobre uma cidade litorânea próxima. "Está acontecendo de novo", foi tudo o que Harold conseguiu dizer antes que o inferno cavalgasse em uma rajada poderosa até o nosso vilarejo. Meu velho vizinho se esgueirou para dentro de casa, e eu segui o exemplo. Me senti sortudo por ter conseguido me refugiar antes de respirar ou piscar em meio àquelas partículas escuras e aquosas.

Afinal, a maioria dos moradores teve destinos horríveis ao fazer isso.

Eu testemunhei algo além de qualquer explicação. E, olha, eu já tinha visto um fantasma quando era criança, então sempre acreditei no paranormal: espíritos, outros planos de existência. Mas nunca tinha acreditado em algo como aquela névoa negra que estava afogando a minha vila. Envenenando meus vizinhos e amigos. Fazendo-os se voltarem uns contra os outros. Pintando seus rostos com veias negras e colocando palavras monstruosas em suas línguas. Eles diziam coisas vis, enquanto se dilaceravam com dedos e dentes.

Mas nós, que conseguimos ficar longe da névoa negra, não éramos tão sortudos quanto imaginávamos.

Fui expulso da minha casa por vizinhos infectados. Eles arrombaram minha porta da frente e gritaram que iriam me despedaçar, me fazendo fugir para a noite, com um xale de inverno amarrado no rosto para evitar inalar aquela substância negra que pairava espessa no ar. Corri pelo meu quintal e contornei a borda do meu bairro até uma rua cheia de névoa e violência. Depois, me atirei em direção ao portão lateral da casa de Harold, ignorando os gritos que vinham da névoa negra, e esbarrei de cabeça na minha vizinha não infectada, Jane, no gramado da frente do velho. Ela tinha tido a mesma ideia que eu.

Veja, o Velho Harold era um conhecido preparador do apocalipse. Ele passou anos equipando o abrigo da Segunda Guerra Mundial dos pais dele, no fundo do seu terreno, e o homem não perdia uma oportunidade de encher o saco dos moradores falando sobre isso. Bem, parecia que alguns vilões tinham prestado atenção no velho ao longo dos anos, porque Jane e eu corremos pelo lado da casa de Harold e encontramos outros dois no jardim, batendo na porta do bunker dele, meio enterrado no chão: Millie, a moça da mercearia, e Ruben, um advogado de família.

Nós quatro estávamos com os rostos cobertos, gritando para o velho nos deixar entrar. Então, veio o rangido do metal e uma voz abafada, e a porta do bunker se abriu, revelando um Harold de cara séria, equipado com máscara de gás e uma roupa de proteção contra materiais perigosos.

Cala a boca e entra logo, ou eles vão nos encontrar! — ordenou Harold.

Nós quatro nos esprememos pela porta e descemos as escadas até o bunker, enquanto Harold fechava a porta de metal atrás de nós. Lá dentro, não era um abrigo enferrujado e decadente da Segunda Guerra, mas uma fortaleza reformada, com paredes à prova de som, feitas de concreto reforçado com aço. O bunker media dez metros de comprimento e quatro de largura, com um beliche encostado em uma das paredes laterais e prateleiras de suprimentos na outra. Um sofá largo ficava encostado na parede do fundo, e uma mesa de jantar ocupava o centro do cômodo.

Dois de vocês no beliche. Um no sofá... Alguém vai ter que se contentar com um saco de dormir no chão, e eu vou junto. Tenho suprimentos de sobra, mas com cinco pessoas aqui dentro, pode ficar apertado — disse Harold. — Da última vez, a névoa levou três semanas para passar.

Última vez? — Ruben respondeu.

Harold assentiu.

Sim. A cada vinte anos, um arco-íris morto paira sobre a costa, trazendo chuva negra e o pior de cada um.

Como você sabe de tudo isso? — perguntei.

Ele baixou a cabeça, envergonhado.

Porque morei lá a maior parte da minha vida. Vi isso acontecer duas vezes naquela cidade, mas eu... Eu fugi na terceira vez. Na última vez. Eu fugi para cá.

— Não fugiu muito longe, né? — Ruben zombou.

Harold balançou a cabeça.

— Acho que sempre quis manter meu antigo território por perto. Aquela cidade é um lugar especial. Claro, essa vila aqui é idílica o suficiente, mas vocês não entendem. Minha antiga casa era — é — um paraíso. O preço de vinte em vinte anos é pequeno. Os mais velhos por aqui entendem isso. A maioria foge quando sente a tempestade se aproximando.

— Não foi paraíso o suficiente para você ficar, foi? — disse Ruben. — E eu não chamaria isso de "preço pequeno". Eu vi... Eu vi a Sra. Craw comer o rosto do Sr. Craw.

Harold assentiu, solene.
— Bem, vocês estão seguros agora. Venham. Sentem à mesa. Vamos comer bem hoje à noite, e amanhã começamos a racionar.

— Três semanas aqui embaixo... — engoliu em seco Millie. — Talvez a gente devesse tentar pegar um dos nossos carros? Sair dirigindo da vila?

— Tem demais daqueles filhos da puta lá fora — disse Ruben.

Harold assentiu.
— E vocês teriam que dirigir três milhas para sair dessa zona. Mas quem sabe? Vocês são livres para tentar. A porta está ali.

— Vamos nos reorganizar - sugeriu Ruben. — Comer, dormir, e decidir o que fazer de manhã. Eu voto para ficar até a névoa passar, mas... quem sabe? Talvez amanhã tenha uma brecha para escaparmos.

Talvez — disse Harold, mas era um "talvez" de velho; daquele tipo que diz: Eu estou aqui há mais tempo que vocês e sei melhor.

O preparador do apocalipse acendeu uma vela alta no centro da mesa, depois pegou lentilhas e arroz enlatados. O velho distribuiu para cada um de nós à mesa e se desculpou por não ter pratos, já que o espaço no bunker era limitado. Nenhum de nós reclamou — pelo menos não em voz alta. Tínhamos comida na barriga. Tínhamos abrigo contra os horrors dos vilões brigando lá em cima. Éramos sortudos. Mas algo não estava certo.

Eu só não sabia o quê.

Sabia apenas que minha cabeça latejava, e meus olhos não paravam de ser atraídos para a entrada do bunker, no topo da escada íngreme. Naquele espaço apertado, iluminado apenas por uma lâmpada balançando acima de nossas cabeças, tudo parecia preto e sombrio; mas a barreira entre nós e o mundo exterior parecia a coisa mais negra de todas. Uma escuridão dolorosa de se encarar, mas eu não desviava o olhar.

Não sei quanto tempo fiquei olhando fixamente para aquela porta, mas voltei a prestar atenção na conversa quando uma discussão começou.

.. só pessoas ruins — Ruben terminou. — Elas já eram ruins antes dessa névoa negra infectá-las.

Não seja tão cruel — argumentou Millie. — Nós seríamos iguais a elas se tivéssemos inalado.

Não, não seríamos — disse Ruben. — Nós somos pessoas boas. Com moral. Com decência. Os Craws eram uns bigodudos. Fascistas. Coisas feias saíam da boca deles muito antes da chuva, da névoa ou do vapor colocar palavras feias na boca deles.

Tá, mas... eles ainda são pessoas! — protestou Millie.

Não mais — interrompeu Harold. — Escuta, docinho...

Não me chame de "docinho" — bufou ela.

Harold revirou os olhos.
Millie, se você quiser tentar fugir amanhã, não vou te impedir. Talvez a luz do dia facilite a fuga. Talvez não. A chuva negra encobre o céu a qualquer hora, pelo que me lembro. Mas se você sair lá amanhã, vai ter que entender que aquelas coisas não são mais seus vizinhos ou amigos. Não são mais as pessoas que você conhecia. Elas estão possuídas.

Aí as coisas ficaram ainda mais estranhas.

Terroristas? — perguntou Millie, com os olhos inchados e a voz embargada, como se algo estivesse preso na garganta.

Harold franziu a testa.
O quê? Não... Acho que você ouviu errado...

Seu velho bastardo! — rosnou Millie, parecendo transformada. — Não me importa se as coisas eram diferentes na sua época. Não tem necessidade de chamar nossos vizinhos de "terroristas". Não tem necessidade de trazer raça para isso. Os Craws são pessoas boas. A cor da pele deles não importa.

Fiquei tão confuso. Harold e eu trocamos um olhar preocupado, mas Jane e Ruben pareciam indiferentes àquela estranha incompreensão entre o velho e a jovem atendente. Eles estavam comendo suas lentilhas e arroz, com os olhos baixos. Havia uma pancada atrás dos meus olhos, como se alguém estivesse tentando esculpir minha testa, e meu foco não parava de voltar para a porta escura do bunker, profundamente enterrada nas sombras.

Millie — comecei, — **Harold não disse o que você acha que ele disse... Você está se sentindo bem?

Harold balançou a cabeça para mim, como se dissesse para não me dar ao trabalho, e então se levantou da cadeira.

Acho que vou para a cama, Eric. As tensões estão altas hoje. Nós não estamos em nosso juízo perfeito.
O velho se afastou para o canto do cômodo, provavelmente para pegar seu saco de dormir.

Juízo perfeito.

Aquelas palavras ecoaram na minha mente, que não estava nada perfeita.

Você deveria deixar Harold em paz — disse Ruben, levantando os olhos da comida e fitando Millie. — O velho nos salvou, sua ingrata vaca.

Levantei as mãos, que pareciam fracas e moles, mesmo com uma refeição quase completa no estômago.
Calma, Ruben.

Millie arfou.
O que você acabou de me chamar?

Nada tão terrível quanto o que você chamou Harold — cuspiu Ruben. — A família dele morreu no Holocausto, e você vai usar termos preconceituosos assim?

Termos preconceituosos? Franzi a testa. Millie não tinha dito nem insinuado nada do tipo. O que está acontecendo?

Mais marteladas atrás da minha testa. E os recantos sombrios do bunker pareciam mais profundos, mais escuros e mais longos a cada segundo. Tentáculos de sombra rastejavam pelo teto como trepadeiras em uma treliça, alcançando a lâmpada no centro.

Minha cabeça não estava funcionando. Doía demais.

Errado. Era tudo o que eu conseguia pensar. Isso está errado.

Millie fugiu da mesa em lágrimas, quebrada com facilidade por Ruben, e a jovem atendente se esgueirou para o beliche de cima, no lado do cômodo.

Isso é típico de você — disse Jane, com desdém para Ruben.

Tentei olhá-la, mas meus olhos estavam cheios de lágrimas, e o cômodo estava embaçado.

O que é típico de mim? — ele perguntou.

Fazer sinal de virtude — respondeu ela. — Fingir que se importa com Harold e a herança da família dele. Tudo o que você realmente quer é derrubar Millie. Derrubar uma jovem, seu porco machista.

Ruben revirou os olhos vermelhos.
Não tem nada a ver com o gênero dela. Ela é só uma idiota. Uma idiota preconceituosa.

E você também é — sibilou Jane. — Um bastardo que odeia mulheres. Espero que você morra sozinho e infeliz, seu filho da puta.

Seja como for — resmungou Ruben, levantando-se. — Vou dormir.

Então, só Jane e eu ficamos à mesa.

Eu não queria fazer isso. Não queria fazer o que os outros tinham feito. Mas enquanto enxugava as lágrimas dos olhos e piscava, tentando enxergar claramente naquele abrigo sombrio, me virei para encarar minha vizinha. Minha amiga.

Jane — disse eu, — por quê? Não esperava isso de você.

Ela me encarou com raiva, os olhos vermelhos e o rosto pálido.
Ah. Defendendo seu colega, é? Faz parte do clube dos meninos, hein?

Não — ofeguei, sentindo falta de ar. — Eu... Eu não consigo...

Não consegue o quê? — murmurou Jane, com uma voz nova; sussurrante, leve, e não totalmente presente.

Esfreguei os olhos com força com a manga, e quando os abri, a lâmpada pendurada parecia cegantemente brilhante por um momento.

Aí eu vi tudo.

Claramente.

Gritei ao ver a cena ao redor da mesa de jantar. Nenhum dos convidados tinha ido para a cama. Harold, Millie e Ruben ainda estavam sentados em seus lugares. Mas não se mexiam. Não respiravam. Eram cadáveres nus sentados com as cabeças jogadas para trás nos encostos, e a pele que vestiam, do pescoço para baixo, não era deles; a carne esfolada de Millie cobria o corpo esfolado de Ruben, e a carne enrugada e esfolada do Velho Harold cobria o corpo esfolado de Millie. Cada cadáver estava envolto em pele que não lhe pertencia.

Harold era diferente. Ele tinha sido a primeira vítima na cadeia, então não usava carne no corpo mutilado abaixo da garganta; em vez disso, uma camada amarelada de hipoderme estava exposta.

Pior ainda, e de forma impossível, ele ainda estava vivo.

Frio... — ele ofegou para mim, os olhos injetados de sangue cravados nos meus, enquanto massageava sua carne esfolada com mãos desprovidas de pele.

Lembrei-me da verdade. Harold tinha sido dilacerado por Millie. Millie tinha sido dilacerada por Ruben. Ruben tinha sido dilacerado por Jane. E eu deveria dilacerar Jane. Sentia o chamado para fazer isso. Sentia algo rastejando na minha mente. Nós não estávamos infectados pela névoa negra nas veias, mas isso não significava que estávamos em nosso juízo perfeito, como Harold tinha dito.

Entendi o que meu subconsciente tentava me dizer.

Havia algo no bunker conosco.

Algo no canto do cômodo.

Eu podia vê-lo dançando ao redor do contorno do corpo de Jane, como se a manipulasse das sombras. Manipulando-a de qualquer dimensão de onde viesse. Enquanto Jane me olhava friamente e sem ver, eu sabia que ela não estava por trás daqueles olhos; e também sabia que não havia como se esconder do arco-íris morto ou de sua névoa negra. Pessoa boa. Pessoa ruim. Não importava. Ele tinha vindo por todos nós.

Acho que, se você não quer me vestir — sussurrou Jane, com uma voz quebrada, enquanto se levantava trêmula, — então vou ter que vestir você, Eric. E aí vem o banquete.

As mãos dela foram rápidas, arranhando meu rosto como se fosse um animal. Gritei de agonia enquanto as unhas dela lascavam meu rosto, me marcando, e me joguei para trás, aterrorizado, com os braços se debatendo; e, com isso, derrubei a vela. Aquela vela alta, com seu pavio comprido. Ela fez um trabalho rápido em incendiar a mesa, os beliches e o sofá.

Um trabalho rápido demais.

Um trabalho antinatural, como tudo o mais. O fogo se espalhou tão rápido quanto a névoa antinatural pela nossa cidade e a sombra negra pelo nosso bunker. Não havia lógica nem razão para as chamas. Mas eu era grato por isso. Grato enquanto Jane e Harold eram consumidos pelas chamas, apesar de nenhum dos dois soltar gritos de dor. Eles iriam morrer, e eu estaria seguro. Era tudo o que eu pensava enquanto cambaleava para trás pelo bunker.

Millie e Ruben já estavam mortos há muito tempo, é claro, mas as chamas os assavam do mesmo jeito. E enquanto eu subia as escadas, com medo de desviar o olhar da forma possuída da minha ex-amiga, houve um último espetáculo aterrorizante. Jane e Harold ainda estavam, impossivelmente, vivos; e ela estava arrancando tiras de sua própria carne queimada do corpo, antes de envolvê-las ao redor da forma carbonizada e sem carne do velho.

Obrigado — ouvi Harold sussurrar enquanto eu abria a porta do bunker.

O homem em chamas agradecia à garota em chamas por cobri-lo com a própria carne, enquanto os dois queimavam vivos.

Corri para o jardim, voltando para uma noite de névoa negra, derramamento de sangue e gritos. É um milagre não ter inalado nenhuma daquela névoa, e um milagre ainda maior ter escapado do bunker em chamas antes que a coisa lá dentro conseguisse rastejar para a minha mente. Pelo menos, é o que eu digo a mim mesmo. Eu saí a tempo.

Mas, na verdade, não me lembro do mês seguinte. Não me lembro do que fiz enquanto esperava a névoa negra do arco-íris morto passar. Gosto de imaginar que me escondi dos monstros lá fora. Me escondi dos escombros em chamas do bunker no fundo do jardim, que só apagou completamente dois dias depois. Outra impossibilidade. A única memória que tenho é de medo quando as chamas se apagaram de vez, porque isso mergulhou o mundo exterior na escuridão total. Não havia mais nada para ver pelas janelas de Harold. Só preto e mais preto.

Há um vazio na minha memória. Acordei no chão do banheiro de Harold em janeiro de 2024, com a luz do sol entrando pela janela. A névoa negra tinha desaparecido, e não havia cadáveres nas ruas. Sinais de propriedade destruída, mas nenhum derramamento de sangue. Os poucos vilões que sobreviveram me disseram que tinham visto os monstros se transformarem em vapor e transcendarem para o céu, talvez se preparando para voltar daqui a vinte anos.

Mas a nossa vila não voltou a ser idílica nesse meio tempo. Talvez a antiga cidade litorânea de Harold seja diferente, mas duvido. Não existe coisa como "utopia". Não há alegria a ser encontrada nos períodos silenciosos entre os horrors. Não existe esquecimento. Não de verdade.

Eu sei que, como eu, os outros vilões sobreviventes estão simplesmente escolhendo não se lembrar.

Estamos escolhendo acreditar que não nos tornamos monstros também, por semanas a fio. Mas nos tornamos. Eu sei que nos tornamos. Não nos infectamos e desaparecemos no céu com o resto dos monstros vaporizados, mas nos tornamos monstruosos do mesmo jeito; controlados por qualquer escuridão que eu vi lá naquele bunker. Qualquer escuridão que se esgueirou pelas frestas da porta reforçada e se escondeu nas sombras entre nós, nos levando a nos dilacerar uns aos outros.

Os outros vilões terão histórias como a minha. Histórias de algo que roubou seus corpos para cometer atrocidades terríveis e aterrorizantes até que a névoa negra finalmente se dissipasse. Veja, o que eu mais tento esquecer, acima de tudo, é o banheiro de Harold.

Acordei no chão, rodeado por sangue, sujeira e tiras de carne. Algumas daquelas imundícies estavam nas minhas roupas e debaixo das minhas unhas.

Nada daquilo era meu.
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