sexta-feira, 10 de abril de 2026

Eu Odeio a Páscoa

Sempre odiei, e sempre vou odiar. Não sei explicar direito o porquê. Talvez fosse a febre que vinha todo maldito primavera, meu nariz entupido de pólen e aquela tosse seca que não queria morrer de jeito nenhum.

Talvez fosse aquela caça aos ovos ridícula pra caralho que toda a minha família estendida voava pra cá pra participar. Aquela massa desajeitada de gente com beijos babados e cheios de cerveja, fazendo as mesmas duas perguntas que queimavam na ponta da língua deles:

“Como você foi naquela prova de matemática?” e “Pode pegar outra cerveja pra mim, campeão?”

Talvez fosse o fato de que eu nunca ganhei aquela merda nem uma vez. Sempre eram os meus primos metidos a besta, com aqueles dentões de coelho e sorrisos bobos de boca aberta — o que parece uma contradição, mas eu não tô nem aí —, eu odiava aqueles olhares presunçosos que eles me lançavam depois que eram declarados vencedores e recebiam o prêmio patético: cinco notas amarrotadas.

Eu me fodia inteiro procurando aqueles ovos de plástico vagabundos e sempre ficava pra trás. Suspeito que eles trapaceavam, combinando com as minhas tias e tios traidores.

Eu sempre fazia um escândalo, aí meu pai me dava um tapa na nuca por ser mau perdedor e a gente marchava pra dentro de casa pra comer um presunto seco pra caralho.

Ah, Páscoa.

Meu irmãozinho filho da puta, com aquela atitude chorona e aquelas mãozinhas sujas, não tinha esse problema. Ele adorava a Páscoa, amava enfiar aquela boca gorda dele com creme de ovo Cadbury e montes de jellybeans. Ele pegava um punhado do cesto dele — misturado com aquele papel picado verde-limão, veja bem — e enfiava tudo na boca, mastigando de um jeito nojento pra caralho. Era como ver um boi comendo. E ele nem engolia. Olhava direto pros meus olhos, abria a boca e deixava um bolo colorido de gosma cair devagar daquele buraco escancarado, cuspindo tudo no chão bem na minha frente.

Depois, com um sorrisinho de quem comeu merda, pegava mais e repetia tudo de novo.

Você já entendeu o quadro: meu irmão é um pentelho chato, mimado, dor na bunda que meus pais babam em cima e deixam ele fazer tudo o que quer. Nem me fala de Natal. Pilhas de brinquedos embrulhados brilhantes pro pequeno Ricky, e pra mim? Um envelope e um abraço mole. Talvez meias, se eles acharem que eu mereci.

Desde que ele tinha idade suficiente pra competir, ele ganhava aquela caça aos ovos idiota. Eu envelheci e saí da brincadeira mais ou menos nessa época, e, francamente, venho fervendo de raiva desde então. Por cinco anos tive que aguentar a quantidade nauseante de elogios que aquele putinho recebia todo ano por ser o melhor em correr pelo quintal. Ajuda o fato de que só tinham tipo três primos ainda novos o suficiente pra competir, e eles eram lentos e reclamavam da umidade.

Você não me ouve reclamando da porra da umidade, e eu moro nesse pântano.

Este ano eu já tinha me resignado ao meu destino e prometido pros meus pais que não ia ficar emburrado pela casa e que ia realmente conversar com os meus primos idiotas em vez de me esconder no quarto com as cortinas fechadas, contando os segundos até recuperar minha solidão.

Este ano acabou sendo o fim de todos nós. Foi o ano em que meu irmãozinho nariz escorrendo, aquele erro bastardo, encontrou o ovo.

A caçada começou como qualquer outra. Minha família estava toda amontoada no quintal dos fundos; o sol zumbia lá em cima. Estava um calor fora de época pro começo da primavera, os pântanos a poucos metros dali borbulhavam e espumavam por causa do calor escaldante. Por mais que eu reclamasse de nunca ganhar, eu ficava feliz de não ter que correr por aquele brejo com lama até o tornozelo e mosca varejeira. Meu pai, com o senso de humor de quem já bebeu demais, sempre escondia pelo menos um ovo lá nos pântanos.

Não muito longe, claro. Ele não era sádico. Eu tinha visto ele tropeçando pra lá meia hora antes, lata de Bud Light numa mão e o ovo enfiado debaixo da outra.

Os competidores estavam alinhados, ansiosos pra deixar a marca deles. Meu irmão se destacava no meio dos outros, e pesava mais ou menos o dobro. Ele tinha cabelo preto ondulado todo engordurado, dava pra sentir o cheiro do couro cabeludo sujo dele lá da varanda — era nauseante.

Ele tinha aquele olhar metido na cara rechonchuda. Meu Deus, eu queria estrangular ele só de olhar. Mas segurei a vontade, me concentrei na respiração e voltei a ouvir minha tia Sally enchendo meu saco sobre o que eu ia cursar na faculdade.

Meu pai cambaleou pra frente, com aquele olhar vidrado e distante. Ele balançava onde estava parado, e a multidão na frente dele dava risadinha da situação dele. Pelo canto do olho, vi minha mãe dando um trago fundo no cigarro. O cabelo preto giz vibrante de antigamente agora estava opaco e cheio de fios grisalhos. Tinha olheiras que derrubariam um camelo.

Era um contraste interessante com o cansaço maníaco do meu pai, se é que isso faz sentido. Enfim, meu pai deu um discurso rápido, embolado e quase incoerente. Como sempre.

“Beleza, rapaziada, bem-vindos à caça aos ovos da família. Cada um de vocês, pequenos caçadores, tem dez minutos pra juntar todos os ovos que conseguir carregar. Vão lá e peguem eles, tomem cuidado se estiverem rastejando pelo brejo, é temporada de acasalamento dos jacarés. BELEZA, VAI LOGO!” Ele berrou enquanto todo mundo aplaudia e os competidores saíam em disparada. As tias, tios e primos meio bêbados rugiam com uma alegria falsa enquanto se embolavam e tropeçavam uns nos outros. Ricky, pra crédito do putinho, era como um raio. Você piscava e: boom-boom-boom — ovo atrás de ovo.

Logo ele tinha desaparecido no meio do mato e uma parte de mim torcia pra ele tropeçar e cair numa areia movediça ou algo do tipo. Não fundo o suficiente pra matar ele, afinal ele era meu irmão e eu o amava... eu acho. Mas tinha algo naquele sorrisinho arrogante dele que me tirava do sério.

Então eu fiquei sentado ali no sol da tarde, absorvendo os raios e balançando a cabeça de vez em quando enquanto minha tia tagarelava sem parar sobre nada. Eu ficava de olho na caçada. Dois já tinham desistido, entediados com a perseguição inútil. Um estava de quatro, arrancando a grama e jogando a cobertura morta pro alto num chilique silencioso.

O brejo ao fundo fazia o barulho de sempre: o gorgolejar de gás de pântano quente, o gemido de uma cegonha pastando, os estalos e chilreios que soltavam cascas de árvore à noite e faziam minha imaginação voar longe. Meu avô costumava me contar histórias loucas sobre as criaturas do brejo, histórias de terror pra assustar um menino e impedir que ele se afastasse demais por tédio.

Ele falava de lagartos terríveis com penas coloridas, mandíbulas que quebravam ossos ao meio e garras que cortavam barrigas macias como manteiga derretida. Histórias maravilhosas pra ouvir quando criança. Eu nunca me aventurava muito no quintal por causa delas.

Queria que o Ricky tivesse ouvido aquelas histórias.

Eu saí do meu devaneio nostálgico quando ouvi ele comemorando com uma alegria maligna. Todas as cabeças se viraram pra ver ele saindo do mato como um furacão, o cesto balançando nos braços flácidos enquanto segurava algo acima da cabeça. Ele estava sem fôlego, ofegando, quando se aproximou do meu pai e apresentou o prêmio. Era um ovo meio grande, de cor clara, com pintas de lama e umidade.

“Eu encontrei eles, pai. Encontrei todos os ovos.” Ricky ofegou. A curiosidade falou mais alto e eu saí da varanda, querendo examinar aquele ovo estranho. Fiquei ao lado do meu pai, envolto no cheiro forte de uísque misturado com coca. O rosto do Ricky estava inchado e vermelho, o suor grudado nele como num porco chafurdando na lama. Ele sorriu pra mim enquanto mostrava o ovo misterioso.

Meu pai franziu a testa e falou calmamente, embolado:

“Desculpa, Rick, esse aí não é nosso. Nunca vi isso antes. Vai lá e coloca de volta antes que—” Um apito soou e todos os competidores se alinharam, cestos na mão. Contra os protestos e choramingos do Ricky pedindo mais tempo, meu pai contou todos os ovos.

No final, o total do Ricky foi vencido por um único ovo. O primo Roger, aquele nerd, abriu um sorriso triunfante enquanto meu pai dava um tapa nas costas dele um pouco forte demais. Admito: eu não consegui deixar de curtir a derrota do Ricky. Isso até ele ter um ataque completo.

O rosto dele ficou de um tom de vermelho que eu nunca tinha visto, a cara gorda se contorceu, ondas febris de raiva atravessando aquela banha toda, como ecos de uma onda rebelde.

“Isso não é justo!” Ele guinchou, furando meus ouvidos e quase me fazendo dobrar. “É a minha casa, eu que tenho que ganhar!” ele choramingou. Ele bateu os pés e jogou o cesto no chão, equilibrando o ovo estranho nas mãozinhas sujas.

“Agora, filho, a gente nem sempre consegue o que quer. Não seja estraga-prazeres.” Meu pai falou calmamente, de repente sóbrio pra caralho por causa dos olhares julgadores e caretas da família estendida.

Eu até fiquei impressionado. Se fosse comigo, ele já teria me dado um tapa na cara. Acho que ele amoleceu com a idade.

Ricky recusou a misericórdia do pai e dobrou a aposta na atitude nojenta dele. Com um urro gutural que só podia ser descrito como o grito de uma baleia furiosa, ele levantou o ovo no ar e cravou ele no chão.

Ele se espatifou no impacto, obviamente, e a multidão reunida soltou um suspiro coletivo e lamentoso. Porque, se contorcendo no chão no meio de gema e gosma, tinha uma coisinha pequena. Parecia um pintinho meio formado, com pele escamosa, duas pernas viscosas e tocos no lugar de braços. Tinha um olho serpentino piscando freneticamente na pobre criatura, enquanto o que eu acho que era o bico tentava gritar chamando pela mãe.

Meu coração se partiu olhando praquela coisinha, e o que o meu irmão sociopata e sádico faz?

Antes que alguém pudesse impedir, ele levantou o pé acima da criaturinha moribunda e cravou o calcanhar nela, espatifando o que restava da pobre criatura.

Uma onda de murmúrios horrorizados explodiu entre a multidão. Os priminhos estavam chorando, e o pobre Roger ficou branco como um fantasma.

“Ovo idiota, perdendo meu tempo.” resmungou Ricky enquanto esfregava o pé. O grito mortificado da minha mãe nos tirou do transe e meu pai rapidamente agarrou o braço do Ricky e puxou ele pra si. Ricky se contorceu e arranhou, mas a pegada do meu pai era de ferro. Ele arrastou ele pra dentro de casa chutando e gritando, batendo a porta de vidro atrás deles.

Mamãe foi rápida em acalmar a multidão dizendo que a comida estava pronta e tentou o melhor que pôde direcionar todo mundo pro prato de carnes na varanda. Teve gente balançando a cabeça e resmungando, e eu ouvi tia Sally dizendo que nunca veria um dos filhos dela agindo daquele jeito.

Mamãe sussurrou pra mim pra me livrar “disso” e apontou um dedo ossudo pro chão. Eu peguei a criaturinha esmagada com cuidado e fui andando pro mato. Acho que ela teria preferido que eu jogasse no lixo, mas pareceu errado. Não fui longe, só na beirada do pântano, bem fora de vista onde o mato encontra o quintal. Cavei uma valinha pequena e, por mais idiota que pareça, pedi desculpas.

Saí rápido do mato, me sentindo vulnerável de repente. Como se as árvores tivessem ouvidos. Durante o resto da tarde, eu juro que vi as árvores chacoalhando e ouvi um latido chilreante, rancoroso e cheio de luto. O resto da minha família seguiu em frente. Meu pai eventualmente desceu de novo e colocou gelo nos nós dos dedos. Ninguém perguntou como o Ricky estava, nem se importaram depois daquela cena.

O sol se pôs numa festa constrangedora. Parte da família tinha ido embora pro fim da tarde, a maioria ficou, bêbada demais pra voltar pra casa. Eu me desculpei quando os vagalumes saíram pra dançar, cansado pra caralho dos eventos do dia. Meu pai estava levando uma bronca séria de um dos irmãos dele, falando alguma coisa sobre disciplina. A cabeça do meu pai balançava e ziguezagueava na noite; provavelmente ele nem ia lembrar o próprio nome de manhã.

Mamãe observava com desprezo, encostada na porta dos fundos com um cigarro aceso na mão. Ela deu um aperto mole no meu ombro quando passei por ela. Subi a escada enorme pra descansar um pouco. Passei pelo quarto do Ricky. A porta estava fechada, mas eu ouvi um choramingo leve e fungadas lá de dentro. Fiquei parado na porta, pensando que talvez devesse entrar e confortar ele. Afinal, ele era só uma criança.

Depois pensei: foda-se, deixa ele tomar o remédio pelo menos uma vez na vida. Eu me arrependo disso agora.

Entrei no meu quarto sem pensar duas vezes e desabei na minha cama macia. Apaguei feito uma luz.

Acordei tonto e confuso, suor frio escorrendo na testa. De fora da minha janela dava pra ouvir algum tipo de comoção. Olhei pra fora e vi sombras correndo pelo quintal. Elas estavam baixas no chão, se movendo com propósito. Ouvi gritos abafados e súplicas. Tinha aquele latido áspero, como um galo chilreando com alguma coisa presa na garganta.

Estava em volta da casa toda. Reconheci algumas vozes. Tia Sally estava chorando até que a voz estridente dela foi cortada de repente. Algumas não faziam sentido. Ouvi a voz tímida do primo Roger, mas parecia errada. Uma imitação zombeteira, quase robótica. Ficava repetindo as mesmas frases sem parar: “Mamãe. Aqui. Eu tô aqui. Me ajuda.” Sem parar. Sentei na cama e tentei entender que porra estava acontecendo lá fora.

Foi quando ouvi um baque no corredor. Virei rápido pra frente do quarto, meus olhos demorando pra se acostumar com a escuridão sombria. A porta do meu quarto rangeu ao abrir, uma sombra enorme passando rápido. Eu vi alguma coisa — um apêndice parecido com um tentáculo na parte de baixo, quase me chamando pra perto.

Fiquei paralisado na cama, me sentindo criança de novo, com medo dos monstros no escuro.

“Stephen.” A voz da minha mãe latiu pra mim com dureza. Estava fraca, mais fundo no corredor. Nem tive certeza se ouvi direito no começo.

“M-mãe?” perguntei com a voz baixa, quase um sussurro engasgado.

“Stephen. Me ajuda. Vem. Me ajuda.” Ela repetiu. A voz era a mesma, mas o tom parecia frio. Saí da cama com cuidado e fui até a porta. Olhei pra fora e não vi nada no corredor úmido. O ar estava gelado, como se as janelas estivessem abertas. Da base da escada, ouvi de novo:

“Stephen. Me ajuda.”

“Mãe, o que aconteceu?” chamei mais uma vez. Fui recebido com silêncio. No topo da escada, eu parei, e vi alguma coisa espreitando lá embaixo. Olhos miúdos com um brilho fraco. De cima dava pra ouvir os gritos de dor da minha família lá fora, junto com latidos e sibilos doentios.

“Stephen. Vem. Aqui.” A coisa usando a voz dela engasgou. Recuei e senti uma mão agarrar meu ombro. Dei um grito e me virei pra ver o rosto ensanguentado da minha mãe. Ela estava sangrando muito, um corte fundo na testa e tufos de cabelo arrancados do couro cabeludo. Mal conseguia ver o resto dela, mas dava pra sentir o cheiro de sangue e ferro com que ela estava coberta. Ela colocou um dedo nos lábios pra me mandar ficar quieto e o olhar dela disparou pro pé da escada.

Teve um gemido, um lamento animalesco de frustração, e a sombra imponente deu um passo mais perto. Era bípede e parecia ter asas no lugar de braços e um rabo longo e coriáceo.

“Stephen.” Mamãe sussurrou rouca ao meu lado. Ela não esperou resposta e simplesmente colocou um molho de chaves na minha mão. “Não consegui entrar por nenhuma das portas. Eles estão em volta de nós. Preciso que você pegue seu irmão e desça pela escada na minha janela. Pega o carro.” Ela ordenou.

“Mãe, o que está acontecendo—” comecei, mas parei quando ela apertou minhas mãos. Elas estavam quentes e molhadas. Não consegui olhar pra baixo. Sem dizer mais nada, ela me empurrou pro corredor e desceu correndo a escada. Ouvi os passos rápidos da criatura quando ela pulou em cima dela, e os dois rolaram escada abaixo. Corri pro quarto do meu irmão, tropeçando no escuro. Finalmente me orientei e praticamente chutei a porta, gritando o nome do Ricky.

Eles tinham chegado primeiro.

Eram dois deles, iluminados por uma luz fraca de um abajur caído. Os olhos deles brilhavam como fósforo branco quando a luz batia. Eram coloridos, vermelhos vibrantes e laranja tropical misturados. Os braços eram longos e magros, penas bonitas cobrindo a pele coriácea. Tinham pernas traseiras carnudas com uma única garra curvada que parecia quase o salto de uma dançarina.

As criaturas estavam em cima do que restava do Ricky. A barriga dele estava aberta, as tripas espalhadas pelo chão num monte fumegante, rasgadas e puxadas como queijo em fio. O esterno estava arrancado, como se as criaturas tivessem forçado ele aberto. Os pulmões esfarrapados ainda ofegavam e chiavam sem motivo, como um lençol ao vento. O rosto dele estava cinza e os olhos opacos. O da esquerda tinha a boca cheia de intestinos, sugando como macarrão. O da direita só tinha carne escorrendo da bocarra. Ele me viu entrar e abriu um sorriso predatório pra mim.

“Ri-Ricky.” gaguejei, sentindo um calor escorrendo pelas minhas calças. Os monstros deram um bote rápido em mim e eu corri. Fui pro quarto dos meus pais, vendo pelo canto do olho a criatura na escada arrastando metade de um objeto mole escada acima. Meu pulso acelerou e eu me choquei contra a porta do quarto dos meus pais, procurando a escada desesperadamente.

Os lagartos terríveis latiam pra mim, carne caindo das bocas glutonas, famintos por algo fresco. Corri até a janela e olhei pra baixo: uma escada estava encostada de qualquer jeito na parede. Dava pra ouvir o que restava da minha família sendo massacrado pelas coisas com mais clareza agora. Ignorei tudo e saí pela janela. Os degraus estavam escorregadios com o que eu acho que era sangue e sujeira. Estava na metade da descida quando ouvi algo latir pra mim.

Olhei pra cima e carne caiu da boca dele rangendo. Uma placa de carne bateu no meu rosto, e eu gritei e soltei a escada. Caí no chão com força, os lados do corpo gritando de dor. Não tinha tempo a perder. Manquei até o carro da minha mãe, um sedã bonito, e entrei engatinhando. Ele engasgou e pegou. Saí acelerado dali. Sem olhar pra trás nem uma vez.

Acho que estava a vários quilômetros de distância quando finalmente parei no acostamento, os pulmões saindo do peito e o coração doendo com o massacre que eu tinha visto. Tão rápido quanto começou, acabou do mesmo jeito. Ao longe, eu juro que ainda conseguia ouvir os gritos.

Eu liderei o grupo de manhã. Encontrei os poucos sortudos que conseguiram chegar no motel e chamamos a polícia. Contamos que um animal selvagem tinha atacado a casa. As criaturas já tinham sumido há muito tempo, assim como vários corpos. Encontramos o torso do meu pai pendurado na varanda, uísque podre fermentando no chão embaixo numa poça sangrenta. Acabamos vasculhando o pântano atrás dos nossos mortos.

Só encontramos o Ricky. Ele estava encostado num tronco caído, o rosto todo arranhado e os olhos já tinham sumido. No fundo do que já foi a barriga dele tinha maços de lama e ovos recém-postos.

A gente deixou ele lá. A lição de respeitar a natureza já tinha sido aprendida da pior forma possível.

Eu fui embora depois. Não conseguia ficar naquele matadouro. Acabei vendendo a casa pra um primo que queria ficar lá e ruminar, talvez atrair as criaturas pra fora. Tenho certeza que ele já virou comida de raptor a essa altura. Evito o mato quando posso, mas às vezes eu juro que ouço aqueles latidos roucos, rondando nas sombras, esperando pra terminar o que começaram.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O Anjo na Minha Janela

Esta não é realmente a minha história favorita para contar, mas é a mais fácil de lembrar.

Pra contextualizar, eu nasci doente. Era algo que estava presente desde o primeiro dia, desde que comecei a respirar, como se a falta de vontade da minha mãe de ter um bebê tivesse se transferido para um bebê que não queria viver.

Eu era doente, sou doente e vou morrer doente. É simplesmente o jeito da vida, como fui construída e como vou morrer. Entre os efeitos do alcoolismo do meu pai e a falta de cuidado da minha mãe, logo me vi com uma lista enorme de doenças, todas crônicas e produtos de um sistema imunológico imunodeprimido. MRSA, febre do feno, coisas que ninguém deveria passar nos primeiros dois anos de vida. Eu deveria estar mastigando fios ou algo assim, não conectada a um respirador, saca?

E mesmo assim, minha primeira memória vai estar sempre marcada pelo pesado véu da E. Coli. Não posso dizer com certeza que tipo de problema levou à infecção, pelo que me contaram foi uma combinação de circunstâncias imprevistas e a minha mãe querendo que a filha de dois anos dela comesse um hambúrguer que custava só um dólar. Tudo que posso dizer com certeza, e da melhor forma que me explicaram, é que eu tinha um “tornado dentro de mim que ficava destruindo tudo no caminho”. Era certamente doloroso. Eu me lembro que, quando me levaram para fazer exames, eu sentia como se estivesse deitada em uma nuvem, tão sonolenta. E então, quando voltei pra casa, foi simples assim: eu caí no sono, bem na minha cama.

Mesmo que eu dormisse no quarto da minha mãe, em uma cama separada, eu nunca estendia a mão pra ela à noite. Eu sempre me deitava com o rosto bem encostado na parede abaixo da janela, com a moldura de madeira perfeitamente alinhada acima da minha têmpora. Era frio, e isso me acalmava melhor. Com a janela virada pra rua, se minha mãe abrisse, eu sentia o frio da noite ou, melhor ainda, ouvia qualquer vizinho que estivesse andando em direção à loja da esquina. Se eu tivesse azar, ouvia minha mãe indo à loja sem mim. Naquele dia, por volta da noite, parecia exatamente isso, pela forma como a pessoa andava bem perto da janela.

E mesmo assim, eu ouvi meu nome. Chamaram por mim, pelo meu nome.

Mesmo que eu não vá dizer qual é, por razões de privacidade, era estranho ouvir aquilo. É o apelido carinhoso de um nome de família, e mesmo assim, essa pessoa estava me chamando, não pela minha mãe, não pela minha avó. Eu sabia que era pra mim, porque falavam de um jeito tão, tão gentil. Por isso, abri os olhos para ver quem era que tinha conseguido distinguir minha forma no escuro, tão perto da janela. Mesmo assim, a visão era tão brilhante que eu não conseguia entender direito.

“Vem comigo”, disseram. Eu não conseguia dizer se era um menino ou uma menina. Cabelo longo, leve e esvoaçante, mais brilhante que o poste de luz atrás deles. Soavam tão suaves, tão gentis comigo, enquanto tocavam o vidro da janela com aquela mão linda e pálida, tentando abrir. Tinham olhos lindos, da cor de mel, que pareciam reluzir e brilhar no escuro.

“Não posso”, eu disse, balançando a cabeça, mesmo que isso me deixasse mais tonta. Era o único jeito que eu sabia que minha mãe entendia que eu não queria alguma coisa, tipo ovos ou carne.

“Mas você tem que vir, está na hora”, eles disseram, com o sorriso e a voz suaves enquanto abriam a janela um pouco mais, tentando me tocar. Mesmo que parecessem bons, mesmo que por todos os sentidos eu me sentisse melhor, tinha algo errado. Alguma coisa não fazia sentido, mesmo que tudo parecesse bom.

Eu gritei, o mais alto que consegui, com a voz rouca e insegura. E então, como se nada tivesse acontecido, ela estava gritando comigo, dizendo aos quatro ventos que eu não podia simplesmente gritar com ela daquele jeito.

Não consigo lembrar todos os detalhes, principalmente porque, mesmo naquela hora, tudo que eu conseguia focar era a memória do rosto daquele estranho.

Passaram-se tantos anos. Principalmente desde que eu descobri que não era bem um “tornado” o que estava passando por mim, nem eu deveria falar com estranhos do jeito que falei com aquele estranho naquela noite, mesmo que minha mãe tivesse atribuído tudo a um pesadelo particularmente agradável.

... Pesadelo agradável? Não, não foi nada agradável.

A verdade é que muitos anos se passaram, e entre a minha família querendo que eu fosse uma boa menina católica e o interesse cada vez menor dos meus pais por mim, o nascimento dos meus irmãos, eu fui relegada ao papel de boa irmã mais velha. Permanentemente solteira, claro, mas isso era por escolha. Nada parecia bom pra mim. Todo relacionamento que eu tive deu errado, e é exatamente isso que me abala até o fundo agora que penso nisso.

Não importava o que eu fizesse, não importava o quanto eu cuidasse de mim mesma, fosse sobrevivendo a uma gripe ou a um surto ruim de herpes zóster, não havia um único momento de alívio. Esse tipo de alívio nem mesmo veio quando eu arrumei meu primeiro namorado. Um babaca, na minha opinião. Não seria um babaca se você perguntasse pra quem precisa de um parceiro pra se apoiar, pra mostrar e justificar como o motivo real de você ser descolada e totalmente não uma virgem perdedora.

Enfim. Ele era o disfarce perfeito. Tipo uma cara que você pode exibir e ainda assim alegar que não tem nenhum compromisso real. Ele tinha certa semelhança com o tipo de cara que algumas garotas gostam: vagamente étnico e ainda branco o suficiente pra ninguém duvidar que ele está na mesma liga que você. Olhos pequenos e miúdos, tom de voz eternamente choroso, pele pálida e doentia. Eu não gostava dele de verdade. Ele sabia que eu não gostava dele daquele jeito, e mesmo assim ele se encaixava bem no papel do que meus colegas de classe consideravam um namorado aceitável e totalmente não falso.

O que era bom.

Exceto quando não era. Veja bem, na minha glória infinitamente sábia e cronicamente congestionada, eu não participava de álcool, muito menos de qualquer outro tipo de droga. Não é que eu julgue os outros, só quando gastam dinheiro demais com isso. Então, quando o Sebastian começou a beber mais que o meu pai, eu pensei que não tinha como salvar aquele relacionamento. Não é como se meus amigos o conhecessem, afinal, como eu ia me orgulhar de namorar um bêbado? Assim, antes que eu percebesse, já tinha tomado minha decisão. Eu tinha que terminar com ele.

... Sem saber direito como dar a notícia pros meus amigos de que meu namorado falso agora era um ex-namorado falso, que não tinha evoluído pra namorado de verdade, mas, bem, você entendeu.

“Quando você vai apresentar ele pra gente?” perguntou uma das minhas amigas enquanto almoçávamos, sem fazer ideia da ansiedade que aquela pergunta estava me causando.

“Ah, ufa, em breve. Em breve, espero”, eu disse, balançando a cabeça. Afinal, com sinais físicos e linguagem não verbal as pessoas sempre entendiam melhor, né? Com certeza elas sabiam que não deviam me pressionar mais enquanto eu estava tão—

“Como ele é fisicamente?” A mesma amiga se virou pra mim, toda animada... Como ele é, ela pergunta pra quem definitivamente não quer admitir que o namorado é um bêbado que parece que o nome do meio é Hennessy.

“Ele é loiro, alto e bonito. Muito bonito”, eu disse, tentando soar segura, como se não estivesse inventando e descrevendo algum cara bonito que eu tinha visto uma vez num anúncio da Calvin Klein.

Claro que ninguém acreditou em mim. Quem acreditaria?

E aquilo foi só o começo! Algumas semanas depois de todo esse dilema, minha avó ficou gravemente doente. Nem era algo que eu tinha planejado, ou melhor, ninguém poderia ter previsto. Sabe quando as pessoas usam a desculpa de que a avó morreu pra serem dispensadas do trabalho ou da faculdade? Isso aconteceu comigo, só que, claro, nos dias antes do primeiro dia do meu terceiro semestre da faculdade. Como se já não fosse ruim o suficiente, como se eu não tivesse sido obrigada a ir na segunda-feira, ontem, e ainda...

Ontem à noite, eu sonhei outro pesadelo. Eu fui pra faculdade, mas não conseguia encontrar meu caminho, nem uma forma de me defender enquanto andava por aqueles corredores escuros, com o cheiro de formol e antisséptico quase gelado no meu nariz enquanto eu caminhava, quase sem fim. Minhas pernas doíam, sem falar de como eu estava com frio no sonho. E então eu o vi. Ou quem eu achei que devia ser uma saída. Era só um sonho, eu sabia, enquanto corria atrás de alguma figura nos meus sonhos, um amarelo brilhante rompendo a serenidade dos azuis até que ele se virou, estendendo os braços antes que eu corresse direto pra ele. Ele me pegou, ele me pegou, mesmo que eu tivesse acordado. Ele me pegou e eu acordei. Quem era ele, afinal?

... O que eu tinha sonhado? Só a cor de ouro e o cheiro de morte pareciam grudados nos meus ossos. Talvez só um lembrete, um eco do que eu tinha vivido no funeral da minha avó.

Hoje foi um bicho completamente diferente.

Eu ainda me lembro bem do meu raciocínio idiota. Nem me dei ao trabalho de pegar a mochila de manhã, sabendo que eu só tinha uma aula e que iríamos fazer um debate, então não precisava dos meus cadernos. Pensei: já que eu tenho um histórico bem pesado de desmaios, vou tomar café da manhã. Café da manhã dos campeões: burritos e uma garrafa de Coca. Meia litro de Coca e três burritos depois, eu estava feliz da vida. Sério, você nunca sabe o quão feliz e tranquila você está até comer sua comida favorita e sair toda animada pra aula. Nem me lembrei onde tinha deixado o celular, só fui entrando na sala de aula e me sentei pro meu terceiro dia de aula.

Uns vinte minutos depois de a aula começar, fui tomada por aquela sensação, aquele sentimento estranho de o estômago dar cambalhotas, quase uma bronca por ter comido comida pra alguém duas vezes o meu tamanho, quase doía dentro de mim. Deixa pra lá, talvez eu precise ir com calma. Nem preciso dizer que não foi fácil, porque acabei desmaiando. Por causa de uma dor de barriga! Só uma dor de barriga! A ida até a enfermaria não foi nada divertida, me levaram de maca pra fora da sala e me trouxeram pra enfermaria, com os estudantes de medicina fazendo treinamento e tudo mais. No meio de tudo, perguntaram se deviam ligar pra alguém pra me buscar. Mesmo sabendo que eu mesma era meu contato de emergência, eu não estava lúcida o suficiente pra protestar e explicar, nem conseguia reclamar enquanto vomitava sem botar nada pra fora.

Eu me sentei, pensando nas minhas opções, porque nem conseguia lembrar de nada. Será que podiam ligar pra minha mãe se ela não tinha como me contatar? Algum dos meus irmãos tinha me visto sendo levada pra enfermaria? Pior ainda, o que eu deveria fazer pra justificar toda a sequência de eventos que tinham me levado até a enfermaria? Então lá estava eu, na sala da enfermeira, bebendo água com eletrólitos e sendo tratada como uma princesa, tudo por causa de um simples desmaio e um mal-estar geral. E então, enquanto eu encostava o rosto na parede fria da enfermaria, ouvi uma batida na porta.

“Ah, ele veio! Achei que ele não fosse atender”, disse a enfermeira-chefe, saindo da sala dela pra abrir a porta, enquanto eu nem me dei ao trabalho de virar a cabeça, sem me mexer do meu lugar, olhando fixamente pra porta. E lá estava ele, com o sol brilhando atrás das costas, um estranho lindo, alto, com cabelo loiro longo, uma mão segurando meu celular e a outra minha mochila, enquanto a enfermeira apontava com a cabeça pro lado, pro estranho bonito que entrava na sala. Olhos brilhantes romperam a luz fria da enfermaria enquanto ele me encarava intensamente, justo quando a enfermeira disse toda animada: “Seu namorado chegou.”

Eu nem conseguia me mexer, só olhando pra ele de baixo, sem conseguir dizer uma palavra.

Estava na hora, afinal.

Eu guardo um laboratório. Acho que eles estão tramando alguma coisa...

Preciso de uma segunda opinião sobre isso aqui.

A essa altura, já trabalhei como “vigia” em vários lugares diferentes. O que isso realmente quer dizer é que eu tenho tempo demais pra ler e escrever, e desenvolvi um péssimo hábito de exagerar pra caramba na prosa. Isso aqui é diferente e vai ter que ser simples e rápido. Espero que tudo bem.

Recentemente fui transferido para um laboratório cujo nome não posso revelar. Fui pego dormindo no último lugar, aquela história toda. E me surpreende que não tenham simplesmente me mandado embora, porque me pegaram bem no meio de um dos meus sonhos malucos e, aparentemente, eu estava resmungando alguma coisa sobre goblins.

Enfim, no Laboratório as coisas funcionam um pouco diferente de qualquer outro lugar em que eu já “trabalhei”. Turnos noturnos de doze horas, eu e outra guarda. A gente se reveza dirigindo um carrinho de golfe sem rumo pelo estacionamento durante duas horas. Acho que eles querem parecer vigiados.

Nas duas horas de folga, eles querem especificamente que a gente durma.

Eles querem que os guardas durmam.

Nunca vi nada parecido.

Não numa cama nem nada assim, porque por que seria? Tem uma mesa, na área de recebimento, num canto. Cientistas de jaleco branco passam correndo a noite toda falando principalmente várias línguas asiáticas. Outros trabalhadores passam correndo falando principalmente espanhol. Eles realmente se certificaram de que eu era monolíngue antes de me colocarem aqui. De novo, nunca vi nada parecido.

Você pensaria que eu deveria ficar de olho em todos esses cientistas e trabalhadores, sabe, como um “vigia”. Não. A cadeira atrás da mesa é muito mais confortável do que parece e, por algum motivo, eu sempre fico tão cansado quando chego lá e, ah é, fui instruído especificamente a “tirar um cochilo”.

Então lá estou eu, profundamente adormecido, tendo todos os meus sonhos malucos enquanto todos esses cientistas malucos e trabalhadores ficam correndo de um lado pro outro.

E se os sonhos já eram malucos antes, nossa, agora eles estão malucos de verdade.

Todo sonho virou o mesmo.

Estou numa ponte. Atrás de mim, a ponte leva a uma pequena ilha coberta de floresta. À minha frente fica, eu acho, o continente, e há todas essas sombras humanoides espiando pra fora da selva, todas tentando atravessar a ponte, mas, enquanto eu observo, elas não conseguem.

Eu as chamo de sombras humanoides, e não de pessoas-sombra, porque elas definitivamente não são pessoas, seja lá o que forem.

Há algo no sonho que é sempre tão inexprimivelmente desolador.

Enfim, aí me acordam e me mandam sair de novo no carrinho de golfe pra outra guarda tirar o cochilo dela.

Ganhar pra dormir é um ótimo negócio, então você não pode me culpar por fazer o que me mandam e não pensar demais nisso.

E tudo isso ia muito bem, até que uma noite, por pura coincidência, ouvindo um audiolivro enquanto dirigia o maldito carrinho de golfe, eu aprendi sobre a palavra em espanhol “duende”.

Aparentemente ela pode se referir a um monte de criaturas diferentes, eu suponho, meio parecidas com elfos (pesquisa aí se quiser), e eu não sou nenhum especialista, mas, para os fins disso aqui, seja lá o que isso for, vou chamá-las de goblins.

Digo isso porque, depois de dirigir o carrinho de golfe naquela noite, voltei pra mesa-de-dormir e podia jurar que continuava ouvindo os trabalhadores dizerem essa palavra. Duende.

E voltei na noite seguinte armado com um conjunto de palavras memorizadas que são mais ou menos equivalentes a “goblin”, em várias línguas asiáticas.

Eu não sei nenhuma dessas línguas e, além disso, eu estava errado, muitas delas nem sequer são asiáticas, então o que é que eu vou saber, né?

Mas eu juro que continuo ouvindo essas palavras. Eu juro, não sei por quê, mas parece que todos esses cientistas malucos, e todos esses trabalhadores malucos, ficam falando sem parar sobre goblins.

Toda noite.

Por quê?

Será que eles só curtem muito fantasia?

E eu odeio pra caralho fazer essa pergunta, mas isso tem alguma coisa a ver com os sonhos?

Porque agora, toda vez que tenho aqueles sonhos, comigo na ponte observando todas as sombras humanoides saindo da selva, eu me pego chamando elas de goblins. Por que goblins?

E eu não sou idiota.

Eu me lembro do que disseram que eu estava resmungando quando me acordaram naquele outro posto.

E, sejam lá o que forem essas sombras humanoides, eu juro que continuo vendo elas pelo canto do olho, em todo lugar a que vou agora.

Privação de sono, né?

Meu cérebro está ficando delirante e meu reconhecimento de padrões está enlouquecendo, né?

Esse Laboratório não tá nem aí pra goblins idiotas de fantasia, né?

Mas por que meu cérebro inventaria isso?

É específico demais.

E os sonhos.

As sombras.

Essa desolação.

O que eles têm nesse laboratório?

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Acho que ela congelou

Acho que foi no começo de janeiro quando aconteceu. Estava um frio congelante lá fora. Sempre que eu saía, eu conseguia sentir instantaneamente que começava a congelar de dentro pra fora. Ficou insuportável só de ter que sair de casa. Não consigo imaginar ninguém saindo de casa por vontade própria quando está tão insuportavelmente frio lá fora.

Então, quando eu vi ela lá fora, eu só tive que ajudar.

Era uma noite de quinta-feira, eu estava com preguiça, então pedi uma pizza e fiquei deitado no meu sofá a noite toda só assistindo TV. A janela atrás de mim estava embaçada, então decidi desenhar nela. Eu costumava fazer isso muito quando criança.

Deslizando meus dedos pelos vidros frios, eu desenhei um solzinho, um começo simples. Limpando a névoa na janela, eu vi algo lá fora. Não, alguém.

Ela estava parada na minha calçada completamente imóvel. Estava usando uma parka; o capuz cobria o rosto dela, então eu nem conseguia ver o rosto dela. Limpei minha janela um pouco mais. Ela não se mexeu, não falou, nem fez nada. Ela estava só congelada, parada. Eu nem acho que ela estava respirando.

Talvez ficar observando uma mulher aleatória na rua seja estranho, mas foi ela que estava do lado de fora da minha casa, foi ela que não ia embora, foi ela que começou a me observar primeiro.

Bem do meu lado estava meu telefone. Eu rapidamente peguei ele e liguei pro meu melhor amigo, Matt. Tocou por alguns segundos enquanto eu ficava ali sentado falando sozinho. “Vamos, cara, atende logo!” sussurrei pra mim mesmo, meus olhos encarando direto meu telefone. Um arrepio subiu pela minha espinha e se recusou a ir embora. Parecia tão frio.

“Desculpe, mas o número que você está chamando está indisponível no momento, por favor ligue novamente em outro horário.”

Quase xinguei alguma coisa baixinho, mas me acalmei rápido. Era só uma garota do lado de fora da minha casa. Ela não estava fazendo nada prejudicial, então eu não tinha motivo pra ter medo.

E mesmo assim eu ainda sentia aquele arrepio se arrastando nas minhas costas, me instigando a ficar em alerta. Respirando fundo, virei pro lado e olhei pela minha janela.

Ela tinha sumido.

Nenhuma pegada ficou pra trás, a neve continuava lisa, era como se ela nunca tivesse estado ali. Esfreguei meus olhos e mesmo assim não havia nada lá. Nada mais tinha mudado.

Um pouco assustado, me encostei no braço do sofá e olhei de volta pro meu teto. “Talvez tenha sido só imaginação minha,” falei comigo mesmo, “É- é, foi só imaginação minha.” Repeti pra mim mesmo várias e várias vezes, esperando encontrar algum tipo de lógica no que eu vi.

Alguém bateu na minha porta. Eu pulei do sofá, entrando em pânico em silêncio. Mas rapidamente raciocinei comigo mesmo. Devia ser o cara da pizza.

Descendo as escadas até a porta da frente, estendi a mão pra alcançar a maçaneta, mas congelei. Não sei por quê, mas algo me instigou a ser cauteloso. Então, em vez disso, olhei pelo olho mágico da minha porta.

Ela estava lá de novo.

Tropecei pra trás, me segurando rápido antes que eu pudesse cair. Um arrepio repentino atravessou meu coração e me puxou de volta pra minha porta. Encostei minha mão e a testa contra a porta de madeira, buscando estabilidade. Eu não conseguia olhar pra cima.

Ela bateu, esperando uma resposta. Mas eu não conseguia falar. Ela bateu de novo. Uma névoa gelada inundou os corredores, o frio se arrastando pra dentro do cômodo, lentamente me alcançando. Ela continuou batendo enquanto eu ficava congelado, parado.

“Foca, Luke.” Penso comigo mesmo, tentando encontrar razão. “É só uma garota, o que ela pode fazer com você?” ignorando o arrepio se arrastando nas minhas costas, me forcei a me recompor. Fiquei de pé, vesti uma jaqueta e abri a porta.

Estrelas brancas brilhantes navegavam no céu preto-piche, nuvens cobrindo a lua. Neve branca e lisa cobria a terra lá fora, pinheiros spruce altos brotando.

Ela foi embora.

Saí da casa, meu hálito congelando no inverno. Olhei pra esquerda e pra direita procurando qualquer sinal dela. Igual antes, não havia nenhum rastro deixado pra trás. Era como se ela nunca tivesse estado ali.

Desabando contra a porta atrás de mim, segurei meu rosto nas mãos, confuso. Nesse ponto, comecei a achar que estava imaginando coisas. Essa era a única solução lógica que eu conseguia pensar.

Observando meu hálito começar a congelar no frio, me levantei de novo e caminhei até a beirada da minha varanda, apoiando as mãos no topo dos portões de metal, olhando ao redor pra neve que me cerca, lutando pra manter os olhos abertos.

Isso foi até eu ver.

Uma seta traçada na neve.

Como eu perdi isso?

Não sei por que decidi ser burro, mas eu juro que naquele momento ela falou comigo. Talvez tenha sido o vento gelado que sussurrou pra eu seguir a seta. Talvez a seta em si tenha chamado meu nome. Talvez eu só estivesse falando comigo mesmo, dizendo pra mim mesmo que era natural ficar curioso. Mas seja lá o que me fez fazer isso, fez eu fazer isso.

Tranquei minha porta e segui a seta, sentindo que estava sendo puxado como um fantoche num barbante. Virando na beirada da minha casa, encontro outra seta no lado da minha casa, fazendo uma curva na neve levando pro meu quintal.

Seguindo a próxima seta, rapidamente encontrei outra logo depois dela. Dessa vez levando pra floresta. Congelei no lugar e bati a mão na cara. Olhando pra minhas mãos, lentamente ficando dormentes de frio, e pensei comigo mesmo, “Eu sou mesmo tão burro? Eu vou mesmo ir pra lá no meio da noite?” Passei a mão pelo cabelo, batendo o pé na neve grossa e fofa abaixo de mim.

O vento começou a uivar, começou a implorar.

Acontece que eu sou mesmo tão burro.

Continuei seguindo as setas e entrei na floresta atrás da minha casa. Pinheiros spruce altos e escuros alinhavam o caminho, camadas grossas de neve cobriam suas folhas verde-escuras e caíam lentamente. A lua começou a passar pelas nuvens e lançou sua luz pela mata, parecia que estava me seguindo. Mais setas estavam gravadas na neve, uma atrás da outra. Eu conseguia sentir o arrepio subindo pela minha espinha perfurando ainda mais fundo dentro da minha pele, tentando me congelar. No entanto, o vento frio parecia mais calmo.

Ele roçava graciosamente nos meus lados, quase segurando minha mão antes de sumir no vazio repentino à minha frente. Parecia tão frio.

Estava tão frio.

Frio, frio e frio.

Mantive a cabeça baixa enquanto as árvores me olhavam de cima. Outra seta vinha uma logo depois da outra, eu me abracei, imaginando quando o caminho ia acabar. Às vezes eu me via congelado, dizendo pra mim mesmo pra voltar. Mas sempre que eu dava um passo pra trás, o vento começava a uivar ou as árvores começavam a me encarar de cima, a lua me deixava sem luz, e ela começava a me chamar.

Continuei andando.

Ficou mais escuro, mas a lua ficou do meu lado. Estava congelante, mas estava calmo. Meu hálito começou a congelar no frio. A certa altura pisei num galho, foi o suficiente pra me assustar.

Mas eventualmente, cheguei a um ponto final.

Havia uma cruz gravada na neve.

Me ajoelhei no X, respirando pesado. O vento enevoado espiralava ao meu redor suavemente, queria que eu cavasse. Ela queria que eu cavasse. Pra encontrá-la. Às vezes ela chorava, mas depois ficava quieta. Às vezes ela arranhava a neve, mas logo ficava congelada, parada. Eu tinha que encontrá-la.

Usando nada além das minhas mãos, comecei a cavar na neve. Minhas mãos começaram a congelar, lentamente ficando dormentes de frio. Mas eu tinha que tirá-la de lá.

Eu cavei. Ficou mais frio. Eu cavei. Ficou mais escuro. Eu cavei. Me senti tão cansado. Eu cavei. Cavei até finalmente ver o rosto dela. O rosto congelado e pálido dela. As pupilas dela eram puro branco, listras azul-índigo pintavam a pele dela, as veias visíveis. Geada rastejava das pontas dos dedos dela; sangue escorria dos lábios dela.

Eu a encontrei.
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