sábado, 10 de janeiro de 2026

Jantar de Domingo

Desde que me entendo por gente, sempre foi só eu e minha mãe. Meu velho sumiu do mapa, e, sempre que eu insistia no assunto, minha mãe me soltava algum comentário evasivo do tipo "a gente tá melhor sem ele". Quando criança, eu ficava curioso sobre ele; todos os meus amigos tinham pai, então me sentia um pouco estranho por ser o diferente. Com o tempo, cheguei numa idade em que isso não parecia mais tão importante, e, como minha mãe nunca falava dele, acabei esquecendo o cara. Depois disso, me mudei, arrumei um emprego, encontrei uma esposa e me tornei pai, mas ainda assim reservava toda noite de domingo para visitar minha mãe no jantar.

A casa da minha mãe sempre foi tão alegre e cheia de vida, assim como ela mesma. A velha era a alma da festa, e dificilmente tinha um momento chato por lá. Mas, há mais ou menos um ano, comecei a notar pequenas coisas nas minhas visitas semanais. Coisas mínimas, como a casa, que antes estava sempre impecável, agora tinha pratos sujos empilhados na pia, ou as cortinas, que antes ficavam sempre abertas para deixar a luz entrar, agora estavam sempre fechadas. O jeito dela também foi mudando com o passar dos meses: o pavio ficou mais curto, e o senso de humor parecia diminuir a cada semana.

Foi mais ou menos nessa época que minha mãe começou a sair com um cara novo, o Frank. Ela já tinha mencionado ele de passagem algumas vezes ao longo dos anos, então eu sabia que os dois se conheciam há um tempo, mas não fazia ideia de que eram tão próximos — até que, certo domingo, cheguei para o jantar e fui recebido pelo próprio.

Desde a primeira vez que botei os olhos no Frank, ele me deixou desconfortável. Parecia normal, quase familiar de um jeito esquisito, como se fosse daqueles rostos que caem no "vale da estranheza", tirando a boca. Os lábios dele eram tão finos que praticamente não existiam, e a boca era tão larga que quase ia de uma orelha à outra, como um sorriso de Chelsea natural.

Com o passar das semanas, percebi que o Frank não era muito de conversar, a não ser pelo habitual "‘E aí, filho?" quando abria a porta para mim. E, o mais estranho, nunca o vi falar com minha mãe. Na verdade, a única vez que o vi sequer olhar para ela foi quando ela se virava para buscar algo para ele — outra bebida, o jantar. Nada daquilo me cheirava bem, mas a única hora que eu podia questionar minha mãe sobre isso sem ele por perto era pelo telefone, e toda vez ela me dizia: "É assim que ele é". Então, eu sorria educadamente e não criava caso. Contei para minha esposa sobre essas mudanças, mas ela também me disse para não me preocupar, que minha mãe sabia se virar.

Isso foi se arrastando por meses: a cada visita, a casa estava um pouco mais suja, mais escura e, eventualmente, mais úmida e fedida. Logo, comecei a temer a chegada do domingo. Os silêncios desconfortáveis, a escuridão sinistra e um cheiro tão forte que eu quase engasgava assim que o Frank abria a porta. "Problema no encanamento, rapaz", ele dizia, mas eu tinha certeza de que era algo mais. Algo sobrenatural.

Até que minha mãe parou de atender minhas ligações. Minhas visitas aos domingos não passavam de o Frank abrir a porta e me dizer que ela estava doente, ocupada ou fora por aquela noite. Semanas se passaram, depois meses, sem nenhum contato. Eu estava ficando seriamente preocupado. Cheguei a procurar a polícia várias vezes, implorando para que fossem até lá dar uma olhada, mas não tive nenhuma resposta.

Quando o inverno chegou, eu atingi meu limite. Fui até a casa da minha mãe e bati na porta com tanta força que quase a arrebentei. Nada. Bati de novo e de novo, por um tempão, mas nem um barulho de dentro. Depois de muito tempo, tive que desistir, mas, quando me virei para ir embora, ouvi um som: o clique da fechadura.

Meu alívio virou medo em segundos quando me virei e vi uma figura mal iluminada através da fresta da porta agora entreaberta.

— ‘E aí, filho?

Era quase um sussurro, mas inconfundivelmente o Frank.

Ele já tinha se dissolvido na escuridão antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa.

— Onde está minha mãe, Frank? — gritei para o vazio.

— Tá aqui, meu rapaz.

Entrei, e logo fui atingido por aquele cheiro podre, de coisa apodrecendo. Os olhos ardendo, a respiração sufocada, mal conseguia enxergar enquanto avançava pela casa que já foi tão bonita. Lixo cobria o pouco do chão que eu conseguia ver, mofo tomava conta das paredes, e o ar era tão pesado que mal dava para respirar.

— Mãe? — chamei. — Onde você está?

— Aquí dentro, filho — respondeu o Frank, vindo da sala.

Ao entrar no cômodo, consegui distinguir duas figuras no escuro: uma pequena, sentada no sofá, e outra grande — maior do que o Frank — parada perto da janela, com as cortinas bem fechadas.

— Fico feliz que você veio, rapaz — sussurrou a silhueta imponente. — A gente precisa ter uma conversinha.

Enquanto meus olhos se ajustavam à escuridão, vi a figura grande começar a ganhar traços: um rosto estranhamente familiar, lábios quase inexistentes e um sorriso inumano, de orelha a orelha. Era o Frank. Mas mais jovem e muito maior do que antes.

Aterrorizado, mal consegui balbuciar:
— Onde está minha mãe, Frank?

Ele não respondeu, só inclinou levemente a cabeça na direção do sofá. O que vi ali vai me assombrar pelo resto da vida.

Era minha mãe. Caída no sofá, a carne arrancada dos ossos, as entranhas espalhadas pelo chão, meio comidas. Me virei para o Frank, paralisado de terror.

— Agora é só você e eu, garotão! — ele gargalhou, cuspe voando daquela boca monstruosa, parecida com a de um lagarto.

Não sei como, mas consegui me recompor o suficiente para correr dali, longe daquele antro, enquanto o riso gutural do Frank ficava cada vez mais distante atrás de mim.

Não contei para ninguém o que vi naquele dia, exceto para minha esposa e a polícia. Duvido que minha esposa tenha acreditado em mim; acho que ela pensou que eu tive um surto psicótico ou algo do tipo.

A polícia foi até a casa, mas disseram que não encontraram nada. Tudo estava limpo, como se ninguém nunca tivesse estado lá. Nunca mais vi o Frank, mas, pouco tempo depois, comecei a receber cartas.

Cada uma dizia apenas: "E aí, filho, um abraço do Pai".

A Dama do Andar de Cima

Isso aconteceu no começo dos anos 90, quando eu tinha uns oito anos e minha irmãzinha, quatro. Meu avô tinha um grande amigo que havia falecido recentemente, e ele havia combinado de cuidar da casa da família do homem. Era um lugar antigo, que, aliás, foi demolido alguns anos atrás. Às vezes, talvez para dar uma folga para a minha mãe, meu avô nos levava lá para brincar. A gente levava nosso cachorro também, um Shetland sheepdog que a gente amava de paixão.

Uma coisa que eu lembro é que nosso cachorro nunca entrava na casa com a gente. Ele só rosnava para a porta e até tentava morder a gente se a gente tentasse levá-lo para dentro, com os pelos do lombo arrepiados. Então, a gente sempre tinha que deixá-lo preso do lado de fora quando entrávamos.

A casa tinha dois andares. Lá embaixo, um dos cômodos tinha um piano superlegal, além de fitas de 8 faixas e discos antigos que a gente podia ouvir. A gente passava horas lá, só tocando piano e ouvindo música. Às vezes, meu avô nos dava um balde de giz pastel na sala e a gente desenhava e coloria. Também tinha um computador antigo dos anos 90, com aquele jogo de paciência e um programa de pintura que eu adorava fuçar.

O quarto de cima era onde tinha algo estranho. Eu me lembro da sensação de subir lá — não era exatamente assustador, mas dava uma inquietação. Às vezes, eu subia sozinho só para sentir aquilo, embora não entendesse direito o que estava acontecendo. Hoje, olhando para trás, sei que tinha algo muito errado.

Um dia, a gente foi até lá e meu avô nos deixou dentro de casa enquanto ia cortar a grama do lado de fora. Eu estava brincando com o programa de pintura no computador, que ficava do lado da escada, e minha irmãzinha estava colorindo com giz pastel, como a gente sempre fazia. Daí, eu a ouvi conversando com alguém. Olhei para ela e vi que estava parada no pé da escada, olhando para cima e falando com alguém que eu não via.

Perguntei com quem ela estava conversando, e ela respondeu: "A moça de cima." Levantei e olhei, mas não vi ninguém. Quando falei para ela que não tinha ninguém lá, ela insistiu que uma mulher de vestido vermelho estava no topo da escada.

Eu me lembro de sentir aquela sensação de novo. Aquela inquietação. Não era medo, mas também não era normal. Como era criança, acho que não conseguia processar direito. Enfim, subi lá em cima e minha irmã me seguiu. Abri a porta do quarto de cima, que já estava meio aberta, e lá estava ela. Uma mulher de vestido vermelho, parada bem ao lado de uma portinha na parede. Aquela porta dava acesso ao sótão. Ela olhou direto para mim e disse: "Tem um trem de brinquedo e uns trilhos aí dentro que vocês podem brincar."

Ela parecia ter saído dos anos 50. O cabelo estava impecável, como se tivesse acabado de fazer, e ela usava luvas brancas compridas, quase até o cotovelo. Parecia uma rainha de concurso de beleza. Era muito bonita.

Abri a portinha do sótão e ela apontou onde estava o trem de brinquedo. Era uma caixa de madeira antiga. Entrei no sótão e peguei. Quando saí, minha irmã estava mostrando para ela os desenhos que tinha feito com o giz pastel. Olhei para a mulher e falei: "Peguei!" Por algum motivo, só continuei como se aquilo fosse normal. Sabia que ela era uma estranha, mas não reagi como deveria. Talvez fosse muito novo para entender, ou porque ela parecia tão simpática e bonita. Não sei.

Ela me ajudou a montar o trem e ligá-lo. Funcionou. Dava para ver que era um brinquedo antigo, mas eu achei o máximo. A gente ficou lá com ela por uns trinta minutos. Depois, ouvimos meu avô entrando na casa e chamando a gente. A mulher se levantou e disse: "Bom, preciso ir. Vocês dois vão brincar, e a gente se vê outra hora." Ela sorriu grande. Ainda consigo ver aquele sorriso enquanto escrevo isso. Ela foi até a portinha do sótão e entrou. Lembro de ter falado que estava quente lá dentro. Ela só acenou e fechou a porta atrás de si.

Minha irmã e eu descemos e encontramos meu avô. Ele fez uns sanduíches para a gente, e a gente contou sobre a moça e como ela tinha mostrado onde estava o trem. Ele garantiu que não tinha ninguém no sótão e que eu não deveria entrar lá sem ele, porque fazia muito calor. Acho que ele não deu muita importância. Provavelmente pensou que fosse uma amiga imaginária.

Lembro de ter subido lá de novo naquele dia, antes de irmos embora, para ver se ela tinha voltado. Chequei até o sótão. Não tinha ninguém. Lembro de ter ido para casa e simplesmente esquecido do assunto.

A gente voltou à casa algumas semanas depois. A primeira coisa que fiz foi subir para ver se ela estava lá. O trem ainda estava no lugar, junto com os desenhos que minha irmã tinha levado para mostrar para ela, mas não tinha sinal da mulher.

Naquele dia, minha irmã e eu tocamos piano e ouvimos música dos anos 50 em uma fita de 8 faixas antiga, como de costume. Tentei fazer meu cachorro entrar na casa com a gente, como sempre fazia. E brinquei no programa de pintura do computador, como sempre.

Enquanto pintava uma das minhas "obras-primas", algo chamou minha atenção pelo canto do olho. Era ela. Estava na escada, mais ou menos na metade do caminho entre o andar de cima e o de baixo. Ela fez um gesto para eu ir até ela, e eu fui sem pensar duas vezes. Usava o mesmo vestido vermelho, o mesmo penteado, tudo igual. Senti vontade de avisar meu avô que ela tinha voltado, mas primeiro a segui lá para cima.

Quando cheguei, minha irmãzinha já estava com ela. A mulher tinha mostrado para ela umas bonequinhas que estavam no sótão. A porta do sótão estava aberta. Ela me pediu para pegar uma coisa para ela lá dentro. Falei que meu avô não queria que eu entrasse, porque fazia muito calor. Ela garantiu que não tinha problema e apontou para uma bolsa bege, alguns degraus adentro, à esquerda. Pensei um pouco, mas não queria deixar meu avô bravo. Então, falei que precisava perguntar para ele se podia pegar. Ela só sorriu para mim. Naquele momento, comecei a descer a escada, mas senti que precisava levar minha irmã comigo. Acho que foi o instinto de irmão mais velho falando. Falei para ela vir comigo buscar o vovô.

Disse para a mulher que a gente já voltava e que então eu poderia pegar a bolsa para ela. Minha irmã e eu descemos e entramos em um dos quartos, onde meu avô estava assistindo a um jogo de futebol. Contamos para ele sobre a mulher de novo e que eu precisava pegar uma coisa para ela no sótão. Ele garantiu que não tinha ninguém lá em cima, mas subiu com a gente mesmo assim.

Quando chegamos lá, ela tinha sumido. Meu avô ficou um pouco chateado com a porta do sótão aberta e com mais brinquedos antigos espalhados, mas disse que eu podia pegar só mais uma coisa. Antes de entrar no sótão, olhei em volta procurando a mulher e a chamei, percebendo que nem sabia o nome dela. Meu avô, mais uma vez, garantiu que não tinha ninguém lá. Entrei no sótão e peguei aquela bolsa bege que ela tinha pedido. Tinha um cabide preso nela. Levei para o meu avô, que abriu o zíper e tirou algo de dentro. Era o vestido vermelho da mulher.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Não ia contar isso, mas aconteceu uma coisa quando eu era criança que nunca consegui explicar

Mais cedo, vi um post em que algumas pessoas nos comentários discutiam experiências paranormais reais que já tiveram. Quase comecei a digitar — mas hesitei. Algo aconteceu comigo há muito tempo que, com certeza, foi estranho. Não tenho certeza se chamaria de paranormal. Há outras palavras que me vêm à mente primeiro: perturbador, confuso, inesquecível, aterrorizante. "Paranormal" é mais difícil de afirmar com certeza.

Fui criado em uma família estritamente ateia. Meu pai era biólogo, e minha mãe faleceu de câncer quando eu tinha dois anos. Meu pai era pragmático. Histórias de fantasmas, casas assombradas, encontros espirituais, qualquer coisa religiosa — esses eram assuntos tabus. Ele sempre me dizia que havia uma explicação científica para tudo. Mesmo que ainda não a conheçamos, ela existe.

Acho que acredito nisso. Ou pelo menos sempre disse que acredito. Talvez seja só o que tenho me dito. Nunca vi nada que pudesse chamar de prova inegável do contrário.

Mesmo assim, há um incidente que ficou gravado na minha mente há mais de 40 anos — como um cachorro abandonado que nunca foi embora. Nunca consegui entender. Principalmente porque não faz sentido com nada que vivi desde então, ou com tudo que sei sobre como o mundo funciona. Se não fossem as pessoas na minha vida que se lembram daquele tempo — e se não fosse um recorte de jornal enterrado em uma caixa de coisas velhas — provavelmente teria descartado tudo como algo que imaginei. Mas aconteceu.

O que significou, ainda não sei dizer.

Se meu pai ainda estivesse vivo, ele diria que algo aconteceu também. Se ele acreditou na minha versão dos fatos, não sei. Mas ele se lembrou do evento até o dia da morte dele. Até há registros policiais sobre isso. O que segue é a minha lembrança honesta da coisa mais assustadora que já vivi. Não falo sobre isso há décadas. Vou contar exatamente como me lembro.

Tire suas próprias conclusões.

Cresci em uma cidade de cerca de 14 mil habitantes às margens do Rio Ohio, entre colinas ondulantes e florestas densas. Era um lugar verdadeiramente lindo — especialmente no início do outono, quando as folhas mudavam de cor e as colinas ardiam em dourado e carmim.

Como qualquer cidade pequena, tínhamos nossa cota de folclore. Histórias sussurradas em festinhas do pijama, murmuradas em bares depois de algumas doses. Havia uma sobre uma figura translúcida perto do rio, que diziam ser o fantasma da esposa de um capitão de barco a vapor dos anos 1800. Outra girava em torno de uma casa decadente no fim da rua onde minha prima morava. Alguns afirmavam que ela pertenceu a um pintor que fez um pacto com o diabo, e que suas obras amaldiçoadas ainda forravam as paredes tortas — esperando para sugar a alma de qualquer um corajoso (ou idiota) o suficiente para entrar e olhá-las.

Essas eram apenas algumas das histórias que assombravam nossos sonhos e nos mantinham acordados à noite.

Mas havia um mito que me assustava mais do que os outros. Diziam que algo — uma entidade — vivia na mata atrás do nosso quintal. As pessoas chamavam de Coração Negro.

Pra ser sincero, não me lembro de muitos detalhes da história em si. Só que era preciso tomar cuidado naquela mata, porque o Coração Negro poderia pegar você. Alguns diziam que era uma bruxa que vivia lá desde os anos 1700. Outros afirmavam que nem era humana. Não um "ela", não um "ele" — só algo diferente, algo de outro mundo.

Meu pai costumava dizer que era assim que a gente sabia que tudo era mentira. "Ninguém nem consegue contar a história direito", ele dizia. "Porque alguém inventou." Eu geralmente acreditava nele. Brincávamos naquela mata o tempo todo e nunca vimos nada estranho.

Mesmo assim... quando o sol se punha, a história me incomodava.

Principalmente porque a janela do meu quarto dava para o quintal — e de lá, eu tinha uma vista perfeita da linha das árvores. Costumava espiar pela cortina antes de dormir e me perguntar se ela — ou isso — estava lá fora, parada logo além da grama, escondida entre as árvores, esperando. Às vezes, imaginava um dedo longo e peludo se curvando em minha direção a partir das sombras, me chamando para sair.

Estou contando isso porque, na época, algumas pessoas disseram que o Coração Negro tinha algo a ver com o que aconteceu. Não estou dizendo que acredito nisso.

Mas também não estou dizendo que tenho certeza de que não teve nada a ver.

Enfim, estou divagando. Acho que estou adiantando, pra ser sincero. Não é fácil revirar tudo isso de novo. E, além disso, estou tentando entender como me sinto em relação a tudo isso enquanto escrevo.

Era outubro de 1984. Eu tinha nove anos.

Minha melhor amiga, Maura, morava três casas abaixo da minha. Estávamos de férias de outono e nos divertindo pra caramba. Como na maioria dos dias sem aula, passávamos o tempo fora de casa — da mata atrás do nosso bairro até a loja de doces na Rua Ponte, no centro da cidade. Mesmo depois do pôr do sol, podíamos ficar na rua, desde que não saíssemos da nossa quadra.

Maura e eu éramos melhores amigas desde o jardim de infância. Tínhamos dividido a mesma sala todos os anos. Nossas famílias se conheciam. Quando você tem nove anos, é impossível imaginar que sua melhor amiga um dia não estará mais lá — até algo forçar você a pensar nisso.

Às vezes, os amigos se afastam porque alguém se muda. O pai arruma um novo emprego. As famílias se mudam. Faz parte do crescer.

Mas o que aconteceu naquele outubro não era normal.

Já mencionei que nosso quintal levava até a mata. Isso não era incomum na nossa cidade. O lugar todo era praticamente cercado por floresta, exceto pelo lado onde corria o rio. Era fácil se perder naquela mata. Por isso, sempre tomávamos cuidado e garantíamos que pelo menos uma pessoa estivesse conosco.

Aquela parte específica da mata — logo depois do nosso quintal — tinha uma clareira escondida. Um campo imenso, cercado de árvores por todos os lados. Se você andasse uns 15 metros, chegaria lá. Mata densa no caminho, mas de repente ela se abria — e parecia que você tinha encontrado um mundo secreto. Grama dourada alta, balançando no vento. Pacífico. Isolado. E bem no centro do campo, um único e solitário bordo.

Amávamos aquela árvore. Costumávamos correr umas atrás das outras ao redor do tronco. Era tão grosso que não dávamos conta de abraçá-lo por completo. Geralmente, corríamos em círculos, tentando ver quem conseguia tocar as costas da outra primeiro.

Sempre começava da mesma forma. Cada uma ia para um lado oposto do tronco e contava até cinco. Depois, a perseguição começava. Eu gostava de fechar os olhos enquanto contava. Não era parte das regras — eu só fazia. Dava a sensação de que eu estava cortando o mundo por um momento. Quando os abria de novo no "um", estava concentrada só no jogo.

Naquele dia, assumimos nossas posições como sempre.

— Me avisa quando estiver pronta — eu disse.

— Pronta! — ela gritou do outro lado do tronco.

— Tá — respondi, e olhei para os meus pés. Comecei a contar em voz alta. — Um... dois...

E então — bem antes de dizer "três" — ouvi algo estranho.

Foi breve, sumiu quase tão rápido quanto apareceu. Um som, bem perto. Lembrava o bater de asas gigantescas, ou talvez um lençol estalando em uma rajada forte de vento. Mas era alto. E parecia perto. Pisquei, confuso, e instintivamente olhei para cima — mas só vi o dossel dourado balançando na brisa.

— Maura? O que foi isso? — gritei.

Nenhuma resposta.

Espiei ao redor do tronco, esperando vê-la espiando de volta. Não estava.

Andei ao redor da árvore — uma volta completa — e voltei ao ponto de partida.

Maura tinha sumido.

A princípio, fiquei só confuso. Mas a confusão rapidamente se transformou em pânico.

Girei devagar, escaneando toda a clareira. Nada. Nenhuma Maura. Nenhum movimento. Nenhum galho quebrado. O campo estava exatamente como segundos antes.

Mas quando meus olhos se fixaram na linha das árvores na extremidade oposta da clareira, senti um tipo de medo que ainda luto para explicar. Algo estava errado. Profundamente errado. Algo tinha acontecido que não deveria ter acontecido.

Gritei o nome dela.

Nunca mais ouvi minha voz daquele jeito. Não era um grito — era um uivo primal, cru. O som de algo se quebrando. Gritei de novo e de novo, mas sabia — de algum modo, na parte mais instintiva de mim — que ela não podia me ouvir. Mesmo que eu a tivesse visto momentos antes... ela já tinha ido.

Me lembro do que pensei. Mesmo com nove anos, meu cérebro tentou explicar logicamente. Mas cada teoria afundava sob o peso do que eu sabia: estávamos em um campo cercado por floresta. Do lugar onde estávamos, até um adulto rápido levaria pelo menos 30 segundos para correr da árvore até a mata. Eu tinha tirado os olhos dela por cinco segundos, no máximo. Ela não poderia ter saído correndo. Se alguém a tivesse agarrado e saído correndo, teria que ser mais rápido que um guepardo e mais silencioso que um sussurro. E mesmo assim — ela tinha sumido.

Então, fiquei ali, chorando. Gritando o nome dela. Gritando pelo meu pai.

E então, de repente, algo mudou.

Fui dominado por uma estranha vontade — de não olhar para cima. Não sabia por quê. Só sentia. Uma pressão no peito. Um aperto na garganta. Meu corpo me dizia: *Não olhe para o céu.*

E então me atingiu. Uma presença.

Era invisível, mas pesada. Densa. Opressiva. E irradiava algo que só consegui descrever como ódio. Ódio puro. Deliberado.

Mesmo agora, enquanto escrevo, os pelos da minha nuca se arrepiam. Minhas palmas suam. Porque me lembro vividamente.

Havia olhos em mim.

Não conseguia vê-los — mas sabia que estavam lá. Observando. Estudando. Aproveitando. A presença não estava no chão. Estava acima de mim. Eu estava a uns vinte passos da árvore. Já tinha olhado para cima quando ouvi o som pela primeira vez, e o céu estava vazio.

Mas agora... algo pairava sobre mim. Nenhuma sombra, nenhuma forma, nenhum contorno — mas estava lá. Podia sentir, pressionando para baixo. Parecia inteligente. Parecia ancestral. E queria que eu soubesse que estava lá. Tinha certeza de que estava aproveitando minha dor. Como se se alimentasse dela.

Sabia que estava em perigo. Perigo real. Imediato.

Fiquei paralisado. Não conseguia me mexer, nem gritar mais. Não sei quanto tempo fiquei assim.

E então ouvi a voz do meu pai me chamando. Ele tinha ouvido meus gritos e viera correndo.

Quando me alcançou, desabei nos braços dele, soluçando sem controle.

Depois, apaguei.

Os dias que se seguiram foram como aquele espaço entre sonhar e acordar — nebulosos, silenciosos, irreais.

Meu pai falou com a polícia. Muito. Eles também falaram comigo. Continuavam fazendo as mesmas perguntas, repetidamente.

— Você a viu sair andando? — Ela foi embora com alguém?

Só contei a verdade. Contei minha história.

Uma equipe de busca e resgate saiu naquele dia. Levaram todo o equipamento — cães, veículos, pessoas a pé. Deram aos cães o cheiro das roupas de Maura. Pentearam a floresta, uma e outra vez.

A busca durou dias.

Não encontraram nada. Nenhuma pegada. Nenhuma roupa rasgada. Nenhum objeto abandonado. Nenhum vestígio.

Sumida.

Como um truque de mágica. Puf.

Claro que questionaram todo mundo — qualquer um que estivesse por perto, qualquer um que já tivesse interagido com Maura. Mas não havia suspeitos. Nenhuma pista. Nem mesmo uma sombra de suspeita.

Acho que ninguém nunca realmente acreditou em mim. Porque as pessoas não simplesmente desaparecem.

Nunca contei a eles sobre a presença que senti naquele dia. Mesmo então, sabia que soaria absurdo demais. Eu mal conseguia entender sozinho. Ainda não consigo. Nunca senti nada parecido desde então.

Também nunca mais pus os pés naquela mata.

Por um tempo, me fechei. Fiquei quieto. Retraído.

Cerca de um ano depois, nos mudamos. Meu pai arrumou um novo emprego em Chicago, e acho que a cidade grande foi melhor para mim. Me deu outras coisas em que pensar. Algo mais rápido. Mais barulhento. A vida lá não deixava muito espaço para divagações.

O tempo também ajudou.

Não porque o tempo cura alguma coisa — mas porque o tempo força você a seguir em frente, querendo ou não.

Cresci rápido em Chicago. Eu e meu pai nunca mais falamos realmente sobre o que aconteceu. Ele acreditava em mim? Ele dizia que sim... mas não tenho certeza. Ele me amava. Sei disso. E não acho que ele jamais pensou que eu estivesse mentindo. Talvez achasse que me lembrava errado. Talvez acreditasse que bloqueei o que realmente aconteceu. Se tinha dúvidas, nunca as expressou.

Pelo menos, não para mim.

Agora há uma grande distância entre a pessoa que sou e aquele garotinho que eu era em 1984. E uma distância ainda maior entre Maura e eu.

Penso nela mais do que em qualquer outra coisa. Para onde ela foi? Foi levada? E, pior de tudo — como foi para ela?

Meu coração se parte por ela. E pelos pais dela.

Às vezes, gostaria de poder ver um vídeo do que realmente aconteceu. Como se houvesse uma câmera escondida na árvore que captou tudo. Sonho com isso às vezes. No sonho, vejo o que aconteceu — e é pior do que tudo que imaginei. Mas quando acordo, nunca me lembro do que vi. Só do medo. Só do peso dele.

É como se o que aconteceu fosse estranho demais — errado demais — para a luz do dia.

Enfim, essa é a minha história. Tenho certeza de que, para alguns, soa loucura. Mas se você chegou até aqui, obrigado por ler. Foi bom finalmente colocar isso para fora.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O Pesadelo do Meu Filho Está Virando Realidade, e Acho que Acabei de Ouvir a Voz da Minha Mulher no Corredor

Aquela noite foi a primeira vez que eu o encarei. Minha esposa estava no trabalho, e meu filho dormia no quarto dele. Eu acordei por volta das duas da manhã para ir ao banheiro e segui pelo corredor.

— Caralho! As palavras escaparam sem querer quando vi a silhueta de uma criança parada no corredor escuro. Era o Danil, meu filho de seis anos. Ele estava imóvel, balançando levemente.

— Danil, o que você está fazendo aqui? — perguntei. O silêncio foi minha única resposta. Cheguei perto e olhei bem para o rosto dele. Seus olhos estavam arregalados, fixos em um ponto no escuro.

Sonambulismo, percebi. Já tinha acontecido há cerca de um ano, embora eu não tivesse visto com meus próprios olhos naquela época; eu só o tinha encontrado dormindo na mesa da cozinha. Agora, ali estava ele.

Peguei-o suavemente pelos ombros e o guiava em direção à cama. Não se deve acordar alguém de repente quando está naquele estado.

— Debaixo da cama — ele murmurou, ainda em transe.

— Você vai dormir na cama, Danil. Não debaixo — falei baixinho, sabendo que ele não conseguia me ouvir direito.

— Tem alguém debaixo da cama — ele resmungou. Um instante depois, ouvi um farfalhar fraco vindo do meu próprio quarto.

Coincidência. Só uma coincidência, tentei me convencer, tentando abafar o medinho que começava a subir no peito. Deitei o Danil na cama e escutei. O barulho tinha parado.

Voltei sorrateiro para o meu quarto, não vi nada e fiquei atento. Silêncio total. Acendi a luz e chequei debaixo da cama, depois escaneei o resto do quarto. Não achei nada, então atribuí à minha imaginação e voltei a dormir.

Apesar de tudo aquilo, o sono veio rápido. Mas depois de um tempo, um barulho estranho perto de mim me acordou de sobressalto. Na névoa do meio-sono, ouvi a voz do meu filho:

— Pai, olha aqui!

Abri os olhos de repente. O guarda-roupa estava escancarado, e roupas espalhadas por todo o quarto. Esfreguei os olhos, tentando entender a bagunça. O Danil deve ter andado dormindo de novo e destruído tudo, pensei.

— Pai — a voz dele chamou do corredor, seguida de uma risadinha.

Sentei na cama e vi a silhueta do Danil na porta escura. De repente, ele disparou em direção à cozinha, rindo alto.

Será que ele está fazendo isso dormindo?

Um peso de pavor se instalou no meu peito enquanto eu o seguia. Meus dedos encontraram o interruptor, e a cozinha se iluminou. Vazia.

Fiquei ali, coçando a cabeça, confuso. Enquanto minha mente tentava entender onde ele poderia ter ido, uma risada ecoou de cima.

Lá, bem no teto acima de mim, estava o meu filho. Ele sorria para mim, brincalhão.

— Você me achou — disse ele.

Paralisado de terror, o observei sorrir. Alguns segundos depois, a voz dele mudou para um tom de excitação alegre:

— Agora é a sua vez de se esconder. Vou contar até dez e sair para te procurar.

Um brilho de loucura maníaca acendeu nos olhos arregalados dele. Sem fôlego de expectativa, ele sibilou:

— Mas eu vou te achar.

Saí correndo. Fui para o quarto do Danil o mais rápido que minhas pernas aguentaram. Nem sei por que escolhi aquele quarto. Bati a porta com força e só então olhei para a cama. Lá estava o Danil, ronco suave, dormindo profundamente.

Totalmente confuso, sentei na beirada da cama, minha mente a mil. Logo, um grito triunfante e alto ecoou da cozinha, seguido de risadas:

— Pega-pega, já vou!

Depois vieram os passos. Eles se aproximaram do quarto com uma velocidade inacreditável. Um segundo depois, pararam bem na frente da porta. Ouvi uma risadinha infantil brincalhona.

Consumido pelo terror, comecei a me arrastar para trás na cama, o que perturbou o Danil dormindo. No momento em que ele começou a acordar, as risadas no corredor cortaram, seguidas do baque surdo de um corpo caindo no chão.

— Pai, eu tive um pesadelo assustador — meu filho disse, agarrando meu braço com as mãos trêmulas.

— O que... que tipo de pesadelo? — Eu estava tão apavorado quanto ele, mas tentei me manter calmo por causa dele.

— Sonhei que ele estava te perseguindo! — Danil disse, horrorizado.

— Quem é "ele"? — perguntei, completamente perdido.

Aquele Que Se Faz de Humano! — Lágrimas brotaram nos olhos do meu filho. — Eu sonhei que ele brincava de esconde-esconde com você, e você não conseguia achá-lo. Mas aí você o achou no teto da cozinha, e aí foi a vez dele de te procurar. E você ficou com medo e correu pra cá.

— Isso... — Tentei superar meu próprio medo. — Isso foi só um sonho.

Aquele Que Se Faz de Humano queria te machucar! — Danil soluçou. — Lembra que eu te falei que uma vez sonhei que ele brincava com o nosso vizinho?

Era quase impossível impedir minhas mãos de tremerem. Lembrei que, um mês antes, nosso vizinho tinha sido encontrado morto no apartamento dele. O laudo oficial disse que ele tinha escorregado e tido uma "queda infeliz"... infeliz o suficiente para ser a última.

— Não se preocupe — falei para o meu filho, deitando ao lado dele. — Foi só um pesadelo ruim. Quer que eu durma aqui com você hoje?

— Quero — ele enxugou as lágrimas e se agarrou a mim com força.

Eu também estou com tanto medo quanto você, Danil, pensei. Porque eu acabei de viver tudo o que você descreveu...

Na época, eu não entendia direito o que tudo aquilo significava. Mas depois, formei uma hipótese maluca que, infelizmente, acabou sendo verdadeira.

No momento em que eu tinha acordado o Danil sem querer naquela noite, a criatura atrás da porta tinha se esvaído, desmoronado e desaparecido. De manhã, só encontrei as roupas espalhadas pelo meu quarto.

Não acontecia com frequência, mas toda vez era um pesadelo. Por alguma razão desconhecida, apenas os sonhos mais aterrorizantes do meu filho se tornavam parte da nossa realidade. E embora os monstros desaparecessem no momento em que ele acordava, as consequências que deixavam para trás permaneciam. Nós chamávamos essas entidades de Pesadelos.

Os Pesadelos variavam. Alguns eram coisas relativamente inofensivas que só serviam para assustar; outros eram predadores agressivos e perigosos, com força e velocidade imensas.

Aquele Que Se Faz de Humano, o que eu conheci naquela primeira noite, é um dos piores. Você não percebe de imediato que não está falando com seu filho ou sua esposa, mas com um monstro. É assustador, principalmente quando você percebe que a coisa poderia facilmente te despedaçar se quisesse.

Depois da visita de um Pesadelo, muitas vezes tínhamos que comprar móveis novos ou roupas e fazer uma faxina profunda no apartamento.

Tivemos que trocar toda a fiação duas vezes por causa de Aquele Que Vem das Cinzas. Quando ele aparece, todas as lâmpadas do cômodo explodem, e os fios elétricos queimam completamente. Tudo o que ele toca vira carvão e cinzas. Seus olhos flamejantes escaneiam o ambiente com avidez, procurando as coisas mais fáceis para incendiar.

Às vezes, a primeira impressão sobre um Pesadelo pode estar errada. Uma vez, encontrei marcas no papel de parede: impressões de mãos e o contorno de um rosto, como se alguém tivesse se encostado na parede por dentro. Danil disse que era Aquele Que Se Esconde nas Paredes inspecionando o quarto. Pensando que a criatura só nos observava em segurança atrás do gesso, achei que não fosse uma ameaça.

Mudei de ideia quando, uma noite, uma mão saiu da parede e agarrou meu antebraço. Era uma pegada mortal que apertava a cada segundo, até que ouvi um estalo e senti uma dor agonizante. Meus gritos acordaram o Danil, e tudo o que restou do monstro foi um pedaço inchado e rasgado de papel de parede.

As pessoas provavelmente pensam que, em situações assim, o exército ou cientistas aparecem e levam o "sujeito" para experimentos. Mas, na realidade, ninguém ligava. A maioria achava que eram delírios de um louco... mesmo com os pulsos eletromagnéticos massivos, a fiação queimada e as paredes literalmente retorcidas.

Tentamos fazer algo a respeito, mas nada funcionava. Quando perguntei ao Danil de onde ele tirava os nomes daquelas coisas, ele disse que simplesmente sabia como chamá-las no momento em que as via nos sonhos.

Os Pesadelos pioravam a cada vez, e um dia, o impensável aconteceu.

Cheguei tarde do trabalho depois de um turno brutal. Minha esposa não estava em casa, e meu filho estava no quarto dele, encolhido debaixo do cobertor.

— Ei, Danil — falei, colocando a mão no ombro dele. 

— O que foi?

— Ele veio — meu filho respondeu, chorando.

— Quem? — Afastei o cobertor com cuidado. Danil olhou para mim, soluçando.

— Ele machucou a mamãe.

— O quê? — Medo e tristeza me atingiram na hora. — Onde ela está? O que aconteceu?

— Ela vai chegar logo.

— Ufa — senti um alívio. — Bom, quem foi que veio aqui? — perguntei, mais alto.

Shhh! — Danil acenou com as mãos, desesperado. — Eles vão nos ouvir.

— Quem vai nos ouvir? — Não entendi. Eles sempre desaparecem quando ele acorda, então qual é o problema?

— Amor, cheguei — uma voz familiar chamou do corredor. Levantei para ir até ela, mas Danil agarrou minha mão com uma força aterrorizante e sussurrou:

— Não vai lá fora! A gente tem que se esconder!

— Por quê? Você ainda não me disse quem veio ou o que aconteceu com a mamãe.

— Quem veio foi... — Danil engasgou quando passos soaram perto da porta. Pareciam de alguém que estava aprendendo a andar. Alguém se aproximava com pisadas desajeitadas, pesadas, arrastando os pés pelo carpete.

Aquele Que Ressuscita os Mortos — Danil terminou.

Ele gritou quando a porta foi arrombada com violência, e o cadáver da minha esposa apareceu na entrada.

Senti uma mão fria e podre se fechar em volta do meu pescoço, e o mundo ficou preto.

Acordei de repente, ofegando tão forte que meu peito ardia. Meu coração batia descontrolado nas costelas, e minha pele estava úmida de um suor frio e doentio. Por um longo momento, fiquei ali no escuro, agarrado ao edredom, esperando os passos desajeitados ecoarem no corredor ou a risada maníaca soar da cozinha.

Mas só havia silêncio. O som suave e rítmico da respiração vinha do meu lado. Virei a cabeça, os olhos ardendo de lágrimas de alívio puro e sem filtro. Minha esposa estava ali, dormindo profundamente, o rosto tranquilo na luz pálida da lua que filtrava pelas cortinas. Ela não era um cadáver frio; estava quente, viva e segura.

Saí da cama cambaleando, as pernas pesadas como chumbo, e fui até o quarto do Danil. Fiquei na porta, a respiração presa na garganta até vê-lo. Ele estava estirado na cama, ronco suave, um braço pendurado para fora. Não havia monstro no teto. Nenhuma sombra se mexia no canto do quarto.

Afundei no chão do corredor e enterrei o rosto nas mãos, esperando a tremedeira passar. Era só um sonho. Um truque cruel e vívido de uma mente exausta por plantões e pelas ansiedades profundas da paternidade. Fiquei ali por muito tempo, deixando a normalidade da casa silenciosa me envolver.

Finalmente, levantei para voltar para a cama. Mas, ao me virar, meu pé esbarrou em algo no carpete. Olhei para baixo, o coração pulando uma batida.

Bem ali, no meio do corredor, havia um único pedaço pequeno de papel de parede carbonizado. Estiquei a mão para tocá-lo, mas, quando meus dedos roçaram a cinza, parei.

Do quarto do Danil, ouvi-o murmurar uma frase no sono:

— Ele está contando até dez agora, pai.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon