quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Meu Trabalho é Comer Camarão, ou o Que Eu Achava Que Era Camarão

Eu sempre fui um cara de rotina. Acordo às 5:30 da manhã, preparo uma cafeteira de café preto forte o suficiente pra tirar tinta de parede, e saio pro trabalho de merda que paga as contas. Nos últimos seis meses, esse trabalho tem sido na Oceanic Delicacies, um armazém gigantesco nos arredores de Port Haven, uma cidade costeira enevoada no Maine onde o ar sempre cheira a sal e podridão. O trampo? Testador de controle de qualidade de camarão. Isso mesmo, você ouviu direito. Meu trabalho é comer camarão. Ou pelo menos, o que eu achava que era camarão.

Começou tudo de forma bem inocente. Vi o anúncio num site de empregos: “Não precisa de experiência. Salário competitivo. Precisa ter estômago forte e nenhuma alergia a frutos do mar.” Pensei: por que não? Eu tinha sido demitido do meu último emprego numa fábrica de enlatados — alguma coisa sobre automação substituindo mãos humanas — e minha grana estava acabando mais rápido que a maré baixa. A entrevista foi uma piada: uma conversa rápida com uma representante de RH entediada chamada Marlene, que me entregou um formulário e uma caneta. “Assina aqui, e tá dentro”, ela disse, com os olhos vidrados como se tivesse repetido aquela frase mil vezes.

O armazém era imenso, um labirinto de esteiras rolantes, freezers zumbindo e o barulho constante das máquinas. Meu posto ficava numa sala branca e estéril no fundo, isolada do piso principal. Chamavam de “Laboratório de Degustação”, mas parecia mais uma sala de exame clínico — luzes fluorescentes piscando no teto, uma mesa de metal com um banquinho, e um espelho falso na parede que eu jurava que sempre tinha alguém observando do outro lado. Todo dia eu batia o ponto, colocava rede no cabelo e luvas, e esperava as amostras.

O processo era simples: uma fenda na parede abria, e uma bandeja deslizava com dez a quinze camarões, descascados e limpos, às vezes crus, às vezes cozidos com vários temperos. Eu comia um por um, anotando textura, sabor, frescor num tablet digital. Salgado demais? Marcava. Borrachudo? Flagava. Gosto estranho que ficava na boca? Reportava. Depois, a bandeja voltava, e outra aparecia. Oito horas por dia, cinco dias por semana. Era monótono pra caralho, mas o pagamento era 25 dólares por hora, mais benefícios. Em Port Haven, isso era uma fortuna.

No começo, eu adorei. Camarão sempre foi um prazer culpado — camarão de coquetel em festas, camarão ao alho e óleo em noites de encontro, quando eu ainda tinha essas coisas. As amostras eram premium: gorduchos, suculentos, com aquele estalo salgado que só o fresco tem. Eu mastigava devagar, curtindo a explosão de sabor de mar, a doçura sutil por baixo do sal. Minhas anotações eram ótimas: “Firmeza excelente”, “Equilíbrio perfeito de umami”, “Sem gosto de peixe estragado”. Eu até comecei a sonhar com camarão — bandejas infinitas flutuando num mar de molho coquetel.

Mas lá pela terceira semana, as coisas começaram a ficar… estranhas. Começou pela textura. Um lote parecia errado, como se a carne fosse fibrosa demais, quase filamentosa, como se tivessem fios de algo mais duro entrelaçados. Anotei: “Ligeiramente mastigável, possível processamento excessivo.” No dia seguinte, outra bandeja veio com camarões que se mexiam levemente quando eu pegava. Pisquei, achando que era reflexo da luz, mas não — espasmos minúsculos, como se não estivessem bem mortos. “Atividade nervosa residual?”, digitei, com os dedos hesitando. Nos tempos da fábrica de enlatados, eu tinha visto peixe se contorcer depois de morto, mas camarão? Eles deviam estar inertes.

Comentei com a Marlene na reunião semanal. Ela deu risada, a voz metálica no interfone. “Ah, isso é só a nova origem. Estamos testando variedades de mar profundo — mais frescas que fresco. Mantém o sabor trancado.” Eu assenti, mas uma semente de dúvida se plantou. Camarão de mar profundo? Nunca tinha ouvido falar disso sendo viável comercialmente. As águas de Port Haven eram rasas, castigadas por tempestades, não os abismos do oceano.

Com o passar das semanas pros meses, as anomalias foram se acumulando. Alguns camarões tinham um brilho iridescente, como óleo na água, mudando de cor sob a luz — azul, verde, roxo. Outros tinham gosto metálico, um toque de cobre que ficava na língua por horas. Comecei a ter dores de cabeça depois dos turnos, enxaquecas latejantes que embaçavam a visão. Em casa, eu desabava no sofá, olhando pro teto, sentindo como se algo estivesse rastejando debaixo da minha pele.

Uma noite, depois de um lote especialmente esquisito — camarões que estouravam como caviar quando mordidos, soltando um fluido viscoso — sonhei vividamente. Eu estava debaixo d’água, numa vala oceânica vasta e escura. Formas bioluminescentes dançavam ao meu redor, não peixes, mas coisas alongadas com segmentos demais, olhos brilhantes em fileiras. Elas pulsavam com luz, me chamando. Eu estendi a mão, e uma se grudou no meu braço, as partes da boca se abrindo como pétalas. Acordei ofegante, com a palma da mão coçando onde não tinha nada.

No turno seguinte, as bandejas vinham mais rápido. Sem pausas entre elas. Eu mal terminava de registrar um lote e outro já deslizava. Os camarões estavam maiores agora, quase do tamanho de lagostins, com veias que pulsavam levemente sob a carne translúcida. Mordi um, e ele esguichou — quente, não frio como deveria ser. O sabor era mais rico, quase cremoso, com um fundo de algo terroso, como terra molhada misturada com sangue.

Flagrei: “Temperatura incomum — amostra quente na chegada. Perfil de sabor alterado.” Nenhuma resposta no interfone. Normalmente, a Marlene ou alguém dava uma desculpa. Silêncio.

Meu corpo começou a mudar. Notei no espelho uma manhã: minha pele parecia mais pálida, veias mais visíveis, especialmente no pescoço e nos pulsos. Linhas azuladas correndo por baixo da superfície. Eu coçava o tempo todo, arranhando até sangrar. As dores de cabeça viraram algo pior — sussurros, fracos no começo, como estática nos ouvidos. Palavras que eu não conseguia entender, borbulhando de algum lugar profundo.

No trabalho, o espelho falso às vezes embaçava, como se tivesse respiração do outro lado. Eu pegava vislumbres de movimento no reflexo, sombras se mexendo quando eu não olhava direto. Os camarões — meu Deus, os camarões — começaram a parecer diferentes. Não só na textura ou no sabor, mas no formato. Alguns tinham cristas extras na cauda, protuberâncias minúsculas como membros nascentes. Outros tinham o que pareciam manchas oculares, pontos escuros que me seguiam enquanto eu os levava à boca.

Tentei pedir demissão uma vez. Fui até o escritório da Marlene depois do turno, com o tablet nas mãos trêmulas. “Isso não tá certo”, eu disse. “As amostras… não são camarões normais.” Ela sorriu, com aquela mesma expressão vidrada. “Bobagem. Você é o nosso melhor testador. Melhores notas toda semana. Toma um bônus.” Ela deslizou um envelope na mesa — 500 dólares em dinheiro vivo. Eu peguei. Contas não se pagam sozinhas.

Naquela noite, a coceira piorou. No chuveiro, arranhei o antebraço até ficar em carne viva, e algo se mexeu debaixo da pele. Um ondulado, como um verme cavando. Eu fiquei olhando, com a água caindo em cima de mim, convencido que era alucinação. Mas não — aconteceu de novo. Um pequeno inchaço subindo pelo braço, depois sumindo.

Os sonhos ficaram mais frequentes. Sempre a vala, as criaturas brilhantes. Mas agora, elas falavam. Não com vozes, mas impressões — fome, paciência antiga, promessa de pertencimento. Eu acordava com crosta de sal nos lábios, mesmo morando a quilômetros da praia.

As bandejas nunca paravam. Eu comia centenas por dia, minha barriga inchando de dor, mas nunca me sentia satisfeito. Os camarões estavam vivos agora, sem dúvida. Se enroscavam quando tocados, antenas — antenas de verdade — se mexendo. Alguns tentavam fugir da bandeja, rastejando pra borda. Eu os prendia com o garfo, forçando goela abaixo. O gosto era uma agonia deliciosa: podridão doce, vitalidade elétrica correndo por mim.

Minhas anotações viraram bagunça: “Amostra apresenta motilidade. Recomendo parar.” “Sabor induz euforia — possível contaminante.” “Olhos presentes. Múltiplos.” Ainda assim, silêncio no interfone.

Comecei a levar amostras pra casa escondido. Embrulhadas em guardanapo, escondidas na marmita. Sob a luz da cozinha, ampliadas com uma lupa barata que comprei online, a verdade me encarava. Não eram camarões. Corpos segmentados, pernas articuladas dobradas, mandíbulas escondidas embaixo. Formas larvais, talvez, de algo bem maior. Horrores de mar profundo, colhidos de valas que nenhum submarino deveria alcançar.

Pesquisei na internet de madrugada, fóruns sobre vida marinha críptica, documentos vazados de expedições oceanográficas. Sussurros sobre “anomalias bentônicas” pegas em redes de arrasto na plataforma continental, coisas que imitavam espécies comerciais pra se infiltrar nas cadeias de suprimento. Parasitas que reescreviam os hospedeiros por dentro.

A coceira se espalhou por tudo. Costas, couro cabeludo, entre os dedos dos pés. No espelho, meus olhos tinham mudado — pupilas ligeiramente alongadas, íris salpicadas com o mesmo brilho iridescente.

Num turno, a fenda abriu, mas nenhuma bandeja veio. Em vez disso, uma voz — finalmente — no interfone. Não era da Marlene. Mais grave, ressonante, como ondas de pressão na água. “Você se adaptou bem. Fase de integração concluída.”

As luzes diminuíram. O espelho falso clareou, revelando não uma sala de observação, mas escuridão. Um abismo, iluminado por bioluminescência fraca. Formas se moviam além — massivas, segmentadas, familiares.

Olhei pras minhas mãos. A pele se abriu sem dor, descascando como uma casca. Por baixo, algo pálido e articulado se flexionou. Pernas? Antenas?

A bandeja chegou então, vazia. Um convite.

Eu entendi. Meu trabalho não era testar camarão. Era virar o recipiente. Levar eles pro interior, espalhar a ninhada.

Os sussurros ficaram claros: Nós somos a maré que retorna. Você é a ponte.

Eu dei um passo em direção à fenda. Ela se alargou, acomodando. O ar ficou frio, salgado.

Quando cruzei o limiar, pro escuro úmido além da parede, senti o que restava do velho eu se desfazendo. A fome permaneceu — a fome eterna, paciente.

Lá no laboratório, um novo banquinho esperava. Um novo tablet. Logo, outro candidato ia assinar o formulário.

Eu estou deitado nessa bandeja esperando por eles.

Os Precursores

Estou numa cidade fora do espaço e do tempo. É a única explicação que consigo imaginar. Como de outra forma seria possível sair dirigindo, atravessar a floresta densa dos Apalaches, e acabar voltando direto pra placa de boas-vindas? Às vezes eu me pergunto se esse lugar ainda existe de verdade. Me pergunto o que diabos aconteceu com Crenshaw, na Pensilvânia.

Tudo começou, e vai terminar, com aquelas figuras estranhas. Relatos e avistamentos de gente encapuzada — bom, o que a gente achava que era gente — parada nas esquinas à noite. Elas pareciam interessadas nos pontos históricos: o tribunal, a velha rua principal, alguns dos prédios antigos da cidade. Pelo menos no começo.

Não tem nada de ilegal em andar pelas ruas principais de capa à noite. Mesmo assim, a polícia local quis trocar uma ideia. Só que as figuras encapuzadas sempre davam um jeito de escapar. Elas “sumiam na escuridão com uma velocidade sobrenatural”, segundo os relatórios.

O que começou como uma curiosidade meio esquisita virou medo generalizado rapidinho quando elas começaram a rondar os bairros. Moradores apavorados ligavam toda noite pra denunciar aquelas figuras encapuzadas estranhas andando pelas ruas. Espiando pelas janelas. E, mesmo assim, sumiam antes que a polícia conseguisse prender alguma.

Vou admitir que eu também fiquei com um puta medo. Eu tinha visto elas no escuro, e quando começaram a mexer nas maçanetas das portas, eu me rendi. Fui lá e comprei uma arma. Nunca tinha tido uma na vida, mas o barulho da maçaneta da minha porta chacoalhando no meio da madrugada foi o suficiente pra me mandar correndo pra loja de armas mais próxima. Acabei levando pra casa um revólver Smith & Wesson bem padrão, e ele ficou morando bem embaixo da minha mesa de cabeceira. Pelo bem que me fez, podia muito bem ter ficado lá pra sempre.

As coisas pioraram rápido depois disso. Os avistamentos ficaram mais frequentes, até de dia. Isso deixou bem claro a postura e as proporções sobrenaturais das figuras. Nunca vou esquecer o primeiro vislumbre que peguei em plena luz do dia. O torso alongado. A corcunda exagerada. E, mesmo assim, nenhuma foi capturada.

O pesadelo de verdade começou com o canto na praça. As figuras se reuniram num parque no centro da cidade, bem ao lado da velha rua principal. Ficaram em círculo no meio da noite, cantando numa língua de outro mundo até o amanhecer.

Você deve estar se perguntando por que ninguém fez nada pra parar elas, ou pelo menos identificar quem eram. E eu te digo: tentaram, sim. Quando ficou claro que as figuras estavam hipnotizadas no canto delas, chamaram as autoridades, e alguns corajosos se aproximaram.

Eu não estava lá — só os mais curiosos estavam —, mas a história se espalhou rápido. Desmascararam as figuras, jogaram os capuzes pra trás, e o que tinha embaixo era difícil de entender.

Eram criaturas brancas como osso, deformadas. Algumas tinham cabeças alongadas. Outras eram bicudas, parecidas com pássaros. Outras ainda tinham traços quase incompreensíveis, como se só de olhar pro rosto delas já fosse tentar resolver um nó górdio.

Os seres não reagiram à exposição. Pelo que me contaram, não se mexeram nem um centímetro. Não é que não se mexiam — é que eram imóveis. Estátuas indomáveis que cantavam. Que provocavam fenômenos que nem eu, nem nenhum outro morador de Crenshaw, conseguia entender.

Alguns dos que estavam lá reagiram com medo e fugiram pras casas. Esses foram os espertos. Outros reagiram com agressividade, descarregando armas de fogo nas criaturas, mas de nada adiantou. Elas não se abalaram. Não pararam o canto.

O mais perturbador foram os que reagiram com loucura. Os que gritavam, riam e se juntavam ao canto incompreensível. Talvez, no fundo, fossem os mais sábios. Eles foram deixados em paz. Porque quando o canto parou, Crenshaw passou a ser deles.

Não sei quanto tempo se passou. Não tem mais dia em Crenshaw. Só um crepúsculo sépia eterno, cortado por períodos esporádicos de escuridão absoluta, impossíveis de medir. As criaturas e a prole insana delas rondam as ruas como se estivessem caçando. Quando pegam um morador que ainda tem um pingo de sanidade… Bom, eu já vi vários desfechos. Elas não são consistentes. Se eu tivesse que chutar um motivo, diria que é a loucura. Elas desejam loucura. Querem cultivar ela. Quem é pego passa por todo tipo de coisa feita pra quebrar a mente. Mas nunca é igual.

Já vi homens gritando na rua enquanto as criaturas avançam sobre eles. Às vezes é tortura. Às vezes atos depravados que eu nem vou descrever, só pra provocar a insanidade. Às vezes é uma cacofonia de guinchos de outro mundo que ecoam pela cidade inteira, reverberando em cada casa. Em cada mente. Às vezes é só um olhar silencioso. Esse parece ser o método mais eficaz pra provocar loucura. Todo mundo que encara o olhar delas acaba cedendo.

Mas o mais aterrorizante são os desmembramentos aleatórios e repentinos. Isso me faz duvidar de tudo que eu achava que entendia sobre os seres. Se o objetivo é instilar loucura, então por que eles arrancam membros de moradores aleatórios com tanta violência? Não é uma prática constante. Nada é constante com elas. Talvez seja exatamente esse o ponto. Pra instilar ainda mais loucura na gente que se esconde.

Somos poucos agora. Todos nós tentamos fugir em algum momento, mas sempre acabamos voltando pra Crenshaw. Lutar não adianta nada. Temos pouca munição aqui. Só as armas que os americanos do interior costumam ter, que na maioria dos casos seriam suficientes pra repelir um pequeno exército, mas não têm efeito nenhum nas criaturas — os Precursores, como passamos a chamar eles. Porque junto com a chegada deles veio outro fenômeno. Um que acontece na mente de cada último morador de Crenshaw. Visões noturnas do Apocalipse. A Terra se rachando e engolindo a humanidade numa bocarra de fogo e fumaça. Meteoros caindo do céu. Oceanos fervendo. Calamidade e devastação. Morte e loucura levadas a todo homem, mulher e criança. Sempre os mesmos sonhos, toda vez que alguém dorme.

Já pensei em acabar com a minha própria vida. Muitos de nós pensaram. Mas… eu não consigo. Nenhum de nós consegue. Quando chegamos perto, uma curiosidade profunda, repugnante e ao mesmo tempo irresistível toma conta. Um desejo de saber mais sobre os Precursores. De olhar pra eles. De entender eles. De ver o que vem depois. Todo dia isso fica mais forte. Então eu me escondo, e espero. Espero pra ver o que os Precursores vão trazer.

Um Anjo Morreu no Beco

Perdi a casa quando minha mãe morreu e eu não consegui pagar o aluguel. Fiquei sem teto por cinco anos, pobre por vinte. Tirei a pior carta da vida: pobre demais pra faculdade, sem bolsa, sem talento especial. Ninguém queria contratar um fedorento inútil como eu, então eu vagava por aí, pedindo esmola. Nunca ficava muito tempo num lugar só; andava ao lado de rodovias, dormia no mato, pegava carona quando dava sorte. Quando encontrava uma cidadezinha pequena, ficava uma semana mais ou menos e depois seguia em frente. Mas dessa vez eu conheci alguém.

Eu tava sentado do lado de fora de um mercadinho, tentando dormir em cima de um papelão no concreto duro, quando uma mulher de meia-idade colocou cinquenta dólares no meu copo. Ela não parecia nada especial: cabelo castanho crespo, blusa e calça social. Mas graças a ela eu consegui comprar comida no 7-Eleven por uma semana inteira, e quando os cinquenta acabaram ela voltou com mais cinquenta. Virou rotina: toda semana ela aparecia e me dava cinquenta dólares, e no fim do mês me dava parte das compras dela.

Depois de uns dois meses disso tudo, descobri o nome dela. Era Marianne, trabalhava na igreja local como professora de escola dominical e contadora. Ela nunca tentou me converter nem nada, nem me convidou pra igreja dela, só aparecia e me dava as coisas. Eu tava acostumado com o povinho que dá um dólar de forma cerimoniosa pra se exibir pros filhos ou pros colegas de igreja, então foi uma surpresa bem-vinda ter alguém sendo genuinamente gentil pela primeira vez.

Um dia ela propôs que eu fosse morar com ela. Tinha um quarto sobrando e não queria aluguel. Eu esperei o pior: seita secreta, aliciamento, serial killer. Mas confiei nela. Acho que foi a bondade que ela mostrava que me fez ir contra meu instinto, mas minha consciência provou que tava errada. Na primeira noite que passei lá, ela me deu um pratão de espaguete e acesso livre ao banheiro. Foi a primeira vez em anos que eu me senti aquecido e de barriga cheia.

A casa dela era boa. Dois andares, bairro suburbano tranquilo. Ela me deu meu próprio quarto, já com cama e umas roupas no armário. Nunca me pressionou pra arrumar emprego nem pra ajudar em casa, só me deixou morar lá.

A casa era decorada direto dos anos 80. Vários enfeites de crochê, um monte de cruzes e frases da Bíblia nas paredes, e uma TV gorda com videocassete e decodificador de cabo. O que me incomodava era que todas as fotos pela casa eram de uma velhinha e da família dela, todos loiros. Perguntei pra Marianne e ela disse que cuidava daquela senhora até ela morrer, e que a velhinha deixou a casa e todo o dinheiro pra ela no testamento. Perguntei se a família tinha ficado feliz com isso e ela disse que não, mas que ela devolveu três quartos do dinheiro pra família e isso deixou eles felizes. O dinheiro era uns seis milhões de dólares, nada pra se torcer o nariz. A velhinha era fera em apostas na bolsa.

Morando com a Marianne por dois anos, uma coisa que nunca me desceu direito foi a generosidade extrema dela. Num Dia de Ação de Graças ela convidou um monte de mendigos desconhecidos da cidade pra jantar na casa dela. Um deles achou o cofre e roubou quinhentos dólares, mas ela simplesmente deixou ele levar. Doou o carro dela pra família do lado cuja caranga tinha sido destruída porque o filho adolescente bebeu e dirigiu. E ganhou um carro novo da igreja. Dava 20% do salário que recebia da igreja de volta pra mesma igreja como dízimo. Tiveram que dar um aumento pra ela só pra ela conseguir ter um salário básico. Ela era louca, mas todo mundo amava ela por isso. A cidade inteira chamava ela de anjo do céu. Se eu não conhecesse melhor, ia achar que aquela cidadezinha secretamente a adorava como líder de culto. Mas em algum momento eu aprendi a enxergar ela do ponto de vista deles. É difícil negar o jeito calmo e encantador dela.

Mas ela nunca dormia. Nunca ouvi ela usar o banheiro e nunca vi ela se servir de comida. Fora ir pras reuniões da igreja e outras atividades na cidade, ela passava os dias assistindo TV, até vendo programas antigos em preto e branco de madrugada. Acho que nunca vi ela lendo a Bíblia fora da igreja. Pra qualquer outra pessoa isso seria normal, mas pra ela parecia estranho. Eu sempre atribuía a ela ser uma andarilha silenciosa, uma mijadora silenciosa, alguém que fazia jejum intermitente, que comia quando eu não tava comendo, que tinha decorado a Bíblia inteira. Afinal, ela me abrigava, era generosa demais pra ter algo sinistro por trás.

Numa Black Friday eu insisti pra ela comprar uma TV nova. Ela ficava vendo TV cinza e cheia de chuvisco há anos, então eu quis fazer algo legal pra ela. Arrumei um emprego num fast-food da cidade e juntei grana suficiente pra comprar algo pra ela. Ela precisava receber um pouco de generosidade de vez em quando. Fomos pra cidade grande à noite e entramos numa loja de departamentos que tinha a TV certa dentro do meu orçamento. Não era grande coisa, mas era boa o suficiente pros dois. Quando saímos, fomos abordados por dois caras, um deles com arma. Gritaram que queriam a TV e a Marianne, anjo que era, entregou a TV com um sorriso.

Não sei se foi o jeito que ela entregou ou se o cara tava chapado de crack, mas ele atirou na cabeça da Marianne. Sabendo que tinham ferrado tudo, correram. Eu quis correr atrás, mas a Marianne me segurou, agarrando minha perna.

“Perdoe eles.” Ela disse com voz fraca. Nunca tinha visto ela chorar, e doeu ver aquilo. Mas algo rapidamente secou as lágrimas do meu rosto. O sangue dela era cor de cobre. Mergulhei os dedos nele e ergui contra a luz: estava brilhando.

“Desculpa por ter mentido pra você.” Ela disse. Eu rastejei até ela e a abracei. Minha confusão secou meu rosto.

“Do que você tá falando? Você não fez nada.” Eu disse, mas ela falou outra coisa que transformou minha confusão em irritação.

“Afaste-se.” Ela disse. Comecei a gritar: “Do que você tá falando, Mary, o que você quer dizer?!”

Então o rosto dela começou a derreter. A pele escorreu até um cobre grosso, expondo os músculos do rosto. Eu pulei pra trás. Os músculos derreteram em uma gosma vermelha enquanto revelavam o crânio. Milhares de olhos minúsculos estavam incrustados nos ossos, só um centímetro menores que os olhos castanhos dela. Todos olhando pra mim, olhos de todas as cores me encarando. Eu vomitei no chão, olhei pros braços dela, manchando a blusa rosa cheia de babados, os mesmos olhos cravados nos braços, mãos e dedos me fitando. Rastejei até a parede atrás de mim e gritei.

“Não temas.” Ela disse com uma voz rouca e profunda enquanto rachaduras começaram a se formar e se espalhar entre os milhares de olhos. Uma luz que perfurava todo o esqueleto explodiu em uma claridade intensa. Meus olhos queimaram como se estivessem enfiando ferros quentes nas órbitas. E depois de alguns segundos, ela sumiu. A única coisa que eu conseguia ver na minha visão embaçada era o que sobrou dela: as roupas carbonizadas. Pedacinhos da blusa voaram com o vento, mas eu nem me mexi pra pegar.

A polícia não me interrogou. O beco tinha câmera e o que eles viram foi o mesmo que eu vi. Depois de ficar umas três horas na sala de entrevista, fui questionado por dois caras de terno. Eu não quis me meter em merda de governo, então eles me deixaram em paz, me deram carona no carro da polícia até a casa dela. Eu não tinha carteira de motorista, então tive que chamar o guincho pra trazer o carro dela pra casa. Tive que abrir o cofre pra pegar a grana, foi horrível. A carteira dela tava queimada mas sobreviveu, a polícia me entregou. Só encontrei uns dólares generosos queimados e uma foto queimada que parecia ser ela com a velhinha. Ela não tinha documento nenhum, nem carteira de identidade, nem número de seguro social. Três dias depois um advogado bateu na porta. Disse que ela tinha alterado o testamento um ano antes e que a casa e dois milhões de dólares agora eram meus. Perguntei como ela conseguiu fazer isso sem nenhuma prova de que existia e o advogado disse que era confidencial, então imagino que foi um pouco de boa vontade e generosidade.

Usei parte do dinheiro pro funeral de caixão fechado. A cidade inteira apareceu. Nunca vi tanta gente chorar por um caixão vazio. A polícia achou um dos caras que mataram ela; disseram que o outro morreu de overdose. Acho que uma parte da Marianne, ou seja lá o que ela fosse, continuou vivendo dentro de mim, porque eu não pressionei nenhuma acusação. Ele agora é meu colega de casa. Era só um moleque que seguia o irmão mais velho, então não culpei ele pela Marianne. Ele me ajudou e me guiou pela casa até eu conseguir óculos novos pra cegueira. O dinheiro me ajudou a ficar estável até eu tirar o diploma do ensino médio e até eu virar gerente distrital do fast-food onde trabalhava. Mantive a casa do mesmo jeito, mantive a TV, uma parte de mim quis seguir o exemplo dela e respeitar a velhinha que a abrigou. Eu acredito que ela era um anjo, muita gente acredita, espero que a Marianne olhe pra mim de cima e tenha orgulho do que ajudou a melhorar. Seja gentil. Nem todo mundo pode ser anjo, mas, porra, o mundo precisa de mais deles.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon