sábado, 2 de agosto de 2025

O Cachorro Morto que Atropelei com Meu Carro Não Me Deixa em Paz...

Era uma noite seca e fresca quando saí do trabalho, há uns quatro meses. Parei no posto de gasolina para abastecer quando um raio atingiu o chão a um quarteirão dali, seguido por uma chuva torrencial.

Com medo de que um segundo raio pudesse acertar o posto, soltei a bomba de combustível e pulei para dentro do carro, acelerando fundo. Eu sei. Que idiotice.

O posto ficava a poucos quilômetros do trabalho, mais ou menos a mesma distância do posto até o meu bairro. Eu estava voando baixo enquanto trovões ecoavam no céu. Os canais de notícias tinham prometido um tempo tranquilo, o que era estranho.

Cheguei ao meu bairro e comecei a reduzir a velocidade. A chuva batia contra o para-brisa como eu nunca tinha visto antes. Mal conseguia enxergar à frente, mesmo com os limpadores no máximo. Foi quando senti algo bater no meu carro.

Não. Eu bati em algo com meu carro.

Pisei no freio com força, saí rapidamente e fui verificar. Um husky, partido ao meio, jazia no chão.

Na hora, confesso que fui um babaca e simplesmente deixei pra lá. Pensei comigo mesmo: “Não é uma pessoa, não é meu problema.”

“Cachorro idiota,” murmurei baixinho.

Um mês atrás, o carma me acertou em cheio.

Noites sem dormir por causa de batidas aleatórias pela casa. Pareciam distantes, como se alguém estivesse batendo nas janelas.

Mas então as batidas foram ficando mais próximas, como se viessem da sala de estar e do corredor. Até que, numa noite, apaguei as luzes e me deitei. Foi quando ouvi batidas vindo da porta do meu quarto.

Peguei o celular rapidinho e usei a lanterna para olhar ao redor. Nada. Chamei a polícia na manhã seguinte, mas eles não encontraram sinais de arrombamento.

Perguntaram se eu tinha algum animal de estimação em casa. Talvez um cachorro grande. Fiquei confuso e disse que não.

O policial explicou que encontraram arranhões de animal do lado de fora da minha casa. Como se algo estivesse tentando entrar.

Talvez apenas um guaxinim mexendo nas coisas à noite, sugeriram. Também encontraram um buraco na cerca de madeira que separa minha casa da do vizinho.

Mas quando foram perguntar ao vizinho sobre animais de estimação, não tiveram resposta. Expliquei que ninguém mora naquela casa desde que o último dono se enforcou na sala. A casa é invendável.

Os policiais foram embora, e passei o resto do meu dia de folga assistindo filmes e comendo pizza. Ouvi crianças brincando lá fora, rindo, até que, de repente, começaram a gritar de medo.

Corri para ver o que estava acontecendo, e elas apontaram para a janela da casa do vizinho. “Sr. Collar!”

Sr. Collar é o nome que as crianças deram ao que dizem ser o fantasma do meu antigo vizinho. Elas juram que o veem, não só pendurado no teto, mas balançando de cômodo em cômodo.

“Vocês não têm lição de casa pra fazer ou algo assim?”

“É sábado, David.”

“Then vão assistir desenho animado se tão com medo de brincar lá fora.”

“Vai se foder, cara!”

Tem que amar essas crianças.

Enquanto elas saíam de bicicleta, olhei para a casa do vizinho pra ver se conseguia enxergar o Sr. Collar balançando por aí.

Não contei isso aos policiais, mas o Sr. Collar era o dono do cachorro que atropelei há quatro meses. Ele tirou a própria vida uma semana depois.

Ele tinha um gato. Coitado, provavelmente morreu de fome até agora. As crianças juram que o veem espiando pelos cantos da casa.

Elas são cheias de lorota, pra ser honesto. Mas, caramba, as crianças deviam estar certas o tempo todo, porque naquela noite eu os vi.

Todos eles.

Os desgraçados devem ter planejado uma maldita reunião de família. E eu era o convidado de honra.

Tudo começou quando eu estava me preparando pra dormir, e de repente ouvi batidas altas vindo debaixo da minha cama. Me agachei rápido e espiei de uma distância segura. Era aquele maldito cachorro.

Deve ter cavado um túnel do lado de fora até o meu quarto. Agora, tinha quebrado o assoalho de madeira.

Saí correndo e bati a porta. Ligando para o 911, corri pelo corredor, passando pela cozinha, quando, do nada, o gato zumbificado do vizinho pulou do balcão no meu rosto.

Ele tentou arrancar meus olhos enquanto eu derrubava o celular. Sentia suas garras cravando no meu braço. Um par de presas se prendeu na minha perna, me derrubando no chão.

Joguei o gato pro lado e fiquei cara a cara com o cachorro. Pelo menos, achei que era um cachorro.

A coisa horrível ainda tinha o torso e a cabeça de um cachorro. Mas a parte traseira do corpo estava frouxamente conectada à frente com o que presumo serem ossos humanos que ele deve ter desenterrado de algum cemitério próximo.

Suas patas dianteiras foram substituídas por braços humanos ensanguentados que agarraram e seguraram minhas pernas. E seus olhos. Não ouso imaginar como diabos ele conseguiu substituir os olhos por olhos humanos.

O Cachorro Morto me arrastou de volta para a casa do vizinho, enquanto o Gato Assustador que me atacou seguia atrás.

Lá dentro, ouvi um choro alto, seguido por uma voz familiar. Não consegui distinguir as palavras, exceto uma.

“David!”

O Sr. Collar estava pendurado no teto à minha frente. A coleira do Cachorro Morto enrolada no pescoço dele, enquanto a tira pendia pelo telhado torto.

Não precisei entender o que ele dizia pra saber o que estava acontecendo.

Eu matei o cachorro dele. Agora, a família inteira quer vingança.

Eu vou morrer, a menos que faça alguma coisa.

Chutei o Cachorro Morto pra longe e pulei de pé. O Sr. Collar balançou na minha direção e envolveu os braços na minha cintura. O Gato Assustador idiota começou a morder meus tornozelos.

O Cachorro Morto abocanhou minha mão esquerda e devorou três dos meus dedos, deixando só o indicador e o polegar.

Eu era um homem morto. E deveria ter morrido, se não fosse por dois policiais que invadiram pela porta da frente e atiraram no cachorro, no gato e no meu vizinho. Vi os rostos assustados deles enquanto me puxavam pra fora da casa.

Os policiais me pediram pra não contar a ninguém o que aconteceu, mas tanto faz. Ninguém vai acreditar em nada do que qualquer um de nós disser mesmo.

Um Corvo Falante Me Ensinou a Voar

Eu costumava olhar através das barras de ferro enferrujadas da minha janela e sonhar em ser um pássaro.

A corrente que me prendia à cama era longa o suficiente para alcançar o parapeito da janela. Assim, toda noite, depois que meu pai visitava meu quarto, eu ficava acordada, esperando os primeiros raios de luz rastejarem pelo horizonte. Então, caminhava até a janela para ouvir as primeiras notas do canto dos pássaros pela manhã.

As melodias deles eram tão belas que eu sabia que só podiam estar cantando sobre lugares distantes e maravilhosos, sobre voar com o vento por céus azuis sem fim, olhando para as copas das árvores que pontilhavam a terra lá embaixo.

Então, numa manhã, enquanto eu estava deitada na cama, algo impossível aconteceu. Eu tinha adormecido na noite anterior e teria perdido o canto matinal dos pássaros, não fosse por um leve batida na minha janela. Esfreguei os olhos para afastar o sono e me sentei, vendo um corvo pousado no parapeito, batendo no vidro com o bico.

Fui até a janela sorrateiramente e sorri para o pássaro.

“Olá, Senhor Corvo,” disse eu.

“Olá, menininha,” respondeu o corvo.

Fiquei ali, atônita por um momento, sem saber o que dizer. Finalmente, após o que pareceu uma eternidade, consegui falar.

“Você sabe falar?” perguntei.

“Todos os pássaros sabem falar,” ele respondeu. “É só que nem todos os humanos sabem ouvir.”

Empurrei a janela, abrindo uma fresta até ela encostar nas barras. O pássaro inclinou a cabeça, curioso.

“Por que você está numa gaiola?” perguntou.

“Acho que é o meu destino,” respondi. “Sempre foi assim.”

“Você parece bem magrinha,” disse o corvo. “Quer algo para comer?”

Meu estômago deu um ronco fraco.

“Sim,” respondi. “Seria maravilhoso.”

Sem dizer mais nada, o corvo alçou voo. Minutos depois, voltou com um pequeno galho de figos. Ele me observou enquanto eu devorava as frutas com avidez. Quando terminei, ele me encarou por um momento antes de falar novamente.

“Eu não sabia que colocavam pessoas em gaiolas,” disse ele. “Será que te confundiram com um pássaro?”

“Acho que não, Senhor Corvo,” respondi.

Passamos o resto daquele dia conversando. O corvo me contou como era voar, dizendo que não havia sensação melhor no mundo. Falou sobre terras distantes que visitara quando era um pássaro jovem e ainda conseguia migrar para o norte com a mudança das estações. Quando a noite chegou, ele disse que precisava ir. Na manhã seguinte, porém, ele voltou com mais dois galhos de figos.

Agradeci pela generosidade, e passamos outro dia conversando. Naquele dia, ele até cantou uma canção para mim. A voz dele não era feita para cantar, mas achei a música linda mesmo assim.

Passamos todo o outono assim, e as visitas do corvo se tornaram o único raio de luz na minha vida. Ele me trouxe não só figos, mas também cerejas e nozes — qualquer coisa pequena o suficiente para ele carregar.

Logo, porém, o inverno chegou, trazendo geadas que destruíram os figos e cerejas que o corvo costumava me trazer. Seus presentes foram ficando cada vez mais raros, e eu percebia, pela voz cansada, que ele voava cada vez mais longe para encontrá-los.

Numa manhã, quando a primeira neve do inverno caiu, o corvo me fez uma pergunta.

“O que você faria para sair daqui?” perguntou, inclinando a cabeça para o lado.

Pensei por um momento, sem saber ao certo como responder. Por fim, disse a verdade.

“Eu faria qualquer coisa para sair daqui,” respondi. “Qualquer coisa mesmo.”

O corvo assentiu solenemente e disse: “A geada não é a única coisa que o inverno traz.”

Ele bateu as asas uma vez e pulou do parapeito, e não o vi por três dias. Comecei a mergulhar numa profunda tristeza. Todas as manhãs, eu ainda ouvia o canto dos pássaros, mas ele soava melancólico e vazio sem meu amigo ali para compartilhar comigo.

Na manhã após o terceiro dia, meu amigo corvo voltou. Era um dia tão bonito; o sol havia saído de trás das nuvens para derreter a neve — um dos últimos dias verdes antes que o inverno chegasse de vez. Quando uma sombra passou pelo vale onde vivíamos, a princípio pensei que era uma nuvem de tempestade, mas então ouvi o som. Era alto o suficiente para rachar o céu, mas não era trovão — eram pássaros.

Milhares e milhares deles desceram sobre nossa casa. Uma tempestade giratória de asas batendo e grasnidos estridentes, eles colidiam contra as paredes e janelas, bicando com uma ferocidade selvagem. A casa tremia sob o ataque, e os chamados eram tão altos que nem ouvi as janelas se quebrando.

Mas não eram tão altos a ponto de abafar o grito do meu pai. Tudo terminou em questão de minutos, e a chave das minhas algemas deslizou por baixo da porta. Corri até ela e a peguei com as mãos trêmulas, inserindo-a na algema de metal ao redor do meu tornozelo e girando.

A algema se soltou com um clique pesado, e, pela primeira vez, eu estava livre.

A chave da porta também deslizou por baixo da fresta, e abri a porta para o resto da casa. O lugar estava praticamente destruído. Havia madeira estilhaçada e vidro quebrado por toda parte, e, no centro da sala de estar, estava o que restava do meu pai — um monte de penas manchadas de sangue.

Os pássaros haviam voado embora, mas o Senhor Corvo estava pousado no topo da lareira da sala, me observando com um olhar curioso.

“Agora você pode voar livre, menininha,” disse ele. “Chega de gaiolas para você.”

“Obrigada, Senhor Corvo,” respondi. “Você vem comigo?”

O Senhor Corvo balançou a cabeça.

“Sou um pássaro velho,” disse ele. “Minha jornada está chegando ao fim. Mas a sua está apenas começando.”

O Senhor Corvo bateu as asas e voou, e nunca mais o vi. Ao sair pela porta da frente, meus pés descalços tocaram a grama pela primeira vez, e senti o perfume das flores na brisa que passava por mim.

Naquele momento, embora meus pés estivessem firmes no chão, meu coração voava por um céu azul sem fim, bem acima do mundo que eu havia deixado para trás.

Ainda acordo todas as manhãs para ouvir os pássaros cantarem, e quando as primeiras notas quebram o silêncio do amanhecer, penso no Senhor Corvo e sorrio.

Intimidada

Cresci em uma cidadezinha tranquila chamada Dureyham. Todo mundo se conhecia, e havia uma bela floresta por perto, onde eu morava, numa cabana de madeira. Vivia com meu pai; minha mãe faleceu durante o parto. Sempre carreguei uma culpa enorme por saber que o início da minha vida marcou o fim da dela. Por causa disso, meu pai e eu tínhamos uma relação muito próxima.

Desde que me entendo por gente, nunca me misturei com as outras crianças da cidade, nem tinha vontade de fazer isso. Elas me evitavam, me excluíam. Hoje entendo que isso provavelmente era por causa da minha situação familiar. Naquela época, era estranho uma criança crescer com apenas um dos pais, ainda mais com um pai solteiro. Talvez por isso meu pai e eu morássemos na floresta, um pouco afastados da vila, isolados daquela pequena comunidade. Lembro de uma vez em que um menino da minha idade se aproximou e disse, com desdém: “Minha mãe mandou eu ficar longe de você. Ela diz que sua família não é normal.”

Aos seis anos, fiquei confuso com aquelas palavras, sem entender o que ele queria dizer. Apenas dei de ombros e continuei brincando sozinho, jogando pedrinhas no parquinho.

Quando eu tinha uns sete anos, uma colega de classe, Sarah Potts, desapareceu. Tudo o que me lembro dela é que seu cabelo loiro, quase branco, estava sempre preso em longas tranças, enfeitadas com fitas de cetim coloridas, e que ela tinha olhos azuis brilhantes. Às vezes, na sala de aula, ela me olhava de sua carteira, cochichava com as amigas e dava risadinhas, antes de voltar a atenção para o lápis e o papel. Eu já estava acostumado a ser alvo de olhares de desaprovação. O desaparecimento dela foi algo muito estranho para nossa cidadezinha pacata. Os vizinhos conversavam diariamente, as crianças brincavam na rua sob os olhares atentos dos adultos, e os pais nunca se preocupavam com a segurança dos filhos. Isso mudou depois que Sarah sumiu. Após dias de buscas frenéticas, a cidade chegou à triste conclusão de que não havia mais esperança de encontrá-la.

A comunicação entre os moradores desmoronou. As crianças foram proibidas de brincar na rua, e nenhuma era vista sem um adulto por perto. Dureyham virou uma cidade fantasma. Eu, por outro lado, descia as ruas escuras a caminho de casa, saltitando, feliz como qualquer criança ficaria ao perceber que agora tinha a cidade inteira para brincar, sem o tormento de sempre das outras crianças.

Ao abrir a porta de madeira rangente, fui até a cozinha, onde meu pai estava servindo o jantar. Minha boca encheu d’água de fome e expectativa. Eu não tinha comido nada o dia todo, como de costume, porque as crianças da vila roubaram meu almoço.

“Senta, querida,” disse meu pai com um sorriso. Pulei numa cadeira de madeira meio bamba, lambendo os lábios.

“Eles não encontraram a Sarah,” comentei, enquanto engolia um pedaço de carne.

“Coitadinha,” murmurou meu pai, franzindo a testa com empatia. Ele deu uma mordida na comida, engoliu e acrescentou: “As crianças te incomodaram hoje, minha filha?”

Balancei a cabeça, mastigando.

“Que bom. Acho que a cidade ficou mais quieta depois do desaparecimento.” Ele tomou a água do copo em três pequenos goles, pegou o prato e os talheres, e saiu da sala.

Chupando um pedacinho de carne preso nos dentes, sem sucesso, usei os dedinhos para tirá-lo. Olhei para o que estava na minha mão: um pedaço de fita vermelha e um fio de cabelo loiro e comprido. Sorri e continuei comendo.

Renda, Olhos e Canções de Ninar

A avó de Darren, Loretta, morreu sozinha em seu quarto no andar de cima. Insuficiência cardíaca, disseram. Ela estava morta há dois dias quando o vizinho notou a caixa de correio transbordando e as luzes acesas a qualquer hora. A polícia arrombou a porta e a encontrou lá em cima, olhos arregalados, rosto contorcido em algo que parecia intenso demais para ser apenas medo. A polícia e os paramédicos levaram seu corpo rapidamente para fora da casa.

Loretta viveu naquela casa a vida inteira. Nunca se casou, nunca teve filhos, até que veio Darren. Ele foi adotado, e ela o criou após seus pais morrerem em um acidente de carro quando ele tinha seis anos. Darren falava dela com um tom meio carinhoso, meio temeroso. “A vovó Loretta tem olhos nas paredes”, ele brincava. Ela era acumuladora, reclusa e extremamente supersticiosa. Sempre alertava Darren sobre coisas como “memórias de sangue” e “bonecas com alma”. Ele atribuía isso à idade avançada dela e à mente que começava a falhar.

Nós quatro nos conhecemos no ensino fundamental: Darren, eu, Jess e Nolan. Não éramos os populares. Éramos aqueles que liam creepypastas em voz alta durante pijamadas, exploravam celeiros abandonados por diversão e desafiavam uns aos outros a brincar com tabuleiros Ouija. Esse tipo de grupo. Mantivemo-nos próximos durante o ensino médio e até depois. Mesmo grupo de amigos, mesmas piadas internas idiotas, mesmo quando a vida começou a nos puxar para caminhos diferentes. Éramos uma família.

Então, quando Darren pediu ajuda para esvaziar a casa de Loretta após o funeral, todos nós aparecemos sem hesitar.

A casa não mudava há décadas. Cheirava a naftalina, poeira antiga e algo azedo por baixo de tudo, como flores secas e carne estragada. Passamos os dois primeiros dias encaixotando roupas, livros, fotos antigas e dezenas de estatuetas de porcelana. Loretta tinha prateleiras delas em todos os cômodos, a maioria lascada, todas sinistras.

No terceiro dia, Nolan pisou em uma tábua fraca no sótão.

Foi quando encontramos o baú.

Quando Nolan atravessou a tábua solta, a madeira cedeu o suficiente para revelar a tampa de um baú, com fechos de ferro e couro descascando como pele queimada. Dentro, havia uma única coisa: uma boneca.

Envolta em pano de saco, era do tamanho de uma criança, vestida com veludo preto e renda esfarrapada. Seu rosto de porcelana estava rachado em um padrão de teia de aranha, o sorriso gravado um pouco largo demais. Ela usava um bonnet, e seu olho direito estava lascado. Mas o esquerdo? Ele piscou.

“Me digam que vocês viram isso”, sussurrei, recuando.

Jess engoliu em seco. “Essa coisa se mexeu. Eu juro.”

Darren, o colecionador de tudo que é estranho, sorriu. “Provavelmente é uma boneca mecânica. Sabe, do século XIX ou algo assim. Essas coisas valem uma grana.”

“Não pegue isso”, Jess implorou. “Só… não pegue.”

Mas Darren já a havia tirado do baú. Quando a segurou, algo estranho aconteceu. Juro que ouvi algo suave. Um zumbido. Como um canto. Apenas um sopro de melodia no ar carregado de poeira:

🎵 “Olhos sonolentos e pele de louça, Deixe-me entrar, vou ficar à vontade. Renda e sombra, costura e linha… Feche os olhos, sonhe na escuridão fina…” 🎵

Passamos mais uma noite lá para ajudar Darren a terminar. Naquela noite, tive um sonho. Eu estava no quarto de Loretta e… ela estava lá! A boca costurada, os olhos sangrando, apontando para algo atrás de mim. Quando me virei, vi a boneca, sem olhos, os braços se contorcendo enquanto rastejava em minha direção, cantando aquela mesma canção de ninar distorcida, a boca rachada se movendo como um relógio quebrado.

🎵 “Bracinhos curtos e dedinhos miúdos, Flor carmesim onde ninguém pisa…” 🎵

Acordei ofegante, encharcado de suor. A boneca estava no criado-mudo ao lado do meu colchão… eu não a coloquei lá.

Alguns dias se passaram sem nada… extremo. Darren levou a boneca para casa, e todos voltamos às nossas vidas. Mas mantivemos contato mais do que o normal, checando uns aos outros, brincando sobre a “boneca assombrada” como se fosse só mais uma história boba para rirmos depois.

Então Darren parou de responder.

Pensamos que ele podia estar apenas lidando com o luto ou sobrecarregado com a limpeza da casa. Até que Jess ficou preocupada o suficiente para ir até lá checar.

Ela o encontrou na garagem. Morto. O pescoço torcido completamente, como se algo o tivesse girado até quebrar, a boca congelada em um grito. A polícia disse que parecia uma queda estranha ao tropeçar nos degraus da garagem. Mas lá, na bancada de trabalho, estava a boneca. Seus olhos mais claros do que antes. Como se alguém a tivesse polido. Seu sorriso estava mais largo.

E eu podia ouvir aquela maldita melodia novamente, fraca, como se estivesse escondida nas paredes:

🎵 “Botões, agulhas, ossos que estalam, Deite-o agora, sem olhar para trás…” 🎵

Depois do funeral, Nolan mudou.

Ele começou a agir de forma estranha primeiro. Paranóico. Parou de ir ao trabalho. Cobriu todos os espelhos do apartamento. Dizia que a via neles. Dizia que via coisas se mexendo nos cantos do quarto. Jurava que a boneca o estava seguindo. “Ela está rastejando”, disse ele uma noite ao telefone. “Eu a ouço à noite. Arrastando aqueles pés de cerâmica. Ela canta pra mim, não consigo dormir. Eu a ouço rastejando. E quando durmo…” sua voz se dissolveu em um gemido.

Pensei que ele estava pirando. Ou talvez apenas traumatizado.

Até que ele parou de responder de vez.

Eu mesmo o encontrei. A porta da frente estava trancada por dentro. Tive que entrar por uma janela. O lugar fedia como se algo tivesse morrido dias antes de eu chegar.

Ele estava no armário do corredor. Dobrado ao contrário. Os membros quebrados em ângulos impossíveis, ossos perfurando a pele. A boca estava cheia de tecido, renda preta.

A boneca estava aninhada ao lado dele, na prateleira acima do corpo, pernas cruzadas, mãos no colo. Intacta. Limpa. Sorrindo.

Jess e eu saímos da cidade. Dirigimos por horas até ficarmos sem gasolina e então caminhamos até o motel mais próximo.

Nenhum de nós falava muito. Mal dormíamos. Mantínhamos as luzes acesas. Mas mesmo com a luz, às vezes eu a ouvia. A canção de ninar dela, tocando no limiar do silêncio, como se o quarto a estivesse cantarolando.

🎵 “Olhos que piscam e lábios que mordem, Venho brincar quando as luzes se escondem…” 🎵

Não contamos nada à polícia. O que poderíamos dizer? “Uma boneca assombrada está matando nossos amigos”?

Após uns quatro dias, Jess disse que precisava voltar para casa. “Não posso viver de mala pra sempre”, disse ela.

Eu implorei para que esperasse. Só um pouco mais. Só o suficiente para descobrirmos o que diabos faríamos, mas ela foi firme. Pegou carona com um caminhão que passava e a vi partir, ficando menor e menor até desaparecer.

Três dias depois, ela estava morta. Ela me ligou gritando. Sem palavras. Apenas puro terror e medo cru vindo pelo telefone. Corri até a casa dela e arrombei a porta.

Ela estava na cama, o rosto pálido, a boca aberta em um grito, os olhos sumidos — apenas dois buracos úmidos e vazios, como se alguém tivesse usado uma colher para arrancá-los. Havia sangue por todo lado. Olhei ao lado dela, e lá estava. A boneca, sentada no travesseiro, me encarando, um olho rachado tremendo, a cabeça inclinada.

Isso foi há meses.

Mudei cinco vezes desde então. Troquei meu número. Excluí todas as redes sociais. Vivo fora do radar agora. Uma cabana remota. Sem vizinhos. Sem espelhos. E ainda… ainda, nas noites mais frias, quando o vento uiva de um jeito certo, eu a ouço lá fora.

Porcelana batendo no vidro. O sussurro de uma criança. Uma canção de ninar:

🎵 “Quatro almas marcadas para mim, Mas uma sobrou, pra eu assistir… Sozinha e assustada, quase minha, Silêncio, querida… é hora da nina.” 🎵

Não acho que acabou. Eu… acho que ela está esperando pelo verso final.
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