quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Espinhos Dentro da Carne

Você já ouviu alguém dizer que o Sul nunca esquece? Eles têm razão. A terra se lembra, e ela passa essa memória pra quem tiver o azar de herdar isso. Eu não acreditava nisso até voltar pra casa da minha avó no verão de 98, lá no interior do Alabama, onde as amoreiras crescem como veias sobre o barro vermelho. Não pisava lá desde os treze anos, e aos vinte e nove, achei que as memórias pareceriam menores — como as ruas da infância que encolhem quando a gente as revisita adulto. Mas a casa da vovó não tinha encolhido. Pelo contrário, parecia maior, mais pesada. A casa ficava torta sobre suas fundações, no meio de uma clareira cercada por pinheiros e carvalhos que se inclinavam muito perto, como se quisessem sufocar o lugar. Era velha mesmo quando a vovó era menina — tábuas de madeira inchadas pela umidade, varanda telada cedendo com pregos enferrujados, um ar que cheirava a poeira, mofo e madressilva. Tudo pingava. Tudo grudava. Minha mãe nunca gostou de irmos lá. Dizia que o lugar era “pesado demais com pecados antigos”. Essa frase ficou na minha cabeça quando eu era criança. Na época, achei que ela só queria dizer que a casa tava caindo aos pedaços e cheia de lembranças ruins. Mas, com o tempo, entendi que ela falava de outra coisa. Ela queria dizer que a própria terra carregava culpa.  

Minha avó morreu na primavera de 98. Quando o telefone tocou, minha mãe disse que não voltaria lá. Me fez prometer que não ia ficar muito tempo. “Vai, embala as coisas, faz o que precisa fazer. Mas não demora.” Ela disse isso com uma firmeza que não deixava espaço pra perguntas. Então, dirigi sozinho até lá.  

No primeiro dia, andei pela casa, tirando os lençóis empoeirados que pareciam fantasmas grudados nos móveis. O papel de parede descascava em tiras curvas, revelando padrões mais antigos por baixo — camada após camada de videiras, flores, vegetação retorcida. Minha avó devia ter empapelado aquelas paredes umas seis vezes, mas o tema nunca mudava. Raízes e folhas. Sempre raízes e folhas. O ar lá dentro era denso, parado. Abri todas as janelas que consegui, embora a maioria das molduras estivesse tão inchada que não cedia. Na cozinha, potes forravam as prateleiras — feijão em conserva, tomates e dezenas de geleias de amora, as tampas embaçadas de poeira. Minha avó esteve fazendo conservas até o fim.  

Naquela noite, dormi na cama dela. Os lençóis cheiravam levemente a cedro e algo mais doce, meio enjoativo, que eu não conseguia identificar. Sonhei que corria descalço quando menino, os espinhos das amoreiras arranhando minhas pernas, o suco manchando meus dedos. No sonho, a voz da vovó sussurrava dos arbustos, baixa e ritmada, como uma oração.  

No segundo dia, fui até o barracão. Ele parecia que ia desabar, com tábuas empenadas e um cadeado enferrujado, mas ainda solto. Arrombei com um pé de cabra. O cheiro lá dentro era mais terroso que na casa — úmido e agridoce, como fruta podre. Ferramentas forravam as paredes, todas velhas — foices, pás, tesouras de poda, uma roda de amolar. No canto, uma caixa de madeira tinha virado um monte de destroços. Ao tentar levantar uma tábua, ela escorregou, e pregos pontiagudos rasgaram minha palma. O corte foi rápido e fundo. O sangue jorrou quente, grosso. Meu primeiro pensamento não foi “hospital”. Foi as amoreiras ao longo da cerca. Minha avó sempre dizia que o suco de amora estancava sangramento. Quando eu era menino, ela amassava as amoras — escuras, roxo-escuras, manchando tudo que tocavam — e as pressionava em arranhões e cortes. “A terra te cura se você deixar”, ela sussurrava. E sempre parecia funcionar. Então, cambaleei até a cerca, enfiei a mão trêmula nos espinhos e amassei um punhado de amoras até o suco escorrer pegajoso pelo meu pulso, misturando-se ao sangue até eu não distinguir um do outro. A ardência era forte, mas o sangramento diminuiu. Enrolei a mão com um pano e disse a mim mesmo que era só um remédio caseiro antigo.  

Naquela noite, tirei o pano. O corte tinha coagulado, mas dentro da ferida, juro, havia sementes. Pequenos nódulos duros, pretos e brilhantes, incrustados na carne viva. Primeiro, pensei que tinham grudado do suco, mas quando tentei tirá-los com uma pinça, minha mão tremeu tanto que deixei a pinça cair. As sementes afundaram mais. Pela manhã, o corte tinha se fechado — não com casca, não com pontos, apenas fechado, liso como pele curada. Mas, por baixo, eu via elas. Pequenos relevos, como algo crescendo.  

Na semana seguinte, a casa ficou insuportável. Toda noite, as cigarras gritavam como se a própria terra estivesse sendo rasgada. As amoreiras se aproximavam, como se tivessem crescido metros da noite pro dia. Seus espinhos raspavam nas paredes, batendo no escuro como unhas. O cheiro de fruta madura era pesado, quase podre, tão doce que me dava ânsia. Minha mão coçava. Não na pele, mas lá dentro, no fundo. Quando pressionei a palma contra o espelho do banheiro, os relevos se mexeram. Raízes, finas e fibrosas, subiam pelo meu pulso. Eu sentia elas se apertando dentro de mim, serpenteando pelas veias. Revirei a casa atrás de respostas. Na última gaveta da mesinha de cabeceira da vovó, sob contas de rosário e cartões de funeral murchos, encontrei os diários dela. Minha mãe tinha me dito pra não lê-los, mas eu tava desesperado. A letra era febril, irregular, páginas cheias de falar sobre “alimentar a terra”, de “dar sangue pras raízes frutificarem”. Uma passagem se gravou na minha mente: “A ferida é o portal. Você precisa se plantar, pra que o campo se lembre. Deixe as amoras beberem, e você nunca será esquecido.” Fechei o diário com força, mas as palavras ficaram comigo.  

Naquela noite, sonhei que era menino de novo. Estava na cozinha da vovó, ajoelhado no linóleo enquanto ela pressionava amoras amassadas nos meus joelhos ralados. Só que, dessa vez, as mãos dela tinham espinhos. As amoras pulsavam como corações batendo. E, quando olhei pros meus cortes, eles não tavam fechando — tavam florescendo. Acordei encharcado de suor, com a boca cheia de terra. Quando cuspi na mão, não era terra. Eram sementes.  

Na terceira noite, acordei com um som de mastigação. Não eram ratos. Não eram insetos. Uma mastigação úmida, deliberada. Segui o som, meio sonhando, até a varanda. As amoreiras tavam se movendo. Não balançando, não dobrando com o vento, mas se movendo, como cobras se retorcendo ao luar. As amoras não eram mais frutas — pulsavam, brilhantes e viscosas, como cachos de olhos inchados. A mastigação não vinha dos arbustos. Vinha de mim. Olhei pra baixo. Minha mão esquerda tinha se partido ao longo do velho corte. Não sangrando — florescendo. Hastes de amora brotavam da minha palma, rasgando a pele enquanto cresciam. Folhas se abriam entre meus dedos. Frutas inchavam onde deveriam estar minhas juntas. E minha boca — meu Deus, minha boca tava cheia. Sementes rangendo entre meus dentes. Minha língua grossa com polpa. Eu tava mastigando, engolindo, engasgando com amoras que não tavam ali. Minha garganta doía com raízes subindo, se enrolando apertadas. Tentei gritar, mas o que saiu foi um jorro úmido de suco roxo. Foi aí que entendi. Minha avó não tava me curando todos aqueles verões atrás. Ela tava me plantando. Cada vez que pressionava aquelas amoras nos meus cortes e arranhões, ela tava semeando o terreno que me reclamaria depois. Isso não era uma infecção. Era uma herança.  

No quinto dia, eu mal conseguia engolir comida. Tudo tinha gosto de amora — metálico e doce, grosso na língua. Minhas unhas rachavam enquanto pontas verdes forçavam passagem por baixo. Meu reflexo parecia menos comigo, mais com algo que a mata poderia reivindicar. Tentei ir embora. Arrumei o carro, girei a chave — nada. Juro que tinha enchido o tanque, mas o motor só tossiu, como se tivesse engasgado. Comecei a andar pela estrada, mas, depois de uma hora, as árvores não mudavam. As mesmas cercas caídas, as mesmas valetas de barro zumbindo com moscas. Quando voltei, a casa tava lá, esperando, com as amoreiras abraçando suas laterais como um carinho.  

Naquela noite, os diários me chamaram de novo. Li até o amanhecer, palavras rastejando pelas páginas como cipós. “A terra se lembra do que é alimentada.” “Quem vai embora tá verde.” “A fruta precisa voltar pro espinheiro.” No sétimo dia, eu não sonhava mais. Ou talvez nunca tenha acordado. As amoreiras sussurram à noite. Elas raspam nas paredes, famintas. Querem me levar pra elas. Minha mão não é mais uma mão — é um caule, pesado com frutas. Minha pele se parte ao longo dos braços em costuras roxas, cada uma brotando. Quando respiro, é denso com pólen. Agora sei que não tô morrendo. Tô sendo enraizado.  

A casa não será limpa. Não será vendida. Vai ficar, embrulhada em cipós, gorda com frutas que carregam pedaços de mim. Se algum dia você estiver nas velhas estradas de terra perto de Gadsden e vir amoreiras sufocando uma casa de fazenda abandonada, não demore. Não toque nas frutas, por mais maduras e doces que pareçam. Porque o Sul não esquece. E, uma vez que ele prova seu sangue, ele te planta também.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

O Apartamento que Esperava

Quando me mudei para o meu novo apartamento, juro que achei que tinha tirado a sorte grande. Era barato, num bairro tranquilo e pertinho do trabalho. O prédio era velho, sim, mas tinha aquele charme vintage — pisos de madeira que rangiam, maçanetas de latão, o tipo de lugar que parecia ter histórias pra contar. O elevador era lento e gemia como se odiasse o próprio trabalho, mas eu não ligava. Estava só feliz por finalmente ter um canto só meu.

Na primeira noite, porém, alguma coisa parecia... estranha. O ar lá dentro era pesado, quase úmido, mesmo com as janelas abertas. Era como se o apartamento não quisesse o ar de fora entrando. Ignorei — estresse da mudança, pensei — e fui dormir. Lá pela meia-noite, acordei com passos acima de mim. Passos lentos, constantes. Só que... eu morava no último andar. Não tinha ninguém acima de mim.

Tentei racionalizar — prédios antigos fazem barulho, canos se mexem, madeira dilata —, mas, no fundo, eu sabia que era diferente. Havia um ritmo naqueles passos. Como se alguém estivesse andando de um lado pro outro. Fiquei na cama, com o cobertor puxado até o queixo, e acabei pegando no sono de novo, mas acordei na manhã seguinte com uma sensação esquisita.

Nos dias seguintes, coisas estranhas começaram a acontecer. A luz do banheiro piscava toda vez que eu entrava, mesmo depois de trocar a lâmpada. O espelho do corredor — meu Deus, esse ainda me dá arrepios — às vezes parecia atrasar. Tipo, eu me mexia, e meu reflexo demorava um instante pra acompanhar. E uma vez, enquanto saía pro trabalho, juro que ouvi alguém sussurrar meu nome da escadaria. Era um sussurro suave, quase brincalhão. Mas quando me virei, a escadaria estava vazia.

Na terceira noite, os passos voltaram, mais altos dessa vez, e acompanhados de um zumbido. Uma canção de ninar baixa e suave que fez meu estômago embrulhar. Sentei na cama, paralisado, só encarando o teto, ouvindo até o som sumir com o nascer do sol.

Alguns dias depois, finalmente conheci minha vizinha do outro lado do corredor, uma senhora chamada Dona Greene. Ela parecia nervosa quando me apresentei. Não sorriu, só me olhou com aqueles olhos cansados e agarrou meu braço. A força do aperto dela me surpreendeu. “Tranque todas as portas à noite”, ela disse, com a voz tremendo. “Todas. Até as de dentro.” Depois, virou as costas e entrou, me deixando ali, parado como um idiota, tentando rir daquilo.

Naquela noite, tranquei tudo direitinho. Porta da frente, quarto, até o armário. Lá pelas três da manhã, acordei com o som de uma porta rangendo ao abrir. Sentei na cama, com o coração disparado, e vi que a porta do armário — trancada — estava entreaberta. Só uma fresta. Escura como o inferno lá dentro, daquele tipo de escuridão que engole a luz. Então, ouvi de novo. Aquele mesmo zumbido, suave e deliberado, como se viesse de dentro do armário. Não consegui me mexer. Era como se o próprio quarto estivesse me segurando. Fiquei lá, paralisado, até o sol nascer e a porta... fechar sozinha, lentamente.

Na manhã seguinte, não fui trabalhar. Acendi todas as luzes do apartamento e fiquei sentado na beirada da cama, tremendo. Quando finalmente criei coragem pra verificar a porta do quarto, havia marcas de arranhões do lado de dentro. Linhas longas e finas, de cima a baixo, como se alguém tivesse arrastado as unhas pela madeira. Não estavam ali antes.

Liguei pro meu proprietário, desesperado por alguma explicação. Ele só suspirou e disse: “Esse lugar tem... história”, e desligou.

Depois disso, Dona Greene não falava mais comigo. Nem abria a porta quando eu batia. Uma vez, porém, a peguei espiando pela corrente. Ela parecia aterrorizada. “Ele gosta de atenção”, sussurrou. “Não escute quando te chamar.” E então a porta bateu com força.

No final da semana, eu já não dormia. Toda vez que fechava os olhos, acordava em outro lugar. Uma vez na cozinha, outra sentado no corredor com a porta da frente escancarada, e uma vez — essa ainda me assombra — de pé na frente do espelho, com meu reflexo sorrindo enquanto meu rosto estava sem expressão.

Instalei meu celular pra gravar uma noite, só pra provar pra mim mesmo que estava imaginando coisas. Na manhã seguinte, assisti ao vídeo. Horas de silêncio, até que, pouco antes de acabar, ouvi um sussurro grave e gutural: “Fica.”

Foi o fim pra mim. No dia seguinte, arrumei tudo em uma correria desgraçada. Não liguei pra organizar nada — só queria sair dali. Enquanto arrastava a última caixa pra porta, o apartamento... mudou. As paredes gemeram, todas as luzes piscaram, e então — BUM — todas as portas do lugar bateram ao mesmo tempo. O ar ficou gelado pra caralho. Eu via minha respiração. E então ouvi. Minha voz. Vindo de algum lugar dentro do apartamento. Chamando meu nome. De novo e de novo.

Ficou mais perto. Mais alto. Distorcido. “Você não pode ir”, sussurrou, bem atrás da minha orelha. “Agora você é meu.”

Não lembro de destrancar a porta da frente. Não lembro de correr escada abaixo, descalço, gritando. A próxima coisa que sei é que estava na rua, tremendo, com os sons da cidade me envolvendo como um cobertor.

Nunca voltei. Deixei tudo — móveis, roupas, até meu celular — e me hospedei num motel do outro lado da cidade. Eventualmente, achei um lugar novo. Prédio novo. Bairro novo. Sem história. Mas às vezes, tarde da noite, quando tá tudo quieto e estou sozinho, ouço aquele zumbido de novo. Suave, paciente. Como se estivesse só esperando que eu volte pra casa.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Se você ler isso, será esquecido

Estou acordado agora. E preciso de ajuda. Se você continuar lendo, tudo o que você já foi estará em risco, mas, por favor... Eu preciso acabar com isso – e só consigo fazer isso com ajuda.

No último mês? Ano? Acho que tenho vivido um pesadelo acordado. A miséria se acumulou, me destruiu, tirou tudo o que me fazia humano – e eu nem percebi o que estava acontecendo.

Comecei a notar isso no meu antigo emprego, antes de me mudar para a casa vazia cheia de sombras que me causam enxaquecas, antes de escapar do apartamento com aquele quarto que me enchia de pavor só de tocar na porta.

Comecei a trabalhar lá há dois anos. Eu era bom no que fazia – mas, alguns meses atrás, fui transferido de repente para um novo departamento. Ninguém me explicou o motivo – ninguém parecia nem conseguir explicar. Só posso imaginar que foi por causa da falta de um supervisor no nosso departamento – mas, até então, eu tinha feito meu trabalho bem sem um.

Eu lutei. A sala para onde me mudaram era um escritório aberto, com cubículos espalhados. O que era estranho, no entanto, eram as sombras. Foi a primeira vez que as notei – mas, pensando bem, acho que já tinha visto algo parecido saindo debaixo da porta estranha no meu apartamento. Pensei que fosse mofo e reclamei com o chefe do departamento – mas fui recebido com deboche e uma sensação de que ele estava em pânico, com medo, no limite. Meu departamento tinha uma carga de trabalho imensa para entregar, sem tempo, sem documentação, como se estivesse intocado há meses.

Meu novo supervisor era horrível. Pedi a ele que limpasse as sombras que manchavam o chão e as paredes dos cubículos – não eram exatamente sombras, mas parecia a melhor forma de descrevê-las. Até agora, não sei do que diria que eram feitas – pareciam cinzentas, mas tocar nelas deixava o dedo com uma sensação oleosa. Elas escureciam qualquer material que tocavam, lançavam uma aura sombria, mas, mesmo quando tentei limpá-las, não consegui tirar nem um pedaço. Pois é. Nunca foram limpas, e me mandaram parar de perder tempo – tínhamos coisas mais importantes para resolver.

Sentia que meu supervisor tentava me culpar por tudo, jogando qualquer erro nas minhas costas para proteger o próprio emprego – e o escritório era tão silencioso. Não havia ninguém para quem recorrer em busca de apoio. A alta gerência parecia constantemente no limite, todos os departamentos pareciam estar em chamas. Estávamos com uma equipe absurdamente reduzida, mais trabalho era jogado em cima de mim dia após dia, e eu me sentia doente. Constantemente. As sombras estavam por toda parte, percebi – não só no escritório, não só naquele quarto que eu não conseguia entrar em casa, mas espalhadas pelo prédio. Olhar para elas me deixava violentamente doente, as enxaquecas ameaçavam rachar meu crânio, e, no final, eu desmoronei. Não podia mais viver assim. Então, com vergonha, admito que fugi – paguei para quebrar meu contrato de aluguel, comprei uma casa bem, bem longe – e me mudei. Eu fui embora.

Agora, tem alguns problemas com a minha memória dos acontecimentos. Fiz as contas do custo dessa casa – que, segundo pesquisas que fiz online, foi vendida pela última vez há dois anos. Verifiquei meu salário, minhas economias antes de começar aquele emprego.

Eu não podia pagar por isso. Nem pela casa, nem pelos carros parados na garagem. E, ainda assim, há cerca de um mês, acordei em uma casa que não parecia minha. Parecia um sonho – como se eu estivesse lutando contra um pesadelo. Quando comprei esse lugar? Como me mudei, mobiliando tudo? Por que comprei uma casa de três quartos para uma pessoa só?

Mas, mesmo com tudo isso, senti alívio. Eu tinha escapado daquelas pessoas miseráveis, tinha uma chance de recomeçar – eu era dono de uma casa, tinha algumas economias e podia começar de novo.

Eu podia recomeçar, até abrir um dos quartos vazios e ver uma sombra manchando uma mesa, um computador, parte de uma cadeira – espalhada como um gato dormindo. As enxaquecas voltaram. Havia poucas delas aqui, mas isso já foi suficiente para me fazer surtar.

Eu não conseguia sair de casa. Não conseguia sair do meu quarto – nas poucas vezes que saí, percebi as pessoas me encarando. Todos eram tão rudes, tão horríveis, e as sombras...

As pessoas falavam sobre elas. Não comigo – elas me odiavam, odiavam umas às outras, mas ainda assim reclamavam delas em sussurros altos, em fóruns e aplicativos de vigilância do bairro. As sombras pontilhavam o bairro. Elas detestavam falar sobre elas, mas a forma como as descreviam... Percebi do que me lembravam, uma comparação que eu evitava fazer até então.

Quando se espalhavam pelo calçamento claro, o contraste era evidente. Elas tinham formato de corpos. Os braços eram longos demais, as cabeças esticadas, as pernas finas. Era tudo errado, mas, de alguma forma, pareciam corpos.

Eu sentia que estava enlouquecendo. Eu *estava* enlouquecendo. Pedi conselhos online e me disseram que deviam ser problemas de memória. Não conseguia explicar tudo de forma coerente, mas me agarrei desesperadamente a essa explicação. Eu me sentia vazio – havia buracos imensos na minha vida.

Eu nem lembrava da minha infância. Tudo o que lembrava era estar sozinho desde o primeiro momento em que pude pensar – mas isso não podia estar certo.

Eu me sentia no piloto automático – como se mal fosse uma pessoa, mas uma coisa. Havia coisas que antes davam sentido à minha vida, mas elas nunca existiram de verdade – dentro de mim, existiam na periferia do pensamento, para me guiar por um padrão predeterminado. O mundo tinha ficado plano – tudo o que eu podia fazer era encontrar uma rotina para seguir, me submeter ao ciclo sem amor do trabalho e sentir o ódio e o medo de todos ao meu redor.

Os hospitais não me internavam – não sei quantos visitei, mas as sombras estavam lá – elas me encaravam enquanto recepcionistas gritavam, ameaçando chamar a segurança. Os médicos pareciam cansados, sobrecarregados, doentes eles mesmos – queria perguntar se também tinham enxaquecas, mas não conseguia ficar tempo suficiente. De alguma forma, eu sabia que o mundo estava começando a enlouquecer. Todos eram cruéis uns com os outros – mas me odiavam mais.

Ódio não era a palavra certa. Eles tinham medo de mim. Havia algo doente em mim. Errado.

E então, como último recurso, fui à polícia.

Sombras me encaravam das celas enquanto me ouviam – me colocaram numa sala, me acusaram de tudo o que podiam. Nem acreditavam que eu tinha nascido aqui – e, para ser honesto, eu também não tinha certeza. Nunca conheci meus pais, nunca fui criado por ninguém – tudo o que aprendi, ensinei a mim mesmo. Língua. Leitura.

Como me vestir, como amar, como é segurar a mão de alguém, confiar em alguém, sentir vergonha quando os decepciona e orgulho quando faz algo certo por eles.

Eles aceitaram isso. Um deles estava pronto para me descartar, me mandar embora, mas um deles...

Ele me odiava. Eu sei disso. Mas ele olhou para as sombras e para mim, e havia algo que ele odiava mais, e era o fato de que nada disso fazia sentido.

Pouco a pouco, ele me desconstruiu. Seu parceiro vasculhou tudo o que eu tinha, e ele me desmontou.

Como comprei a casa? Por que o antigo emprego desmoronou? Por que fui transferido, o que eram essas sombras, o que havia naquele QUARTO?

Como alguém poderia ser criado em total isolamento sem ser completamente destruído? Era impossível. Eu me tornei uma coisa impossível.

Eles me deixaram ir. Querem que eu responda mais perguntas em breve, mas não preciso.

Pouco a pouco, acho que algo tem desmontado minha vida.

Não posso ter nascido neste mundo sozinho. Algo tirou isso de mim, tirou amor e companhia e arrancou isso do mundo, da história. E, lentamente, o mundo mudou, e ao meu redor ele se torna menor por causa disso.

Há álbuns de fotos que agora estão vazios, mas olho para as páginas e vejo onde a luz queimou as páginas e onde não queimou. A marca da memória ainda existe.

Alguém me ensinou a amarrar os sapatos. Alguém me ensinou o que era uma mãe e um pai.

Alguém estava me esperando aqui – alguém VIVEU aqui antes de mim.

Algo devorou isso. Destruiu eles, destruiu tudo o que me mostrava bondade, deixou apenas miséria no caminho. Tenho certidões de nascimento com assinaturas desbotadas, mas vejo que vim de ALGUM LUGAR.

Quero minha vida de volta. Quero devolver o que foi perdido. E sei por onde começa.

Naquele apartamento.

Naquele quarto.

Eu temia abrir a porta porque sabia o que havia do outro lado. Abri uma vez, e vi algo que me amava e que eu tinha amado, mas o que ele fez consigo mesmo era horrível demais para aceitar, entender, lembrar – porque aceitar seria fazer isso comigo mesmo. Então, fechei a porta, bloqueei, tentei esquecer.

Ele quer, talvez, ser a única coisa que resta. Ser todo o amor que existe no mundo. Não sei. Talvez nem seja algo que amei, mas algo que precisa que eu o ame, e reescreveu as coisas para me fazer voltar rastejando. Não sei – mas começou lá. Então, tenho que tentar consertar isso, não é? Tenho que voltar para lá. Tenho que terminar o que comecei, fechar o ciclo que iniciei.

Sem cuidado, sem compaixão, o mundo começará a funcionar no piloto automático, seguindo um ciclo de apenas viver sem PROPÓSITO até se esgotar.

Tenho que me apressar. Aquele policial vai começar a me procurar em breve – e se ele começar a se preocupar, se começarem a se importar... Então, isso vai devorá-los também. E eu nunca os terei conhecido, mas talvez alguns de seus colegas ainda me persigam. E terei esquecido tudo o que juntei – estarei vazio, oco, e a coisa atrás da porta me terá e a tudo o que devorou.

Mas agora está tudo bem. Porque compartilhamos uma história agora, não é?

Se você se importar, mesmo que um pouco, isso é suficiente. Acho que leva tempo para tornar as coisas menores, digeri-las e sua história até não restar nada além das sombras nucleares manchando minha vida. Então, quanto mais de vocês lerem isso, melhor. Mais tempo todos nós teremos.

Desculpe-me. Mas eu avisei. Isso vai levar tempo. Estou longe de onde estava, e minha documentação já está degradada, arruinada por essa coisa. Minha única vantagem é que estou me tornando um fantasma, pouco a pouco – então, vou me esgueirar por cada fresta que puder para chegar em casa.

E se isso encontrar você? Se as enxaquecas piorarem, e você começar a sentir que está sendo devorado, tudo o que já fez você ser você se tornar apenas uma escuridão cruel? Desculpe-me.

Vou tentar lembrar de você.

Vou consertar isso. Prometo.

Obrigado.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Tive paralisia do sono, mas agora ela me persegue fora do sono

Aquela noite não tinha nada de especial comparada a tantas outras, mas, até hoje, é a que mais me deixa perplexo. Minha primeira lembrança daquela noite já estava manchada pelos pesadelos, visões que, desde então, percebi serem a raiz do que outros, com uma pitada de pena, chamam de minha fascinação pelo horror. Eles insistem, claro, que me entregar ao macabro deu origem aos sonhos, mas a verdade, eu acho, é exatamente o oposto: muito antes de conhecer uma história de terror, minhas noites já eram cheias delas, tão vívidas e completas que eu as tocava, sentia e sofria, como se fossem a própria textura da realidade. O que depois passou por horror em peças de teatro e livros era, para mim, apenas a linguagem para expressar o que eu já conhecia.

Os sonhos, com sua repetição incansável, tinham menos o sabor do terror e mais o peso da desolação. Embora o medo fosse sua sombra, parecia que a solidão — bruta, opressiva, intensa — era sua verdadeira essência. Aquele pesadelo em particular, pelo que me lembro, chegou com a mesma melancolia que a própria noite usava para me envolver, e foi sob esse véu que eu percebi, pela primeira vez, uma voz. Era uma voz masculina, deliberada, articulada, que parecia dizer menos do que sabia. Enquanto ela serpenteava pela minha mente, minha visão se partiu em dois planos: o ar úmido e sombrio do sonho e, contra ele, uma cena tremeluzente, como algo saído de uma crônica sobrenatural. Havia uma mãe — uma mãe solitária — e uma criança, uma menininha radiante com todo o charme da inocência. A voz envolvia as figuras delas com uma ternura tão completa que eu poderia tê-la confundido com o próprio amor: a criança, obediente, alegre, curiosa, e a mãe, exaltada por aquela devoção que fazia da pequena, sem dúvida, o centro absoluto do seu mundo.

O sonho seguia, a voz continuava, com brevidade, cálculo e uma escuridão que eu não ousava nomear. Com ela, minha inquietação crescia — fria, precisa, insistente. Lembro da menininha, sua alegria, suas perguntas, o encanto que me atraía apesar de mim mesmo. A mãe, cheia de orgulho e deleite na companhia radiante da filha, trocava com ela gestos de carinho que pareciam encenados só para mim.

Mas, por baixo de tudo, uma tensão crescia — densa, assustadora, não dita. Lembro do momento em que a luz da criança vacilou, sua doçura escapando de repente, como uma vela apagada. O encanto que tinha conquistado meu afeto sumiu, e com ele veio um silêncio. A mãe, firme e amorosa, não parecia notar a mudança. A voz, por sua vez, observava tudo com uma frieza insistente.

E então, de forma terrível, eu a vi — a mãe. O que antes era beleza, equilíbrio, a graça inconfundível de uma mulher bem-cuidada, desmoronou diante de mim em algo vazio, doentio. Em um instante, ela se tornou uma casca do que havia sido. Algo estava errado — terrivelmente errado — e minha inquietação se transformou em um terror que eu não conseguia nem nomear, nem escapar.

A mente da mãe, àquela altura, estava claramente perdida. Eu via isso no jeito inquieto com que ela se movia ao redor da criança, nas palavras e gestos que não faziam sentido, apenas fragmentos. Mas o que eu via nunca era totalmente claro — nunca certo. Era como observar um quebra-cabeça com peças faltando, embora as peças estivessem espalhadas bem diante dos meus olhos, escondidas apenas por uma recusa da visão.

“Ela acreditava que a filha era assim.” A menininha apareceu de novo — familiar, radiante, quase celestial, como um dos anjos de Rafael. “Mas ela era realmente assim.” E com essas palavras, o brilho desmoronou em sombra, em uma profundidade sem fim — escuridão, abissal, e avassaladora.

Acordei em um quarto escuro. O amor da minha vida dormia pacificamente ao meu lado, sua respiração calma, tranquila. Mas o ar ao meu redor não parecia meu. Eu sentia uma presença naquela escuridão, como se tivesse acordado na companhia de alguém que eu nunca convidei.

Meus olhos lutaram para voltar ao foco, abrindo-se lentamente, como se arrastados. A escuridão se condensava em um nevoeiro, engolindo os cantos, suavizando as formas, deixando-me impotente para enxergar tudo. Meu corpo também me traía. Rígido como pedra, não obedecia aos comandos mais simples. Fiquei ali, preso à cama, ouvindo o sono tranquilo dela enquanto algo mais — invisível, não dito — permanecia perto, na escuridão.

Lembro que, na borda da minha visão, o véu negro da escuridão começou a se desfazer, e escondida ali estava uma figura pequena, rígida como um manequim. O nevoeiro escuro se dissipava cada vez mais, revelando mais do meu visitante indesejado — mesmo agora, ao recontar os eventos, não consigo evitar o desconforto, porque o que ela realmente era era verdadeiramente horrível. Lembro da pele dela, que ondulava e se movia, como se estivesse viva, os olhos vazios, mas ainda assim, de alguma forma, terrivelmente atentos e perspicazes.

Os eventos daquela noite se estenderam por mais tempo do que uma única noite, e minha interação com esse visitante indesejado despertou algo muito mais assombroso do que qualquer um dos chamados “horrores”. Despertou uma conexão doentia com uma garota que, em vida, só conheceu amor e devoção, e agora buscava isso mesmo depois da morte. Eu olhava pela janela, além das árvores e da escuridão da noite que as encobria, e a vi novamente. Com olhos vazios, ela também me viu.

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