domingo, 5 de outubro de 2025

O Efeito dos Navios

Cidades gigantescas sobre os mares — é assim que muita gente descreve os navios da nossa época. E eu mal posso culpá-los. São colossos de verdade, que fazem lembrar o próprio Zeus. Mas eles deixam uma marca diferente em cada alma. Alguns mal notam o precioso subir e descer do navio ao ritmo da respiração do oceano. Outros sentem a ameaça à espreita lá embaixo, uma sombra de perigo — até o reflexo no espelho fica inquieto. Mas a história que eu lembro é de outro tipo.

Foi uma viagem pelas profundezas da noite. À primeira vista, nada de especial — uma travessia do Porto de Dover até Calais, na França, voltando de uma viagem escolar pelo sul da Inglaterra. Mas na meia-noite em ponto, algo fora do comum aconteceu. Eu não estava sozinho; conhecia muita gente a bordo — colegas de escola, na maioria. Tinha um deles, o Vladislav, de quem eu vou falar. Um garoto cheio de força, determinação, amizade e esperteza — mas faltava uma coisa crucial: a capacidade de controlar o seu id quando tomava cafeína. E isso, como se viu, virou o pecado fatal dele.

No tic-tac fatídico do relógio, como se a própria Morte tivesse puxado a medula do pescoço dele, ele desabou. Nem devagar, nem rápido — caiu de joelhos, depois de lado, rolando de costas como uma baleia enorme ofegando em água doce. Ficou ali deitado, quase imóvel — mas respirando. Aí veio a risada. Não aquela risadinha suave, que nasce do coração com alegria ou inocência — mas a risada de um demônio, misturada com o choro de anjos. Ele ria e ria, mas não de alma — dava pra ouvir isso clarinho. Talvez viesse das profundezas do abismo aquático, ou dos cantos escuros da mente inquieta dele.

Ele tentou se levantar — de verdade, tentou. Mas por um bom tempo, não conseguiu. Se contorcia de um lado pro outro como uma galinha sem cabeça. Cobria o rosto como um palhaço apavorado, chutava as pernas como uma criança lutando pra chegar à superfície de um mar implacável.

A agonia dele durou uns quinze minutos, talvez mais. Mas, como o tamanho dessa história sugere, o tormento de Belzebu ainda não tinha acabado. Só que o poder dele estava enfraquecendo; o aperto da cafeína começava a soltar.

Vladislav conseguiu ficar de pé — resistiu ao chamado do mar lá embaixo. Mas a mente dele não estava livre. Ele não estava confuso — não como a gente esperaria. Sabia quem era, de onde vinha. Pelo contrário, parecia que algum conhecimento superior tinha se aberto dentro dele — ou, melhor dizendo, uma visão mais alta. Ele via o invisível. Quando olhava pra você, não olhava pra você — mas pra figura parada na sua frente. Que figura? A figura dos mortos — aqueles que os olhos mortais não conseguem enxergar. Alguns chamariam de alucinação. Ele chamava de espírito.

Ele começou a falar — numa língua que não nasce de gargantas mortais. Falava com aquelas figuras espectrais dos não-vivos. De repente, virou, deu dois passos em direção à parede e parou. Estendeu a mão com um suspiro. "Eles têm medo de mim", os lábios dele sussurraram. "Eles fogem."

A gente queria ajudar, mas o assombro e o terror nos congelaram no lugar. Ninguém se mexeu. Ninguém ousou.

Ele começou a balançar. De um lado pro outro. Não ao acaso — no ritmo, com o suave subir e descer do navio. Se movia junto com ele, um com o próprio casco. A gente não o seguiu. Tinha medo do poder dele. Só ficamos olhando, pra não deixar que ele virasse vítima de si mesmo.

Ele deu três voltas pelo convés antes de a gente ser forçado a descer pros decks de baixo, levando o corpo do Vladislav junto. Ele ainda respondia, andava sozinho, nos ouvia — mas não era mais ele. Era como se os pensamentos dele fossem governados por outro.

Apavorados, sentamos nos nossos assentos do ônibus no porão. Os olhos dele piscaram uma vez — e ele apagou. Segundo as palavras dele depois, dormiu a travessia inteira. Não lembrava de nada — como se alguém tivesse apagado a memória dele. Ou talvez alguém tivesse adicionado algo à nossa.

O que fica certo é isso: a mente dele tinha vagado pra algum lugar bem além do resto de nós.

A Verdade Está no Pudim

Dizem que a prova está no pudim; eles nem imaginam o quão certos estão. Faz quase 60 anos desde aquele dia fatídico. Eu era um garoto de 6 anos e ganhei meu primeiro copinho de pudim. Lembro da textura delicada e cremosa, e do sabor rico de chocolate que derretia na minha língua. Acima de tudo, lembro da voz: doce como néctar e macia como seda. Ela me chamou lá do abismo escavado pela minha colherzinha de plástico, tão fundo e escuro, parecendo se estender além do fundo do copo. "Verdade... está... no... pudim". E, naquele instante, aquilo se queimou na minha mente como um propósito. Um que eu conseguia recordar perfeitamente em cada hora acordado de cada dia, mas que eu não podia compartilhar, porque era uma tarefa só minha. A chave da minha salvação.

Nas décadas seguintes, me dediquei ao estudo das artes da confeitaria. Eu sabia que precisava aperfeiçoar minha arte, afiar minhas habilidades até o ponto de poder cumprir minha missão. Sacrifiquei meus laços com o mundo, rejeitei o amor e a companhia da família em nome de perseguir meu objetivo final. Rodei o mundo inteiro, caçando o conhecimento de cada pudim que eu conseguia encontrar; estudei com os Mestres do Pudim, sem nunca deixar ninguém saber das minhas verdadeiras intenções. Depois de uma vida inteira de estudos e buscas, bem quando eu comecei a achar que todo o meu esforço tinha sido em vão, finalmente encontrei: a chave da minha obsessão vitalícia.

Na noite da minha vitória final, eu me sentei diante do meu prêmio. As obras completas de confeitaria de Pudzuzu, o Maior de Todos os Custardmancers, encadernadas e escritas na pele mais fina de pudim, com tinta de fudge escuro como breu. Joguei o livro aberto e virei direto pra página gravada no fundo da minha mente. Ali, no pergaminho de tapioca, estava a receita que eu sabia que ia estar. Um pudim pra rasgar a realidade ao meio e me levar pros Planos Brûlée, onde o Grande Pudzuzu mora. Meu verdadeiro lar na existência.

Com um fervor danado, eu arrolei as mangas da minha túnica e comecei o trabalho. Primeiro, adicionei o leite comum, açúcar, amido de milho e manteiga pra formar a base do Urpudim. Depois, joguei na panela uma porrada de espécimes exóticos que eu cultivei durante anos de viagens. Olhos de Yorkshire, essência diabética, três almas de coco e o coração de um dos Banana-Homens esquivos, pra citar só alguns. Por fim, adicionei a última peça da receita na panela: duas xícaras do meu próprio sangue. "Hmm-hmm... pudim de sangue", eu murmurei pra mim mesmo, transbordando de expectativa enquanto colocava o pudim no fogo. Quando ferveu, joguei a cabeça pra trás e gritei as palavras inscritas no livro de Pudzuzu: "AKVAR GERN PU'DING!" e me atirei de cabeça na panela. Senti meu corpo inteiro afundar no Urpudim sem fundo, e enquanto minha pele queimava no açúcar derretido, a escuridão me levou.

Acordei de costas, nu e coberto de queimaduras, olhando pro céu claro e ocre. Enquanto me endireitava, ouvi o som inconfundível de rachaduras, tipo vidro se partindo. Olhando pra baixo, vi que eu tava sentado numa camada brilhante e marrom-escura de açúcar queimado, pegajosa ao toque. Ela rachou devagar sob meu peso, revelando um creme amarelo-claro logo abaixo da superfície, mas aguentou firme e me deixou pisar com segurança em cima. Olhando em volta, me vi perto da base de um platô de flan enorme, uns 150 metros de altura, com vários outros pontilhando o horizonte distante, silhuetados pelo sol de chocolate se pondo. Um grito de êxtase puro escapou dos meus lábios. Eu tinha conseguido. Finalmente cheguei aos Planos Brûlée, o trabalho da minha vida tinha valido a pena.

Um som de esguicho chamou minha atenção, e eu me virei pro platô de flan atrás de mim. Uma fenda vertical tava se abrindo no lado dele, subindo uns três quartos da altura. Da fenda, uma forma surgiu: grande, lisa e de composição caramelo, com dois longos talos de olhos saindo da frente e um par de tentáculos mais curtos embaixo. Meu fôlego travou na garganta e eu caí de joelhos em reverência, o chão afundando uns centímetros com o impacto repentino. O que eu achava que era um platô na verdade era uma Lesma de Flan, uma das grandes criaturas mencionadas nos textos dos primeiros Custardmancers; achada como mera lenda. Seus talos de olhos me fitaram por o que pareceu eras, até que finalmente abriu a boca. Da abertura yônica, uma língua de fudge derretido escuro desceu na minha direção, parando a poucos centímetros. Devagar, ela ganhou a forma vaga de um tronco de corpo, e eu consegui ver uma rede de veias vermelhas e azuis pulsantes nas dobras que mudavam o tempo todo. Da cabeça, um par de olhos vítreos borbulhou à superfície, junto com um monte de dentes grandes e tortos.

Os olhos da criatura se fixaram em mim, e os dentes começaram a se mexer como se falassem, mas sem som nenhum. Em vez disso, ouvi as palavras ecoando na minha mente. "Eu... sou... Pudzuzu. O Maior... de... Todos", a voz disse, e eu percebi que o sussurro doce não me era estranho. "Grande Pudzuzu", eu falei, com lágrimas de alegria enchendo meus olhos. "Eu ouvi suas instruções, cheguei aqui, até você. Completei minha tarefa." Pudzuzu me olhou por um momento, os olhos sem piscar penetrando na minha alma. "Não", eles disseram, "Ainda... não." Sem mais uma palavra, eles esticaram e me pegaram pelos braços, a carne fudge fluindo por cima da minha e queimando. Devagar, a Lesma de Flan começou a recolher a língua de volta pra boca, e eu fui erguido no ar. Enquanto nos aproximávamos da entrada da bocarra da grande besta, a cabeça de Pudzuzu se esticou e balançou por um instante antes de se grudar nos meus olhos abertos. Eu gritei enquanto a dor me dominava, uma sensação como se meus nervos tivessem pegado fogo; então, toda sensação parou.

Acordei de supetão no chão da minha cozinha, tomado por uma onda de raiva e tristeza. E minha lugar nos Planos Brûlée? E minhas décadas de trabalho? Eu não tinha sacrificado tudo pra completar minha tarefa!? Foi aí que comecei a notar a mudança. Meu corpo tava macio e liso demais pro minha idade. Sentei e olhei pra panela de cozinhar. No reflexo dela, vi a massa gelatinosa de amarelo-claro que eu tinha virado, com um olho solitário protuberante do creme. Veias pulsantes despontavam da superfície que se mexia o tempo todo do meu novo corpo. Eu tinha alcançado minha salvação! Senti o propósito inundar minha mente de novo. Uma nova tarefa. Não, a verdadeira tarefa. Criar um pudim ainda maior. Um pra rivalizar até com o trabalho do Grande Pudzuzu. Me levantei do chão, estendendo minha forma gloriosa nova pra cima. Logo, todos serão salvos. Logo, todo mundo vai saber que a verdade está no pudim.

sábado, 4 de outubro de 2025

Afogando no Som Deles

Meu nome é Alex. Sou o primeiro clarinetista da banda avançada da escola. Já toquei em bandas de honra estaduais, pratico horas por dia e sei direitinho como fazer uma sala inteira vibrar com o som.

Eu precisava de um lugar pra ensaiar meu solo de audição — algum canto bem quieto. Um amigo falou dessa piscina velha e abandonada no meio da mata, onde ele e o camarada dele iam pra fumar escondido. Achei que, se era tão isolado assim, ia ser perfeito pro meu som.

Então, numa tarde, peguei meu clarinete e caminhei uns quinze minutos pela trilha entre as árvores até achar o lugar.

O ar tava pesado e azedo, tipo água velha misturada com cloro mofado. A piscina ficava afundada no centro de um deque de concreto rachado, a superfície toda rabiscada com grafites que não pareciam... normais. Tinha formas que mais pareciam pintadas do que sprayadas — traços de pincel visíveis, como se o artista tivesse surtado no meio do trampo. Ondas de preto e roxo se enroscando no fundo, e nas paredes, símbolos que pareciam de outra era. Palavras em X vermelhos e xingamentos cercando tudo, como se estivessem zombando de algo sagrado.

Quando entrei, a acústica era surreal. Toquei uma nota de afinação, e o som floresceu ao meu redor — afiado, puro, ecoando de volta como se a piscina quisesse cantar junto comigo. A reverberação era impecável. Perfeita. Quase... viva.

Não resisti — dei um sorriso. Esse era o tipo de espaço que eu amava.

Abri na minha peça favorita, o Canon em Ré. É escrito em tempo cortado, devagar e gracioso, mas quando eu tô no fluxo, acelero um pouco. Levei o clarinete aos lábios e deixei a primeira nota escapar.

O eco veio como uma onda.

Cada nota quicava de volta pelo ar, me envolvendo, inchando. A reverb crescia até eu sentir no peito. Minhas pernas formigavam, as mãos tremiam, e a cada frase, eu me afundava mais no som — como se a piscina estivesse enchendo, nota por nota.

No meio da primeira passada, um arrepio subiu pela minha espinha. O ar ficou grosso, pesado, úmido. Parei um segundo pra ajustar a palheta e vi algo brilhando nas minhas mãos. Água.

Aí veio os passos.

Suaves. Molhados. Bem atrás de mim.

Virei tão rápido que o aro do bocal quase voou — mas não tinha ninguém. O som parou, mas o ar ainda ondulava com a presença dele. Convenci a mim mesmo que era só o eco, talvez um reflexo atrasado. Forcei uma respiração trêmula, levantei o clarinete de novo e continuei tocando.

Ideia péssima.

Quanto mais rápido eu tocava, pior ficava. A acústica não soava natural mais — ela me seguia, dobrando meu ritmo como se algo estivesse tocando junto. A reverb batia cedo demais, pesada demais, e o ar me pressionava. Tentei desacelerar, mas meus dedos não paravam. Meu corpo não obedecia.

Quando o solo chegou na parte rápida, minha respiração engasgou. Parecia que eu tava debaixo d'água, pulmões ardendo, mas eu não conseguia parar de soprar no instrumento. Cada inspiração era um suspiro rouco — cada expiração, um engasgo. As escalas viravam uma frase infinita, um ritmo de afogamento. Meus pés chapinhavam em algo frio.

Olhei pra baixo.

O chão da piscina tava molhado. A água subia devagar, o suficiente pra cobrir meus sapatos — depois os tornozelos — depois as canelas. Mas não tinha de onde vinha. Nenhum ralo, nenhum vazamento. Só subia, água silenciosa.

Aí eu vi — movimento dentro do reflexo. Algo se mexendo no ritmo das minhas notas. A água não tava só subindo; ela tava escutando.

Meu som rachou, e por um segundo, o eco parou de responder. Depois voltou — não como o meu som, mas como o de outra coisa. Uma nota mais grave. Um rosnado embaixo da melodia, como se algo cantasse do fundo.

Larguei o clarinete e corri pra parede, escorregando na superfície lisa. A água avançou mais rápido agora, batendo nos meus joelhos. Arranhei a borda, mas o peso dela me puxava pra baixo — cada vez mais pesado, como se quisesse me prender ali.

E aí eu percebi — a água tava respirando. Puxava quando eu expirava, avançava quando eu ofegava, me acompanhando como um pulmão vivo. O pulso dela era firme, paciente. Faminto.

Os ralos explodiram, jorrando cascatas que enchiam a piscina mais rápido do que eu conseguia escalar. Chegou na minha cintura. Depois nas costelas. Chutei contra a inclinação, músculos gritando. A pressão da água engrossava a cada segundo, me arrastando pro centro. Senti mãos — frias, líquidas — se enrolando nos meus braços, pressionando minhas costas. Não invisíveis. Sem forma. A própria água me segurava.

Gritei, mas saiu em bolhas. Por um instante, achei que era o fim — que eu viraria um som, preso no eco.

Não sei como, mas escapei. Por pouco. Minhas palmas rasparam na borda enquanto eu me arrastava por cima dela. Quando rolei pro pavimento rachado, vi — meu clarinete. Ainda de pé no centro da piscina, intocado.

Aí ele caiu.

A água o jogou pra cima, lançou pra fora da piscina. Bateu no chão do meu lado com um baque molhado, sino primeiro.

Corri. Nem lembro onde larguei o clarinete, só que arranquei a jaqueta encharcada no meio da corrida porque parecia que ela me puxava de volta. Quando cheguei na estrada principal, não ouvia nada além do meu coração martelando.

Em casa, tirei o resto da roupa molhada e joguei do lado da porta.

Se você achar um lugar desses — uma piscina que canta de volta — não toque pra ela.

Porque quando eu me virei... as roupas tinham sumido. E aí ouvi a porta da frente ranger abrindo, e os sons de pés molhados se aproximando da minha porta.

Minha cidade mudou em um mês, e eu não a reconheço mais

Juro que não estou louco. Mas tenho observado minha cidade se transformar, e parece que me jogaram cem anos no futuro.

Quando eu era garoto, as ruas eram de terra batida, e as crianças jogavam beisebol de taco até o anoitecer. Você conseguia ouvir o estalo das tacas e o riso dos vizinhos de um canto da Rua Principal até o outro. Fazendeiros vendiam ovos e maçãs na beira da estrada. Cavalos trotavam passando, carroças rangiam, e o prédio mais alto da cidade era a biblioteca, três andares imponentes com vitrais no topo.

Todo mundo andava a pé. Era a coisa mais simples do mundo. Até a padaria, à igreja, ao armazém. Você cumprimentava metade da cidade só dando um rolê de duas quadras.

Mas aí, de repente, as coisas começaram a mudar.

Na primeira semana, as estradas de terra foram raspadas e cobertas com asfalto preto. A calçada debaixo dos bordos, aquela que todo mundo usava pra ir ao mercado, foi aplanada. “Progresso”, o prefeito chamou. O mercado em si foi reconstruído mais pra longe. Ninguém se importou, exceto eu, quando percebi que a caminhada tinha dobrado de tamanho.

Na segunda semana, a estrada dobrou de largura, depois dobrou de novo. Ontem, duas carroças cabiam lado a lado; hoje, seis faixas rugindo de máquinas zumbem passando. Atravesar virou tipo ficar na frente de um pelotão de fuzilamento. Um garoto chamado Samuel não conseguiu atravessar. Os motoristas só buzinavam, como se ele não tivesse o direito de estar ali.

Os prédios mudaram em seguida.

A biblioteca, que um dia teve janelas de vidro colorido no terceiro andar. Lembro de subir as escadas com meu pai. Mas uma manhã, era só uma caixota de tijolos baixa, sem graça e sem janelas. A casa da Margaret perdeu o segundo andar da noite pro dia. As pessoas só deram de ombros.

E aí alguns prédios não só encolheram; eles sumiram. O correio. A farmácia. O velho teatro. Uma noite eles tavam lá. De manhã, os lotes tavam lisos, pintados com listras. Ninguém nem comentou a perda.

A Rua Principal não lamentou também.

Os negócios de família foram pro brejo, um por um: o alfaiate, a padaria, a loja de brinquedos. Eu pensei que ia rolar uma tristeza, mas em vez disso as pessoas sorriram. Elas diziam: “Tudo bem, tem uma loja maior a vinte minutos daqui”. Diziam como se fosse uma boa notícia, como se facilitasse a vida. Até os donos das lojas, com as caras pálidas nas vitrines vazias, forçavam sorrisos durinhos e assentiam, como se fosse tudo pro bem maior.

Foram os sorrisos que me deixaram mais encucado.

A vendinha da esquina rolou diferente.

Eu acordei uma noite e vi uma multidão parada do lado de fora. Eles não gritavam. Não discutiam. Só encostavam as mãos no tijolo. As paredes rangiam como se algo vivo estivesse se contorcendo de dor. Ao nascer do sol, a loja tinha sumido. O chão tava liso e preto. O Sr. Alvarez também. Quando perguntei por ele, as pessoas viravam a cara pro outro lado.

Até as casas começaram a se torcer.

Onde antes tinha calçadinhas levando das portas da frente pra rua, os caminhos dobraram pro lado da noite pro dia. Agora eles só levam pras garagens. Sai pela porta e você é guiado direto pro carro. As casas em si parecem se afastar um pouquinho mais pra trás a cada noite. Dez metros. Vinte. Em alguns casos, você mal consegue vê-las da rua. As vozes não carregam tão longe assim.

E os gramados não param de se esticar.

Lembro quando o Sr. Dawson empurrava a cortadeira assobiando, e a Sra. Henson manejava a foice como o pai dela antes. Os quintais eram pequenos, o trampo rápido. Agora parecem campos. Ninguém mais corta a grama a pé. Eles andam em máquinas pequenas por gramados infinitos que não eram tão grandes ontem. De longe, os caras pilotando parecem brinquedos rodando em círculos sem fim.

As crianças sumiram também; não sumiram, mas se esconderam.

Elas costumavam jogar beisebol de taco na rua, linhas de giz rabiscadas no asfalto, gritos ecoando pelo quarteirão. Agora, toda vez que um motor ronca, as mães saem correndo e puxam elas pra dentro. Portas batem, cortinas se fecham de supetão. O jeito que a rua esvazia me lembra daqueles Westerns antigos, bem antes da troca de tiros. Só que isso rola todo dia.

O momento mais esquisito foi quando eu tava voltando pra casa uma noite.

Eu vi os Dawson na varanda deles. Quando me viram descendo a rua, congelaram. A Sra. Dawson apertou o braço do marido. A cara dele tava dura de medo até eu chegar perto o suficiente pra ele me reconhecer.

“Ah”, ele disse, quase rindo. “É só você. Achamos que era outra pessoa.”

Eles não disseram quem. Mas o jeito que entraram correndo depois, trancando a porta, eu soube. Por aqui, qualquer um andando a pé é tratado como uma ameaça.

Eu tentei andar até a beira da cidade na semana passada, pra ver se as fazendas ainda tavam lá.

O Sr. Whitaker costumava vender maçãs e ovos de uma barraca na beira da estrada. Meus filhos adoravam as frutas dele. Mas quando cheguei no ponto, só tinha casinhas arrumadinhas e garagens. Sem curral. Sem barraca. Nem um poste de cerca. Um cara regando o gramado franziu a testa quando me viu demorando.

“Você se perdeu”, ele disse, seco. Aí virou e a porta da garagem dele fechou atrás.

E meus amigos também estão mudando.

O James, que um dia andava pra todo lado com a filha, apontando as velhas lojinhas. Era a alma mais gentil que eu conhecia. Mas da primeira vez que o vi no volante, ele quase me acertou na faixa de pedestre. Não acenou. Não pediu desculpa. Buzinou forte e acelerou tão perto que eu senti o calor do motor dele. Não era mais o James.

Na quarta semana, eu era o único que sobrou andando a pé. As ruas rugiam com ferro e fumaça. As árvores sumiram. As varandas esvaziaram.

Até o velho caminho de terra pro centro da cidade foi apagado. Onde ele começava, uma placa nova tá lá: PROIBIDA A ENTRADA. ISSO É PRA VOCÊ. Eu conseguia ver o centro ali do outro lado do gramado, perto o suficiente pra tocar. Mas não dava pra chegar.

E agora tá na minha porta.

Esta manhã, a calçada sumiu. Meus degraus levam direto pra doze faixas de trânsito.

Se eu quiser comer, vou ter que tentar atravessar.

Não sei se volto vivo.

A coisa mais estranha é que todo mundo parece feliz.

Se você um dia ouvir obras do lado de fora da janela, se acordar e encontrar a rua mais larga do que ontem, não fique. Corra.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon