segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Eu monitoro câmeras de segurança pra viver. Uma delas tá me mostrando agora mesmo

Trabalho pra uma empresa de monitoramento de segurança. A gente vigia os feeds de pequenos negócios. Postos de gasolina, depósitos, estacionamentos cobertos. Lugares muito pão-duros pra contratar seguranças de verdade.

Meu trampo é ficar sentado numa sala sem janela olhando pra doze monitores. Cada monitor vai rodando os feeds de clientes diferentes. Se eu vejo algo que merece ser reportado — roubo, vandalismo ou alguém desmaiado no banheiro —, corto o vídeo e mando pro cliente. Do contrário, só fico olhando.

Pego o turno da madrugada, das 23h às 7h. Quatro noites por semana. O salário é uma merda, mas dá pra fazer lição de casa entre os incidentes e ninguém me enche o saco.

No mês passado comecei a ver coisas nos feeds que não faziam sentido nenhum.

Coisas pequenas no começo. Uma câmera dava um glitch, mostrava estática por uns segundos e voltava. Ou o timestamp pulava pra frente, perdia uns minutos como se tivesse um buraco na gravação. Comentei com minha supervisora e ela disse que o sistema era velho, provavelmente HDs corrompidos. Mandou eu registrar os glitches e continuar trabalhando.

Os glitches pioraram.

As câmeras cortavam pra feeds que não estavam na rotação. Eu tava vendo o estacionamento quando a tela piscava e de repente eu tava olhando pra outro lugar. Corredores vazios. Escadas. Salas que eu não reconhecia. Depois piscava de novo e voltava pro feed normal.

Comecei a anotar todas as anomalias. Horários, locais, duração. Em duas semanas eu tinha trinta e sete incidentes. Nenhum padrão que eu conseguisse enxergar. Câmeras diferentes, horários diferentes, sempre rápidos. Nunca mais de dez segundos.

Aí eu me vi.

Era 3h47 de uma terça-feira. Eu tava vendo o feed de uma lavanderia 24 horas. A câmera aponta pra porta da frente e pra fileira de máquinas de lavar junto à vitrine.

A tela piscou. A imagem mudou.

Eu tava olhando pra uma cozinha. Pequena, antiquada. Piso de linóleo, armários brancos, luminária fluorescente. Uma mulher estava de costas pro balcão, despejando algo de uma panela num pote.

A mulher se virou.

Era eu.

Mesmo rosto. Mesmo cabelo. Mesma cicatriz na sobrancelha esquerda de quando bati a cabeça num balanço na terceira série. Ela olhou direto pra câmera por uns dois segundos, depois o feed voltou pra lavanderia.

Fiquei ali parado, olhando pro monitor. Minhas mãos tremiam.

Voltei o vídeo. Assisti de novo. Com certeza era eu. Com certeza uma cozinha que eu nunca tinha visto. O timestamp marcava 3h47, igual ao horário atual, mas a data estava errada. Mostrava uma data três dias no futuro.

Cortei o vídeo e salvei no meu drive pessoal.

Não contei pra supervisora. Fui pra casa quando o turno acabou e tentei dormir, mas ficava vendo aquela cozinha. Os armários brancos. A luz fluorescente. Eu nunca tinha estado naquela sala. Tinha certeza.

Mas a pessoa no vídeo era eu.

Na noite seguinte vigiei os monitores com mais atenção. Peguei um caderno e anotei toda vez que um feed deu glitch. A maioria era igual aos anteriores. Lugares aleatórios, flashes rápidos, nada identificável.

Às 2h18 vi a cozinha de novo.

Mesma sala. Mesmo ângulo de câmera. Dessa vez a cozinha estava vazia. Só o balcão, os armários, a luz. O vídeo rodou por seis segundos e cortou de volta pro posto de gasolina que eu devia estar vigiando.

Confiri o timestamp. Horário atual, mas data dois dias no futuro.

Comecei a puxar vídeos antigos do arquivo. A empresa guarda tudo por noventa dias antes de apagar. Voltei seis semanas de gravações da madrugada, procurando anomalias nos meus turnos.

Me encontrei em quarenta e três clipes.

Lugares diferentes. Roupas diferentes. Mas sempre eu, sempre com timestamp que não batia. Alguns no futuro. Alguns no passado. Uns poucos com datas que ainda não tinham chegado.

Num clipe eu caminhava por um corredor de concreto. Paredes institucionais, blocos pintados, portas pesadas com janelas de tela metálica. Eu usava jaleco hospitalar. Nunca tive jaleco. O timestamp dizia que tinha sido gravado oito meses atrás.

Em outro eu estava sentada num carro. Noite. Estacionado num lugar escuro. Eu estava chorando. Esse clipe era datado cinco dias a partir de agora.

Fiz cópias de tudo e tentei achar padrões. Horários do dia. Locais. O que eu estava vestindo ou fazendo. Nada se conectava. Os clipes pareciam aleatórios, espalhados por meses, me mostrando em lugares que eu nunca estive fazendo coisas que eu não conseguia explicar.

Aí encontrei o mais longo.

Dezoito minutos de vídeo de uma câmera que eu não conseguia identificar. Mostrava um quarto pequeno. Cama de solteiro, cômoda, uma janela com persiana. O timestamp dizia que tinha sido gravado três semanas atrás, às 4h33.

Eu estava dormindo na cama.

A câmera estava posicionada no alto, provavelmente fixada num canto perto do teto. Tinha visão clara de todo o quarto. Fiquei olhando eu mesma dormir por dezoito minutos. Não me mexi muito. De vez em quando mudava de posição. Em certo momento rolei e o cobertor escorregou.

Aos dezesseis minutos, eu me sentei.

Não como se estivesse acordando. Mais como se algo tivesse me puxado pra cima. Meus olhos estavam abertos, mas eu não olhava pra nada. Saí da cama, fui até a cômoda, abri a gaveta de cima. Tirei algo. Não dava pra ver o quê. Depois saí do quadro.

O vídeo continuou por mais dois minutos. Quarto vazio. Cama desarrumada. Depois cortou.

Eu não reconhecia o quarto. Não era meu apartamento. Não era lugar nenhum onde eu tinha ficado. Mas com certeza era eu na cama.

Comecei a carregar o celular pra todo lado, gravando tudo. Se eu estivesse sonâmbula ou tendo estados de fuga, talvez eu me pegasse fazendo algo que não lembrava.

Gravei oito horas por dia durante uma semana. Toda noite antes de dormir, toda manhã ao acordar. Gravei o turno inteiro no trabalho, o trajeto, o tempo em casa.

Nada fora do comum. Eu estava exatamente onde achava que estava, fazendo exatamente o que lembrava de ter feito.

Mas os clipes continuavam aparecendo nos feeds de segurança.

Vi eu mesma num estacionamento discutindo com alguém que eu não conhecia. Vi eu mesma num prédio comercial, passando por baias às 2h da manhã. Vi eu mesma parada num campo vazio ao anoitecer, só parada ali, sem me mexer.

Os timestamps estavam chegando mais perto do presente.

Tentei achar os locais. O estacionamento parecia genérico, mas rodei a cidade inteira conferindo todas as garagens que encontrei. Nada batia. O prédio comercial não tinha nada que identificasse. O campo podia ser qualquer lugar.

Pensei em ir à polícia, mas o que eu ia dizer? Que estava me vendo em câmeras de segurança que eu não tinha acesso, em lugares que nunca estive, em horários que não batiam com a realidade?

Semana passada me vi no meu próprio apartamento.

O feed deu glitch à 1h23. Quando voltou, eu estava olhando pra minha sala. Mesmo sofá, mesma estante, mesma TV. O ângulo era do canto perto do teto, igual à câmera do quarto que eu não reconhecia.

Eu estava sentada no sofá. Só sentada ali, olhando pra parede.

Levantei da minha mesa no trabalho e olhei em volta. Estava sozinha na sala de monitoramento. A porta fechada. Olhei de novo pro monitor.

Na tela, eu me levantei do sofá no meu apartamento. Fui até a janela e olhei pra fora. Depois me virei e olhei direto pra câmera.

Meu celular estava no bolso. Tirei, abri o app da câmera, troquei pra visão frontal.

Eu estava no trabalho. Luzes fluorescentes. Paredes cinzas. Monitores atrás de mim mostrando os feeds.

Na tela, vi eu mesma no apartamento sair do quadro.

O feed ficou mais dez segundos e depois cortou de volta pro depósito.

Fui pra casa quando o turno acabou. Revirei cada canto do apartamento. Cantos, teto, atrás dos móveis. Procurando câmeras. Algo tinha que estar me gravando.

Não achei nada.

Mas comecei a reparar em coisas que estavam levemente erradas.

Objetos mudados de lugar. Não muito longe. Uma xícara no balcão seis centímetros pro lado. Minhas chaves na mesinha de centro em vez do gancho na porta. Livros na estante em ordem diferente.

Coisas pequenas. Fáceis de achar que era falha de memória.

Só que comecei a testar. Antes de ir pro trabalho, arrumava objetos em padrões específicos. Três canetas na mesa formando triângulo. Quatro livros empilhados com a lombada pra fora. Quando voltava, os padrões estavam diferentes.

Alguém entrava no meu apartamento enquanto eu não estava.

Ou eu entrava no meu apartamento e não lembrava.

Configurei o notebook pra gravar enquanto eu estava no trabalho. Apontei pra sala, deixei rodando a noite toda. Quando cheguei em casa na manhã seguinte, conferi o vídeo.

Sete horas de uma sala vazia. Ninguém entrou. Ninguém mexeu em nada. Mas quando olhei pra mesinha de centro, o controle remoto estava do lado errado.

Tentei pensar racionalmente. Talvez eu estivesse mexendo nas coisas e não lembrando. Estresse, falta de sono, algum estado dissociativo. Marquei consulta com médico.

Mas os vídeos do trabalho continuavam piorando.

Vi eu mesma numa cabine de banheiro, sentada no chão. Vi eu mesma num porão com canos expostos e paredes de concreto. Vi eu mesma no porta-malas de um carro, encolhida, olhos abertos, sem me mexer.

Esse clipe era datado amanhã.

Ontem à noite vi eu mesma morrer.

O feed deu glitch às 4h52. Eu estava olhando pra uma sala que não reconhecia. Piso de azulejo, pia industrial, mesa de metal. Eu estava deitada na mesa. Sem me mexer. Olhos fechados.

Alguém entrou no quadro. Não dava pra ver o rosto. Usava luvas. Ficou parado em cima de mim por um tempo, só olhando. Depois pegou meu pulso, checou a pulsação.

Deixou meu braço cair e saiu do quadro.

O vídeo rodou mais três minutos. Só eu na mesa. Sem respirar. Depois cortou de volta pro feed normal.

O timestamp dizia que tinha sido gravado seis horas a partir daquele momento.

Liguei dizendo que estava doente. Falei pra supervisora que era intoxicação alimentar. Fui pra casa e tranquei todas as portas, conferi todas as janelas. Estou sentado na minha cozinha com todas as luzes acesas.

São 10h47 da manhã.

Em seis horas eu devo estar morta numa sala que nunca vi.

Mas é o seguinte que não sai da minha cabeça.

Puxei todos os clipes que salvei. Passei frame por frame. Procurando qualquer coisa que me dissesse de onde essas gravações estavam vindo.

No clipe de mim dormindo, aquele de dezoito minutos, tem um momento bem no final. Logo antes de cortar. A câmera se mexe. Só um pouquinho. Como se alguém tivesse ajustado.

E no canto inferior do quadro, por talvez meio segundo, dá pra ver um reflexo na janela.

Alguém parado no quarto. Me observando dormir.

A resolução é baixa demais pra ver detalhes. Mas dá pra ver o contorno. A forma.

Sou eu.

Sou eu que estou segurando a câmera.

Tenho que ir pro trabalho hoje à noite. Meu turno começa às 23h. Pensei em não ir, mas se eu já estiver morta até lá, que diferença faz?

E talvez quando eu chegar lá, finalmente veja de onde todos esses feeds estão vindo. Talvez eu encontre a fonte.

Ou talvez eu só assista acontecer.

Tenho ficado olhando os monitores pelo celular. O app da empresa deixa ver os feeds remotamente. Fico atualizando de poucos em poucos minutos.

Dez minutos atrás apareceu um clipe novo.

Estou na minha cozinha. Agora mesmo. Sentado à mesa com o notebook.

O ângulo da câmera é de trás de mim, por cima do ombro direito. Dá pra ver a tela. Dá pra ver o que estou digitando.

Olhei em volta na cozinha. Não tem nada atrás de mim além da parede.

Mas no celular, consigo me ver sentado aqui. Consigo ver a parte de trás da minha cabeça. Consigo ver minhas mãos no teclado.

O timestamp diz que está sendo gravado agora. Feed ao vivo.

Vou me levantar. Vou me virar.

Se tiver uma câmera, vou achar.

Se não tiver, então eu não sei o que estou olhando.

Acabei de me levantar e me virar.

Não tem nada aqui.

Mas no celular, ainda consigo me ver. Ainda sentado à mesa. Ainda digitando.

A pessoa na tela não se mexeu.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Há uma Sombra no Meu Quintal, e Ela Está Aprendendo a Ser Eu

Era 1h47 da manhã quando eu acordei de sobressalto. Achei estranho — eu quase nunca acordo no meio da noite. Normalmente durmo direto até o dia clarear, mas ali estava eu, de boca seca, encarando o reloginho digital. A Lucy não estava do meu lado na cama. Por um segundo nem lembrei onde ela estava, depois caiu a ficha: ela estava no plantão noturno do hospital.

Meio zonzo, saí rastejando da cama e desci pra cozinha pegar uma água.

A casa ficava vazia e silenciosa à noite, igual o bairro todo. Eu amava essa casa: tranquila, bem localizada, a poucos minutos do centro. Os vizinhos eram gente boa também — mesmo com as casas e os quintais colados uns nos outros, nunca rolava briga. Eu estava ali na cozinha, inclusive pensando em marcar um churrasco com a galera. Bebi um gole d’água — e foi aí que eu vi.

Uma silhueta preta. Mal dava pra enxergar na escuridão da noite, mas se destacava mesmo assim. Lá no fundo do quintal, perto da cerca. Uma forma humana: alta, magra, o contorno quase imperceptível. E ela só ficava lá parada, sem se mexer, olhando pra dentro pela porta de vidro da varanda.

Um arrepio desceu pela espinha. Que porra era aquela parada no meu quintal, me encarando daquele jeito? Por um momento nem ousei me mexer. A figura também não. Parecia que nem respirava. Só ficava olhando pra dentro — olhando direto pra mim. Senti que se eu não fizesse nada agora, ela ia dar o primeiro passo.

Não demorou muito pra o pânico virar raiva. Peguei a lanterna que eu guardava numa gaveta da cozinha e saí feito um louco pra varanda. Abri a porta de vidro com tudo, apontei o facho pra figura — e achei que tinha enlouquecido.

Porque não tinha ninguém lá.

Não tinha ninguém. Varri o quintal inteiro com a lanterna. Não era um quintal grande — a Lucy e as crianças mantinham tudo arrumadinho —, então nem dava pra dizer que alguém podia estar escondido atrás de um arbusto ou no mato alto. Não sabia o que pensar. Dei de ombros, culpando os olhos cansados e o fato de ter acordado no susto no meio da madruga. Devia estar só exausto mesmo.

Voltei pra dentro, pra cozinha, pra terminar o copo d’água pela metade. Mas mal cheguei no balcão, vi de novo. Pelo canto do olho, uma figura preta alta — o contorno inconfundível. Lá no quintal, exatamente como antes, olhando pra dentro.

Engoli em seco. Não ousei gritar; o Francis e o Tommy estavam dormindo lá em cima, e o bairro inteiro em silêncio absoluto. Fiquei com os olhos cravados na figura parada. Dessa vez decidi que ia sair de novo — mas ia correr atrás, quem quer que fosse. Não ia deixar alguém me aterrorizar dentro da minha própria casa.

Voltei pisando forte pra porta da varanda, sem tirar os olhos da figura lá fora. Já estava quase na porta quando percebi uma coisa estranha. A figura não estava só parada. As pernas dela se mexiam exatamente como as minhas. No começo achei que era coincidência… mas quando parei, ela parou também. Perfeitamente sincronizado.

Como se eu estivesse olhando pro meu próprio reflexo — só que do lado de fora, no escuro.

Entrei em pânico. Andei de um lado pro outro na cozinha. Lá fora, a figura fez o mesmo. Dava o passo igual ao meu. No começo realmente pensei que fosse algum tipo de reflexo, mas tinha algo errado nos passos dela. Como se estivesse só agora aprendendo a andar — às vezes desajeitada, às vezes sem saber onde colocar o pé. Que caralho era aquela coisa no meu quintal? Por que estava me imitando — e, mais importante, o que ela queria?

Não sabia o que fazer. A única ideia que tive foi apontar a lanterna de novo. Mas no instante em que acendi o facho de dentro da cozinha, não tinha nada. Só o reflexo da janela voltando pra mim. O quintal estava vazio outra vez.

Apaguei a lanterna, e a figura sumiu. Desapareceu. Nem uma silhueta no fundo do quintal. Era como se tivesse se dissolvido na escuridão.

Fiquei ali parado uns minutos, apavorado achando que não tinha ido embora de verdade — só se escondido em algum lugar que eu não via. Devo ter ficado uns meia hora ali, olhando pela janela da cozinha. Procurei em tudo, mas a figura não aparecia mais.

Como era quinta-feira de madrugada e eu tinha que trabalhar no dia seguinte, acabei subindo de novo. Conferi os meninos: os dois dormindo pesado. Da janela do quarto fiquei de olho no quintal mais um tempo, mas a figura não voltou. No fim, peguei no sono — embora cada nervo do meu corpo tivesse pavor de acordar e dar de cara com ela de novo.

O dia inteiro, a noite anterior ficava voltando na minha cabeça. Por que eu tinha acordado tão no susto? Quem — ou o quê — tinha estado no meu quintal? Contei pra Lucy à tarde, mas ela achou que eu estava zoando. Insistiu que eu devia estar cansado, talvez fosse algum tipo de paralisia do sono. Mas no fundo eu sabia que era outra coisa.

A noite chegou de novo. A Lucy tinha que acordar cedo no dia seguinte, então já tinha deitado. Eu não conseguia descansar. As crianças dormiam, e eu fiquei na cozinha, só vigiando. Lá pela meia-noite e meia, acabei cochilando no sofá. Acordei todo duro e dolorido. A casa estava escura, iluminada só pelo brilho da televisão. Meio grogue, levantei e fui pra cozinha pegar água. Foi aí que lembrei por que tinha ficado acordado até tão tarde.

Ela estava lá de novo. No quintal. A sombra preta em forma de gente. Observando.

Desconfiado, fiquei encarando de volta. Cheguei mais perto da janela, tentando distinguir o que era. Mas ela não se mexia — só ficava lá, alta e magra, uma silhueta preta.

Aí me veio uma ideia. Corri pegar o celular no sofá e voltei voando pra cozinha.

Tirei uma foto, mas na escuridão da noite quase não apareceu nada. Talvez tivesse uma figura na tela… ou talvez fosse só algum borrão da foto granulada.

Mas enquanto eu levantava o celular e tirava fotos da sombra, ela começou a me copiar. Desajeitada, como se não tivesse dedos de verdade. Ergueu o braço, mas o pulso dobrou errado, os dedos mais parecendo varas longas e quebradiças. Fingiu tirar foto também, embora a mão se mexesse de um jeito que parecia que ia partir ao meio.

Fiquei olhando pela janela da cozinha outra vez, os nervos à flor da pele. A figura preta não se mexia — só ficava vigiando as janelas da casa. Aí, de repente, começou a se mexer. Mas dessa vez não estava me imitando. Se mexia como se estivesse procurando alguém, olhando em volta com aqueles movimentos bruscos e desajeitados. Que porra ela estava fazendo? Depois, do nada, congelou de novo.

“Gordon, o que você tá fazendo?” a voz da Lucy sussurrou atrás de mim.

Quase tive um treco. Nem tinha percebido ela chegando. Estava totalmente absorto, perdido olhando pra figura no quintal.

“O quê?” gaguejei, assustado.

“O que você tá fazendo, Gordon?” ela chiou irritada. “São três da manhã e você tá aqui parado, olhando pela janela da cozinha. Que porra é essa?”

“Vem ver!” falei rápido, quase animado.

A Lucy veio pro meu lado. Ela ia pegar café mesmo, mas pelo menos olhou pela janela pro escuro.

No começo só revirou os olhos. Mas no instante em que viu, o sangue sumiu do rosto dela. Deu um passo pra trás, como se o vidro não protegesse mais da noite. Dava pra ver que ela tinha visto também. A figura no nosso quintal assustava ela tanto quanto me assustava.

“Que porra é essa, Gordon?” ela sussurrou, o pânico já na voz.

Só balancei a cabeça. Não sabia o que a gente estava olhando. Era humano sequer? Ou era algo completamente diferente — algo que não era desse mundo?

“Gordon, liga pra polícia,” a Lucy disse, branca que nem fantasma.

“E o que eu vou falar pra eles, Lucy?” retruquei nervoso. “Que tem uma sombra no meu quintal?”

Ela me fuzilou com os olhos, já puta da vida. Eu conhecia aquele olhar — se eu insistisse mais, ela ia ficar bem mais assustadora que a coisa parada lá fora.

Foi a Lucy quem acabou ligando pra polícia. Não me deu muito tempo pra reagir, mas eu entendi — ela estava nervosa e com medo.

Enquanto isso, eu não tirei os olhos da figura enquanto a Lucy falava no telefone. A sombra preta não se mexia. Ou melhor, só copiava a Lucy enquanto ela falava. Enquanto eu observava, percebi que estava ficando melhor — imitava os gestos dela com mais fluidez, quase natural.

“Daqui a pouco eles chegam. O que essa coisa tá fazendo?” a Lucy sussurrou, chegando do meu lado de novo.

“Está te copiando,” falei seco. “Enquanto você estava no telefone. Agora só tá olhando.”

“Essa coisa me dá um arrepio do caralho, Gordon,” a Lucy disse, apertando meu braço. “Me sinto tão insegura, e tô com medo pelas crianças.”

“Os meninos estão bem,” respondi calmo. “Já conferi eles.”

Não saímos da janela da cozinha. Ficamos só ali parados, olhando pra fora, até a Lucy finalmente ver o flash das luzes da viatura na frente da casa.

Chegaram dois policiais. A Lucy subiu pros meninos, e eu só tirei os olhos da sombra o tempo suficiente pra abrir a porta pra eles. Mas quando voltamos pra cozinha, ela tinha sumido. O quintal estava escuro e vazio.

Os policiais revistaram o quintal inteiro, até deram uma olhada rápida dentro de casa, mas não acharam nada. Não contamos exatamente o que tínhamos visto — pra falar a verdade, a gente mesmo não sabia. Só falei que alguém tinha ficado parado no quintal, e a gente não fazia ideia de quem era.

O lance da polícia não deu em nada.

A Lucy acabou indo pro trabalho. Consegui dormir um pouco depois que os policiais foram embora. Eles prometeram patrulhar o bairro e dar uma passada na nossa casa de vez em quando.

A figura preta não voltou. Mas demorei muito pra pegar no sono de novo — tinha sido a segunda vez que eu via ela, e a segunda vez que simplesmente desaparecia.

Minha sexta passou rápido. Levei as crianças pra escola, e como era sexta, tive só meio período no escritório. Mas quando cheguei em casa, levei um susto: a Lucy estava na sala, com todas as nossas coisas já arrumadas pras quatro pessoas.

Ela disse que não ficava mais ali. Que a gente devia ir tudo pra casa dos pais dela. Mas eu não queria sair da nossa casa. Era nossa, o nosso lar. Não ia jogar tudo fora por causa de uma sombra — eu era feito de material mais forte que isso. Discutimos um tempo, e no fim ela e as crianças foram pros pais dela pro fim de semana, enquanto eu fiquei pra resolver essa parada da sombra de uma vez por todas.

A primeira coisa que fiz foi comprar uma câmera. Instalei uma câmera com visão noturna do lado de fora, apontada direto pro lugar onde a sombra costumava aparecer. O segundo passo foi comprar uma pistola de gás. Tinha certeza que naquela noite ia acabar com essa palhaçada de susto.

À noite, me tranquei no quarto. Fiquei olhando o feed da câmera do quintal no notebook, rodando na base da cafeína pra garantir que não ia dormir até a sombra finalmente aparecer.

Devo ter cochilado. Quando acordei, já tinha passado da meia-noite faz tempo. O notebook tinha travado a tela. Em pânico, destravei e abri a câmera do quintal.

O vídeo não mostrava nada. O quintal estava completamente vazio. Mas quando aumentei o volume pra ouvir o áudio, peguei algo.

“Foi vista aqui ontem também?” perguntou uma voz de homem.

Depois veio só um barulho confuso, como alguém tentando falar mas sem conseguir formar as palavras.

Eu sabia que era a sombra. Peguei a pistola e, feito quem não conhece medo, desci pisando forte pra cozinha.

Ela estava lá de novo, parada no quintal. O negócio todo era desconcertante: na câmera, nada aparecia — mas pessoalmente, lá estava ela. Abri a porta da varanda com força e apontei a pistola de gás pra sombra.

“Sai daqui, seu filho da puta!” gritei.

Ela não se mexeu. Em vez disso, com gestos estranhos, tortos e lentos, imitou apontar algo pra mim — embora as mãos estivessem vazias.

Na minha fúria, apertei o gatilho. A pistola deu um estalo alto, e o tiro acertou a cerca do quintal. Passou direto pela figura como se ela fosse mesmo só sombra.

Fiquei de boca aberta. Como eu podia ter achado que uma pistola de gás ia parar essa coisa? Quando abaixei a arma, ela abaixou as mãos também. Fiquei só ali na porta da varanda, encarando no escuro a silhueta preta alta que nunca dava pra ver direito.

“Que porra você é?” sussurrei, quase só pra mim mesmo.

“Gordon, o que você tá fazendo?” falou a voz da Lucy.

Mas a Lucy não estava lá. Ela não tinha voltado pra me checar. A voz veio de fora — do quintal, onde a figura estava.

Fiquei todo arrepiado, as pernas tremendo.

“Senhor, infelizmente não encontramos nada.” Veio outra voz em seguida, dessa vez de homem. Era a voz do policial da noite passada.

Um gelo correu nas minhas veias. Que caralho era essa coisa no meu quintal? A gente morava ali fazia sete anos — por que agora? Por que aqui?

E foi nesse momento que minha coragem acabou de vez.

“O que eu devo falar pra eles, Lucy?” veio a minha própria voz do quintal.

E no instante em que falou essas palavras, a sombra disparou — direto pra cima de mim. Correu como um atleta profissional.

Apavorado, entrei correndo na cozinha, peguei a chave do carro no criado-mudo e saí voando pela porta da frente. Atrás de mim ouvi passos pesados se aproximando, e sem parar, a minha própria voz repetindo:

“O que eu devo falar pra eles, Lucy?”

Saí de casa direto pro carro. Pulei dentro, tremendo todo pra encaixar a chave na ignição. E aí eu vi: uma figura preta parada na porta aberta da casa. Tão alta que quase encostava no batente de cima.

Ela não veio atrás. Só ficou lá, olhando. Enquanto eu saía de ré com o carro, peguei um último vislumbre dela no retrovisor — erguendo a mão pra dar tchau. Primeiro rígido e travado, como se não soubesse mexer os braços direito… depois de repente fluido, como o aceno de um velho amigo.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Eu não tenho cachorro

Moro num prédio alto, daqueles que só dá pra acessar por um túnel duplo de trem ou carro. Anos atrás isso aqui era uma base militar, mas foi convertido em moradia residencial. O lugar é bem sombrio, e todo mundo que mora aqui se mudou ou ficou pelo mesmo motivo: a gente queria isolamento. Por ser tão isolado — praticamente uma ilha —, temos todas as comodidades necessárias pra sobreviver sozinho. Tem academia, escola fundamental, consultório médico, delegacia e umas poucas lojinhas. Eu trabalho numa loja de conveniência simples no quarto andar.

Acordei numa manhã fria de inverno e dei de cara com minha goldendoodle branca gigante deitada na cama comigo. Ela me manteve aquecido, e aquele cheiro familiar de pipoca dela me fez sorrir na hora que eu voltei à consciência total. Dei um carinho na cabeça dela e nós nos levantamos juntos. Enquanto eu me vestia, ela foi pra sala e se apoiou no parapeito da janela pra olhar a paisagem completamente branca lá fora — estava rolando uma nevasca dos infernos. Não tinha tigela nem ração na cozinha. Fiz uma nota mental pra comprar umas coisas no caminho de volta do trabalho, mas ela era uma cachorra grande e aguentava ficar sem uma refeição. Deixei um pote de cerâmica com água na cozinha, dei um carinho de despedida e saí.

No elevador antigo, mas confiável, trombei com Agnes Keller, uma mulher de meia-idade do nono andar. Ela estava com aquelas roupas cor-de-rosa de sempre. Agnes trabalhava no consultório com o Dr. Pyre. O que me chocou foi que o rosto enrugado dela estava rachado num sorriso. Ela era famosa por ser uma das pessoas mais carrancudas do prédio. Acho que nunca tinha visto nada além de uma cara fechada daquela mulher até hoje. Dei um oi simples e não quis estragar o bom humor dela fazendo perguntas. Mas ela mesma se explicou sem eu pedir. O filho dela tinha contado uma piada engraçada naquela manhã. O engraçado é que Agnes não tinha filho.

Marcus Lin estava andando de um lado pro outro na loja com uma prancheta na mão e me olhou com aquela mistura habitual de desprezo e insatisfação. Meu gerente me botou pra trabalhar na hora, mandando pro estoque repor mercadoria. Por sermos tão isolados, o depósito atrás da loja era enorme e lotado de suprimentos de emergência, bem além do padrão normal. Lin gostava de tocar a loja como se estivéssemos no meio de um centro turístico lotado. Eu aguentava o estilo ditatorial dele porque isso fazia os dias passarem rápido. Depois do nosso “horário de pico” da manhã — umas seis pessoas, mais ou menos —, desci o corredor onde ficava a ração pra cachorro. Um pensamento esquisito me veio à cabeça enquanto eu olhava as poucas opções. Lembrei de uma conversa com Lin em que ele reclamava que a única razão pra gente estocar aquela porra de ração era por causa da Sra. Innes, do segundo andar. Ela era a única pessoa no prédio que tinha cachorro.

Lin me liberou pro intervalo obrigatório de quinze minutos e eu voltei pro meu apartamento com uma lata de ração na mão. Meu gerente nem comentou a compra. A cachorra estava sentada no sofá assistindo TV. Ela tinha um cheiro tão familiar, e só de ver aquela criatura fofinha já dominava qualquer sensação de desconforto com uma tranquilidade gostosa. Ela correu na minha direção e se esfregou na minha perna, ganhando uma coçada na barriga. Nem pensei em como ela tinha ligado a TV. Ela devorou a ração com gula e abanou o rabo. Lin ia me dar um sermão daqueles se eu demorasse mais que o permitido, então deixei a cachorra com a promessa de levá-la pra passear no meu intervalo de almoço maior. Só quando já estava de volta no elevador é que percebi que eu não conseguia lembrar o nome da minha própria cachorra.

Quando voltei pra loja, fiquei surpreso de não encontrar Lin. Ele nunca deixava o lugar sem ninguém e fazia os intervalos ali mesmo, comendo macarrão instantâneo e me criticando. Aí encontrei o bilhete escrito à mão dele. Ia passar o intervalo de almoço em casa com a esposa. O Sr. Lin não era casado. Minha cabeça começou a ficar enevoada enquanto eu tentava juntar as peças da manhã. Uma sensação esmagadora de pavor subiu dos meus pés, fazendo minha pele arrepiar e os cabelos ficarem em pé. Repetidas vezes eu revivia a memória vívida de acordar ao lado da minha cachorra e depois vê-la sentada no sofá. Por que eu tinha lembrado dela como branca e fofa? Ali parado na loja, lutando pra não gritar, eu soube com uma certeza absoluta que a coisa que estava me esperando no apartamento na verdade era magra, cinza e tinha dentes afiados.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

De onde caralhos tá vindo esse sangue?

Sou lurker antigo aqui e resolvi contar uma parada que rolou com meus pais há uns 30 anos. Eu sou viciado em história paranormal, adoro quebrar a cabeça tentando achar explicação lógica, mas essa aqui sempre me deixou de cara, deixou meus pais (os dois céticos pra cacete) e qualquer pessoa que eles contaram também. Então queria saber se alguém já passou por algo parecido ou tem uma explicação minimamente razoável.

Em 1995 meus pais moraram em Bangalore, na Índia, por quase um ano porque meu pai pegou um trampo temporário lá. Como era só um contrato curto, quando a empresa ofereceu um duplex pra alugar eles toparam na hora. Veio com as regalias típicas da classe média alta indiana: duas empregadas que corriam atrás de limpeza, mercado e quase toda a comida. Vida mansa pra um casal recém-casado e sem filho, praticamente tudo resolvido pra eles.

Na época minha mãe não trabalhava, ficava em casa enquanto meu pai ia pro batente. No mesmo andar tinha outro apartamento com uma véia morando sozinha. Minha mãe cumprimentava educada, mas a mulher sempre olhava torto e deixava ela desconfortável. Na terceira ou quarta vez que se falaram, a véia perguntou:  

“Tá tudo bem morar nesse apartamento?”  
Minha mãe deve ter feito que sim com a cabeça, aí a mulher insistiu:  

“Você não sente nada não?”  

Minha mãe ficou bolada com a pergunta, mas a véia não explicou porra nenhuma. Depois disso, toda vez que se cruzava no corredor a velha mandava: “Não fica sozinha aí não, filha.” Minha mãe achou que era só paranoia de idoso mesmo.

Numa manhã normal, solzão e fresquinho, umas 8h. Uma das empregadas tinha acabado de passar pano no chão, minha mãe e minha avó paterna (que tava de visita rápida) tavam na cozinha, meu pai tava na sala numa das poltronas lendo jornal. O esquema era duas poltronas com uma mesinha no meio onde ficava o telefone fixo, e uma sacada grande com porta de correr do lado esquerdo de quem tá sentado.

O telefone toca. Minha mãe atende, era um parente ligando pra avisar que minha bisavó materna tinha batido as botas – tinha mais de 90 anos, morte natural. Minha mãe era muito apegada pra caralho com a avó, ficou super abalada. Passou o telefone pro meu pai falar também. Quando ele estica o braço pra pegar, cai uma baita gota de um troço que parecia sangue no chão. Depois uma menor, depois outra, outra, até parar perto da porta de correr, sem acertar o pé dele. Eles descrevem como aquele sangue vermelho vivo de quem corta o pulso.

Depois que desligaram, os dois se olharam totalmente perdidos. A empregada tinha acabado de limpar, ninguém tava cortado, teto sem infiltração… então que porra foi aquela? Mesmo sendo céticos, não acharam explicação nenhuma. A empregada, que ainda tava ali, se recusou a chegar perto, então o negócio ficou lá. Com o tempo o “sangue” secou, virou um pozinho marrom. A vida seguiu, minha mãe ficou meio bolada e começou a seguir o conselho da véia: passava as tardes numa biblioteca ali perto. Meu pai encontrava com ela na volta do trabalho e eles voltavam juntos.

Meses depois, o incidente já tava quase esquecido. Era a última noite deles naquela casa – no dia seguinte pegavam voo cedinho e davam adeus pra Bangalore pra sempre. Tavam no quarto arrumando mala, minha mãe deixou alguma coisa cair no chão, abaixou pra pegar e… replay do caralho. Mesma coisa: uma gotona + várias menores, passando do lado da mão dela sem acertando o chão. Dessa vez os dois piraram de vez, chegaram a pensar em ir pra hotel passar as poucas horas que faltavam. Saíram de Bangalore sem explicação nenhuma.

O próximo casal jovem que ia morar lá era amigo deles, mesmo trampo na empresa. Eram ainda mais céticos, deram risada das histórias dos meus pais e se mudaram de boa. Numa madrugada, a mulher acordou com sede, desceu pra pegar água. Quando tava subindo a escada, começou a mesma merda: a cada degrau que ela subia, caía uma gota de sangue do lado do pé dela. Ela levou um susto do caralho, teve uma crise epilética e caiu escada abaixo. O barulho acordou o marido, que veio correndo e levou ela pra cama. Ela ficou bem depois.

De manhã o marido tava convencido que era pegadinha. Raspou o sangue seco com um pedaço de papelão duro, botou num vidrinho e ia levar pro laboratório no caminho pro trabalho. Saiu do prédio, chamou um auto-rickshaw (aquele triciclo motorizado, tuktuk), entrou. No segundo que ele sentou, o motorista perdeu o controle do nada, o auto rodopiou 360°, jogou ele e a pasta do trabalho pra fora. Motorista saiu ileso, o cara quebrou o braço e o vidrinho sumiu do bolso fundo da pasta fechada.

Tem mais umas coisinhas menores que rolaram nesse apê, mas já tá gigantesco, então paro por aqui. Por fim: o apartamento ainda existe, a gente já passou na frente várias vezes quando vai pra Bangalore.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon