Quando o meu irmãozinho nasceu, eu tinha nove anos. Minha mãe tinha acabado de se casar de novo depois de um divórcio longo, mas silencioso. Meu pai biológico nunca tinha aparecido muito desde que eu me entendia por gente, e, pra mim, nós quatro éramos a única família que importava.
Meu irmão caçula, carinhosamente batizado de Amir, era a coisinha mais fofa do mundo. Nos encontros de família, minhas primas e tias faziam fila pra ficar perto dele. Até eu, que era uma menininha louca por atenção, não resistia àquele sorrisinho dele, aos olhos castanhos enormes e curiosos que pareciam gritar: “Olha pra mim! Não sou o bebê mais lindo que você já viu na vida?”.
Numa noite de verão em que eu não conseguia dormir, fui na ponta dos pés até o quarto dele, tomando cuidado pra não pisar nos lugares do chão que rangiam. A porta estava entreaberta o suficiente pra eu ver o luar entrando pela cortina e iluminando o corpinho dele. Ele dormia profundamente, o peitinho subindo e descendo devagarinho, no ritmo da respiração.
Resolvi que queria ele comigo. Peguei ele no colo, tirei do berço e saí correndo o mais rápido que consegui sem acordar a minha mãe com o sequestro do bebê. Ele se mexeu um pouquinho, eu parei, depois deslizei pra dentro do meu quarto e deitei ele com cuidado do meu lado na cama. Os olhinhos do Amir se moviam rápido atrás das pálpebras, e o ponto mole na cabeça dele subia e descia no compasso da respiração.
Eu já estava quase pegando no sono quando percebi que o relevo se mexeu de um jeito... estranho. Parecia que alguma coisa se contorcia logo abaixo da pele por uma fração de segundo. Meus olhos semicerrados se abriram de vez, eu me sentei um pouco na cama e foquei ali, concentrada. Como se tivesse sido pega no flagra, o movimento parou e voltou ao ritmo normal. Fiquei olhando mais um tempinho, depois deitei de novo e finalmente dormi.
Se eu tivesse entendido o que era aquilo na época, talvez as coisas fossem diferentes.
Quando eu fiz 14 anos, o Amir tinha virado um perigo ambulante. Ele sempre estava roxo de tanto se aventurar, e por mais que eu tentasse trancar ele fora do meu quarto, o moleque dava um jeito de entrar com aqueles dedinhos grudentos e os cachos selvagens e indomáveis. Aquele ponto mole nunca tinha endurecido totalmente por causa do que os médicos chamavam de ossificação óssea atrasada. Resumindo: aquela área simplesmente nunca virou osso. Ele vivia normalmente, então o problema ficou lá no fundo do armário.
Claro que a minha mãe ainda tomava cuidado. Numa noite em que ela saiu, me fez prometer que eu ia impedir ele de fazer qualquer besteira e que ficaria de olho nele o tempo todo. Quando ela foi embora, liguei os Teletubbies pro Amir na sala, joguei papel e giz de cera no chão e me tranquei no quarto.
Não demorou muito pra eu ouvir um estrondo daqueles. Corri pra sala e vi panelas e frigideiras espalhadas pra todo lado. Meu irmão olhou pro estrago que tinha feito, depois olhou pra mim, procurando uma desculpa decente. “Guarda essa, vai”, eu disse, levantando a mão e começando a empilhar as panelas de volta com a outra. Terminei aquilo e voltei pro quarto, não sem antes dar um aviso bem sério pra ele sentar a bunda de novo no lugar.
Depois de mais ou menos uma hora fuçando no quarto, ouvi outro baque pesado. Dessa vez não eram só panelas. Saí do quarto resmungando e desci as escadas torcendo pra bagunça não ser grande. Não era bagunça.
O Amir estava tendo uma convulsão violenta no chão da sala. Um som gutural saía do corpinho dele, seguido de gritos agudos. Corri até ele, levantei a cabeça dele do chão com as mãos. O corpo inteiro tremia como vara verde. Contra tudo o que eu queria, larguei ele no chão e voei pro meu quarto pra pegar o celular, ligando pra emergência enquanto corria de volta pro meu irmão. Meu coração batia tão forte que quase saía pela boca, e no meio do caos eu mal percebi o ponto mole na cabeça dele tremendo e se abrindo até começar a sangrar... e depois sair outra coisa.
Alguma coisa cutucava a superfície do relevo, procurando a saída. Eu gritei, apertando meu irmão mais forte contra mim. O corpo dele sacudia ainda mais, como se tentasse expelir aquilo sozinho. Um caroço, parecendo um pedaço de carne jogada fora, rasgou a pele e deslizou pra fora, mal tinha uns dois centímetros e meio. Não atravessou o crânio; passou por um espaço que era só dele, uma casa feita dentro da cabeça do meu irmãozinho.
Num instante de puro horror, larguei o corpo do meu irmão e rastejei pra trás, gritando com um terror que rasgava a minha garganta enquanto a criatura terminava o próprio nascimento. Ela escorreu pelo rosto do Amir, que agora estava desacordado, e caiu no chão. Foi ali que ela se abriu, bem no meio, e virou do avesso pra revelar um par de pernas de inseto que se desenrolaram pra fora como uma borboleta saindo do casulo.
Foi aí que eu apaguei.
Acordei numa cama de hospital, com uma bolsa de soro pingando no meu braço. O silêncio era bom, só o gotejar frio do soro fisiológico e a minha respiração. Até que as memórias daquela noite me atingiram de novo, e eu me sentei de uma vez. Minha mãe, que estava sentada do meu lado o tempo todo, levantou correndo e veio até mim. Eu puxei ela pra um abraço apertado e desabei chorando nos braços dela.
“Tá tudo bem! Tá tudo bem!”, ela repetia, passando a mão nas minhas costas pra tentar me acalmar.
“O Amir tá bem? Cadê ele?!”, perguntei entre lágrimas.
“Ele tá em outro quarto. Ele vai ficar bem”, minha mãe respondeu, a voz cheia de medo e preocupação que ela tentava esconder mal e mal.
Respirei fundo e soltei ela, minha cabeça repassando tudo o que tinha acontecido.
“Quando te encontraram, vocês dois estavam desmaiados no chão. Eu vim o mais rápido que consegui. O que aconteceu???”, ela perguntou, me apertando.
“Eu não sei, eu só... alguma coisa saiu de dentro dele, cadê aquilo? Estava na cabeça dele, naquele ponto. Não era osso, era aquela coisa.” Minha voz tremia enquanto eu finalmente tentava explicar o que tinha visto.
As sobrancelhas da minha mãe se franziram. “Como assim? O Amir teve uma convulsão. Aconteceu muita coisa numa noite só. Só... descansa, tá bem?”, ela disse, me deu um beijo na testa e me deixou sozinha pra ir ver o meu irmão.
Os dias seguintes foram passados tentando explicar que uma criatura tinha passado pela cabeça do meu irmão. Meus apelos caíam em ouvidos moucos. O próprio Amir não lembrava de nada além do programa de TV e depois o hospital. A rachadura na cabeça dele foi explicada como ferimento da queda. Eu sei que não foi isso, mas é a minha palavra contra a lógica e tudo o que qualquer pessoa acreditaria.
Não sei o que eu espero colocando minha história aqui. Já se passaram anos, e o Amir, depois de ficar internado um tempo, se recuperou rápido com nada além de uns pontos. Toda vez que vejo aquela cicatriz, eu penso naquela coisa que fez morada dentro dele... e no que ela pode ter virado.

