domingo, 4 de janeiro de 2026

O ponto mole na cabeça do meu irmão era mais do que parecia...

Quando o meu irmãozinho nasceu, eu tinha nove anos. Minha mãe tinha acabado de se casar de novo depois de um divórcio longo, mas silencioso. Meu pai biológico nunca tinha aparecido muito desde que eu me entendia por gente, e, pra mim, nós quatro éramos a única família que importava.

Meu irmão caçula, carinhosamente batizado de Amir, era a coisinha mais fofa do mundo. Nos encontros de família, minhas primas e tias faziam fila pra ficar perto dele. Até eu, que era uma menininha louca por atenção, não resistia àquele sorrisinho dele, aos olhos castanhos enormes e curiosos que pareciam gritar: “Olha pra mim! Não sou o bebê mais lindo que você já viu na vida?”.

Numa noite de verão em que eu não conseguia dormir, fui na ponta dos pés até o quarto dele, tomando cuidado pra não pisar nos lugares do chão que rangiam. A porta estava entreaberta o suficiente pra eu ver o luar entrando pela cortina e iluminando o corpinho dele. Ele dormia profundamente, o peitinho subindo e descendo devagarinho, no ritmo da respiração.

Resolvi que queria ele comigo. Peguei ele no colo, tirei do berço e saí correndo o mais rápido que consegui sem acordar a minha mãe com o sequestro do bebê. Ele se mexeu um pouquinho, eu parei, depois deslizei pra dentro do meu quarto e deitei ele com cuidado do meu lado na cama. Os olhinhos do Amir se moviam rápido atrás das pálpebras, e o ponto mole na cabeça dele subia e descia no compasso da respiração.

Eu já estava quase pegando no sono quando percebi que o relevo se mexeu de um jeito... estranho. Parecia que alguma coisa se contorcia logo abaixo da pele por uma fração de segundo. Meus olhos semicerrados se abriram de vez, eu me sentei um pouco na cama e foquei ali, concentrada. Como se tivesse sido pega no flagra, o movimento parou e voltou ao ritmo normal. Fiquei olhando mais um tempinho, depois deitei de novo e finalmente dormi.

Se eu tivesse entendido o que era aquilo na época, talvez as coisas fossem diferentes.

Quando eu fiz 14 anos, o Amir tinha virado um perigo ambulante. Ele sempre estava roxo de tanto se aventurar, e por mais que eu tentasse trancar ele fora do meu quarto, o moleque dava um jeito de entrar com aqueles dedinhos grudentos e os cachos selvagens e indomáveis. Aquele ponto mole nunca tinha endurecido totalmente por causa do que os médicos chamavam de ossificação óssea atrasada. Resumindo: aquela área simplesmente nunca virou osso. Ele vivia normalmente, então o problema ficou lá no fundo do armário.

Claro que a minha mãe ainda tomava cuidado. Numa noite em que ela saiu, me fez prometer que eu ia impedir ele de fazer qualquer besteira e que ficaria de olho nele o tempo todo. Quando ela foi embora, liguei os Teletubbies pro Amir na sala, joguei papel e giz de cera no chão e me tranquei no quarto.

Não demorou muito pra eu ouvir um estrondo daqueles. Corri pra sala e vi panelas e frigideiras espalhadas pra todo lado. Meu irmão olhou pro estrago que tinha feito, depois olhou pra mim, procurando uma desculpa decente. “Guarda essa, vai”, eu disse, levantando a mão e começando a empilhar as panelas de volta com a outra. Terminei aquilo e voltei pro quarto, não sem antes dar um aviso bem sério pra ele sentar a bunda de novo no lugar.

Depois de mais ou menos uma hora fuçando no quarto, ouvi outro baque pesado. Dessa vez não eram só panelas. Saí do quarto resmungando e desci as escadas torcendo pra bagunça não ser grande. Não era bagunça.

O Amir estava tendo uma convulsão violenta no chão da sala. Um som gutural saía do corpinho dele, seguido de gritos agudos. Corri até ele, levantei a cabeça dele do chão com as mãos. O corpo inteiro tremia como vara verde. Contra tudo o que eu queria, larguei ele no chão e voei pro meu quarto pra pegar o celular, ligando pra emergência enquanto corria de volta pro meu irmão. Meu coração batia tão forte que quase saía pela boca, e no meio do caos eu mal percebi o ponto mole na cabeça dele tremendo e se abrindo até começar a sangrar... e depois sair outra coisa.

Alguma coisa cutucava a superfície do relevo, procurando a saída. Eu gritei, apertando meu irmão mais forte contra mim. O corpo dele sacudia ainda mais, como se tentasse expelir aquilo sozinho. Um caroço, parecendo um pedaço de carne jogada fora, rasgou a pele e deslizou pra fora, mal tinha uns dois centímetros e meio. Não atravessou o crânio; passou por um espaço que era só dele, uma casa feita dentro da cabeça do meu irmãozinho.

Num instante de puro horror, larguei o corpo do meu irmão e rastejei pra trás, gritando com um terror que rasgava a minha garganta enquanto a criatura terminava o próprio nascimento. Ela escorreu pelo rosto do Amir, que agora estava desacordado, e caiu no chão. Foi ali que ela se abriu, bem no meio, e virou do avesso pra revelar um par de pernas de inseto que se desenrolaram pra fora como uma borboleta saindo do casulo.

Foi aí que eu apaguei.

Acordei numa cama de hospital, com uma bolsa de soro pingando no meu braço. O silêncio era bom, só o gotejar frio do soro fisiológico e a minha respiração. Até que as memórias daquela noite me atingiram de novo, e eu me sentei de uma vez. Minha mãe, que estava sentada do meu lado o tempo todo, levantou correndo e veio até mim. Eu puxei ela pra um abraço apertado e desabei chorando nos braços dela.

“Tá tudo bem! Tá tudo bem!”, ela repetia, passando a mão nas minhas costas pra tentar me acalmar.

“O Amir tá bem? Cadê ele?!”, perguntei entre lágrimas.

“Ele tá em outro quarto. Ele vai ficar bem”, minha mãe respondeu, a voz cheia de medo e preocupação que ela tentava esconder mal e mal.

Respirei fundo e soltei ela, minha cabeça repassando tudo o que tinha acontecido.

“Quando te encontraram, vocês dois estavam desmaiados no chão. Eu vim o mais rápido que consegui. O que aconteceu???”, ela perguntou, me apertando.

“Eu não sei, eu só... alguma coisa saiu de dentro dele, cadê aquilo? Estava na cabeça dele, naquele ponto. Não era osso, era aquela coisa.” Minha voz tremia enquanto eu finalmente tentava explicar o que tinha visto.

As sobrancelhas da minha mãe se franziram. “Como assim? O Amir teve uma convulsão. Aconteceu muita coisa numa noite só. Só... descansa, tá bem?”, ela disse, me deu um beijo na testa e me deixou sozinha pra ir ver o meu irmão.

Os dias seguintes foram passados tentando explicar que uma criatura tinha passado pela cabeça do meu irmão. Meus apelos caíam em ouvidos moucos. O próprio Amir não lembrava de nada além do programa de TV e depois o hospital. A rachadura na cabeça dele foi explicada como ferimento da queda. Eu sei que não foi isso, mas é a minha palavra contra a lógica e tudo o que qualquer pessoa acreditaria.

Não sei o que eu espero colocando minha história aqui. Já se passaram anos, e o Amir, depois de ficar internado um tempo, se recuperou rápido com nada além de uns pontos. Toda vez que vejo aquela cicatriz, eu penso naquela coisa que fez morada dentro dele... e no que ela pode ter virado.

Minha experiência aterrorizante nos Fuzileiros Navais

Estou escrevendo isso porque fiz um post curto na seção de comentários de um TikTok e muita gente quis ouvir a história completa, então aqui vai.

Meu nome é Jackson e eu servi nos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Minha função no Exército era a 1833 (Operador de Veículo de Assalto Anfíbio). Pense em um tanque que flutua e anda na água. Ele pode transportar fuzileiros na parte de trás enquanto realizamos operações de navio para terra, travessias de rios, apoio blindado durante a tomada de cidades, etc. Fui designado para o Havaí durante meu período de serviço e fazia parte da Combat Assault Company (não, não do Combat Assault Battalion, já que o batalhão infelizmente foi desativado antes da Combat Assault Company).

Lá no Havaí, éramos conhecidos por realizar muito mais operações aquáticas em comparação com outras bases que também tinham nossos veículos. Essas operações às vezes são conhecidas como splashes e, bem, na minha unidade nós iríamos conduzir o treinamento de splash mais longo de todo o Corpo de Fuzileiros Navais. No meu veículo estavam meu Staff Sergeant (SSGT, para abreviar), meu Corporal (CPL, para abreviar) e meu amigo, que vou chamar de Chris. Nosso pelotão (12 veículos, cada um com pelo menos 4 fuzileiros) começa a executar o splash e tudo vai muito bem. Fazemos os exercícios, entramos em diferentes formações, passamos por simulações de situações de emergência. Chegamos à praia onde deveríamos desembarcar e continuamos com o treinamento.

Perto do fim do dia, começamos a posicionar nossos veículos na praia, de modo que todos ficassem alinhados em coluna ao longo da faixa de areia, com a frente dos veículos voltada para o oceano. Meu SSGT nos manda comer nossas MREs e começar a nos preparar para a noite, dizendo que, depois de fazermos a conferência das armas e do efetivo, iríamos montar o firewatch. Para quem não sabe, firewatch é quando, em algum momento da noite, é sua responsabilidade ficar acordado enquanto todo mundo dorme e garantir que tudo esteja em ordem, como: nenhum ataque surpresa, nenhum suicídio, ninguém roubando nada, etc.

Fazemos a contagem, começamos a distribuir os horários do firewatch e eu sou o filho da puta azarado que pega das 01h00 às 03h00 (1 da manhã às 3 da manhã, para quem não conhece o horário militar). Digo “beleza” para o meu Cabo e começo a me preparar para dormir, assim consigo pegar um pouco de sono antes do meu amigo Chris vir me acordar para o meu turno de firewatch. No meu trabalho, todos dormimos dentro dos veículos, já que eles são espaçosos e nos protegem do clima. E, diferente do firewatch típico de outras funções, nós também fazemos o firewatch dentro dos próprios veículos. Você tem que subir até a torre do veículo e observar os arredores.

Assim que me acomodo, apago rápido de tão exausto que eu estava.

Acordo com um sobressalto repentino. Olho para a parte de trás do veículo e vejo meu amigo Chris inclinado sobre mim, com uma expressão de preocupação no rosto, gotículas de suor na testa e um franzir profundo entre as sobrancelhas.

— É a sua vez no firewatch — ele diz.

Ainda grogue e com a garganta seca, pergunto: — Você tá bem? Parece meio tenso.

A expressão dele não muda. — Tô só cansado e acho que minha mente tá pregando peças em mim — ele responde.

Enquanto começo a me levantar e vestir o uniforme, pergunto: — O que você tá vendo lá fora?

Pensando comigo mesmo que talvez fosse algum dos nossos amigos sendo zoado ou passando por algum trote.

Ele me encara diretamente nos olhos e diz: — Eu não sei, mas não é normal, e eu não quero mais falar sobre isso.

Assustado com a grosseria repentina, levanto as mãos em sinal de rendição e começo a subir para dentro da torre, para iniciar a vigilância do lado de fora. Assim que estou lá em cima, fico olhando através dos vidros ao redor da torre, tentando identificar qualquer coisa fora do comum, mas não vejo nada (é claro). Os minutos passam com uma lentidão agonizante, sem dúvida porque eu estava cansado e louco para voltar a dormir, e quase exatamente na metade do meu turno, vejo areia sendo chutada no canto do meu campo de visão. Começo a girar a torre para olhar o que estava causando aquilo, porque parecia bastante violento, e fico preocupado achando que alguém poderia estar brigando.

Foi então que eu vi.

Uma figura preta e esguia, parecida com um ser humano, mas sem rosto e sem roupas. A luz da lua refletia em sua pele negra e espessa, dando um brilho estranho, como se fosse escorregadia. No instante em que meus olhos pousaram nela, a coisa parou de cavar imediatamente e ajustou o corpo para ficar de frente para mim, quase como se tivesse me percebido de alguma forma. Fiquei completamente imóvel, com medo de que, se me mexesse, aquilo me sentisse e partisse para cima de mim.

— Você tá vendo isso, né? — Chris pergunta.

A criatura, com uma velocidade assustadora, sobe pelo veículo ao lado e desaparece do outro lado.

— Sim — sussurro tão baixo que tenho 90% de certeza de que o Chris leu meus lábios em vez de realmente me ouvir.

— Quer que eu fique acordado com você? Posso entrar no posto do motorista e vigiar junto contigo — ele pergunta.

— Por favor — respondo de forma trêmula, sem pensar.

Ele sobe para o assento do motorista e, assim que se senta, ouvimos um clang. Em seguida, passos apressados, quase idênticos ao som de um gato correndo sobre um piso de madeira. No fundo do meu estômago, eu soube. Aquela criatura estava em cima do nosso veículo. Não tive coragem de virar para olhar pelo vidro atrás de mim, nem soltei a mão da alavanca da torre.

Ouço a criatura subir e se posicionar bem em cima da escotilha, exatamente onde eu estava embaixo. Fiquei ali parado por algo que pareceu uns dez minutos até ter coragem de me mexer. Prendendo a respiração, criei coragem e comecei a girar a torre para ver se ela sairia dali. Apertei a alavanca com força e comecei a girar no sentido anti-horário, voltando a ficar de frente para o oceano. A criatura não se mexeu até eu parar. Então, lentamente, vi seus braços longos se estenderem para baixo, à minha frente, agarrando o corrimão na extremidade do veículo. Dedos compridos e tortos, em ângulos estranhos, como se tivessem sido quebrados cem vezes e cicatrizado errado em todas elas. Com um empurrão poderoso, a criatura se lançou por cima do corrimão e caiu na areia.

Eu a observei enquanto ela rastejava lentamente até a beira da praia e então afundava no oceano, desaparecendo da vista.

Não vi aquela criatura novamente pelo resto do treinamento, e meu amigo também não. Agora, não sei dizer se minha mente estava me enganando por causa do cansaço extremo ou se aquilo foi real. O que eu sei é que Chris e eu nunca mais falamos sobre isso e, pelo resto do nosso tempo nos Fuzileiros Navais, sempre ficamos em alerta máximo sempre que tínhamos firewatch.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Nunca mais vou dormir na casa da minha namorada, deixe eu explicar o porquê

A mãe dela sempre me deu arrepios.

Quero dizer, eu sempre achei que tinha alguma coisa meio errada com ela — nada absurdo demais, só algo incômodo, inconveniente. Mas aquilo foi a gota d’água. Nunca mais durmo lá. Vou começar pelo começo, a primeira vez que fui à casa delas.

A gente estava saindo havia algumas semanas quando ela decidiu que já era hora de eu visitar a casa dela e conhecer a mãe. Eu estava nervoso, mas tudo bem, isso faz parte de qualquer relacionamento, eu precisava fazer a minha parte. Chegamos lá e ela mora com a mãe num apartamento minúsculo: você entra e já dá de cara com a cozinha; à esquerda fica a sala, que só tem espaço para uma mesa de jantar e um piano, nada mais. Olhando reto à esquerda fica o corredor, onde o cachorro vive, e no final há três portas: à esquerda o banheiro, à direita o quarto da minha namorada e, bem em frente, o quarto da mãe dela.

O pai está fora de cena e ninguém fala sobre ele. Vivemos numa metrópole enorme, então classe média aqui quase parece pobreza, e tudo é absurdamente caro, mas é a vida. Assim que entramos, a primeira coisa que notei foi um Akita Inu gigantesco vivendo confinado num corredor de uns 1x3 metros. Eu até me sentiria pior por isso se aquele não fosse o cachorro mais neurótico que já existiu.

Jon, o Akita caramelo, é em todos os sentidos um bebê grande, bobo e peludo… com a dona. Com qualquer outra pessoa que não seja minha namorada, ele é extremamente hostil — inclusive comigo, que amo cachorros. Mas com a mãe dela, ele simplesmente a odeia. Então imagine minha surpresa quando entro no apartamento, o cachorro trava os olhos em mim e começa a rosnar imediatamente. Aí ela me diz:
“Não olha nos olhos dele, isso desafia o domínio do território.”
O quê ele é, um tubarão?

Mas num piscar de olhos, rápido demais pra eu sequer tirar os olhos do cachorro, vejo a maçaneta atrás dele começar a girar. Como se tivesse um sensor de movimento, ele se vira e começa a latir e uivar. Da escuridão surge uma figura: 1,75 de altura, quase da minha altura, acima do peso e vestida de pijama — a mãe dela.

Ela tem dificuldade de passar pelo cachorro, que pula e faz um escândalo naquele corredor apertado, e então diz:
“Esse é o seu novo namorado?!”
É aí que vejo os dentes podres na boca dela e os óculos de grau, tão grossos e fortes que fazem os olhos parecerem duas bolinhas pretas minúsculas. Minha namorada imediatamente dá um chega-pra-lá nela, dizendo que, se ela não se comportar, a gente vai embora. A mãe faz pouco caso.

Achei isso estranho, porque você espera que o pai ou a mãe dê sermão, mas depois entendi que, quando faltam figuras parentais, o filho acaba assumindo esse papel — alguém precisa estar no comando.

O que veio depois foi o jantar mais desconfortável da minha vida, cheio das perguntas clássicas sobre faculdade e família, intercaladas por silêncios constrangedores. A mãe dela repetia o tempo todo o quanto eu era bonito, para total desgosto da minha namorada, que lançava olhares cada vez mais furiosos a cada comentário. Ela tinha uma risada alta e exagerada, seguida por uma sessão de tosse que durava quase um minuto. Foi doloroso do começo ao fim, mas necessário — quando você se compromete, precisa fazer concessões.

Depois que fomos embora, perguntei à minha namorada de onde a mãe dela era, porque ela tinha um sotaque estranho, talvez argentino, talvez do Leste Europeu, tipo Hungria ou Romênia, sei lá. Difícil de identificar por causa do ceceio bem forte.
“Ela é da cidade vizinha, mas vive aqui na capital a vida toda”, ela disse.
Eu falei que isso era muito estranho por causa do sotaque tão evidente, mas minha namorada disse que nunca tinha reparado. Talvez, por ouvir aquilo desde sempre, ela tivesse se acostumado. A mãe falava quase como em inglês antigo, usava palavras muito complicadas e obscuras, enquanto pronunciava errado palavras simples e comuns e errava tempos verbais básicos. Ela também puxava os “erres” como o Bela Lugosi, o que, admito, era até engraçado.

Com o passar dos meses, fui conhecendo melhor minha namorada e a relação dela com a mãe. Ela era jovem, saudável e uma coisinha furiosa, extremamente determinada e ousada, às vezes até demais. Uma vez fomos assaltados à mão armada; enquanto eu entregava meu velho iPhone 7 com a tela quebrada, ela tentava chutar o assaltante e arrancar o celular da mão dele. Ela foi negligenciada durante boa parte da infância e saiu mais forte por causa disso. Ninguém é perfeito, e por causa da solidão ela se tornou muito apegada a mim, querendo que eu ficasse com ela o dia todo e a noite inteira — às vezes quando eu tinha aula, às vezes quando eu tinha trabalho. Apego virou ciúme, e isso me deixa maluco, até hoje, mas é o preço que eu pago.

Ela adorava especialmente quando eu dormia com ela na casa dela, porque meus pais também são muito ciumentos comigo e não gostam nem um pouco que eu passe a noite fora, e ficam cheios de dedos se ela fica na minha casa até tarde da manhã (eu tenho 21 anos). Era uma questão de escolher quem eu iria irritar naquele dia: ela ou meus pais. Mas, mais importante, dormir com ela significava dormir sob o mesmo teto que a mãe dela. Isso me assustou no começo, mas, vendo que era minha namorada quem mantinha tudo em ordem na casa, ela podia fazer o que quisesse.

Foi na segunda ou terceira noite que descobri que a mãe dela nem sabia que eu estava lá. Eu sempre tentava evitar ser visto pra não ter que conversar, o que era fácil, já que a mulher parecia trancada no quarto o dia e a noite inteira, só saindo ocasionalmente.

Numa dessas noites, estávamos no quarto da minha namorada quando, de repente, fomos alertados pelos uivos e latidos do cachorro no corredor de que a mãe estava saindo do quarto. Minha namorada mandou eu me esconder no espaço apertado entre o guarda-roupa e a parede, quando a mãe entra como nos primeiros minutos de Shrek, berrando perguntando onde estava a comida dela. Eu pensei no quão fodida aquela situação era: eu escondido atrás de um armário durante uma briga familiar da qual eu não tinha nada a ver. A partir daí comecei a ir lá cada vez menos. Depois de muita insistência da minha namorada, eu disse que o problema era a mãe dela. Ela não se ofendeu, apenas entendeu. A mãe era muito difícil de lidar e, além disso, uma doença que quase a matou alguns anos antes — e que quase transformou minha namorada em órfã de fato — me fez sentir pena tanto da mãe quanto dela.

Isso continuou por alguns meses. Me esconder e ficar em silêncio às vezes virou um compromisso que eu aceitei. Não era tão ruim assim; a pior parte era quando eu precisava usar o banheiro no meio da noite e, de repente, a mãe também precisava. Eu tinha que apagar as luzes e fingir que não estava lá, mesmo vendo a sombra dela através da porta de vidro fosco do banheiro, tentando forçar a porta trancada. Eu me sentia um personagem de filme de terror, escondido no banheiro enquanto o monstro mexia na porta, torcendo pra perder o interesse e ir embora. A porta de correr de vidro era para a cadeira de rodas que eles usaram quando a mãe estava doente, o que tornava a cena ainda mais perturbadora do que precisava ser.

Quatro anos se passaram e ainda estamos juntos. A estranheza da mãe dela virou o menor dos meus problemas; a vida já é complicada o bastante, eu não quero ter que me preocupar também com o skinwalker que mora com a minha namorada. Aprendi a lidar com as esquisitices da mãe, mas algumas situações eram simplesmente bizarras demais: comprar uma quantidade absurda de frutas, não comer nenhuma, deixar tudo apodrecer e encher a casa de moscas; ficar brava comigo porque joguei fora os caroços dos abacates que usei pra fazer guacamole (ela COME os caroços); viajar constantemente de ônibus para uma cidade onde não tem parentes vivos, entre muitas outras coisas.

Mas houve outra ocasião em que tudo mudou.

Eu fiz o sacrifício de dormir lá depois de uma sessão noturna de Psicose (que ironia), e estava cansado demais pra dirigir de volta pra casa.

Eram umas dez da manhã quando fui à cozinha pegar um copo d’água. Eu estava só de cueca porque achei que a mãe estaria dormindo profundamente a essa hora. Foi aí que o cachorro deu o aviso e a porta no final do corredor se abriu. Pensei: fodeu. Eu estava diretamente no campo de visão dela, não tinha como ela não me ver. Tentei me explicar por cima do barulho do cachorro latindo, mas desisti rápido. Notei que ela não estava olhando pra mim, estava olhando direto para o chão.

Eu só fiquei encarando enquanto ela pulava a grade do cachorro, entrava na sala e passava direto por mim, indo para a cozinha. Ela serviu um copo d’água, bebeu, enquanto eu estava prensado no canto, observando. Depois voltou, passando novamente por mim, a poucos centímetros de distância. Pulou a grade de novo, para o desespero do cachorro, e entrou no vazio negro que era o quarto dela, fechando a porta atrás de si.

Ela não me viu. Nem um pouco. Ela estava sem os óculos, mas eu também não enxergo um palmo na frente do rosto sem os meus, e ainda assim perceberia uma pessoa parada no canto da minha própria casa, mesmo que borrada. Meu coração disparou como numa maratona, suei como um porco, mas nada realmente aconteceu. Ela era cega como um morcego e não me viu, então qual é o problema? Eu é que sou o “invasor” e fico nervoso? Dei de ombros e voltei pro quarto da minha namorada.

Ela tinha acordado e eu contei o que aconteceu. Ela não achou nada demais e atribuiu tudo aos 12 graus de miopia que a mãe tinha em cada olho. Como as outras ocorrências, tentei esquecer aquilo, assistimos um ou dois episódios de Spy x Family no notebook dela até dormirmos. Eu sempre tiro meus óculos quando começo a ficar com sono pra não esmagá-los; dessa vez, eu queria não ter tirado.

Estava tudo meio enevoado, mas acordei de repente, incomodado pela luz que eu tinha deixado acesa sem querer. Quando percebi a porta escancarada e, logo em seguida, uma cabeça surgindo na porta. Só podia ser uma pessoa. Fechei os olhos rapidamente e fingi que estava dormindo; achei melhor lidar com isso de manhã do que ser confrontado agora. Abri os olhos só um pouquinho pra ver se ela tinha ido embora, e não só a figura ainda estava ali como foi aí que notei o quão alta ela era. A cabeça quase raspava no topo da porta. Dessa vez fechei os olhos de medo. Que porra era aquela e por que era tão alta?

Fiquei deitado ali, acordado de olhos fechados, por mais alguns minutos que pareceram horas. Tentei me convencer de que ainda estava sonhando, de que aquilo não tinha acontecido. Mas eu tinha deixado a luz da sala acesa sem querer; com a porta aberta, não estava escuro, estava claro. E eu sei o que vi: uma massa cinza e arredondada, uma cabeça, espiando pela porta, nos observando dormir.

Devo ter apagado em algum momento depois disso. Acordei encharcado de suor, na mesma posição em que tínhamos dormido, e contei tudo. De novo, minha namorada disse que era só a “mãe verificando se ela estava dormindo porque as luzes estavam acesas”. Eu não compro essa história. Saí de lá abalado, me sentindo invadido. No caminho de volta, fiquei repassando o acontecimento, analisando cada detalhe pra saber se tinha sido mesmo um sonho. Mas foi real. Minha visão não ficaria nítida assim num sonho. Aquilo realmente aconteceu. Mais importante: não parecia um sonho. O medo era real demais; lembro de tremer e suar frio.

Quando achei que não podia piorar, lembrei do detalhe mais crucial: eu não ouvi o cachorro. Ele ficou em silêncio o tempo todo.

Isso resolve tudo. Nunca mais vou dormir lá. Ela pode chutar, gritar, fazer o que quiser — eu não vou. Nenhum amor é tão grande assim. Ela tentou explicar, depois tentou me convencer de que aquilo não aconteceu. Mas eu sei o que vi, e não tenho certeza se era a mãe dela. E, afinal, se minha namorada tem tanta certeza de que isso não aconteceu… então por que, pouco tempo depois, ela mandou colocar trancas em todas as portas?

Fim.

Ninguém se lembra do meu vizinho, mas eu o vi há apenas uma semana

Não sei com quem mais falar sobre isso. Acho que só preciso falar com alguém que… não more aqui.

Tudo isso começou algumas semanas atrás. A Vigilância do Bairro da minha região sempre foi mais uma piada do que qualquer outra coisa. É um subúrbio tranquilo, então, tirando o avistamento ocasional de um coiote, não costuma haver muito motivo para alarme. Mesmo assim, isso faz os moradores mais velhos se sentirem mais seguros e dá aos caras da vigilância uma sensação de propósito.

Sempre que vemos o pessoal da Vigilância por aí, oferecemos uma bebida gelada ou talvez um lanche, conversamos sobre a vida; é um bairro bem unido, então tentamos cuidar uns dos outros. Eles são, em sua maioria, aposentados; um deles já fez parte da polícia aqui da cidade, e isso o conforta, faz com que ele sinta que ainda está cumprindo seu papel de manter o bairro seguro. O nome dele é Jim. Os outros são Donny, Carl e Deon. Donny monta aviões em miniatura no tempo livre, Deon tem cinco netos e trabalhava nos correios, e Carl é um teórico da conspiração. Você acaba sabendo dessas coisas quando vive numa comunidade tão próxima assim. Todo mundo aqui se conhece. É isso que torna tudo isso tão estranho.

Cerca de três semanas atrás, a Vigilância do Bairro recebeu uma chamada de uma família quieta que morava uma ou duas ruas depois da minha, reclamando de barulhos estranhos vindos de fora da casa deles. Eu estava do lado de fora fumando um cigarro quando vi Donny passando apressado no carrinho de golfe dele, com um senso de urgência que eu raramente vejo por aqui. Perguntei qual era o problema, e ele me disse que os Millers tinham ligado, parecendo um pouco em pânico. Os Millers quase sempre ficavam na deles, então me surpreendeu saber que tinham recorrido à vigilância do bairro por causa disso. Ele seguiu com o trabalho dele, e eu apaguei o cigarro e fui dormir.

No dia seguinte, vi Donny fazendo a ronda perto do pequeno parque do bairro enquanto eu voltava das compras do mercado. A curiosidade falou mais alto, então encostei o carro para perguntar sobre o que tinha acontecido.

— Ei, Donny! — acenei pela janela, e ele acenou de volta, todo animado. — Vocês encontraram alguma coisa na casa dos Millers ontem à noite?

O sorriso de Donny desapareceu, dando lugar a um olhar vazio, com as sobrancelhas franzidas de confusão.

— Como é que é, Adam?

— Você estava investigando uma reclamação de barulho na casa dos Millers ontem à noite, lembra? — eu ri meio sem jeito, sem esperar aquela reação.

— Quem diabos são os Millers? — ele riu também, como se estivesse de fora de alguma piada.

Eu pausei, me perguntando se as faculdades mentais de Donny não estariam começando a se deteriorar com a idade. Aquilo seria devastador.

— Os Millers. Você sabe, a família da casa de esquina na Carmen Ave?

Ele me encarou por um longo momento, com uma expressão que dava a entender que ele achava que era eu quem estava perdendo a cabeça.

— Adam, aquela casa está vazia. Ninguém mora lá.

Abri a boca e depois fechei. Eu não sabia bem como interpretar o que estava acontecendo naquela conversa, mas não parecia que ela ia chegar a algum lugar produtivo.

— Ok, Donny, talvez eu tenha me confundido. Obrigado por cuidar do bairro!

Subi o vidro e comecei a dirigir para casa, mas havia um peso no meu estômago que não estava ali antes. Eu não conseguia identificar exatamente o porquê, mas algo na certeza dele parecia errado. Desconfortável. Passei direto pela minha garagem e fui direto até a casa de esquina na Carmen Ave. Não havia nenhum carro estacionado do lado de fora, como geralmente havia. Caminhei até a porta e toquei a campainha, ensaiando desculpas inventadas na minha cabeça para justificar estar ali.

Ninguém atendeu. Esperei um pouco e toquei de novo. Talvez eles só não estivessem em casa, isso explicaria a ausência do carro. Suspirei, balancei a cabeça diante da minha própria paranoia e voltei para casa.

Quando minha namorada chegou do trabalho, decidi falar com ela sobre isso.

— Laura, a coisa mais estranha acabou de acontecer. Lembra que eu te contei que o Donny ia dar uma olhada na casa dos Millers ontem à noite?

Ela me olhou como se eu tivesse acabado de acusá-la de adultério.

— Quem são os Millers?

Pisquiei.

— Os Millers, Laura, com os três filhos pequenos. Eles moram no terreno de esquina, uma rua depois da nossa. Eles trouxeram pão de banana pra gente no Natal uma vez.

Ela me encarava horrorizada.

— Do que você está falando? Isso é alguma piada com pegadinha? Ninguém nunca trouxe pão de banana pra gente no Natal e ninguém mora naquela casa.

Eu murchei um pouco. Ela começou a guardar as coisas, mas com uma expressão de quem estava tão confusa quanto eu.

Ao longo da semana seguinte, perguntei a mais algumas pessoas sobre isso, mas todas concordaram que nunca existiu uma família chamada Miller morando naquela casa. Na verdade, elas nem conseguiam se lembrar da última vez que aquela casa tinha sido ocupada. Comecei a me perguntar se eu tinha imaginado tudo, se tinha imaginado Donny falando sobre ir lá naquela noite. Caí num buraco de pesquisa na internet sobre o Efeito Mandela. Dormi muito mal por alguns dias, mas acabei jogando tudo na conta de “só uma dessas coisas estranhas” pela minha própria sanidade e tentei seguir em frente.

Consegui me sustentar nessa explicação por cerca de uma semana. Uma noite, minha namorada chegou tarde do trabalho com uma expressão claramente preocupada. Perguntei o que tinha acontecido, e ela comentou que tinha encontrado Deon no caminho para casa; ele estava indo às pressas para a casa do Alex e da Tanya, depois que eles relataram barulhos estranhos do lado de fora da casa deles. Eu percebi que ela estava perturbada.

— Adam, você não disse que o Donny te contou a mesma coisa sobre alguma outra família na semana passada? Os Miltons ou algo assim? — ela perguntou, incrédula, mas desconfortável com a familiaridade da situação.

— Os Millers — suspirei. — Só que ele não se lembra de isso ter acontecido, e todo mundo está me dizendo que os Millers não existem.

Os lábios dela se apertaram.

— Eu nunca vi uma família naquela casa e não conheço ninguém chamado Miller, mas é estranho… é estranho que eu tenha acabado de ter praticamente a mesma conversa com o Deon. — Ela engoliu em seco. — Você acha que talvez tenha sonhado com isso? Talvez tenha sido uma… uma, sei lá… premonição?

— Eu estava completamente acordado, Laura — minha voz quase falhou, derrotada por ela ainda questionar o que eu vivi naquela noite. — Não foi um sonho, mas eu… eu não sei o que foi. Eu sou a única pessoa que acha que isso aconteceu.

Minha mente começou a correr. Alex era um grande amigo meu. A gente fazia trilhas juntos e sempre ia ao bar assistir futebol durante os playoffs. Laura adorava a Tanya; elas trocavam receitas e serviam de cobaias uma para a outra quando testavam algo novo. Também trocavam recomendações de livros; Laura estava lendo, naquele momento, um livro que a Tanya tinha emprestado a ela alguns dias antes, quando nos convidaram para jantar. Eu não conseguia afastar essa paranoia crescente de que algo ruim ia acontecer com eles.

— Será que a gente não devia ir lá ver se está tudo bem? Só por garantia? — perguntei, sabendo como aquilo soava.

— Tenho certeza de que o Deon dá conta; ele é durão pra caralho — ela respondeu, mas com uma preocupação distante na voz. — Vamos ligar pra eles amanhã, só pra ter certeza de que está tudo bem.

Ela me deu um beijo no rosto e começou a se arrumar para dormir. Eu fiquei um tempo sentado na cozinha, digerindo tudo o que estava passando pela minha cabeça. Quando subi, ela tinha adormecido lendo o livro que pegou emprestado da Tanya. Coloquei-o com cuidado na mesa de cabeceira e me enfiei na cama. Foi mais uma noite inquieta.

No dia seguinte, tudo parecia normal. Nós dois estávamos de folga, então fiz um café da manhã tardio e cantei músicas idiotas, inventadas na hora, para o nosso gato enquanto cozinhava. Laura me aguenta bem demais. Depois de panquecas meio queimadas e ovos com a gema mole, fiz a pergunta sem pensar muito.

— Vou ligar pro Alex. Você quer ligar pra Tanya também, só pra garantir?

Ela me lançou aquele olhar de novo, como se eu tivesse crescido três cabeças a mais.

— Quem é a Tanya?

Eu fiquei realmente puto, mas tentei me controlar.

— Não fode comigo assim, Laura, isso não tem graça.

Ela ficou visivelmente abalada. Estava chocada com a minha linguagem, mas ao mesmo tempo parecia tentar resolver uma equação invisível na cabeça.

— Desculpa, o quê? — ela quase engasgou. O rosto dela estava sério. Laura sempre teve uma péssima cara de pôquer, e eu comecei a me preocupar que ela não estivesse brincando comigo. De algum jeito, isso era ainda pior.

— A gente viu eles dois dias atrás — eu gaguejei, incrédulo.

— Adam, isso não é engraçado — ela respondeu, aflita. As posições tinham se invertido. Agora nós dois estávamos igualmente descrentes um do outro.

Olhei para o livro que ela tinha trazido do quarto para ler enquanto eu cozinhava.

— Se você não conhece a Tanya, então de onde veio esse livro? — perguntei, apontando para ele de um jeito agressivo demais.

Os olhos dela percorreram a capa, e a boca ficou levemente aberta. Ela estreitou os olhos. Inclinou a cabeça.

— Eu não lembro — murmurou, claramente perturbada. — Talvez eu sempre tenha tido esse livro.

Dava pra ver que ela mesma não acreditava muito nisso e que também estava questionando a realidade naquele momento. Decidi deixar pra lá por enquanto e testar o resto do bairro. Uma vez podia ser “só uma dessas coisas estranhas”, mas duas vezes em poucas semanas era algo que eu não conseguia engolir.

Vesti o casaco e saí de casa, parando cada pessoa que via na rua para perguntar sobre Alex e Tanya. Todas diziam a mesma coisa. Não sabiam quem eram e ninguém morava naquela casa. Aquilo estava me enlouquecendo. Eu me sentia completamente fora de mim.

Fui até a casa do Alex e da Tanya, e o carro deles não estava lá. Bati na porta. Ninguém atendeu. Fiquei batendo de tempos em tempos por uns 20 minutos, como se eles fossem aparecer magicamente e abrir a porta. Não apareceram.

Pulei a cerca e entrei no quintal dos fundos. O triciclo do filho deles ainda estava estacionado perto da porta de trás. Aquilo me deixou, ao mesmo tempo, aliviado e horrorizado. Olhei pelas janelas e, tirando isso, a casa parecia abandonada. Passei cerca de uma hora andando pela propriedade, procurando qualquer prova de que eles tinham existido, mas tudo o que encontrei foi o triciclo. Invadir o quintal já tinha sido demais. Esse bairro fala. Eu nunca mais ouviria o fim disso se arrombasse a casa. Eu ainda não tinha certeza absoluta de que aquilo não estava só na minha cabeça, então fui embora e comecei a bater de porta em porta, perguntando às pessoas. Todo mundo me olhava como se eu fosse louco. Fiquei nisso por várias horas.

No começo, eu estava desnorteado. Isso é pouco. Eu estava furioso. Ficava repetindo para todos que tinha visto Alex dois dias antes, e eles só me encaravam com aquele olhar de quem acha que você perdeu completamente a sanidade. Aos poucos, comecei a me desgastar. Parei de tentar convencer as pessoas. Apenas agradecia pelo tempo delas e seguia em frente. A fúria foi lentamente dando lugar a uma tristeza e um luto esmagadores. Eu amava o Alex, e o mundo parecia simplesmente tê-lo apagado da existência, como se fosse um erro de digitação. Talvez eu nunca mais o visse. Como eu poderia entrar naquele bar durante os playoffs num mundo que nem se lembra de que ele existiu?

Quando o sol começou a se pôr, passei pelo pequeno escritório onde a Vigilância do Bairro se reúne todas as noites entre as rondas. Perguntei se eles tinham algum registro de eventos do bairro e fiquei desanimado ao descobrir que não mantinham nenhum, já que quase nunca acontecia nada. Perguntei sobre Alex e Tanya por hábito, mas já não fiquei surpreso quando disseram que não sabiam quem eram e que ninguém morava naquela casa.

Insisti em entrar para a Vigilância do Bairro. E se isso acontecesse de novo? Eu precisava saber o que estava acontecendo. Alguém que soubesse que isso estava acontecendo tinha que estar disponível para investigar, e parecia que eu era a única pessoa. Eles ficaram surpresos, mas dava pra ver que aquilo significava muito pra mim, e eles são caras legais, então me deram um colete e não questionaram demais.

Estou nisso há cerca de uma semana, e nada de mais aconteceu até literalmente agora há pouco. Recebemos uma ligação da Laura dizendo que há barulhos estranhos vindo do lado de fora da casa. Estou a caminho agora mesmo, apavorado com o que posso encontrar, mas ainda mais apavorado com a possibilidade de amanhã eu ter que continuar vivendo em um mundo que não acredita que Laura jamais existiu. Eu não sei se é preciso estar em casa para ser afetado por isso. Talvez eu nem esteja aqui amanhã. Isso talvez fosse até melhor. Se eu tiver sorte, talvez consiga descobrir o que está causando isso e acabar com tudo. Desejem-me sorte. Espero que todos vocês se lembrem disso amanhã.
Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon