sexta-feira, 3 de abril de 2026

Meu Consolo Insano

Está piorando nos dias de hoje.

Às vezes tenho medo de que minha mãe estivesse certa a meu respeito. De que a maçã não cai longe da árvore. No meu caso, parece que ela bateu em todos os galhos enquanto caía. É bem provável que tenha quicado e rolado em cima do meu galhinho algumas vezes. Nossa loucura. Insanidade hereditária. O ermitão maluco na floresta sobre o qual as crianças contam histórias de terror. Tipo Ted Kaczynski, só que sem a infâmia. Ou o terrorismo. Eu só quero ficar em paz.

Nunca vi necessidade de companhia. Amigos ou qualquer outra coisa. Eu era, para dizer o mínimo, perturbado. Tinha um desprezo visceral por contato físico, cenourinhas baby, mas não cenouras normais, esmalte de unha, certas fontes e a cor roxa, para citar apenas algumas coisas. A distopia urbana em que eu nasci era, por concepção, o meu inferno. Uma selva de concreto onde eu jamais poderia sonhar em roubar um momento de paz e silêncio. Apenas um momento sozinho com os meus próprios pensamentos. O trem das 6h30 da manhã rasgava o meio dos prédios de apartamentos. A serpente de aço ensurdecedora que assombrava meus sonhos das primeiras horas da manhã. Eu me lembro nitidamente de que eu sempre estava em algum lugar tranquilo. Uma cabana na floresta. Um píer à beira de um lago. Um momento maravilhoso em que, justamente quando eu começava a relaxar, o som estridente de rodas enferrujadas rangendo em trilhos de metal ressoava por trás. Eu acordava encharcado de suor frio e em lágrimas. Todas as manhãs.

Por pior que aquilo fosse para mim, acho que para a mãe era ainda pior. Eu era um caos inconsolável, chorando para que ela fizesse o monstro ir embora. Ela realmente tentou me consolar. Mas, com o tempo, passou a me repreender, depois a gritar e, por fim, as coisas ficaram físicas. Acho que não posso culpá-la. Ela estava completamente sozinha. Eu sabia que não era a criança mais fácil de criar. E ela tinha os próprios problemas, não muito diferentes dos meus. Mas ela nunca me expulsou. Poderia ter me colocado no sistema, como ameaçou fazer tantas vezes. Havia algo que ela sentia por mim. Sua própria carne e sangue. Talvez não amor, mas uma certa posse sobre aquilo que se cria.

Era uma noite no fim de dezembro, em um longo trecho de estrada. Eu sempre gostei de dirigir por bastante tempo, acompanhado de nada além da minha própria mente vagando. Pensei em como aquela estrada poderia continuar para sempre e eu ficaria satisfeito. Minha paz só era interrompida por instantes pelos carros que passavam de vez em quando. Toda vez, aquilo me arrancava dos meus pensamentos e me lembrava de onde eu estava. O ronco do motor. O whoosh cortante e ensurdecedor quando eles passavam zunindo. De novo, e de novo, e de novo. Era como tortura chinesa com água. A espera pelo próximo veículo inevitável. O próximo tique. A próxima gota. O próximo e o próximo e o próximo e…

Não me lembro de como fui parar encostado no acostamento. Eu simplesmente estava lá. Sentado, suando em frenesi, apertando o volante até os nós dos meus dedos ficarem brancos como osso. Quando desliguei o motor, tive um momento cegante de clareza. Alcançando, de imediato, um objetivo que eu jamais soube que fosse possível. Um silêncio absolutamente puro e maravilhosamente sereno. Finalmente. Saí do carro e respirei o ar frio como se eu tivesse prendido a respiração a vida inteira. Estrelas que eu nunca tinha visto dançavam no céu noturno. Qualquer destino anterior para o qual eu estivesse indo pareceu tão distante e irrelevante. Eu tinha escapado. Nem hesitei. Deixei as chaves na ignição. Fechei a porta atrás de mim. Saí da estrada e nunca olhei para trás.

Entre no meu consolo.

Estou sendo assombrado.

Talvez “perseguido” seja uma palavra melhor. Ou perturbado. Por qual entidade, eu não posso dizer. Não estou particularmente assustado com essa nova situação. Se era um fantasma ou espectro com quem eu vivia, ele era o meu colega de quarto ideal. Ele (e digo “ele” por respeito, já que não é um IT, mas também não é uma ela, pois a mãe jamais aprovaria a ideia de uma companhia feminina) era bastante afeiçoado à minha caneca.

Sou só eu aqui. Eu sei que não a movi. Eu a tinha deixado bem ao lado do balcão da cozinha. Nunca a ponho na mesa de cabeceira. Não naquela vez. Não fui eu. Foi ele, tinha que ter sido. Deve ter sido.

Consegui improvisar uma vida aqui na floresta. Naquela noite, eu abandonei a civilização. Andei por dias. Eu havia deixado todos os meus pertences mundanos, além da roupa do corpo. Como algum tipo de monge budista em busca do esclarecimento. Acabei encontrando isso na forma de uma cabana abandonada no meio de uma clareira. Lembro que, quando coloquei os olhos nela pela primeira vez, senti uma certa afinidade. Era como se um pedaço da minha alma tivesse se materializado no mundo tangível. Era velha, decadente, negligenciada, mas tão quente e acolhedora. Era tudo de que eu precisava.

Se eu soubesse que ela vinha com uma força invisível que não respeitava o limite de tocar os meus pertences pessoais... bom, eu ainda teria ficado com ela sorrindo. Talvez ele estivesse aqui antes de mim. Ainda assim, só deu as caras recentemente. Ou talvez essa tenha sido apenas a primeira vez que consegui pegá-lo no flagrante. Um deslize da parte dele, o danadinho. Pelo menos foi assim que tudo começou.

Ele tem andado displicente ultimamente. Espero que tenha sido isso. Temo que ele, na verdade, esteja ficando mais ousado. Dei um vislumbre dele outro dia. Bem fora da janela. Pelo menos acho que dei. Havia algo ali, na beirada da clareira, alguns passos atrás da linha das árvores. Uma figura. Uma sombra. Um movimento no canto do olho. Não é paranoia. O que eu teria para paranoiar? Estou completamente sozinho. Sou só eu aqui. Só eu. Meu próprio cantinho do mundo. Ele é meu, e só meu. Sou só eu aqui.

Está piorando.

De vez em quando eu ouvia uma batida. No começo, eu até poderia fingir que era o vento sacudindo os ossos dessa morada antiga. Não posso mais. Sei que é ele. Brincando comigo. Nunca consigo identificar de onde exatamente vem a batida. É sempre do outro lado da cabana. Nós dos dedos fantasma tamborilando em madeira frágil.

Toc Toc Toc

De novo, de novo, de novo

Eu me assustava toda vez que ouvia. Está ficando mais alto. Às vezes, raramente, mas de vez em quando era o som de uma porta sendo violentamente chacoalhada. Já não era a batida educada, e sim pancadas desesperadas. Outro dia ouvi isso enquanto eu estava lá fora, cuidando do meu jardim. Uma batida etérea, como se eu estivesse parado bem ao lado de uma porta. Fiquei mais irritado do que assustado. Saber que ele não está preso à cabana, mas a mim. Eu estou sendo assombrado.

Acho que estou vendo agora. Apenas vislumbres sutis na minha visão periférica. Aquela porta não deveria estar ali.

Está ficando mais claro.

Eu nunca sou de duvidar de mim mesmo. O que é que dizem sobre a loucura? Um louco nunca acha que é louco. Mas e se eu achar? Pensar que sou louco torna isso menos loucura? Acho que depende de eu realmente ser. Se eu for, então meu reconhecimento disso é um passo para deixar de ser. E, se eu não for, então talvez seja o primeiro sinal de que estou perdendo a porra da minha cabeça.

Enfim, encontrei a porta. “Encontrei” é a forma certa de dizer isso? Eu sempre soube onde ela estava. Só agora ela se mostrou. Por completo. De uma forma borrada no canto para uma porta nitidamente real.

Ele ainda bate do outro lado. Eu prefiro não responder. Ele tem sido uma presença invisível desde que nos conhecemos. Acho que não estou preparado para encontrá-lo no corpo físico. Isso estragaria o relacionamento que estabelecemos.

Ele não me deixa em paz. Era só isso que eu queria, e a existência dele é o único obstáculo para o meu consolo. Se eu pudesse simplesmente... removê-lo.

Não é comum alguém se pegar pensando em assassinato. Se ele, de fato, for um fantasma, isso sequer seria assassinato? Isso me cai mal. Que falta de civilidade. Mas, na floresta, não somos todos animais? Criaturas ferozes preocupadas apenas com a própria sobrevivência. Retorno ao instinto básico. Talvez egoísta, mas somos parte da natureza. Ainda assim, ele não merece a chance de apresentar sua defesa? Que ameaça ele realmente representa para a minha existência? Eu, nascido para a civilização, deveria ser mais cortês. Gosto de pensar que a mãe teria me ensinado melhor. Virar a outra face. Apoiar-me na minha natureza perdoadora. Afinal, o que ele realmente fez para merecer a minha ira? Além de, ocasionalmente, extraviar certos objetos e bater incessantemente do dia até a noite, sem que eu tenha escapatória de sua batida batida batida constante bate—

Vou matá-lo.

Nunca pensei que veria isso ao vivo.

Uma vez vi fotos disso numa revista. Uma abertura em página dupla. Páginas 16 e 17. As lombadas grampeadas perfeitamente centralizadas. A linha do horizonte fica ligeiramente acima do ponto médio. Eu gostei disso.

Um oásis lindíssimo cercado por cadeias de montanhas com picos cobertos de neve. Água tão límpida e imóvel que era como uma fina folha de vidro cobrindo um ecossistema aquático lá embaixo. Eu sei que era só uma foto, mas ela encarnava tudo o que eu ansiava. Paz em sua manifestação mais pura. Serenidade.

Lake Tahoe

Ainda mais de tirar o fôlego ao vivo.

“Você devia ter se vestido de forma mais adequada para o tempo. Esse frio vai acabar com você.”

Mãe

Minha determinação de matar. Era matricídio o que eu pretendia? Contra o que eu estava tão furioso? Está tudo embaralhado. Minhas memórias são um novelo de fios e cabos espalhados e entrelaçados. Sem começo nem fim. O que resta é um presente sem contexto. Como entrar num cômodo e esquecer por que você entrou em primeiro lugar.

Uma vez eu tinha matutado sobre a ideia de que a experiência que chamamos de viver não passa de algo representado em fragmentos. A mãe uma vez trouxe para casa um DVD. Um dos primeiros filmes de que me lembro de ter visto. Wallace e Gromit. As Calças Erradas. O meio da animação em stop motion me fascinava. Imagine por um momento uma vida como a de Wallace. A vida dele acontecendo em um movimento fluido, mas, entre um quadro e outro, um Deus arruma meticulosamente cada membro. Um quadro para o seguinte. Wallace tem consciência entre os quadros? Certamente ele não tem noção de um ser além da sua compreensão, torcendo e puxando seus membros. Ajustando sua expressão e zombando do seu livre-arbítrio. Às vezes temo que minha vida não seja tão diferente da de Wallace. Uma vítima impotente aos caprichos de um Deus louco. Como eu poderia ter certeza de que era o mesmo de um segundo atrás? Talvez eu tivesse morrido e, no mesmo instante, sido substituído por uma versão idêntica de mim mesmo, com todas as memórias, exceto o conhecimento de ter experimentado a morte incontáveis vezes.

“Você está sempre perdido nos seus próprios pensamentos.”

Sim, mãe. Perdido. Acho que desta vez foi longe demais. Não acho que exista saída. Eu realmente fiz isso, não foi?

“Eu sempre quis te trazer para cá. Somos só nós dois, querido. Só teremos um ao outro.”

Claro.

“Eu esperei por você.”

O que ela...?

“Por que você nunca veio?”

Por que eu não fui?

“Você me deixou. Eu estava completamente sozinha.”

Era tudo o que eu sempre quis.

“Como você pôde ser tão egoísta?”

Era tudo o que eu sempre quis.

“Como você pôde?”

Eu precisava sair.

“Eu te trouxe a este mundo. Você não pode me abandonar. Você é meu. Você não pode...”

Não aguentava mais. Nem mais um dia, nem mais um minuto, nem mais um segundo dessa porra desse purgatório.

“Volta.”

Mãe, me desculpe. Hoje era para ser especial, não era? O único dia do ano em que nos era permitido largar tudo e perdoar. O primeiro vislumbre de pequenas manchas pálidas descendo, se dissolvendo no lago e se tornando uma só coisa. Eu sempre gostei da neve. Ela era limpa. Um lençol branco que cobria as imperfeições feias do nosso mundo. Você sabia que é mais silencioso quando neva? É verdade. As camadas fofas de neve agem como um absorvedor natural de som. As ondas sonoras ficam presas nos bolsões de ar dentro dela. Isso amortecia o caos. Naquela época do ano, parecia que o volume do mundo estava abaixado.

Ah, como eu amava o Natal.

Estamos nos aproximando do fim.

Não vai demorar para estar aqui. Para me levar embora. Faz tanto tempo. Acho que desta vez estou pronto. Não há medo.

O som do monstro rumbleando fica mais alto. Ele está vindo.

Não tenham medo. Foi maravilhoso enquanto durou.

O aço guinchou até parar, enquanto o chão tremia sob mim.

Fecho os olhos para este mundo. Acordo para outro.

Silêncio.

Já deveria ter acontecido. Olho ao meu redor. Ainda estava de pé no píer com a mãe. Ela olhava para trás de nós, para o fim do píer, de volta para a margem. E lá estava ele. Estranho. Eu nunca tinha chegado tão longe. Já deveria ter acabado.

O trem do metrô vazio me aguardava com as portas abertas.

“Cuidado com o vão”

Acho que eu não deveria ter entrado, mas que outra escolha havia? Por mais que eu quisesse ficar naquele píer com a mãe, eu duvidava que o trem fosse esperar por mim. Pedi que ela se juntasse a mim, mas ela recusou. Achei estranho quando ela me disse que pegaria o próximo. Não acho que vá haver um próximo.

E então me sentei sozinho no vagão, vendo a paisagem passar em disparada, pensando no que tudo isso leva. Há algo inquietante em estar sozinho num lugar que sugere reunião coletiva. Shoppings abandonados, escolas ao entardecer, o último trem programado da noite. Por mais que eu gostasse de estar sozinho, aquilo parecia invasão. Como se eu não devesse estar ali porque ninguém mais estava. O que todo mundo sabia que eu não sabia? O que a mãe não me contou?

Eventualmente o sol se pôs no horizonte e a noite chegou. O trem não dava sinais de parar. Não consegui dizer quanto tempo durou a viagem. A floresta de pinheiros parecia ficar mais densa à medida que eu avançava cada vez mais fundo na mata. A noite só ficava mais escura. As luzes fluorescentes no trem tremeluziam enquanto os galhos estendidos roçavam e batiam na lateral do vagão. À medida que as luzes piscavam, nas breves instâncias de escuridão eu conseguia distinguir o brilho de uma luz laranja dançando entre a folhagem. Uma nuvem de fumaça subindo para o céu. O trem se virou na direção da luz e começou a desacelerar.

Parou diante de uma pequena clareira na floresta. As chamas agora ardiam mais forte e mais alto enquanto minha cabana era engolida, transformando-se em uma pira enegrecida. Minha casa estava em chamas. Meu santuário.

Dentro do fogo eu conseguia ver uma figura parada na janela. Era ele, pensei. Foi ele quem fez isso. Eu saio por um momento e ele põe tudo abaixo. Eu disse que ia matá-lo. Ainda pretendo.

Ao correr para dentro das chamas para enfrentá-lo, meu corpo se incendiava e fervia por dentro. Minhas roupas queimaram em um instante, reduzidas a cinzas. Eu me choquei contra a porta só para descobrir que ela estava trancada, mesmo sem nunca ter havido uma tranca naquela porta. Bati, esmurrando e sacudindo a porta, sem obter nada. O calor era insuportável, e ainda assim eu me recusava a ceder. Como eu havia dito, aquela cabana era um pedaço tangível da minha alma. O único lar que eu jamais conhecera. Eu o recuperaria do intruso ou queimaria junto com ele. Com um esforço triunfante, finalmente arranquei a porta das dobradiças e cambaleei para dentro do inferno em chamas.

Lá estava ele, aguardando por mim. Um estranho familiar. Quase tinha me esquecido da visão do meu próprio rosto. Ele parecia... eu parecia satisfeito. Como se não estivéssemos no meio de madeira em chamas. Ergui minha mão em sinal de conforto.

Está ficando frio.

O quê?

A mãe estava certa. Não estamos vestidos para o tempo.

As estrelas estão caindo.

Elas descem, leve e suavemente, das copas das árvores. É hipnotizante. Estão chegando mais perto. Arde. As estrelas na minha pele estão... formando bolhas.

Ah

Está frio. Congelante, na verdade. Mas eu não estou tremendo. Tudo parece dormente e lento. O que eu estava fazendo aqui fora?

Tento me lembrar do acontecimento que me trouxera para essa situação... Como eu fui parar nisso. Qual foi a última coisa de que me lembrei?

Fogo

Não

Mãe

Não

Não essas fabricações

Concentre-se

Eu estava num carro. Eu estava indo para casa. E então...

Naquele momento, tudo o que consigo fazer é rir para mim mesmo. A tragédia da minha condição e sua natureza autodestrutiva. A falta de autopreservação na busca até mesmo de um pequeno instante de alívio do ruído. Ainda assim, apesar de tudo, não consigo evitar sorrir. Acho que devo estar louco.

Ah, como eu amava a neve.

Tem Alguma Coisa Atrás da Minha Casa

Eu moro em uma cidade relativamente grande, nos arredores de Houston. É como qualquer subúrbio típico, praticamente toda rede de fast food, supermercado e outra grande franquia que você possa imaginar. No inverno, faz um friozinho, e no verão é quente para caralho. As únicas árvores são as que foram plantadas no canteiro central, e que de vez em quando levam porrada de algum motorista bêbado qualquer. Eu cresci lá, mas não sou muito fã do lugar; preferiria me mudar para algum lugar bem longe. Longe dos meus pais controladores, longe da vida mundana, cinzenta e nojenta que a América suburbana tem a oferecer.

Pela minha pequena divagação, você provavelmente já percebeu o que eu sinto pela minha vida: entediante, sem graça, irritante. Algo nessa linha. No entanto, há uma coisa que eu esqueci de te contar: essa cidade, que por fora parece ser cheia de Starbucks e de playboys brancos ricos de 17 anos que bebem e atiram em casas aleatórias de uma caminhonete enfiada pra cima de 50 mil dólares, com luzes no aro que o pai deles comprou, guarda um pequeno segredo.

Existe um terreno que abriga um dos assassinatos não solucionados mais prolíficos da história do Texas. Entre os anos de 1983 e 1991, quatro mulheres foram encontradas mortas. Mesmo com a ajuda do FBI, o departamento de polícia da cidade não conseguiu encontrar um culpado, e esse continua sendo o caso até hoje. Ainda mais corpos foram encontrados no total, sendo a maioria mulheres com uma faixa etária e um tipo físico específicos. Até hoje, meninas e mulheres continuam desaparecendo dessa área sem deixar rastros. Todo mundo atribuiu isso ao tráfico humano ou a agressão sexual seguida de assassinato. Depois das últimas semanas, no entanto, eu acho que é algo muito mais sinistro.

Como você provavelmente já deve ter adivinhado, eu moro bem perto desse terreno; na verdade, ele fica diretamente atrás da minha casa. Minha casa é uma daquelas no fim da vizinhança, com nada além de grama e árvores atrás. Depois que os corpos foram encontrados nos “killing fields” — é assim que esse terreno é chamado —

ele foi transformado em um pasto de vacas, que agora foi vendido à cidade para que derrubem o ecossistema e construam mais casas, para que as pessoas possam vir e superlotar a cidade. Quando eu era criança, eu e as crianças da vizinhança costumávamos ir até aquelas planícies selvagens e construir fortalezas ou brincar de esconde-esconde. Tempos divertidos. Agíamos como idiotas, sem a menor preocupação no mundo. Mas, se eu soubesse o que sei agora, acho que teria sido diferente.

Tudo começou por volta de duas semanas atrás, quando fui acordado por volta das 23h. Eu mencionei antes que morava na área de Houston; uma busca rápida no Google vai te dizer exatamente onde ficam os killing fields, então, se você realmente quiser saber onde isso aconteceu, pode procurar. E, como morar perto do Golfo do México vem com as maiores vantagens de todas, como ar úmido, pegajoso, e furacões que arrancam seu telhado e inundam sua casa.

Isso aconteceu pela primeira vez durante uma tempestade muito forte. Eu conseguia ouvir minha cerca balançando de um lado para o outro, ou pelo menos era o que parecia do meu quarto. E, como eu tinha acabado de trocar a cerca, eu não queria ter que pagar mais 300 dólares de novo, então era necessário que eu fosse ao quintal e colocasse suportes para que ela não caísse.

Relutantemente, eu sacudo os pés e pulo da cama. Vou até a sala, que também é onde fica a porta dos fundos. Abro as persianas e olho lá fora; folhas arrancadas das árvores e gravetos voavam no vento. Olhei para a minha cerca, que ainda balançava e sacudia como se estivesse prestes a cair a qualquer momento. E passei os olhos ao longo da cerca, tipo assim,

quando, no meio da chuva e das rajadas de vento, algo chamou minha atenção. No topo da minha cerca, de uma ponta à outra, havia uma mancha vermelha. Ela escorria para baixo, e parte dela já estava manchando a grama. Não vou dourar a pílula: desde o momento em que vi aquilo, eu soube que era sangue. Eu soube pela espessura, pela cor; era horrível.

Mas o pior ainda estava por vir. Meus olhos se concentraram bem na extremidade da linha traseira da cerca, onde eu pude ver a causa do sangue: um coelho. Os olhos dele estavam caindo das órbitas, e o rosto tinha ossos para fora. As patas traseiras estavam enroscadas por cima do corpo, deslocadas e esmagadas. Eu nem teria conseguido reconhecer aquilo se não fossem as orelhas. Recuo imediatamente e engasgo de nojo diante da cena.

Agora eu estou completamente acordado. Corro até o armário, pego minha lanterna e meu rifle e volto para a porta.

Abri a porta e fui atingido por um ar frio e suave, daquele tipo que você só sente quando está chovendo forte. Quem mora perto do golfo entende esse sentimento; normalmente ele também vem acompanhado de um cheiro natural agradável, porém, dessa vez, fui recebido por um cheiro forte, espesso e repulsivo. Era cheiro de morte. Ele tomou minhas narinas, que começaram a escorrer, e tive que limpá-las na camiseta. Eu observo a linha da cerca, garantindo que quem quer que tivesse feito aquela merda ainda não estivesse ali. Então liguei minha lanterna e a coloquei entre os dentes.

Desci do meu pátio para a grama fria, andando em direção à cerca que ainda se balançava sob a pressão pesada do vento. Em uma mão, meu rifle; na outra, tábuas pesadas, que comecei a enfiar uma por uma por baixo da cerca, permitindo que ela descansasse sobre elas. Depois que terminei toda a linha da cerca, voltei para o pátio e dei uma olhada.

Eu fiquei satisfeito, no entanto o problema do coelho eviscerado ainda continuava. Disse a mim mesmo que avisaria a polícia de manhã e tentaria limpar aquilo quando a tempestade passasse. De repente, meu pensamento foi interrompido quando ouvi um arranhão surgindo do lado direito da cerca, viajando para a esquerda, para o lado onde estava o coelho mutilado. Era rápido. No começo, pensei que fosse só um galho, mas o som era constante demais para ser qualquer coisa além de uma pessoa ou um animal. Considerando a velocidade, achei que fosse um animal, mas por que um animal estaria arranhando minha cerca daquele jeito? Por qual motivo? E, antes que eu pudesse reagir, o coelho foi arrancado da minha cerca violentamente,

quebrando a parte de cima da estaca. O coelho também foi rasgado ao meio pela força. Mais um pouco de sangue foi respingado sobre a cerca e o quintal. Eu recuei, sabendo que nenhum animal da área poderia ter tanta força e violência assim. Esquecendo que ainda estava com a lanterna na boca, mordi com força, deslocando um dos meus dentes. Gemei de dor enquanto disparava de volta para a porta, trancando-a rapidamente e fechando as persianas. Meu coração batia mais rápido do que nunca. Eu vomitei pelo menos três vezes naquela noite.

Não dormi. Quando a manhã chegou, liguei para a polícia, contando tudo. Depois de ver o sangue e metade do coelho na minha cerca, eles deixaram um policial de prontidão na área pelos dias seguintes. No fim, eu limpei o sangue. A tempestade passou e, embora eu estivesse um pouco traumatizado, continuei sendo o mesmo de sempre. E voltei à minha vida normal.

No entanto, o horror não terminou por aí. Mais uma vez, fui acordado por volta da meia-noite. Desta vez, não foi por causa de uma tempestade, mas por batidas altas contra a minha cerca. Era metódico e rítmico. TUM… TUM… guincho!… TUM. Parei. Agora eu entendia o que estava batendo na minha cerca: um animal. Um coelho de novo. Peguei meu rifle e a lanterna; meu dente ainda doía, mas mesmo assim eu a prendi entre os dentes.

Antes de sair, eu verifiquei a cerca em busca de qualquer sinal de quem quer que estivesse fazendo aquilo comigo. As batidas pararam de repente. Eu dei uma risadinha, tentando esconder meu medo, mesmo estando sozinho. Tive a sensação de que essa pessoa, ou coisa, conseguia senti-lo. Cheguei à conclusão de que ele estava brincando comigo, tentando me atrair. Quem ele pensa que eu sou? Não. Vai se foder. Essa é a minha casa, e eu tenho a arma. Saí para fora com uma descarga de adrenalina e raiva.

Está silencioso. Nada. Absolutamente nada. Eu ouço meu coração batendo; minha garganta pulsa junto com ele. Olho para a esquerda da linha da cerca e depois para a direita, devagar. Bem à direita da minha cerca, eu mantenho tijolos para tapar buracos feitos por animais. É por isso que há muito cascalho, o que entregou a presença. Minha cabeça e meu corpo se viram mais rápido do que jamais se moveram. Finalmente, pus os olhos nessa coisa: ela era pálida, com manchas pretas, não como um leopardo, mas como um pedaço de queijo mofado. Tinha mais ou menos o tamanho de um urso, ou pelo menos é assim que imagino que eles seriam; nunca vi um pessoalmente. Era magra e comprida, e as patas traseiras estavam penduradas por cima do topo da minha cerca, então a única coisa tocando o meu quintal eram as mãos? As pernas? As patas? Eu não sei o que aquilo era.

Mas estava completamente deformada, como se você mantivesse um humano na escuridão total e só o alimentasse com restos e uma gota de água. A cabeça dela pendia mais baixo do que os ombros. Era careca. O rosto estava num sorriso aberto, borrado de sangue. Os olhos eram escuros — mais escuros do que os de qualquer animal que eu já tivesse visto. Os dentes eram nojentos; alguns eram afiados como os de um animal, outros pareciam humanos. Todos eram diferentes, como se, qualquer coisa que essa criatura matasse, roubasse os dentes da vítima e os usasse para si mesma. O corpo inteiro dela estava deitado sobre o canto da minha cerca, como um cobertor sobre um sofá.

Eu disparo um tiro em uma fração de segundo. O clarão da arma me cega por um minuto. A tensão no ar diminui um pouco antes de eu perceber que o tiro atingiu o rosto da coisa, bem acima do olho esquerdo. Sangue jorra. A cabeça dela recua, depois fica nessa posição por um segundo, como se estivesse fingindo estar ferida. Então a cabeça se abaixa lentamente de novo; o sorriso ainda estava lá, mas ela colocou a língua para fora, permitindo que o sangue pingasse sobre ela.

Dou um passo para trás, congelado de medo, antes que meu corpo finalmente reagisse. Corro de volta para dentro de casa, batendo a porta. Eu não a ouvi me seguir. Acho que ela não queria me matar naquela noite. Queria me deixar apavorado. Queria que eu soubesse que podia me matar quando quisesse. Eu tenho que sair dessa casa, dessa cidade, desse maldito estado, e nunca mais voltar. Isso ainda não acabou. Eu não sei como sei disso, mas eu sei. Ela vai me matar e vai tirar meus dentes, arrancar minha pele e pendurá-la na cerca de outra pessoa.

Talvez a razão pela qual o FBI não conseguiu encontrar um culpado seja porque, o tempo todo, eles estavam procurando por alguém, e não por alguma coisa.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

A Picareta de Gelo

Estilhaços no vento cortavam meu rosto com uma aspereza que penetrava no sangue, tanto dentro quanto fora do meu corpo. Além da boca da caverna, eu podia ver com clareza a estrutura metálica que finalmente tombava, e que um dia chamei de lar. A terra branca diante dela queimava meus olhos e os cravava com mais força do que a picareta que naquele momento perfurava de dez a doze centímetros o lado esquerdo da minha barriga macia e pálida. Já fazia algum tempo desde que ela repousara sobre as praias da Califórnia e pegara um pouco de sol em sua superfície. Em um momento como aquele, isso era desesperadamente sentido, mas nada podia ser feito a respeito — assim como nada podia ser feito a respeito do menino morto ao meu lado, já começando a apodrecer. Ainda enfiado dentro do grosso casaco de inverno, o menino indígena tinha o rosto retorcido de um jeito que deixava os dentes à mostra e a eternidade dos olhos exposta. Com a mão trêmula, estendi a mão para tocar o jovem que morreu no dia anterior ao seu aniversário de dezenove anos e senti uma lágrima brotar do meu rosto e congelar a menos de dois centímetros descendo pela minha bochecha. Justo quando as pontas dos meus dedos alcançaram a superfície da bochecha congelada do garoto, o guincho com o qual eu tinha me tornado tão familiar soou de além das colinas.

“Me diga o que foi que eles querem”, eu disse ao canto sombrio da caverna, de onde os arranhões e os estalidos eram emitidos em conjunto com os guinchos. “Se vocês precisam me levar agora, então que seja, mas poupem esse menino e o que restou dele.” A escuridão não disse nada e apenas continuou se mexendo e estalando. Levantando-me, avancei mais fundo na caverna e parei a apenas um passo da ausência de visão, encarando o abismo e vendo apenas meu reflexo. No fundo da caverna, uma luz rodopiava e fazia um tango no ar, mas não revelava nada sobre o caminho à frente.

“Ofereça a carne dele à coisa que uiva. Eu iluminarei o caminho se você fizer isso”, rosnou a coisa no canto em um sussurro horrível e adoecido.

“Nunca. Ele merece muito mais dignidade do que sua besta poderia lhe dar.”

“Entendo, como eu pensava.”

Dei um passo adiante na escuridão, avançando mais alguns até tropeçar e esmagar a cabeça com força no chão, com o pé preso em uma depressão invisível. Com a queda, eu tinha certeza de que não seria mais capaz de andar como antes, quando um estalo alto ecoou do meu tornozelo, seguido de uma dor lancinante.

“O Uivador ronda seus amigos agora. Se você o deixar se banquetear, seu ferimento será resolvido.” A voz rosnou de novo. Seria verdade? A besta realmente possuía velocidade suficiente para ir das colinas até o corpo do garoto atrás de mim com tão pouco tempo?

“E a picareta na minha barriga?” Mas a voz não respondeu. Agora me arrastando em direção à luz ao longe, raspei os joelhos na superfície fria e áspera, sentindo sangue fresco escorrer deles. Durante minutos, fui avançando enquanto a pedra gelada ao meu redor ia se estreitando mais e mais, até que eu estava me arrastando por uma fenda mal larga o bastante para passar os ombros. Provavelmente não teria funcionado se meu ombro já não tivesse saído do lugar antes. Isso me permitia me espremer com mais força e mais eficiência, ainda que com muito mais dor. Estranhamente, a luz parecia não estar mais perto do que quando comecei, não importava o quanto eu me esforçasse.

“Você não vê que só está cravando a picareta ainda mais fundo no seu corpo?” Ele perguntou outra vez, mas desta vez fui eu quem não respondeu.

“O que é você, voz? Você domina a besta?”

“Só como você.”

Um sopro frio de vento soprou do fundo do buraco com tanta força que arrancou os cabelos do meu rosto e queimou minhas pálpebras. Por um instante, ele veio com tanta violência que eu mal consegui puxar ar para os pulmões, até que, de repente, cessou. Em um movimento desesperado e apavorado, me lancei mais fundo pelo túnel e me desprendi dele sem perceber. Agora em queda livre a partir de uma grande altura, aterrissei com dor sobre o ombro já deslocado. Gritando, ouvi o eco se espalhar pelo palácio sombrio do nada. Erguendo a cabeça da superfície empoeirada, olhei acima de mim e vi a luz suspensa, simplesmente ali. Ela girava e se retorcia com uma rapidez crescente que derretia seu movimento dentro dos meus olhos.

“Você quer me hipnotizar?” perguntei ao abismo, e recebi de volta ecos da minha própria pergunta na voz rouca do homem que eu esperava que respondesse.

“Somente com a mente que você escolher entregar.” A voz voltou mais clara e mais familiar do que nunca.

Lá em cima, a luz girou e cresceu. Começou a iluminar o cômodo. Olhei ao redor e encontrei horror em pilhas intermináveis de ossos empilhados uns sobre os outros com grandiosidade. Eles preenchiam o espaço, os limites do cômodo escondidos apenas pela incapacidade da luz de revelá-los.

“O que é isso? O que é que você está me mostrando?” gritei.

“Somente o que a besta quer que eu mostre.” A voz retornou diferente de antes, com uma clareza que fez uma fisgada de frio e medo me rasgar por dentro. Uma voz que era, sem dúvida, a minha própria, arrancada das garras da minha própria boca, como se eu tivesse pronunciado aquelas palavras eu mesmo. A poucos metros de distância, num espaço que se encaixava perfeitamente entre o amontoado de ossos, havia uma poça de sangue. A luz de cima mergulhou nela e voltou até meus olhos. Lentamente, dei um passo à frente em direção a ela e olhei dentro, vendo a expressão bestial me encarando de volta.

“O que é isso?” perguntei, mas a voz não era minha.

Uma Família que Escondia um Segredo Sombrio

Eu costumava viver em uma pequena cidade rural do Canadá, situada entre as florestas de Ontário. Uma das coisas que você percebe na nossa cidadezinha é que praticamente todo mundo se conhece. Do vizinho da casa ao lado até o cara que faz os melhores cookies do outro lado da rua. Isso também significa que tudo o que é digno de nota, ou até mesmo completamente insano, acaba sendo conhecido por todos — do fofoqueiro até o filho de alguém, que provavelmente ouviu a história dos próprios pais. Na maior parte do tempo, era a fofoca de sempre que as pessoas me contavam, aquelas que ou me faziam ficar na ponta da cadeira, ou me faziam revirar os olhos com o absurdo da história.

Mas então havia essa história da qual eu ainda me lembro, e que toda vez que ouço falar dela me arrepia a espinha. Para dar um pouco de contexto, ao norte da cidade há um corpo raso de água conhecido por todos como a “Ridgerock Lagoon”. É uma extensão de água bem grande, tanto que contorná-la leva quase uma hora até conseguirmos chegar ao outro lado. Do outro lado da lagoa há um punhado de casas de fazenda, também conhecidas pelos moradores, já que o pessoal vai até lá para comprar mercadorias ou vender seu estoque antes de irem para a feira dos produtores.

A própria Ridgerock Lagoon não tem nada realmente interessante além de ser o lugar onde as pessoas pescam ou talvez nadem. Muitos dos mais velhos da nossa cidade nos contavam histórias sobre o que costumava acontecer naquele lugar. Meu avô me contava histórias quando eu era criança sobre essa lagoa. Ele dizia que aquele era o lugar onde muitas das pessoas antigas da cidade simplesmente pereciam voluntariamente, ou até desapareciam completamente da face da Terra por razões inexplicáveis. Ele também me disse que havia uma criatura rondando aquelas áreas durante a noite. Chegou até a me dizer que existia uma casa de fazenda naquela região em que toda a família simplesmente sumiu da face da Terra, nunca mais sendo vista.

Agora, as histórias que meu avô me contava eram ou apenas fofocas que viraram folclore e lenda local, ou puro absurdo. Mas a história daquela casa, no entanto, me intrigava. Eu sempre quis saber o que realmente aconteceu, embora nunca tenha recebido resposta, porque meu avô insistia que eu não deveria descobrir exatamente o que aconteceu naquele lugar. A única coisa que ele me contou foi que a família morou lá há muito tempo, depois fez alguma coisa, e isso levou ao desaparecimento deles. Isso, porém, mudou quando meu amigo Josh me contou a história completa durante nosso encontro de fim de semana nas margens da lagoa.

A história basicamente é mais ou menos assim. Havia uma casa de fazenda ao norte da lagoa chamada “Labileau Estate”. Era a casa da família Labileau, uma família de soldados confederados ferrenhos na Virgínia, que acabou se exilando perto do fim da Guerra Civil Americana, depois que a União ordenou que os confederados se rendessem. A família saiu correndo para o norte, até chegar aqui na nossa pequena cidade em Ontário, onde decidiu se tornar uma família de fazendeiros que servia à comunidade por volta de 1865. Na época, as pessoas não sabiam dessa história da família até começarem a perguntar sobre sua origem, o que revelou seu passado.

Na época em que viveram ali, o povo meio que recebeu os confederados com desconfiança, porque achavam que eles estavam trazendo para o Canadá os ideais do sul dos Estados Unidos, ou pensavam que eles iam arrumar confusão por estarem do lado dos belicistas, como se dizia. Mas, com o tempo, começaram a simpatizar mais com eles, já que muita gente os via mais como um povo deslocado de casa por causa da guerra do que como um bando de escravistas — embora, claro, existam também verdadeiros apoiadores confederados que se exilaram no Canadá, mas isso é outra história completamente diferente.

Certa noite, porém, em 1872, os moradores da minha cidade viram a família sair da casa por algum motivo desconhecido e nunca mais voltar. No começo, parecia algo bem simples; talvez estivessem se mudando da casa e deixando a cidade para sempre. Mas, dias depois do desaparecimento repentino deles, a casa foi queimada até virar cinzas, deixando não só a própria construção em carvão queimado, mas até o ambiente ao redor também carbonizado. Basicamente, essa é a história da família Labileau, embora as circunstâncias antes da destruição da casa tenham sido, para dizer o mínimo, bem estranhas.

Josh então me contou outra parte da história envolvendo isso. Durante a noite de agosto, os moradores da cidade ouviram do chefe da vila que a família estava realizando algum tipo de atividade que muitos não conseguiram ver direito. O chefe, claro, encarregou os vigias de visitar a família, checar como estavam e ver o que estavam fazendo. Aqueles caras, de fato, não voltaram para dar notícia. O chefe ficou imediatamente preocupado de que os vigias que enviou até lá estivessem em sérios apuros e logo começou a chamar alguns homens e partiu em direção à casa.

Só que a jornada dele foi abruptamente interrompida, porque, antes de o chefe sair da cidade, ele viu um dos seus vigias, que estava desaparecido, finalmente retornar, embora sua condição física não estivesse exatamente nada boa. Havia ferimentos por todo o rosto, pelos braços e até pelo corpo. O vigia implorou ao chefe que eles não fossem até a casa. Ele afirmou que a casa estava “amaldiçoada” e que o resto dos colegas havia sido morto durante a entrada inicial. Ele também disse que a família não era o que parecia ser e que jamais deveriam se aproximar da casa.

O chefe ouviu o vigia e cancelou a visita, mas não antes de contratar um investigador privado para ver se ele conseguiria entrar em contato com a família. Ele atravessou a lagoa e acabou encontrando o caminho até a casa da família. No fim, porém, o investigador nem sequer teve chance de conversar com os moradores da casa, pois ficou chocado quando chegou lá e tudo o que encontrou foi a casa queimada até virar cinzas — mas como?

Quando o investigador contou ao chefe que a casa não passava de carvão de madeira queimado, com a única característica reconhecível sendo a estrutura e a fundação, ele ficou completamente perplexo. Os moradores da cidade nunca viram fogo algum; se é que viram alguma coisa, viram aquela casa perfeitamente em pé dias antes, quando os vigias a visitaram pela primeira vez e também quando ela foi observada de um ponto de vigia em uma colina, um pouco fora da cidade. As árvores próximas também nunca pegaram fogo, porque isso teria se espalhado e os moradores acabariam sabendo que um incêndio florestal estava prestes a acontecer. A ideia de uma casa ter sido incendiada sem sequer causar danos extensos era estranha, para dizer o mínimo, quase beirando o sobrenatural. No fim, o chefe ficou apenas sem entender nada e, a essa altura, decidiu que o que quer que estivesse acontecendo no casarão estava definitivamente longe do normal, e disse aos moradores que jamais colocassem os pés naquele lugar de novo.

Claro, quando eu era criança e ouvi essa história do meu avô e depois do Josh, achei que era a história mais assombrosa que eu já tinha ouvido na vida, talvez a coisa mais insana que eu tivesse escutado em muito tempo. A ideia de que uma família inteira desapareceu e a casa deles foi incendiada sem que ninguém soubesse, e sem danificar a área ao redor, era algo que me fascinava desde então. Eu sempre quis ver aquele lugar e descobrir se a casa ainda estava de pé. Meu avô se opunha à ideia, porque a área ao redor daquele lugar hoje em dia é tomada por vegetação densa e, durante o inverno, fica praticamente enterrada na neve. Ele também me disse que o lugar é amaldiçoado. Ou seja, em essência, eu jamais iria até lá sozinho — mas eu fui.

Um dia, durante o verão, eu perguntei ao Josh se a gente não deveria fazer uma visita a esse suposto local assombrado do outro lado da lagoa. Josh, claro, descartou a ideia de imediato. Ele me disse que visitar aquela casa seria uma perda de tempo, já que ela foi queimada, então não haveria nada realmente para explorarmos ali além de carvão queimado cobrindo o lugar, ou talvez apenas um grande terreno aberto, cheio de vegetação no lugar do casarão. Insisti que deveríamos ir verificar mesmo assim, porque argumentei que talvez pudéssemos ver fantasmas ou algo do tipo naquela casa. Josh concordou relutantemente depois que mencionei a possibilidade de vermos fantasmas, já que ele estava mais interessado nisso.

Durante uma tarde nublada, começamos nossa jornada até aquela casa. A estrada que leva até lá ainda é uma estrada de terra que atravessa a área de mata fechada onde moramos. Ela também contorna a Ridgerock Lagoon, acompanhando o grande corpo d’água como ponto de interesse para moradores e trilheiros que seguem pela floresta, mais ao norte da cidade. A estrada continuou até que nos vimos em uma parte da mata que era completamente desconhecida para nós.

A estrada começou a ficar cada vez mais fechada pela vegetação. O caminho por onde andávamos estava se transformando cada vez mais em uma passagem estreita, com tantos sulcos e buracos que mal conseguíamos andar em linha reta. A vida selvagem, como cervos, pequenos animais e pássaros, eram as únicas coisas que ouvíamos durante a nossa jornada, lá no fundo da mata. Dito isso, esse é o tipo de lugar onde você pode se perder rapidamente no instante em que sai da trilha.

Continuamos a jornada até finalmente vermos cercas baixas de madeira, sinalizando que estávamos perto da propriedade da casa que eu queria visitar. Pulamos a cerca e começamos a seguir em direção ao coração da propriedade, o que fizemos… E a casa está aqui?

No momento em que vimos a casa pessoalmente, ela estava completamente intacta. A casa que as pessoas diziam ter sido queimada até o chão ainda estava ali, erguida no meio da floresta, com a lagoa aparecendo entre as árvores ao fundo. Era como se nada tivesse acontecido durante todo o tempo em que estivemos ali.

A casa em questão é uma construção de dois andares, com a fachada frontal branca. Tem uma varanda bastante modesta, com apenas uma cadeira e uma mesa ao lado da porta. As janelas da frente pareciam completamente intactas, sem vidro quebrado ou mesmo um buraco aberto. A própria porta da frente parecia estar em estado impecável, quase como se alguém tivesse morado ali o tempo todo.

O fato de essa casa ainda estar ali, completamente intacta, não fazia sentido algum. Como podiam dizer naquela época que a casa tinha sido queimada até o chão, e no entanto ela está aqui, ainda de pé, como se nada tivesse acontecido? Como podiam me dizer que a casa estava completamente abandonada, mas ela ainda está ali em condições impecáveis?

Naquele ponto, Josh, com a mão no meu braço, me disse que devíamos ir embora, ou então acabaríamos irritando as pessoas que estavam ali dentro. Argumentei que não podia haver ninguém naquela casa, já que o lugar parecia silencioso, e disse a ele que deveria haver pessoas do lado de fora. Josh insistiu que devíamos ir embora e ainda me avisou que me deixaria ali na floresta. Claro, achei bem idiota ele dizer que voltaria sozinho para a cidade, e ainda por cima pela mata, e mandei ele ficar por perto. Josh acabou concordando e decidiu ficar relutantemente.

Resolvemos nos aproximar devagar da porta e verificar se havia alguém na casa. Começamos batendo na porta da frente; com certeza havia alguém ali dentro que poderia responder a uma simples batida… Nenhuma resposta. Bati mais uma vez e, de novo, ninguém respondeu às minhas batidas. Então decidimos espiar pela janela e ver se havia alguém dentro da casa — não vimos ninguém lá dentro, além de luz entrando por outra janela, visível do outro lado da casa. Voltei até a porta da frente e, dessa vez, girei a maçaneta para ver se estava trancada. Para nossa surpresa, estava destrancada, porque a maçaneta girou por completo e a porta começou a se abrir lentamente, como se houvesse algo nos esperando lá dentro.

À medida que a porta se abria devagar, começamos a espiar do lado de fora e, por fim, entramos na casa. Vimos um corredor bem iluminado e uma escada de frente para a porta de entrada da casa. Logo à frente havia uma janela aberta com luz do sol atravessando, iluminando o corredor escuro da casa. Na área imediata da casa havia 2 cômodos: uma sala de estar e uma cozinha com mesa de jantar.

Começamos a andar pela sala de estar. Nesse espaço grande havia um sofá e uma mesa. Do outro lado havia uma lareira completamente apagada. Na extremidade mais distante da sala havia um armário, e em cima dele estava algum tipo de banner. O banner era roxo, pendurado acima da lareira. Dentro dele havia um círculo preto cercado por um anel dourado. Eu nunca tinha visto esse símbolo antes; na verdade, nunca tinha ouvido falar de nada que se parecesse com aquele banner também. Josh supôs que fosse algum tipo de logotipo que só americanos conheciam ou algo assim, mas quem sabe.

Josh começou a vasculhar os armários e verificar o que havia lá dentro. A maior parte do que estava ali era lixo, nada que servisse para qualquer coisa. Mas então encontramos um tipo de diário; o livro, porém, já estava coberto de poeira e as páginas começavam a mostrar a idade que tinham. Josh abriu o diário e começou a ler as páginas uma por uma.

“Quem é Mãe?”, Josh se perguntou.

“Não sei, cara. Talvez seja a avó de alguém, ou a mãe de alguém, ou algo assim”, eu disse ao Josh.

Josh virou as páginas do diário e continuou lendo.

“Essa pessoa com certeza fala muito dela, eu diria”, brincou Josh.

Olhei de relance para o diário desse cara e ele estava certo. Nas primeiras 20 páginas do diário, esse homem mencionava essa “Mãe” pelo menos 2 ou 3 vezes em uma única página. Nós realmente lemos o que estava escrito e me lembro de como ele falava sobre adorar essa Mãe e de como, no mês de agosto, começaria algo chamado ritual da “Nightfall”.

“Esse cara é maluco”, disparou Josh.

“Eu sei, o que diabos esse sujeito está falando?”, brinquei.

No fim, ler aquilo naquele momento não seria suficiente para absorver tudo naquele diário. Decidimos ficar com o diário porque achamos que ninguém ia tocar naquela coisa de qualquer jeito e, se o dono voltasse, bem, azar o dele por deixar a porta destrancada quando saiu.

Seguimos então para a cozinha. Não havia nada de notável naquele lugar, além de a cozinha estar tão impecável quanto o resto da casa. A bancada estava praticamente intocada desde a partida dos donos, pelo visto. A mesa de jantar também estava vazia, exceto por um único vaso de rosas colocado no centro da mesa, e elas pareciam não estar ali havia muito tempo. Era uma cozinha comum, dessas que você veria em qualquer casa.

Voltamos para o corredor e seguimos em direção à porta dos fundos da casa. Atrás do vidro que levava diretamente a uma varanda havia o quintal da casa. Esse certamente estava intocado há sabe-se lá quanto tempo, porque a grama no quintal estava quase na altura dos joelhos e completamente sem aparar há sabe Deus quanto tempo. Considerando o inverno aqui no Canadá, presumimos que isso significava que a neve ali estava completamente acumulada e que, quando o verão chegasse, a grama ficaria tão alta quanto nossos joelhos.

Então voltamos nossa atenção para a escada que levava aos andares superiores da casa. Josh, mais uma vez, insistiu que devíamos ir embora porque disse que a casa estava lhe dando arrepio. No entanto, minha curiosidade estava no auge, e minha ignorância estava falando mais alto. Insisti que deveríamos continuar explorando a casa, mas prometi que iríamos embora assim que víssemos tudo o que aquele lugar tinha a oferecer. Josh só soltou um resmungo irritado, e continuamos.

Por fim, começamos a subir e alcançamos o segundo andar do lugar. A partir do topo da escada, encontramos 4 cômodos, todos com as portas escancaradas para podermos ver do corredor. O cômodo mais próximo de nós, à direita, levava ao pequeno banheiro, que continha o banheiro comum, a pia e uma combinação de chuveiro e banheira. As cortinas que cobriam o chuveiro, no entanto, estavam caídas no chão, revelando marcas estranhas e pretas correndo diretamente pela parede azulejada do cômodo.

À nossa frente havia um pequeno quarto, contendo apenas 2 colchões pequenos deitados no chão. Ao lado deles havia uma pequena cômoda e, por fim, um pequeno armário ficava do outro lado do cômodo. Os outros 2 quartos eram basicamente a mesma coisa, embora a diferença estivesse no tamanho dos cômodos e no que havia dentro deles. A maioria dos quartos menores não tinha nada de interessante.

O que talvez seja o cômodo mais notável dessa casa é o terceiro quarto, o quarto principal. Embora o cômodo estivesse cheio das comodidades habituais, algo chamou nossa atenção durante a exploração. Do outro lado do quarto havia o que parecia ser um grande banner pendurado acima da cama e, no chão logo abaixo dele, havia um símbolo que lembrava um pequeno T estilizado, e ao lado dele havia textos escritos em uma língua desconhecida. Ao lado disso havia uma pequena sacola cheia de uma substância desconhecida que eu jamais tocaria, e um crânio — sim, um crânio de verdade — embora esse estivesse bem impecável, quase como se tivesse sido lavado recentemente. A maior parte dos móveis estava afastada para que houvesse espaço para qualquer coisa que fosse aquilo.

Ficamos os dois confusos ao ver tudo aquilo no chão. Os dois perguntamos qual exatamente era o propósito daquele sigilo no chão. Josh, a princípio, pensou que fosse algum tipo de ritual demoníaco acontecendo ali, julgando pela parafernália espalhada. Eu descartei a ideia porque nunca tinha visto um símbolo demoníaco que se parecesse com aquilo, e eles certamente usavam pentagramas muito mais do que sigilos. Então ele supôs que aquilo fosse algum tipo de ritual que fazia parte de um ritual maior. Eu também levantei essa possibilidade. Talvez fosse um ritual que provavelmente estivesse conectado a um maior, embora a aparente incompletude e o quarto impecável me dissessem que eles nunca chegaram a fazer nada, ou talvez aquilo tivesse sido interrompido, assim como as portas deixadas escancaradas.

“O que você acha que é isso?”, perguntou Josh.

“Não faço ideia. Talvez fosse algum tipo de etapa, ou algo assim?”, sugeri.

Continuamos andando por esse quarto principal. Percebemos que o armário à esquerda da cama estava vazio, exceto por uma peça de roupa — um robe de casa. Decidi investigar um pouco mais aquele armário e verificar cada canto e fresta da coisa — nada. Josh, por sua vez, resolveu vasculhar os armários. Ele encontrou algumas fotos, mostrando principalmente a imagem da família. Uma das fotos parecia trazer uma caligrafia, indicando a data da imagem: 1832.

“Com que idade você acha que esses caras estavam quando chegaram aqui?”, perguntou Josh.

“Talvez na idade dos nossos pais, ou algo assim”, respondi.

“Isso quer dizer que eles deveriam estar, tipo, na idade de avô naquela época quando chegaram aqui”, afirmou Josh.

Olhei de novo para a imagem e imediatamente percebi algo em que nunca tinha pensado antes — eu não fazia ideia de quantos anos esses caras tinham. A imagem tinha aquelas datas escritas, e a família se mudou exatos 30 anos depois. A menos que a família que vimos fosse os filhos dessas pessoas, então talvez fossem eles, mas a maioria das fotos que vimos até agora retratava esse homem e essa mulher como as pessoas daquele lugar. A essa altura, minha cabeça doía só de pensar nas implicações disso.

Decidimos seguir em frente a partir desse quarto e, finalmente, começamos a ir até a porta final que levava ao sótão da casa. O cômodo dá para uma escada íngreme que começou lentamente a ser coberta pela escuridão à medida que subia. Caminhamos em direção à escada e vimos que ela levava a uma porta fechada, sem nenhuma luz passando por trás dela. Josh, pela terceira vez, insistiu que devíamos sair da casa de uma vez por todas. Mais uma vez, eu disse que deveríamos verificar esse último cômodo antes de irmos embora — mas então ouvimos um barulho.

Um baque fraco veio de trás da porta do sótão. Ficamos em silêncio enquanto ouvíamos o que estava fazendo aquele som. O ruído começou a se afastar da porta e agora estava parado em cima de nós. Isso aconteceu por um breve momento antes de o barulho seguir para o outro lado do cômodo, terminando acima do quarto principal.

“Temos que ir”, insistiu Josh.

Parece que a voz de Josh fez quem quer que estivesse lá em cima voltar correndo para a porta fechada do sótão, produzindo passos rápidos no caminho. A porta então começou a girar lentamente. Aí foi a hora em que deveríamos sair da casa.

Começamos a correr de volta para o térreo e seguimos direto para a porta. Pulamos para fora da casa e começamos a fugir de volta por onde viemos. O que antes era uma floresta silenciosa agora estava ainda mais silenciosa, a ponto de podermos ouvir nossa própria respiração com muito mais clareza do que esperávamos. O som de passos agora estava diretamente atrás de nós. Conseguíamos ouvir aquilo aparentemente se aproximando cada vez mais à medida que continuávamos a correr.

Eu não queria olhar para trás, não queria saber quem ou o que estava nos perseguindo pela mata. Josh, porém, olhou para trás e seus olhos se arregalaram ainda mais ao ver o que vinha atrás de nós.

“NÃO PARA DE CORRER!”, gritou Josh para mim, em tom desesperado.

A adrenalina no nosso corpo nos manteve correndo, contornando a lagoa em tempo recorde até finalmente alcançarmos a vila. Antes que percebêssemos, os passos atrás de nós finalmente cessaram pouco antes de chegarmos à primeira casa que vimos na vila. Foi naquele momento que finalmente paramos de correr. Josh literalmente desabou no chão de terra, ofegando o máximo que podia.

“O que diabos foi aquilo?”, perguntou Josh, me olhando com o medo estampado nos olhos.

“Não sei. Eu não vi”, respondi.

“Era como uma mancha se movendo na nossa direção. Eu nem sei no que estou olhando”, ele disse.

Antes mesmo que eu pudesse fazer outra pergunta, um dos moradores — um cara chamado Ritchie, dono de uma pequena padaria na cidade — nos viu e começou a correr em nossa direção.

“O que aconteceu com vocês?”, perguntou Ritchie para mim.

Dissemos a Ritchie, de início, que estávamos fazendo uma caminhada na mata com Josh. No entanto, Ritchie percebeu que estávamos com medo de alguma coisa, como se tivéssemos visto um fantasma no meio da floresta.

“Vocês foram até aquele lugar?”, ele perguntou de forma conspiratória.

“Que lugar?”, Josh gaguejou, fingindo inocência.

“Você sabe do que eu estou falando”, retrucou Ritchie.

Ficamos em silêncio. Deveríamos admitir que visitamos a casa sozinhos? Deveríamos contar o que vimos lá? Ou deveríamos continuar fingindo que não existe absolutamente nada naquela mata? De qualquer forma, encontramos algo que não deveríamos jamais ter perturbado lá, e eu e Josh decidimos que aquela era a melhor decisão… ficar em silêncio.

Ritchie já sabia a resposta pelo nosso silêncio. Como muitos moradores da cidade, ele sabia que havia algo errado com aquele lugar. Talvez algumas das pessoas daqui até tenham ido lá uma vez para verificar se aquilo realmente tinha acontecido. Imagino que algumas tenham ido e decidido guardar isso para si, ficando em silêncio sobre toda a história.

Mas nós decidimos que queríamos saber o que estava acontecendo naquela casa e também responder às perguntas que vinham atormentando nossas mentes desde que chegamos lá. O que quer que estivesse naquele lugar tinha algum tipo de explicação que poderia, de fato, ser respondida objetivamente. Josh conseguiu ficar com o diário que encontramos na casa. Durante nosso tempo livre, começamos a ler o que havia no diário, e o que encontramos foi bem perturbador.

Josh conseguiu chegar às primeiras páginas do diário. As primeiras páginas são bem mundanas, nada que gritasse que eles estavam fazendo algo errado. Só nas páginas seguintes é que conseguimos ver o que estava se desenrolando diante dos nossos olhos.

Na 20ª página do diário é onde tudo começa a ficar mais esotérico ou, como Josh disse: “Parece que esses caras estão virando lunáticos ainda piores”. Nessas páginas havia uma combinação de símbolos que vimos pela casa, os mesmos textos estranhos que não conseguíamos ler de jeito nenhum, mas também vimos símbolos que eu desconhecia completamente. O motivo do círculo preto com anel dourado ainda estava ali, mas, ao mesmo tempo, havia esse símbolo de algum tipo de tridente, só que os pontos eram incrivelmente elaborados; na verdade, elaborados demais para alguém simplesmente desenhar aquilo numa folha de papel, a menos que fosse algum tipo de carimbo. Depois, o texto estava em uma língua que eu mal conseguia ler.

As páginas seguintes estavam cheias de registros, embora esses registros fossem principalmente formados por palavras-código como “Wood”, “Chosen”, “Winter”. Sinceramente, não faço ideia de como isso se conecta a qualquer coisa, além de talvez serem os nomes pelos quais esses caras chamam alguém ou alguma coisa.

Continuamos vasculhando o diário. Encontramos fotos presas ao papel fino dele. As imagens retratavam principalmente uma família e pessoas ocasionais sem nome espalhadas pela primeira página. Uma em particular era única, pois mostrava a imagem de uma família vestindo o que, para mim, pareciam robes. Esses robes, em especial, não se pareciam em nada com os robes que já vi antes. Eles tinham costuras, tramas e detalhes realmente elaborados, e até pareciam ter partes recortadas para revelar pequenos pedaços de pele.

“Essa deve ser a roupa que eles usam”, disse Josh.

Continuamos avançando por todas as páginas do diário e vimos mais umas 20 páginas ou algo assim praticamente só de texto, texto que eu nem finjo entender. O texto vinha novamente acompanhado por um monte de símbolos que eram praticamente consistentes com o que vi naquele lugar. Então a página em que vi esse marcador preto na lateral foi interessante, e essa é melhor descrita pelo Josh.

“Uau, olha essa aqui. Isso parece um grupo ou alguma coisa. É quase como se os Labileau tivessem algo com eles ou sei lá”, disse ele.

Ele estava certo. A imagem naquela página marcada é uma grande fotografia que ocupa a página inteira, e mostra um grupo de pessoas posando para uma espécie de comemoração. Da esquerda para a direita, todos usam os mesmos robes dos Labileau; aqueles caras que vimos estavam parados no centro da frente da imagem, então não há como confundir a presença dos Labileau.

O restante das páginas está vazio, o que nos diz que eles de fato não catalogaram nada depois disso, embora, na última página, houvesse um bloco inteiro de texto ocupando a página inteira. Desta vez, porém, escreveram tudo em inglês… e parecia ter sido escrito com caneta, e não com tinta e pena, como os antigos usavam, já que era tinta azul.

“Está feito, minha senhora. Sua vontade agora faz parte da mensagem dos recém-chegados. O mundo logo tremerá com a força combinada dos seus filhos. Eu gerei 5 filhos para então serem levados a diferentes locais dos quais temos conhecimento. Lá, nossos filhos estarão para construir para você um templo muito maior, e muito mais grandioso, do que aquele que construímos em New England. Obrigado por me escolher.”

Abaixo disso havia outro logotipo do culto que eles adoravam e, por fim, um título: “Igreja de Avon”.

O que quer que eu tenha acabado de ler ali, isso era apenas o começo do que os Labileau estavam construindo naquele lugar.

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